La Extranjera
9 Deusa Caliente
Notas iniciais
A chuva caia ao nosso redor,como em um filme preto e branco de época.
–E alguém já conseguiu te seduzir, assim...? -perguntei em um tom malicioso, o imitando ao morder o lábio inferior também.
Ele pareceu fingir pensar,soltou o lábio já vermelho,dando um passo para se aproximar de mim. Contraiu os lábios e virou a cabeça para o lado, em sinal de indecisão.
–Interessante...-balbuciei,quase sem voz, olhando para os olhos famintos de Lucas.
–É...-ele sussurrou, respirando pela boca, e tirando uma mecha de cabelo molhado do meu rosto.
Meus hormônios estão borbulhando. Eu queria poder ignorar o fato dos pelinhos da minha nuca estarem eriçados, ou o calorzinho que eu estava sentindo nas pernas,quando o ruivo colocou uma das mãos no fim das minhas costas e colou seu corpo no meu.
–Sabe, a sua boca também ta suja de chocolate... -murmurei,em um tom brincalhão, sentindo o seu coração acelerar e bater contra o meu peito.
–Serio? Não me diga... -sibilou, com um sorriso cafajeste, que fez suas covinhas se aprofundarem.
Confirmei, com um leve movimento de cabeça. Levantei a mão que não estava segurando a sacola,até o seu rosto, mas, invés de passar o dedo em seus lábios,como ele havia feito, eu segurei o seu queixo. Senti sua respiração pesada,quando levantei meus pés e fiquei na altura de seu rosto, encostei os meus lábios no canto da sua boca,chupando o chocolate.
Ouvi ele soltar um gemido no meu ouvido, que vez o meu corpo se arrepiar. Ele me puxou mais para ele e tentou virar o rosto, um pouquinho mais, para que pudesse grudar nossos lábios, mas, antes que ele conseguisse eu afastei o meu rosto do seu.
–Não me tenta, moreninha...-murmurou,com a voz rouca e os olhos fechados. –Eu não posso conter o meu coração.
O Lucas emana um calor que aquece o meu corpo, e me faz relaxa, ele encostou sua testa na minha, ainda me apertando contra ele. Nem a gota de chuva mais fria conseguiria esfriar o meu corpo, agora. Eu não consigo para de olhar para esses lábios, perfeitamente avermelhados...
Por que...?
Eu não consigo pensar direito, as batidas aceleradas do seu coração desligaram o meu cérebro; Não sei disser se isso é uma mistura potente de hormônios ou desejo. Não tenho idéia de quanto tempo ficamos assim, mas, quando um trovão reverberou pelos céus,senti seu corpo tremer um pouco.
Ele pousou seus lábios na minha testa, em um beijo casto antes de se afastar, passando as mãos no cabelo umas três vezes enquanto respirava pesadamente.
Santa madre del cielo!
Meu corpo e meu cabelo estão completamente molhados, mas mesmo assim, eu me sinto quente. Comecei a andar, a passos largos e apressados em direção ao portão do meu prédio, o deixando para trás,sem falar nada. Quando finalmente entrei, chamando a atenção de algumas senhoras que passavam e do porteiro,por eu estar pingando. Aproveitei que o elevador tinha acabado de descer e entrei,apertando o botão do meu andar.
Nota mental: Nunca comer chocolate perto do Lucas.
As coisas na minha sacola, incrivelmente não estavam molhadas. Respirei em alivio. Senti um arrepio que chegou aos meus cabelos ao lembrar do choque que eu senti, quando meus lábios tocaram o canto da boca do ruivo psicopata.
Se acalma Cristina. Respira. São apenas seus hormônios agindo. Nada mais.
Me assustei com o barulho do elevador quando chegou ao meu andar, andei pelo pequeno corredor, até chegar a porta do apartamento. Recompus a compostura e entrei, mas, tudo foi por água abaixo com o grito que Lúcia e eu demos juntas.
Ela estava uma versão feminina de um mostro do rio, com uma toalha azul enrolada em forma de turbante na sua cabeça, uma mascara verde por todo o rosto, provavelmente algum creme que ela inventou, e alguma coisa cobrindo os seus dedos. Já eu, estava com o visual ‘’Samara saindo do poço’’
Depois de alguns segundos, nos encarando assustadas, começamos a rir descontroladamente. Eu tirei meus All star azuis encharcados e joguei na lavanderia, enquanto ela ainda tossia engasgada com a crise de risos.
