La Petite Mort

6 As verdades de uma derrota


Notas iniciais
Boa noite, pessoal! :D Como vocês estão? Agradeço pelos comentários no último capítulo. Sobre este, vamos conhecer um outro lado da Fleur... Espero que ela se redima com vocês Hahahahaha (E me bronqueiem, por favor, se eu estiver saindo muito da personagem ;X) Boa leitura!

Alguns dias se passaram para que Fleur, finalmente, “perdoasse” Bill. A francesa estava à beira das emoções nos últimos dias, o que tornava a rotina com ela extremamente difícil de ser suportada. Entretanto, Bill já estava acostumado com todas as manias e com todas as crises da futura ex-esposa, ele tinha que confessar que até mesmo se divertia com as reclamações e as blasfêmias em francês.

Cedric, por outro lado, tinha uma alma mais calma e menos agressiva do que Bill. O jovem garçom não sabia o que fazer quando Fleur, irritada pela despreocupação divertida de Bill, avançava contra ele. Cedric, depois de ter o ouvido recheado das mais absurdas palavras da gramática francesa, decidiu simplesmente desaparecer quando Fleur Delacour tinha seus ataques de fúria.

Exatamente uma semana já havia se passado desde o último confronto com Hermione Granger e Fleur não a vira desde então. Porém, Bill fazia questão de deixá-la informada a respeito de todos os aspectos da vida da advogada, Fleur fingia não escutá-lo na maioria das vezes e realmente tentava não lhe dar ouvidos... Mas, desde o último encontro, a mente de Fleur não vinha trabalhando muito bem quando ela pensava em Hermione.

A francesa não era idiota para negar que alguma coisa fora despertada dentro de seu corpo naquela última briga, na verdade, se Fleur pensasse um pouco além de sua teimosia e de sua impaciência em relação a Hermione (o que vinha fazendo bastante nos últimos dias) chegaria a conclusão de que sabia, ou pelo menos tinha noção, do que fora despertado. Porém, a chefe se recusava a sair de sua zona de conforto.

O seu suposto ódio e desprezo em relação a Hermione eram muito mais fáceis de lidar. Fleur Delacour era especialista em tratar os outros abaixo de seu pedestal.

Sempre que colocava esse mote em questão, a mente de Fleur a embriagava com as memórias atordoadas do confronto no chalé. Hermione estava entrando em sua vida sem ser convidada e usando da teimosia para se fazer presente. Principalmente, tirando-lhe o seu único refúgio para onde podia ir quando Bill a deixava. Fleur estava enlouquecendo sem o seu chalé, ela não tinha para onde ir quando queria pensar sozinha. Era por isso que suas crises de fúria eram cada vez mais freqüentes.

Fleur fatiava uma cebola com certa brutalidade quando, no meio do expediente do horário do almoço, Bill entrou sem cerimônia alguma na cozinha. A chefe ergueu os olhos da tábua de madeira e, imediatamente, encarou o futuro ex-marido. Bill engoliu em seco antes de respirar fundo, o nervosismo estava estampado em sua face. Fleur largou a faca e enxaguou as mãos na torneira, fez sinal para que Neville continuasse a sua tarefa e puxou Bill para um canto afastado, próximo à despensa.

Bill olhava para ela, pálido e trêmulo. A fúria contida desapareceu das atitudes de Fleur, dando lugar à preocupação. A chefe encostou o corpo cansado na parede fria e cruzou os braços, foi com um pouco de curiosidade e esgotada que ela perguntou:

– O que foi dessa vez, Bill?

– A minha mãe, ela... — Bill tinha a voz falha e ele precisou parar de falar para retomar o fôlego que havia perdido. Fleur franziu a testa, curiosa e apanhou o papel que o rapaz lhe oferecia. — Ela entrou com um processo contra você, Fleur.

Fleur fechou os olhos e, antes que pudesse erguer as muralhas emocionais que a cercavam em momentos de fraqueza, ela desabou. As lágrimas escorreram livremente pelas maçãs de seu rosto, manchando o rosto pálido com traços úmidos e constantes. Contudo, as lágrimas de Fleur eram silenciosas ao mesmo tempo em que ela sentia tudo quebrar e gritar em seu interior.

Foi como se alguém tivesse tirado o chão aos seus pés, era uma comparação clichê, mas Fleur sentia-se exatamente daquela forma. Ela não tinha mais noção alguma do que a cercava porque, naquele momento, ela sentia como se nada mais a pertencesse naquele lugar e naquela cidade. Molly Weasley estava tirando-lhe uma das poucas coisas que ela construíra durante todos aqueles anos, sozinha.

