Notas iniciais
Essa sou eu pedindo desculpas pela demora. É.
O negócio é que eu estou com duas fanfics pra escrever em um período de depósito de TCC e complicação na universidade, então na verdade eu tenho usado minhas habilidades de escrita muito além do que meus dedos me permitem e quando chega a hora das fics eu meio que já fico sem energias e escrevo menos e um pouco mais devagar.
De qualquer forma, devagar se vai ao longe e aqui estou com o capítulo 2.
Tentei continuar com a ideia de simplicidade do primeiro. Vou tentar ser menos descritiva a partir de agora, para a história poder fluir.
Aviso: palavrões e linguajar do Lovi. Doçura e bucolismo que podem causar diabetes.
Boa leitura.

A incômoda luz do sol nascente interrompeu o pacato sono de Lovino naquela manhã. De quebra, atrapalhou seu maravilhoso sonho com certo estrangeiro de cabelos castanhos. Mesmo com os olhos fechados, o italiano era capaz de sentir toda a intensidade da luz do astro-rei e amaldiçoou o verão mais uma vez naquele mês. E de praxe, Feliciano, por haver se esquecido de fechar a cortina.

Acordou lentamente, em seu próprio ritmo, percebendo que o havia feito mais cedo do que de costume. Demorou algum tempo sentado na cama até finalmente ter forças para levantar e caminhou para o banheiro, evitando fazer muito barulho ao sair do quarto. A luz do corredor já não mais fazia diferença naquele ambiente iluminado pelo sol, cuja fina cortina já não mais podia conter.

Como de hábito, tomou uma ducha e passou algum tempo ajeitando seu teimoso cabelo. Um pouco mais esperto, ele percebeu na pia a presença de um copo com uma escova de dentes de cor vermelha.

Isso significava uma coisa.

Ele saiu do banheiro em passos ansiosos e desceu a escada, indo diretamente para a sala.

Buongiorno Nonno.” Ele cumprimentou o homem sentado no sofá com um cálido beijo na testa. “Que horas você chegou?”

O aludido repousou o jornal que tinha em mãos na mesinha ao seu lado e esticou os braços para o jovem italiano, envolvendo-o em um caloroso abraço.

“Ontem à noite, mas Feli e você já haviam ido dormir.”

O avô de Lovino não fazia jus ao título. Poucos acreditavam que aquele homem já havia, de fato, superado a marca dos cinquenta anos de idade. Sua aparência dizia bem o contrário. Tinha poucos fios brancos, que se podia contar nos dedos. Seu cabelo de cor castanho escuro, muito semelhante aos de Lovino, lhe conferia parte desse ar jovial. Seu rosto bem conservado e a barba propositalmente deixada por fazer lhe conferiam maturidade.

“E então? Alguma novidade? Posso saber o que você faz fora da cama tão cedo?”

“Hn. Sobre a novidade, nós temos um hóspede.” Ele ignorou prontamente a segunda pergunta. “Um estúpido que veio ficar por uma semana.”

O mais velho arqueou a sobrancelha e deu um risinho quase descrente.

“Você está falando sério? Depois de todos esses meses finalmente alguém resolveu aparecer?”

Lovino rolou os olhos, nem um pouco incomodado em se lembrar de que fora ele próprio o responsável por afugentar aquele casal no último inverno. E aquelas outras almas perdidas e potenciais clientes que vinham procurar informações também.

“Quem estava na recepção? Você ou Feliciano? Pelo que eu me lembre, aquele simpático casal que tivemos por alguns dias chegou em um dos dias em que Feli estava na recepção...”

“Eu.” Lovino Grunhiu.

A expressão do avô foi ainda mais descrente.

“Você, Lovi?” Ele riu, divertido. “E como você fez para não espantá-lo?”

“Eu não fiz nada, droga! É só que aquele idiota é denso demais para se ofender com qualquer coisa que eu falo. Hmph. Ao menos ele não é um daqueles idiotas supersensíveis que se ofende com qualquer merda só porque a palavra é feia e coisas assim.”

“Certo.” ele afagou os cabelos do neto. “Tente pegar mais leve com ele, ok, Lovi? É importante ter clientes uma vez ou outra.”

“Tá, o que seja.” Bufou o jovem, afastando-se do contato com o avô.

“Aonde você vai?” Ele perguntou.

“Adiantar as coisas para o café da manhã.”

Lovino franziu o cenho ao perceber que estava sendo seguido, mas optou por ignorar o avô. Ao entrar na cozinha, pegou seu avental, alguns tomates que estavam em um cesto e pouco mais de meia dúzia de ovos na geladeira, deixando tudo sobre a bancada ao lado do fogão.

