La Petite Mort

30 O sabor de uma vida com amor


Notas iniciais
Boa tardee, como vocês estão? Eu estou muito bem e muito feliz por estar terminando mais uma história aqui no Nyah... Sim, para você que se perdeu em meio a minha demora, esse é o último capítulo de La Petite Mort! Mas, não se afobem e nem se desesperem, teremos um epílogo! E prometo que esse será muito mais leve do que muitas coisas que se passaram nessa fanfic... Bem, eu indico que escutem a playlist da fanfic no Spotify porque daremos uma passada por alguns momentos chaves da nossa história. Espero que gostem! Boa leitura!

Como o dia anterior adiantara, o sol era visto nos céus de Ottery St. Catchpole e, dessa vez, não tinham nuvens nem massas cinzentas o escondendo. Era a estrela radiante em um céu azul límpido, de certa forma, parecia que esse clima estava em concomitância com a melhora do humor de Fleur.

Naquela noite, ela não sentiu Hermione remexer-se entre os lençóis... Quer dizer, a morena até se movimentou na cama, mas, a razão foi outra. Assim como ambas permaneceram acordadas por bastante tempo, imersas em seus próprios corpos. O fim de tarde na banheira não bastou para as duas e Fleur precisou fugir dos braços morenos que queriam mantê-la presa no Shell Cotage.

Mais uma noite que mudara tudo o que ela conhecia sobre o amor e a cumplicidade.

O despertar foi em conjunto, com Hermione deixando os dedos morenos percorrerem as curvas de seu corpo como se não quisessem nada. E eles, de fato, queriam e muito. Fleur mal acordara e já fora presenteada com o paraíso, em seguida, elas dividiram o banho e a advogada a deixou demorar-se mais na água, descendo para preparar o café da manhã.

Elas não estavam atrasadas para o almoço daquele dia, contudo, logo poderiam ficar se Hermione não parasse de mimá-la daquele jeito.

Surpreendentemente, a morena tinha outros planos agora que estavam vestidas e apresentáveis. Ela apressou a francesa à mesa até que Fleur se irritou com a impaciência entre resmungos e muxoxos no idioma natal. E, agora, elas caminhavam juntas pela areia da praia, rumo à outra construção que ficava próxima ao mar.

As duas estavam descalças, carregando seus calçados em mãos opostas as que se seguravam. Fleur usava óculos de sol e não pode deixar de perceber o efeito que isso provocara em Hermione, a morena estava tentando evitar, mas, não conseguia deixar de olhá-la estupefata. Por fim, a francesa deu um sorriso malicioso e perguntou provocante:

— Encontrou algo do qual não consiga tirar os olhos, chérie?

— Você realmente deixa as coisas muito difíceis para mim! — Hermione protestou com certa indignação, apertando a mão pálida entre a sua, suspirando de forma pesada. A risada musical de Fleur misturou-se aos sons das ondas chegando à praia e elas ficaram em silêncio, apreciando a musicalidade daqueles sons distintos. Por fim, a francesa levou as mãos entrelaçadas aos lábios e beijou o dorso da mão morena, sussurrando:

— A intenção jamais foi essa, eu sempre pensei que tornava tudo mais fácil para você, mon amour.

Hermione parou abruptamente diante dessas palavras e não houve alternativa, para Fleur, que não fosse fazer o mesmo. Elas estavam na metade do caminho para a pousada de Madame Rosmerta e sorriam uma para outra. A advogada alcançou a mandíbula da francesa, segurando-a com carinho antes de puxá-la para perto.

Elas se encontraram no beijo e permaneceram nele, o máximo que puderam, antes que o ar fosse necessário, os sorrisos semelhantes e os olhares brilhavam na mesma intensidade. Fleur ergueu os olhos para o topo da cabeça de Hermione voltou a suspirar, a morena estava corada e retomou a caminhada, dizendo leve:

— É fácil amar você, mas, continua sendo difícil acreditar que você me quis depois de tudo que passamos.

— E é justamente por tudo que enfrentamos que eu amo você, Mademoiselle Granger. — Fleur respondeu charmosa, acentuando o rubor nas bochechas morenas e rindo, mais uma vez, quando a advogada não conseguiu sustentar o seu olhar cheio de intenções.

Aparentemente, os problemas resolveram dar uma trégua as duas.

A francesa sentia que caminhava livre e sem ressalvas pela primeira vez em muito tempo. Claro que também sentira isso ao deixar a França da última vez, mas, agora, com a situação dos pais de Hermione encaminhada, ela realmente se sentia bem. E essa leveza, essa felicidade... Elas faziam tudo valer a pena.

Fleur pensou na caixa com os macarons em sua bolsa. As guloseimas podiam não estar tão gostosas quanto estariam se fossem consumidas na hora, mas, ainda valiam uma mordida. E, de qualquer forma, diante de uma vida tão doce era tão impossível que algo soasse amargo ou azedo.

Enquanto isso, a morena deixou que o silêncio ocupasse o espaço entre elas, sendo um companheiro gentil às ondas que explodiam na praia e aos sons de suas respirações em mesmo compasso. E o sorriso que a francesa tinha era tão suave e tão aliviado que valia mais de uma observação apaixonada.

Dessa forma, elas chegaram à pousada de Madame Rosmerta que já estava movimentada mesmo cedo. Alguns participantes da excursão que trouxera Edward e Jane Granger já estavam de pé para voltarem a Londres no fim do dia e outros hóspedes esporádicos, poucos naquela época do ano, também já despertavam. Ottery St. Catchpole era pequena, aconchegante e receptiva mesmo passada a época turística do Festival Anual.

Pensar nesse evento trazia boas lembranças a Hermione, uma noite de música e bebida e, também, de paixão e desejo. A sua memória era boa e, se fechasse os olhos, conseguia lembrar como a luz batia no rosto de Fleur no interior do La Petite Mort à penumbra assim como podia sentir o aroma do vinho em seu paladar misturando-se ao perfume de lavanda... Foi a primeira vez que via a francesa daquela forma e se aproximava o bastante para sentir aqueles cheiros.

Quem diria que seria a primeira vez de muitas outras?

Naquela noite tão longínqua depois de tudo que passaram, a atração era latente enquanto o sentimento não passava de uma mera sugestão. Elas não sabiam o que sentiam, assim como, não imaginavam para onde o amor que arriscaram dividir as levariam. Elas sequer desconfiavam como eram sortudas por ter uma a outra.

As lembranças aumentaram o sorriso da morena e enquanto as duas entravam na pequena pousada à procura dos pais, ela se permitiu apertar o enlace de suas mãos. Fleur correspondeu com um sorriso, caminhando à frente e olhando-a por cima do ombro antes de piscar. Hermione suspirou porque ainda era difícil acreditar que aquela mulher tão linda e forte estivesse apaixonada por ela.

— Ah bom dia, Fleur e Hermione! — A voz desperta e animada de Madame Rosmerta chamou a atenção em meio aos sons do café da manhã e elas procuraram a proprietária da pousada que caminhava entre as mesas ocupadas na pequena sala de estar convertida em salão de refeições. As duas sorriram para a mais velha que continuou a aproximar-se até engolfá-las em um abraço. Hermione se mexeu incomodada no meio do ato carinhoso e Fleur afagou o braço da outra mulher, desconcertada. — É tão bom tê-las juntas diante de meus olhos! O que traz vocês aqui?

O casal se olhou com aquele brilhou tradicional dos apaixonado. Através daquela troca, Hermione notou que Fleur se perdera, novamente, naquela intensidade de sentimentos que lhe era tão característica. Por isso, a advogada resolveu retomar as rédeas da situação, mesmo que estivesse tão ou mais perdida quanto a francesa. A morena pigarreou e respondeu sorridente:

— Bom dia, Madame Rosmerta! Estamos aqui para buscar meus pais, Molly Weasley nos convocou para um almoço...

— E é bom não deixá-la esperando! — A empresária completou com uma expressão compreensiva, sem deixar que a alegria desaparecesse de seu rosto. Ela tocou o braço de Hermione carinhosamente, a morena sorriu para esse movimento e quase não percebeu os olhos cerúleos afiados para aquele gesto. Fleur bufou ciumenta e a morena se sentiu corar antes de continuar conversando com a sua antiga cliente:

— Claro que não e eu realmente espero que os meus pais estejam descendo.

— Ah, eles estão. Os Granger pediram para que ligássemos às oito horas, provavelmente, só estão ansiosos se arrumando. — Madame Rosmerta estavam bem humorada enquanto fiscalizava o serviço no salão de refeições, Hermione acompanhou os olhos dela antes que ela sussurrasse algo para um dos poucos funcionários e voltasse a encará-la. — Antes que me esqueça, alguns documentos chegaram ontem, pelo correio. Um deles, endereçado a mim, trazia a decisão da justiça quanto à propriedade da pousada. Como você disse, eles decidiram por mim! Meu Robert pode ter sido um idiota descuidado, mas, ele me amou... E aquela foto de nós dois, com a dedicatória atrás, pareceu convencê-los.

Sem qualquer aviso, Hermione se sentiu abraçada fortemente. Os risos misturados às lágrimas de Madame Rosmerta foram ouvidos em meio ao calor do enlace e a própria advogada sorriu satisfeita pelo resultado jurídico e pelo que ele produzira na vida daquela mulher tão forte e independente. Ainda havia salvação para um mundo em que uma foto de um casal apaixonado era capaz de resolver um problema jurídico relacionado à herança e à propriedade...

Mesmo em meio ao calor do abraço e ao perfume doce da empresária, a morena sentiu o toque sutil e possessivo em sua cintura. Os dedos longilíneos de Fleur apertaram a pele na base de suas costas e arranharam ali, fazendo-se presentes mesmo que Hermione não pudesse esquecê-los. A morena sorriu para a necessidade que a francesa tinha de marcar o território.

