La Bella Toscana
1 Lo spagnolo
Notas iniciais
O ar estava extremamente quente e abafado e o sol reinava poderoso no céu, afastando qualquer nuvem tímida que ousasse se aproximar. No horizonte vasto e coberto por plantações diversas, uma bela casa amarela de dois pavimentos, cercada por um pequeno jardim com flores de cores e espécies variadas, quebrava a monotonia da paisagem. No interior do modesto saguão, os ventiladores de teto rodavam lentamente, incapazes de sequer fazer de conta que tentavam refrescar. O calor de Agosto chegara com tudo, para arrancar todas as gotas de suor possíveis do corpo de suas vítimas. A respiração forte do jovem adormecido atrás do balcão era o único som que dava alguma musicalidade àquele ambiente soturno.
Havia uma mancha escura nas costas e debaixo dos braços da camisa de Lovino Vargas. Seus cabelos castanhos escuros grudavam na testa molhada de suor. Seus pés descalços repousavam sobre a bancada e seu corpo encontrava apoio na puída cadeira de madeira que mal o sustentava.
Ele dormia porque não havia mais nada a fazer. Supostamente era o responsável por recepcionar os hóspedes aventureiros que viajassem por aquela região da Toscana, mas nenhuma alma viva aparecia havia semanas e provavelmente ninguém apareceria mesmo. A vida naquele pequeno interior esquecido pelos mapas parecia monótona e previsível daquele jeito, mas Lovino frequentemente subestimava o destino e sua capacidade de transformação.
Foi naquele mesmo dia quente e aparentemente normal que um forasteiro, trajando apenas uma camisa branca e uma calça dobrada até a altura de seus joelhos e carregando em suas mãos uma trouxa com alguns pertences, pôs os pés no interior da pequena e esquecida hospedaria. Ele tirou o chapéu de palha que protegia sua cabeça do sol e vasculhou o ambiente com os olhos, a procura de alguma alma viva. Aproximou-se do balcão e se apoiou, observando o italiano adormecido com alguma curiosidade. Pigarreou duas vezes, mas isso não pareceu afetar o rapaz.
“Chao” Saudou com um forte sotaque espanhol. Lentamente e visivelmente irritado pela interrupção, Lovino abriu os olhos. Suas íris cor de mel pareciam fuzilar o intruso que o acordara.
“Tch.” Rosnou, analisando-o de baixo para cima. De má vontade, acrescentou. “No que posso ajudar?”
“¡Buenos dias, señor! Preciso de um quarto para uma pessoa, por favor.” Falou inabalado pela grosseria do anfitrião, como se houvesse decorado a frase. Lovino arqueou uma sobrancelha para o sujeito sorridente à sua frente e bufou, sua irritação se acentuando pela ridícula capacidade do estranho de ignorar sua patada inicial.
“Quantos dias você planeja ficar?” A pergunta veio munida de desconfiança.
O homem pareceu pensar por alguns segundos e Lovino ponderou se ele alguma vez ele planejou de hospedar ali naquele fim de mundo, porque tudo indicava que nem na quantidade de dias havia pensado. O espanhol levou a mão ao bolso e de lá retirou uma modesta quantia em dinheiro.
“Quantos dias dá isso?” Descrente e desconfiado, Lovino contou. Era dinheiro suficiente para apenas uma semana.
“Uma semana.”
O sujeito abriu um enorme sorriso e disse “Uma semana então”.
Lovino pegou o dinheiro e preferiu não perguntar mais nada.
“Aqui, preciso que você preencha isso. Nome, idade, nacionalidade e essas merdas.” Entregou um papel amarelo com alguns dados a serem preenchidos e uma caneta. Logo se levantou, desaparecendo por uma estreita porta de madeira. Voltou menos de dois minutos depois com uma chave em suas mãos.
O sujeito lhe entregou o papel preenchido. Antonio Carriedo era o seu nome. 25 anos. Nada mal.
“Vem. Vou mostrar o quarto.”
Lovino guiou Antonio pelo hall até uma escada no canto do recinto e subiu, sendo seguido pelo outro. Ao alcançar o piso seguinte, limpou o suor da testa e deu uma rápida olhada para trás. O sujeito tinha um pequeno sorriso no rosto e seu olhar estava completamente focado em Lovino.
“Cazzo”. Imediatamente o italiano corou e voltou a olhar para frente. “Este é o seu quarto.” Ele abriu a porta e indicou o modesto, mas aconchegante aposento. “Ali está a sua cama, toalhas limpas, não temos ar-condicionado, então você tem que se virar com esse ventilador. Você pode abrir a janela se quiser. O banheiro fica no final do corredor. O café da manhã é servido as sete, o almoço é meio dia e o jantar oito da noite”.
“Ah! Gracias.” Cantarolou.