“Oh, você vai fazer omelete, Lovi?” Cantarolou o avô, com os olhinhos cintilantes. Lovino assentiu e amaldiçoou o determinismo biológico. Às vezes, a semelhança das atitudes do mais velho com as de Feliciano era algo assombroso.

Desinteressadamente o italiano ligou o fogo para esquentar a frigideira que estava sobre o fogão. Seu avô pegou um dos tomates que ele havia separado e comeu. Não muito depois de iniciadas as atividades pro desjejum, eles ouviram passos pesados na escada e Feliciano, com maior cara de sono do mundo, apareceu na porta. Ele rapidamente se desfez do rosto sonolento e seus olhos se iluminaram ao perceber a novidade ali.

Nonno!” O irmão mais novo correu na direção do homem e o abraçou, praticamente derrubando-o junto com a cadeira. “Que saudades!”

Feliciano foi recebido com a mesma empolgação com que recebera o avô. Ouviu o quanto fizera falta e dos vários momentos que foi lembrado durante a jornada do mais velho. Ele e o avô conversaram efusivamente por alguns minutos, ignorando totalmente o fato de Lovino estar se remoendo de ciúmes junto ao fogão, prestes a queimar todo o café da manhã. Pararam apenas quando Antonio apareceu com uma expressão curiosa no rosto, como se esperasse que lhe informassem a respeito das boas novas.

Feliciano o fez.

“Ah, Antonio!” Ele sorriu de orelha a orelha e foi até o rapaz. “Deixe-me apresentá-lo ao nosso avô, dono da pousada.” O aludido levantou-se de sua cadeira, indo até o recém-chegado.

“Rômulo Vargas, muito prazer.” O homem sorriu, estendendo a mão para Antonio. Seus netos provavelmente não notaram, mas a experiência social de Rômulo o fez perceber o efêmero brilho travesso que iluminou os olhos verde-esmeralda de Antonio.

“Antonio Carriedo, mucho placer, señor Vargas.” Disse, no mais puro espanhol. Rômulo deu uma gargalhada gostosa e seus olhos se iluminaram com um interesse súbito por aquele estranho. Lovino não pode deixar de perceber o repentino ar de cumplicidade que pareceu tomar conta do ambiente.

“¡Ah! Mas que interessante, o senhor é espanhol. El placer es todo mio, señor Carriedo.”

Rômulo lançou um olhar furtivo aos netos, que observavam a interação com expressões confusas. Novamente ele riu e tomou Antonio pelos ombros.

“Então, senhor Carriedo, acredito que é melhor que deixemos os garotos com os seus afazeres. Porque você não me fala a respeito da Espanha? Tenho interesse de levá-los lá um dia.”

Feliciano e Lovino se entreolharam enquanto Rômulo conduzia Antonio para o salão de jantar.

“Mas que merda foi isso entre esses dois? Porra, que estranho.” Lovino arqueou a sobrancelha,

Vee... Você acha que eles já se conheciam, Lovi?”

“Mas é claro que não, nonno nunca é discreto quando um amigo dele aparece pra visitar. Esses bastardos é que são esquisitos mesmo.”

Feliciano deu de ombros e foi até a geladeira pegar algumas laranjas para fazer o suco para o café da manhã. Levou mais uns quinze minutos para o protótipo de banquete ficar pronto. Na mesa, a variedade e a quantidade uniram-se. Para além do omelete, os irmãos também prepararam torradas com geleia, separaram uma variedade de pães, uma tábua de frios com uma modesta variedade de queijo, dois sabores de suco, o famoso café italiano e algumas frutas distintas para acompanhar.

Quando se juntaram à mesa, parecia que ambos estavam bastante a vontade um com o outro. Era como se houvessem acabado de sair de uma boa conversa entre amigos de longa data.

Rômulo se serviu com uma fatia de queijo e uma torrada. De boca cheia, dirigiu-se a Lovino.

“Hm, Lovi, tenho uma tarefa para você.”

Lovino fez uma careta, primeiramente por não lhe agradar a perspectiva de atribuições e, segundo, porque ele simplesmente pode ver toda a comida em processo de mastigação enquanto o avô falava. Tentou fazer suas objeções, mas seu avô foi bastante insistente.

“O que é?”

“O Sr. Carriedo se mostrou interessado em conhecer nossa propriedade. Você deve levá-lo para conhecer a região.”