O “La Petite Mort” era algo que parecia uma continuidade de Fleur. Para todo canto da cozinha, cada cadeira do salão e cada prato que ela preparava... Tudo era uma extensão do que ela era, do que a verdadeira Fleur era. A jovem francesa, ainda sonhadora, que saíra de casa brigada com os pais para viver os próprios sonhos na terra que eles tanto difamavam. A jovem que se apaixonou fraternalmente por um jovem e bonito britânico, a jovem que tinha mãos capazes de transformar os alimentos nas melhores experiências de seus clientes...

E perdê-lo era, essencialmente, perder um pedaço de si. Talvez, o único pedaço que realmente importasse. Era perder, para sempre, aquela jovem que Fleur procurava todos os dias e não encontrava no meio de sua amargura inexplicável que nutrira naqueles cinco anos.

– Fleur, minha querida, me desculpe... — Bill murmurava várias vezes, perdido em suas palavras. Os olhos castanhos estavam opacos e preocupados, ele não sabia como consolá-la. Fleur ergueu os olhos que estavam vermelhos e molhados, sorriu tristemente para ele e Bill deu um passo a frente, completamente incapaz de agir de forma melhor. — Eu não achei que ela fosse capaz de ir tão longe, eu pensei que ela...

– Não é sua culpa, mon coeur... — Foi a única coisa que Fleur conseguiu dizer, sua voz estava quebrada, sem o tom de voz imperioso e a força que lhe eram tradicionais. Bill também quebrou e as lágrimas escorreram de seu rosto, Fleur continuou a sorrir para ele e limpou as lágrimas dele com gestos delicados e gentis. Gestos que Bill não era capaz de retribuir, ele estava com vergonha, sentia como se tivesse traído a sua melhor amiga. — Ne est pas de votre, chérie.

Fleur, então, afastou-se de Bill e apanhou a garrafa de vinho que sempre deixava na cozinha. A chefe retirou seu dólmã e soltou os cabelos enquanto caminhava para apanhar sua taça, com ela em mãos, saiu pela porta dos fundos do dinner e deparou-se com o beco que dava em uma rua sem saída atrás da praça. Fleur, com passos lentos e silenciosos, caminhou até o final da rua e encostou-se no muro de tijolos avermelhados, escorregando o corpo, lentamente, até o chão.

Sentada, Fleur abriu a garrafa de vinho e despejou uma pequena quantidade na taça. Retirou um cigarro do maço que tinha no bolso da calça e o acendeu com seu isqueiro de prata. Com o olhar perdido, observou o pequeno fluxo de pessoas que caminhavam ao seu dinner.

E, antes que pudesse evitar mais uma demonstração da fraqueza que tanto abominava, voltou a desabar. Sozinha.

# # # # #

– Aonde você vai? — Harry finalmente perguntou depois de, no mínimo, quinze minutos observando Hermione escolher uma roupa enquanto a mesma estava enrolada em uma toalha.

Hermione o ignorou, por alguns minutos, jogando uma calça jeans sobre a cama em que já estavam uma leve blusa de manga comprida e um lenço. A advogada, sem responder, empurrou Harry para fora do quarto que usava no chalé alugado e começou a se vestir enquanto o escutava através da porta:

– Você não vai sair daqui sem me responder. Não se esqueça que estamos no primeiro andar e a altura é relativamente alta para você saltar e fugir pela janela.

A advogada revirou os olhos enquanto se vestia, depois, calçou as botas e apanhou a jaqueta leve na porta do guarda-roupa. Pronta, olhou-se no espelho pela última vez antes de abrir a porta e encontrar Harry olhando-a fixamente, a expressão severa e os braços cruzados. Ele a olhou por completo e perguntou indignado:

– Vai atrás dela, não é?

– Claro que eu vou! Faz uma semana que Bill não me diz nada, estou completamente às cegas aqui... Sabe muito bem o que uma semana sem atitude pode significar em uma situação judicial! — Hermione respondeu friamente, sem pestanejar diante da tamanha mentira que estava dizendo a Harry. Estava cada vez mais fácil negar qualquer coisa relacionada à existência de Fleur Delacour.

Hermione passou por Harry e desceu as escadas de madeira, as tábuas rangendo sob seus pés. O rapaz a acompanhou sem dificuldade e quando ela chegou à sala, ele estava ao lado dela, com a mesma expressão de antes enquanto falava indignado:

– Pare de mentir para si, Hermione! Nós dois sabemos que você não está aqui somente por causa dos pedidos de Bill e da situação judicial que você sequer imagina em que pé está.

