La Petite Mort

31 Epílogo: Ter e pertencer


Notas iniciais
Olá! Sim, eu tenho vergonha na cara e volto depois de meses... Espero que não estejam tão magoados :( Bem, eu resolvi finalizar La Petite Mort depois de muito tempo e espero que estejam felizes com isso. O Epílogo está extremamente nostálgico e espero que se sintam felizes pela jornada, assim como fiquei ao escrevê-lo. Boa leitura!

Um ano depois.

O amanhecer despertou tranquilo em Ottery St. Catchpole. Era o começo de um dia de sol, por mais que a temperatura estivesse baixa e já indicasse como seriam o outono e o inverno daquele ano. Não havia chuva nem ventania e o tempo aberto motivava quem ousava acordar tão cedo.

Hermione abriu os olhos castanhos em um rompante, não era um sonho ruim que a acordara e sim, a ausência na cama. Fleur, como nas outras noites no começo daquela semana, acordara mais cedo ou, sequer, dormira. A morena tentava compreender a ansiedade que cercava a chef francesa, contudo, não acreditava que existia razão para tanta preocupação.

Claro. As famílias Delacour e Granger chegariam mais tarde para aproveitarem o Festival Anual. A relação de Fleur com Jane Granger ainda não era totalmente satisfatória, mas, as duas percorreram algum caminho desde a pequena confusão no sobrado dos Weasley. E os Delacour eram apaixonados por Hermione.

Não havia o que temer, pelo menos, não nesse aspecto.

Contudo, existia outra coisa que assombrava Fleur desde que boatos chegaram a ela por meio de Phillipe e Lorena. Hermione não lembrava qual fora a última vez em que Fleur tivera uma noite de sono tranquila desde que a ficara sabendo que o restaurante estava sendo cotado para o Guia Michelin da Grã-Bretanha & Irlanda.

O guia turístico fora publicado pela primeira vez em 1900 por André Michelin, industrial francês dono da marca Michelin, fabricante de pneus, com o objetivo de promover o turismo para o mercado de automóveis. Os guias vermelhos são dedicados à gastronomia e degustação e a classificação contida neles, mediante estrita e secreta avaliação, podem ser o sonho ou o pesadelo de qualquer chef. Receber uma estrela significava o céu, possuir três era o paraíso, mas, perdê-las... Fora de cogitação.

Enquanto a Cuisine Delacour possuía duas estrelas no Guia Michelin da França e lutava, bravamente, pela terceira, agora, sob o comando do chef Phillipe Delacour, o La Petite Mort só recebera uma menção de Prato Michelin, dada como recomendação aos usuários do guia.

Receber uma estrela significava ter a qualidade reconhecida e o nome exposto para todo o Reino Unido.

Quando essa notícia chegou aos ouvidos de Fleur, através do casal de primos que, por sua vez, soubera pela avó e seus contatos, Hermione presenciou uma pequena crise existencial na sua francesa. Ela pensou na responsabilidade e, sobretudo, no significado daquilo tudo. Ao mesmo tempo em que uma estrela estabeleceria a sua independência em relação a sua família tradicional, também significava o corte de mais um dos laços que ainda a unia aos Delacour.

De um lado, a tradição e do outro, a emancipação.

Claro que os demais Delacour não enxergavam dessa forma e a advogada percebia que todos apoiavam esse voo solo que Fleur ameaçava dar. E, surpreendentemente, Grand-mère Eponine era a mais animada e, também, a mais exigente. A matriarca estava orgulhosa do caminho trilhado pela sua neta preferida e dizia, a quem quisesse ouvir e em todas as chamadas de vídeo que realizaram desde então, que a quase herdeira estava mostrando a cozinha verdadeira aos britânicos.

Hermione pouco entendia a respeito dessa avaliação e tinha um raso conhecimento a respeito do Guia Michelin, mas, ela entendia Fleur muito bem e, por isso, assumira o papel de defensora e protetora que estava acostumada a desempenhar. Ela se manteve firme e paciente, respeitando os silêncios e as crises de humor da chef, perdoando as noites em que ela se perdia no La Petite Mort sem hora pra voltar para o chalé.

Eram dias complicados e noites difíceis. A advogada até percebera que se afastaram um pouco nesse período, nada que pudesse destruir o que tinham construído naquele ano de relacionamento. Aquela era só mais um turbulência e, como essa mesma relação lhe ensinara, uma hora tudo passaria e elas, inevitavelmente, encontrariam um final feliz.

Ainda assim, ela não conseguia deixar de respirar fundo e nem de fechar a expressão para aquilo que sugava a vitalidade da mulher mais linda que conhecia. Determinada a ser um porto seguro, Hermione se levantou da cama e enrolou-se em um robe de seda vermelha. O chão do chalé estava frio como sempre e ela demorou alguns segundos para se acostumar à temperatura.

Ao chegar aos pés da escada descalça, ela já estava ambientada com a fresca brisa marítima que adentrava pelas pedras da construção. Fleur não estava na cozinha nem na sala, o que levou Hermione aos degraus de pedra que separavam a casa da trilha e da areia. Ali, os olhos castanhos encontraram os contornos recurvados de Fleur, as costas recolhidas e escondendo toda a elegância natural que ela portava quando caminhava entre mesas e panelas.

Sem dizer muito e engolindo um bocejo, a morena se aproximou e tocou o ombro pálido. A francesa estremeceu assustada, antes de reconhecer os dedos que a apanhavam. Então, ambas sorriram para o dia que se abria diante delas e Hermione ocupou o pequeno espaço no degrau de pedra, sentando-se ao lado de Fleur. Ali, se aninhou no pescoço esguio e aspirou o cheiro de lavanda que perdera quando acordou sozinha.

Pardon, ma brune... Eu não queria acordar você. — Fleur sussurrou pesarosa, mergulhando nos fios castanhos que Hermione havia deixado crescer. A morena sentiu o cheiro ácido da nicotina entremeado à lavanda e afastou apenas o necessário para tomar um ar... Ela não tinha nem coragem de bronquear a francesa por causa do cigarro, ainda assim, a chef percebeu a gafe e atirou a bituca na pedra, remexendo-se para esmagá-la em seguida. — E pardon por isso também, eu não sabia o que fazer para me acalmar.

— Você tem todas as razões do mundo para fumar agora... Mas, quando isso passar, nós vamos ter uma conversa séria sobre esse vício. — Hermione grunhiu para o peito que oscilava em seu rosto, as suas mãos sonolentas tatearam os contornos conhecidos de Fleur, envolvendo a cintura delgada e apertando-a junto de si. Ao menos, a francesa foi capaz de rir musicalmente antes de retribuí-la e responder:

— Quando tudo acabar, o cigarro será a última coisa em que pensarei.

— Ah claro, você flutuará em um céu de estrelas com milhares de puxadores de saco ao seu lado. — As palavras saíram cheias de ironia e com um discreto ciúme que não passou despercebido pela razão dele. A chef arqueou a sobrancelha para o que ouvira e o sorriso não desapareceu de seus lábios, só mudou a natureza. Agora, era arrogante e tudo porque a possessividade da morena falara mais alto. E Fleur se orgulhava por pertencer àquela mulher, ainda assim, não pode deixar de retrucar:

— O monstrinho verde não fica bem perto de você, mon amour.

O revirar dos olhos castanhos foi inevitável e a risada que o acompanhou fez tudo valer a pena. Fleur esperara por essa reação e agora, até se sentia mais leve. Contudo, bem sabia que os seus ombros pesariam assim que pisasse no La Petite Mort e vestisse o seu dólmã.

E já fazia algum tempo desde que a gastronomia deixara de ser um fardo em sua vida.

As duas aproveitaram o silêncio do dia que se levantava, as ondas arrebentavam de encontro à praia e esse som combinava perfeitamente com as suas respirações em sincronia. O sono já chamava Hermione de volta e ela só não se entregou porque Fleur se mexeu. Claro que a francesa precisava ir, os dias dela no La Petite Mort começavam cada vez mais cedo.

— Eu daria tudo por mais algumas horas de sono contigo... — As palavras escaparam de Hermione, o que era normal quando elas estavam juntas. Fleur sorriu timidamente, o sorriso que ela reservava para a morena quando algo era dito e atingia um lugar especial dentro do seu coração. A advogada piscou algumas vezes e observou a francesa se levantar, dizendo:

— Eu também daria tudo para dormir tranquila ao seu lado... Mas, o dever me chama assim como nossas outras preocupações do dia.

De forma dramática, Hermione escondeu o rosto nas mãos e escutou Fleur rir pela segunda vez naquele dia, também sentiu o beijo carinhoso no topo de seus cabelos castanhos revoltos e o perfume de lavanda que ficou quando a outra se foi.

Raros eram os dias tranquilos em Ottery St. Catchpole. A morena sabia que, se analisasse, com certeza seria capaz de contar os poucos sem confusões ou mal entendidos naquele povoado que nem tinha tamanho para abrigar tanta balbúrdia. E o dia de hoje prometia, afinal, não era sempre que o clã Delacour deixava a França por completo.

Também não era sempre que Hermione estava pronta para mais uma sessão de drama Granger.

E ela começava a se sentir deixada para trás, tendo que lidar com toda aquela bagunça enquanto Fleur se refugiava em sua cozinha, nervosa, mas, protegida de todos os eventos dramáticos que poderiam acontecer. Por isso, a morena levantou-se de súbito, sentindo-se desperta e partiu em busca da francesa. Elas se encontraram quando uma saía pela porta da frente e a outra entrava pela de trás.

— Por que você pode ir trabalhar tranquilamente enquanto eu tenho que receber as nossas famílias? — A pergunta provocou um riso discreto na chef que abandonou a ação de abrir a fechadura e se dedicou inteiramente a sua companheira. Os olhos azuis cerúleos brilharam com diversão enquanto ela pigarreava e respondia calmamente:

— Porque você me disse que estaria livre hoje... E porque os meus pais amam você e os seus podem implicar menos se eu estiver ausente.

Os olhos castanhos se reviraram para a coerência da resposta, contudo, Hermione ainda precisava de mais para ser convencida e, talvez, a sua expressão incomodada tenha evidenciado isso porque, segundos depois, Fleur estava invadindo o seu espaço pessoal, beijando-a demoradamente nos lábios. Teimosa como era, a mais nova sussurrou ainda próxima à boca rosada:

— Eu espero ser recompensada depois.

— Você sabe que essa é a minha especialidade, chérie. — Lógico que a mais velha não se deixaria abalar por causa de algumas palavras grunhidas e descontentes. Era apenas um ano de relacionamento, mas, o bastante para se conhecerem bem, ainda mais depois de tudo que as duas tinham passado juntas.

O orgulho de Hermione raramente fraquejava, mas, Fleur era a única que conseguia dobrá-la inteira e ela sequer tinha forças para disfarçar que isso era possível. O que a francesa dizia e pedia, ela seria incapaz de negar.

Por isso, mais uma vez, ela cedeu e assistiu a sua mulher sair do refúgio que o Shell Cotage representava. Sozinha, ela procurou colocar a cabeça no lugar e despertar efetivamente. Portanto, naquela manhã, ela optou por uma bela xícara de café em vez da tradicional de chá.

Mais um dos dias atribulados de Ottery St. Catchpole começava e mesmo tão preocupada, ela sabia que o enfrentaria com uma coragem invejável apenas por aquela mulher que acabara de sair do lar que construíram.

Todo chef de cozinha gostava quando o seu restaurante estava cheio e faltava espaço para pensar em meio aos aromas, ao fogo e ao falatório. Fleur Delacour era uma das raras exceções que preferia o salão de seu local de trabalho em silêncio, com as cadeiras ainda erguidas e com as mesas não forradas.

Talvez, ela amasse tanto essa solidão porque a lembrava do que passara para construir aquele lugar.

Mas, os dias solitários ficaram no passado e ela ainda tinha dificuldades de lidar com tantas pessoas em sua vida. Os Weasley, a sua família, Harry, Hermione... Ainda era estranho ter tantos que se importavam com ela, mas, isso não queria dizer que era ruim.

A vida era muito mais doce quando havia amor.

Por isso, mesmo diante de toda a pressão causada pela possível avaliação para o Guia Michelin, ela ainda conseguia trabalhar com um sorriso no rosto. As noites mal dormidas se perdiam em meio à adrenalina de voltar à cozinha e dar o seu melhor. Fleur estava convencida de que nada mais poderia mudar o que sentia em relação a gastronomia e, principalmente, a Hermione.

Afinal, a morena estava sendo uma rocha inabalável em meio àquela tempestade que ameaçava desabar sobre as próprias águas. A francesa bem sabia que isso era pouco diante do que passaram para ficarem juntas e esse apoio imutável só provava quão sortuda ela era.

Hermione estaria ao seu lado independente do problema que se colocassem entre elas. Por isso, ela não poderia estar mais feliz trabalhando no que amava e tendo para quem voltar quando chegasse em casa.

Ela entrou no salão deserto e respirou profundamente, o cheiro da madeira das cadeiras e mesas, misturado ao aroma alcoólico da adega e ao discreto perfume das ervas para tempero na cozinha chegou aos seus pulmões, preenchendo-os e despertando-a para aquele dia atribulado que se anunciava no horizonte.

Fleur atravessou o salão do restaurante enquanto prendia os cabelos. Ao chegar à cozinha, enxergou o seu dólmã dobrado de forma elegante, com a bandana azul escura em cima do tecido branco. Provavelmente, Luna dedicara alguns minutinhos de seu horário de trabalho para que ficasse daquela forma e, lisonjeada, a chef sorriu. Em outra bancada, o seu conjunto de facas estava limpo e organizado, feito que ela atribuiria a Neville, com toda a certeza.

Ela nem sabia como reagir à dedicação de seus funcionários ainda mais depois dos últimos dias em que esteve intragável na maior parte do tempo. Provavelmente, Bill tinha relação com aquelas pequenas demonstrações de carinho e ela não sabia que precisava daquilo até recebê-lo. Aquele ruivo era imprevisível.

— Bom dia, chef! — A voz animada de Cedric a sobressaltou por alguns segundos e, por isso, ela o procurou com a expressão fechada. Já ele, vinha sorridente ao atravessar o salão, com Bill alguns passos atrás. Os olhos cinzentos do garçom brilhavam divertidos e ela sabia que esse demonstraria o carinho por ela de uma forma não convencional. — Foi um sorriso que eu vi nessa carinha fechada?

— Não há necessidade de implicar com ela, querido... Bom dia, Fleur. — Bill bronqueou com um sorriso enquanto a alcançava, beijando-a carinhosamente na testa. Fleur fechou os olhos para o beijo dele e depois, suspirou. Ele ainda a abraçou e, sentindo-se mais protegida daquela forma, ela respondeu ao outro:

— Bom dia! E fico feliz por ainda ter alguns bons funcionários que se importam com o meu bem estar, Cedric.

— Ah, o drama francês... Tão triste! — O moreno continuou implicando, mas, com um sorriso nos lábios. Mesmo tão brincalhão, ele empurrou Bill para que pudesse abraçá-la e quando a francesa entendeu o que acontecia, estava sendo engolfada no abraço do casal. Eles a apertaram e ela sentiu como se a pressão estivesse se dividindo entre eles.

Ela ainda não entendia as relações que tivera sorte de manter em sua vida, mas, aquilo, aparentemente, era o que uma amizade significava, mesmo com o trabalho se colocando entre eles.

O trio desfrutou do abraço e só se separou quando Cedric decidiu abaixar as cadeiras no salão, era uma desculpa delicada para permitir que Bill ficasse sozinho com a ex-esposa. Fleur ocupou-se de colocar o dólmã e a bandana enquanto o ruivo a observava, de braços cruzados. Ele suspirou de forma teatral e perguntou verdadeiramente preocupado:

— Como você está hoje?

— Eu não dormi na maior parte da noite e acordei quando o sol sequer se erguera... Mas, estou bem. Não tenho motivos para perder o controle... Ainda. — A francesa até conseguiu sorrir trêmula no fim da resposta, por mais que as palavras não soassem muito assertivas, ela realmente se sentia bem. Era bom saber que não estava sozinha. Bill sorriu discretamente para resposta, ele parecia satisfeito com o que obtivera, ainda assim continuou:

— E Hermione?

— Compreensiva como sempre, praticamente, uma deusa. — Aqui, as palavras saíram sinceras e apaixonadas e o sorriso não tinha qualquer sombra o encobrindo. A simples menção à existência de Hermione provocou um sorriso aberto e brilhante nos lábios finos. Bill, agora, riu roucamente e ela arqueou a sobrancelha para ele. Os dois trocaram um olhar significativo e ele, maldoso, sussurrou:

— Eu não sei se quero saber o que aconteceu quando chegou em casa ontem.

— Pois saiba que nada aconteceu e eu pouparia você dos detalhes. Eu ainda o respeito, diferentemente de você e Cedric que praticamente se comiam na minha frente! — Ela também sabia ser cruel, mesmo quando se tratava de uma brincadeira e agora, Bill estava tão vermelho quanto os próprios cabelos e ela gargalhou deliciada pelo que provocara. Ele agitou a cabeça e apontou o dedo na direção dela enquanto dizia:

— Eu ainda sou o seu sócio e posso muito bem acabar contigo.

