La Petite Mort
13 Possuir e pertencer
Notas iniciais
Hermione não conseguia conter o discreto e satisfeito sorriso que ocupava seus lábios. Graças a ele, a jovem advogada parecia muito mais leve e muito mais tranqüila em comparação ao estado em que se encontrava antes de tomar aquela decisão corajosa, motivada pelos excelentes conselhos de Harry.
As conseqüências de sua decisão e, principalmente, de sua entrega estavam impressas em sua alma e em seu estado emocional, mas diferentemente do que Hermione imaginara, nada mudara drasticamente desde que se submetera aos sentimentos incontroláveis dentro de seu peito. Pelo contrário, a cada minuto que passava, sentia-se ainda mais certa e mais orgulhosa de sua coragem.
Em algum momento, ela teria que recomeçar e Fleur parecia disposta a lhe fazer recomeçar da forma certa. Hermione enxergava na francesa não somente a chance de voltar a uma relação... Mas a oportunidade de voltar a amar. Estava a meio caminho disso, sabia muito bem que sua paixão por ela já se aprofundara e começar a amar era só uma questão de tempo.
A morena enfrentou os cortantes ventos litorâneos do outono e subiu os degraus de pedra, da entrada do Shell Cottage, aos pulinhos. Antes de colocar a chave na fechadura da porta, Hermione riu de seu ar bobo e apaixonado. Escutou e sentiu, no silêncio do litoral, os próprios batimentos cardíacos que quase arrebentavam seu peito, tamanho era o sentimento que ocupava seu coração.
E então, ela respirou fundo e girou a chave na fechadura da porta. Deu um passo a frente, sendo invadida pelo calor confortável da calefação antes de fechar a porta atrás de si. Hermione retirou o cachecol e o pesado casaco, os quais estavam impregnados pelo cheiro familiar de lavanda. A morena o aspirou profundamente e fechou os olhos, ainda sorrindo.
Um pigarro e uma rouca risada a fizeram abrir os olhos, Hermione virou-se em direção aos sons e encontrou Harry olhando para ela com os olhos verdes brilhantes e uma expressão satisfeita. Imediatamente, Hermione corou e seu amigo, atento, perguntou brincalhão:
– Viu algum passarinho verde, francês e de olhos azuis incrivelmente belos?
– Acho que não preciso lhe responder, Potter. — Hermione respondeu chateada, tentando esconder sua vergonha, mas sem sucesso algum. Harry riu ainda mais de sua atitude e aproximou-se, envolvendo-a em um abraço apertado. A morena acabou cedendo ao carinho do amigo e retribuiu, rindo, em seguida. Harry bagunçou ainda mais os cabelos castanhos revoltos da amiga e perguntou malicioso:
– Eu vou querer saber dos detalhes sórdidos?
– Não existem detalhes sórdidos, pervertido! — Hermione ruborizou ainda mais e indignou-se com as suposições do amigo, ela o empurrou para o lado e caminhou até a cozinha. Harry a chamou, mas ela o ignorou e continuou a sua caminhada, realmente precisava de um bom chá para dormir.
Entretanto, assim que chegou à cozinha, encontrou os motivos dos insistentes chamados de Harry. No meio da cozinha, em frente a pia, estava Cho Chang. A asiática engoliu em seco quando se virou e encontrou Hermione observando-a de forma desconfiada. A morena já ouvira o amigo falar dela, mas não acreditava que os dois iam muito longe, ainda mais levando em conta a paixão de Harry por Gina.
Por isso, Hermione olhou de Harry para Cho. Ambos estavam envergonhados, Cho tentava cobrir-se, mas a camisa de Harry deixava suas pernas à mostra e o próprio Harry cobria o rosto com as mãos. A morena pigarreou e, sarcástica, perguntou:
– E eu? Vou querer saber dos detalhes sórdidos?
– Ahm... — Cho balbuciou, insegura, olhando para Harry à procura de apoio. Porém, o moreno dedicava-se a arrepiar ainda mais os cabelos enquanto evitava olhar para ela ou para a melhor amiga. Cho, respirando fundo e aproximando-se de Hermione, estendeu a mão trêmula. — Prazer, Cho Chang.