– Eu não estou mentindo para mim, Harry! — Hermione disparou agitada, finalmente olhando para o amigo. Harry surpreendeu-se ao notar quão perdida a amiga estava, ela lhe olhava de forma vaga e confusa, perdida. A advogada apanhou a bolsa de couro em cima da poltrona e parou em frente à porta. — Mas tampouco sei o que eu estou fazendo aqui. E não saber me assusta.

O tom de voz de Hermione soava como uma confissão. Imediatamente, a expressão de Harry relaxou e ele, preocupado, deu um abraço na amiga. Hermione agarrou-se ao corpo de Harry de forma desesperada e os dois ficaram abraçados por alguns minutos. O rapaz afagou os cabelos da amiga e, com um sorriso de lado, aconselhou:

– Deixe esse cérebro funcionando, assim você não faz besteira.

Hermione acenou afirmativamente para ele, com um sorriso culpado nos lábios e saiu para a noite de Ottery St. Catchpole. Harry escutou o barulho das ondas antes da porta se fechar e, assim que encontrou-se sozinho no chalé, caminhou até a sala e se jogou na poltrona.

Ele não ia mais intervir, havia desistido. Mas estaria com Hermione, para o que ela precisasse.

Bill fechava a última conta da noite e despedia-se do casal Davies quando Hermione entrou envergonhada pela porta. Cedric já havia colocado o aviso de fim de expediente e ela o ignorara. A advogada caminhou até o seu balcão e, Bill conseguiu ler a preocupação nas feições dela. Cedric vinha logo atrás, totalmente confuso e gesticulando. Bill fez sinal para que ele a deixasse em paz e Hermione sorriu para ele, cumprimentando:

– Boa noite, Bill.

– Boa noite, Hermione. Já faz algum tempo, não? — Bill cumprimentou educadamente, com um sorriso de lado, o máximo que ele conseguia oferecer depois de passar o dia atarefado, cuidando de Fleur e do restaurante. A advogada assumiu uma expressão pensativa diante da falta de entusiasmo dele e, curiosa, perguntou:

– Aparentemente, os dias andam cheios para você. O que está acontecendo aqui?

Bill parecia não ser o único bom leitor de pessoas naquela conversa. O ruivo deixou os ombros caírem e assumiu a derrota com o olhar, Hermione sorriu preocupada para ele e Bill apanhou a mão dela entre as suas, ele suspirou e disse esgotado:

– Hoje não é um bom dia para você tentar falar com Fleur.

– O que aconteceu com ela? — As palavras de Hermione saíram antes que ela pudesse processá-las, um discreto rubor tomou suas bochechas e ela desviou os olhos de Bill, puxando sua mão em seguida. O ruivo não conseguiu conter o sorriso leve em seus lábios, ele a olhou com uma admiração passiva e respondeu:

– Na verdade, é até melhor que você saiba, só não interaja com ela... Minha mãe entrou com um processo contra Fleur na manhã de hoje e ela não reagiu bem.

– Como ela reagiu? — Hermione perguntou irônica e Bill fechou a expressão para ela, tomando aquele tom como ofensa. A advogada não se deixou abalar, tinha um sorriso brincalhão nos lábios. — Queimou alguém na cozinha? Esfaqueou algum cliente?

– Na realidade, mademoiselle Granger... Eu bebi, fumei e chorei. — A voz gélida de Fleur Delacour veio da direção da cozinha, Hermione abandonou todo o divertimento vingativo que aquela situação pudesse lhe proporcionar quando encontrou os olhos azuis, sempre tão viscerais, opacos e mornos. Não eram os olhos com os quais ela estava acostumada. — E eu ficaria realmente grata se a senhorita não aparecesse por aqui e desaparecesse da minha cidade. Existem advogados mais baratos em Ottery St. Catchpole.

Fleur terminou a sua caminhada ao lado de Bill, colocando uma mão sobre o ombro do ruivo. Bill colocou a própria mão sobre a dela e afagou, Fleur permitiu um discreto sorriso de agradecimento antes de se voltar, frágil, para Hermione. A advogada observou a interação dos dois enquanto, boquiaberta, enxergava a desconstrução de Fleur Delacour.