Lovino fez uma expressão de ultraje.

“Mas vovô, estamos em pleno verão! Você não vê o calor dos infernos que está fazendo? E esse sol desgraçado?”

“Temos chapeis de palha guardados no celeiro. Pegue um para você e um para nosso hóspede.”

“Por que você não pede pra ele?” Perguntou indignado, apontando com o garfo para o irmão. “Ele é mais relações públicas que eu, droga!”

“Feli tem muitas atribuições aqui na pousada, Lovi. Você tem mais tempo livre que seu irmão.”

“Isso não é justificativa!”

“Lovino Vargas.” Rômulo acrescentou, com um olhar sério para o neto. “Você vai mostrar a propriedade para o sr. Carriedo e ser-lhe cortês. Fim de discussão.”

Lovino se encostou na cadeira e fez bico. Ele não queria ensinar aquele estúpido espanhol a falar italiano. Ele duvidava que o idiota fosse aprender, de qualquer maneira. De birra, fez questão de não dirigir nenhuma palavra a Antonio, mesmo que ele tentasse puxar assunto. E Rômulo rolou os olhos, pensando onde tinha errado na educação do neto mais velho.

Agora ele tinha duas malditas dívidas com aquele idiota. A primeira era a estúpida aula de italiano, que Deus sabe por qual razão, havia concordado em lecionar. A segunda era esse maldito tour pela propriedade.

Lovino procrastinou até depois da siesta para iniciar a primeira lição de Antonio. Eles combinaram de se encontrar na sombra da oliveira que ficava no topo da colina da propriedade dos Vargas, porque dentro da pousada o clima abafado estava simplesmente insuportável.

Lovino chegou primeiro e arrumou um lugar à sombra. Antonio se atrasou meia hora sabe-se lá por qual razão e deixou o italiano profundamente irritado.

“Eu estou te fazendo um favor e você ainda se atrasa? Você é um bastardo mesmo!” Ele parecia bastante indignado. Antonio deu um sorriso sem jeito e pediu desculpas algumas vezes até Lovino parar de jogar a culpa contra seu peito. A despeito da agressividade do italiano e toda a antipatia que sua atitude despertaria em alguém normal, os olhos esmeralda nunca desviaram de Lovino e pareciam sorrir-lhe com a mesma travessura que o italiano havia visto mais cedo, quando seu avô o cumprimentara.

“O que é tão engraçado, bastardo?”

Antonio o encarou e fez parecer que não havia entendido o que Lovino havia lhe dito.

“Perguntei o que é tão engraçado para que você esteja me olhando com essa cara.”

O espanhol deu um risinho e se sentou ao lado do italiano. Se ele havia entendido, Lovino nunca saberia, já que não obteve resposta.

Respirou profundamente e optou por ignorar o comportamento idiota do seu hóspede.

“O que você trouxe aí nesse cantil?”

Antonio indicou o recipiente que carregava e Lovino assentiu.

“Água. Muito quente aqui. Quer?”

“Não, guarda para mais tarde.”

Antonio repousou o objeto na grama quente e se encostou no tronco da árvore.

“Ok. Como você já sabe o básico, bom dia, boa tarde, boa noite, sim, não e essas coisas, podemos começar com umas frases mais avançadas. Você entendeu o que eu disse?”

O outro assentiu.

Capisco. Finalmente vou poder conversar com Lovi!” Ele comemorou, batendo palmas.

Lovino arqueou a sobrancelha.

“Ok, vamos começar pela concordância dos pronomes. Você sempre se dirige a mim como ‘Lovi’, como nas frases ‘quero falar com Lovi’ e idiotices assim. Mas o certo é você falar ‘você’ ao final da frase. Repete comigo: quero falar com você.”

“Quero falar com você.”

“Viu, não é tão difícil. Até para o seu cérebro mais limitado.”

Antonio sorriu-lhe. Novamente Lovino não sabia interpretar o nível de compreensão do idiota, visto que ele havia acabado de receber uma ofensa. Ele tentou ensinar mais algumas frases para o homem e percebeu que ele aprendia rápido. Talvez fosse a semelhança entre as línguas. Mas era apenas uma presunção, pois não sabia ao certo, já que não tinha nenhum conhecimento de espanhol. Passaram horas ali. Antonio passou a questionar sobre palavras e frases mais específicas e, quando Lovino conseguia entender ao que ele se referia, respondia e acrescentava outras opções. Por mais que lhe custasse admitir, seu primeiro grande sucesso como professor talvez fosse em razão daquele espanhol idiota.

