La Petite Mort
14 A arte de cuidar
Notas iniciais
As duas sabiam muito bem a intensidade do que acabaram de vivenciar, mesmo que nenhuma palavra tivesse sido trocada, dentro do carro, desde que as duas deixaram o prédio de Astoria Greengrass para trás.
Entretanto, até mesmo o silêncio parecia estar preenchido de vários componentes. Dentro dele estava toda a confiança que Hermione agora depositava em Fleur, toda a adoração que a francesa ofertava à morena e, principalmente, todo o amor que elas, silenciosa e vagarosamente, juraram vivenciar e dividir.
Fleur tinha a mão esquerda repousando sobre a perna direita de Hermione. A mão direita da morena revezava-se entre o volante e o apertar da mão em sua perna. A francesa olhava para ela a cada cinco ou seis minutos, depois, sorria para o seu colo enquanto sua mente se perguntava como tentara resistir aquilo e seu coração acelerava a cada olhar de esguelha que Hermione lançava.
As duas também não conseguiam esconder os sorrisos, muito menos, disfarçavam o brilho de seus olhos. O que se formara e se concretizara entre elas era selvagem e, ao mesmo tempo, delicado. Tudo entre elas era contradição, mas aqueles pólos opostos pareciam certos e concretos para aquele momento.
Após vinte minutos de trajeto, Hermione parou o carro em frente a um prédio de fachada tipicamente britânica, totalmente diferente do prédio de Astoria. A morena desligou o carro e respirou fundo, com um sorriso discreto nos lábios, disse:
– Bem, chegamos.
– Onde estamos, exatamente? — Fleur perguntou curiosa, mas Hermione não lhe respondeu, apenas sorriu de forma radiante, o sorriso chegando aos olhos e depois, saiu do carro para abrir a porta do passageiro. Fleur observou todas as atitudes dela em um misto de divertimento e curiosidade pelo que a morena escondia. A chef saiu do carro e olhou para o prédio antes de virar-se para Hermione. — Não vai me responder?
– Não confia em mim? Juro que saberá quando chegar lá em cima. — Hermione respondeu radiante e saiu caminhando à frente, a postura extremamente segura. Fleur acabou sorrindo do excesso de confiança da morena, mas mesmo assim a seguiu de perto.
As duas entraram no prédio e a curiosidade de Fleur aumentou ainda mais pelo fato de Hermione possuir as chaves do antigo portão de ferro. A morena segurou delicadamente a mão direita de Fleur quando ambas começaram a subir uma antiga escada de madeira, a francesa corou discretamente e suspirou, deixando-se levar para o desconhecido por Hermione.
Subiram três lances de escadas e chegaram a terceiro andar do antigo prédio. Hermione virou à esquerda e caminhou até a última porta, à direita, no corredor. A morena respirou profundamente e soltou a mão de Fleur, em seguida, remexeu na bolsa que carregava e de lá tirou um molho de chaves, inseriu uma delas no buraco da fechadura e a girou.
A porta se abriu e as duas entraram no pequeno apartamento, Hermione acendeu as luzes da pequena sala e, em um misto de timidez e insegurança, anunciou:
– Como eu disse, você saberia quando entrássemos... Esse é meu apartamento, Fleur.
Fleur deu um passo incerto para frente, seus olhos percorreram a sala que se estendia a sua frente. A mesma sala era dividida por um balcão de madeira que a separava de uma pequena cozinha, tudo era decorado em tons sóbrios ou pastéis. Na extremidade da sala, um pequeno corredor dava para três portas, duas do lado esquerdo e uma do lado direito.
Hermione, insegura pelo silêncio de Fleur, passou por ela e, nervosa, desculpou-se:
– Eu acho que o mistério todo não fez jus ao apartamento, ele é pequeno, mas você é a primeira que eu trago desde que...