– Ah claro, já ouvi falar muito de você! — Hermione cumprimentou com um sorriso, Harry grunhiu as suas costas e jogou-se na cadeira, escondendo o rosto nas próprias mãos. Cho retribuiu o cumprimento, parecendo mais à vontade. Hermione deduziu que ela, querendo ou não, era melhor que Gina Weasley e suas explosões emocionais. — Prazer, Hermione Granger, melhor amiga e protetora deste mal educado ali atrás.
Cho riu diante das palavras de Hermione e olhou por cima do ombro dela, Harry tinha tirado as mãos do rosto e olhava embaraçado para as duas. O rapaz ficou em pé e retirou o casaco, oferecendo-o a Cho que o vestiu, melhorando a situação de suas roupas. Harry sorriu desconcertado e disse:
– Não queria que tivessem se conhecido dessa forma, eu não achei que você fosse voltar hoje para casa.
– Eu e Cho já nos conhecemos, ela trabalha no “La Petite Mort”, esqueceu? — Hermione respondeu atrevida, sorrindo para Harry que revirou os olhos para ela e a ignorou. — Falando nisso, daqui três dias, vou para Londres resolver todo aquele rolo com Astoria e aquela pessoa vai comigo.
– Nossa! Vejo que a situação está mais séria do que eu pensava! — Harry comentou em tom gozador, sendo a vez de Hermione revirar os olhos enquanto Cho observava atenta a interação dos dois.
A morena foi até o fogão e colocou a chaleira com água para esquentar, depois, foi aos armários e apanhou a xícara e o chá. Harry beijou a têmpora de Cho e disse:
– Bem, está tarde e nós vamos dormir. Boa noite, Mione.
– Boa noite. — Hermione retribuiu enquanto apanhava a chaleira e despejava a água quente na xícara. Entretanto, antes que os dois pudessem ir se deitar, ela sorriu. — E espero que realmente durmam, porque eu também preciso descansar.
– Ninguém lhe mandou voltar para casa hoje à noite! — Harry retrucou entre as risadas para, logo depois, Hermione escutar um som de tapa, seguido de um xingamento. A morena, mantendo os olhos no chá que começava a fumegar, riu da felicidade do amigo.
Depois, escutou os passos na escada e o ranger da cama no andar de cima. No silêncio do chalé, Hermione realmente desejou não ter voltado para casa naquela noite.
A morena bebericou seu chá quente e desejou que Fleur pudesse, também, passar a noite com ela.
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A aparição repentina de Hermione no dinner fez com que Fleur perdesse um pouco da noção do tempo enquanto voltava para casa. Caminhou por mais tempo do que de costume, imersa e embriagada na aura de felicidade que instalara em seu interior, expulsando todas as suas dúvidas e incertezas prévias.
Fleur adorava o bater acelerado de seu coração, assim como amava os suspiros profundos que surgiam em sua respiração quando ela simplesmente lembrava-se de Hermione. Também não fazia objeção quando a sua razão resolvia se meter e nomear aquele sentimento que ela não tinha noção do que, de fato, era.
Amor.
Talvez fosse... Fleur nunca o conhecera a fundo para saber diferenciá-lo de qualquer outra coisa que conhecera. Aquele sentimento era inédito, aquelas sensações eram novas e era aquela aparência de exclusividade que lhe dava a certeza de que estava vivendo algo que nunca vivenciara antes. Algo tão intenso que a fazia perder-se dentro de si para, depois, encontrar-se em Hermione.
A francesa finalmente chegou aos portões de sua casa, atravessou o jardim e seus olhos vislumbraram a bicicleta de Cedric parcialmente escondida entre os arbustos. Fleur abriu a porta da frente e entrou de supetão, dando um elegante giro em torno do próprio corpo antes de pendurar o cachecol e o casaco no armário ao lado da porta de entrada.
Quando virou o corpo para o hall, encontrou Bill e Cedric observando-a com discretos sorrisos nos lábios. Fleur sentiu o calor ocupar o seu pescoço e seu rosto, ela não precisava dizer muita coisa porque os dois já haviam deduzido o que tinha acontecido. Foi Cedric quem a olhou e perguntou brincalhão:
– Acredito que a sua demora para chegar em casa não tem nada a ver com o dinner cheio ou com alguma dificuldade em fechar o caixa sem o Bill, certo?