— Como se você tivesse coragem de mandar embora a maior atração desse restaurante... — Fleur respondeu charmosa, piscando o olho de forma sedutora enquanto Bill simulava uma crise de vômito. Em seguida, ela revirou os olhos para ele e o ruivo voltou a se aproximar, abraçando-a apertado enquanto falava conspiratório:

— Não deixe a minha mãe ouvir você.

— A sua mãe me ama agora, Weasley... Ela, com certeza, diria que eu estou certa. — Aquelas palavras ainda tinham uma natureza de alívio quando eram pronunciadas. Fleur se acostumara, mas, ainda se surpreendia com a atual relação com Molly Weasley. No passado, a matriarca ruiva seria capaz de tudo para derrubá-la e, atualmente, era capaz de defendê-la com todas as armas que possuía. Era estranho, mas, Molly enxergava uma filha de profissão nela e a chef se sentia orgulhosa disso.

Quando ambas abandonaram todos os preconceitos que as dividiram, elas aprenderam muito juntas e aquele espaço que dividiam era a prova disso. Por mais que o La Petite Mort chamasse a atenção de novos clientes curiosos por aquele pedacinho da França localizado no litoral do Reino Unido, a volta do Molly’s Kitchen trouxera antigos clientes que, por sua vez, ousaram experimentar a gastronomia francesa que ali, na simplicidade do estabelecimento misto, não era cara nem afetada.

No fim, elas esqueceram todas as diferenças, históricas e familiares, entre franceses e ingleses e criaram um ambiente de convivência movido à comida e, sobretudo, a amor.

— Um ano se passou e eu continuo tendo dificuldades para aceitar esse final feliz que se materializou para a gente... — Bill comentou realizado, os olhos castanhos dele contemplavam o estabelecimento com orgulho e Fleur percebeu que ele se demorou quando observou o salão, onde Cedric trabalhava. Ela sorriu para a felicidade dos dois que ainda a enchia de orgulho, nem em seus sonhos mais otimistas, ela imaginava que podia terminar tudo tão bem. — Não que eu não nos ache merecedores, ainda mais depois de tudo que passamos... Mas, há um ano, sequer imaginávamos receber os Delacour aqui.

Fleur acenou com a cabeça, concordando com o que ele dizia. Em seguida, a sua mão elegante o procurou e ele, de forma familiar, a abraçou apertado. Aqueles toques eram familiares e podiam remeter a uma época que já passara para eles, mas, ambos sabiam que o sentimento contido ali era praticamente o mesmo... Era amor, independente da natureza.

Os dois permaneceram abraçados, a francesa desfrutando daquele abraço que sempre parecia seguro para ela. Ela fechou os olhos e sentiu que, talvez, Bill fizesse o mesmo. A ligação entre eles poderia parecer confusa aos olhares dos outros, essencialmente, de muitos habitantes de Ottery St. Catchpole, contudo, eles se entendiam e as pessoas que os cercavam também e isso bastava.

O ex-casal foi interrompido pela sineta da porta do restaurante, Fleur caminhou até a janelinha por onde os pratos prontos eram entregues aos garçons e inclinou o corpo para ter uma visão melhor do salão. Ainda era muito cedo para o almoço, mas, grupos de turistas podiam aparecer para um brunch e quando isso ocorria, Fleur tinha que se virar para atender às necessidades deles.

Para a sua surpresa, não era um grupo que acabara de entrar em seu restaurante e sim, uma mulher. Madame Rosmerta tinha as bochechas rosadas e parecia ligeiramente ofegante ao cumprimentar Cedric com dois beijos nas bochechas. Imediatamente, Fleur virou-se para Bill enquanto apanhava um avental azul escuro, da cor da bandana, amarrando-o à cintura. Eles trocaram um olhar desconfiado antes de ela sair pela porta da cozinha.

— Ah Fleur, bom dia! Que bom encontrá-la aqui! — A francesa tinha ciência da beleza que possuía, mas, sabia que a mulher a sua frente era tão bonita quanto e isso até a afetava, de certa forma... Fleur não negaria que ficara feliz quando o trabalho de Hermione com a mais velha acabara. As duas dividiam opiniões no povoado, homens e mulheres tinham dificuldade em estabelecer qual delas era mais atraente. A francesa abriu um sorriso, cheio de suspeitas e cumprimentou:

Bonjour, mademoiselle Rosmerta! O que a traz tão cedo?

— Boas notícias, não se preocupe! — Rosmerta respondeu com um sorriso caloroso que não falhava em demolir qualquer suspeita que existisse em relação a ela. Fleur se viu desarmada, abandonando a suspeita inicial. Bill chegara às duas e cumprimentara a empresária com a mesma afeição que Cedric. — Eu sei que vocês estão à espera de alguém do Michelin e eu desconfio que alguém assim tenha feito check in em minha pousada há menos de meia hora.

Fleur não conseguiu reagir àquela informação, na verdade, ela sentiu que o seu cérebro tentava digerir o que escutara sem fazer um alarde ou uma cena. A primeira coisa que pensou foi que Madame Rosmerta estava enganada porque eles estavam em pleno período turístico no povoado, contudo, ela bem sabia que as visitas dos jurados do Guia Michelin geralmente eram de surpresa, em situações como aquela, procurando avaliar um restaurante nos momentos mais desafiadores. Em segundo lugar, ela tentava controlar os seus nervos que começavam a falhar.

Bill ficou eufórico ao seu lado, ela pode ver. Ele abriu um dos muitos sorrisos calorosos dele enquanto Cedric fazia o mesmo. Foi ele quem se adiantou e pediu um café ao parceiro enquanto sentava-se a uma das mesas semi-montadas no salão. Fleur se aproximou quase em transe e o escutou perguntar curioso:

— Você tem certeza disso, Rosmerta?

— Absoluta, não... Mas, as minhas suspeitas são fortíssimas. Hermione comentou comigo, brevemente, sobre como esses jurados agem e eu acho que tenho uma entre os meus hóspedes. — A mais velha estava entusiasmada como Fleur deveria estar. Porém, a francesa estava se mantendo fria e racional, algo que aprendera com a morena ao longo dos meses juntas. A menção ao nome de Hermione a ajudou a pensar melhor, os olhos azuis estavam elétricos agora enquanto ela esperava pelo complemento da resposta. — O nome dela é Rita Skeeter. É uma jornalista, ela diz que veio de Londres para escrever sobre o festival. A estada dela é para o fim de semana e ela tem pouquíssima bagagem. Uma das primeiras coisas que me perguntou era se eu conhecia algum lugar para tomar refeições no povoado, como estava avisada e desconfiei dela de primeira, logo recomendei o La Petite Mort.

— E ela perguntou algo a respeito de quem gerenciava o local? — Fleur perguntou calmamente, considerando a descrição da tal repórter. Realmente, se encaixava nos perfis dos jurados do Guia Michelin que ela conhecera e, bem, ela esperava por aquilo desde que recebera a informação da França. Não deveria e nem poderia estar tão nervosa. Madame Rosmerta pareceu ficar feliz por ela ter decidido participar da conversa e continuou, animada:

— Sim e eu disse que tínhamos muito orgulho de ter uma chef francesa talentosíssima na cozinha do restaurante.

Fleur sentiu o calor em suas bochechas e abaixou a cabeça quando sentiu o sorriso incontrolável chegar aos seus lábios finos. Ela podia lidar com os elogios a sua aparência de forma bem blasé, ainda mais agora que estava comprometida, contudo, os elogios a sua cozinha sempre a deixariam com vergonha. Afinal, mais do que algo de família, era quase tudo aquilo que a definia.

O café chegou e Cedric juntou-se a eles. Bill trocou mais algumas palavras com Madame Rosmerta até que ela se levantou, os três a acompanharam e antes que ela pudesse sair, ela abraçou cada um deles, mantendo-se ligada a Fleur, por último. Então, segurando a mão dela com carinho, disse encorajadora:

— Não tema, Fleur... Todos nesse povoado sabem do seu talento e não será uma mençãozinha em um guia turístico que mudará isso.

A francesa voltou a sorrir e até mesmo se sentiu mais forte. Porém, assim que Rosmerta atravessou a praça e ela se virou para os seus dois amigos, ambos a olhavam com desconfiança. Cedric, sempre o mais extrovertido, disse com um sorriso orgulhoso:

— Pronto, pode surtar, chef! Eu prometo que vou tentar fazer de tudo para isso dar certo!

— Nós precisamos de frutas, legumes e carnes do dia. E também precisamos de todos aqui...! — Fleur começou a andar de um lado para o outro, enumerando tudo que era necessário em um discurso rápido e sem controle. Algumas palavras em francês até escaparam em meio ao frenesi. Bill a apanhou no meio da quinta volta e segurou o rosto dela entre as mãos calejadas, ele sorriu e beijou-lhe a testa, ao dizer:

— Vai dar tudo certo e você vai arrasar!

E ela pensou que, provavelmente, deveria começar a trazer um pouco daquele tradicional orgulho Delacour à tona. Nos olhos excitados de Bill e Cedric, ela encontrou o apoio que precisava. Ela não era essa pessoa temerosa e receosa. Ela era neta de Éponine Delacour e faria aquele nome valer tanto quanto valia no Velho Continente.

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A entrada de Ottery St. Catchpole continuava a mesma após um ano, porém, os sentimentos que inspirava eram muito diferentes daqueles que Hermione sentiu quando viu os contornos do povoado pela primeira vez. Ela chegara aquele povoado charmoso e esquecido na costa pedregosa da ilha da Grã-Bretanha disposta a curar um coração quebrado e a ganhar mais um caso que aparentava ser difícil...

Nem nos seus sonhos mais exagerados, esses que ela não costumava sonhar, ela poderia imaginar o que tinha agora. O trabalho entregou o tipo de amor que ela não pensava existir, cheio de dificuldades e provações, personificado na pessoa de uma francesa tão teimosa quanto linda.

E esse sentimento era tão cheio que, mesmo agora, distante de Fleur, ela conseguia abrir um sorriso ao contemplar o horizonte e a estrada estreita que abria para a cidade. A morena não conseguia se ver em outro lugar que não fosse aquele, Londres e suas noites pareciam anos-luz passados diante do que tinha agora.

O amor a fez ficar, a paixão renovada a cada dia lhe fez aceitar uma vida tranquila e sem dramas. Quer dizer, depois de tudo que ela e Fleur passaram, um pouco de paz era o que mereciam e por mais que uma tempestade pudesse se formar no horizonte delas com toda a tensão que uma avaliação do Guia Michelin e um encontro familiar pudessem provocar, ela não tinha medo. Nunca tivera desde que ficara ao lado da francesa.

Alguns quilômetros adiante na estrada, os olhos castanhos enxergaram um elegante SUV preto com vidros escuros sendo seguido por um sedan prata. Os dois carros viajavam em ritmo constante e Hermione levantou-se do banco no ponto de ônibus. Em seu bolso, seu celular vibrou para uma mensagem que, como previra segundos antes de lê-la, era de Lorena.

Os Delacours estavam chegando.

Mais nervosa do que seria capaz de admitir, a advogada digitou uma resposta rápida, detalhando que já os esperava, o pé direito batia nervosamente nos cascalhos que constituíam a calçada para a entrada de Ottery St. Catchpole.

A concepção de tempo da morena estava alterada devido à ansiedade que aquela espera provocava e, então, depois do que pareceu longos minutos, os carros finalmente transpuseram a entradinha charmosa do povoado e estacionaram do outro lado da rua. Antes que caminhasse até lá, Hermione escutou as palavras do francês rápido que ela ainda não conhecia acompanhar plenamente, mesmo depois de todos os seus esforços para aprender o idioma.

Em seguida, escutou uma exclamação animada, seguida de um corpo esguio colidindo carinhosamente ao seu. Ela abraçou quem a envolvia, muito para se segurar e, passado o susto inicial, para realmente matar a saudade da família que tanto amava a dona de seu coração. Hermione reconheceu Lorena quando encontrou o sorriso doce diante de seus olhos, a prima de Fleur tinha os olhos acinzentados brilhando e puxava Phillipe para junto de si. A recém-chegada exclamou animada:

— Quanto tempo, Hermione! Sentimos muita saudade!

A britânica sorriu para a forma única como seu nome soava naquele sotaque, em seguida, ela apertou a mão de Lorena antes de alcançar Phillipe para um abraço. Ela não era conhecida por ser uma pessoa tão calorosa, mas, sentia que devia muito àquele casal e, por isso, aqueles dois traziam esse lado dela à tona.

— Pelo visto, Fleur não larga a cozinha nem mesmo para nos recepcionar... — O novo chef da família, responsável pelo ressurgimento da Cuisine Delacour depois dos escândalos provocados por Othon em nada lembrava o homem furioso que Hermione infelizmente conhecera. A tranquilidade e as conquistas pareciam tê-lo rejuvenescido e agora, ele era um rapaz sorridente de ombros leves. A advogada conhecia bem aquele tipo de sensação. — Ela está muito nervosa?

— Você conhece a sua prima... Ela diz que não, mas, eu não estaria com ela até hoje se não conhecesse todos os seus gênios. — A verdade era que a morena não perdia uma oportunidade de proclamar a mulher que se permitira ser sua. Fleur Delacour era uma das maiores conquistas que Hermione Granger possuía, qualquer feito profissional na carreira de sucesso era nada perto do que tinha, todos os dias, quando acordava ao lado da francesa. Phillippe e Lorena se entreolharam com expressões divertidas e a morena sabia que corava quando os demais Delacour se aproximaram do trio.

Apoline e Raoul caminhavam de braços entrelaçados, ambos sorriam, mas, era o olhar da mãe de Fleur que chamava a atenção. Ela aparentava enxergar tudo que podia do local onde, agora, a filha chamava de casa. Raoul dividia-se entre observar a paisagem e a esposa, afinal, eles continuavam tão cúmplices quanto Hermione se lembrava... Atrás deles, vinha Gabrielle que, surpreendente, estava de braços dados com Éponine, auxiliando a avó a atravessar as pedrinhas de Ottery St. Catchpole junto com Viktor que ria de algo que a matriarca dissera.

A visão daqueles estrangeiros provocou um calor aconchegante no peito da britânica. Os poucos momentos divididos com eles ainda estavam bem marcados em sua memória, especialmente, em seu coração. Em poucos dias, aquela família de aparente frieza se transformou em um porto seguro, repleto de tranquilidade e amor. Eles se curaram enquanto curavam Fleur e, também, recebiam Hermione.

Existia tanta gentileza ali e ela sentira saudade de cada um deles, mais do que imaginara até então.

— Eu não esperava por isso...! — Apoline cochichava, mas, a sua voz estava tão animada que a encarregada da recepção acabou escutando. Raoul sorria para a esposa e divertiu-se ainda mais quando esta corou ao ver os olhos castanhos calorosos contemplando-a com certo alívio diante das impressões a respeito da cidadezinha. Logo, a administradora ajeitou a postura e pigarreou. — Bonjour, Hermione. Você e minha filha encontraram um belo pedaço da Inglaterra para chamarem de “seu”.

— Sejam bem-vindos! E sim, somente Ottery St. Catchpole poderia tirar Paris da cabeça de Fleur... — Hermione respondeu calorosa, aproximando-se meio receosa do casal francês que, sem cerimônia alguma, a envolveu em um abraço apertado e significativo. Ela se viu pequena entre as duas figuras importantes da vida de quem amava, era um amor que a recebeu de forma tão surpreendente e que, de certa forma, a fez re-significar o próprio sentimento com os seus pais... De olhos fechados, a advogada escutou um pigarro, a voz esganiçada arriscou um inglês cheio de sotaque:

— Não fale besteiras, enfant, somente você poderia tirar Fleur da França!

— Eu nunca quis que ela...! — No desespero, ela começou a se justificar para a matriarca da família que sorriu, divertida e sábia, para o seu nervosismo. Hermione acabou por revirar os olhos para a brincadeira da mais velha. Em momentos como aquele, a arrogância e a prepotência charmosos a lembravam de Fleur e, por isso, ela se aproximou da senhora e a olhou com admiração. Éponine continuava a rir dela quando se aproximaram e, com carinho, a britânica apanhou a mão envelhecida, cheia de sabedoria nas milhares de machas e de anos nas rugas, e beijou-a respeitosamente.

O momento de silêncio e respeito foi admirado até onde pode porque, logo, Gabrielle chegara até as duas com uma expressão entediada. Viktor a tinha abraçada ao seu lado e a caçula Delacour comentou sarcástica:

— Ah, pelo amor...! Por que eu também não sou tratada como a rainha que sou?

— Porque esse trabalho é do Viktor e não nosso. — Phillipe respondeu entre risos e beliscões de Lorena. O casal riu primeiro, seguido dos próprios pais de Gabrielle e de Éponine. Viktor deu de ombros e acabou ganhando um discreto apertão na cintura. A morena que ainda segurava a mão da matriarca, soltou-a delicadamente, suspirou e, limpando algumas lágrimas de riso no canto dos olhos, disse:

— Eu também senti a sua falta, Gabby... E se você faz tanta questão, eu posso beijar a sua mão também.