A chefe tinha os cabelos loiros ao redor do rosto, cujas bochechas estavam avermelhadas e inchadas. Os olhos azuis, como já descritos, estavam avermelhados e opacos, pareciam ter derramado todas as lágrimas que produziram naquele dia. Fleur também estava um pouco trêmula e parecia zonza, apoiando-se em Bill como se ele fosse o único porto seguro dentro do restaurante.

Hermione mordeu o lábio inferior e, depois, a língua, punindo-se pela sua falta de tato. A advogada respirou fundo e desviou os olhos de Fleur, deixando que a incômoda sensação de aperto em seu peito a abandonasse e, então, colocou a mão direita no interior de sua bolsa de couro a procura do chaveiro que estivera com ela durante aquela semana.

A advogada, intrigada pela flor do chaveiro, iniciou suas buscas na internet e descobriu que se tratava da representação de um Cravo, mais tarde, Hermione enxergou algumas lascas de tinta púrpura na estrutura metálica. E riu do quão irônico era o significado daquela flor no momento.

Antipatia. Capricho. Entretanto, essas palavras não se encaixavam para a Fleur que estava encolhida junto a Bill.

Hermione tirou o chaveiro de dentro do bolso e olhou para ele, um pouco saudosa por entregá-lo. Ingenuamente, aquele era um pedaço de Fleur que estivera com ela naqueles últimos dias... A jovem advogada o estendeu e, com um sorriso triste, murmurou:

– Sinto muito pelo que aconteceu hoje e pelas minhas palavras, Miss Delacour. Não vim aqui para falar sobre o processo, na realidade, acabei de descobrir sobre ele... Eu vim para lhe devolver, achei que quisesse de volta.

– Seria muito melhor se você me devolvesse com as chaves do meu chalé, mademoiselle Granger. — Fleur estava fria, mas seu tom de voz quebrava em partes da frase que Hermione estava acostumada a ouvi-la esbravejar sem medo de feri-la. Ela apanhou a chave sem permitir que sua pele encontrasse a da advogada. Os olhos de Hermione firmaram nos olhos azuis que, pela primeira vez desde que se conheceram, desviaram-se fugitivos. Bill pigarreou e, desconfortável, sugeriu:

– Na verdade, acho que devíamos começar a discutir sobre o caso. Já que ele realmente se tornou um caso judicial.

O silêncio pairou entre eles, Bill olhava de uma para outra, esperando que uma nova discussão irrompesse a qualquer momento. Fleur mantinha os olhos baixos e a postura encolhida, Hermione olhava para ela, preocupada e angustiada. Bill observava Fleur completamente alheia ao sentimento nos olhos castanhos e abriu a boca para insistir quando Hermione olhou para ele incisiva, gentilmente, a advogada disse:

– Acho melhor não falar sobre isso hoje. Aliás, acho melhor falarmos sobre isso somente quando Fleur quiser.

Surpresa, Fleur ergueu os olhos para Hermione. A advogada a olhava com um pouco de receio e de vergonha, mas tinha um sorriso discreto nos lábios. Fleur, naquele momento, notou a diferença de proporção nos dentes de Hermione, mas não se incomodou. Tocada pelos olhos castanhos que a observavam com ânsia de cuidar, Fleur acenou afirmativamente com a cabeça e apertou o ombro de Bill pela última vez antes de dar às costas aos dois e caminhar de volta para cozinha.

Bill a observou, cabisbaixa, caminhar e virou-se para continuar a falar com Hermione apenas para notar que estava sozinho e que a porta do restaurante estava aberta. O ruivo olhou de um lado para o outro, confuso até escutar a voz de Cedric perguntar risonho:

– Nada de novo no front de batalha?

– Na realidade, sim... Trégua. — Bill respondeu de forma discreta, o coração do ruivo enchia-se de uma energia quente e aconchegante, ele não conseguia parar de sorrir. Cedric caminhou até ele e esticou-se para beijá-lo no rosto, Bill abaixou-se ainda com o sorriso nos lábios. Cedric fechou a porta da restaurante e Bill caminhou de volta para a cozinha.

De forma silenciosa, ele chegou até o local e encontrou Fleur distraída, olhando para o fogão industrial. Bill sentiu as mãos de Cedric em sua cintura e os dois, silenciosamente, observaram um discreto sorriso abrir-se nos lábios de Fleur.

Era a primeira vez, naquele dia, que ela sorria.

Durante todo o trajeto de volta para o chalé, Hermione foi atormentada pelos olhos azuis sôfregos. A morena chacoalhava a cabeça diversas vezes, procurando afugentar qualquer pensamento que remetesse a Fleur Delacour, mas a sua teimosia estava esgotando-se, assim como a sua falsa cegueira em relação à natureza de sua estadia naquela cidade.