– Não vou lhe dar o prazer dessa resposta, mas saiba que estou de viagem marcada para Londres, Cedric. — Fleur respondeu de forma orgulhosa, arrancando risadas dos dois. A francesa também riu ao passar por eles em direção às escadas, porém, antes de subir os degraus, voltou a olhar para os dois de forma questionadora.
Naquele momento, Bill conseguiu esconder muito bem o que acontecera naquele dia. Cedric também teve muito sucesso em sua tentativa de permanecer com um sorriso, pela felicidade de Fleur, ignorando a confusão toda entre Bill e a família Weasley. Fleur observou os dois por vários minutos e Bill permaneceu impassível, ele não achava justo preocupar Fleur quando ela, finalmente, voltara a sorrir.
– O que foi, Fleur? — Bill perguntou firme, não deixando que a tristeza transparecesse, o mínimo que fosse, em sua voz. Fleur o conhecia melhor do que ninguém, até mais que Cedric e seria capaz de compreender que ele escondia algo se ele lhe desse alguma abertura. A francesa arqueou a sobrancelha e, preocupada, perguntou:
– Aconteceu alguma coisa para você não ter ido trabalhar?
– Ele passou mal e me pediu para ficar com ele durante o dia. Não foi nada demais, Fleur... — Cedric respondeu por Bill, assim que notou o lábio inferior trêmulo do companheiro e percebeu que o ruivo estava prestes a colocar tudo a perder. O moreno abraçou Bill pelos ombros e sorriu encorajador para ele que logo retribuiu. Fleur os observou, ainda desconfiada, para enfim, declarar:
– Eu não acreditei em nenhuma palavra dos dois, mas a sorte de vocês é que eu estou muito cansada para discutir. Bonne nuit.
Bill e Cedric suspiraram aliviados quando viram que ela subira as escadas. Assim que o ruivo escutou a movimentação no quarto de sua futura ex mulher, ele virou-se para Cedric e, levemente desesperado, confessou:
– Eu não sei até quando vou conseguir esconder o que aconteceu. Mesmo sabendo que ela não merece mais essa para se preocupar.
– Não pense nisso agora, Bill... Nós dois vamos ter muito o que nos preocupar nos próximos dias, esse provável conflito com Fleur vai ser o menor dos nossos problemas. — Cedric bronqueou de forma delicada, beijando levemente os lábios do companheiro antes de abraçá-lo apertado.
Bill afundou-se nos braços de Cedric e procurou não pensar na injustiça que estava cometendo em relação a Fleur.
No andar superior, a felicidade de Fleur estava levemente nublada pelo vazio que ela enxergara nos olhos de Bill... Confiando no companheiro, Fleur ignorou a preocupação que se instalara em seu interior e procurou concentrar-se na verdade inabalável que a atingira naquela noite.
Hermione era sua e a queria por perto. E Fleur percebeu que, querendo ou não, aquilo era o que mais importava, para ela, naquele momento.
A francesa adormeceu com um sorriso nos lábios enquanto, no andar debaixo, seu futuro ex marido derramava lágrimas silenciosas, perguntando-se se já havia perdido sua família apenas por admitir quem, de fato, era.
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Os dias até a viagem para Londres passaram mais rápido do que o esperado. Bill tornara-se mais sutil em sua mentira e Fleur quase acreditava que realmente estava tudo bem. Hermione estava ansiosa e quase enlouquecendo Harry, mas não voltara atrás em sua decisão: precisava de Fleur para enfrentar Astoria e não tinha vergonha de admitir isso.
Portanto, no horário do almoço do último final de semana do mês, Fleur encontrava-se na cozinha do “La Petite Mort”, terminando de preparar seus últimos pratos dos próximos sete dias em que ficaria em Londres com Hermione.
Desde o começo do expediente, o sorriso leve brincava nos lábios cheios da francesa. Fleur estava exalando felicidade e não estava fazendo o mínimo esforço para conter a explosão quente dentro do seu peito. Seus lábios assoviavam uma música que ela não percebia, suas mãos percorriam as panelas, semeando aromas e gostos inesquecíveis enquanto seus pés passavam pela cozinha, dançando naquele ambiente acolhedor e no qual ela sentia-se em casa.