Não era preciso, mas, ela achava delicioso. Era bom se sentir única para alguém.

Tão rápido quanto se aproximara e a engolfara, Madame Rosmerta se afastou e a razão era o mesmo funcionário que retornara e, agora, entregara um envelope pesado a chefe. A senhora nem o olhou e o repassou diretamente para Hermione que franziu as sobrancelhas para o recebido. Depois de uma risada divertida, a empresária esclareceu:

— Esse chegou para você e eu desconfio que seja da mesma natureza do que eu recebi.

Dizendo isso, Madame Rosmerta deu uma piscadela para ambas e voltou ao trabalho. Hermione se virou para Fleur que observava a mulher mais velha, os olhos elétricos não amenizaram quando a estalageira desapareceu na cozinha e quando o cerúleo voltou para o castanho, ainda existiam vestígios discretos de ciúmes nos orbes atentos. A advogada respirou fundo e deu um sorriso assegurador, depois, apertou o envelope pesado entre os dedos de uma das mãos enquanto a outra alcançava e apertava a cintura delgada da francesa, a chef permaneceu firme em sua compostura antes de dizer:

— Não vi necessidade nessa proximidade toda, mon petit.

— Ela só estava sendo educada e agradecida, Fleur... — A morena respondeu com divertimento, deliciando-se com o ciúme velado que fazia os olhos azuis acompanharem, ameaçadores, o afastamento de Madame Rosmerta. Fleur revirou os olhos para a resposta, visivelmente insatisfeita e Hermione sentiu-se no dever de beijar-lhe a bochecha e sussurrar de encontro à pele alva:

— Como alguém tão linda e tão talentosa pode ser tão insegura e ciumenta?

A pergunta teve o resultado esperado, avermelhando as bochechas pálidas. Insatisfeita com a vergonha inesperada, Fleur resmungou algo em francês que tornou-a ainda mais frustrada aos olhos castanhos. A morena esticou-se e, entre abrir o envelope e remover as folhas contidas ali, alcançou novamente a bochecha perolada, dando mais um beijo.

Depois, aspirou o perfume de lavanda profundamente antes de se virar para as palavras impressas em sua mão. Aparentemente, era uma decisão judicial e, quando chegou aos nomes das partes envolvidas, praticamente correu os olhos pelas citações desimportantes.

A primeira decisão era sobre o divórcio de Bill e Fleur e a segunda era a respeito do processo de Molly. O resultado da segunda ação judicial já era conhecido, a matriarca Weasley retirara a denúncia e agora, tudo aparentemente seria resolvido na conversa e de forma mais amena. Quanto ao resultado da separação, era óbvio que fora aceita porque ambas as partes queriam isso...

Fleur estava, judicialmente, solteira e livre.

Não que importasse muito diante das vidas que ela e Bill já levavam, mas, Hermione sabia a importância de um papel oficial na vida de uma pessoa. Ela mesma mal conseguia conter o sorriso em seus lábios e, sentindo-se observada pela curiosidade de Fleur, estendeu o papel para ela e aguardou que os olhos cerúleos demonstrassem qualquer compreensão.

O momento em que os olhos de Fleur deixaram o papel e ergueram-se para Hermione seria um daqueles em que a morena se apegaria para o resto de sua vida.

A expectativa fazia o azul brilhar de forma vívida e a felicidade tornara-os umedecidos, quase límpidos, quase como o mar. E, somado a esses olhos, o sorriso da francesa era tão verdadeiro que a morena não lembrava-se de vê-la assim... Tão surrealmente linda.

Contudo, ela não teve tempo muito tempo para memorizar aquele momento porque Fleur já estava em seus braços, envolvendo-a apertado e sussurrando palavras em francês que ela não sabia o que significavam, mas, sentia que se falavam sobre amor. Tudo ao redor delas pareceu parar e silenciar naquele instante quando as duas dividiam mais uma alegria depois de tantos conflitos e tristezas.

Elas estavam, efetivamente, livres de seus passados e de seus traumas. Prontas para começar algo novo da forma certa. Era extasiante e avassalador, Hermione não sabia onde se agarrar a Fleur, mas, permanecia próxima porque era disso que precisava, daquela mulher com aquele temperamento francês explosivo que a atraíra desde a primeira vez que se viram...

E, exatamente como a primeira vez, elas se encontraram em meio a bagunça que as cercava e se aproximaram. As bocas se encontraram enquanto pessoas começavam as suas manhãs. Elas se olharam quando os outros mal conseguiam abrir os olhos para o novo dia.

Je t’aime, chérie... Je t’aime!

Hermione riu entre as suas tentativas tolas de responder aquela declaração tão apaixonada. Essa era uma constante naquela relação: jamais seria capaz de prever quando Fleur iria tirar-lhe as palavras, mas, a francesa era exímia nisso. O castanho encontrou o azul e elas permaneceram ali, em meio aos sorrisos escancarados até que escutaram pigarros atrás de si.

Madame Rosmerta, acompanhada por Jane e Edward Granger, as olhava com expressões satisfeitas e realizadas. Hermione não conseguiu sustentar o olhar dos pais por muito tempo e ocupou-se de esconder-se no pescoço de Fleur que a abrigou, afagando-lhe os fios castanhos e rindo em seu ouvido.

Escondida, a morena permitiu-se sorrir também enquanto os demais trocavam cumprimentos. O cheiro de lavanda a manteve sã enquanto tudo que a cercava parecia ter se transformado em uma realidade paralela.

Ela jamais imaginou que fosse digna de tamanha felicidade.

Mas, ali estava ela. Com a sua família de volta e com um novo (e verdadeiro) amor a amparando contra tudo e todos. Ali, Hermione compreendeu que, talvez, não precisasse lutar por enquanto. E essa conclusão exigiu muito de sua coragem.

Ela sempre fora uma leoa e estava feliz por encontrar, em um par de olhos azuis e num poço de arrogância charmosa e apaixonada, alguém igual a ela.

Ela estava feliz por encontrar Fleur.

Aquela não era a forma certa de desfrutar um macaron, tampouco estavam em um café à margem do Rio Sena e as luzes de Paris não os iluminavam ali, tão longe, em uma cidadezinha litorânea da tão odiada Inglaterra... Porém, Fleur Delacour não se sentia menos feliz por estar tão longe de casa e, também, era incapaz de se sentir decepcionada com o que a vida, tão graciosamente, lhe concedera.

Ela e Hermione caminhavam lado a lado com o casal Granger, trocando palavras animadas entre mordidas nos pequenos biscoitos, dividindo experiências e percepções entre farelos cheirando a amêndoas e o sabor inconfundível do chocolate amargo.

Era uma sinestesia que aquecia o seu coração de uma forma que ela jamais imaginara ser possível.

O que borbulhava dentro de si era feito de felicidade pura e simples, temperada com alívio e servida com muito amor. Fleur dividia a sua atenção entre as palavras dos pais de Hermione e os gestos da morena, tão novos por estarem repletos de liberdade e despreocupação. A vida se abrira para elas com aquela papelada recebida e a primeira consequência disso era que elas não conseguiam se soltar.

As mãos entrelaçadas sem esforço algum, os corpos próximos como se fossem um, a cumplicidade contida em sorrisos e o amor estampado em seus olhares. O que sentiam era perceptível e poderia ser invejado, o que tinham e conquistavam era difícil de ser encontrado.

Amour.

O amor que os franceses exaltavam e que os britânicos, por vezes, envergonhavam-se em sentir. O que elas dividiam sem se preocupar, agora, com o que tinham ao seu redor.

— Fleur...? — A voz de Hermione trouxe a francesa de volta para a conversa, contudo, ela ainda sentia-se nas nuvens e o sorriso com o qual respondeu deixava isso evidente. Ao fundo, Jane e Edward ainda se deliciavam com os macarons e à frente, a morena tinha a testa enrugada, intrigada. Fleur não resistiu e beijou ali, respirando fundo de encontro ao perfume amadeirado. — Você não disse que pensava em levar algo aos Weasley?

A advogada apontou para frente e os demais se viram diante de uma pequena feirinha organizada na praça no centro de Ottery St. Catchpole. A chef perdera o costume de frequentar aquele lugar desde que Bill decidira que seria mais econômico adquirir os mantimentos do La Petite Mort diretamente de suas fontes e agora, ela percebia que sentia falta de tudo que via.

As pequenas barraquinhas com rostos conhecidos ocupando-as, os mesmos fornecedores que acordavam cedo para se certificarem que ela possuísse tudo para manter o seu restaurante funcionando. De certa forma, os seus colegas de profissão que, agora, encontrava em um momento de lazer... O seu olhar mudou diante dessa constatação, mas, ela não deixou de sorrir.

Ela apertou a mão morena entrelaçada a sua e voltou a sua atenção para o casal que as acompanhava. Jane e Edward pareciam encantados com aquela feira interiorana e apenas esperavam por uma deixa para explorarem já que alguns companheiros de sua excursão também estavam ali, por isso, a francesa disse entusiasmada:

— Na verdade, eu pretendo levar algo para cozinhar e como sei que Madame Weasley não me deixará, de forma alguma, ajudá-la com o almoço... Pensei em fazer uma sobremesa, acha que uma Tarte Tatin seria uma boa escolha, mon petit?

O comportamento atrevido fazia parte da personalidade de Fleur e era impossível abandonar aquilo, ainda mais quando se tratava de Hermione. A francesa sorriu para o rubor moreno, resultado das lembranças que aquele prato trazia consigo. Das duas, na cozinha da Mansão Delacour, quando o mundo parecia desabar ao redor delas e tudo que elas tinham era aquele sentimento e aquele momento fugaz dessa receita doce que tentava amenizar o amargo em suas bocas.