Quando, finalmente, chegou ao chalé, Hermione entrou como se fosse um furacão. Ela bateu a porta e caminhou a passos pesados até a sala, cuja luz estava acesa. Harry observou todo o descontrole da amiga em silêncio e quando ela deitou-se no sofá, chutou as botas e colocou as mãos sobre os olhos, ele finalmente perguntou:

– Eu vou querer saber o que aconteceu?

– Vai, mas eu só vou ter coragem de falar depois que tiver um pouco de álcool em meu organismo. — Hermione resmungou agressiva, com os olhos ainda escondidos pela sua mão. Harry correu até a cozinha, abriu a geladeira e apanhou duas garrafas de cerveja. Voltou à sala e estendeu uma para Hermione, a advogada a apanhou e sentou no sofá, olhos no chão e garrafa em mãos.

Harry tomou um gole de sua garrafa e observou Hermione chegar à metade da sua com apenas um gole, com os olhos verdes arregalados, o rapaz observou a amiga erguer o rosto. Os olhos castanhos não estavam mais perdidos, existia certo calor neles, dessa vez. Hermione suspirou e, como se lhe partisse a alma, grunhiu:

– Eu só estou aqui por causa dela e vou continuar por causa dela.

Harry segurou a risada e manteve-se em silêncio por alguns minutos até que, após tomar mais um gole de sua cerveja e observar a amiga esvaziar seu exemplar, ele deitou-se no sofá e murmurou risonho:

– Ótimo, me conte algo que eu não saiba.

Sua resposta veio em forma de xingamentos e blasfêmias e de uma almofada que, por pouco, não lhe atingiu seu rosto e quebrou seus óculos.

# # # # #

Hermione se escondeu de toda a cidade nos dias que se seguiram. Harry ocupava-se saindo com Gina às escondidas de todos os irmãos Weasley. Enquanto ficou no chalé, Hermione realizou algumas ligações apenas para saber em que pé andava o processo. Mas nada mudara desde a intimação e Hermione sabia que não estava nem na metade do prazo que Fleur possuía para dar uma resposta.

Era o terceiro dia desde a estranha conversa no dinner e desde a sua confissão a Harry e este se passava tão lentamente quanto os demais.

Hermione levantou-se da poltrona da sala e observou seus livros preciosamente empilhados na mesinha ao lado do estofado e, também, seu notebook aberto em suas petições. No braço da poltrona, um chumaço de papéis que continham as documentações de Bill, Fleur e do “La Petite Mort”. A advogada situava-se dentro do caso, esperando que Fleur a permitisse trabalhar nele.

Hermione atravessou a sala e o hall e caminhou pelo curto corredor que continha apenas uma porta que levava ao lavabo. Chegou à cozinha e serviu-se de mais chá antes de voltar à sala e, acabara de colocar a xícara sobre um descanso para copos quando a campainha tocou. Estranhando a visita inesperada, sabendo que Harry só chegaria mais tarde, Hermione atendeu à porta, nervosa.

Encontrou, em sua soleira, Rony Weasley. O ruivo tinha um sorriso nos lábios e rubor nas bochechas. Hermione cruzou os braços para ele e apoiou-se na madeira do portal, observou-o um pouco irritada e perguntou:

– A que devo a honra de sua visita?

– Honra? Nossa, obrigado. — Rony murmurou bobamente, mais para si do que para Hermione e corou ainda mais. Hermione escutou e revirou os olhos para ele, somente para sorrir divertida em seguida. Ela não conseguia levar o ruivo a sério. — Bem, posso ter pegado Gina saindo às escondidas com seu melhor amigo e ela pode ter me dito que faria qualquer coisa caso eu não contasse nada aos nossos pais e eis que... Bem, ela sabe barganhar e você sabe que a informação é a melhor moeda de troca.

– Ah claro, eu também sei que estou muito ocupada e ainda não posso sair com você. — Hermione respondeu rapidamente, observando a expressão de Rony desmanchar-se, decepcionada. A morena sorriu para ele, com um pouco de pena nos olhos. Rony levou o olhar dela como uma ofensa e estufou o peito, engrossou a voz e disse galante:

– Pare de resistir, Miss Granger. Seu amigo mencionou que a senhorita gosta de se manter ocupada até quando não está trabalhando.