Entretanto, a morena não conseguiu terminar a frase. Fleur a interrompeu com um delicado beijo em seus lábios, Hermione percebeu o sorriso na boca colada a sua e acabou acompanhando-a, a advogada fechou os olhos e sentiu as mãos de Fleur abraçarem sua cintura. A loira afastou-se e olhou para o pequeno apartamento, por cima do ombro direito e, voltando-se para Hermione, comentou gentil:
– Ele é discreto e charmoso, exatamente como você.
Hermione corou furiosamente, o vermelho percorreu seu pescoço e alcançou as maçãs de seu rosto. Ela saiu do enlace dos braços de Fleur e caminhou até a cozinha, alcançou um cardápio em um dos armários de madeira e disse envergonhada:
– Eu não tenho nada pronto e sequer esperava uma pessoa comigo quando voltasse de Ottery St. Catchpole. Sei que é uma afronta propor isso a uma chef, mas se importaria se pedíssemos algo para jantar?
– Você não vai pedir nada, mon coeur. — Fleur sentenciou com a voz firme e a expressão mandatória, Hermione arqueou a sobrancelha para ela, a expressão dividida entre o desagrado e o divertimento. A francesa aproximou-se sorrateira e prensou o corpo da morena de encontro aos armários de madeira, as duas se olharam com a intensidade que lhe era característica, mas nenhuma das duas se mexeu. — Eu vou preparar algo para você enquanto você toma um banho. Você deve estar cansada não só pela viagem, mas também por outros assuntos que não devem nem ser mencionados...
Hermione deixou que as palavras de Fleur fizessem sentido e ecoassem dentro de sua cabeça, olhou um tanto quanto surpresa para a francesa, seus olhos castanhos brilhavam porque refletiam aquela sensação nova que a preenchia por dentro.
Fazia alguns bons anos que Hermione se acostumara a ser sozinha e ser aquela que cuidava dos outros, afinal, Harry era como se fosse seu irmão mais novo, por mais que os dois tivessem a mesma idade. E depois de tudo que acontecera com seus pais, a independência era a sua companheira mais constante. Portanto, naquela instante, ela não sabia muito bem o que sentir.
Hermione sequer lembrava-se de como era ter alguém cuidando dela, Astoria gostava de ser cuidada. Por isso, o aperto quente e aconchegante que a invadiu quando Fleur lhe disse aquelas palavras e, principalmente, os olhos azuis tão intensos e tão sinceros que a olharam de forma tão cuidadosa e preocupada, tiraram-na de seu eixo.
A morena estendeu a mão e a levou até a bochecha alva de Fleur, com a ponta dos dedos, fez um carinho tão delicado e tão sutil que quase derrubou a própria francesa que se acostumara a cuidar dos outros desde que conhecera Bill. Fleur viu os olhos de Hermione brilharem ainda mais e também percebeu quando ela os piscou de forma demorada, como se quisesse sufocar algo. Em seguida, Hermione beijou a mesma bochecha que acariciara e, desconcertada, murmurou:
– Obrigada.
Era a segunda vez que Hermione a agradecia naquele dia e, diferentemente da primeira vez, ela não se explicara. A morena abaixou a cabeça e passou por Fleur, entrando na porta do lado direito, alguns minutos depois, a francesa escutou o barulho do chuveiro e, finalmente, despertou de seus devaneios.
Naquele momento, percebeu o quão solitária Hermione era. A morena precisava de alguém que cuidasse dela enquanto ela se perdia para os outros e Fleur necessitava cuidar de alguém e sentir-se cuidada... Mais uma vez, o destino demonstrava como elas eram semelhantes e Fleur, sentindo-se ainda mais responsável e, principalmente, mais apaixonada por Hermione, colocou-se a procurar ingredientes nos armários.
Hermione não merecia nada menos do que o seu melhor.
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Cedric fora intimado a ficar na cozinha desde que Gina Weasley entrara no dinner e Fleur partira. Naquelas duas horas passadas, ele observara Gina gritar com Bill, seu namorado gritou de volta para irmã e, agora, os dois irmãos encontravam-se sentados, em silêncio, sem olhar um para o outro.
