La Bella Toscana
3 L'amori
Notas iniciais
Fiquei surpresa com a repercussão positiva da história (wow, tipo, 15 reviews em dois capítulos é meu recorde). Não imaginei que um enredo comum como esse pudesse agradar tanto, fiquei realmente feliz! Obrigada a todos os que deixaram reviews e a todos os que nutriram a esperança da atualização (que tardou, mas chegou).
Espero que o capítulo agrade.
Boa leitura!
A noite estava tão quente quanto qualquer outra daquele verão e Lovino suava frio. Seu corpo desnudo estava coberto por uma fina camada de suor gelado e suas mãos estavam molhadas. Chegou a esfregá-las na própria coxa, na tentativa de secá-las ao menos um pouquinho, mas seus esforços foram vãos. Seus olhos eram incapazes de desviar do homem à sua frente. Igualmente desnudo, tinha um sorriso cheio de segundas intenções no rosto.
Ele abriu os braços para acolher Lovino que, tremendo de ansiedade, vergonha e tudo mais o que podia sentir naquele momento, caminhou resignadamente para o abraço.
O calor de Antonio o envolveu como uma brisa morna. Mas não aquela baforada de calor insuportável que ele precisava aturar todo dia. Era morna como o sol da primavera, que aquecia sem fazê-lo sucumbir ao calor. Sentiu os músculos do mais alto, bem definidos, contra seu corpo magro e sem forma e se sentiu um pouco envergonhado pela própria aparência.
“Você é lindo, Lovi.” Ronronou aos pés do ouvido do italiano, o que lhe causou calafrios.
Pela primeira vez, Lovino encarou Antonio. Suas íris douradas refletiam um desejo voraz de que aquele forasteiro que ele mal conhecia o tomasse para si, de maneira possessiva e desesperada, tais como eram os sentimentos no fundo de seu coração. Por isso, ele se inclinou um tantinho para beijar o outro. Decerto, foi um beijo completamente distinto do seu primeiro. Começou tímido, desajeitado, mas evoluiu para uma guerra entre duas bocas famintas uma pela outra.
Antonio parecia querer que Lovino se unisse ao seu corpo, porque o abraçava com tamanha força e vontade que mal permitia que o menor se movesse. Lovino, por sua vez, acariciava os cabelos de Antonio como se apenas eles o prendessem à vida. Havia um ar pornográfico naquele ambiente tão pacato.
Lovino sentiu seu membro pulsar em resposta à toda aquela atividade. Percebendo isso, as mãos de Antonio viajaram sorrateiramente até o baixo ventre do amante e se dedicaram a auxiliar seu membro, proporcionando-lhe estímulo e vigor. Lovino gemeu audivelmente durante o beijo.
“Antoni-ooo...”
E abriu os olhos.
Sentia-se quente. Seu rosto estava ardendo e altamente corado. O colchão abaixo de si estava encharcado de suor. A primeira coisa que seus grandes olhos de cor âmbar puderam perceber era o teto, parcialmente iluminado pelo pouco da luz da lua que a cortina deixava passar.
A segunda coisa que eles perceberam foi o ligeiro incômodo em seu baixo-ventre e a visível mancha no lençol exatamente nesse ponto. Ele pegou o travesseiro e o colocou sobre a sua cara, na tentativa de mascarar a vergonha que estava sentindo de si mesmo naquele instante.
Então quando finalmente conseguira pegar no sono, depois de horas se remexendo na cama, seu subconsciente resolvia que era hora de lhe pregar uma peça daquelas. Tudo por causa de um selinho estúpido que insistiu em grudar em sua memória e não sair mais dali.
Não foi grande coisa. Não foi quase nada, na verdade. Antonio simplesmente se inclinou um tantinho, apenas o tantinho necessário para preencher o espaçozinho que faltava para que seus lábios encostassem de leve nos de Lovino. E foi só um selinho, um estúpido selinho, tão inocente quanto os que ele dava em Feli ou no avô.
Mas ainda sim, capaz de afetar seu precioso sono.