–Dios mío... –ela resmungou em uma mistura de riso e tosse – Você demorou,hein... Oque você tava aprontando,mocinha? –questionou, me olhando com uma falsa repreensão.
–Nada,ué... –disse, simplesmente. –Quer um abraço? – perguntei, erguendo os braços e indo até ela com um sorriso diabólico
–Não! Sai de perto de mim! –gritou, afastando-se e se jogando o sofá.
–Nunca vi uma pessoa ter tanto medo de água...-resmunguei,revirando os olhos – Oque você ta fazendo com isso na cara? E esse negocio no dedo? A gente não ia sair?
–Pra sua informação senhorita,esse é um creme esfoliante feito com repolho, que eu vi em uma revista de gente rica, os tomatinhos são pra fortalecer a unha –balançou uma das mãos de um jeito exagerado –E Ahh... ta chovendo... Vamos sair outro dia,Ok? Ok –ela falou,fazendo bico.
–Tá...-disse,simplesmente.
Aquilo realmente não me surpreendia, depois de ‘’acidentalmente’’ ter deixado a minha pele meio azul por uma semana com a proposta de que ela ficaria mais ‘’brilhosa e revigorada’’ não espero mais nada dessas invenções que minha irmã arruma, sabe se lá onde...
–Tem um fiozinho ruivo no seu ombro. –gracejou,ondulando as sobrancelhas.
Olhei assustada para o meu ombro,nada, me virei para ela e estava se contorcendo para não rir. Joguei minha touca molhada nela, que soltou um grunhido de agonia. Fui até o meu quarto e coloquei a sacola e minha mochila em cima da escrivaninha e me direcionei ao banheiro, tirei minha roupa e coloquei em um canto,para que depois eu jogasse na maquina de lavar. Entrei no chuveiro e tirei uma estranha camada de areia que estava em mim e lavei o cabelo com o shampoo da Lúcia.
Quando terminei, me encaminhei até o meu quarto e vesti uma calça de moletom preto e uma blusa laranja de manga longa soltinha, e calcei minhas pantufas cor de rosa,sim produção... cor de rosa. Peguei minhas roupas que estavam no banheiro e joguei em um cesto da lavandeira. A Lúcia tava na cozinha fazendo um sanduíche,fui até lá e me sentei na pia.
–Tá fazendo um pra sua irmã bonita,que teve a honra de ter uma Xerox do seu rosto e corpo... também?-perguntei a cutucando.
–Claro...-disse com a cara emburrada e depois deu um sorriso cínico
–Awwn... é por isso que eu te amo. –gracejei, fazendo um coração torto com as mãos.
Ela revirou os olhos mais deu um pequeno sorriso, bati em sua bunda e fui para o meu quarto pegar um pente, mas desisti depois que percebi que estaria em algum canto misterioso e obscuro do meu quarto, andei até o quarto de Lúcia e peguei um dos seus. Depois de desviar do vaso de flores que se localizava no corredor, me joguei no sofá e liguei a TV.
A maioria dos canais espanhóis se resumiam a novelas mexicanas, tele jornais voltados para a crise econômica,jogos de futebol,desenhos e música. Já os daqui possuem uma grande variedade, ou talvez só seja o pacote da teve a cabo que George tenha assinado, comecei a assistir um desenho de um gato azul falante,que tinha um irmão peixe,enquanto desembaraçava meus cabelos molhados.
Após algumas mechas serem penteada, Lúcia apareceu um com dois pratos com sanduíches e copos de sucos que suspeito serem de laranja. Peguei um dos pratos e agradeci a ela com a boca um pouco cheia de mais, eu deveria me impressionar pelo fato de todos os personagens do desenho serem imortais? Ou como a Lúcia riu de forma maléfica quando o peixe espancou amigavelmente o irmão? É... acho que não.
–Então... quer disser que você estava com o Lucas? –ela disse depois de um tempo, tomando um gole do suco,mas por cima do copo eu podia ver como ela ondulava as sobrancelhas de forma sugestiva.