O moreno estava agoniado porque desde que conhecera os Weasley, acostumara-se com manifestações efusivas de felicidade, alegria e, até mesmo, o ódio, principalmente direcionado a Fleur. Aquele silêncio era desconhecido tratando-se de dois Weasleys postos à flor da pele e essencialmente preocupante, porque Cedric não sabia o que esperar dele.
Portanto, quando Gina ficou em pé e deu às costas ao irmão mais velho, sem antes lhe direcionar um olhar repleto de desagrado, Cedric saiu no encalce da caçula Weasley e a interceptou antes que ela pudesse sair do dinner. Cedric alcançou a porta e a trancou, abaixou as velhas persianas do estabelecimento e escutou a voz amarga da ruiva exclamar:
– Você não pode me prender aqui, seu...!
– “Seu” o quê? Acredite, Ginevra, eu já escutei bons xingamentos, nada do que você diga vai me ofender. — Cedric a interrompeu com a voz gélida e os olhos acinzentados furiosos, Bill também levantara e estava postado atrás da irmã, olhando para ele com uma expressão de descontentamento. Cedric ignorou o companheiro e voltou seus olhos para Gina que o observava surpresa, a sobrancelha direita arqueada e os braços cruzados na altura dos seios. — Você não veio aqui somente para gritar na cara de Bill e nem exalar sua amargura de graça, o que você quer?
– Realmente, eu não tinha vindo aqui ofender o Bill... Na verdade, eu estava pensando em fazer as pazes com ele. — Gina respondeu petulante, abrindo um sorriso irônico para Cedric que bufou para a imaturidade dela, a ruiva não viu a surpresa chegar a expressão desanimada de Bill, mas Cedric viu o brilho nos olhos dele que, discretamente, revelavam sua esperança de fazer as pazes com sua família. — Mas só foi eu ver a Delacour para juntar as peças e terminar de montar o quebra-cabeça.
A expressão de Bill mudou mais uma vez, o ruivo olhou confuso para Cedric que, sem relaxar a expressão, lhe entregou a mesma cara de dúvida. Bill tocou levemente o pulso de Gina e sua irmã, um pouco contrariada, virou-se para ele. O ruivo suspirou e, tão cansado quanto curioso, perguntou:
– Do que você está falando, Gina?
– Fleur só se casou com você porque sabia que vocês iam se separar por causa do que você é, eu não sei o que ela lhe prometeu... Mas ela sempre quis algo em troca! — Gina justificou esganiçada, quase desesperada. Bill agitou a cabeça negativamente, discordando completamente daquilo que sua irmã, loucamente, assumia como verdade. O ruivo duvidava de muitas coisas naquele mundo, mas do amor que Fleur dedicara a ele, não. Cedric colocou a mão sobre a testa e, impaciente, comentou:
– Por favor, poupe-nos da sua amargura, Gina! Pare de culpar Fleur e olhe para si!
Se Bill pudesse, ele teria calado Cedric, mas as palavras do moreno foram libertas e atingiram Gina em cheio. A expressão da ruiva endureceu e os olhos castanhos, tão iguais aos de Bill, semicerraram-se e assumiram um ar distante. Gina engoliu em seco e, fria, perguntou:
– O que você quer dizer com isso, Diggory? Sequer entrou para a família e já se acha no direito de me julgar?
Cedric abriu a boca para responder, mas foi calado pelo olhar cauteloso de Bill. O ruivo puxou a irmã pelo braço e colocou-a sentada na mesa que, até então, ocupavam. Mais uma vez, Cedric viu que estava intimado a permanecer na cozinha e, descontente, caminhou até lá a passos pesados. Quando ele desapareceu, Bill virou-se para a irmã e, esgotado, disse:
– Ninguém está lhe julgando, Gina. Mas dois sabemos que sua implicância com Fleur não é relacionada à personalidade dela e sim, ao que ela acabou representando para a nossa família.