Fleur sorriu para as mãos entrelaçadas que, anteriormente, cortaram as maçãs francesas juntas. Também suspirou para a memória de seus corpos junto ao fogo, o cheiro do caramelizar das frutas flutuando ao redor delas enquanto elas escutavam Edith Piaf ao fundo e enquanto ela mesma sussurrava as palavras de um hino ao amor...

Os olhos castanhos, nesse presente, brilhavam, também denotando a compreensão das lembranças e do significado de cada uma delas. Hermione sorriu em meio ao rubor e riu baixinho, encontrando-se sem palavras. Fleur adorava vê-la daquela forma e apreciou o silêncio, até que a voz brincalhona de Jane Granger chegou até elas:

— Eu posso imaginar o que essa receita signifique para vocês.

— Você realmente deveria construir um cardápio em homenagem a essa relação, chef Delacour. — Edward completou a esposa, parecendo divertir-se tanto quanto ela, ainda mais agora que podia ver a timidez contida no rosto das duas. — Você tem talento para isso e aposto que faria muito sucesso no restaurante.

A francesa estava envergonhada, mas, era corajosa em momentos como aquele. Por isso, os seus dedos deslizaram pelo corpo moreno, prendendo o próprio junto desse. Hermione ocupou aquele espaço somente dela, junto ao seu pescoço e Fleur, sentindo-se mais segura, retrucou a brincadeira:

Merci, Monsieur Granger. É uma ideia a se pensar, seria um prazer fazer algo do tipo.

Em seu pescoço, Hermione lhe mordeu discretamente junto à orelha, punindo-a por dar, aos pais dela, motivos para encherem-na mais tarde. A risada de Fleur foi em meio a um gemido de dor e ela se viu feliz, da mesma forma. Com algum esforço, separou-se da morena quando localizou as belas maçãs em um das barracas e, para a sua surpresa, Jane a acompanhou no lugar da filha.

A francesa não mudou a sua postura relaxada, tampouco sentiu-se ameaçada pela mulher mais velha. Ela acreditava, verdadeiramente, que as palavras trocadas no dia anterior deixaram claro o que cada uma representava na vida de Hermione. Mas, ainda assim, era uma surpresa que Jane se propusesse a caminhar sozinha ao seu lado.

A distância até às maçãs era pequena e pareceu maior conforme elas desviavam de alguns consumidores e passantes. Quando visualizou as frutas próximas a si, Fleur apressou-se a escolher as melhores diante do olhar satisfeito do dono da barraca. Jane, ao seu lado, ajudou silenciosamente até que pigarreou e, finalmente, perguntou cuidadosa:

— Não há problema acompanharmos vocês a esse almoço? Parece algo...

— Familiar, Madame Granger? — Fleur comentou delicadamente, escolhendo mais algumas frutas antes de se virar para a senhora e dedicar uma expressão gentil a ela. Jane sorriu aliviada para a tranquilidade encontrada na francesa. — Os Weasley não se importam e Hermione está muito feliz por tê-los por perto.

— E você? O que pensa? Você deixou claro o que seria capaz de fazer caso magoássemos nossa filha novamente, mas, ainda não consigo determinar qual o seu posicionamento nisso tudo. — Jane foi direta ao ponto, de uma forma que lembrou bastante o que a própria filha fazia. Essa semelhança fez a francesa procurar pela morena no pequeno aglomerado de pessoas, encontrando-as escolhendo condimentos junto ao pai. Hermione sorria e Fleur repetiu aquele gesto.

As palavras de Molly Weasley vieram a sua mente.

O que importava era o que sentia pela morena, o que valia ali era o quanto seu coração se acelerava diante da presença da advogada e do quanto sua vida mudara desde que ela entrara em sua vida. E se Hermione vinha acompanhada de alguns pais decepcionantes, ela também tinha a sua cota desse tipo de coisa.

Elas não eram perfeitas e não tiveram vidas fáceis e, talvez, fosse justamente por isso que se encontravam. Não era justo abrir mão de algo que as tornava diferentes de todos os outros.

Por isso, Fleur atenuou o seu característico e difícil temperamento francês. Ela enxergou além das emoções e das consequências que elas provocavam, permitiu-se ficar verdadeiramente feliz por Hermione porque era o sorriso dela que importava.

As maçãs lhe foram entregues e ela as pagou sob o olhar atencioso de Jane, a apreensão era palpável na mulher mais velha conforme caminhavam e a chef não quis prolongar aquele sofrimento. Por fim, parou antes que reencontrassem Hermione e respondeu de forma sincera:

— Eu amo a sua filha e confio nela. Eu jamais duvidarei do julgamento dela desde que seja capaz de enxergá-la feliz com o que decidira. E não sou capaz de me colocar entre pais e filhos... Ainda mais depois de, justamente ela, ter me reaproximado dos meus.

As suas palavras provocaram confusão na Sra. Granger, o que era compreensível já que a a história dela e de Hermione ainda não fora contada. Os pais da morena ainda não tinham conhecimento do tamanho da coragem e da ferocidade de sua filha. Eles não sabiam que haviam criado uma leoa que defendera Fleur de seu grande predador. A francesa suspirou para esse pensamento, sentindo o coração acelerar diante da memória daquela imensa prova de amor.

— O que quer dizer com isso, Fleur? — Jane perguntou interessada, retomando a caminhada quando a chef também o fez.

Os anos perdidos da família ainda traziam certa tristeza e escureciam os olhos cerúleos, mas, ela procurava se concentrar no futuro promissor que se estendia diante de si, cheio de perdão e amor. Isso bastava e sempre funcionava para trazer a tranquilidade de volta as suas feições. Fleur respirou fundo e tocou, levemente, na mão da mais velha antes de responder:

Pardon, madame... Mas, essa é uma história para um dia menos ensolarado e menos feliz do que esse.

Jane compreendeu o peso daquela história e acenou com a cabeça, envolvendo a mão que a tocara entre as suas envelhecidas. Em seguida, levou a mão de Fleur aos lábios e beijou-a delicadamente. Um carinho fraternal que entregava confiança e gentileza. Os olhos cerúleos embaçaram-se por alguns segundos e a mais velha lhe sorria quando entrara em foco novamente, mais calma, a senhora disse:

— De qualquer forma, eu jamais serei capaz de agradecê-la o suficiente. Você pode achar que não, mas, trouxe a minha Hermione de volta. Na verdade, eu consigo enxergar uma Hermione ainda mais feliz do que antes... Você devolveu a ela tudo o que a outra tirou. Ela está assim por sua causa, Fleur. Jamais duvide do quão feliz você faz a minha filha.

A francesa sabia que nem ela, nem Hermione travavam uma batalha naquele aspecto, contudo, não podia deixar de pensar que se alguém deveria se sentir assim, naquela relação, era ela mesma. Era Hermione quem lhe fazia feliz como nunca esteve, era Hermione quem a fazia se sentir capaz de passar por tudo de novo, sem temer as dores que pudessem vir pelo caminho.

A morena possuía seu coração e tudo que era.

O toque que amava a trouxe de volta. Fleur sentiu o dedilhar em sua cintura e o segurar na curva de seus quadris. Hermione suspirava de encontro aos fios de seu cabelo enquanto Jane se afastava, sorrindo para elas, antes de se reencontrar com o marido. A morena olhou da mãe para a francesa e perguntou insegura:

— Ela falou algo do que eu possa me envergonhar?

— Não, Madame Granger apenas me deu muito para pensar e sentir. — Fleur respondeu de forma misteriosa, roubando um beijo demorado dos lábios morenos. Hermione distraiu-se por um instante antes de retomar o foco, envolvendo o corpo esguio entre seus braços, ela olhou fixamente para os olhos cerúleos límpidos e tornou a perguntar:

— E eu devo ficar preocupada com isso?

— Não, mon amour... A nossa era de preocupações acabou, creio eu. — A francesa respondeu com um sorriso satisfeito antes de circundar a cintura morena com o seu braço livre e beijar Hermione de verdade.

Elas escutaram alguns assovios ao redor delas e sorriram de encontro aos lábios uma da outra. Era isso. O mundo desistira de separá-las e elas jamais desistiriam de permanecerem juntas.

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A expectativa era uma boa companheira para aqueles que tanto esperaram pela hora certa. Por mais que Hermione conseguisse apreender o nervosismo dos pais por serem guiados a pessoas desconhecidas, ela também conseguia sentir que eles estavam satisfeitos por conhecer quem fizera parte da vida da filha nos últimos meses.

Ela também estava nervosa, ancorando-se no braço que Fleur lhe oferecera, sabendo que permitiria ser guiada por aqueles olhos azuis para onde fosse. Elas ficariam bem, assim como os seus pais. Não podia dar errado agora, não depois de tanto.

O sobradinho antigo dos Weasley ergueu-se diante deles, o coração da morena já não mais pesava diante da visão daquela residência que, em sua chegada a Ottery St. Catchpole, julgou ser assustadora. Nesse momento, era exatamente o contrário. Aquele lugar era tão acolhedor quanto o Shell Cotage.

A francesa pareceu perceber a tensão nos demais e Hermione admirou a coragem dela ao dar um passo à frente, batendo na madeira da porta da casa que, um dia, a prendeu. Próximos ao portal, à espera de recepção, o quarteto escutou passos apressados e conversas que se aproximavam da porta. Como sempre, os Weasley destacavam-se pelo humor e pelo falar.

Quem abriu a porta foi Bill e a advogada agradeceu, silenciosamente, por isso. O ex-marido de Fleur encontrou-os em meio a uma risada, provavelmente resultante de algum comentário de seus numerosos irmãos. E assim que os olhos escuros dele reconheceram a ex-mulher, ele se adiantou para engolfá-la em um abraço forte. A risada da francesa acelerou o coração de Hermione que a acompanhou, instantaneamente, Bill a alcançou logo depois, segurando-a pela mão e cumprimentando animado:

— Mamãe já estava enviando uma missão de busca por vocês!