Na hora, Lovino ficou mortificado por muitas razões. Uma delas foi exatamente aquele momento repleto de fofuras e arco-íris que teve com Antonio perto do lago. O. Que. Diabos. Havia. Sido. Aquilo? E depois, foi o selinho, o estúpido selinho pelo qual ele estava provocando uma tempestade em um copo de água. Como podia um maldito gesto daqueles afetá-lo tanto?
Finalmente, a sua reação ao contato foi, no mínimo, uma tragédia. Apesar de muitos o acharem infantil e idiota em vários aspectos, ele ao menos tinha a decência de reconhecer que, bem, ele realmente era “infantil e idiota” em muitos aspectos. Como, por exemplo, na sua reação exacerbada de menininha pura e virginal ao tal selinho.
Repassar aquilo em sua memória imediatamente após ter um sonho “molhado” com o autor do beijo era algum tipo de autotortura. A realidade foi que, logo que percebeu o que havia acontecido, Lovino se levantou tão rápido quanto um raio e se afastou bem uns três metros de onde estava. Tão repentina e imediata foi sua reação, que Antonio mal teve tempo de entender o que estava acontecendo.
Ele xingou o outro de várias coisas horríveis e chegou a cobrir os lábios com as mãos, como se estivesse a ponto de vomitar. Após terminar a torrente de insultos, simplesmente deu as costas para o hóspede e disparou em direção à casa, envergonhado demais e com os pensamentos embaralhados demais para avaliar o seu próprio comportamento. Ele não olhou para trás, mas os gritos de Antonio o fizeram saber que o forasteiro ao menos tentou correr atrás dele para se desculpar.
Com todo o cuidado que conseguia reunir, o italiano se levantou da cama. Silenciosamente ele saiu do quarto, ainda com um aspecto sonolento, ponderando que hora da madrugada seria. Caminhou, completamente nu, até o banheiro, obedecendo a necessidade de aliviar o volume em seu baixo ventre.
Ao entrar, trancou a porta e suspirou, deixando que suas mãos fizessem o que deveria ser feito. A única imagem que vinha em sua cabeça era a de Antonio, completamente nu e de seu corpo, perfeito, segundo sua imaginação, contra sua pele. Outro suspiro profundo anunciou que era necessário se apressar.
O mais chato de tudo aquilo era que Lovino estava zangado, muito zangado com a cara de pau de Antonio de lhe beijar. Porque, acima de tudo, o italiano era um jovem com necessidades próprias, consciente de sua preferência sexual, e – até então – seguro de que não teria nenhum par de calças para se preocupar, graças à sua terrível personalidade.
Um maldito selinho, seu subconsciente repetia.
Mas seus desejos estavam acumulados, muito acumulados. Já tendo experimentado o sexo uma vez, ele sabia como sentir falta daquilo. Mas era deprimente, entristecedor, excitar-se por causa de um maldito selinho ao sol poente. Enquanto a maioria das pessoas sãs se contentaria apenas com a graça do momento – que foi em si gracioso – o italiano talvez quisesse um pouco mais.
Mas ele era orgulhoso demais e traumatizado demais para aceitar isso.
Assim, ao terminar, jurou a si mesmo que nunca, nunca, mas nunca mesmo, se apaixonaria por Antonio. Tampouco se rebaixaria a ponto de se entregar para um forasteiro, como estupidamente fizera no passado. Não podia se permitir cometer o mesmo erro duas vezes.
Decidido, foi lavar as mãos, certo de que seu sono há muito se perdera, assim como suas esperanças de voltar a se apaixonar um dia.
Apesar de tudo, ele ainda tentou ir dormir. Revirou-se uma vez na cama. Depois novamente. E de novo. E outra vez. Até finalmente Feliciano, que dormia na cama localizada no outro extremo do cômodo, grunhir alguma ameaça incoerente direcionada ao irmão. Foi quando Lovino levantou da cama, cansado de procurar um pouco de sono para o resto da noite. Pegou um short que estava pendurado em uma cadeira no meio do caminho e deu uma topada no canto do guarda-roupa antes de sair do quarto. Caminhou solitariamente pela casa quieta e escura. O relógio da sala apontava que ainda era quatro da manhã e como ele não tinha muito que fazer pelas próximas três horas, foi até a varanda para esperar o amanhecer.