– Você estava naquele dia da festa, sabe muito bem o que ela quis dizer com aquelas palavras! — Gina defendeu-se ofendida e magoada, o coração de Bill apertou-se ao escutar aquelas nuances na voz de sua irmã. Gina era tão nova e já se encontrava tão perdida... — Você, mais do que qualquer outro, deveria imaginar o que eu senti naquela hora! E mesmo não a amando, você foi atrás dela e me deixou sozinha!
– Harry estava com você! — Bill também se defendeu ofendido, ele jamais falhara no seu papel de irmão mais velho, fora Gina quem primeiramente o afastara desde que ele se casara com Fleur... A ruiva, agora, chorava e fungava. Bill olhava para ela angustiado. Gina limpou algumas lágrimas rudemente e disparou:
– Mas ele não era meu irmão mais velho!
As palavras de Gina voltaram a trazê-los para o silêncio. Bill abaixou a cabeça e se surpreendeu quando percebeu que respirava pesadamente, sufocando as próprias lágrimas. Gina, por sua vez, estava olhando para a parede atrás do irmão, os lábios crispados e os olhos brilhavam, ainda que ela não derramasse lágrima alguma.
Bill relembrou, com ricos detalhes, o que acontecera com Gina nos últimos anos.
A ruiva era uma atleta promissora. Jogava hóquei de grama e tênis, mas destacara-se no futebol e tinha recebido uma bolsa para estudar Jornalismo em Cambridge até que, em um dos últimos jogos da temporada escolar, contundira-se gravemente. Gina fraturara o tornozelo em três partes depois de uma entrada criminosa de uma adversária. Na época, Molly ainda era a dona do, até então, “Molly’s Kitchen” e colocou todas as economias da família à disposição para o tratamento e recuperação da filha.
Porém, os Weasley nunca foram ricos e a situação se agravou depois de todos os gastos com hospital, fisioterapeutas e materiais de reconstrução. Gina se recuperou, mas não conseguiu voltar a jogar, cursou Jornalismo em uma universidade pública e nunca exerceu a profissão, exceto naquele curto estágio em Londres, onde conheceu Harry. Bill, sabendo de toda a história, voltou à cidade e assumiu o dinner naquele momento de crise e permitiu que Fleur mudasse todo o estabelecimento da família, em busca de estabilidade para todas as turbulências dos Weasley.
Sempre achara que fizera o bem e que sua mãe e sua irmã apenas eram mal agradecidas em relação a sua esposa, somente agora Bill compreendia como Gina saíra machucada daquele confronto com Fleur. A francesa dissera que Gina era incapaz de ajudar a família, Fleur tocara naquela ferida — a da incapacidade e da imutabilidade dos fatos — que nunca cicatrizara dentro de Gina.
O ruivo, impotente, observou sua irmã desabar, lentamente. Minutos depois, Gina chorava silenciosa e Bill não pode fazer nada a não ser levantar-se de sua cadeira e ajoelhar-se em frente à irmã, abraçando-a apertado. Sem jeito, disse:
– Desculpe por não ver o seu lado durante todo esse tempo.
– Eu já estou acostumada com todos me tratando como se eu fosse quebrar a qualquer momento. Eu só não preciso que você me olhe dessa forma, B... — Gina resmungou sôfrega, ainda abraçada ao irmão. Em seguida, ela afastou-se e limpou as lágrimas, sorrindo de forma triste e inconsolável. — Eu preciso que você converse com todos nós e explique o seu lado. Você pegou todos de surpresa e só piorou a imagem que tínhamos de Fleur. Nós somos gratas a ela, por Deus! Eu mais do que ninguém sou grata a ela por ter salvado nossa família da miséria em que eu nos afundei! Mas não aceitamos que ela leve algo que mamãe tanto lutou para manter nosso depois que eu ferrei com tudo que tínhamos...
– Você não ferrou com tudo, Ginny! — Bill balbuciou esganiçado e com pena da irmã mais nova, mas Gina agitou a cabeça e olhou desconfortável para o tornozelo direito, aquele que ainda latejava em dias frios e que continha as três cicatrizes que a lembravam, doloridamente, do futuro que ela perdera. Depois, ergueu os olhos para o irmão e respondeu:
– Não importa o que diga, eu sempre vou achar que estraguei tudo.