— Molly sempre preocupada... — Fleur comentou com um charmoso revirar de olhos. Em outros tempos, essas palavras teriam a intenção de machucar, mas, agora, eram um mero elogio para o temperamento ansioso da matriarca ruiva. Bill riu e abraçou os ombros da francesa, permanecendo ali enquanto ela se virava para os seus acompanhantes. — E creio que já conhece Jane e Edward Granger.

Bill olhou de esguelha para a francesa e riu roucamente antes de se adiantar e cumprimentar os mais velhos, depois, conduziu-os para dentro da sala apertada e aconchegante. Quando todos se ajeitavam no hall, deixando os pertences no armário de madeira junto à porta, ele comentou sarcástico:

— Você perdeu a oportunidade de chamá-los de sogros, querida.

O tapa aplicado no braço sardento do ruivo foi ruidoso, os olhos azuis elétricos reprovavam o comportamento de Bill que apenas ria. Hermione não ruborizara diante dessa falta de tato, pelo contrário, estava orgulhosa de ver os seus pais serem chamados assim e os próprios não pareciam envergonhados. Só Fleur parecia dividida entre matar Bill e esconder o rubor em suas bochechas alvas, por isso, a morena decidiu resgatá-la e completou:

— Eu espero que essa seja apenas uma oportunidade desperdiçada, meu amor.

As suas palavras avermelharam a francesa ainda mais, Fleur adiantou-se, jogando o pacote de maçãs com força nos braços de Bill antes de desaparecer por um corredor estreito que levava à cozinha. O ruivo ainda ria quando conduziu os demais para fora.

Eles passaram pela varanda familiar a Hermione e chegaram ao gramado esmeralda que, hoje, estava bem aparado. Uma tenda branca fora erguida, vazada nas laterais, de forma que uma mesa comprida, com bancos de madeira a ladeando, podia ser vista. A toalha branca repousava sobre o tampão, os talheres já dispostos.

Mais ruivos circulavam por ali. Hermione reconheceu os gêmeos conversando com Ronald, os dois primeiros lhe acenaram efusivamente enquanto o outro apenas balançou a cabeça em reconhecimento, aparentava vergonha mesmo depois de tanto tempo. Mais à frente, conversando com Arthur Weasley, estavam Charlie e outro, alto e elegante, o único Weasley desconhecido e que só poderia ser Percy.

O patriarca já atravessava o gramado para cumprimentá-los quando o perfume floral e os longos cabelos brilhantes de Ginny Weasley os encontraram antes. A ruiva sorria para Hermione, parecendo verdadeiramente feliz por tê-los em sua casa e, com um sorriso que, provavelmente, fora o responsável por Harry ter se apaixonado por ela, recepcionou-os entusiasmada:

— Sejam bem-vindos! Eu espero que não se sintam sufocados nem envergonhados pelo comportamento dos meus irmãos!

Jane Granger pareceu gostar daquela caçula de imediato e respondeu ao cumprimento, apresentando-se e beijando a mais nova na bochecha. Edward fez o mesmo até que Arthur os alcançou e continuou as boas vindas:

— Eu espero que sintam-se em casa, é um prazer ter os pais de uma mulher como Hermione debaixo do meu teto.

A morena ruborizou furiosamente diante desse comentário e os olhos experientes do Weasley mais velho apenas asseguraram o que ele dissera. Bill olhava sereno para o pai e concordava, abraçando os ombros menores junto de si. Hermione ainda estava acostumando-se com tanto carinho e afeto, mas, deixou-se derreter-se junto ao corpo do ruivo que jamais fora seu inimigo e que hoje, era tão próximo quanto um irmão.

Pela forma como o mâitre do La Petite Mort a segurava, era perceptível que ele sentia o mesmo. Os dois, emocionados, observaram as suas famílias se unirem e se misturarem, a nuvem vermelha permitindo a entrada das pequenas estrelas castanhas. Era algo mágico, algo que fazia valer ainda mais tudo pelo qual passaram juntos.

Hermione ainda estava abraçada a Bill quando sentiu mãos conhecidas cutucando a sua cintura. Ela se virou e jogou-se, sem ver, nos braços de mais um dos poucos homens em sua vida. Ela escutou a risada divertida de Harry em seu ouvido e sentiu os óculos dele pinicarem a sua bochecha, os cabelos arrepiados dele misturaram-se aos seus e ele a girou, daquele jeito desleixado e despreocupado que sempre a tirou do sério.

As suas risadas atraíram a atenção de seus pais que voltaram para ela, exclamando felizes e surpresos para a presença de Harry ali, naquele ambiente que recém-conheceram. Quando Jane estava prestes a perguntar o que o moreno fazia ali, Ginny encontrou o caminho dos braços dele e só então, a advogada se afastou do amigo. Edward olhou do amigo da filha para a ruiva e comentou brincalhão:

— Pelo visto, a minha filha não foi a única que se perdeu nas belezas desse vilarejo.

Ginny era conhecida pelo temperamento forte, mas, naquele instante, ela ruborizou quase no tom de seus cabelos. Tentando fugir da timidez instantânea, ela beijou os lábios de Harry delicadamente e Hermione sufocou uma risada para o peito estufado e orgulhoso de seu melhor amigo irresponsável.

O imenso grupo dividiu-se em duplas e trios para conversas mais específicas. Ginny apanhou o pacote de maçãs dos braços de Bill e se encarregou de levar Jane ao interior da casa enquanto Harry, agora, conversava animadamente sobre futebol com Arthur e Edward, não demoraria muito para que os gêmeos e Ronald se juntassem a eles. Mais uma vez, a morena se viu próxima a Bill e, desviando os olhos da leveza do ambiente, sussurrou para ele:

— Onde está Cedric?

— Bancando o vaidoso como só ele sabe ser. — O ruivo respondeu com um ar apaixonado que provocou um leve sorriso em Hermione, afinal, ela não podia fazer pouco caso se sabia que fazia exatamente o mesmo quando referia-se a Fleur. Bill deu-lhe um tranco no ombro, de brincadeira, chamando a sua atenção que, novamente, divagava para Fleur. — E você e Fleur? Estão bem?

Ela olhou para o pai animado a gesticular junto a Harry enquanto Ronald lhe entregava uma cerveja, pensou na mãe que, provavelmente, estava conhecendo Molly naquele exato momento... A mágoa que sentira tão intensamente parecia se perder no meio do alívio e da felicidade. Os resquícios ainda existiam, ela sabia, mas, naquele momento, ela estava feliz. E isso bastava. Sendo assim, ela respirou fundo e respondeu:

— Melhor do que pensei que poderíamos estar a essa altura.

Bill sorriu daquela forma compreensiva e aconchegante, o tipo de sorriso com o qual recepcionou Hermione quando ela chegou em Ottery St. Catchpole, fazendo-a se sentir em casa em um local tão agressivo. E agora, ela sentia-se da mesma forma, em paz.

Ela não sabia o que o futuro lhe aguardava, mas, ela não imaginava ficar muito longe dali ou de Fleur, principalmente. Então, fosse o que viesse, ela estava pronta. Nunca fora conhecida pela sua capacidade de adaptação ou pela sua ansiedade em mudar, pelo contrário, sempre fora uma pedra inabalável no meio de qualquer tempestade.

E agora, estava ali, pronta para enfrentar uma incerteza em favor de um amor.

Hermione permaneceu calada e observadora ao lado de Bill, até que Cedric chegou, jogando os cabelos para longe dos olhos cinzentos e cheirando a um perfume âmbar delicioso. Ele estava mais arrumado do que o normal e um discreto rubor tomou a sua bochecha quando Bill lhe cumprimentou, beijando ali. A morena olhou para casa e reconheceu a silhueta alta e elegante de Fleur através das cortinas brancas da cozinha, suspirou, desejando estar próxima e Cedric sussurrou bem humorado:

— Alguém já está com saudades?

— E olha que ainda não se passou uma hora, meu bem. — Bill completou entre discretos risos que só provocaram um revirar de olhos na morena. Ela não conhecia casal mais compatível do que aqueles dois, inclusive, em relação a essa parte de incomodar os outros. Hermione olhou, de esguelha, para eles e respondeu:

— Vocês deveriam, supostamente, me dar apoio moral e emocional quando Fleur está longe de mim.

O casal derreteu-se em sons de fofura antes de abraçá-la em dobro. Ela se sentiu esmagada entre aqueles dois homens de corações enormes e bondades infinitas e, mais uma vez, se viu rindo diante de tanto afeto. Bill deu mais uma olhada para os demais e perguntou:

— E você precisa disso?

Ele piscou e ela, lembrando-se do envelope que tinha em mãos ao entrar no sobrado dos Weasley, disse misteriosa:

— Eu acho que não, mas, vocês dois precisam de um envelope que está na mesinha do hall, junto com as minhas coisas... Deem uma lida e depois, me procurem.

Bill e Cedric olharam-se confusos, mas, motivados pela curiosidade, correram para o interior da casa. Hermione esperou pacientemente pelos minutos seguintes e foi com alegria que escutou as exclamações vitoriosas vindas de dentro da casa. Ela também viu quando o ruivo correu até a cozinha e o grito dele foi escutado do lado de fora:

— Eu e Fleur estamos oficialmente separados!

A morena riu. Ela já tinha passado por muita coisa em sua vida profissional, contudo, poucas foram as vezes em que um divórcio terminou feliz daquela forma, não fazia sentido algum para quem visse de fora, afinal, Bill e Fleur eram o casal perfeito de Ottery St. Catchpole.

A partir de hoje, William Weasley e Fleur Delacour foram o casal perfeito da pequena cidade.

Contudo, as outras pessoas não os conheciam e sequer imaginava que o amor continuava a uni-los, ainda que por meio de uma separação. O divórcio deu uma segunda chance a todos e, ironicamente, era uma segunda chance para que amassem de verdade.