Quando comecei a contar que tinha o visto no parque, ela se surpreendeu e me perguntou oque ele estava fazendo no parque, e eu não soube responder...até que chegou a parte do quase beijo e ela cuspiu o suco na minha cara, e me olhou como se tivesse lhe dito que não era mais virgem. Mas, isso durou pouco, ela se contorceu como se fosse soltar umas de suas perolas.
–E nessa hora você sentiu um calorzinho nas pernas...? –perguntou de forma distraída e eu concordei com a cabeça –Então, porque você não levou ele pra um motel,cobriu ele de chocolate, e tirou as calças para ‘’resfriar as pernocas’’? –soltou,me olhando como se fosse uma questão valida.
–Ahh... não queria te imitar,sabe tenho que ser original, mas é meio difícil pelo fato de você já ter usado todas as idéias e posições com o Gustavo... –rebati, vendo suas bochechas ficarem vermelhas –Então é verdade?! –comecei a rir, enquanto ela ficava cada vez mais vermelha.
– No, su traviesa! –resmungou,desviando o olhar para a televisão – Eu quero esperar,sabe? As coisas estão indo muito rápido, a gente acabou de chegar. E tem aquela outra garota, não quero ir me apegar a ele... Aquele dia que nos saímos foi divertido, fomos no McDonald’s,conversamos bastante,ele toca violão,tem uma irmã caçula,é alérgico a amendoim,gosta do meu sotaque, e sei lá... ele é meio bobo... –disse tudo isso quase em um suspiro,como se fosse pra ela mesma.
–Você esta infectada. –conclui, dando dois tapinhas nas suas costas, como se fosse um consolo. –O bichinho da paixão já te pegou.
–Não...-grunhiu,deitando a cabeça no meu colo.
–Sim querida, você esta falando como no dia em que madre conheceu o George. –argumentei,passando a mão em seus longos cabelos -recém lavados. — Mas, não se preocupe, como eu disse a mamãe, se ele te magoar, ainda posso cortar seu pênis e costurar na testa,simples. –comentei,e ela deu uma gargalhada que me fez rir também.
–Quero ver quando o bichinho da paixão te pegar também... –provocou,pegando o controle pra mudar de canal, o desenho do gato tinha acabado.
–Nunca querida... –disse,estralando os dedos na sua frente.
–Ahh... Adivinha quem ligou. –ela exclamou de repente,dando um largo sorriso. Depois de 7 sugestões erradas ela finalmente revelou –Yolanda.
–Não! Ai que saudade... –suspirei,sorrindo passei a mão na testa.
–Ela disse que iria nos chamar no Skype daqui á...- ela olhou no relógio do aparelho de DVD e arregalou os olhos –Agora!
Sem precisar disser nada,pulamos do sofá em sincronia, Lúcia correu para o banheiro para tirar o creme verde do rosto e eu fui para o seu quarto pegar o notebook e o ligar. Quando finalmente ligou, minha irmã pulou na cama junto a mim com a cara levemente verde. Depois de longos 2 minutos de carregamento, a tela tremeu com o anuncio da chamada de vídeo.
–CICI, TINA! Ohh... minhas meninas! Que saudade. – a senhora de meia idade exclamou,em seu melhor espanhol madrileno.
–Vovó ! –dissemos em uníssono, com o maior sorriso que nossas bochechas poderiam agüentar.
–Vovó é o caralho... por acaso eu sou velha? Ahh... –resmungou,como sempre fazia quando a chamávamos assim.
Yolanda del fuego, a famosa professora de dança de Madri, arrasadora de corações e nossa avó por parte de mãe. A única que nos chama por ‘’Cici e Tina’’, e que odeia ser lembrada de que já tem netas de 16 anos. Com seus impressionantes 67 anos, tem mais energia do que todas as pessoas da minha família,juntas. Depois de ser abandonada pelo meu ‘’avô’’ com 13 anos de casada e grávida da minha tia Inês, não se abateu e continua vivendo a vida de maneira questionavel perigosa.
Em um belo dia,vendo que estava realmente envelhecendo, decidiu de mudar de Andaluzia e foi dar aulas de Flamenco e Paso Doble no centro de Madri. Colecionando amores que caem aos seus pés após a terceira aula. Belos cabelos negros -retocados a cada mês- tão compridos quanto os de Lúcia,pele morena clara,olhos castanhos, lábios carnudos e um nariz fino. Sem falar do corpão de dar inveja nas garotas de 20, ‘’Deusa’’ como é chamada.