Bill observou sua irmã levantar-se e caminhar, com um discreto mancar no lado direito logo foi disfarçado, até a porta de entrada do estabelecimento. Gina saiu do dinner e acenou antes de desaparecer na noite de Ottery St. Cathpole. Cedric finalmente saiu da cozinha e caminhou até seu companheiro. Sentou-se ao lado de Bill e segurou-lhe a mão direita, suspirou em busca de palavras e, desconcertado, comentou:
– Eu não sabia que Gina se sentia dessa forma em relação a Fleur.
– Acho que esse é o grande problema nessa situação toda. Minha mãe e Gina supõem que Fleur é uma interesseira, Fleur acredita que Gina é uma pirralha mimada que só faz drama e nós dois pensamos que minha família ia se importar com o que temos... — Bill pensou alto, apertando a mão de Bill e puxando-os para levantarem-se. O ruivo segurou o rosto do namorado e suspirou, olhando-o nos olhos cinzentos. — A verdade é que ninguém sabe e nem se preocupou em saber. Existem muitas suposições, crenças e dúvidas. Está na hora de alguém dar o primeiro passo e começar a falar.
Cedric sorriu compreensivo e acenou positivamente. Essa e outras atitudes corajosas e bondosas só o faziam amar, ainda mais, William Weasley.
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Hermione precisou de mais tempo no banho do que os minutos aos quais estava habituada. Na maior parte do tempo, a morena teve a água morna escorrendo por suas costas enquanto ela, incessantemente, repassava as palavras e atitudes de Fleur em sua mente.
Mas, ainda mais importante que as memórias recentes, eram o que elas provocavam no interior da morena. Hermione não se lembrava quando fora a última vez em que sua mente e seu coração estiveram tão conectados como estavam desde que conhecera Fleur. Um simples pensamento relacionado à loira já disparava seu coração, seu intelecto estava tão apaixonado quanto seus sentimentos.
E, além disso, Hermione era preenchida com um torpor quente cada vez que se tocava que, finalmente, tinha alguém que queria cuidar dela naquele momento. Hermione vivera uma vida de abandonos e desapegos, vivenciar a segurança de um sentimento aparentemente inabalável era impossível até conhecer Fleur.
Fleur que, no começo, parecia tão quebrada quanto ela... Era irônico que as duas estivessem em pé de igualdade agora. Hermione não conseguia imaginar o que aconteceria caso não tivessem uma a outra...
Quando Hermione saiu do banheiro, devidamente vestida e com a pele morna pela temperatura da água, o cheiro que impregnava a sua casa era maravilhoso. A morena aspirou-o profundamente e não pode determinar qual era a natureza do aroma, apesar de que arriscaria que tivesse tomate envolvido.
Hermione caminhou descalça até a cozinha, seus pés tocando o chão frio de madeira. Assim que chegou ao cômodo, encontrou Fleur de cabelos presos, mangas da camisa arregaçadas e voltada para o fogão. A morena escorou-se no balcão da cozinha, observando, encantada, a paixão de Fleur pela culinária fluir através dos aromas, sabores e atos que ela executava.
Naquele instante, Hermione constatou que seria capaz de se acostumar àquela francesa cozinhando todos os dias em seu pequeno e frio apartamento de Londres.
Imersa em seus pensamentos, tão diferente de sua tradicional personalidade atenta, Hermione não percebeu que Fleur virara-se para ela e a observava com os olhos azuis brilhando divertimento. A chef desligou o fogo e, brincalhona, comentou:
– Quase que meus dotes culinários falharam, dessa vez.
– Por quê? Algum problema com a minha cozinha? — Hermione perguntou preocupada, caminhando até onde Fleur estava, em busca do problema. A morena sentiu o ar quente próximo ao fogão e franziu a testa. Fleur riu dela e abraçou-a pela cintura, por trás, beijando-lhe o pescoço ainda um pouco úmido enquanto dizia:
– A ausência de ingredientes quase me levou à depressão. Só consegui fazer um macarrão ao molho e, para sua sorte, ainda existiam tomates aproveitáveis na geladeira.