Mal viram o tempo passar estando tão concentrados. Lovino ocasionalmente se deu a liberdade de bebericar a água que Antonio havia trazido – e sempre com uma careta, já que o calor a fizera ficar desagradavelmente quente.

“Você até que tem um vocabulário extenso.” Divagou enquanto contemplava o por do sol. Lovino gostava muito daquele cenário. Adorava o por do sol na Toscana. A paisagem sempre ganhava um tom amarelado, quase como uma fotografia, e parecia que uma fina névoa cobria o campo.

Grazie” Agradeceu o outro. Ele inspirou o ar, inalando o sutil cheiro das olivas e sentindo uma brisa morna acariciar suas bochechas. Não tinha nenhum som que não fosse o das folhas sendo sacudidas pela brisa no ambiente. Talvez nunca na vida Antonio tivesse se sentido tão em paz consigo mesmo como naquele momento. “É muito bonito aqui... Dá uma paz.”

Lovino assentiu, um pouquinho orgulhoso de poder dizer que ali era o seu lar. O casarão que abrigava a pousada podia ser visto mais ao fundo. Dois quilômetros o separavam da colina em que ele e Antonio estavam. Eles podiam ver a estradinha de terra que levava até a entrada e pela qual, muito provavelmente, Antonio caminhara para chegar no lugar. Alguns ciprestes solitários rasgavam a paisagem monótona e amarelada dos campos de girassol e grãos, contando com o auxílio de pequenos amontoados de oliveiras ao fundo.

O amarelo cedeu lugar ao alaranjado, que foi se tornando cada vez mais escuro. Ambos Antonio e Lovino pareciam ter se deixado dominar pela preguiça e pela calmaria do momento. A sonolência fora de hora dominou os dois rapazes e sem que eles percebessem, adormeceram encostados no tronco daquela oliveira, ainda iluminados pelo alaranjado do sol poente.

Lovino teve um ótimo sonho com tomates, com um campo inteirinho só de tomates. No meio do campo estava um sujeito estranho, bonito demais, acenando para ele. Sorriu em retorno e correu na direção do sujeito, se atirando em seus braços. Quando levantou a cabeça para olhar para o sujeito, acordou.

Já estava tudo escuro, praticamente um breu. A lua iluminava o manto negro que era aquele céu de verão, e as estrelas, os pequenos pontinhos cintilantes, eram visíveis graças à ausência de nuvens. Apenas a iluminação da pousada rompia com a escuridão.

Feliciano estava de pé à sua frente, e, a despeito da pouca iluminação, viu que estava com um sorriso de orelha a orelha no rosto. Parecia que estava ali havia bastante tempo, pois apoiava-se em uma de suas pernas, na tentativa de poupar a outra. Lovino ia abrir a boca para replicar e chamá-lo de idiota quando sentiu um peso que até então passara despercebido em seu ombro.

Francamente, Lovino tomou um baita susto e, no processo, moveu os ombros, acordando o outro. Ele sequer lembrava que havia adormecido ao lado de Antonio, mas duvidava que tivesse passado mais de uma hora que haviam feito. Sonolento, o espanhol esfregou os olhos e olhou para Feliciano com um ar meio desorientado.

Vee, não era a minha intenção atrapalhar o seu cochilo, fratello, nem o seu, Toni, mas o vovô começou a ficar nervoso porque vocês não voltavam.”

Lovino podia jurar que o desgraçado estava contendo o riso. Feliciano idiota. Oh. Ele havia chamado o bastardo de Toni?

“Você o chamou de Toni?” Ele perguntou um tanto incrédulo. Feliciano riu e se virou.

“Não demorem muito para voltar. Já está escuro e nem sempre essas áreas são tão seguras assim durante a noite.”

“Eu sei, eu sei, ok? Não vá na frente, bastardo! Espere por nós!” Lovino levantou-se em um salto e Antonio o fez mais lentamente, precisando apressar o passo para alcançar os irmãos Vargas.

Não mentiram para Rômulo. Lovino foi bem claro informando que Antonio era chato demais para aprender italiano e isso fez com que o ele caísse no sono. Antonio não desmentiu a história, mas Feliciano e o avô conheciam Lovino o suficiente para dizer onde estava o exagero dela.

Os irmãos se retiraram para seu quarto e Antonio optou por ficar na sala e conversar mais um pouco com Rômulo.

Feliciano não esperou sequer um minuto para começar.

Fratello, vocês estavam tão bonitinhos cochilando debaixo daquela oliveira hoje!”