Demos uma gargalhada com a cara que ela fez, apalpando o rosto a procura de alguma ruga ou algo do gênero.
–Cici meu amor, você esta bem? Seu rosto esta meio verde. Que produto você andou inventando dessa vez? –questionou com um sorriso caloroso, aproximando o rosto da tela, para poder ver melhor o estrago.
–Creme de repolho... –respondi, semicerrando os olhos observando o pigmento levemente verde de seu rosto. –Talvez seja pra impressionar o ‘’Gus’’... –provoquei a cutucando.
–Ha ha... Aposto que o Lucas vai adorar quando eu pintar seu cabelo de roxo... –ameaçou, ao som da risada de Yolanda.
–Espera... Mal chegaram de viagem e já estão de namorico? –perguntou balançando as sobrancelhas, e dissemos um ‘’NÃO!’’ em coro que a vez levantar os braços.
–Tudo bem... E como vai Juan e a madre de vocês? –perguntou,pegando um leque sabe se de lá onde e se abanando.
–É George... –Lúcia a corrigiu e ela deu de ombros –e estão bem, empolgados com o restaurante.
–Que ótimo, ainda passo por ai para dar um beijo em vocês e comer a comida desse tal restaurante. –gracejou, olhando para algum lugar ao seu lado –Ei,Rubens meu filho, é para a esquerda, desse jeito você vai atropelar Maya. –explicou,gesticulando com o leque florido.
Ela provavelmente deveria estar dando aula, ela continuou a ditar suas instruções enquanto a olhávamos admiradas. Até que me lembrei de uma coisa.
–Yoyo...- a chamei e ela se virou para nos, com atenção –O que você acha de sexo na adolescência? –perguntei, seria, e Lucia pareceu ficar também. Seu rosto era um poema, mudava o olhar de uma para a outra.
–Eu acho um maximo Tina, vocês duas. –apontou para nos –Transem muito! Ouviram? MUITO!
Demos uma gargalhada, não sei porque eu ainda me surpreendo. Todos o seus conselhos consistem em aproveitar a vida ao maximo, fazendo oque quer e curtindo cada momento.
–Só usem preservativos, não quero que apareçam aqui de barriga. –avisou,abrindo o leque novamente e se abanando. –Mas, porque a pergunta? Esta planejando uma noite caliente? –perguntou com malicia e Lucia murmurou a palavra ‘’chocolate’’.
Eu ri, lembrando do que tinha acontecido na aula de biologia, quando Lucas e eu estávamos trocando bilhetes, e por fim eu disse da tal noite caliente. Elas me olharam esperando uma resposta e eu dei de ombros de forma inocente.
–Pesquisa de biologia... –esclareci, mas elas continuaram a me olhar de forma travessa –Ainda tenho que planejar a noite caliente...
–Essa é minha neta! Cici, depois vou te mandar umas fotos da ultima coleção. –falou animada, e Lucia deu um grito que me fez cair da cama.
–Aquela jaqueta de couro que eu estava de olhos, já saiu?! –ouvi ela perguntar, enquanto eu tentava me levantar do chão.
–Hey! –chamei,levantando uma mão por cima da minha visão da cama –Eu to bem... Obrigada pela preocupação. –resmunguei, subindo de volta, mas elas nem perceberam que eu tinha caído.
Elas continuaram a conversar por um tempo sobre a tal coleção e eu fiquei pensando porque as letras do teclado não eram em ordem alfabética.
–Ohh mierda. Tenho que ir meus anjos... Maya esta preste a jogar o salto na testa de Rosalina, Se cuidem, amo vocês. –se despediu,meio tristonha, dando tchau com uma das mãos.
–Ahhh... Não deixe ela estragar o salto com aquela,perra... Beijos. –Lúcia disse, fazendo bico,como se fosse lhe dar um selinho na tela.
–Deixa a Maya dar umas porradas nela, Tchau yoyo, também amamos você. Juízo! –disse, a vendo sorrir e encerrar a chamada.
Ficamos olhando para a tela de um jeito nostálgico, por um bom tempo, Ambas sentimos falta da Deusa Caliente...
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