“Tch.” Lovino grunhiu, antes de fechar a porta e sair. Mais tarde, enquanto deitado em sua cama, comentaria com o irmão sobre a novidade.
“Temos um hóspede.” O outro se levantou repentinamente, seu rosto se iluminando com um sorriso contagiante que ficou oculto na penumbra do quarto.
“O quê? Um hóspede de verdade?”
Lovino assentiu.
“Wah! Que legal! Como ele é? Quantos dias ele vai ficar aqui? Qual o nome dele? Ah! Amanhã vou precisar acordar cedo e caprichar no café da manhã. O vovô vai ficar tão feliz quando voltar!” Cantarolou.
Lovino começou a achar a forma de falar do irmão irritante como a daquele hóspede. Maravilha. E ele achava que nunca ia encontrar alguém tão irritante quanto Feliciano.
“Oh, pare, seu idiota. São muitas perguntas ao mesmo tempo. O nome dele é Antonio, ele pagou uma semana de hospedagem, mas o idiota parecia nem saber quanto tempo queria ficar.”
“Vee. E me diga, irmão, ele é bonito?” Por um momento, todo o conjunto de Antonio veio à mente do italiano. Seus olhos verdes e cabelos castanhos, escurecidos pela umidade, e aquele rosto ridiculamente simétrico. E ele parecia ter um corpo agradável. Ao menos por debaixo das roupas, que o marcavam incrivelmente bem. Braços definidos e... Aquela bunda. Ao perceber que de fato a aparência do hóspede ficou marcada em si, Lovino corou violentamente, agarrou um travesseiro e atirou contra o irmão.
“Vee”. Ele gemeu ao ser atingido.
“Mas que raios de pergunta é essa, idiota?”
“Eu estava apenas curioso, fratello. Mas acho que vou ter que esperar até amanhã então.” “Hmpf. Vai dormir.” Ele se deitou, cobriu o corpo inteiro e se virou para a parede.
Um costume irritante de Feliciano era murmurar quando estava ansioso, nãoimportando em nada que a outra pessoa do recinto desejasse um pouco de paz. E foi assim que Lovino percebeu que ele ficara ansioso em conhecer o estranho recém-chegado. Nem o travesseiro em sua cabeça abafou completamente os murmúrios empolgados do irmão. “VAI DORMIR” Ele gritou uma última vez.
No dia seguinte, quando o despertador tocou, Feliciano já havia levantado. Sonolento, Lovino checou a hora: seis da manhã. Ele se espreguiçou, pegou o copo com seus pertences pessoais e roupas e caminhou cambaleante até o banheiro. Saiu de lá vinte minutos depois com o banho tomado e os dentes impecavelmente escovados.
“Buongiorno.” Saudou ao entrar na cozinha.
“Ah! Buongiorno, fratello! Estou fazendo o café da manhã, você quer me ajudar? Pode fazer o omelete, por favor?”
Lovino deu de ombros e pegou seu avental que estava pendurado próximo à entrada.
“Vai ser omelete de tomate hoje.” Atestou Lovino enquanto ligava o forno. Ele não se importava em fazer a sua comida favorita para os demais provarem. Além disso, todo mundo adora um bom tomate, certo?
Ele começou a cantarolar enquanto preparava a comida e foi acompanhado pelo irmão. Não muito depois, ouviram o som de passos na escada e se entreolharam. “Você vai lá. Estou ocupado aqui.” Indicou Lovino. Feliciano assentiu e saiu saltitante.
“Vee, Buongiorno! Você deve ser Antonio.”
“Buongiorno! Sou eu!” O sorriso do sujeito imediatamente cedeu lugar a uma expressão de dúvida. “Você está diferente.” Ele atestou com alguma dificuldade no idioma.
Feliciano devolveu um olhar surpreso, mas logo abriu um sorriso contagiante.
“Eu? Mas eu não me lembro de tê-lo conhecido. Ah! Talvez você tenha falado com o meu irmão mais velho ontem.”
“Irmão mais velho?”
“Sì! Lovi. Ontem foi o dia dele de ficar na recepção. Ele deve tê-lo atendido.”
“Lovi.” Repetiu Antonio, tentando absorver o nome daquele sujeito tão adorável do dia anterior.
“Você vai tomar o café da manhã, né? Venha, me acompanhe! Nós temos um salão bem confortável, sinta-se a vontade para sentar onde quiser.”
De fato, a sala de refeições era aconchegante. Não chegava a ser muito grande, mas comportava cinco mesas quadradas com lugar para duas pessoas cada sentarem confortavelmente. As toalhas de mesa quadriculadas e as paredes de cores fortes davam o ar italiano ao lugar. Antonio se sentou próximo à saída da cozinha, admirando o ambiente à sua volta.
“O que você deseja para o café?” Perguntou Feliciano. “Temos pão com manteiga, bolo, queijo, presunto e omelete de tomate para comer.”