Seu avô gostava de manter uma namoradeira de madeira no local, para que os hóspedes pudessem sentar e apreciar o magnífico cenário com o qual a paisagem italiana os abençoava. Ele também se orgulhava em contar aos turistas que ele próprio construíra a namoradeira e plantara cada carvalho e cada oliveira em um raio de cem metros da casa. Lovino particularmente tinha um apego àquele adorno. Desde criança, adorava passar as horas sentado, balançando-se enquanto a paisagem à sua frente parecia congelada no tempo. Era uma rotina que lhe dava paz.
Aproveitou a quietude para esvaziar a cabeça das preocupações e sentir a natureza em todo o seu resplendor. A brisa fria da madrugada roçava em seu rosto e levantava alguns poucos fios de seu cabelo desgrenhado. Seu tórax desnudo dava as boas vindas ao frescor da madrugada, depois de dias e dias sofrendo com um calor seco e abafado. Era bom lembrar o quanto ele amava aquele lugar, apesar do maldito calor.
Ele ouviu a madeira do chão da varanda ranger um pouquinho e um pigarro desconcertado. Abriu os olhos, implorando para que seu avô não estivesse parado ali, pronto para mandá-lo de volta para a cama.
Mas no lugar que supostamente seria de seu avô, ele viu Antonio. O espanhol encarava o chão como se fosse o lugar mais interessante do mundo. Seus braços estavam rígidos, ao lado de seu corpo e apenas suas mãos pareciam brincar com o tecido de sua calça. Se não estivesse tão escuro, Lovino poderia jurar que viu suas bochechas ruborizarem-se de leve.
“O que você está fazendo aqui, bastardo?” O italiano cruzou os braços.
“Não consegui dormir.” Antonio coçou a cabeça. “E resolvi assistir o amanhecer.”
Lovino até já tinha preparado outra torrente de insultos para afugentar Antonio, mas desistiu de colocá-los para fora. Não era como se estivesse sentindo peso na consciência por agir feito uma pessoa mimada e irracional mais cedo, nem como se tivesse se deixado abater pelo aspecto de cão sem dono do recém-chegado.
“Tch. Faça o que quiser, bastardo.”
Antonio assentiu, mas permaneceu parado no mesmo lugar, como se estivesse temeroso de se mexer e provocar a ira do outro.
“Vai ficar parado aí feito um idiota? Isso já está me incomodando.”
“P-Posso sentar?”
Lovino bufou. “Mas é claro que pode. Não é como se tivesse uma lei aqui dizendo que é proibido que espanhóis tapados sentem.”
Antonio respondeu com um sorriso e Lovino desconfiou que ele sequer entendeu o que lhe foi dito. Acontecia bastante quando ele resolvia falar rápido demais, praticamente atropelando as próprias palavras.
Mantiveram o silêncio. O italiano evitava a todo custo olhar para o seu lado e, para evitar que o fizesse, resolveu brincar com a própria unha.
“Olha, Lovi... Eu realmente sinto muito.” Ouviu Antonio quebrar o gelo. “Por ontem à tarde, sabe.” Acrescentou, como se Lovino já não tivesse percebido ao que se referia. “Eu acho que me deixei levar pelo momento e não considerei os seus sentimentos. Então eu sinto muito, sinto de verdade.”
“Eu não estou bravo.” Murmurou, fazendo bico.
“Mas a sua reação ontem...”
“Mas é claro que eu tive aquela reação!” Ele respondeu, enrubescendo. “Você me beijou, porra! Foi inesperado! O que queria que eu fizesse?”
“Uh. Beijasse de volta? Abrisse a boca, possivelmente.”
O italiano massageou as têmporas, amaldiçoando aquele idiota por ser tão... Idiota. Ele deu um suspiro profundo, ainda sentindo suas bochechas quentes pelo constrangimento. Pensou em um milhão de coisas para dizer, mas no fim perguntou aquilo que mais lhe trazia curiosidade e que fazia suas mãos ficarem úmidas de suor.