Não era demais dizer que Fleur nunca se sentia daquela forma. A sensação nova que tinha origem em seu peito e propagava-se através de suas veias injetava intensidade e vivacidade em cada pedaço de seu corpo. Também não era exagero dizer que ela estava ainda mais linda, quase uma visão etérea de Afrodite.
Fleur terminava de raspar as cascas de limão e as despejava, delicadamente, sobre a torta já pronta. O cheiro estava tentador e a própria francesa se reprimira quando sua gula quase falou mais alto e ela furtou um pouco do creme para si. Com os últimos ajustes no prato, Fleur levou a torta para o balcão de madeira e tocou a campainha, segundos depois, Cedric aproximou-se e piscou para ela antes de levar o prato em uma bandeja.
A chefe, por sua vez, voltou para o interior de sua cozinha e retirou a bandana, libertando os cabelos loiros compridos. As mãos pálidas percorreram a cintura e as costas, estavam prestes a desfazer o laço do dólmã quando as mãos de Fleur encontraram outro par de mãos e não o tecido da vestimenta. A francesa sorriu quando reconheceu as mãos delicadas e femininas, deixou o corpo relaxar e sentiu um beijo em sua nuca, seguido do cumprimento:
– Perdão, mas Bill disse que aquele foi seu último prato de hoje.
– E ele está certo, você não podia ter chego em hora melhor, mon cher. — Fleur cumprimentou sorridente, virando-se delicadamente no abraço e encontrando os olhos castanhos que tanto a hipnotizavam nos últimos dias.
Hermione usava um suéter preto e calças da mesma cor, nos pés usava um sapato tipo Oxford e no pescoço, aquele mesmo cachecol marrom que Fleur atualmente adorava. As duas se olharam por alguns segundos até que a francesa aproximou-se e afundou-se nos braços da morena. Fleur sentiu um beijo desajeitado em sua têmpora, Hermione remexeu-se e, próxima a sua orelha, perguntou:
– Está pronta?
– Só preciso retirar o dólmã e me despedir dos garotos... Menos de meia hora, prometo. — Fleur respondeu animada, afastando-se da morena e retirando o dólmã, ajeitando o moletom bege que usava. Enquanto ela fazia isso, Hermione ocupou-se de encostar a base das costas em uma bancada e contemplá-la. Em um determinado momento, entre as últimas coisas que Fleur guardava, os olhares de ambas encontraram-se.
Fleur piscou para Hermione e enviou um discreto beijo para a outra antes de sair da cozinha.
Bill e Cedric fechavam o caixa quando foram surpreendidos por uma Gina Weasley entrando de maneira tempestuosa no dinner. Fleur estacou na porta da cozinha enquanto observava Cedric posicionar em frente a Bill, de maneira protetora. Completamente confusa, a francesa caminhou em direção aos três, escutando Gina esbravejar:
– Quem você pensa que é?!
– Por favor, Gina... Não vamos discutir isso, de novo, agora. — Bill pediu de maneira educada, dando alguns passos para longe da irmã. Entretanto, a mesma empurrou Cedric para lado, de forma agressiva e puxou o irmão pelo braço, forçando a olhá-lo. Naquele momento, Fleur acelerou o passo e empurrou a ruiva para longe, ameaçando:
– Nem mais um passo ou eu jogo você para fora daqui!
– Você sabia, não é? — Gina perguntou estridente, a expressão dura de Fleur demonstrou sinais de confusão, mas a francesa não vacilou e permaneceu determinada em defender Bill. A ruiva sorriu de forma sarcástica e Hermione, atônita na porta da cozinha, resolveu se aproximar. — Claro que você sempre soube e, mesmo assim, casou-se com ele para herdar tudo que é nosso!
– O que ela está dizendo, Bill? — Fleur perguntou de forma fria, sem tirar os olhos felinos de Gina. Ela e a ruiva pareciam disparar projeteis através dos olhos furiosos, nenhuma das duas ia fraquejar. Bill olhou para Cedric em busca de apoio e o moreno, discretamente, acenou para que ele falasse. Bill respirou fundo e deu um passo à frente, interpondo-se entre as duas.