— Para eu correr o risco de perdê-la para o ciúme feral da minha irmã? Não, merci, Granger. — Gabrielle respondeu com um deboche que não chegava aos olhos, na realidade, esses cerúleos brilhavam malignos, brincalhões. Naquele ano passado, Hermione realmente acreditava que ganhara uma irmã mais nova porque ela e a caçula se aproximaram a ponto de coisas como aquela serem ditas sem prejudicar nenhuma delas. Nem mesmo Fleur entendia a proximidade e a morena, filha única, não reclamaria dessa relação tão diferente das que possuía. Elas se aproximaram e se abraçaram apertado, Gabrielle até mesmo deu alguns pulinhos grudada à cunhada.

Elas se separaram quando escutaram os sons de novos pneus triturando as pedrinhas da estrada. Já que ainda esperava por novos visitantes, a advogada se separou e olhou na direção dos recém-chegados. Como pensara, se tratavam de seus pais que, daquela vez, vinham no modelo sedan convencional, sem os contras de uma excursão coletiva.

Pelo menos, agora, eles podiam fugir quando quisessem...

Hermione gostaria de acreditar que a relação dela com os pais, sobretudo, com a mãe tivesse melhorado naqueles 365 dias que se passaram. Claro que existiram progressos, porém, ela e a mãe ainda estavam presas naquele ponto que insistia em afastá-las. Havia muito remorso, muito julgamento e muitos arrependimentos entre elas... Tantos que, talvez, não houvesse espaço para algo mais.

Os Grangers acenaram discretamente para a filha, Edward não deixou o sorriso caloroso desaparecer, porém, Jane tinha a testa franzida para os outros loiros de olhos azuis que acompanhavam a filha. Hermione encolheu os ombros e sentiu um aperto reconfortante em um deles, Gabrielle continuava junto a ela e sussurrou curiosa:

— Seus pais...?

— Sim. Fleur insistiu para que vocês se conhecessem. — O desconforto já era evidente nela, a postura relaxada tensionou imediatamente. Os punhos estavam fechados, mesmo que não estivessem apertados. Se Fleur estivesse ali, Hermione sabia que não estaria daquela forma, mas, a francesa tinha os seus dogmas para aquele dia... E a morena estava sozinha precisando lidar com um dos poucos aspectos de sua vida que ainda fazia uma confusão na mesma. — Não ficarei ofendida se eles não surpreenderem vocês.

Gabrielle riu melodicamente enquanto observava o casal britânico transformar a saída do carro em um ritual que pudesse desviar a atenção de ambos. Entretanto, o efeito era o contrário. Todos estavam com os olhos pregados neles e as expressões de Apoline e Éponine não eram as melhores. A caçula Delacour apreendeu esse fato e comentou:

— Além de surpreender, eles precisarão desfazer a má impressão que alguns de nós já têm...

Diante das palavras da mais jovem, a morena observou a família francesa com atenção. Além de Apoline e Éponine, Lorena tentava sustentar um sorriso que não era tão caloroso como costumava ser, Phillipe tinha a testa franzida para o comportamento dos britânicos e Raoul os observava, sério. Apenas Viktor oferecia um ponto de gentileza no meio de toda aquela situação.

O peito de Hermione esquentou e ela relaxou, aos poucos, conforme os seus pais se aproximavam. Era irônico que se sentisse mais segura em meio a pessoas que, até um ano atrás, não faziam parte de sua vida. Porém, se fosse levar em conta o tempo, já fazia algum que os seus pais biológicos também não eram efetivamente presentes em sua vida.

Enfim, ela prometera deixar aquilo para trás... Era difícil, mas, necessário.

Por isso, a morena respirou fundo antes de se aproximar dos pais que vinham ao seu encontro. O primeiro passo foi mais complicado, os demais vieram como consequência de uma coragem que ela não sabia da onde vinha. Ela se colocou em frente a eles e sorriu discretamente. Os Grangers repetiram o seu cumprimento, com sorrisos parecidos ocupando rostos que também se pareciam. Então, Edward comentou espirituoso:

— Um aviso seria de bom tom, querida!

A princípio, ela não entendeu o que o pai quis dizer. Porém, o olhar envergonhado que ele lançou a outra família se fez compreender. E Hermione se sentiu desconfortável ao observar os pais ajeitarem as roupas amassadas pela hora na estrada. Não era surpresa que eles se sentissem inferiores diante dos Delacours que exalavam elegância e esplendor, duas características que podiam ser consideradas inerentes à origem francesa. A morena segurou as mãos do pai e da mãe, mesmo com tanta coisa entre eles, ela se encarregou de aparentar segurança ao dizer:

— Sejam bem-vindos de volta e não há porque se sentirem dessa forma, posso garantir que eles não ligam para esse tipo de coisa...

— Sim, nós colocamos outros aspectos em evidência nessa família. É um prazer finalmente conhecê-los, Monsieur et Madame Granger. — Apoline, a mais prática dentro da família de artistas e sonhadores, se adiantou com a mão erguida. Os apertos de mão dela foram fortes e impositivos, o olhar cerúleo era duro, mas, receptivo. Hermione observou os pais manterem o nível, mesmo sentindo-se sufocados por tantos franceses.

A rodada de cumprimentos terminou, graças aos céus, em Lorena que foi mais gentil que todos os outros. Essa francesa logo engatou uma conversa trivial com Jane, o que inspirou Phillipe a fazer o mesmo com Edward. A morena se viu suspirando aliviada enquanto agradecia silenciosamente, através de um olhar, o casal que nunca a abandonou.

Então, dois grupos se dividiram com esse quarteto diferente à frente e os demais, atrás. Hermione caminhava entre Apoline e Éponine que, aparentemente, tomaram a função de protegê-la contra o que pudesse vir daqueles que a colocaram no mundo. A matriarca ainda caminhava de braços dados a Viktor que se dividia entre ela e Gabrielle, Raoul guiava a mulher e antes que a morena pudesse atualizá-los sobre o que acontecia em Ottery St. Catchpole, Éponine perguntou baixinho:

— Está tudo bem, mon petit?

— Ah, sim... Eu acho. — Hermione respondeu insegura, olhando para os pais que conversavam educadamente com o casal de primos. Àquela distância, Jane e Edward pareciam ter deixado qualquer reação de lado e concentravam-se em aparentar certa normalidade. Um discreto muxoxo da mais velha, ao seu lado, pareceu exigir a verdade... E ela deu. — Só é estranho tê-los aqui, as coisas ainda não estão totalmente resolvidas entre a gente.

Éponine pigarreou e os olhos claros dela se perderam nas costas dos pais de Hermione, ela ficou em silêncio por alguns minutos, os necessários para que eles passassem a área residencial de Ottery St. Catchpole e começassem a ter vislumbres da região mais famosa do povoado. Ali, a movimentação era mais intensa, com carros indo e vindo, cheios de materiais que erguiam barracas, tendas e decoravam a praça central.

Essas visões traziam boas lembranças para a advogada, trazendo de volta a noite em que ela e Fleur abaixaram a guarda e permitiram se conhecer melhor. Memórias da noite onde, provavelmente, aquele sentimento que dividiam até hoje começara a tomar forma... E por mais que os seus pais distantes e inquietos estivessem ali e ela se sentisse sufocada com aquela situação, ela não conseguiu deixar de sorrir.

Ela transbordava felicidade e amor. Depois de tudo que passara, precisaria de algo muito cruel para tirá-la dali.

— Já estive do lado deles, enfant... Eu sei o que é estar em uma posição ruim em relação a um ente querido e por mais que me doa lhe dizer isso, não os distancie ainda mais. Dê a chance que eles precisam para se redimirem. — A voz sábia da senhora a trouxe de volta para realidade. Eram palavras que Hermione já escutara antes e que, inclusive, a tiravam do sério quando vinham de outras pessoas. Entretanto, naquele momento, ela se viu prestando atenção. — Eu sei que você, provavelmente, já fez isso... Mas, eles são os seus pais e não deveriam existir últimas chances para eles.

Eram palavras de quem sentira o mesmo, de quem sabia do que falava. Agora, a sabedoria advinda da idade ficava em segundo plano porque aquele conhecimento vinha da empatia, de uma dor que já fora sentida por Éponine. Por isso, o que fora dito acabou fazendo-se sentir na morena. Os pais podiam ser distantes dela no momento, mas, aquela senhora representava grande parte do carinho que ela deixara entrar na sua vida nos últimos tempos.

Por isso, ela apertou a mão da grand-mère e sorriu assertiva para ela, recebeu o mesmo de volta enquanto escutava os seus pais descreverem, animados, a estrutura do La Petite Mort para Lorena e Phillipe. Raoul e Apoline continuavam observadores enquanto Gabrielle e Viktor ficaram para trás, buscando um tempo a sós.

Quando chegaram à praça, o clima já era menos estranho. Uma cumplicidade começava a se formar naquele imenso grupo cheio de diferenças. Hermione beijou, respeitosamente, a mão de Éponine pela última vez antes de deixá-la aos cuidados de Phillipe e Lorena. Por fim, caminhou até a frente do grupo e os guiou em meio aos funcionários que erguiam as barracas e decoravam as árvores da praça.

Em meio a toda aquela movimentação, o La Petite Mort parecia um refúgio. Através das largas janelas do edifício, o movimento no salão ainda era calmo. O horário de almoço recém começara e era justamente por isso que Hermione trouxera todos os visitantes. Pelo menos, existiria a possibilidade de Fleur juntar-se a eles para a refeição.

Quando os Delacours tomaram conhecimento do restaurante, sorrisos orgulhosos brilharam sob a luz frágil do céu nublado de Ottery St. Catchpole. Animados, eles começaram a conversar em francês enquanto Hermione sorria, sem entender uma sentença completa, mas, feliz com os pedaços de conversa que apanhava.

Todos estavam tão extasiados diante da conquista de Fleur que não viram uma mulher, de expressão ardilosa e olhos astutos escondidos atrás de óculos de aro de tartaruga passar por eles. Ela era pequena, mas, chamava a atenção pelas roupas de cortes de alta costura e cores berrantes, nesse dia, essa mulher usava um terninho verde ácido.

Por fim, as famílias entraram no La Petite Mort. Os aromas de especiarias e de assados substituiu o cheiro litorâneo do povoado e Hermione viu, com orgulho, olhares brilharem ao se deparar com o ambiente do restaurante. Como sempre, ela procurou Fleur assim que chegou... E os olhos castanhos enxergaram um vislumbre de bandana azul e dólmã da mesma cor através da pequena janela da cozinha.

A morena amava ver a francesa cozinhar, mesmo que à distância, ainda mais quando a outra não tinha noção de que estava sendo observada. A verdade é que não existia nada mais sedutor e atraente do que uma mulher segura de si e Fleur comandando uma cozinha era exatamente assim, fosse aquela do La Petite Mort ou a pequena que possuíam no Shell Cotage.

E Hermione tinha um fraco por mulheres fortes.

— Sejam bem-vindos ao La Petite Mort, eu sou William, o ex-marido de Fleur e atual sócio dela nessa empreitada, junto com a minha mãe, é claro... É um prazer tê-los aqui! — Bill, repleto do carisma de sempre, os recepcionou eufórico, os gestos efusivos e ligeiramente desengonçados. Hermione sorriu para o comportamento dele, ainda mais quando viu a reação dos franceses que, mais calorosos, abraçaram-no e falaram todos ao mesmo tempo.

No meio de tantos desencontros de conversas e sotaques, o olhar de Bill encontrou o de Hermione. Ele parecia surpreso com aquele comportamento tão carinhoso advindo de pessoas que poderiam odiá-lo. Ela tinha mais experiência naquilo e bem sabia que não era da natureza de um Delacour odiar... Claro que eles poderiam demonstrar os bons sentimentos de forma errada, contudo, os maus pareciam não existir para eles.

Éponine foi a última a cumprimentar o ruivo, essencialmente, pela sua condição. Ainda assim, quando todos se afastaram e ela pode se aproximar, dando passos vagarosos, ela o observou cautelosa antes de estender a mão e dizer severa:

— É um prazer conhecer o homem que tirou minha petite-fille da França.

Era da natureza de Grand-mère Delacour dizer palavras que pudessem ser duplamente interpretadas, muitos ali estavam acostumados com isso, mas, Bill não. E era por isso que ele arregalara os olhos e engolira em seco, visivelmente amedrontado. Phillipe e Lorena esconderam as risadas enquanto Hermione se dividia entre achar graça e sentir pena do ruivo. Ainda assim, ele foi corajoso e apertou a mão dela, mesmo que estivesse trêmulo.

E quando ele menos esperava, a aparente frágil senhora o puxou para um abraço apertado. Bill ficou imóvel por alguns segundos antes de receber tapinhas nas costas que o fizeram retribuir o carinho. Esse foi um dos raros momentos em que Éponine sorriu. Quando ela se afastou, segurou o rosto do ruivo entre as mãos e beijou cada uma das bochechas dele. Bill teve que se abaixar para ser beijado, mas, ele ria e tinha os olhos brilhando. Ele riu roucamente enquanto os outros também acompanhavam.

— Hey, rapaz! — Uma voz desconhecida chamou a atenção de todos, principalmente, de Bill. Ele se afastou da matriarca com delicadeza e olhou por sobre os ombros. A dona da voz era a mulher espalhafatosa que entrara e não fora vista. Assim que os olhos escuros do ruivo a focalizaram, ela estalou os dedos, exigente. Os Delacours trocaram olhares desconfiados enquanto Hermione observava Bill ir em direção ao chamado.

Os gestos eram rudes e pela expressão da mulher, ela estava insatisfeita. Bill tentava argumentar, tentava amenizar a situação incômoda com um sorriso, mas, tudo que recebia eram olhares reprovadores e estalares de língua. Por fim, ele apanhou a entrée da mulher e, deixando um olhar inquieto para todos que estavam à porta, se afastou.

Ele passou por Cedric à caminho da cozinha e assim que abriu a porta, Hermione foi agraciada por mais uma visão de Fleur. A chef limpava as mãos na toalha presa à cintura para, em seguida, levá-las à cintura. Os olhos azuis estavam elétricos, possuídos e a morena teve a certeza absoluta de que a comida que ela cozinhara fora criticada.

Fleur levava muitas ofensas tranquilamente, mas, questionar os talentos dela na cozinha era irracionalidade.

Os dois debatiam enquanto a britânica, ansiosa, se controlava para não ir até lá e fazer algo. Aquela proteção que emanava sempre que via a francesa em uma situação desconfortável voltou a se manifestar e Hermione só desviou o olhar dela para destiná-lo à razão daquilo. A mulher loira, de expressão felina e malvada, escrevia rápido em um caderninho. Aparentemente, o olhar castanho fora intenso porque, segundos depois, o olhar astuto da mulher desconhecida encontrou esse.

Nenhuma delas abaixou o olhar, ambas estavam determinadas a vencer aquela batalha que estavam travando desconhecendo os motivos dela. Hermione franziu a testa para a insistência da mulher que arqueou a sobrancelha clara para ela, ajeitando os óculos de aro de tartaruga com um sorrisinho irônico. Os punhos da morena se fecharam e ela deu um passo a frente, disposta a brigar com alguém sem saber a razão... Tudo porque aquela mulher estava, visivelmente, aborrecendo Fleur.

— Deixe isso para lá... — A voz suave de Cedric impediu que a advogada agisse pelo impulso. Hermione buscou o olhar acinzentado e gentil, encontrando-o aflito e isso determinou que ela se acalmasse, porque o garçom precisava dela e Fleur provavelmente não ficaria feliz com mais tensão no ambiente. Por isso, o seu olhar se desviou para Fleur que voltara à cozinha, com o prato em mãos e uma expressão frustrada no belo rosto. Ela depositou o prato sobre a bancada de metal e apoiou-se nela, abaixando a cabeça e fechando os olhos. A morena só queria saber o que estava acontecendo para poder ajudá-la enquanto Cedric já abria um sorriso para os demais. — Eu vou levá-los até a sua mesa, a chef preparou um local especial para vocês... A família em primeiro lugar.

Todos o seguiram e para a alegria de Hermione, o lugar em questão ficava próximo à cozinha. Era uma mesa longa com as cadeiras distribuídas ao longo do comprimento dela. Também permitia uma visão privilegiada de Fleur, que poderia ser vista através da divisória lateral de vidro e pedra que fora construída assim que o local fora aumentado em direção ao beco vazio e que separarava a cozinha francesa da britânica de Molly Weasley.

A senhora ruiva batia as panelas de um lado do vidro enquanto Fleur corria com os preparativos do outro. Ainda assim, elas arrumaram tempo para se olharem e suspirarem frustradas. Pelo visto, a cliente exigente não estava tirando apenas Fleur do sério. Hermione permanecia com os olhos em Fleur, à espera de algum gestual que pudesse tranquilizar o próprio coração.

Agora, a francesa estava virada na direção da mesa da família. Através do vidro, enquanto ela preparava algo no fogão que fora instalado ali depois da reforma, os olhos cerúleos se ergueram. Ela tinha as bochechas coradas pelo calor do cozimento e a sobrancelha direita arqueada, duvidando da consistência do que preparava. Mesmo assim, quando aqueles olhos anteriormente predadores e irracionais encontraram os castanhos, preocupados e carinhosos, estes amenizaram.

Elas se encontraram em meio ao estresse e ao tumulto. E, mesmo aparentando tanta tensão e frustração, Fleur conseguiu sorrir e, charmosa, piscou para Hermione que, imediatamente, sentiu as bochechas corarem. A risada da outra, emudecida pela presença do vidro entre elas, bastou para que a morena retribuísse mesmo que estivesse envergonhada diante da reação que continuava a mesma, depois de tanto tempo de relacionamento.