Fleur mal teve tempo de abaixar a faca antes de sentir Bill abraçando-a apertado e girando com ela pela cozinha. Como de costume, ela estapeou os ombros dele até que ele voltasse a si e reparasse que estavam em um ambiente onde todos podiam se machucar. Quando ele a colocou de volta ao chão em segurança, a francesa não pode sustentar a expressão aborrecida por muito tempo, o sorriso dele evaporou qualquer sinal de seu desagrado. Ela se viu sorrindo e, de forma conspiratória, disse:

— Pelo visto, Hermione já lhe contou as novidades...

— Novidades? — A pergunta de Molly soou distraída, a senhora já dividia a sua atenção entre a carne que retirara do forno e a presença da tímida Sra. Granger. A presença de Bill destoava na cozinha, mas, as três mulheres estavam lidando bem a ela. Com a ajuda de Jane, que tentava dissimular a curiosidade em seus olhos, Molly embrulhava o rosbife em papel alumínio e começava a preparar o molho (Gravy) utilizando-se dos sucos do assado da carne bovina. Fleur, como se trabalhasse há anos com a senhora, estendeu-lhe o vinho tinto e ela começou a reduzi-lo em uma panela, o cheiro era delicioso. Os olhares de ambas se encontraram e elas sorriram para o resultado.

Quem imaginaria que Fleur, um dia, acharia a culinária britânica apaixonante?

Os olhos cerúleos admiravam a cor e a textura dos legumes cozidos e a crocância visível da roast potato prontos para serem levados à mesa, acompanhados pelo molho Horseradish (molho de raiz forte). Os Yorkshire Puddings estavam mais adiante, a massa fofa e crescida na medida certa, sem um erro sequer que pudesse destruir a aparência do bolinho.

Aquilo tudo fazia parte de um tradicional Sunday Roast britânico.

Molly Weasley era uma cozinheira extremamente talentosa e era impressionante que não tivesse estudado para isso. Era invejável e Fleur arrependeu-se por não ter enxergado isso em meio a sua arrogância inicial.

— Eu e Fleur estamos oficialmente separados! — Bill anunciou entusiasmado e dessa vez, foi Cedric quem chegou a cozinha e, de imediato, envolveu Fleur em um abraço apertado. Ela não foi tão difícil para esse moreno porque, afinal, ele fazia o seu melhor amigo feliz. Os dois se afastaram e a francesa beijou a testa, afastando os cabelos escuros elegantemente penteados. Ao olhar firmemente no interior dos olhos acinzentados dele, ela disse severa:

— E eu espero que você, Cedric, não faça com que Bill se arrependa de ter se divorciado de mim.

— Jamais, chef! — O jovem garçom respondeu animado e, mesmo na brincadeira, trazendo muita sinceridade ao seu olhar. Fleur, então, afastou-se de suas maçãs apenas por alguns segundos, o bastante para beijar cada um em uma bochecha antes de tocá-los para fora da cozinha entre resmungos em francês e batidas de pano de prato.

Ao voltar os olhos para as suas companheiras de fogão e forno, Molly concentrava-se em terminar o preparo do Gravy enquanto suspirava de forma pesada. Fleur sorriu gentil para as lágrimas que sabia estarem contidas ali, depois, encontrou Jane observando-as com preocupação. A francesa não sabia até que ponto a sua história era de conhecimento à matriarca Granger, portanto, achou melhor voltar-se para a sua Tarte Tatin que já convertera em duas devido a quantidade de pessoas no almoço.

O clima era leve ali dentro e, talvez, isso tenha motivado Fleur a, finalmente, falar. Os olhos azuis estavam presos à massa, enquanto as mãos habilidosas a abriam sobre o tampo da mesa de madeira, a chef franziu a testa em desagrado, ela realmente deveria ter feito a massa antes para refrigerá-la. Ainda assim, de forma distraída, ela disse:

— Essa vitória também é da sua filha, Madame Granger. Hermione foi a minha advogada no processo do divórcio.

— Você era casada quando se conheceram? — A pergunta saiu cheia de preconceitos e Fleur os teve, mesmo sabendo que eram injustos. Ela se virou para Jane, encontrando-a de braços cruzados e com a decepção evidente em seu rosto. A reação não poderia ser outra, já que ela também sabia do relacionamento da filha com Daphne Greengrass. Fleur respirou fundo e levou a massa à geladeira, voltando à conversa.

Porém, não teve tempo de responder, pois bastou um olhar trocado com Molly para entender que a senhora queria assumir as rédeas daquela conversa. Fleur ainda tinha as suas ressalvas a respeito da matriarca ruiva, porém, deixou-as silenciosas enquanto seguia a sua intuição. Fleur voltou às maçãs e escutou Molly defendê-la ferozmente:

— O casamento de Bill e Fleur já havia acabado há muito tempo e só não acabou pior porque o meu filho foi sábio em contratar a sua filha para defender Fleur de mim.

As palavras da ruiva chamaram a atenção da francesa, afinal, era a primeira vez que falavam daquele assunto tão penoso em voz alta. A expressão de Molly estava obstinada e o coração de Fleur estava acelerado diante do olhar incrédulo de Jane Granger. Os punhos delicados se fecharam e a chef se viu pronta para lutar, mais uma vez e quantas outras fossem necessárias, por Fleur. Contudo, Molly já se aproximara dela e a envolvera na cintura, vociferando corajosa:

— Eu quis tirar tudo de Fleur quando, na realidade, ela deu muito ao meu Bill. Fleur o fez enxergar e assumir quem era e tudo que nos pediu foi um pouco de respeito. Eu fui incapaz de dar isso a ela na época porque não a conhecia bem... Por isso, eu lhe peço, Sra. Granger: não cometa o mesmo erro que eu. Fleur Delacour é a melhor mulher que a sua filha poderia amar, mesmo com todos os fardos que ela carrega.

As palavras intempestivas provocaram um silêncio avassalador na cozinha. Fleur se viu sustentada por Molly, enquanto as lágrimas agonizavam no canto de seus olhos. Ela tentou limpá-las e seu olhar encontrou os castanhos gentis e bondosos da senhora que, um dia, a odiara. Agora, a ruiva assumia-se tão determinada quanto a sua própria mãe, afagando-lhe o braço e mantendo-a firme diante de um olhar tão julgador quanto o de Jane Granger.

Por fim, a francesa se viu sorrindo em meio à batalha contra o seu choro. Molly retribuiu o seu sorriso antes de se virar determinada para a mulher questionadora, esperando uma resposta. Não ficou claro se Jane se sentiu ameaçada pelo que a Weasley dissera ou se houve, realmente, um voto de confiança da parte dela... Mas, ela acenou com a cabeça e Fleur fez o mesmo.

Um acordo silencioso de confiança e segunda chance, ao mesmo tempo que soava como uma promessa para que tudo fosse dito antes que a felicidade de Hermione voltasse a correr perigo.

A bela estrangeira se viu suspirando aliviada, o seu corpo cedeu à pressão e ela se apoiou na mesa, concentrando-se verdadeiramente na sobremesa que precisava preparar enquanto escutava os chamados de Molly por Ginny e Ronald e os pratos sendo levados para o lado de fora.

Ela já passara por coisa pior e só precisava de um tempo para respirar.

Movendo-se no automático, ela montou a massa na forma e caramelizou as maçãs em silêncio. A Tarte Tatin foi levada ao forno e Fleur arrumava e limpava o seu canto de trabalho quando percebeu que não estava mais sozinha.

Para a sua surpresa, Hermione entrara na cozinha com uma garrafa de vinho e taças em mãos. A morena tinha uma expressão preocupada no rosto e não falou até que Fleur tivesse terminado o que fazia. Os olhares de ambas se encontraram quando as mãos trêmulas da francesa tentaram desatar os nós do avental que usava, as mãos britânicas envolveram as francesas e, juntas, elas executaram a tarefa.

Com esse nó desfeito, elas se olharam por completo e Fleur não resistiu à urgência de tocar Hermione. O encostar das testas e o fechar dos olhos cerúleos foi como um chamado de retorno à terra, ela respirou fundo enquanto sentia a morena dedilhar o seu rosto com adoração. Em seguida, ela sussurrou antes que pudesse ser questionada:

— Está tudo bem, eu só precisava de um momento, chérie.

— Quando eu vi minha mãe sair daqui sem me olhar após passar um tempo com você, eu cogitei desistir de perdoá-la... — As palavras eram duras e repreensivas. Hermione estava, novamente, protegendo-a como uma leoa, só que, dessa vez, Fleur queria paz. Por isso, agitou a cabeça negativamente e contornou os lábios morenos com o polegar antes de sussurrar:

Non, non, mon amour... A sua mãe tem as razões dela e nós realmente precisamos contar a ela como a nossa história aconteceu.

A advogada ficou em silêncio, pesando as palavras que lhe foram ditas e à medida que isso era feito, os olhos castanhos deixavam a névoa de decepção e ameaça se dissipar. Alguns segundos depois, tudo que a francesa enxergou foi amor e suspirou aliviada para isso. Elas não podiam se dar ao luxo de lutarem mais uma guerra...

E, como se lesse os seus pensamentos, Hermione se afastou e serviu o vinho nas taças. Uma delas foi estendida a Fleur que a apanhou com um sorriso debilitado, elas brindaram e a francesa bebeu um gole generoso. O vinho era delicioso, um tinto ligeiramente adociado que casava bem com o discreto amargar daquele momento. A morena, então, tocou-lhe a bochecha e sussurrou a caminho de um beijo:

— Nós contaremos, mas, não hoje. Os meus pais esperaram todo esse tempo por teimosia e bobeira da parte deles... É justo fazê-los esperar para conhecerem a verdade a respeito do amor da minha vida.