O ruivo segurou Fleur pelos braços e a puxou para longe, até Hermione. Bill ignorou os xingamentos da irmã mais nova e, com os olhos brilhando e o coração ensurdecendo seus pensamentos, disse frágil:
– Gina sabe sobre eu e Cedric, assim como minha mãe. E eu sinto muito que você saiba disso agora, quando ela fez o favor de vir aqui e lhe ofender.
– Mon Dieu! Quando isso aconteceu?! — Fleur tinha o tom de voz quebrado, mesclando-se com a cólera e a surpresa. A francesa olhou ferida para seu marido e melhor amigo, Bill não conseguiu sustentar a força do olhar dela e abaixou a cabeça, constrangido.
Ao fundo, Cedric segurava Gina que se debatia em seus braços. Fleur respirou fundo, a explosão dentro de si começava a minguar pelo vazio que se instalara em seu peito, como Bill escondera uma coisa daquelas? Aquilo mudava todo o panorama da situação dos dois, não apenas em relação ao futuro do dinner, mas também a vida dos dois no povoado... Bill não tinha o direito de permanecer calado, não diante de uma tempestade tão grande que se instalara em seu horizonte.
Fleur sentia que tinha falhado, ao mesmo tempo em que amargava, de certa forma, uma traição. A viagem para Londres tomara um segundo plano em sua mente porque, naquele momento, Bill precisava dela. A francesa, abruptamente, abraçou Bill que, sofregamente, envolveu-a em seus braços longos. Fleur percebeu que os xingamentos de Gina foram silenciados e, quando resolveu falar, foi interrompida pela voz baixa de Bill em seu ouvido:
– Eu sei o que está pensando, mas você não vai ficar aqui. Hermione precisa de você mais do que eu, eu tenho Cedric comigo e tenho certeza que ele não vai deixar nada acontecer comigo. O seu lugar não é em Ottery St. Catchpole e, por mais que você teime, você sabe muito bem que deve estar em Londres ainda nessa noite.
Fleur, naquele momento, percebeu que Bill abria mão deles para que ela encontrasse sua felicidade. E aquela sensação doce de liberdade contrastava com a acidez de ser separada daquele que, por muito tempo, fora seu porto seguro. Aquele era Bill mostrando a ela situações que, novamente, ela não conseguia enxergar. Naquele instante, Fleur precisava tomar uma decisão porque as duas pessoas que, ironicamente, amava, precisavam dela.
E Bill, da forma mais corajosa e inconseqüente possível, escolheu por ela quando mentiu. O ruivo, seu marido e melhor amigo, estava lhe provando, mais uma vez, que a conhecia mais do que ninguém.
Bill sabia que Fleur se privara de muito por causa dele e ele não deixaria que ela se privasse de algo como aquilo que vivia com Hermione. Fleur não percebia, mas ela precisava disso... Ela precisava viver de amor e não de companheirismo. Fleur precisava voltar a saborear todos os paladares de um grande amor e ela jamais seria capaz de prová-lo enquanto cuidasse dele.
Era a hora de Bill alçar vôo e Fleur encontrar um novo céu para voar, junto com Hermione...
Bill afastou-se de Fleur com aquele sorriso carinhoso, que parecia possuir toda a bondade do mundo. O ruivo estendeu a mão direita e limpou algumas lágrimas irracionais que Fleur não percebera derramar. Fleur beijou-lhe a palma da mão, emocionada e Bill, então, virou-se para Hermione e disse brincalhão:
– Estou entregando, para você, a melhor mulher do mundo. Espero que cuide bem dela, ela merece mais do que ninguém ser feliz.
Hermione também tinha os olhos castanhos brilhando, ela sorriu grandemente e acenou corajosa com a cabeça. Em seguida, Bill entregou a mão de Fleur a ela e Hermione a apanhou, depois, abraçou os ombros da francesa e a guiou para fora do dinner.
Fleur chorava discretamente quando escapuliu pelas portas do fundo com Hermione a acompanhando. Deixava, as suas costas, uma batalha sendo bravamente travada por Cedric e Bill. A sensação de vazio tornou-se ainda maior em seu peito, porém, quando a mão de Hermione envolveu a sua e a guiou até o carro, algo novo preencheu o vazio e Fleur sorriu, entre as lágrimas.
Bill estava sempre certo.