Fleur finalizou o prato e novamente, tinha os olhos na outra ao mandar um beijo. A morena agitou a cabeça e riu baixinho, contudo, isso não passou despercebido porque Gabrielle, com um sorriso, comentou cheia de maldade:

— Ok, vamos pedir antes que algum de nós passe mal com tamanha doçura!

Hermione estava envergonhada? Sim. Mas, arrependida...? Jamais. Por isso, ela não escondeu o sorriso e só tentou conter o rubor. Para ela, que evitava chamar a atenção, momentos como aquele sempre a tiravam do sério... Exceto quando eram divididos com Fleur Delacour.

A cozinha do La Petite Mort tinha vida própria, ainda mais quando estava funcionando a pleno vapor. Neville e Luna se movimentavam sem trombar enquanto deixavam Fleur meio que isolada, no seu canto, cuidando das receitas mais aprimoradas e da finalização de cada um dos pratos. Estava tudo funcionando plenamente e ela não queria causar um problema diante do que estava sendo destinado a ela, especificamente.

Estava mais do que na cara que a mulher exigente que retornara o prato de entrada — Ovos en meurette, sem qualquer separação entre a gema e a clara e com um molho que daria inveja a qualquer chef — duas vezes e sem motivo aparente era a crítica do Guia Michelin da qual Madame Rosmerta falara. A chef já escutara a respeito dos críticos exigentes e até um pouco mal educados, contudo, ela esperava que não passasse de lenda urbana...

Afinal, nenhum dos críticos que passaram pelo Cuisine Delacour faltou com respeito aos seus familiares ou ao que o restaurante representara... E era justamente essa falta de noção da mulher britânica que estava tirando a sua calma.

Fleur poderia ser extremamente arrogante tratando-se de seu talento na gastronomia já que tempo e estudo não foram poucos nisso. Porém, tratando-se de uma avaliação individual e sabendo que o seu tempero poderia não agradar a todos, ela esperava um pouco mais de educação. Uma coisa era julgar e outra completamente diferente era maltratar os seus funcionários e tornar o ambiente intragável para os seus clientes.

E era justamente isso que Rita Skeeter estava fazendo desde que entrou no estabelecimento.

A crítica já questionara a sugestão de vinho de William e julgara os trejeitos de Cedric como garçom. Ela também abaixara os óculos, em um gesto de desprezo, para o sorriso de Cho ao recepcioná-la do balcão de madeira onde eram fechadas as contas. E quando outro garçom passou pela mesa dela, com um assado britânico perfumando o ar ao seu redor, ela franziu as narinas.

Era evidente que aquela mulher estava sem vontade alguma de estar ali.

Por isso, a francesa estava trêmula enquanto preparava outro prato e esperava a volta de Bill. O ruivo acabara de levar o Gigot D’agneau e ela estava com uma sensação de que teria mais um problema naquele dia infernal. A preocupação dela não era nem mais ter uma estrela no Guia Michelin e sim, sair daquela com o menor prejuízo possível.

E como esperado, Bill voltou para a janelinha da cozinha. A expressão indignada e contida em silêncio. Fleur suspirou e limpou as mãos na toalha, estalou os dedos para que Luna finalizasse o prato — a loira mais jovem caminhou tranquila e a francesa a invejou — e, em seguida, tomou o que restava do vinho tinto que abrira na segunda recusa do prato de entrada. Ela suspirou e Bill, indignado, sussurrou:

— Ela acabou de proferir um discurso de que não deveria ter levado o prato preparado para ela, que o certo seria deixá-la escolher antes de cortá-lo... E como se isso não bastante, ela ainda disse que tinha passado do ponto.

— Mas, foi ela mesma que disse que queria o melhor pedaço do pernil de cordeiro de acordo com a opinião da chef! — Fleur esbravejou irritadiça, apanhando o prato das mãos de Bill e repousando rudemente sobre a bancada de madeira. Bill tinha a postura frustrada, sem saber o que fazer. Ela apanhou os talheres que trazia no bolso frontal do dólmã e cortou o pernil. A sua insegurança, por breves instantes, achou que ela realmente pudesse ter errado o ponto da carne... Mas, não. Estava ali, a crosta dourada e crocante, o interior rosado e o perfume de especiarias, incluindo alho e ervas. — Ela sequer provou o prato! Eu não vou tolerar isso!

Impulsiva, ela largou o prato sobre a bancada com um estrondo e marchou para o interior da cozinha. Ela andou de um lado para o outro, prestes a explodir. A sua família estava ali para ver o que ela conquistara daquele lado do oceano e não era isso que acontecia no momento. O La Petite Mort não era aquele ambiente cheio de críticas e situações desconfortáveis.

Aquele restaurante fora seu porto seguro durante muitos anos justamente por representar uma calmaria que ela tanto procurara depois de Othon.

Ela não podia permitir que eles a vissem à beira dos nervos. Ela não era assim, mas, aquela mulher no salão estava fazendo pouco caso de tudo que conquistara. Os olhos azuis procuraram os castanhos que lhe traziam paz. E Hermione tinha o olhar fixo nela e, mesmo a distância, Fleur sabia que ela estava à beira da cadeira, prestes a se levantar e agir. Mesmo com aquela situação incômoda, a francesa sorriu.

De imediato, uma força descomunal envolveu o seu interior e apertou-a, colocando os seus pensamentos no lugar, assim como o seu emocional. Nesse exato momento, a mulher voltou a estalar os dedos, chamando por Bill. O ruivo, companheiro e melhor amigo, olhou para ela em busca de orientação. A chef olhou ao redor, em busca de uma solução e, jogando a razão às favas ao ver o refrigerador, disse:

— Retorne para a mesa com esse prato, do jeito que está. Eu vou em seguida.

Bill ficou embasbacado por alguns segundos, mas, obedeceu-a quando a expressão dela se fechou. Fleur, então, desamarrou o avental na cintura e marchou até o refrigerador que dividia com Molly. A senhora ruiva estava batendo uma massa quando a viu entrar daquele lado da divisória parecendo um furacão. A britânica perguntou preocupada acenando para o salão:

— Algum problema, querida?

— Nada que eu não possa resolver, madame Weasley. — Fleur respondeu educadamente antes de tirar uma peça de pernil de cordeiro de dentro do gelo e caminhar com ela nos braços, para fora da cozinha. Molly arregalou os olhos. Quando entrou em sua parte, Neville se apressou para fornecer panos para que ela não se ferisse com a temperaturada congelante. Contudo, ninguém a parou.

E todos a olharam quando ela atravessou a porta da cozinha com o pernil de carneiro congelado em mãos. Sem cerimônia alguma, ela passou pela mesa da família e chegou em frente à mulher que perturbara o seu juízo nos últimos minutos.

Rita Skeeter tinha um sorriso irônico nos lábios que minguou quando a chef apareceu a sua frente e que desapareceu, por completo, quando a peça de carne foi depositada com violência sobre a mesa. Os feijões verdes e as batatas que acompanhavam o prato voaram para todos os lados. A crítica tinha os olhos arregalados pelo rompante de impaciência e Fleur, elegante e sarcástica, comentou:

— As suas críticas estão sendo levadas a sério pela cozinha, mas, eu gostaria que me ajudasse a determinar o que a madame gostaria de verdade para que eu não mais desperdiçasse meu tempo e meus ingredientes com as suas sugestões rasas e medíocres.

A mulher engoliu em seco, sem saber como agir. O choque era evidente em suas feições astutas assim como a ofensa e a vergonha. Por alguns segundos, ela parecera estar arrependida do que fizera. Enquanto a peça de pernil descongelava entre elas e os feijões e batatas rolavam pela toalha, Rita Skeeter retomou a pose e começou:

— Se você soubesse quem eu sou, teria mais...!

— O que? Respeito? Você não teve isso desde que entrou aqui. — Fleur a interrompeu com um sibilar irritadiço, apoiando a palma da mão direita na mesa enquanto debruçava-se sobre ela, a mão esquerda na cintura, ameaçadora. Rita recuou e Fleur sorriu. — A propósito, sou Fleur Delacour, uma das chefs do restaurante. E se você se deslocou até aqui com o intuito de humilhar a mim e aos meus funcionários, terá que passar por cima do meu orgulho que não é pouco e nem é frágil. Agora, se você veio aqui para avaliar o meu trabalho... Não sei se ainda quero uma estrela vinda de alguém tão ignorant como você.

A situação que se desenrolava naquela mesa pareceu, finalmente, chamar a atenção dos demais clientes do restaurante. O silêncio no salão foi tão intensivo que foi possível escutar o tilintar da prataria dos talheres batendo na porcelana dos pratos... Fleur não precisou erguer os olhos para apreender que era o centro das atenções.

E por mais que estivesse acostumada a isso, fosse pela sua beleza ou pelo talento na cozinha, ela não conseguiu evitar o rubor que se acentuou em suas bochechas.

A sua frente, Rita Skeeter engolia em seco com as mãos entrelaçadas sobre o colo. A crítica de gastronomia olhava para todos os cantos, menos para a pessoa que a confrontava. Por fim, ela se levantou e a francesa se afastou, somente o necessário, para que a mulher pudesse sair. Então, Rita a olhou e apontando o dedo na direção dos seios de Fleur, sibilou:

— Essa restaurante continuará sendo só mais um no interior do país. Você jamais verá uma estrela ao lado do nome desse local! Saiba que a gastronomia de sucesso não se resolve com falta de temperamento!

Excuse moi, mademoiselle...! — A voz de Apoline se fez presente, retumbante e intimidadora. Fleur ergueu os olhos ligeiramente marejados para a mãe que ao vê-los, fechou a expressão. A mulher atravessou a distância que a separava da filha, encurralando a crítica. Ajeitou a manga da camisa que usava e ergueu os olhos frios. — Creio que você não fez o dever de casa. Você não está falando com qualquer pessoa... Minha filha tem muito talento, mas, também tem berço e sobrenome...!

Rita Skeeter riu sarcástica e continuou a rir quando Apoline se calou incomodada. O salão continuava em silêncio e além da mãe, Fleur viu Hermione praticamente derrubar a mesa ao tentar chegar até ela. Mas, foi a figura frágil de Éponine Delacour que se levantou lentamente e rosnou:

— Eu acho que você ainda não entendeu com quem está falando, trou du cul! Somos Delacours e no continente, nosso nome é conhecido e, principalmente, respeitado dentro do meio gastronômico. Se continuar com essa pouca vergonha e com esse mau caratismo em relação à comida da minha petite-fille, pode ter certeza que você nunca mais trabalhará na vida...

A crítica arqueou a sobrancelha para a informação recebida, assim como sorriu ironicamente como se duvidasse do que lhe era dito. Em seguida, ela apanhou a bolsa e, dramática, saiu do La Petite Mort, batendo a porta atrás de si. E, quando a mulher foi embora, Fleur encolheu os ombros e levou as mãos ao rosto. O burburinho voltou ao restaurante, contudo, foi a mão que envolveu a sua que a trouxe de volta para a realidade.

Ela conhecia aquela mão de estrutura pequena, mas, aconchegante. Hermione a ancorou e abraçou-a, beijando-lhe um dos ombros, sem ligar para o aroma de alimentos e temperos que desprendia dela. A vontade de desabar enfraqueceu e desapareceu, completamente, quando aplausos chegaram aos seus ouvidos.

A chef ergueu os olhos e encontrou todos os seus clientes, amigos e familiares batendo palmas, entusiasmados. Imediatamente, um sorriso brotou em seus lábios finos e lágrimas atrapalharam a sua visão. Hermione a apertou-a junto de si e Fleur permitiu-se ser envolvida e engolfada por aquela demonstração de carinho que exterminou, por completo, a sensação de fracasso que ameaçou derrubá-la.

Bill gritava ao lado de Cedric, enquanto a sua família a aplaudia e se aproximava. Os Grangers ficaram para trás, mas, o seu olhar cruzou brevemente com o de Jane que assentiu, aprovando a atitude impulsiva que tomara. Porém, de longe, o que mais lhe chamou a atenção foi Molly que estava sendo devidamente segurada por Neville e Luna.

A matriarca ruiva tinha um rolo de cozinheiro em mãos, agitando-o freneticamente como uma arma, debatendo-se nos braços dos dois jovens enquanto esbravejava:

— Eu vou matar aquela entojada! Onde já se viu agir daquela forma com Fleur?

Conforme ela esbravejava, mais alta ficava a sua voz e, por consequência, essa foi a forma como os Delacours conheceram Molly Weasley, a mulher que, um dia, tentou fazer um inferno na vida de Fleur. Houve uma mútua troca de perdões quando os loiros encontraram a ruiva e ela somente se acalmou quando Éponine, pacientemente, sibilou algo em seu ouvido. Molly acenou e a matriarca francesa finalmente alcançou a neta, dizendo-lhe:

— Não ligue para aquela mulher, mon petit... Ela não é ninguém e minha única crítica a sua cozinha é a de que ela deveria estar no Cuisine Delacour.

Nesse instante, toda a chateação anterior desapareceu porque, afinal, eram essas as únicas palavras que importavam. Desde que deixara a França e os ensinamentos da avó e assim que o La Petite Mort se tornou algo do que ela se orgulhava, ela sonhava pelo dia que pudesse recebê-la e cozinhar algo para ela. Era um anseio que remetia a sua infância, quando Éponine fazia o mesmo por ela nas antigas cozinhas do Cuisine Delacour... Mais do que um sonho, era uma demonstração de amor ao que a avó ensinou por tanto tempo.

Porque a linguagem do amor era tudo que Fleur sabia demonstrar desde que Hermione Granger entrara na sua vida.

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Envergonhada, Fleur segurou a mão da avó e escondeu-se no pescoço de Hermione. A risada enrouquecida da morena agitou o seu coração. Emocionada, ela se viu fechando os olhos, permitindo-se ser embalada por tudo aquilo que achara ter perdido e que, mesmo recuperado, era difícil de acreditar que era seu.

Envolta naquela mistura de bons sentimentos, a francesa se sentiu protegida. Rita Skeeter desapareceu da sua mente e só foi lembrada quando Éponine, marota como uma adolescente prestes a fugir de casa, anunciou:

— Gabby, me dê o celular! Precisamos destruir a vida daquela mulher agora mesmo!

— Com prazer, grand-mère! — Gabrielle respondeu tão entusiasmada quanto a mais velha. Fleur, então, ergueu os olhos e viu, com diversão, a avó e a irmã maquinarem contra alguém que atingira a família. Aquela era uma cena que vira diversas vezes na infância, contudo, quem ocupava o lugar da caçula costumava ser Apoline, era um arranjo surpreendente. A mãe, como se pressentisse aquele chamado silencioso da filha, aproximou-se e beijou-lhe a testa, sussurrando:

Je suis fier de toi, ma fille.

E diante daquelas palavras e do arrepio em seu corpo motivado pelo cafuné que recebia de Hermione, Fleur se perguntava, sem medo algum: qual o valor de uma estrela no Guia Michelin diante de tudo aquilo que possuía?

# # # # #

Na praça central de Ottery St. Catchpole, as últimas estruturas do Festival Anual eram montadas. Alguns dos habitantes que possuíam barracas no evento já começavam a chegar e arrumar os seus pontos, um discreto aroma de cozimento, misturado à bebida, circulava por ali. Hermione observava o movimento encostada à fachada do La Petite Mort.

O tempo também começava a mudar e uma brisa mais fria já podia ser sentida, ela esfregou as palmas nos braços, procurando se esquentar. Sem um resultado satisfatório, ela soltou um discreto muxoxo e voltou para dentro, fechando a porta atrás de si.

O salão do restaurante já se esvaziara, os últimos clientes saíram há cerca de uma hora enquanto os funcionários, há cerca de quarenta minutos. Por causa do festival, o horário do jantar não existiria e, por isso, Fleur estava mais tranquila para almoçar. E Hermione sabia que ela precisava desse momento de calmaria para continuar...

Por isso, a advogada ficara quando os pais e os Delacours saíram para explorar a cidade. Depois do ocorrido no almoço, todos estavam mais do que dispostos a espairecer e esquecer. Então, passear era o melhor e, no caso das duas que ficaram para trás, a companhia uma da outra era tudo que precisavam.

A morena parou a meio caminho da única mesa que ainda estava posta. Fleur estava na cozinha, terminando de esquentar um prato de espaguete ao molho de tomate que Molly tinha preparado para ela. Ao tirar o conteúdo da frigideira, a chef acrescentou mais algumas ervas e um pouco de parmesão antes de arrastar os pés até a mesa.

Hermione apressou o passo e chegou a tempo de afastar a cadeira para a outra e só então, a francesa ergueu os olhos. Um sorriso cansado se desenhou nos lábios finos e ela se sentou, apanhando os talheres. A britânica assumiu a tarefa de abrir a garrafa do vinho escolhido para aquela refeição, um tinto da classe Beaujolais, francês. Era produzido a partir das uvas tintas Gamay e era famoso por se encaixar a várias culinárias. Ao abrir a garrafa, ela foi recepcionada pelo aroma de frutas vermelhas, como cereja, morango e framboesa.