“V-Você... Gosta de mim ou algo assim?”
Deu um olhar de soslaio para o sujeito ao seu lado, esperando que ele respondesse. A primeira e imediata reação de Antonio foi esboçar uma expressão de surpresa que logo se amenizou com um pequeno e sincero sorriso.
“Talvez.”
“Eu não acredito em você.” O italiano negou com a cabeça, mas suas bochechas estavam bastante coradas.
“Por que não?”
“Você não é confiável, bastardo.”
“Isso é cruel, Lovi! Eu gosto de você.” Ele fez bico.
Lovino começou a desconfiar que Antonio não realmente captara o sentido da palavra gostar, tal como ele havia tentado expressar.
“Eu não perguntei se você gosta de mim no sentido de, bom, gostar. Eu perguntei se você tem sentimentos românticos, ou merda parecida.”
“Sí, eu entendi.” Antonio respondeu arqueando a sobrancelha. “E, si, eu gosto de você.”
Para a surpresa do italiano, aparentemente o espanhol não era tão estúpido assim. Por isso, ele começou a se sentir ligeiramente desconfortável.
“Continuo não acreditando. Faz quatro dias que nos conhecemos. É impossível que uma pessoa goste de outra em apenas quatro dias.”
Antonio riu e negou com a cabeça.
“Não é não. É perfeitamente normal.”
“Você tem merda na cabeça, bastardo? Isso é esquisito! E assustador.”
Quando Lovino não obteve resposta, ele se virou para questionar Antonio. Mas as palavras morreram antes de saírem de sua boca. Isto porque o estrangeiro tinha o rosto apoiado em uma das mãos e um olhar tão maravilhado e terno ao mesmo tempo, que desconcertou o italiano. E toda aquela ternura e admiração pareciam estar dedicadas a Lovino e Lovino somente. Por isso, o anfitrião sentiu seu coração martelar contra seu peito ao mesmo tempo em que suas bochechas, pescoço e orelha ruborizaram em reação àquela incomum atenção. Sentiu igualmente uma indescritível onda de constrangimento, satisfação e desconforto, todos simultâneos, que o fizeram sacudir as mãos e empurrar o rosto de Antonio para o outro lado.
“Pare com isso, idiota! É-É constrangedor.” Ele disse, completamente inseguro de sua própria voz.
O espanhol deu um risinho.
“O que é tão engraçado?”
“Estou feliz.”
“Por quê?”
“Porque você não me rejeitou.”
O italiano abriu e fechou a boca, mortificado pela verdade nas palavras do outro. Ele não havia dito que sim. Mas também não havia dito que não. Franziu o cenho em sinal de irritação e se recostou no balanço. Prometeu a si mesmo que ignoraria o estúpido Antonio de uma vez por todas.
“Você é tão fofo, Lovi!” Cantarolou o homem ao seu lado.
“Não fale mais comigo, idiota.” Ele fez bico. Antonio, contudo, não o ouviria e continuaria a encará-lo com um sorriso estúpido no rosto.
“Pare de olhar para mim com essa cara estúpida.”
E o sorriso continuava ali. Pouco a pouco o céu começava a ganhar tonalidades azuis, o que anunciava que o amanhecer era iminente.
“Vá se afogar naquele lago e não volte nunca mais.”
Antonio era um sujeito persistente. Até chato, às vezes. Mas não podia fazer nada se estava genuinamente feliz.
“Para de sorrir assim, babaca.”
Lovino desistiu das ameaças quando percebeu que não adiantava o nível de maldade, suas palavras não afetariam Antonio. Talvez, e somente talvez, ele estivesse bem com isso.
Deu um prolongado bocejo enquanto assistia o sol nascer no horizonte e iluminar toda a vasta paisagem à sua frente, atribuindo-lhe novas colorações e novos aspectos. O cantar dos pássaros ficou mais evidente com o nascer do astro-rei, que parecia trazer a vida de volta para a monótona e bela Toscana. Diariamente o sol conferia àquele lugar seu verdadeiro sentido, justamente como na história dos girassóis que Lovino havia contado para o visitante no dia anterior. E essa era a mágica daquele lugar: o sentido que a luz do sol lhe dava.