“Cala a boca, idiota. Quando eu cochilei eu estava muito bem seguro no meu espaço pessoal. Aquele bastardo é que se mexe durante o sono... E qual é o seu problema? Nós não estávamos ‘bonitinhos’! Ele é um homem, pelo amor de Deus.”

Feliciano arqueou a sobrancelha enquanto procurava por seu pijama.

“Às vezes eu acho que você se faz de idiota, fratello. Nós dois sabemos muito bem que você tem uma queda por homens.”

“Do que você está falando? Eu flerto com mulheres.”

“Eu nunca disse que não flertava.” Ele deu uma risadinha. “Mas o que você me diz do Gil? Ele não significou nada pra você?”

“...”

Feliciano sorriu, recordando daqueles inocentes dias do início de sua adolescência. Parecia contente consigo mesmo e com suas memórias. O mesmo não se podia falar de Lovino.

Diante do silêncio do irmão, Feliciano levantou a cabeça. Lovino estava parado no mesmo lugar de antes, encarando o chão. Seu cabelo cobria parte do rosto e seus punhos cerrados denotavam que seu humor havia mudado.

Fratello?”

“Nunca mencione esse nome outra vez, ouviu bem?” Ele encarou o irmão com um olhar inflamado, brilhando com uma espécie de ressentimento aprisionado em seu peito. “Nunca”.

Lovino pegou suas próprias vestes, passou pelo irmão e bateu a porta do quarto, praticamente bufando de raiva. Feliciano suspirou resignado, esperando que Antonio tivesse a capacidade necessária para fazer o irmão superar um romance mal sucedido do passado.

Levou dois dias e alguns longos minutos de bronca do avô para que Lovino finalmente se visse forçado a levar Antonio para conhecer a propriedade. Não era como se eles não houvessem passado tempo o suficiente juntos. Cada maldita hora em que Antonio percebia que o italiano estava desocupado, ele aproveitava para aprender mais alguns segredos da língua italiana. E quando Lovino o mandava desaparecer da sua frente, ele ia praticar com Feliciano. Uma coisa era preciso reconhecer: aquele espanhol era obstinado. Não importava o quanto Lovino questionasse suas razões, as respostas eram as mesmas: ele queria conversar com Lovino. Conhecer Lovino. Passar mais tempo com Lovino. E respondia com uma simplicidade e naturalidade que encabulavam o italiano.

Lovino separou um chapéu de palha e um cantil com água para cada, prevendo o quanto a caminhada sob o sol iria desidratá-los. Acenou para Feliciano, que deveria estar responsável pela recepção, mas estava lendo um livro na varanda.

“O bastardo já passou por aqui?”

Feliciano assentiu com o rosto ainda escondido pelo livro. “Está esperando por você debaixo da oliveira. Disse que queria ter a vista da colina novamente.”

O mais velho grunhiu e o irmão deu um sorrisinho.

“Boa sorte no seu encontro.” Cantarolou em um tom provocativo.

“Não é um encontro, droga!” Murmurou para si mesmo, cansado de repetir para o irmão que não tinha nenhum interesse naquele espanhol idiota.

Quando alcançou Antonio, já estava cansado. O idiota estava bem acomodado, deitado sob a oliveira.

“Se você não quiser ir agora, não irá nunca.” Disse, jogando o chapéu de palha na cara do espanhol.

“Oh! Chao, Lovi! Eu estava esperando por você!” Respondeu, afastando o objeto do rosto para poder ter uma melhor visão do recém-chegado.

“Então levanta essa bunda preguiçosa do chão e vamos antes que esse maldito sol esquente ainda mais.”

Antonio assentiu e abriu um enorme sorriso, levantando-se depressa para seguir Lovino, que já descia a colina. Eles caminharam durante alguns longos minutos sem engajar em uma conversa. Passaram por algumas plantações e Lovino fez comentários isolados a respeito de uma ou outra curiosidade, enquanto Antonio ouvia atentamente e assentia.

Em algum ponto da caminhada, comentou o quanto estava surpreso pelo tamanho daquele lugar.

“Você achava que era apenas a nossa casa mais a horta?”

Antonio assentiu e deu de ombros.

“Você conhece a lenda do girassol?” O italiano perguntou, com um jeito meio desinteressado, enquanto atravessavam um pequeno campo de girassóis.

Antonio negou com a cabeça.