# # # # #
A viagem de pouco mais de duas horas, entre o povoado de Ottery St. Catchpole e Londres, foi feita em silêncio. Hermione dirigiu durante todo o trajeto e dividia-se entre prestar atenção na estrada e em uma Fleur que, vencida pelo cansaço e pelos extremos emocionais, adormecera durante todo o caminho.
As duas chegaram a Londres no começo da noite, sob uma garoa fina de outono. Hermione sorriu quando seus olhos encontraram o tráfego pesado da cidade e toda a movimentação do final de um dia de trabalho. Fleur remexeu quando algumas luzes da cidade escorregaram por sua fronte, mas ela não acordou. A morena, então, guiou o carro pelas ruas da cidade até chegar ao prédio que, anteriormente àquela viagem, ainda era a sua casa.
Hermione estacionou o carro junto à calçada e engatou o freio de mão. Um prédio de fachada moderna e espelhada estava em frente a elas, localizado em uma avenida movimentada no centro da cidade.
Fleur remexeu-se assim que o movimento do carro cessou, mas permaneceu entregue ao sono. A morena sorriu para o comportamento doce da francesa e, delicadamente, retirou algumas mechas loiras da fronte pálida. Hermione aproximou-se e beijou a bochecha de Fleur, a francesa encolheu-se e abriu um sorriso, ainda de olhos fechados, perguntou sonolenta:
– Chegamos?
– Sim e você é uma péssima companhia para a estrada, lembre-me de nunca chamá-la para viagens longas. — Hermione respondeu de forma brincalhona, Fleur reagiu e abriu os olhos azuis cerúleos, com uma expressão indignada no rosto. A loira ajeitou-se no banco e brincou com o cachecol de Hermione ao dizer, maliciosa:
– Mas eu recompenso de outras formas, espero.
– Claro que recompensa. Das melhores formas possíveis. — Hermione retrucou com um sorriso de lado, deixando suas intenções à mostra. Fleur revirou os olhos para o momento galante da morena antes de segurar-lhe o rosto com as duas mãos e puxá-la para um delicado beijo.
As duas separaram-se entre mordidas e Hermione saiu do carro, abrindo a porta do passageiro para Fleur. A loira tomou iniciativa e entrelaçou os dedos aos da morena. As duas apanharam suas bagagens no porta-malas e entraram juntas no prédio.
Ambas atravessaram uma porta giratória e chegaram ao saguão de entrada claro e bem iluminado, Fleur engoliu em seco enquanto olhava a sua volta, surpresa com a sensação de riqueza que o local passava.
Conforme caminhava, ambas eram bombardeadas pelo nervosismo. De um lado, Hermione com toda a sua insegurança a respeito de um reencontro com a sua ex, na companhia de sua atual. Do outro, Fleur com a sua surpresa e, de certa forma, seu temor em relação a ex de Hermione.
Porém, Hermione procurou permanecer intocável enquanto Fleur continuava abismada com o local. A morena caminhou decidida até o balcão em que se encontrava o vigia, Fleur foi praticamente arrastada por ela, mas manteve sua elegância tradicional, disfarçando bem a bomba relógio de sentimentos em seu corpo.
Hermione bateu na madeira do balcão, atraindo a atenção do vigia. Um jovem negro, de sorriso leve e expressão tranqüila desviou os olhos do jogo que passava na TV e, animado, perguntou:
– A que devo a honra da visita, Granger?
– Vim buscar algumas coisas no apartamento. — Hermione respondeu ofegante, denotando sua instabilidade emocional, discretamente, olhando para Fleur em busca de apoio. A loira, imediatamente, preencheu-se de coragem e envolveu a mão de Hermione com a sua, olhando para ela com um sorriso encorajador que não passou despercebido pelo vigia. Hermione soltou o ar que segurava e sorriu. — Ela está em casa?
– Ela saiu há mais de uma hora, não tem problema algum você subir. Você tem a chave, certo? — O vigia perguntou, recebendo um aceno de Hermione com a cabeça. Ele voltou a atenção para o jogo na pequena TV. — Bem, você sabe o caminho.
Hermione agradeceu e caminhou pelo corredor, até os elevadores. Assim que ela e Fleur sentiram a caixa de metal movimentar-se, Fleur escorou-se à parede em frente ao espelho e comentou descontraída:
– Acho que ele não é o maior fã da sua ex. Nem ao menos pestanejou quando você disse que ia subir.