Hermione arrepiou com o toque dos lábios da francesa em sua pele, virou-se no abraço de Fleur e a beijou, demoradamente, nos lábios. A francesa apertou o corpo de encontro ao seu e Hermione arfou, sentindo cada terminação nervosa corresponder aos toques delicados e possessivos da outra. A morena mordeu o queixo de Fleur, que sorriu divertida e respondeu envergonhada:
– Eu não costumo comer em casa.
– Muitas conquistas pelas noites de Londres, mademoiselle Granger? — Fleur perguntou, em um tom que mesclava o ciúme e a brincadeira, soltando-se de Hermione e apanhando a panela que desligara, jogando o molho sobre o macarrão tipo penne já depositado em um recipiente de vidro. Hermione, por sua vez, arqueou a sobrancelha para o tom da francesa e, curiosa e satisfeita, perguntou:
– O interesse é pelos meus jantares em fast food ou pelas minhas prováveis noitadas fora de casa?
– Depende da sua resposta, já garanto que, para ambas, eu provavelmente ficarei muito irritada. — Fleur respondeu naquele tom rouco e mandatório, quase predatório, que já provocara um acelerar nos batimentos cardíacos de Hermione. A morena abriu a boca para responder, mas Fleur foi mais rápida ao terminar o prato e levar o recipiente até o balcão. Hermione temia as palavras dela, mas o cheiro estava maravilhoso. Fleur, indo até um dos armários apanhar os pratos e talheres, mordeu a nuca de Hermione e aproximou-se do ouvido da morena, respirando pesadamente. — Detesto comer algo pré-fabricado e sou extremamente ciumenta e possessiva com o que eu gosto.
Hermione não esperava uma atitude daquela, mas logo entendeu o que estava acontecendo entre elas... A morena virou o corpo na direção de Fleur, os olhos castanhos transbordavam desejo.
Hermione engoliu em seco quando os olhos predatórios de Fleur envolveram os seus para, logo, escaparem de suas vistas. A chef apanhou a travessa de vidro e a carregava em direção ao balcão de madeira quando Hermione tocou sua cintura. Fleur parou abruptamente e respirou fundo, a morena retirou a travessa de suas mãos, depositando-a na pia, e as duas se olharam mais uma vez.
A tensão era palpável e foi ela quem impulsionou o encontro brusco de seus corpos. No segundo seguinte, a única coisa que as duas sentiam eram o calor.
Fleur sentiu a dominância e a imposição dos lábios de Hermione sobre os seus, assim como sentiu quando, aproveitando-se de sua busca por ar, a língua de Hermione invadiu a sua boca e entrelaçou-se a sua. A francesa gemeu de encontro aos lábios da morena, cada centímetro de sua pele parecia extremamente sensível às mãos de Hermione.
Mãos que, naquele momento, apertavam sua cintura. Fleur, procurando equilibrar a situação, puxou os cabelos castanhos. Hermione grunhiu e desceu as mãos e as mesmas tocaram sua pele por debaixo da camisa. E essas mãos continuaram subindo, mornas, dedilhando seu abdômen e, finalmente, chegando aos seus seios. Fleur ofegou, esperando pelo toque, porém, Hermione parou. A morena não ergueu os olhos, os orbes castanhos ficaram fixos nos lábios inchados de Fleur e, sôfrega, ela pediu:
– Por favor, nos faça parar. Eu não vou conseguir resistir se eu for além do ponto em que estamos.
Fleur sorriu predatória e segurou os pulsos de Hermione, a morena suspirou aliviada acreditando que Fleur seria racional... Mas assim que as mãos de Hermione deixaram de tocar a pele de Fleur, a francesa desabotoou, lentamente, a camisa sob o olhar atento e chocado de Hermione. A camisa aberta revelou um sutiã de renda branco, Fleur assumiu uma expressão lasciva e puxou Hermione para seus braços, a morena permaneceu imóvel e Fleur, impaciente, mordeu-lhe a cartilagem da orelha e sibilou:
– Precisa de um convite verbal para continuar?