“Dizem que havia uma estrela no céu que era apaixonada pelo sol. Ela era a primeira estrela da tarde e a única com o privilégio de admirar o astro-rei antes que ele se escondesse. Ela gostava bastante de admirá-lo, tanto que quando o sol se punha, ela começava a chorar lágrimas de chuva, lamentando a ausência do seu amado. A lua tentou consolá-la, explicando que uma estrela deveria acompanha-la pelo céu, pois nasceu para brilhar durante a noite. De acordo com a lua, aquele amor era simplesmente desmedido.”

Antonio deu um pequeno e cálido sorriso.

“Mas a estrela amava cada raio do sol como se fosse a única luz de sua vida. Amava tanto que se esquecia de sua própria luz. Então, um dia, ela decidiu falar com o rei dos ventos e pedir-lhe para que pudesse ter a oportunidade de ficar para sempre admirando o sol e sentindo seu calor. O rei dos ventos respondeu que aquilo era simplesmente impossível, a não ser que a estrela concordasse em abandonar o céu para sempre e viver na terra. A estrelinha não pensou duas vezes e, virando uma estrela cadente, caiu na terra, na forma de uma semente. Ela foi plantada pelo rei dos ventos, em uma terra bastante macia. Foi regada e bem cuidada até finalmente virar uma planta. Enquanto crescia, procurava sempre ficar perto do sol. A medida que suas pétalas se abriam, elas buscavam segui-lo. E, bom, essa é a história.”

“As pessoas acreditam que os girassóis dão sorte.” Comentou, enquanto atravessavam o campo todo coberto de amarelo. “Eu não acredito muito, pra mim não passa de crendice.”

Antonio deu uma risadinha.

“As pessoas ficam fortes quando tem algo para acreditar.”

“Acho uma idiotice.”

“Mas não é legal? Ter um sol só seu? Um sol para lhe aquecer e lhe iluminar?”

“Tch. É só uma lenda idiota. Um calor como esse nos mataria.”

Antonio riu.

“Lovi, pense com metáforas. Acho que cada pessoa tem o seu próprio sol. É só uma questão de encontrar.”

Lovino surpreendeu-se com a resposta. Quem diria que aquele bastardo pudesse ser tão profundo? Sentiu suas bochechas esquentarem levemente e culpou o calor.

“Está realmente quente hoje, não está?” Perguntou o espanhol, mudando de assunto. O italiano o encarou de relance. Não podia negar, o idiota era um belo espécime, parado ali, olhando para o céu, com uma mão na testa e outra na cintura. Provavelmente ele era um modelo ou algo assim, lá na Espanha. Antonio sorriu meio de lado, fazendo de conta que não percebera os olhos de Lovino em si.

“Que som é esse?”

“Que som?” Lovino respondeu, arqueando a sobrancelha.

“Ouça.”

Mantiveram um silêncio sepulcral. Podiam ouvir o vento soprar e as folhas das árvores farfalharem.

“Não tem nenhum som, idiota. Sua cabeça já está quente o suficiente para te dar alucinações?”

“Estou com tanto calor.” Antonio suspirou tão profundamente que Lovino jurou que poderia sentir pena dele, se não fosse tão estúpido. Ponderou se a Espanha não era tão quente quanto o seu país, já que eram países mediterrâneos e tal. Mas era verdade: a Itália era realmente um desafio para estrangeiros não acostumados com o verão daquele lugar.

“Acho que tem um lago aqui por perto.” Comentou o italiano, vasculhando em sua memória.

“Está quente. É uma boa ideia irmos até lá, você não acha?”

O italiano ia responder que não, por pura birra. Mas o sol quente parecia fritar seus neurônios e o calor escaldante desidratava a sua pele, por mais habituado aos verões que estivesse. Os quase quarenta graus de temperatura o fizeram mudar de ideia.

“Hm. Tanto faz” Grunhiu o italiano, incerto se o outro o havia escutado. “Vamos dar uma passada lá. Mas não vamos demorar.”

Antonio assentiu, agradecido e caminhou em silêncio ao lado de Lovino por mais alguns metros, aproveitando a ausência de conversa para admirar a paisagem a sua volta. A Toscana, esse lugar tão distante para o qual fora por suas próprias razões, era realmente bonita, independente da hora do dia. As cores predominantes variavam entre diversos tons de amarelo e verde, peculiares àquela região. O calor, por mais insuportável que parecesse ser, era incapaz de afastar o feitiço daquele lugar.

O lago do qual Lovino havia falado ficava próximo a algumas árvores e o clima ali era um pouco mais ameno do que sob o sol. Não era muito extenso, nem muito grande, e provavelmente não era muito profundo.