– É que você ainda não sabe de toda história. Meio que acho que ela é a filha da mãe do enredo. — Hermione comentou sarcástica, um riso amargo brincando perigosamente em seus lábios, trazendo-lhe lembranças desagradáveis. Fleur desencostou-se abruptamente da parede e lançou-se em direção a morena, de forma violenta e possessiva. Hermione arregalou os olhos quando sentiu as mãos selvagens de Fleur apertando sua cintura, a francesa parou com os lábios próximos aos seus e sibilou irritadiça:
– Não precisa lembrar-se disso, sou eu que estou contigo agora. Ela faz parte do seu passado. Um passado incômodo e desagradável, mas que não deve influenciar em nada o seu futuro. Comigo.
Hermione foi pega de surpresa pelo súbito clamor de Fleur por sua posse. Porém, não ficou menos satisfeita e, no beijo que deram em seguida, procurou provar que não estragaria tudo. O beijo, feito de bocas, dentes e línguas, estava prestes a bater mais um nível carnal quando, enfim, o discreto apito agudo anunciou que o elevador havia parado na cobertura.
Fleur sorriu sedutora quando se separou de Hermione, olhando desejosa para os lábios inchados. A morena corou diante da intensidade do olhar da francesa e, praticamente, lançou-se para fora do elevador antes que pudesse começar algo que não pararia.
A advogada abriu a porta da frente com a própria chave, mas a retirou de seu chaveiro assim que pisou na sala. Fleur a seguiu calada pelos cômodos da cobertura, ricamente decorada de forma romântica. Pela experiência que Fleur possuía, era mais do que claro que a ex de Hermione vinha de uma família rica e tradicional.
Hermione apanhou uma caixa em um armário ao lado da porta e começou a pegar, a esmo, objetos pela cobertura. Ela terminara de encaixotar 3 volumes de livros quando parou, abruptamente. Fleur estava em pé ao lado dela e estranhou a reação, preocupada, a francesa perguntou:
– O que foi?
– Eu terei que ir ao nosso antigo quarto terminar de apanhar algumas coisas. — Hermione respondeu de forma estóica e sem olhar para Fleur. A francesa segurou o queixo da advogada de forma delicada, forçando o encontro dos olhos e, em seguida, beijou os lábios da morena de forma delicada e, próxima a eles, disse compreensiva:
– Pode ir, eu vou esperar você aqui.
Hermione levantou-se abruptamente e praticamente correu para o quarto, estava mais do que na cara que ela queria sair logo dali. Nesse meio tempo, Fleur percorreu os olhos pelos porta-retratos espalhados pela casa, surpresa, não encontrou foto alguma de Hermione. Franziu a testa para essa constatação e sentou-se no caro sofá de couro.
Já fazia dez minutos que Hermione fora ao quarto quando a porta da cobertura se abriu e uma voz, animada e convencida, proclamou:
– Eu sabia que você ia acabar voltando!
Em seguida, Fleur ficou em pé, no auge de sua elegância e majestade francesas, pronta para receber aquela que, aparentemente, era sua concorrente.
A outra mulher chegou a sala, vestida com um longo sobretudo que entregava o seu preço caro e contrastava com a simplicidade do moletom de lã de Fleur. Ela usava maquiagem leve e tinha os cabelos castanhos em cachos frouxos que escorriam até o meio de suas costas, usava uma bolsa cara em uma das mãos e tinha olhos amendoados que, no momento, chocavam-se violentamente com os olhos azuis de Fleur. Ela franziu a expressão e, em uma fúria gélida, perguntou:
– Quem é você?
Fleur apenas concedeu um sorriso irônico a ela, estava prestes a responder quando Hermione apareceu na sala com mais uma caixa cheia de seus pertences que estavam perdidos no quarto. A expressão da outra relaxou quando ela encontrou Hermione, a advogada, entretanto, pigarreou e respondeu fria:
– Já estou de saída, Astoria.
– Você não pode sair assim, nós duas precisamos conversar. — Astoria sentenciou firme, largando a bolsa sobre o sofá e abrindo os botões do sobretudo, revelando um vestido de grife e meias escuras, junto a um par de sapatos scarpin. Fleur não pode deixar de notar que ela era muito bonita, porém, aquele pensamento fez seu estômago revirar. — Você não pode ter vindo até aqui só para apanhar suas coisas. Se fosse isso, eu mesma as enviaria para você.