Antonio começou a cantarolar uma canção em uma língua diferente, que talvez fosse inglês, mas Lovino não tinha certeza e não entendia nada da letra. Apesar disso, o ritmo de sua voz era tranquilo, baixinho e constante, quase como estivesse ninando uma criança. Isso fez com que o italiano relaxasse, em corpo e alma. A despeito da claridade crescente, suas pálpebras começaram a pesar e seus olhos ardiam levemente. Ele sequer sentiu quando sua cabeça pendeu para o lado, pois já estava mergulhado nos braços de Morfeu.
Não sabia ao certo quanto tempo se passou, porque estava distraído demais sonhando com alguma coisa da qual esquecera. Mas ouviu vozes ao fundo, vozes essas que lhe recordavam a de alguém que conhecia. A pessoa pediu para que ele acordasse, mas, teimoso, Lovino disse que não. Foi quando se sentiu sacudido sem muita gentileza. Quando o italiano finalmente abriu os olhos, pronto para lançar uma torrente de coisas ofensivas ao idiota que tivera a bela ideia de acordá-lo, desejou estar sonhando.
O sol já estava alto e o calor era o mesmo de sempre. Seu avô estava parado bem à sua frente, com os braços cruzados e com uma expressão de poucos amigos. Bem atrás dele estavam Feliciano e Antonio. Enquanto seu irmãozinho se continha para não abrir um sorriso divertido, o espanhol o encarava como se pedisse desculpas por aquela situação.
“Eu espero que você tenha uma boa explicação para isso, mocinho.”
Lovino bocejou e esfregou os olhos, fingindo não saber que estava encrencado.
“Para o quê?”
“Para o fato de eu haver encontrado vocês dois,” ele sinalizou Antonio com a cabeça. “Dormindo ridiculamente próximos um do outro, aqui fora.”
“Tch. Eu não lhe devo explicações.” Respondeu cruzando os braços.
“Como é que é?” Rômulo estreitou os olhos. “Você está me desrespeitando?”
“O que eu deixo ou não deixo de fazer é assunto meu.”
“Não enquanto você viver sob esse teto, rapazinho! Eu não tolerarei você saindo do quarto de madrugada para encontrar com...”
“Vovô, vovô.” Feliciano interveio, ainda com um sorrisinho no rosto. “Lovi não fez nada de errado. Eu que o expulsei do quarto ontem à noite. Ele estava roncando mais alto do que o normal.”
“E coincidentemente, eu acordei mais cedo e o encontrei aqui fora.” Antonio acrescentou prontamente. “Nós sentamos e ficamos conversando por um tempo até o sono bater. E acho que ele veio tão rápido que nem olhamos aonde dormimos.”
Rômulo tinha um olhar desconfiado, como aquele de um animal que pressente que será enganado. Seus olhos se estreitaram e foram de Antonio para Feliciano e de volta para Antonio. Ambos pareciam bastante naturais em suas meias verdades, mas Lovino transparecia nervosismo. Havia, inclusive, prendido a respiração, com medo de que qualquer passo em falso convencesse seu avô de que as histórias estavam longe de serem totalmente verdadeiras.
Visivelmente não convencido, Rômulo não insistiu. Apenas ordenou que aquilo não tornasse a se repetir e entrou. Antonio e os irmãos Vargas trocaram olhares de cumplicidade e suspiros simultâneos de puro alívio. Mantiveram alguns segundos de silêncio, como se estivessem se recuperando da ligeira tensão causada pelo terrorismo parental. Feliciano foi o primeiro a rompê-lo.
“Então.” Ele abriu um sorriso levado. “É a segunda vez que vejo vocês tão próximos. O que os dois estavam fazendo sozinhos aqui fora?”
Antonio o encarou parecendo confuso enquanto Lovino reagiu efusivamente ao comentário.
“N-NADA!” Sua voz saiu esganiçada e ele precisou pigarrear para fazê-la voltar ao tom normal. “Estávamos apenas conversando. O b-bastardo não contou nenhuma mentira aqui.”