Fleur riu, deliciada pela informação recebida. Ela deixou a taça sobre a mesa e jogou-se nos braços fortes de Hermione, sentindo-se envolvida e protegida como sempre. A chateação dos minutos anteriores ficara esquecida e tudo que ela sentia era o perfume ligeiramente amadeirado da morena junto ao aroma de maçã de sua torta. Ela também sentia os beijos em seu pescoço e as mãos em sua cintura, apertando-a tão forte como se pudesse fundi-la aquele outro corpo ao qual pertencia...

Ela sentia o amor e somente isso bastava.

Por isso, em meio ao ofegar de Hermione junto a si, ela disse o que realmente importava:

Je t’aime.

A morena respondeu-a beijando-a nos lábios. E Fleur sentiu o seu temor desaparecer em meio ao carinho e a adoração.

Harry Potter não era um exímio observador nem um excelente intérprete quando se tratava das emoções humanas, toda a sua situação com Ginny Weasley deixava esses decréscimos em seu caráter evidentes. Contudo, ele era um amigo fiel e, quando Hermione retornou à cozinha e saiu dali somente quando estava acompanhada de Fleur, ele entendeu que algo estava errado.

A expressão de sua amiga tinha aquela obstinação que o fazia lembrar-se dos tempos de faculdade, era uma teimosia, de certa forma. Era a evidência de que Hermione Granger não desistiria do que acreditava. Então, ele soube que tinha algo errado e o elo mais frágil daquela relação era, com certeza, quem recém chegara a Ottery St. Catchpole.

Os olhos verdes do jovem advogado foram bruscamente direcionados para o casal Granger. Nesse instante, Jane afastava Edward de Arthur e Percy e parecia confidenciar algo no ouvido dele. A expressão leve do homem se perdeu em meio a surpresa e, depois, ao julgamento. Em seguida, ele procurou a filha e os olhos dele não fraquejaram diante da reprovação que Hermione, agora, vestia.

Enquanto os Weasley se acomodavam nos bancos de madeira e os aromas do almoço perfumavam o ambiente, Harry continuava atento ao comportamento da amiga, de Fleur e dos Granger. A tensão era palpável e desbotou a sua própria felicidade ao lado de Ginny.

Ele se sentou à mesa, tentando focar-se na comida deliciosa a sua frente, mas, falhando miseravelmente. De novo, ele procurou Hermione e encontrou-a a dois lugares de si, em frente a Bill e Cedric, enquanto os pais dela foram acomodados na extremidade oposta da mesa, próximos a Molly e Arthur Weasley. A sua melhor amiga parecia mais à vontade ali e existia apenas uma sombra de felicidade em seus olhos, agora.

Todos preparavam-se para servir e antes mesmo que Arthur ou Molly pudessem fazer os pronunciamentos iniciais, Harry se levantou, atraindo a atenção de todos. Ginny, ao seu lado, tocou-lhe o pulso de forma delicada, a curiosidade brilhando em seus olhos amendoados. Ele engoliu em seco, desenvolvera um certo repúdio ao interesse público, muito por causa de sua história de vida e um pouco pelo que a sua desistência do futebol provocara nos que eram os seus “fãs” até então.

Por isso, estar de pé ali, em frente a todas aquelas pessoas, sendo que algumas o julgaram no passado e outras nem sequer tinham lhe perdoado completamente ainda, era um desafio, uma verdadeira prova de amizade a Hermione. Harry respirou fundo em meio aos olhares questionares e apertou a garrafa de cerveja antes de erguê-la e pigarrear, antes de dizer firme:

— Eu gostaria de propor um brinde...

Ronald tossiu em algum lugar e Harry se viu engolindo em seco, o fio de seus pensamentos enrolando-se em seu nervosismo. Ele procurou os olhos de Hermione, encontrando-a confusa diante de seu comportamento. O advogado sorriu embaraçado, sem saber o que esperava sair dali ao se levantar. Ele estava prestes a sentar-se de novo quando, novamente, o toque de Ginny o prendeu ao chão. Ela o olhou nos olhos e acenou discretamente para ele. Ela queria que ele continuasse, mesmo não tendo ideia do que sairia de sua boca.

A ruiva confiava nele e isso bastou para que ele respirasse fundo e ajeitasse a postura. O sentimento se propagava entre ele e Ginny, inflamando o que ele tinha a dizer. Por isso, ele tornou a respirar e disse afetuoso:

— Como eu dizia, gostaria de propor um brinde à família Weasley que acolheu a mim e a Hermione, mesmo com todos os contras que trazíamos conosco de Londres.

Os risos acompanharam o retinir dos vidros de taças e garrafas a se tocarem, Harry tomou um gole generoso de sua cerveja e seu olhar encontrou Hermione nesse instante. A morena lhe sorriu grandemente, deixando evidente que estava grata por aquele pequeno gesto, ele se sentiu aliviado e não se conteve, buscando e encontrando o casal Granger.

Ele foi recepcionado com expressões fechadas, mas, curiosas. Harry ainda procurava interpretar aquilo, enquanto Ginny lhe beijava a bochecha e sussurrava que estava orgulhosa em seu ouvido, quando outros ficaram em pé. Bill e Cedric estavam lado a lado, olhando para às mulheres a sua frente com expressões cheias de gratidão e respeito. O ruivo foi o primeiro a falar, concentrado apesar do sorriso grande em seus lábios:

— Eu, especificamente, gostaria de propor um brinde a Fleur Delacour. À mulher que roubou o meu coração e teve a generosidade de devolvê-lo, por inteiro, quando o destino ousou nos separar. Este é para a minha melhor amiga, apesar do nosso divórcio. É um brinde à amizade que somente um coração enorme e sem ressalvas seria capaz de dar. Muitos dizem que você é arrogante e egoísta, Delacour... Mal sabem ele que o seu coração é ainda mais belo do que a sua aparência.

A comoção foi instantânea, as lágrimas no canto dos olhos da francesa eram evidentes e ela só não as colheu porque Hermione foi mais rápida, tomando-as para si e beijando a francesa no rosto enquanto todos brindavam e Bill segurava-lhe a mão. Harry sentiu-se bem incompetente diante dessas palavras tão incríveis, mas, achava que podia se contentar em ter começado tudo aquilo.

Os Granger continuavam atentos, estudando a veracidade daquelas emoções em forma de brindes. Harry bufou impaciente, porque não havia motivo para dissimularem coisas daquele tipo, aquela família à mesa não podia fingir algo que não era, ainda mais depois de tudo pelo que passaram. Todos riam, Hermione e Fleur pareciam presas em um mundo somente delas e tudo que o jovem advogado queria fazer era protegê-las do que poderia vir contra elas.

E isso incluía os pais da sua melhor amiga.

— E eu não posso me esquecer de brindar, mais uma vez, a Srta. Granger. — Bill elevou a voz em meio aos risos e Harry observou, com diversão, que a irmã de coração corava e tentava calar o ruivo com gestos cada vez mais afetados. — Que, com toda a sua teimosia, conseguiu colocar um pouco de juízo na cabeça da minha ex-mulher... Assim como também ousou amar Fleur quando tudo que ela tinha diante de si era a falta de esperança. Vocês salvaram uma a outra, assim como salvaram a minha família. E, independente dos nossos sobrenomes e cores de cabelos, vocês sempre terão um lar aqui, conosco.

Dessa vez, todos ficaram em pé e Molly batia palmas efusivas entre lágrimas emocionadas. Harry sorriu vitorioso para o que provocara e observou, apaziguado, as expressões duras dos Granger se dissolverem em surpresa e timidez. Jane olhava para Fleur, que beijava a têmpora de Hermione, com mais delicadeza do que antes enquanto Edward até esboçava um sorriso.

A tensão parecia ter se dissipado, pelo menos, naquele almoço. E quando todos voltaram a se sentar e começaram a se servir, Harry concentrou-se em degustar aquele momento. Ele podia sentir os olhos da sua melhor amiga procurando-o em busca de um tratamento mudo que somente eles entendiam. E Harry entregou isso a ela, antes de dar a primeira mordida em seu assado.

Hermione lhe sorria abertamente, de uma forma que ele não lembrava, há muito tempo. O moreno retribuiu aquela felicidade, refletindo a própria. Quem diria que o trabalho os recompensaria com algo assim?

Ele desistiu de tentar entender o que o destino reservara a eles. Depois de tudo que passaram, era reconfortante ter para onde voltar... Essencialmente, era bom ter um lar para descansar os seus corpos esgotados pelo que a vida fizera a eles.

# # # # #

A Tarte Tatin foi devorada quase que inteiramente, tudo que restara eram pequenos pedaços caramelizados das maçãs e alguns fragmentos de massa fofa e deliciosa. Fleur levou o último pedaço de seu prato à boca e sorriu ao sentir os olhos de Hermione em seus lábios, observando cada etapa de sua mastigação e deglutição.

Depois dos momentos tensos antes do almoço e do brinde à mesa, a morena parecia determinada a mostrar à francesa do que o amor delas era feito. Muitos foram os toques, os olhares e os sorrisos encaixados entre palavras ao pé de ouvido e risadas entregues aos demais. Por mais que estivessem cercadas de pessoas, Hermione parecia enxergar somente Fleur.

E a francesa não ficava atrás em suas demonstrações. Por mais que não importasse, ela queria que Jane e Edward Granger ao menos a respeitassem como uma igual, não queria que eles a associassem a Daphne Greengrass.

No momento, o casal estava na cozinha, conversando animadamente com Molly e Ginny. Fleur lutava para engolir os últimos pedaços de sua torta, ao mesmo tempo que tentava se desvencilhar de Hermione que, sentada em uma das cadeiras do cômodo, a abraçava pela cintura e a puxava para o colo. Ela terminou de mastigar e, urgente, disse:

— Deixe-me ajudar com a louça, s’il vous plait...!