“Ah! Tomate! Um omelete de tomate, ¡por favor!”
“Ótima escolha! E para beber? Um café, talvez?”
“Sim! Com leite, por favor.”
Feliciano assentiu efusivamente e gritou da porta da cozinha.
“Fratello, una frittata di pomodoro per Antonio! E um café com leite.”
“Tch. Já tá saindo.” Lovino respondeu com outro grito. Alguns minutos depois ele apareceu com uma bandeja em mãos, ainda vestindo o avental amarelo. Serviu Antonio em silêncio, sem cumprimentá-lo.
“Algo mais, bastardo?”
“Lovi!!” Guinchou Feliciano, mortificado pelo tratamento dispensado ao hóspede.
“Não, obrigado.” Sorriu, novamente não afetado pela falta de simpatia do irmão mais velho. “Lovi.” Acrescentou, cantarolando o apelido. Lovino o encarou mortificado.
“Do que você me chamou?”
“Lo-vi. Bonito.”
O italiano contou até três e respirou fundo.
“Meu nome é Lovino, não Lovi, entendeu, bastardo?”
“Pero Lovi é bonito!”
“Eu não dou a mínima pra isso, idiota.” Ele respondeu, para o desespero do irmão mais novo.
“Você.” Ele apontou para Feliciano acusatoriamente. “Isso é culpa sua. Você fica me chamando por esse nome ridículo e esse bastardo aqui deve bem ter ouvido. E você.” Ele apontou para o espanhol. “Eu não me lembro de ter lhe dado nenhuma intimidade para me chamar por esse apelido ridículo. Então não enche.”
Ele saiu batendo os pés e amaldiçoando sua vida em sua língua materna.
“Onde você vai?” berrou Feliciano.
“Colher os malditos tomates.” Respondeu o irmão em mesmo tom.
Um curto silêncio pairou entre o jovem italiano e o hóspede.
“Me desculpe pelo comportamento do meu irmão.” Suspirou Feliciano. “Ele não está habituado a pessoas diferentes.”
Antonio negou com a cabeça e apesar da dificuldade com a língua italiana, acrescentou com um enorme sorriso no rosto:
“Lovi é adorável.”
Lovino saíra tão irritado de casa que esquecera que o sol já estava alto. Sua visão ficou nublada por alguns segundos até se acostumar com a luz demoníaca. Caminhou pelo mato baixo até o celeiro e lá buscou seu chapéu de palha e a cesta para a colheita. Uma de suas distrações favoritas era passar longas horas trabalhando na horta de casa, em particular dando atenção para seus preciosos tomates. Passava horas cuidando para que crescessem saudáveis e talvez àquela atividade fosse a única a qual ele verdadeiramente se dedicava. Era o que considerava um momento de pura paz.
“Tomates!”
“C-Chigii!”
Estava tão concentrado que nem havia percebido a aproximação do estranho.
“Mas que merda! O que você está fazendo aqui, idiota?”
“Vou na cidade.” Ele disse, indicando a folha de papel que tinha em mãos. Nela havia um mapa desenhado e algumas instruções escritas com a letra de Feliciano sobre como chegar a pé na cidade.
Lovino lhe olhou descrente.
“A pé? Fica a uma hora e meia daqui!”
Antonio apenas riu.
“Eu sabia que você era doido, mas não tanto.”
“Posso pegar?”
“Não.”
Antonio o encarou com um bico.
“Ok, bastardo, pega logo. Não faça essa cara de cachorro pidão.” Lovino empurrou um dos tomates recém-colhidos para o estranho. Antonio agradeceu de forma empolgada e se acocorou ao seu lado, dando uma mordida no fruto. O italiano tentou ignorar aquela presença irritante ao seu lado.
“Lovi, pode me ensinar italiano?”
“O quê?”
“Pode me ens...”
“Sim, eu ouvi que você quer que eu lhe ensine italiano, bastardo. Mas pra quê?”
“Quero falar com Lovi.”
O italiano arqueou a sobrancelha.
“Você parece entender bem o italiano. Onde aprendeu?”
Antonio apenas sorriu. Lovino rolou os olhos.
“Você não ia na cidade?”
O outro assentiu, mas não se moveu. Ainda aguardava a sua resposta.
“Olha, ok. Eu ensino, ok? Mas mais tarde, porque agora eu estou ocupado. Agora vá para aquela maldita cidade e pare de perturbar. Eu preciso colher isso aqui.”
“Obrigada, Lovi!” Antonio afagou os cabelos castanhos do outro e se levantou em um salto. “Chao!”
“Hn. Já vai tarde, bastado.” Resmungou, observando enquanto o espanhol desaparecia no horizonte, provavelmente caminhando na direção da rodovia.
Mas sabe-se lá por que ele sorriu. Um sorriso pequeno e discreto, mas um sorriso mesmo assim.
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