Antonio se adiantou até a beira do lago e se ajoelhou. Com as mãos em forma de concha, pegou um pouco de água e molhando o rosto, sentindo o alívio indescritível que era aquela água fria contra a sua pele aquecida.

“Ahh! Que delícia!”

Lovino permaneceu de pé, distante alguns metros da margem do lago. Fingiu não estar observando a animação do seu hóspede diante daquela fonte de água tão singela. O espanhol tirou os sapatos, repousando-os em uma árvore próxima e sentou-se na terra enlameada da margem, mergulhando os pés na água. Insatisfeito, ficou de pé, levantou as pernas da calça e caminhou, descalço mesmo, para dentro da água até que a mesma alcançasse seu joelho. Virou-se para Lovino com um enorme sorriso.

“A água está uma delícia, Lovi! Por que não entra?”

“Estou bem aqui, obrigado.” Respondeu, revirando os olhos e achando aquele comportamento todo bastante infantil.

No fundo, estava nostálgico. Lovino costumava frequentar o lago com o avô e Feliciano nos primeiros dias em que os irmãos se mudaram para a Toscana. Não devia ter mais de dez anos de idade naquela época, e aquela era uma das memórias mais doces que guardava de sua infância conturbada.

“Lo-vi-no.” A voz de Antonio o tirou de seus devaneios.

Ele estava parado à sua frente, encarando-o com um olhar repleto de curiosidade. O italiano sentiu as bochechas esquentarem levemente e desviou o olhar, constrangido.

“O que é, bastardo?”

“Por que você não entra na água? É um alívio. Mesmo aqui na sombra está bastante quente.”

Lovino agradeceu o idiota por lembra-lo do clima novamente. Não é como se não tivesse percebido o clima ridiculamente quente da região em que vivia há mais de uma década. Era sempre assim, de qualquer forma. Quente demais no verão. Às vezes eles conseguiam uma ou outra garoa rápida, mas a maior parte das vezes não.

O italiano achou a ideia de colocar o pé na água tentadora. Não era como se fosse tomar banho – nem havia separado roupa para tanto. Mas o frescor talvez aliviasse a dor de cabeça que ameaçava acabar de vez com o seu dia.

Não precisou responder que seria uma boa ideia para que Antonio o puxasse pelo pulso, de modo a conduzi-lo para a margem do lago. Lovino corou de imediato, notando que não estava nem um pouco habituado ao contato físico direto com aquele não mais tão estranho estrangeiro. Não que o italiano fosse avesso a contato, mas vindo de Antonio, o incomodava um pouco.

“Tire essas sandálias, ou vai perder na água.” Recomendou o espanhol.

“Tch. Como se eu não soubesse.” Respondeu Lovino, deixando as sandálias em qualquer lugar na beira do lago.

Viu que Antonio já estava novamente dentro da água, chamando-o.

“Eu não vou até aí, ouviu bem? Só vou molhar os pés... E olhe lá!”

O italiano entrou na água e permaneceu na beira, aonde tinha prometido que ficaria, aproveitando a sensação daquela água batendo contra sua canela e seus pés. Movimentou os dedos, arrancando um pouco da terra molhada e enterrando os pés ali. Sentiu-se criança novamente, mesmo que por pouco tempo.

Antonio aproximou-se dele. Sua calça já estava encharcada até um pouco acima do joelho. Tinha um sorriso travesso no rosto que Lovino só registrou tarde demais.

O italiano se viu levantado do chão e, por instinto, agarrou-se à camisa de Antonio com uma mão e começou a espernear, ordenando para que o espanhol o colocasse no chão. O espanhol deu alguns passos para dentro do lago, mas teve dificuldades em sustentar Lovino no colo. Então soltou o italiano, que foi parar diretamente na água. Os respingos encharcaram a roupa de Antonio até o torso.

Lovino passou curtos segundos submerso na água, até finalmente emergir – um tanto escandalosamente – para a superfície. Sua expressão era inicialmente chocada e depois passou para enfuriada. Antonio até que tentou, mas não conseguiu segurar o riso nem cobrindo a boca com as mãos. Lovino parecia absolutamente adorável irritado e encharcado daquele jeito. Por um aspecto da forte personalidade do italiano em que muitas pessoas viam razão para se afastar, Antonio se sentia atraído. Obviamente, Lovino não fazia ideia do que se passava pela cabeça daquele idiota sorridente e apenas desejava vingança.

“Você me paga! Idiota!”

“Ahahaha, Lovi. Desculpe-me! Mas foi tão engraçado!”

“Você vai ver o que é engraçado, bastardo!”