— Eu já disse que não, Fleur! Hoje, você é uma convidada. — Molly exalava felicidade e gentileza. As palavras dela provocaram um discreto revirar de olhos de Ginny que, no momento, secava as louças limpas com um ar entediado. O olhar da ruiva se encontrou com o do casal e elas se entenderam ali. Por isso, Fleur fez menção de insistir na ajuda, mas, sentiu um beliscão em sua cintura e a risada da morena em seu ouvido, Hermione suspirou e disse:

— Não insista ou Molly vai acabar tocando eu, você e Ginny daqui...

— Não é justo que eu não possa ajudar. — Fleur tinha teimosia em suas palavras, mas, o seu corpo se aconchegou junto ao da advogada, naturalmente. Ela se deixou ser abraçada e abriu um sorriso ao receber um beijo no pescoço, o fio de seus pensamentos se perdendo no exato momento em que os lábios tocaram a sua pele. A morena respirou de encontro à pele pálida e continuou:

— Você já fez a sobremesa, isso é muita coisa para Molly Weasley.

A francesa concordou com a cabeça enquanto sorria e os seus olhos observaram a postura cansada, mas, estonteante da matriarca ruiva. Era inacreditável que, há alguns meses, essa figura despertasse irritação e temor em si. E era ainda mais surpreendente que, hoje, tudo estivesse se encaminhando para um final feliz.

Com braços calorosos lhe abraçando, ela se permitiu fechar os olhos, concentrando-se no ritmo da respiração de Hermione as suas costas. A advogada afagava cada pedacinho de pele perolada que encontrava, tocando-lhe os dedos e as mãos, em um ritmo familiar e que sempre fazia com que se sentisse protegida. Fleur sabia que poderia adormecer ali e, de fato, teria se a voz sarcástica de Ginny não chegasse aos seus ouvidos:

— E eu pensando que Bill e Cedric fossem melosos...

A risada liberta de Hermione chacoalhou o seu corpo e inflamou o seu peito para fazer o mesmo. As duas riram enquanto Ginny também as acompanhava, dando uma piscadela, reforçando o clima leve entre elas. Fleur deixou-se guiar pelos sua intuição e logo, as suas mãos estavam entrelaçadas às da morena e o seu corpo totalmente entregue ao abraço do qual jamais queria sair.

Novamente, de olhos fechados, ela se entregou para a cumplicidade daquele momento. Ela respirou fundo, sentindo o perfume amadeirado misturar-se ao seu feito de lavanda, aromas destoantes que se encaixavam quase que em perfeição, como as duas e que resistiam, cada um a sua forma, ao que vinha do lado de fora.

E nesse exato momento, algo veio, literalmente, do lado de fora. Jane Granger abriu a porta vinda dos jardins, estava sozinha, mas, tinha uma expressão determinada no rosto. De imediato, Fleur sentiu o corpo de Hermione tencionar junto ao seu e, corajosa, não se mexeu.

Que Jane as visse como elas realmente eram.

— Nós já estamos voltando, Jane... Só nos perdemos na louça suja. — Molly comentou educadamente, postando-se em frente ao casal e à filha. Por mais que existisse polidez em sua voz, os olhos escuros estavam agressivos e desafiavam a recém-chegada. Contudo, a Sra. Granger era uma mulher tão teimosa quanto à filha e, com um sorriso singelo, ela respondeu sem pestanejar:

— Claro. Mas, eu e Edward precisamos tomar a van de volta para Londres. E eu gostaria de ter uma conversa com Fleur e Hermione antes de ir...

— E vocês têm o que conversar? — Ginny perguntou irritadiça, o que acentuou a tensão na cozinha e, também, lhe fez ganhar um beliscão da mãe. A caçula Weasley grunhiu para a agressão e, depois, não escondeu o olhar feio para Jane. Molly levou as mãos à cintura e olhou, como se pedisse permissão, para Fleur e Hermione.

E as duas permaneciam juntas e só foram se afastar agora. A francesa foi a primeira, desvencilhando-se dos braços morenos que custaram a libertá-la. A advogada, por sua vez, permaneceu sentada e com a expressão fechada. Ela levou a mão a testa e, cansada, respondeu:

— Nós temos o que conversar, só dependemos do assunto... Não é, mãe?

A voz dela carregava seriedade porque, afinal, o assunto era delicado. Contudo, a loira percebeu a discreta esperança contida naquelas palavras. Hermione ainda esperava por compreensão e, principalmente, pela confiança dos pais. Fleur detestava o fato das duas terem começado de uma forma tão atribulada que fazia os pais da outra duvidarem da veracidade do que sentiam...

Porém, qual era o amor que começava limpo e puro?

Essa vida não era um conto de fadas e as duas sabiam disso melhor do que ninguém. Elas não puderam evitar encontrar o amor quando sofriam uma traição e uma separação, o amor que nasceu nelas não pediu licença para os seus problemas e as suas desavenças... Pelo contrário, esse amor entrou com tudo, arrombando portas e derrubando paredes, esquecendo-se da ética e transformando amargura em felicidade. Esse amor as remendou em meio a novas cicatrizes e novos sangrares para, somente agora, ser capaz de, apenas, curar.

E não era justo que outras pessoas, quaisquer que fossem, duvidassem do poder e da veracidade desse sentimento. Existiam muitas outras coisas que não faziam sentido naquela vida... Mas, esse amor, para Fleur e Hermione, era a coisa mais racional e verdadeira que elas tiveram em muito tempo.

— Eu venho em paz, prometo, minha filha. — Jane sussurrou e, talvez, somente, a morena tenha escutado. Então, Molly e Ginny lançaram os últimos olhares de preocupação antes de saírem da cozinha e, assim que a porta bateu suavemente, o silêncio se instalou entre as três. Fleur não conseguiu conter a sua necessidade por vinho e serviu-se de uma taça generosa de tinto seco, Hermione não a repreendeu.

Nenhuma delas parecia disposta a falar. Fleur tentava se concentrar no sabor do vinho, mas, a amargura destruía o gosto. Jane olhava fixamente para filha e, em intervalos cada vez mais próximos, também olhava para francesa. Por fim, a morena se cansou de esperar e, impaciente, perguntou:

— Ainda há algo que queira dizer?

— Sim, há muito... — Jane, assim como a filha, não conseguia segurar o temperamento por muito tempo e estava às claras. Não existia nojo ou julgamento ali e essa ausência de expressão era ainda mais assustadora. Fleur tomou todo o conteúdo da taça e colocou-a com uma força desproporcional na mesa. O som atraiu a atenção da mulher mais velha que a olhou antes de continuar. — Eu não conheço toda a história de vocês e não sei se, um dia, chegarei a conhecer... Mas, não me agrada que comecem justamente da mesma forma que tudo começou com a outra.

A surpresa transformou as feições de Hermione. Em um minuto, ela estava esgotada emocionalmente e, no outro, ria incrédula para o que a mãe dissera. Jane a olhava ofendida enquanto Fleur tentava pensar, além da névoa do álcool, em uma boa resposta para aquele comentário. Talvez, tenha demorado demais porque a morena já tomara a frente, vociferando:

— A senhora não tem a menor ideia do que fala! Fleur não é Daphne Greengrass e os Weasley não são os Malfoy. É loucura compará-los!

— Eu não estou comparando, não cabe a mim isso. É você que tem que pesar a semelhança dessas duas situações, minha filha! — A voz de Jane se ergueu algumas oitavas e ela olhava fixamente para a sua cria, um olhar duro e reprovador. Fleur respirou fundo, ela não precisava de mais uma crise familiar depois de tudo que passara... Na verdade, Hermione não merecia passar por aquilo. Por isso, ela saiu de seu torpor e tocou a mão da morena quando essa estava pronta para revidar. Foi a vez da francesa tomar à frente, em toda a sua majestosidade e beleza, bastou um encontro de olhares com a outra para inflamar-se de coragem e dizer:

Pardon, Madame Granger. Eu disse que ia respeitar a decisão de Hermione, desde que isso a fizesse feliz. Se continuarmos seguindo esse caminho, uma de nós deixará de existir para ela... É isso que quer?

Os olhos azuis estavam elétricos, procurando respostas imediatas para perguntas tão difíceis. Fleur manteve a postura firme, crescendo à medida que Jane se encolhia e fugia de seu olhar. A senhora abaixou a cabeça e pareceu pensar por longos segundos, ao erguer-se, tinha um olhar mais fragilizado, contudo, as palavras ainda eram endurecidas pela desconfiança:

— Eu não quero que Hermione se perca, de novo.

— Ela não vai, eu não vou deixar. — Fleur respondeu resoluta e intensa, olhando por cima do ombro e vendo Hermione se aproximar, entrelaçando as mãos em um gesto que representava mais do que união... Era uma promessa. Por ironia do destino, elas estavam proferindo votos de eternidade na frente de uma pessoa que não parecia disposta a ouvi-las. A morena deu mais um passo, parando lado a lado com a francesa, antes de dizer:

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— Fleur jamais me prometeu o que não podia me dar e essa sinceridade já a torna muito diferente de Daphne. O que eu sinto por ela é muito maior do que qualquer coisa que eu tenha sentido antes... E se a senhora não acredita no que escute, procure enxergar o que eu e ela temos.

Os olhos de Jane foram, imediatamente, para as mãos entrelaçadas. Em seguida, voltaram a se erguer e olharam de uma para a outra, demorando-se nos olhares fortes e intensos. Por fim, a senhora agitou a cabeça negativamente e, diretamente para Fleur, disse cautelosa:

— Eu aguardo ansiosamente pelos dias mais tristes e nublados, chef Delacour.

A francesa acenou afirmativamente com a cabeça. Era um estranho voto de confiança travestido de ameaça, mas, já era algo... Hermione parecia confusa com as palavras da mãe, ainda assim, aceitou o beijo que foi lhe dado na bochecha.