Hermione fechou a expressão em uma carranca furiosa, não por Rony, mas pela audácia de Harry em comentar a sua vida com ele. O ruivo abriu um sorriso vitorioso, ciente de que atingira um ponto que contava ao seu favor. Hermione sorriu falsamente para ele e de saco cheio com toda a situação, disparou sem rodeios:

– Não estou trabalhando, mas sou gay, Ronald.

Na lata.

Hermione observou várias sensações passarem pelo rosto de Rony. Primeiro, veio o choque, com direito a olhos arregalados e boca parcialmente aberta. Depois, veio à compreensão, com o franzir da testa e, em seguida, a negação. A morena segurava a risada, discretamente. Mas ela mesma perdeu-se no choque quando escutou uma voz suave e repleta de sotaque dizer:

Pardonnez-moi, mas Madeimoselle Granger está trabalhando sim, para mim, Mousieur Weasley.

Rony sobressaltou-se e olhou para trás de si, com o deslocar do corpo dele, Hermione enxergou a figura altiva de Fleur Delacour.

A francesa estava com a postura relaxada e até mesmo sorria enquanto esperava no fim dos degraus de pedra. Naquele dia, ela abandonara o jeans e a camisa social. Fleur usava um vestido azul que marcava sua cintura e ia até o meio das coxas, com uma discreta blazer branco.

Rony olhou de volta para Hermione que, incapaz de qualquer reação mais racional, deu de ombros. O ruivo, insatisfeito, perguntou agitado:

– Você trabalha para ela?

Mademoiselle Granger é minha representante no processo contra sua mãe. — Fleur respondeu enojada, com a frieza chegando as suas feições quando mencionou a figura de Molly Weasley. A expressão de Rony iluminou-se e ele, um pouco aliviado, disse:

– Ah sim, isso...

Hermione arqueou a sobrancelha para ele, ofendida e lisonjeada ao mesmo tempo, Fleur enrubesceu. A advogada pigarreou e, desconfortável, disse:

– Bem, Ronald... Como pode perceber, aparentemente tenho assuntos a tratar com a minha cliente.

O ruivo ficou vermelho até a raiz de seus cabelos antes de saltar os degraus de pedra e caminhar rapidamente para longe das duas. Fleur observou a pressa do rapaz com um brilho de divertimento nos olhos e Hermione a observou com certo temor, sentindo suas mãos suarem e seu coração disparar, agitado.

Sua orientação sexual e a certeza dela eram aspectos de sua vida que nunca a incomodaram. Até aquele momento.

Quando, enfim, os olhos azuis de Fleur se voltaram para Hermione, estavam neutros, incapazes de serem interpretados porque existia um quê de mistério dentro deles. A advogada não se deixou abalar e, orgulhosa, começou:

– Eu não sei a partir da onde a senhorita escutou, Miss Delacour, mas se...

– Se você vai me representar contra esses Weasleys, é melhor abandonar os vocativos, Hermione. — Fleur a interrompeu com o tom de voz bronqueador e o dedo indicador levantado, em sinal de repreensão. Hermione engoliu em seco, surpresa. Fleur dissera seu nome com dificuldade, o sotaque brincando em seus lábios e em sua voz.

Fleur assumiu uma expressão mais relaxada enquanto a observava, esperando por uma resposta. Hermione desceu as escadas e estendeu a mão direita para ela enquanto dizia séria:

– Será um prazer representá-la. E me desculpe, mas eu não consigo abandonar os vocativos, Miss Delacour.

– Tente. Você já me provou ser insistente o bastante. — Fleur respondeu com um sorriso de lado que Hermione percebeu ser naturalmente charmoso e totalmente dela, a francesa não apertou a mão que lhe era estendida e sim, deu às costas.

Hermione revirou os olhos para ela, mas sorriu enquanto a observava caminhar para a orla. A advogada entrou no chalé com um sorriso nos lábios, o coração acelerado e um calor desconhecido ocupando seu pescoço e rosto. Seus olhos castanhos encontraram o espelho e ela enxergou seu reflexo com as maçãs do rosto avermelhadas e os olhos castanhos brilhando. Agitou a cabeça e bronqueou-se:

– Mantenha o foco, Granger.

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Notas finais
Ok, ok... Já podem amar o Harry, rir do Rony e se apaixonarem pela Fleur (porque sim, eu tô ainda mais apaixonada por ela! Hahahahaha). Ou vocês podem me xingar e me criticar nos comentários :D Espero reviews! Nos vemos no próximo capítulo, FerRedfield