O italiano tentou puxá-lo para a água, mas a resistência do espanhol foi-lhe um sério obstáculo. Determinado, Lovino atirou-se contra Antonio, enlaçando suas pernas na esperança de derrubá-lo. Apesar de uma resistência inicial, o espanhol não pode mais se sustentar e caiu na água – com o italiano agarrado a si.

Emergiu novamente, cuspindo um pouco da água que havia engolido na queda não premeditada. Antonio veio à superfície logo depois, mas ao contrário do outro, tinha um enorme sorriso no rosto.

“O que é tão engraçado, bastardo? Você não devia estar rindo!”

“Mas eu estou feliz, Lovi!” Começou a nadar de costas para a água, permitindo que o sol iluminasse seu rosto.

“Pois eu não! Estou encharcado, droga!”

Antonio fez um bico e o olhou. Então outro sorriso se formou em seu rosto e ele espirrou um pouco de água no rosto de Lovino.

“Argh! Idiota!” O italiano revidou desproporcionadamente, empurrando uma grande quantidade de água na direção do outro. Logo, eles iniciaram uma pequena guerra de água feito crianças. Lovino uma vez ou outra chamava Antonio de bastardo e amaldiçoava-o, apenas pelo mero hábito de fazê-lo. Não percebeu quando começou a gargalhar junto com Antonio. Tentou esconder a boca e abafar a risada com as mãos, mas estava tão feliz e se sentia tão livre que falhara miseravelmente. Antonio não ousou arruinar o momento. Admirou o italiano gargalhar com um sorriso cálido no rosto e talvez, só talvez, seu coração tenha acelerado um pouco diante daquela felicidade tão genuína. De repente, ele sentiu a necessidade de trazê-la à tona mais vezes.

Perderam a noção do tempo enquanto se divertiam no lago. O longo dia de verão também ajudou. Em algum momento em que o sol ainda estava alto, mas muito menos violento e quente, eles se permitiram deitar na grama e aproveitar o mormaço benigno do início da noite longe da proteção das árvores.

Lovino ainda tinha um resquício de sorriso no rosto e nem desconfiava que Antonio o admirava.

“Ah, olha. A primeira estrela da tarde.” Comentou, fazendo com que Antonio precisasse desviar a atenção para o céu ainda claro.

“É Vênus. O planeta.”

Lovino assentiu, absorvendo a informação.

“Dizem que é o planeta do amor.”

O italiano corou e não olhou para Antonio. Ponderou a razão de o espanhol haver feito o último comentário, mas não ousou perguntar. Sentiu o coração palpitar um pouquinho e engoliu seco.

“Tch. Essa história de amor é uma besteira.” Ele falou sem pensar. Era mentira. Não achava o amor uma besteira, embora quisesse muito. Mas naquele momento, foi a única coisa que pensou.

Antonio entortou os lábios e virou-se para Lovino, apoiando-se no cotovelo. Ele tinha uma expressão mais séria que passara despercebida pelo italiano.

“Por que você diz isso?”

“Más experiências.” Ele respondeu, tentando dar o assunto por encerrado. Antonio subitamente desejou saber quais eram as ditas experiências. Sentiu uma urgência de perguntar, mas se conteve, sabendo que a personalidade evasiva de Lovino o faria responder com a rudeza de alguém que portava cinco pedras na mão, pronto para atirá-las.

“Não deixe que as más experiências atrapalhem toda a percepção de amor que você tem.” Ele disse, tomando muito cuidado com as palavras que usava. “Você merece ser feliz, Lovi.”

“...”

Pela primeira vez desde que se acomodaram ali, Lovino virou o rosto para encarar Antonio. O céu já estava em um tom azul-alaranjado e o sol se despedia de mais um dia de verão. Os olhos caramelados do italiano cintilaram com um brilho determinado, misterioso e hipnotizante que causou fascinação em Antonio.

“Eu acho que quero ver você feliz.” Antonio disse. Sua voz saiu baixa, quieta, mas alta diante do silêncio que os cercava.

Nenhum dos dois ousou romper com o magnetismo que impedia que seus olhos desviassem um do outro. Lovino mal absorveu o que o espanhol disse, estava muito concentrado, perdido na esmeralda da íris do estrangeiro. Inconscientemente ele se inclinou para frente, um ou dois centímetros. Seu rosto estava agora perigosamente próximo do de Antonio e ele engoliu seco. Antonio se impulsionou levemente com o cotovelo e seus lábios roçaram levemente os de Lovino.

Notas finais
Continua...