– Você está certa, eu não vim até aqui somente para apanhar minhas coisas. — Hermione contra-atacou com a expressão mesclando-se entre a dor e a fúria, Fleur permaneceu quieta, observando-a atentamente. A advogada estendeu a chave recém-tirada do chaveiro a Astoria que, orgulhosamente, não a apanhou. — Eu vim lhe entregar a chave da cobertura.
Astoria, após alguns segundos, estendeu a mão para apanhar a chave, porém, Fleur viu o sorriso malicioso que brotou nos lábios finos dela e se preparou. A outra puxou Hermione para perto assim que sua mão encontrou a dela, para apanhar a chave, as duas quase se beijaram. Fleur, atenta e colérica pelos ciúmes que se instalaram violentamente em seu peito, avançou, empurrando a dona da casa para longe enquanto colocava-se ao lado de Hermione.
– E ela também veio para lhe mostrar que já pertence a outra pessoa, mademoiselle. — Fleur anunciou gélida, olhando de forma cruel para Astoria que olhava estupefata para as duas. Somente para reforçar o aviso, Fleur entrelaçou os dedos de sua mão com os de Hermione. A francesa não olhava para a advogada, mas podia sentir que ela estava satisfeita com a sua manifestação. — E se você tem o mínimo de bom senso, vai respeitar isso.
– Quem você pensa que é para se meter entre nós duas? Nós duas temos uma história, eu não sou um romancezinho de algumas noites. Só preciso de cinco minutos com ela para fazê-la entender a quem ela pertence! — Astoria respondeu furiosa, dando um passo à frente para enfrentar Fleur, Hermione encolheu-se de encontro ao corpo da francesa. Porém, o tom de voz impositivo e ameaçador da outra não teve efeito algum sobre o ego e o orgulho da francesa,
Fleur tomou a resposta como um incentivo e também deu um passo à frente, repleta de uma irracionalidade brutal que ela desconhecia e nublava a sua boa educação. A única coisa que a manteve sã foi o toque morno de Hermione em sua cintura. A loira respirou fundo e rosnou:
– E ainda assim você teve dois anos e não provou absolutamente nada a ela. Mas eu vou provar, chérie. Vou provar por mim e por você.
Astoria avançou, Fleur recuou e defendeu-se. Hermione colocou-se entre as duas, separando-as. A primeira ficou próxima ao sofá, com o rosto possuindo três cortes finos, e a segunda, ainda fora da razão, tentou lutar contra o corpo de Hermione a sua frente até que a advogada a beijou de leve nos lábios.
Fleur respirou fundo e se acalmou. Hermione suspirou e virou-se para Astoria que, dessa vez, tinha lágrimas nos olhos enquanto enxergava a decepção nos olhos de sua antiga namorada. A advogada apanhou uma das caixas, Fleur apanhou a outra e as duas rumaram para fora do apartamento. Porém, antes de fechar a porta, Hermione parou no portal e, melancólica, disse:
– Não a culpe por ser tudo que você não foi para mim.
Astoria a olhava de forma gélida, secando as lágrimas rudemente. Hermione, por sua vez, caminhou até o elevador e, naquele pequeno espaço que se movimentou em direção ao térreo, seu olhar cruzou com o de Fleur.
A francesa estava ligeiramente corada, tinha os cabelos desalinhados e os olhos azuis quentes pelos ciúmes. Hermione largou a caixa no chão aos seus pés e aproximou-se, desviando-se da caixa que Fleur ainda tinha em mãos. Ela a beijou e disse:
– Merci, de novo.
Fleur sorriu e a beijou de novo, derrubando a caixa para enlaçar a sua cintura. Hermione riu com os lábios juntos aos dela. Aos seus pés, jaziam lembranças de um relacionamento que ela não queria e nem iria lembrar.
O que ela queria e iria se lembrar estava ali, em seus braços, provando que todas as decisões e todos os riscos valeram à pena.
Aquelas coisas que apanhara de volta a reconstruíram, mas era aquilo que vivia com Fleur que a mantinha inteira. Hermione não precisou pensar muito para compreender que não existia razão entre elas...
Só o amor.
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