Imediatamente, o corpo de Hermione respondeu às palavras de Fleur, cada membro tencionou. A morena procurou os olhos de Fleur e o azul celeste com o qual estava acostumada estava, agora, escuro. Ambas estavam nubladas por um desejo irracional. Hermione prensou ainda mais o corpo de Fleur de encontro ao balcão e colocou uma das pernas entre as da francesa, as duas se encararam e Hermione tinha um sorriso animalesco nos lábios ao dizer:
– A sua comida vai esfriar.
Fleur ia argumentar que, naquele momento, a comida não importava. Só que Hermione avançou de encontro aos seus lábios e a calou, inconscientemente, Fleur cavalgou de encontro à perna de Hermione. As duas só pararam de se beijar quando o ar faltou,
Hermione desceu os beijos para o pescoço claro, escorregando a camisa pelos ombros delicados e arranhando cada pedaço de pele que era exposto. Fleur sentia como se tudo ao redor dela tivesse sido reduzido aos toques e aos beijos da morena, seu corpo parecia estar sensível apenas à presença de Hermione enquanto tudo, além dela, era silenciado.
Hermione, por sua vez, parecia deliciar-se com cada pedaço de Fleur que descobria. A morena dedilhou cada grupo de sardas que encontrou nos ombros de Fleur e sua língua contornou padrões desconexos no pescoço que cheirava à lavanda. Embriagada por aquele perfume que, por tanto tempo, a enfeitiçou, Hermione chegou ao ponto de pulso e o sugou agressivamente. Fleur gemeu, puxando-a pelos cabelos, desesperada por sentir aquela boca de encontro a sua, novamente.
As duas voltaram a se beijar e Hermione continuou a descer suas mãos, tocou os seios de tamanho médio de forma tão delicada que não correspondeu à agressividade imposta em seu beijo e acalmou a respiração descompassada de Fleur. A morena desacelerou o beijo até que, bruscamente, apertou ambos os seios da Francesa que cambaleou com a onda de prazer que foi enviada, violentamente, ao seu cérebro.
Fleur só conseguia pensar que nunca fora tocada daquela forma. Cada aperto de Hermione, cada mordida e cada beijo pareciam marcá-la e, principalmente, reconhecê-la como jamais havia sido reconhecida anteriormente. Nos braços de Hermione, Fleur sentia que todos os olhos desejosos que recebera, todas as cantadas e todas as investidas não eram nada porque o tudo estava acontecendo naquele momento.
Hermione a tocava como se quisesse marcá-la, Hermione a tocava para fazê-la sua... Hermione a tocava como mulher. A sua mulher.
Fleur, escutando as batidas descontroladas de seu coração de encontro aos seus tímpanos e tendo a visão turva pela intensidade dos toques de Hermione em seu corpo, sentiu que a morena sorria de encontro aos seus lábios, ela afastou-se e murmurou enquanto mordiscava seus lábios:
– Eu só estou começando, agüente firme.
Fleur suspirou e abriu os olhos, sendo surpreendida por um olhar irracional que denotava, completamente, da figura racional que Hermione representara. Porém, naquele mesmo olhar, Fleur enxergou uma forma de desejo que era diferente de todas as outras que já vira refletida nos olhos daqueles que passara por sua vida. Hermione a queria e a desejava por tudo que ela era, não apenas pelo que seu corpo ou o seu rosto representavam. Aquela irracionalidade só tornava o desejo entre elas ainda mais verídico e inegável. Era irracional porque existia um sentimento tão forte que descontrolava toda e qualquer ação.
Hermione tinha um sorriso de lado ao voltar a beijá-la, as mãos escorregaram dos seios de Fleur e arranharam o abdômen bem delineado até chegarem ao cós da calça.