O ano de relacionamento realmente fizera a morena entender vinhos como ninguém... Ela serviu as duas taças enquanto Fleur dava as primeiras garfadas em seu macarrão, a chef fechou os olhos ao saborear a refeição e sorriu discretamente ao engoli-la e tomar um gole do vinho em seguida. Tudo isso sendo atentamente observada pela outra, em um misto de adoração e preocupação. As duas se encontraram através dos olhos e a francesa, ainda sorrindo, perguntou:

— Nenhum sinal de Harry e Ginny?

— Não. Eles encontraram algo mais interessante para fazer, de certo. — Hermione respondeu irritadiça, amaldiçoando o melhor amigo mais uma vez. Ele prometera que estaria ali quando as famílias de ambas chegassem, para dar apoio moral... Contudo, aparentemente, ele e a namorada ficaram presos em Londres. Era ele quem cuidava do escritório na capital e a ruiva morava com ele, no antigo apartamento da morena. — Eu amo o Harry, mas, tem horas que eu tenho vontade de acabar com a vida dele.

Fleur riu enquanto mastigava e esticou-se para alcançar a mão morena em cima da mesa, apanhou-a e beijou-a antes de tomar mais um gole de vinho. Hermione continuava distraída, olhando furiosa para a porta do restaurante. O aperto se intensificou e a francesa disse:

— Não estrague o seu dia com isso, mon amour... Eles estão apaixonados, como nós.

— Mas, nós nunca fomos tão irresponsáveis... — Hermione grunhiu entredentes enquanto tomava uma generosa quantidade de vinho e continuava a encarar a porta. Ao se virar, encontrou Fleur observando-a com os olhos brilhando divertidos e a sobrancelha arqueada. A francesa abandonou o prato parcialmente comido e se levantou, contornando a mesa com passos lentos. Por fim, ela chegou até à cadeira oposta e inclinou-se, abraçando-a nos ombros e respirando de encontro à pele morena.

A advogada sentiu os pelos de seu corpo se arrepiarem e ofegou. Depois de todos aqueles meses de relacionamento, ela já sabia que as suas reações a Fleur se manteriam as mesmas. Ela sempre ofegaria e se arrepiaria, assim como se perderia na beleza da outra todas as vezes que a olhasse e a tocasse. O beijo no pescoço foi seguido por uma leve mordida antes da voz macia e relaxada sussurrar em seu ouvido:

— Tem certeza? Eu consigo pensar em muitas situações em que perdemos a noção do tempo por estarmos juntas, chérie...

Por puro reflexo, as mãos morenas envolveram as mais claras que deslizavam perigosamente pelo seu peito. Os dedos longos aproximaram-se da curva dos seios e Hermione os capturou, rindo ruidosamente antes de puxá-los para um beijo. Fleur se inclinou, colando o corpo ainda mais no dela e abraçando-a naquela posição inusitada.

As duas só se separaram diante do som da porta do La Petite Mort se abrindo. Ainda abraçadas, elas se viraram em direção ao som ao mesmo tempo, encontrando Harry e Ginny caminhando para o interior do restaurante. O casal recém-chegado estava visivelmente envergonhado pelo atraso, mas, não pareciam arrependidos. E, por mais que Hermione estivesse impaciente, o corpo de Fleur junto ao seu a impedia de perder tempo com coisas tão pequenas. Então, ela abriu um sorriso e comentou irônica:

— Antes tarde do que nunca, certo?

— Mil desculpas, Hermione... A culpa não foi dele, eu que fiquei presa na cobertura de um jogo. — Ginny aparentava estar cansada ao puxar uma cadeira e se sentar próxima a elas, a expressão de expectativa. A morena apenas sorriu e observou o melhor amigo se sentar, a irritação pelo atraso deles desaparecendo quase que de imediato. A ruiva fazia estágio em um jornal esportivo e ela vivia indo às competições mais absurdas possíveis enquanto Harry parecia satisfeito em acompanhá-la sempre que o trabalho no escritório permitia.

A francesa desvencilhou-se do toque da advogada e voltou a cozinha, segundos depois, o aroma de ervas voltou a ocupar o local enquanto Ginny se encarregava de apanhar taças e servir-se de vinho. Hermione observou essa cena divertida porque, aparentemente, Fleur conseguiu instigar o hábito de tomar vinho a quase toda a família Weasley. Harry pigarreou e disse calmamente:

— E como tudo está tranquilo no escritório, eu a acompanhei.

— Não recebemos respostas de nenhum dos processos que estamos acompanhando? — A morena deixou o profissionalismo falar mais alto e perguntou curiosa, afinal, o escritório continuava a pleno vapor mesmo que ela não precisasse ir diariamente a Londres. E, nos últimos dias, ela se envolvera em mais uma das suas intensas batalhas judiciais contra Draco Malfoy que parecia ainda mais furioso desde que rompera o noivado.

Hermione tentava ignorar esse fato nas audiências, mas, era difícil com o colega fuzilando-a como se fosse capaz de matá-la com um olhar enquanto Harry parecia se divertir ao permitir que ela fosse nesses casos ao invés dele. Além disso, Pansy Parkinson repareceu nos últimos dias, procurando por emprego... Ela se perguntava o que a outra fizera para Draco expulsá-la do escritório do pai.

— Não recebemos, tudo está tramitando normalmente e sem problema algum. Porém, Parkinson voltou a aparecer ontem no fim do expediente. — Harry comentou como se pudesse prever a linha de pensamento da amiga, ela o encarou fixamente e nesse instante, Fleur voltou com pratos iguais ao seu, cheios de macarrão ao molho vermelho. Ginny sorriu para a refeição e o moreno apanhou a dele, distraído. Depois, sorriu deliciado. — E eu, de saco cheio, disse que poderíamos pensar em algo para ela se ela nos falasse o que aconteceu entre ela e Malfoy...

Hermione desviou os olhos da conversa, observando Fleur contornar a mesa e apanhar o próprio prato, trazendo-o para perto de onde estava sentada. Agora, elas estavam ombro a ombro enquanto a advogada tentava conter mais uma crise de impaciência com uma atitude impensada de Harry. Qual seria o benefício de ter Pansy Parkinson no mesmo lugar que eles? Nenhuma, por mais competente que a outra fosse.

Harry abocanhou uma garfada e a mastigou, elogiando Fleur entre uma mastigada e outra enquanto Hermione travava a mandíbula, inquieta. Ele pareceu entender o que a amiga passava e, enquanto as outras duas mulheres conversavam animadamente sobre o Festival Anual, ele sussurrou:

— Então... O que aconteceu foi que Parkinson e Greengrass casaram.

Não houve reação. Hermione tentava entender a conexão que fora estabelecida em sua cabeça depois dessa informação. Não que estivesse com ciúmes da mulher que jamais se entregou inteira para ela, era mais uma incredulidade. Eram pessoas que não faziam sentido quando colocadas juntas e, principalmente, era uma situação que fora inimaginável até então.

Ao escutar o nome de Astoria, Fleur mudou o seu comportamento por completo. Os talheres foram depositados rudemente no prato, o som ecoando no salão vazio. Ginny ergueu os olhos discretamente, aparentando desconfoto e mantendo-se focada em sua refeição. Harry tinha um sorriso divertido ao observar a melhor amiga que engolia em seco.

Nunca era bom mencionar Astoria perto de Fleur.

— Então quer dizer que aquela salope encontrou outra vítima! — O sorriso predador estava de voltar aos lábios finos assim como o brilho elétrico aos olhos cerúleos. Hermione levou as mãos ao rosto e suspirou, a francesa voltara a comer quando a morena sussurrou:

— Linguagem, Fleur...

— Desde quando você entende francês?! — Harry perguntou antes de levar mais uma garfada à boca, aparentando divertir-se como nunca naquela troca entre o casal a sua frente. A advogada sentiu a fúria gélida do olhar lhe atingir por inteira e voltou a engolir em seco, reunindo toda a coragem que ainda possuía, ela se virou para a francesa e tentou alcançar a mão dela. Mas, Fleur estava de braços cruzados agora, petulante. Hermione suspirou e, olhando indignada para o melhor amigo, respondeu:

— É que eu já escutei Fleur falar essa palavra relacionada a Astoria por tantas vezes que acabei deduzindo o significado.

— Se for um xingamento, eu concordo plenamente com Fleur. A ex-quase Malfoy não merece ser chamada de outras coisas sem ser as cruéis. — Ginny comentou entre mastigadas, fazendo com que a francesa abrisse um sorriso agradecido. A morena olhou de uma para a outra antes de, finalmente, conseguir alcançar a mão mais clara e puxar a dona dela para perto. Fleur cedeu a contragosto enquanto recebia um beijo na bochecha, Harry ria ruidosamente agora e Hermione aconselhou:

— Se eu fosse vocês, não dava razão a Fleur... Ela está particularmente maldosa hoje.

O outro casal pareceu confuso e curioso diante dessas palavras enquanto a chef desenhava uma expressão ofendida nos belos traços. Logo, era Hermione que ria ruidosamente motivada pelo ciúmes de Fleur em relação a Astoria e pela demonstração de poder dada momentos antes, diante da crítica de gastronomia folgada. A francesa estava corada e, lentamente, cedia ao clima leve que emanava da companheira. Por fim, foi ela quem explicou:

— Eu não estou maldosa, só não estou levando desaforo para casa.

— Ah, mas, isso você não leva mesmo... — Harry comentou com um sorriso que, de certa forma, parecia admirar a impulsividade da francesa. Ele jamais dissera, mas, achava que essa característica balanceava os pés no chão da melhor amiga. Elas se completavam. Fleur sorria para ele, divertindo-se. — Mas, o que aconteceu?

— A crítica do Guia Michelin veio e essa dama francesa, ao meu lado, a tocou para fora do La Petite Mort com um pernil de cordeiro congelado em mãos! — Hermione respondeu eufórica, aparentando um orgulho que não cabia no peito enquanto a outra corava, ao seu lado. Harry ria, mesmo sem entender como aquilo fora possível enquanto Ginny fazia caretas, tentando entender o que acontecera. Então, a chef pigarreou e explicou-se:

— Ela ofendeu o ponto do meu Gigot D’agneau e, não satisfeita, ainda me fez de boba. Que se dane a estrela, eu não admito ser desrespeitada!

— Ah, o orgulho francês... — Hermione comentou apaixonada, inclinando-se para receber um beijo que veio logo em seguida. Fleur sorriu de encontro aos lábios morenos e permaneceu próxima, a morena se aproveitou e sorveu tudo que podia dela, do perfume de lavanda ao hálito de vinho. Até que Harry pigarreou, trazendo-as de volta para a realidade. Elas o olharam e ele perguntou preocupado:

— E as famílias de vocês? Presenciaram tudo isso?

— Presenciaram. Grand-mère e Gabby provavelmente destruíram a vida da mulherzinha e ela nunca mais trabalhará. Os pais de Hermione pareceram chocados com o que aconteceu enquanto madame Weasley queria acertar um rolo de padeiro nela e teria feito se Luna e Neville não tivessem segurado-a. — Fleur respondeu trivialmente, o que provocou gargalhadas em Ginny, Hermione acabou por acompanhá-la enquanto Harry permanecia dividido entre a surpresa e o riso. Por fim, a ruiva empurrou o namorado de forma carinhosa e disse:

— Poxa vida, perdemos um espetáculo! Eu daria tudo para soltar minha mãe e vê-la descabelar essa criticazinha.

O riso parecia ser o novo som ambiente do La Petite Mort. Mais uma vez no dia, ele se sobrepôs a todos os outros e ocupou toda a atmosfera. Hermione se permitiu observar e absorver cada uma das expressões do casal de amigos e de quem amava. Instintivamente, ela acabou sorrindo mesmo que a conversa passava sem significado algum por ela.

Na realidade, parecia ser mais proveitoso desfrutar daquela felicidade do que responder à conversa.

— Bem, eu preciso tirar essa coisa de cidade grande mim e me arrumar para o festival... — Ginny comentou satisfeita, pousando os talheres no prato e buscando Harry com o olhar. O moreno limpou a boca e acenou positivamente com a cabeça, se levantando. Hermione fez o mesmo, de supetão porque ainda estava sonhando acordada, algo que não era comum em sua personalidade. E ela ficou nesse estado de torpor até que o casal saísse do restaurante.

O despertar só veio quando escutou Fleur apanhar todos os pratos e começar o caminho até a cozinha. Assim, a morena recolheu as taças e a garrafa de vinho vazia para acompanhá-la. A cozinha estava limpa, brilhando em cada superfície metálica e refletindo em cada uma envidraçada, o local estava frio em todos os aspectos... Sem as cores dos alimentos preparados, sem o calor dos fogões e vazia, sem o movimento que lhe era tradicional.

Hermione já entrara ali diversas vezes, mas, nunca se acostumara com esse silêncio e essa calma vazia. Por isso, ela olhou ao redor, incerta do que deveria fazer porque agora, a cozinha parecia o santuário silencioso de algum deus... No caso, de uma deusa.

A imobilidade dela durou alguns segundos até que as taças foram tomadas de suas mãos assim como a garrafa de vinho. O leve pressionar em seus lábios foi tão sutil e inesperado que ela mal teve tempo para corresponder, quando fechou os olhos e se preparou para mais, Fleur tinha se afastado dela e a risada melodiosa provocou o reabrir de seus lábios.

O que ela enxergou foi o corpo da francesa movendo-se como se dançasse, lavando os resquícios das últimas refeições servidas no La Petite Mort naquele dia. Ela ainda ria da morena quando comentou entretida:

— Até onde eu sei, a distraída da relação costuma ser eu... O que aconteceu?

— Nisso, eu irei discordar porque nenhuma de nós duas somos assim... Phillipe e Lorena ganham de nós nesse aspecto. — Hermione respondeu ligeiramente ofendida, deslizando-se de encontro ao corpo esguio junto à pia. Próxima, contornou a cintura delgada e respirou de encontro a ligadura entre o pescoço e o ombro. Fleur se encolheu em seu abraço, aproximando-as. — E nem eu consigo me manter focada quando tudo tem dado certo para gente.

A chef não respondeu de imediato, parecendo saborear as palavras que sentenciavam o encerramento feliz delas, deglutindo-as sem deixar de sentir o gosto daquilo que custou tanto de suas forças. Em silêncio, elas aproveitaram o ar celestial daquela cozinha que transformou a vida das duas a partir do momento que a dividiram, como passaram a dividir todo o restante de suas vidas... Era uma tranquilidade e um silêncio que somente os que sofreram e gritaram de dor saberiam aproveitar.

Então, a morena se afastou, deixando um beijo casto e delicado no ombro da outra. A louça foi lavada e secada e, por fim, elas estavam prontas para sair. De maneira simbólica, como na maior parte da relação delas, Hermione esperou por Fleur que trancava as portas e arrumava o pouco que estava desarrumado. E de maneira ainda mais metafórica e especial, os olhos castanhos brilharam quando ela estendeu a mão, sorriu e perguntou:

— Pronta?

E Fleur, de igual maneira, com o sorriso que finalmente chegava e se banhava nos olhos cerúleos, respondeu, beijando as mãos entrelaçadas:

Pour toi? Toujours.

Hermione ainda tinha dificuldades para entender aquele idioma. Contudo, ela era fluente nos significados contidos nos olhos de Fleur e na intensidade do pulso dela próximo ao seu. E sendo assim, ela entendeu.

Elas sempre estariam prontas uma para a outra.

As luzes direcionavam os habitantes e visitantes de Ottery St. Catchpole em direção à praça central do povoado onde o Festival Anual já era comemorado e vivenciado. Fleur e Hermione se deixavam ser levadas pelas lâmpadas à óleo e pelas laternas espalhadas pelas ruas, essa luminosidade relembrava um beijo iluminado que foi trocado às sombras...

Elas caminhavam de mãos dadas. Por vezes, o queixo de Fleur se apoiava no topo da cabeça castanha e, em outros, ela colocava as suas mãos frias que ainda não se acostumaram ao frio da Inglaterra entre as camadas de tecido que Hermione vestia... Ela estava confortável, mas, essa sensação jamais a impedira de se aproximar ainda mais da morena.

Quando elas saíram da praia e as calçadas da cidadezinha se desenharam embaixo de seus pés, o movimento ao redor delas já era mais intenso e nenhuma delas reclamou da necessidade de se aproximarem ainda mais. Os olhos cerúleos de Fleur adquiriam um tom quente quando iluminados e isso a deixara com uma expressão ainda mais encantada.

Nem ela entendia como amava tanto aquele lugar... Justamente ela que pisou em terras britânicas a contragosto, esbravejando a quem pudesse ouvir que Paris era a cidade mais linda do mundo sendo que agora, ela amava dormir escutando as ondas quebrarem no litoral e adorava a brisa fria que se infiltrava por todos os lugares do Shell Cotage. E não tinha nada que a animasse mais do que acordar com um céu nublado.

Talvez, toda essa adoração pela Inglaterra fosse por causa de quem a acompanhava... Ainda assim, era digna e sincera.

No silêncio de suas divagações, ela observou Hermione que caminhava atenta, com a mão enluvada entrelaçada a sua. Naquela noite, a morena usava uma blusa de gola rolê branca e com um conjunto de blazer e calça negros. Os sapatos eram oxford, marrons e ela dispensara o cachecol do qual a francesa se lembrava com carinho. Mesmo assim, a advogada estava elegante, os cabelos castanhos mais longos do que quando se conheceram, soltos e libertos como deveriam ser.