Tão rápida quanto surgira, Jane Granger desapareceu porta fora. Ela e o marido acenaram a todos antes de irem embora. E, antes que fossem rodeadas por perguntas, a morena arrumou razão em meio a confusão e perguntou:

— O que aconteceu?

— Não importa, chérie... De fora, nada importa. — As palavras de Fleur chegaram em meio a um abraço apertado. Em meio ao calor e ao conforto, ela deixou que uma lágrima caísse.

Jane confiara a filha a ela... E essa era a maior prova de confiança que a francesa recebera.

E fazer Hermione feliz era a maior prova de amor que ela poderia conceder.

A noite caiu em Ottery St. Catchpole. O vento que vinha do mar deixava a atmosfera refrescante e ligeiramente fria, os lampiões amarelados foram acesos na praça central e, aos poucos, as luzes das casas também se faziam vivas em meio a calmaria do pequeno povoado.

Pelas ruas de pedra, poucos caminhavam. O que chamava a atenção para o casal que andava junto, em perfeita sincronia, com destino ao pequeno restaurante localizado na rua adjacente à praça.

Hermione desistira de entender o que a conversa com a mãe significara e confiara na palavra de Fleur, aparentemente, tudo estava resolvido. Por isso, ela se deixava caminhar para onde a francesa quisesse ir, depois de tudo, o tempo parecia ser eterno para as duas.

Com surpresa, ela viu Fleur girar a chave na fechadura da porta do La Petite Mort. Aparentemente, Bill pedira para a francesa passar ali à caminho do Shell Cotage. Ambas estavam cansadas, mas, a chef era responsável demais para deixar o restaurante sem cuidado por apenas um dia que fosse.

Por isso estavam ali. Fleur acendeu as luzes do salão e caminhou até o caixa e, depois, até a cozinha. E Hermione abaixou uma das cadeiras, jogando o corpo cansado sobre ela, disposta a manter os olhos abertos. Ali, naquele lugar, ela viu Fleur através da pequena abertura que levava à cozinha, por onde vinham os pratos no expediente normal.

A francesa checava os aparelhos domésticos, os passos dela ecoando pelo restaurante silencioso, além desse som, só os barulhos do pub que Ronald e os demais garotos frequentavam se fazia audível à distância. Fleur parecia pertencer àquele local, fundindo-se aos azulejos da cozinha e à madeira no salão. Tudo naquele restaurante remetia a ela e essa impressão era algo que Hermione tivera consigo desde a primeira vez que colocou os olhos nela.

A beleza física latente, a força interior desproporcional para uma mulher terrena que mais parecia uma deusa. Uma mulher tão bela que conseguia transformar o mundo ao seu redor por meio do sabor.

Uma mulher que, a príncipio, afastou-a com aqueles olhos azuis elétricos.

Olhos hipnotizantes, selvagens... Apaixonantes.

Olhos que, agora, a olhavam em meio à parca iluminação do restaurante pelo qual tanto brigaram e lutaram. A sobrancelha dourada arqueou-se em direção a Hermione que ruborizou, mas, não se escondeu. Estava sendo invadida por uma onda de nostalgia e, com um acelerar de seu coração, constatou que, dessa vez, Fleur caminhava em direção a sua fronte e não, as suas costas.

Elas estavam em equilíbrio agora e não mais travavam uma guerra de personalidade tão opostas e que tanto se atraíam.

Quando a francesa estava próxima, Hermione estendeu a mão, apanhando-a em meio passo, trazendo aquele corpo esguio e alto, que tanto despertou a sua curiosidade naquela primeira impressão, para perto de si. Os seus lábios encontraram o abdomen francês e ali beijaram, por cima do tecido da roupa, um gesto cheio de intimidade apesar dos obstáculos. A risada de Fleur soou acima de si, muito mais agradável do que o tom de voz amargo com o qual foi recepcionada há meses... Em seguida, sentiu os lábios finos sussurrarem de encontro aos seus cabelos:

— O que foi, mon amour?

— Nada demais... Só lembranças da primeira vez que nos vimos. — Hermione respondeu em meio a uma risada, erguendo o rosto para a outra que, agora, segurava a sua mandíbula com ambas as mãos e sorria, talvez, para as suas próprias memórias daquele dia. A morena segurou as mãos que a ancoravam e beijou cada uma das palmas. Fleur suspirou e, divertida, disse:

— Eu imagino que tenha muito o que lembrar... Você não tirou os olhos de mim nem mesmo quando eu lhe dei as costas.

— Não posso evitar, as suas costas são lindas. — A resposta veio de forma tão clichê que a morena viu-se rindo antes de terminar de falar. Mesmo assim, ela ficou em pé e dedilhou as costas magras e elegantes, evidenciando o seu argumento enquanto beijava os ombros de Fleur que contorcia-se, com cócegas. As risadas dela ensurdeceram o mundo do lado de fora e Hermione se viu rindo junto, extasiada com as lembranças preciosas que ousara possuir.

— Eu não consegui deixar de pensar nos seus olhos, desde aquela noite. — Fleur confessou, erguendo o rosto de Hermione e beijando-a demoradamente nos lábios. Ainda próxima a eles, sorriu e a morena sentiu o movimento em sua própria boca, não precisou de muito esforço para fazer o mesmo. — E não consigo viver sem eles desde então.

E como se aqueles olhos castanhos tivessem vida própria, eles se enrolaram aos azuis e ali permaneceram, com as suas donas respirando o mesmo ar e sorrindo a mesma felicidade. Por fim, Hermione afastou-se e beijou a base da mandíbula de Fleur, demorando-se ao delinear aquela linha bem desenhada com os lábios, antes de sussurrar:

— O que seria de mim se não tivesse vindo para cá?

— O que seria de nós se você não tivesse insistido em mim? — Fleur retrucou com um sorriso divertido nos lábios, beijando a morena seguidas vezes antes de abraçá-la apertado. As mãos encontraram pontos de encaixe em cinturas e pescoços e elas montaram aquele enlace como se fosse um quebra-cabeça de peças certas e únicas.

Elas se procuraram por tanto tempo e foram se encontrar em meio a um divórcio, existia uma ironia maior do que aquela? Elas eram a prova de que o amor não era para qualquer um.

Hermione se afastou sem se desgrudar, os olhos castanhos procurando, como sempre, a luz cerúlea nos olhos da outra. Ao encontrá-la, a morena suspirou e disse com seriedade:

— Eu espero nunca ter que responder a essa pergunta.

— Você não vai. Nós não vamos responder a essa pergunta, jamais, mon amour. — Fleur respondeu com tanta certeza que a advogada se perdeu na sinceridade contida naquelas palavras. A nostalgia continuava acelerando o seu coração, lembrando-se da noite do festival em que quase cederam ao desejo...

E elas poderiam ceder ali, naquele exato momento.

Contudo, essa noite parecia ser feita de muito mais. Porque as mãos não se perdiam e os olhares não fraquejavam. No silêncio, elas apagaram as luzes e trancaram o La Petite Mort antes de enfrentarem, novamente, a noite de Ottery St. Catchpole.

E conforme elas caminhavam em direção à praia, Hermione pensava em todos os caminhos que a levaram até aquele fim. A sua carreira judicial e um caso que foi resolvido com amor, a sua solidão em Londres e a sua casa naquele pequeno povoado...

Um amor que atravessou um mar, em meio ao sal de lágrimas amargas e enfrentou tempestades na capital londrina. Um amor que poderia ter acabado em uma história de família não contada, mas, que se fortaleceu em um soco bem aplicado.

Um amor que reuniu famílias e inspirou perdões.

Um amor que elas jamais pensaram existir quando se viram pela primeira vez e que hoje, era o que as movia através da vida.

Antes de virarem em direção à orla, Hermione se forçou a parar e deu uma última olhada para trás, naquela noite. Os contornos do La Petite Mort lhe eram familiares mesmo àquela distância, assim como as curvas do corpo de Fleur sempre seriam conhecidas na escuridão das noites que já dividiam.

Aquele local mudara a sua vida e a dona dele, mudara quem era.

— O que foi, mon cher? — Fleur sussurrou baixinho para a noite e Hermione apertou-lhe a mão, assegurando que tudo estava bem. A francesa lhe sorriu, iluminando a noite e o caminho delas até o chalé que dividiram.

Parecia o fim de tudo quando, na verdade, era o começo delas.

As constantes permaneceriam... As famílias, Ottery St. Catchpole, o La Petite Mort e, sobretudo, o que elas descobriram entre processos judiciais, vinhos e gastronomia.

Tudo era uma desculpa para lembrá-las que o amor ainda era o prato mais saboroso que a vida poderia oferecer.

FIM (?)

Notas finais
Como puderam ver, esse capítulo foi um fim, literalmente. Eu espero que tenham gostado tanto quanto eu gostei de escrever... Afinal, pesquisar sobre gastronomia, vinhos, França e etc foi um sonho, um daqueles que só o ato de escrever nos proporciona. E, para escrever, eu sempre precisarei de vocês e por isso que agradeço a todos. Sejam aqueles que ficaram desde o começo ou aqueles que pegaram entre as demoradas atualizações. Também agradeço aos que comentaram e recomendaram sempre, assim como aqueles que ficaram na moita, apenas aguardando os meus ressurgimentos... Hahahaha É muito difícil escrever e, tratando-se de um ship tão desconhecido como Fleurmione, é mais complicado ainda. Eu espero que tenham gostado e que tenham se deliciado com essa história sobre amor, família e perdão. Já tenho uma outra Fleurmione sendo postada, essa no universo canônico de Harry Potter, chamada The Blackest Day e confesso que tenho alguns projetos programados... Veremos se eles vão sair. No mais, muito obrigada pelo carinho de vocês e nos vemos no epílogo. Beijos, Fernanda Redfield.