Feliciano olhou para Antonio, como se esperasse que ele desmentisse a história do irmão com palavras, um gesto, um olhar... Qualquer coisa. Mas para sua imensa decepção, ele assentiu e confirmou que Lovino havia dito a verdade.
“É verdade, Feli. Ele estava sentado aí quando cheguei, daí ficamos conversando até dormirmos.”
“Ah.” O Vargas mais novo parecia bastante desapontado. Parecia que estava esperando uma história de contos de fada, ou algo próximo disso. Lovino rolou os olhos, não acreditando no número de idiotas que o cercava.
“Mistério resolvido! Quero meu café da manhã, por favor.” O italiano disse, dando o assunto por encerrado.
O comportamento de Rômulo não mudou muito após o incidente, mas Lovino percebeu que o avô já não o deixava ficar muito tempo sozinho com Antonio pela casa. O que era um tremendo exagero, na opinião do neto. Mas Rômulo sempre fora um pouquinho exagerado e ciumento dos irmãos, independente das circunstâncias. Ao menos com o mais velho, seus ciúmes eram consideravelmente saudáveis e efêmeros. Lovino ponderou o que ele faria se fosse Feliciano em seu lugar.
Não era segredo que o mais jovem dos irmãos possuía uma posição especial no coração do avô. Eram mais próximos porque Feliciano vivera uma grande parte do início de sua infância com o avô, enquanto, por pura opção, Lovino ficava com os pais. E também, porque desde pequeno Feliciano possuía o dom de encantar todos à sua volta com seu jeito meigo e carismático, enquanto seu irmão mais velho costumava arrancar reações bastante adversas das pessoas com seu jeito brusco e rude de ser. Sabia muito bem que o avô o amava e fazia o possível e o impossível para vê-lo bem e feliz, mas não podia evitar sentir uma ou outra pontada de ciúmes pela explícita preferência por seu irmão mais novo.
O dia se passou como qualquer outro. As atividades pareciam mais intensas pela manhã, mas o mesmo não se podia dizer do pós-almoço. A mesmice daquela tarde quente e típica da Toscana trouxe consigo o torpor e lentidão natural dos sentidos que, pouco a pouco, ousaram cativar uma sensação de paz e tranquilidade no ambiente. Nada além de um cenário perfeito para um doce mergulho no mundo dos sonhos, após uma refeição farta e gostosa. Foi nesse momento que Rômulo desistiu de cumprir a promessa de vigiar o neto e decidiu se entregar ao sono por completo.
Lovino estava na recepção, cumprindo a rotina e preso entre a realidade e o mundo dos sonhos. Entediado, enquanto sentado naquela cadeira desconfortável, amaldiçoava os dias em que precisava “tomar a frente dos negócios”, enquanto seu avô e Feliciano gozavam de uma boa sesta no conforto de suas camas.
Lançou um olhar desinteressado para Antonio, que estava bastante à vontade deitado no sofá do salão principal. Pensou em chamar sua atenção e dizer que aqueles lugares eram para clientes, mas a preguiça era tanta que não se dignou a gastar a voz. Além disto, não havia mais nenhum cliente ou perspectiva de um ali mesmo. Não fazia muito mal deixar aquele folgado por ali, ao menos enquanto ele ficasse calado.
A verdade era que Antonio incomodava Lovino, e incomodava muito. Tudo nele parecia tirar o italiano do sério: seu jeito desleixado e despreocupado de ser, a facilidade com a qual se entrosava com estranhos, a obsessão por tomates e, principalmente, a admiração estampada em seu olhar cada vez que via Lovino. Era algo com o qual o italiano não estava acostumado. Jamais tivera o privilégio de ter tanta devoção direcionada apenas à sua pessoa. Nem mesmo nas suas relações mais fracassadas, nem mesmo em sua família. E incomodava saber que Antonio talvez gostasse de verdade dele. Seu lado cético questionava, berrava ser impossível um sujeito se apegar tão rápido e tão facilmente por alguém, em especial Lovino.
“Ei, Lovi”
Antonio recebeu um grunhido em resposta.
“Quais foram as más experiências que você teve no amor?”