Fleur, por sua vez, optara por jeans e um moletom de lã coberto por um longo sobretudo marrom e botas de cano alto. Por mais que já amasse a Inglaterra, ainda não estava acostumada com aquele frio noturno que era capaz de congelar os ossos... Por isso, estava bem agasalhada e, essencialmente, agarrada à parceira.

O frio que começava a se fazer presente, anunciando um inverno que viria para esfriá-las ao extremo, começou a amenizar conforme transitavam entre os grupos de turistas e habitantes de Ottery St. Catchpole. O calor humano amenizou o físico e assim, elas estavam confortáveis quando chegaram aos bancos da praça, próximos ao tablado de madeira. As barracas de bebidas e alimentos estavam a pleno vapor.

Hermione parou e esticou o pescoço, observando a pequena multidão em busca de seus convidados, encontrando-os à sombra de uma árvore, na extremidade da praça mais próxima ao La Petite Mort. Fleur suspirou aliviada e acompanhou a morena que, de forma cavalheiresca e protetora, a guiava na frente.

O instinto protetor da advogada era uma das características que a francesa achava mais atraente nela. A necessidade de estar sempre presente, sempre pronta para defendê-la e sempre disposta a enfrentar qualquer batalha ainda a surpreendia e a fazia questionar se realmente merecia tanta dedicação. Porém, a cada dia que passava ao lado da outra, mais entendia que Hermione não fazia aquilo exigindo algo em troca e sim, porque era da natureza dela... A morena simplesmente se transformava em uma leoa para defender aqueles que amava da mesma forma que Fleur podia perder a razão diante de uma situação como essa.

Elas eram tão opostas em certas questões de suas personalidades que era realmente surpreendente tê-las assim, tão felizes e em equilíbrio. Elas foram agraciadas com aquela relação saudável e lutavam, todos os dias, para mantê-la daquela forma já que ambas tiveram as suas cotas de relacionamentos tóxicos e baseados em mentira.

A partir do momento que se encontra o verdadeiro significado do conceito de amar, é impossível ceder a algo menor e menos intenso do que isso.

— Não sei se devo perguntar porque demoraram, chère sour... — A voz de Gabrielle somada ao vocativo em francês despertou Fleur de seus devaneios. Ela revirou os olhos para o tom debochado da irmã caçula e fingiu um incômodo ao abraçá-la. A mais nova riu em seu ouvido, sussurrando. — Falando sério, eu vou querer que me conte os detalhes eróticos desse atraso?

— Não houve nada erótico, pelo menos, não agora... — Fleur respondeu com a voz misteriosa, afastando-se da irmã e entregando um sorriso cheio de intenções para ela. Gabrielle ruborizou antes de rir espalhafatosamente, como se isso pudesse disfarçar a resposta que lhe provocara vergonha. Ela fuzilava a irmã mais velha que apenas ria e se adiantava, cumprimentando Viktor com um beijo na bochecha antes de se chegar aos pais e avó.

Hermione já estava junto deles, engajada em uma conversa com Raoul enquanto Apoline e Éponine os observavam com sorrisos muito parecidos, sentadas no banco de ferro da praça. Fleur chamou o pai e pulou nos braços dele que, rapidamente, a envolveu e a apertou. Ela sentiu os pés abandonarem o chão e um beijo carinhoso ser dado em sua têmpora, seguido pela voz grave e risonha do pai:

— Já estava prestes a chamar um dos ruivos para buscá-las no chalé...

— Fleur queria estar perfeita para vocês, não que ela pudesse se apresentar de outra forma. — A morena completou com um sorriso apaixonado, piscando charmosa para a francesa que corou dos pés a cabeça. O seu peito esquentou e acelerou, fazendo com que ela abrisse um sorriso que encheu o seu rosto e fez seus olhos brilharem. Rapidamente, ela fechou a expressão em uma tentativa de repreender tal demonstração de carinho no meio de sua família. Mas, Hermione foi corajosa como sempre e ainda se aproximou, beijando-a demoradamente nos lábios, os assovios e os gritos de Gabrielle a fizeram se afastar e sussurrar sobre os lábios morenos:

— Você não tem jeito, ma belle brune.

— E você gostaria que eu tivesse jeito? — Hermione a surpreendeu com uma resposta charmosa que brilhava os olhos castanhos. Fleur arqueou a sobrancelha para ela, dividindo o olhar entre os lábios e todo o resto. Ao redor delas, nada mais importava e elas teriam continuado assim se não fosse o pigarro de Éponine, seguido pela sua voz esganiçada:

— Vocês não me trouxeram aqui para congelar meu arrière noble enquanto eu observo as duas, não é mesmo?

Pardon, grand-mère... Eu me distraí. — Fleur respondeu com um sorriso tímido, o braço contornando a cintura da parceira enquanto os dedos da mão beliscavam a pele que encontraram. A advogada se encolheu no abraço antes de beijá-la na bochecha. A francesa demorou, mas, conseguiu olhar para a mãe e avó. Ela respirou fundo ao ver o sorriso satisfeito da mãe e a expressão divertida da avó. — Então, o que estão achando do festival?

A Família Delacour era acostumada ao luxo e à riqueza, mas, isso não os definia. Pelo contrário, a família sabia valorizar o que possuíam pelo tanto que trabalharam para ter. Por isso, não existia falsidade em seus olhares, nem nas palavras de Apoline ao dizer:

— Estamos surpresos... Quem diria que um festival de povoado se tornaria um evento tão interessante?

Ainda assim, Fleur sentiu-se aliviada ao perceber que os pais estavam se divertindo e não passou despercebido o fato de que os primos não estavam com eles. Quando estava prestes a perguntar sobre Phillipe e Lorena, os dois chegaram ao grupo acompanhados por Jane e Edward Granger. Pelo visto, o casal de britânicos realmente encontrara um lugar para se encaixar dentro daquele estranho arranjo. A francesa olhou com interesse para eles, enquanto a prima sorria abertamente e comentou:

— Eu estava prestes a perguntar de vocês...

— Nós resolvemos esperar por Edward e Jane. E acabamos nos perdendo na conversa e no caminho. — Lorena confessou ao encolher os ombros, todos riram dela e ela escondeu o rubor no peito de Phillipe que a abraçou. O casal britânico se aproximou e acenou para os franceses, Fleur observou com interesse a aproximação de Hermione dos pais. A morena sorriu para os dois e disse sem jeito:

— Por que não avisaram? Eu e Fleur poderíamos ter ido atrás de vocês...

— Não havia por que, querida... Além do mais, Phillipe e Lorena foram excelentes companhias para essa nossa atrapalhada. O que importa é que estamos aqui. — Não existia qualquer teor incômodo na voz da Jane, ela até mesmo deu um sorriso que, para surpresa de Fleur, veio em sua direção. Hermione percebeu o que acontecia e o seu olhar foi da mãe para a francesa que, num ímpeto de coragem, perguntou educadamente:

— O que estão achando do festival?

— Pelo pouco que presenciamos, está ótimo... O povoado é encantador, é nossa segunda vez aqui e já cogitamos deixar Londres para trás. — A intenção de Edward era boa, mas, a menção à primeira vinda deles provocou um desconforto leve aos que estavam na época. Ele percebeu a emoção provocada e sorriu sem graça, os Delacours não pareceram fazer a relação e apenas concordaram.

Um silêncio esquisito se instalou no grupo que só não foi mais incômodo porque as risadas roucas conhecidas chegaram aos ouvidos de todos. Fleur se virou em direção ao som e encontrou Bill acompanhado de Cedric, acompanhado por Harry e Ginny. Ela acenou para eles quando o olhar do ex-marido passou pelo grupo dela, Bill sorriu e correu de forma dramática em direção a ela.

Um abraço de urso a envolveu, quase a derrubando ao pegá-la de surpresa. Ela cambaleou alguns passos para trás antes de encontrar um ponto de firmeza nos ombros de Bill. Mesmo segura, ela não perdeu a oportunidade e disparou para o rapaz:

— Bill! Arrête ça!

O ruivo não deu atenção a sua bronca, pelo contrário, ele continuou a rir com ela em seus braços e até girou com ela. Fleur sentiu que seus pés trombaram a alguém antes de ele colocá-la no chão, o mundo ao redor dela girou e ela desequilibrou-se, mantendo-se firme ao segurá-lo pelos antebraços. Quando a tontura passou, foi a vez de Cedric abraçá-la e erguê-la do chão. Ela grunhiu e perguntou irritadiça:

— O que deu em vocês dois hoje?

— É a folga que finalmente nos foi concedida. — O moreno respondeu sorridente e de forma breve, soltando-a antes que ela pudesse fazer outra pergunta. A movimentação dele e de Bill era agitada e diferente, ela não se lembrava de tê-los visto daquele jeito, exceto quando estavam bêbados... Quando a realização a atingiu, ela abaixou a cabeça e levou a mão aos olhos. Tudo que precisava era que dois de seus melhores amigos viessem encontrar a sua família e a de Hermione naquele estado. Ginny se aproximou e cumprimentou-a com dois beijos no rosto e, como se tivesse lido a expressão de incredulidade em seu rosto, disse risonha:

— Foram as cervejas que eles tomaram antes de vir para cá... Mas, fique tranquila. O pior que pode acontecer é a sua família morrer de rir dos dois.

Fleur olhou exasperada para a ruiva e para Harry que deram de ombros, isso a levou a respirar fundo e fazer uma silenciosa prece enquanto o casal cumprimentava a todos. O estado ébrio de ambos os levou, até mesmo, a abraçar Éponine que, pela expressão surpresa e cheia de diversão, parecia tranquila em relação a isso.

Quando estava prestes a surtar, a mão pequena e familiar tocou a cintura delgada. A francesa sentiu a respiração próxima ao seu pescoço e escutou a risada curta e baixa. Ela fechou os olhos, a última coisa que viu foi Bill dando um beijo estalado em Gabrielle. Hermione voltou a rir e disse:

— Não se preocupe, se os dois saírem de controle, eu dou um jeito... Ao menos os dois ainda têm medo de mim.

Fleur se virou para olhá-la nos olhos e o brilho entusiasmado no castanho fez com que ela abrandasse a expressão. Ela queria perguntar o que a morena queria dizer com aquela frase, mas, pensou melhor.

E logo concluiu que não era a única que amolecera graças àquele relacionamento.

Nem mesmo a temperatura mais baixa do que o normal conseguiu diminuir a animação daquele grupo tão diverso. Muitos copos de cerveja foram bebidos, assim como muitas taças de vinho e também não foram poucos os petiscos consumidos ao longo do festival.

Hermione estava confortável por mais que conseguisse sentir os olhos dos pais a acompanhando em cada interação com os Delacours. Ela não deixou de pensar na possibilidade de que eles estavam reavaliando a própria relação com a filha. Era um pensamento que a tranquilizava e a deixava esperançosa em relação ao que o futuro reservaria para o trio Granger.

Os olhos castanhos procuraram Fleur, encontrando os cabelos platinados inesquecíveis flutuando em meio às demais cabeças. A francesa estava do outro da praça, depois do palco de madeira, apanhando mais Fish and Chips para Raoul que parecera encantado com a comida. Da onde estava, as costas apoiadas no tronco de uma das velhas árvores da praça, a advogada só conseguia enxergar o perfil da francesa.

E ela ria abertamente de Ginny que fazia uma careta para enriquecer uma velha história que contava. Gabrielle também estava com elas e ria tanto quanto, as bochechas rosadas pelo frio. O trio chamava a atenção pela beleza e a segurava pela simplicidade. Elas não pareciam arrogantes e isso ressaltava ainda mais o que já atraía nelas.

Claro que ela, Harry e Viktor não tiravam os olhos das três. O melhor amigo de Hermione era o mais discreto deles, observando a namorada pelo canto dos olhos enquanto conversava com Ronald — que aparecera depois, ruborizado dos pés à cabeça diante da beleza das Delacours —, Bill e Cedric. Já Viktor, com a sua natureza mais silenciosa, tinha os olhos fixos em Gabrielle sem piscar. A morena estava no meio termo, olhando para a francesa enquanto bebericava um copo de cerveja.

Ela se permitiu abrir mão do vinho e voltar as suas raízes britânicas por pelo menos uma noite.

Mais uma canção se encerrara, a banda era aplaudida de forma eufórica pelos mais ébrios e, também, por aqueles que estavam realmente acompanhando o show. Os músicos se ajeitaram em seus lugares, instrumentos foram trocados e um ar de expectativa tomou o ar frio. Por fim, os acordes familiares de uma música especial chegaram aos ouvidos de Hermione.

Era a mesma música que tocara naquela noite em que tanto ela quanto Fleur deixaram as defesas abaixarem graças a um pouco de álcool.

I had a thought, dear

however scary

about that night

the bugs and the dirt

Why were you digging?

What did you bury

before those hands

pulled me from the dirt?

Na relação das duas, quem costumava lembrar as datas e os momentos importantes era justamente Hermione. A sua mente era boa com informações, ela sempre tivera o intelecto afiado que só melhora graças à profissão que escolhera. E essas características próprias, aliadas ao sentimento que transbordava dentro dela, apenas faziam as lembranças chegarem à superfície.

Ela jamais esqueceria aquela noite, por mais que ela não fosse efetivamente o começo de tudo. Quer dizer, algo começara ali... No beijo que ela, sofregamente, deixou próximo aos lábios de Fleur ou, talvez, na forma como elas se olharam durante toda a noite.

Mas, algo definitivamente começara e assim, as trouxera até ali.

Por isso, de forma totalmente intempestiva, ela tomou o que restava de sua cerveja e caminhou em direção a Fleur. Muitas pessoas estavam entre ela e a francesa, mas, isso não importava. De alguma forma, elas sempre se encontrariam, em meio às pessoas, aos problemas e a tudo.

A separação não cabia mais no vocabulário que dividiam diariamente.

I will not ask you where you came from

I will not ask neither should you

Honey, just put your sweet lips on my lips

We should kiss like real people do

Hermione não era desastrada no dia-a-dia, entretanto, aquela era uma situação incomum. Era como se ela tivesse despertado, não para o sentimento porque ela o conhecia em todas os seus cantos e suas arestas, mas, para a importância daquilo na vida que levava agora. Por isso, ela parou derrapando em frente ao trio que, no momento, a olhava com surpresa.

A morena despertou para se perder, mais uma vez, nos olhos cerúleos que acostumara a ter sobre os seus. Fleur sorriu assim que o choque passou, a expressão desenhando o questionamento e, também, a expectativa. Elas se comunicaram com uma troca de olhares e foi a vez de Hermione sorrir em meio a sua trêmula coragem.

Ela jamais fizera algo do tipo, sequer tinha certeza se sabia fazer o que estava se propondo a fazer. Existia uma primeira vez para tudo... E ela estava mais do que disposta de ter várias primeiras vezes com Fleur.

Com esse pensamento apaixonado em mente, Hermione respirou fundo e estendeu a mão na direção da francesa, essa olhou sem entender e, por isso, a advogada usou de suas palavras, o seu melhor instrumento, para perguntar da forma mais charmosa que conseguia em meio a sua insegurança:

— Meninas, vocês me emprestam a Fleur por alguns minutinhos?

Gabrielle e Ginny se entreolharam, sorrindo sem compreender bem o que estava acontecendo. A própria Fleur estava confusa, contentando-se em dedicar toda a sua atenção à morena, deixando que o mundo ao redor dela girasse sem que ela se preocupasse. Hermione perdeu a paciência quando as duas outras não a responderam e, por isso, tirou o Fish and Chips das mãos de Fleur e o empurrou para as mãos de Gabrielle antes de puxar a sua francesa em direção à frente do tablado/placo de madeira no centro da praça.

I knew that look dear,

eyes always seeking

was there in someone

that dug long ago.

So, I will not ask you

why you were creeping...

In some say way, I already now

— Para onde estamos indo? — Não existia insegurança na voz de Fleur, apenas uma curiosidade que se mesclara à diversão do momento, um sentimento que triplicou quando Hermione parou no meio de vários casais que se mexiam devagar ao som dos violões e da voz do cantor. Quando se virou, a morena encontrou um sorriso e uma sobrancelha arqueada. — Eu não sabia que dançava, mademoiselle Granger...

Hermione riu nervosamente, antes de, mais uma vez, oferecer a sua mão. Fleur a aceitou de imediatado, apertando-a entre os dedos longos e rindo ao ser girada em seu próprio eixo. A morena também riu antes de puxá-la para perto. Por mais que se divertissem, ainda existia um resquício de insegurança nela, ainda mais por não estar acostumada a fazer aquele tipo de coisa.

Ela não gostava de não ser absolutamente perfeita em algo.

Fleur pareceu compreender o seu impasse porque deslizou as mãos pelos braços morenos, acomodando os cotovelos nos ombros de Hermione. A advogada, então, agiu rapidamente e encaixou o seu aperto na cintura delgada, trazendo a outra para perto. A diferença de altura entre elas era a de todos os dias, sem saltos para acentuá-la, ainda assim, era ligeiramente chamativa.

Nenhuma das duas ligava para isso, de forma que o magnetismo entre os seus corpos se encarregou de ajustá-las uma a outra. Fleur inclinou a cabeça, o mínimo necessário para que a sua testa encontrasse a de Hermione. Ali, suspirou junto a pele morena da mesma forma que a outra se deliciava em meio ao perfume à base de lavanda. A dona do aroma amadeirado sorriu e fechou os olhos, antes de sussurrar:

— Eu nunca tinha levado você para dançar, não que eu saiba, mas...!