Fleur sentiu seu coração acelerar, ainda mais, quando Hermione, delicada, abriu o botão e desceu o zíper.
Mais uma vez, ambas pararam.
Fleur respirava com dificuldade e tinha um olhar fragilizado que denotava sua inexperiência. Os lábios inchados estavam entreabertos e, mesmo parecendo tão confusa, parecia estar, no mínimo, curiosa.
Hermione a observou com os olhos atentos, beijou-a delicadamente antes de posicionar sua mão direita sobre o centro da francesa, a morena exerceu uma pequena pressão ali que fez Fleur respirar profundamente à procura de algo que pudesse amenizar o calor que, agora, ocupava seu corpo.
Hermione voltou a se aproximar e percorreu o trajeto entre o queixo e a orelha de Fleur com beijos e mordidas, sedutora, disse:
– Nós ainda podemos parar.
Fleur acenou negativamente com a cabeça antes mesmo que Hermione terminasse a frase, a morena continuou a beijar-lhe o pescoço enquanto começava movimentos circulares ainda sobre a calcinha de Fleur. A francesa arranhou a nuca da morena até seu corpo atingir um outro nível de prazer e ela ser obrigada a soltar-se de Hermione à procura de apoio para seu corpo que já tremia. Fleur fechou seu aperto nas bordas do balcão enquanto Hermione afastava os cabelos loiros, que estavam bagunçados, para observar a ofegar da respiração de Fleur e ver o rubor tomar o rosto pálido e angulado, conforme o prazer ia preenchendo a francesa.
Fleur era maravilhosa, mas naquele momento, à beira do prazer, ela era a mulher mais linda do mundo, na opinião de Hermione.
A expressão carinhosa que ocupara as feições da morena, diante dessa constatação, trouxera um pouco mais de delicadeza aos seus atos. A morena deixou que o amor silencioso que detinha em seu peito guiasse seus atos, afagou os cabelos de Fleur e sua boca preencheu de beijos os ombros desnudos.
A mão direita de Hermione trabalhou experiente e afastou o tecido que a separava do clitóris, já inchado, de Fleur. A francesa apertou as mãos na borda do balcão e mordeu os lábios diante da onda elétrica que a preencheu, Hermione a interceptou com um beijo e foi praticamente sufocada com o silencioso clamor de Fleur por mais.
A francesa iniciou lentos movimentos de rebolado sobre os dedos de Hermione e foi a vez da morena observar, hipnotizada, os quadris movendo-se de encontro a sua mão. Hermione ergueu os olhos novamente e Fleur estava envolvida na nuvem de prazer e volúpia que a entorpeceu, a morena afundou-se novamente no pescoço pálido enquanto sua mão esquerda retirava o sutiã do caminho e apertava o seio desnudo de Fleur.
Os gemidos foram tornando-se mais altos à medida que o orgasmo achegava e, quando ele chegou, o corpo de Fleur tencionou por alguns momentos antes de Hermione sentir o líquido dela em sua mão. A morena abriu um sorriso satisfeito quando o corpo de Fleur caiu sobre o seu, a francesa apoiava a testa em seu ombro e respirava com dificuldade, tentando se recuperar.
Hermione reduziu a intensidade de seus movimentos até pará-los e retirou a mão de dentro da calça de Fleur. Apertou carinhosamente a cintura delgada e afagou seu abdômen antes de beijá-la na têmpora. Fleur suspirou preguiçosa diante dos toques e Hermione continuou os carinhos em seu corpo até que os tremores e arrepios passassem.
As duas ficaram abraçadas por bastante tempo até que Fleur, trêmula, afastou-se e olhou para Hermione. A morena surpreendeu-se ao enxergar discretas lágrimas nos olhos azuis, Fleur, entretanto, nada disse. Apenas sorriu grata e aplicou-lhe um selinho demorado nos lábios.
Ela não disse nada, mas Hermione enxergou tudo. Quando Fleur, insegura, puxou a barra de sua camisa... Hermione permitiu e, também, se entregou.
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