C’est parfait, mon amour. — Fleur a interrompeu, deixando um leve beijo sobre os lábios para, em seguida, começar a balançá-las no ritmo da canção. Hermione seguiu a deixa, em primeiro lugar porque não tinha ideia de como guiá-las e, também, porque estava confortável daquela forma, com todo aquele calor a cercando. — O que vale a intenção... Mesmo se eu ligasse para os seus dotes como dançarina, eles não importam. Je t’aime de toute façon.

Hermione franziu a testa para as palavras que ainda não entendia e a francesa, com uma expressão de adoração no rosto, beijou a pele franzida até que ela relaxasse. A morena se sentia imponente nas mãos daquela mulher, contudo, não fazia esforço algum para manter a postura determina e intensa pela qual fora conhecida antes dela.

A advogada lutara durante muitos anos para se manter firme, não negaria carinho agora que encontrara. Tampouco, abandonaria a tranquilidade e o amor que encontrara naqueles braços. Por isso, mesmo indignada por ceder tão facilmente àquela mulher, ela se permitiu ser guiada e terminou por abraçar Fleur completamente, fechando os olhos para o mundo e abrindo-se para o que sentia tão intensamente.

So, I will not ask you where you came from

I will not ask neither should you

Honey, just put your sweet lips on my lips

We should kiss like real people do

A deixa musical ecoou na realidade que as duas dividiam e elas se beijaram.

Aquele beijo foi diferente porque, de olhos fechados e sentindo os lábios franceses preencherem os seus de forma tão completa, Hermione viu memórias passarem em sua mente e chegarem ao seu coração.

Ao som daquelas notas especiais e conhecidas, elas lembrou-se de tudo que a levou àquele momento. O primeiro beijo, a primeira briga, a primeira vez que dividiram os lençóis e o prazer... As iniciações que as levaram até ali, até a primeira dança lenta das duas. O começo de tudo importava porque as trouxera até o presente, até aquele desenrolar.

O balançar de seus corpos chacoalhava e expulsava todas as provações que passaram, o sofrimento era deixado ali, no chão em que flutuavam ao som da música que as marcara. Não que elas quisessem que a melodia fosse essa, porém, como quase tudo na relação das duas, acontecera naturalmente de forma que se tornara perfeito. Elas despiam toda a ira e toda a fúria que, um dia, assombrou o relacionamento.

Era como se elas renascessem da terra e esquecessem do sal que, um dia, ameaçara o solo no qual, seguramente, pisavam.

I could not ask you where you came from.

I could not ask you neither could you.

Honey, just put your sweet lips on my lips...

We could just kiss like real people do.

Cada beijo era diferente para as duas.

E esse, Hermione podia dizer orgulhosamente que fora por sua causa, deixara Fleur ofegante e corada. As duas se separaram quando respirar se tornou necessário e ao se olharem, os olhos cerúleos estavam vivos e elétricos. Contudo, o que chamou a atenção da morena foram os lábios finos entreabertos, ofegantes e a expressão de incompreensão que os belos traços pálidos desenhavam. Então, ela deixou mais um beijo ali e sussurrou próxima:

— Eu não me arrisco a dançar com qualquer uma, Miss Delacour...

O vocativo abriu um sorriso divertido e, certamente, malicioso nos lábios da francesa. Instintivamente, a advogada engoliu em seco porque sabia o que aquilo podia significar. Fleur era naturalmente sedutora e quando ela colocava isso como um objetivo, tornava as coisas ainda mais difíceis para Hermione.

E aquele vocativo ainda invocava lembranças a elas, como tudo naquela noite. O chamado as fazia recordar um tempo em que elas não se toleravam e, ainda assim, se atraíam. Um período em que o lado mais visceral de ambas falou alto perante à razão, à ética e a todas as complicações que sempre estiveram presentes no que dividiam.

Era uma lembrança não apenas da dificuldade que passavam e, também, da excitante vontade que tiveram que domar por certo tempo.

Agora, o mundo se abria para elas... Mesmo que existissem alguns familiares separando-as de um momento a sós.

Hermione, sempre procurando ser a mais racional entre elas, olhou para o grupo de diferentes que se reunira por causa delas. Apenas por breves instantes antes da voz caótica de Fleur chegar a sua audição:

— Eu não vejo a hora de chegar em casa, chérie.

E como se a vontade das duas fosse exatamente a mesma, a morena se viu pensando, imediatamente, no que viria depois daquele festival. E ela bem sabia que só não saíam de fininho porque, afinal, já tinham cumprido a cota de saídas às escondidas diante de seus familiares.

Também seria muito egoísmo privá-los daquele sentimento que transbordava tão facilmente delas. Por isso, mesmo trêmula e completamente entregue, ela tomou a frente e guiou Fleur entre as pessoas até que chegassem aos seus. A morena escutou algumas brincadeiras, muitoas zoações e outras tantas felicitações pelo momento que dividiram com eles e em meio a todo esse êxtase e felicidade, ela encontrou o olhar da mãe e do pai entre os loiros e ruivos.

Jane e Edward inclinaram a cabeça e sorriram aprovadores. Ali, Hermione lembrou de tudo que passara com Astoria, até porque, a menção a ela ainda era recente em sua mente... Mas, não houve saudade e sim, felicidade. Ela jamais imaginara que seria assumida assim, de tal forma que dançar em meio a tantas outras pessoas se tornasse uma atitude totalmente intempestiva de sua parte.

Com Astoria, não existia liberdade e ali, diante dos olhares dos pais, ela entendeu que era justamente isso que eles queriam dela e esperavam de Fleur. Por mais que elas não tivessem conversado e ainda existisse certa tensão quando ficavam juntos, não existia mais reprovação. Tudo se resolvera.

O irônico era que tudo dera certo porque ela resolvera dançar, tudo se acertara quando ela resolvera fazer algo que não sabia... Isso era algo totalmente “anti-Hermione”. E a morena percebeu que seu melhor amigo também tivera a mesma realização porque Harry se encontrava, naquele momento, gargalhando enquanto a abraçava.

E mesmo com os chacoalhões e risadas de Harry ao seu redor, ela jamais abandonou Fleur assim como jamais foi e seria abandonada.

# # # # #

Fleur Delacour não mentira quando dissera que não via a hora de chegar em casa, o conforto do chalé a chamava cada vez mais alto conforme as horas se passavam. Ela se viu presa à família por mais algum tempo enquanto Hermione escapava, alegando ter dor de cabeça. Obviamente, os olhares recaíram sobre a morena quando ela disse isso, de forma que a francesa não pode acompanhá-la sem levantar suspeitas.

A noite esfriara quando adentrara na madrugada e Fleur olhou ao redor, ligeiramente desesperada, à procura de uma saída. Ela estava distraída e não prestava mais tanta atenção, o cansaço começava a se fazer presente e ela suspirava. Grand-mère Éponine já se recolhera, assim como Raoul e Apoline. Cedric e Bill cambalearam bêbados pela rua logo depois, assim como Ginny e Harry desapareceram quando a banda se recolheu (o que já tinha alguns minutos).

Mesmo assim, ainda restavam Lorena, Phillippe, Gabrielle, Viktor e a própria Fleur. Ela estava se sentindo solitária no meio dos casais e olhava saudosa em direção ao Shell Cotage, esperando que Hermione irrompesse das sombras de Ottery St. Catchpole para salvá-la, como sempre.

— Você não parece tão satisfeita em nossa companhia, petite soeur... Gostaria de estar em outro lugar? — A voz de Gabrielle soou sarcástica na praça praticamente vazia, Fleur revirou os olhos para ela e escondeu um estalar de lábios na boca de garrafa de água que tomava. Ela precisava chegar sóbria em casa ou não aguentaria sobreviver ao dia seguinte. Lorena, sempre perceptiva, disse rindo:

— Não fale assim com ela, Gabby.

— Você não precisa se sentir obrigada a nos fazer companhia. — Para a surpresa de todos, quem disse isso foi Viktor. O moreno alto, forte e calado tinha uma expressão simpática no rosto e sorria compreensivo para ela, o que bastou para que Gabrielle batesse levemente em seu braço musculoso. Ele, sentado no banco de ferro, a envolveu em um abraço apertado e beijou-lhe os cabelos claros. Fleur não conseguiu conter o sorriso para o casal e Phillipe pigarreou antes de dizer:

— Por mais que eu sinta muita falta das nossas longas noites em Paris, eu sei que você já queria estar em casa a essa hora...

— Fazendo algo que, provavelmente, eu não poderei fazer porque as paredes da estalagem são finas demais. — Gabrielle comentou frustrada com um revirar de olhos, sem nem enrubescer enquanto Viktor se tornava um pimentão. Lorena também não ficou atrás no rubor enquanto Phillipe levou a mão à testa, constrangido. Fleur semicerrou os olhos para a irmã que sorria sem vergonha alguma e disse:

— Você espera maman e papa saírem de perto para falar esse tipo de coisa... Esperta.

— Mais do que você que deixa claro para quem quiser ver e ouvir o que você e Hermione fazem quando estão sozinhas. — Gabrielle respondeu cheia de implicância, dando de ombros e se levantando do banco de ferro. Ela puxou Viktor consigo que, ainda envergonhado, recuou um pouco. A caçula sorriu deliciada para a impaciência da irmã. — Já que você não faz nada por você mesma, eu faço. Estou indo descansar a minha beleza e você está liberada para transar. Au revoir!

Fleur tinha se esquecido como Gabrielle ficava irritante quando cansada e, provavelmente, o que presenciaram estava relacionado a isso porque, sem esperar por uma resposta, ela já tinha dado às costas carregando o namorado consigo. Phillipe e Lorena também se levantaram, enrubescidos e a anfitriã os acompanhou, o rapaz sorriu como se pedisse desculpas e disse:

— Diferentemente de Gabby, eu tenho bom senso e não vou...!

— Não vamos mesmo, mon prince. — Lorena frisou, apanhando a mão dele e trazendo-o para perto. Ele se desequilibrou para, logo em seguida, estabelecer uma expressão séria e se calar. Fleur sorriu grande por aquela interação e para a felicidade que extrapolava pelas atitudes deles e esperou. — Então, nós também vamos nos recolher, cousin. Bonne nuit!

Assim, ela deu uma piscadela conspiratória enquanto Phillipe acenava. Fleur ainda os observou desaparecer rumo à praia antes de começar a recolher as três garrafas de vinho para jogá-las na lixeira. Depois, ainda olhou ao redor para certificar-se que nada fora esquecido, só então, ela tomou o seu caminho para o Shell Cotage.

Quem a visse caminhando tranquilamente, não imaginava a ansiedade e nervosismo que ela tinha dentro de si. Não que existisse uma dependência entre ela e Hermione, contudo, a convivência fizera com que ela realmente sentisse falta da morena quando se via longe dela. E toda aquela situação envolvendo reencontros e famílias tornavam as coisas ainda mais limítrofes.

Fleur estava cansada e tudo que ela queria era se enrolar no corpo moreno que conhecia tão bem e adormecer, ela não queria pensar nas consequências do rompante de fúria no La Petite Mort e nem no que teria que ler no dia seguinte, muito menos, nos resultados de Gabrielle e Éponine trabalhando juntas. Ela estava flutuando em alegria e tranquilidade e queria aproveitar esse momento.

Ela conhecia todos os pedaços de Ottery St. Catchpole: o chalé que, por muito tempo, fora o seu refúgio e sua paz; o restaurante que tinha as paredes embebidas com seu sangue e suas lágrimas; a praça que a apresentara para a paixão; as ruas em que dera o primeiro beijo com amor sob a luz do frágil lampião que, por muitas vezes, iluminara os seus passos solitários e bêbados...

Cada passo a afastava das lembranças e a aproximava da realidade. Os primeiros grãos de areia foram macerados pelos seus pés e logo, a calçada junto à praia estava praticamente invisível. No horizonte, o céu azul marinho começava a se clarear e mesmo na escuridão, ela conseguiu discernir os contornos do Shell Cotage encarapitado nas pedras mais distantes.

Então, ela começou a caminhar mais rápido e quando chegou aos degraus de pedra, ela os subiu aos pulos enquanto apanhava as chaves. Quando abriu a porta do chalé, Fleur finalmente relaxou os ombros enquanto removia o sobretudo e as botas de cano alto. O frio se infiltrava pelas meias e ela tremia a cada passo.

O ar estava morno e a lareira crepitava na sala de estar, as luzes acesas não revelavam a presença de Hermione naquele cômodo e então, ela seguiu as lâmpadas. Da cozinha, o som da água borbulhando na chaleira e o discreto aroma de ervas no ar chamou-lhe a atenção. Decidida, ela caminhou rapidamente até o cômodo.

Ao chegar, ela foi abençoada pela visão do corpo de Hermione junto à pia. A morena cochilava, respirando calmamente, os cabelos castanhos cobrindo-lhe o rosto parcialmente. Mas, o que lhe chamou a atenção foi o que ela vestia. Pelo visto, Fleur não fora a única que sentira saudades porque a morena estava usando um de seus robes de seda já que aquele tinha algumas ilustrações orientais enquanto o da outra era simples, de seda vermelha.

A visão provocou dois estados na francesa. Primeiramente, ela abriu um sorriso, grata por ser razão de tal sentimento e, depois, ela mordeu o lábio, deliciada pela hipótese de Hermione precisar tanto dela, antes de dormir, a ponto de procurá-la no que usava.

Fleur não tinha como resistir a todas as urgências que impulsionaram o seu corpo e, por isso, ela se lançou a frente, as mãos estendidas e ansiosas por qualquer pedaço de pele morena. A mão direita encontrou lugar na ligadura do pescoço com a mandíbula enquanto a esquerda se acomodou na base da cintura, apertando-a.

Hermione despertou de imediato e, por puro instinto, tentou se afastar. Contudo, quando uma porção mais sensitiva de si reconheceu quem a segurava, ela se deixou acomodar nos braços longos e esguios. A francesa a recebeu, o rosto adentrando nos cabelos castanhos, a boca beijando as porções físicas que conseguia encontrar. Por fim, Fleur arranhou a nuca da outra e sussurrou juntou ao ouvido:

— Você dificulta as coisas para mim, chérie...

A advogada afastou o rosto, buscando o entendimento através das palavras em junção com a expressão, contudo, acabou sorrindo assim que encontrou os olhos cerúleos elétricos grudados nos seus. Ela ainda tinha um ar sonolento, mas, os toques e carinhos da francesa começavam a despertá-la. Por fim, Hermione finalmente beijou os lábios finos e perguntou ainda junto deles:

— Do que está falando, meu amor?

Para a surpresa dela, Fleur se afastou com um suspiro sôfrego e riu roucamente. Ela praticamente colocou a cozinha entre elas, encostando o ombro junto ao portal e cruzando os braços. A morena a olhou desconfiada e a chaleira apitou entre elas, perturbando o silêncio. Hermione se voltou para o seu chá e Fleur, para todas as suas curvas e linhas. De olhos preenchidos por toda a beleza daquela mulher tão racional quanto impulsiva, não percebeu os olhos castanhos em si e apenas escutou a pergunta indignada:

— Você estava olhando o que, Delacour?

Honestamente, a chef não sabia porque ainda estava parada ali, sem fazer algo. Afinal, pelos poucos segundos que sentiu a morena junto de si, não percebeu resistência alguma embaixo do tecido. O que estava segurando-lhe ali quando tinha aquela mulher a sua frente?

Hermione pareceu desistir de adquirir uma resposta e voltou a atenção para o chá, dando-lhe as costas. Provavelmente, pensara que Fleur bebera um pouquinho mais desde que a deixara na praça... Enquanto isso, a francesa voltou a se aproximar e parou próxima as costas, sem tocá-la. A outra, provavelmente, apreendera o movimento e também parara o que fazia.

Depois de alguns bons minutos de imobilidade, as mãos pálidas de dedos longos e elegantes voltaram a contrastar sobre a pele morena. Então, os dedos delinearam os ombros e avançaram, penetrando entre o tecido e a pele, explorando. Ali, o tecido estampado cedeu, revelando mais pele do que antes. Somente então, Fleur girou-a, fazendo os olhos encontrarem-na.

O castanho estava quente, escurecido, derretendo-se em desafio e teimosia. E a francesa adorava quando a outra a instigava daquela forma, forçando-a a definir os rumos que a noite tomaria. Fleur finalmente rompeu a distância, aprisionando o corpo moreno entre ela e a pia. As mãos voltaram a deslizar pela pele que se arrepiava a cada centímetro percorrido, enfim, uma delas encontrou o rosto e segurou-lhe o queixo, erguendo-o. A francesa sorriu diante do suspiro pesado da morena e sussurrou:

— Eu nunca direi, mas, eu adoraria lhe mostrar o que eu enxerguei.

E calando as palavras que sabia que viriam, Fleur tomou-lhe os lábios, beijando-a duramente de encontro a pia, colocando todo o seu corpo para dominar o espaço pessoal de Hermione. Não demorou muito para que Hermione reagisse, levando as mãos ao seu rosto e impulsionando o corpo para cima, envolvendo as pernas em sua cintura.

As duas teriam caído se não fosse a pia. As pernas morenas se entrelaçaram às costas francesas que ainda possuíam um resquício do frio do lado de fora. Ali dentro, as duas se esquentavam à medida que se encaixavam. Fleur sorriu de encontro aos lábios morenos quando sentiu a mão em seu rosto deslizar, escorregando pelo seu abdômen à procura do fim da lã e o começo de sua pele.

Hermione parecera ter esquecido das perguntas que tinha para fazer e concentrava-se em fazê-la perder o ar em meio ao beijo. Quando se separaram, foi apenas o necessário para que o moletom de lã de Fleur fosse jogado para algum canto da cozinha. A sua pele sentiu a mudança de temperatura e os seus seios enrijeceram, Hermione os envolveu com as mãos e em seguida, os beijos sôfregos voltaram e, por parte da francesa, também encontraram outros pontos a serem colocados. Agora, ela deslizava a língua pelo pescoço da morena, chegando perigosamente junto à clavícula.

A advogada tinha a cabeça inclinada, dando-lhe espaço enquanto puxava-lhe as raízes dos cabelos e mordia os gemidos que começavam a vencer a batalha contra a sua boca. Entretanto, em algum momento no meio disso tudo, Fleur se sentiu ser empurrada para longe e, mesmo resistindo, não conseguiu. Então, ergueu os olhos e foi agraciada pela visão dos lábios inchados, os cabelos desnivelados e os vergões espalhados pela pele morena.

Confusa, excitada e indignada, ela buscou respostas àquela resistência e Hermione, frustrada, respirou fundo para responder:

— A lareira está acesa e Bichento...!

Ela não terminou de falar porque a francesa impaciente e ainda tendo as pernas torneadas enlaçadas as suas costas, frouxamente, tratou de firmá-las e, sem esforço algum, ergueu o corpo de Hermione, beijando-a de forma lânguida antes de carregá-la consigo até a sala de estar. Tudo às cegas e entregue, totalmente, a necessidade primária daquela noite.

O casal chegou a sala de estar inteiro e Fleur, sem cerimônia e com algum cuidado, colocou Hermione sobre o tapete felpudo e ficou se ajeitou sobre ela. As duas se olharam, ambas brilhavam graças às chamas da lareira. Hermione ainda tinha certo temor nos olhos e a francesa, impaciente, grunhiu:

— Se o chalé pegar fogo, estamos perto o bastante para sentirmos.

Era algo idiota a se dizer, mas, ela não pensava racionalmente naquele momento e justamente por isso, com os olhos ainda presos aos de Hermione, a mão dela deslizou pelo vale dos seios morenos. O robe se afrouxara no caminho e agora não oferecia resistência aos seus toques. Ainda assim, Fleur tomou o seu tempo, afastando o tecido com toques lentos e delicados, observando com orgulho a pele embaixo dele se arrepiar. Quando tudo o que o seu robe tampava era justamente o que interessava, Fleur deslizou o corpo pelo de Hermione, sentindo-a estremecer.

Então, ela aplicou um beijo no vale enquanto uma das mãos encontrava um seio. Em seguida, ela lambeu toda a pele que encontrou em direção ao outro até que a sua boca estava, definitivamente, ocupada. Hermione ofegou quando isso aconteceu e, somente por essa ação, Fleur mordiscou o mamilo antes de circulá-lo com a língua.

As mãos de Hermione se tornaram garras em meio aos fios loiros, puxando-os e guiando a dona deles através de suas sensações. Fleur embebedou-se no perfume amadeirado e saboreou a pele morena da mesma forma que saboreava tudo na vida, deixou-se entorpecer por aquela mistura de cheiro e de suor, de prazer e de amor.

Embaixo de si, a advogada estava entregue, sem resistência alguma. O tecido ainda não abandonara completamente o seu corpo e mesmo o peso dele sobre a pele morena parecia provocar sensações incandescentes pelo corpo que Fleur conhecia tão bem. E justamente por isso, os dedos longíneos dedilharam a superfície, tocando nas zonas que faziam Hermione estremecer e revirar os olhos, em êxtase. Enfim, eles encontraram a cintura e ali apertaram, com tanta força e com tanto clamor que as unhas deixaram marcas sobre a pele imaculada.

A morena ofegou em busca de ar e a francesa a encontrou, mordendo-lhe o queixo e sugando os pontos sensíveis no pescoço. Hermione soltava uma sinfonia de gemidos cada vez mais altos e sôfregos, contudo, ela realmente perdeu o controle e Fleur pode sentir ao sussurrar em seu ouvido:

— Eu espero que esteja pronta para mim, mon amour... Eu não pretendo parar tão cedo.

Dizendo isso, a francesa envolveu o lóbulo da orelha da outra com a boca e o chupou, depois, mordeu a pele próxima. Em seguida, ela grunhiu de dor porque os seus cabelos foram puxados e as pernas de Hermione voltaram a enlaçar a sua cintura, puxando-a para baixo. Fleur sentiu-se ser puxada para longe, para encará-la e assim o fez. Os olhos castanhos estavam escuros e irracionais, completamente entregue ao prazer, a advogada grunhiu em desafio:

— O que você está esperando?

Fleur sorriu predadora para resposta. Ela adorava a teimosia de Hermione e nem parecia que aquilo, no começo, fora uma das coisas que dificultara a vida das duas. Porém, naquele instante, era tudo que precisava para continuar. Então, a mão junto à cintura voltou a se movimentar, numa lentidão torturante, até que chegasse junto a virilha.

A morena buscava o contato, aproximando-se e inclinando-se de todo para perto da francesa que, sorrindo maleficamente, recuava. Era perceptível o quanto Hermione precisava daquele toque e somente por isso, Fleur o postergou até que os seus lábios foram apreendidos em uma mordida dolorida. Grunhindo de dor, ela deixou que a sua mão repousasse sobre o centro da morena e, por fim, os seus dedos encontraram o caminho no meio do calor.

De olhos fechados, Hermione tateava às cegas por Fleur que parecera ter abandonado a postura dominadora e agora, servia. Ela deixou que a outra respirasse em meio ao prazer, deixando beijos pelas extensões que não beijara, mordiscando com carinho cada linha e cada ponto que encontrava. Os sons que a morena produzia a fazia sorrir e suspirar de encontro a ela, sentindo o próprio corpo responder a isso, como se elas estivessem em plena sintonia.

O silêncio entremeado por suspiros e gemidos era, de vez em quando, acompanhado do crepitar da lenha na lareira. Elas não falaram, o que era raro em momentos como aquele. Fleur estava disposta a conhecer o que ainda não tivera tempo de desvendar em Hermione. Aquela era uma noite de enxergar além do prazer, de reencontrar o sentimento que as unia nos meios daqueles atos.

Fleur usava aquela noite para adorar Hermione.

Para mostrar o quanto a amava e o quanto era grata por tudo que tinham hoje. Amar Hermione era o que Fleur considerava o melhor em si e em cada beijo, cada toque, ela queria que a morena entendesse isso. Ela queria que a outra tivesse, mais uma vez, o que havia melhor em si.

Hermione ofegou e se contorceu e, depois de tanto tempo juntas, Fleur sabia o que viria a seguir... La petite mort estava à espera, apenas na expectativa da sanidade esvair-se no corpo moreno para tomar posse dele, levando-a a um lugar que simplesmente a fazia esquecer da terra. A francesa ainda não estava satisfeita e, por isso, ela retrocedeu os movimentos e quando a morena abriu os olhos, uma expressão indignada começando a se formas nas linhas úmidas de suor, ela sussurrou para a noite:

Je t’aime, mon amour...

Os lábios inchados desenharam uma resposta, mas, os lábios finos já sorviam o suor antes de chegaram ao centro, envolvendo-se no sabor doce e cítrico que Hermione produzia. Fleur a sorveu, segurando-a junto da boca como se estivesse bebendo um vinho direto do gargalo. O seu próprio prazer tornava a tarefa dificultosa, mas, ela se dedicava e ela se deixava entorpecer por aquele afrodísiaco que, felizmente, somente ela tinha acesso. Em meio a névoa visceral que as envolvia, os seus olhos encontraram os castanhos e ali ela permaneceu, usando-os como guia para enfrentar aquela tempestade de êxtase e prazer.

Ela tomou tudo que Hermione produziu e, por fim, a morena cedeu ao prazer, inclinando-se em direção a sua boca para, depois, relaxar junto dela. Fleur, então, beijou-lhe as pernas, as coxas, os tornozelos antes de subir e encontrá-la face a face. Sem cerimônia a morena a beijou, misturando os gostos e os sabores, entorpecendo-a com um beijo tão voraz que a deixou sem ar.

E quando Fleur se afastara, as pernas de Hermione voltaram a aprisioná-la e com uma força surpreendente para alguém que acabara de se entregar ao orgasmo, a advogada trocou as posições e sorriu vitoriosa, sentada sobre o abdômen pálido.

A francesa não reclamaria da posição em que se encontrava, pelo contrário, aproveitou-se disso para, novamente, tocar os seios morenos e sorrir com o apertar dos olhos castanhos que recebeu em troca. Porém, Hermione estava determinada e, novamente, a teimosia dela se fez presente. Ela afastou-se para que pudesse ter acesso ao botão da calça jeans e, então, se abaixou e sussurrou junto aos lábios finos:

— Eu te amo e para o seu bem, é bom que esteja disposta a não parar.

Fleur sorriu deliciada enquanto a sua calça era praticamente arrancada de seu corpo. Ela jamais pararia, ainda mais se Hermione estivesse junto de si.

O frio castigou a pele morena e ela se apertou à superfície mais quente embaixo do seu corpo. Ainda assim, ela não conseguiu afastar o despertar e logo, os olhos castanhos se abriram para o mundo sob os protestos de sua noite. Hermione ergueu o corpo com cuidado, procurando não acordar Fleur que dormia esparramada embaixo de si.

O seu corpo despertava assim como a sensibilidade nele. As suas pernas ainda estavam trêmulas e não-confiáveis e um discreto latejar se fazia presente em seu pescoço e no colo, ela olhou para baixo e encontrou até uma pequena mordia junto ao seu mamilo esquerdo. As marcas abrandaram a sua expressão, mas, foi o semblante de Fleur que a fez sorrir.

A francesa dormia pacificamente, enrolada em um dos cobertores que elas conseguiram alcançar na noite depois de todo o esforço físico que fizeram. Fleur estava insaciável e Hermione era incapaz de negar aquele fogo, elas gostavam de se queimar juntas e era impressionante que aquela chama ardesse depois de tantos meses... Justamente esse pensamento a fez lembrar da lareira que ainda estava acesa quando adormeceram.

Agora, só cinzas jaziam ali e o seu gato, Bichento, trazido diretamente de Londres dormia junto ao local, como se estivesse de guarda. Ela, imediatamente ruborizou porque o animal provavelmente tinha visto mais do que ela gostaria... Pelo lado positivo, era uma vantagem que ele não soubesse falar ainda que os olhos dourados fossem extremamente julgadores.

Ela se levantou e envolveu o corpo no robe de Fleur, perdida em seus pensamentos. Até pensou em acordar Fleur, mas, desistiu da ideia ao vê-la se aconchegar no cobertor e suspirar. Por isso, ela foi até a cozinha apenas para encontrar a xícara com chá frio, despejou-o na pia e voltou a caminhar a esmo pelo chalé.

O som da vibração de seu celular lhe chamou a atenção e ela o alcançou no bolso de blazer. Algumas mensagens e muitas chamadas perdidas atraíram a sua atenção. Ela ignorou o símbolo da caixa postal e voltou para o do envelope. A primeira mensagem era de Gabrielle:

Eu espero que tenham aproveitado à noite, desconfio que ainda não fui atendida por causa disso. Quando as coelhinhas saírem da toca, peço que vejam esse link. Imagino que Fleur ficará feliz.

Hermione revirou os olhos para o conteúdo da mensagem e abriu o link que vinha em seguida. A página que se abriu no navegador de seu celular era de um jornal francês e ela precisou usar da tradução automática para entender o que estava escrito e a manchete a pegou de surpresa.

FAMOSA CRÍTICA GASTRONÔMICA É ACUSADA DE RECEBER POR ESTRELAS MICHELIN

A matéria se estendia, narrando a carreira de Rita Skeeter para, depois, demoli-la. Aparentemente, a mulher era uma perfeita charlatã que cobrava as boas avaliações que escrevia para o Guia Michelin. Hermione estava chocada, claro que a mulher não era uma boa pessoa e mostrara isso, porém, ela jamais imaginaria que existia um comércio para esse tipo de coisa. Mais assustador ainda era a rapidez e eficiência de Éponine e Gabrielle que conseguiram desmascará-la em menos de 24 horas.

Instintivamente, Hermione olhou para Fleur imaginando quão feliz ela ficaria diante daquela informação.

Com o humor renovado por aquela informação, a advogada passou para a próxima mensagem que era de Harry. Na ortografia desleixada do rapaz, que mal parecia com a ortografia de um advogado, ele enviara:

Eu espero que Phillipe e Lorena tenham falado com vocês sobre o casamento. Não queremos coincidir as datas porque, afinal, você e Fleur são muito requisitadas como madrinhas e eu sou seu melhor amigo antes dele. Grato.

Existia tanta informação nessa mensagem que ela precisou respirar fundo para colocar as ideias no lugar. Primeiro, Harry e Ginny se casariam, Phillipe e Lorena também, aparentemente. E depois, elas seriam madrinhas dos dois casamentos. Hermione suspirou para o jeito atrapalhado do seu melhor amigo e preferiu deixá-lo sem resposta somente para envergonhá-lo por ter falado demais na frente do casal francês.

A próxima mensagem era dos pais, precisamente, de sua mãe e foi a primeira vez que algo vindo deles não provocou ansiedade nela. Sem pestanejar, ela tocou para lê-la:

Bom dia, querida! Tivemos que voltar a Londres ao amanhecer, aparentemente, um dos nossos pacientes resolveu quebrar um dente justo nesse fim de semana. Peço que nos perdoe... E esperamos uma visita sua e da Fleur logo! Venham jantar conosco qualquer dia desses! E diga a Fleur que ficamos orgulhosos da forma como ela lidou com a criticazinha de quinta... Amamos vocês, beijos!

Essa mensagem provocou um sorriso em Hermione e ela ainda estava com ele no rosto quando os sons do despertar de Fleur atraíram a sua atenção. Bichento também acordou já que, desde que chegara a Ottery St. Catchpole, ele parecera ter desenvolvido uma espécie de comunhão aos hábitos da francesa. Os dois se ergueram, ela de forma menos graciosa enquanto se enrolava no cobertor antes de caminhar para perto da morena.

Foi um daqueles muitos momentos em que Hermione se perdeu nela. Na beleza que ela parecia nunca perder, nem depois de uma noite de sexo e uma manhã de ressaca, como aquela. Na elegância que ela naturalmente possuía e que não a deixava parecer estranha nem enrolada em um cobertor e, principalmente, em tudo que a fazia ser quem era, a mulher que conquistara e aprisionara Hermione Granger em uma vida de amor.

Fleur ergueu os olhos cerúleos para ela e, pega de surpresa, franziu as sobrancelhas claras. A morena riu roucamente para ela, ainda mais quando a francesa a alcançou e a abraçou, deixando que as mãos geladas castigassem a cintura coberta pelo robe. Hermione se afastou inquieta e a francesa, satisfeita, beijou-lhe a bochecha e disse:

Bonjour, ma belle... Tudo bem?

A advogada não respondeu de imediato. A pergunta era simples e de fácil entendimento, mas, englobava tanta coisa que Fleur sequer tinha ideia. Hermione lembrou-se da mulher que fora antes daquele povoado, lembrou as noites em Londres onde bebera demais para esquecer de Astoria, lembrou a amargura que carregava quando se tratava dos pais, lembrou do seu vício com o trabalho... Ela, com certeza, não estava bem ao chegar a Ottery St. Catchpole.

E ao chegar ali, encontrou uma mulher tão perdida quanto ela. Fleur, que ainda transitava entre os Weasleys, que ainda brigava por um lugar no país para qual fugira enquanto sentia saudades, uma mulher que ainda tinha dúvidas cruéis em relação ao seu passado e que carregara uma armadura emocional tão forte que somente a sua teimosia, da mesma natureza, foi capaz de derrubá-la.

As duas se encontraram em meio a um divórcio e foi de uma separação que surgiu o amor que hoje, orgulhosamente, mostravam a quem quisesse ver.

Por isso, Hermione não titubeou quando sorriu para a bela careta curiosa que Fleur a entregava e respondeu calmamente:

— Tudo ficou bem quando você apareceu em minha vida.

A francesa, surpresa com aquela demonstração matinal de carinho e adoração, também sorriu e se aproximou, beijando delicadamente os lábios morenos.

Há um ano, elas se encontraram. E para a vida inteira... Elas ficariam juntas.

Uma sentença silenciosa proferida em pratos elaborados, taças de vinho, casos jurídicos, segredos revelados e feridas curadas pelo amor. Um fim que era apenas o começo de uma vida inteira.

F I M

Notas finais
Espero que tenham gostado desse epílogo e mais uma vez, sinto muito pela demora. Já adianto que tenho mais fanfics engatilhadas e estou disposta a terminar as que estão em aberto... Agradeço pela paciência e por ainda me acompanharem. Com carinho, Fernanda Redfield.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!