O italiano arqueou a sobrancelha, letárgico demais para qualquer reação exagerada. Percebeu que Antonio continuava deitado em seu lugar. Sequer havia movido a cabeça ou se virado para olhar para Lovino.
“De onde você tirou isso, bastardo?”
“Você me disse naquele dia do lago.”
“Eu não me lembro de ter dito.”
“Tudo bem se não quiser falar.”
“Nah.” Talvez já fosse a hora de falar com alguém, além de seu irmão, a respeito da sua desastrosa vida amorosa. Até a chegada de Antonio, Lovino achava desconfortável tocar nesse assunto, mas de uma maneira esquisita, naquele momento, naquela sala abafada e naquele marasmo, o italiano se sentia bastante a vontade para compartilhar um momento que, até então, preferia remoer para si. E mais: Lovino sentiu um ímpeto de compartilhar aquilo com Antonio. Culparia o sono por aquela maluquice.
“Eles chegaram aqui um dia, inesperadamente, tão forasteiros quando você quanto pisou aqui pela primeira vez. Eram alemães, os idiotas.”
O silêncio de Antonio pareceu um sinal para incentivá-lo a continuar.
“Eram irmãos e se chamavam Gilbert e Ludwig. Uma dupla de idiotas, você pode imaginar. Eles chegaram e disseram que ficariam durante o mês, mas não pagaram antecipado. Era primavera. O campo estava todo florido.”
“Você parece gostar dessa memória.” Comentou Antonio, com uma pontada de ciúmes cutucando seu peito. “Por qual deles você se apaixonou? Gilbert ou Ludwig?”
“Tch. O idiota amante de batatas um era caidinho pelo Feli, embora meu irmão fosse jovem e idiota demais para perceber isso. O maldito bastardo por quem me apaixonei foi o irmão mais velho dele, Gilbert. Foi o maior erro da minha vida.”
“Por quê?”
“Ele foi embora. Como todo mundo nesse maldito lugar, ele foi embora. Disse que voltaria e nunca deu as caras. Esperei por anos.”
Havia uma amargura enorme nas palavras de Lovino. Uma amargura que trouxe um aperto para o coração de Antonio e deu um nó em sua garganta. Então Lovi havia se apaixonado perdidamente, a ponto de esperar por anos que Gilbert voltasse, mas ele nunca o fez. Gilbert não apenas partiu o coração de Lovino: ele o triturou e pisoteou com seu descaso e com as suas falsas promessas. Antonio ficou irado.
“Olha, bastardo, não quero a sua compaixão ou o que quer que você sinta por essa história. Você perguntou, eu respondi. E é isso. Sem sentimentalismos, por favor.”
Antonio ignorou o alerta do italiano e se levantou do sofá. Caminhou até o balcão e parou bem na frente de Lovino.
“O que é?”
“Eu nunca vou te abandonar.” Disse. Seu olhar era tão intenso, tão enamorado, que Lovino se sentiu sem qualquer defesa. E sentiu medo.
“P-Pare com isso, idiota! Não temos nada, ouviu? Nem teremos! Você vai embora e pronto, como qualquer outro hóspede. Pare de falar besteiras.”
“Estou sendo absolutamente franco aqui, Lovi. E falo muito sério.”
“Pare de brincar com essas coisas!”
“Eu nunca brinco com o coração das pessoas. Antonio Carriedo nunca quebra as suas promessas.”
O italiano se levantou da cadeira bruscamente e deu um soco no balcão.
“Cazzo! Me deixa em paz! Eu já disse que não quero a sua compaixão, bastardo!”
Antonio o segurou pelos pulsos, fixando o olhar em Lovino. O italiano estava vermelho de raiva e sua postura denotava uma imensa frustração. Era belo, incrivelmente belo. A criatura mais cativante que Antonio conhecera e seu julgamento antecipado, naquele primeiro dia em que o vira cochilando serenamente neste mesmo canto da sala, não lhe enganou. Talvez fosse exagero. Talvez fosse amor à primeira vista. O importante é que era clichê e forte o suficiente para incendiar o coração de Antonio como nunca antes.
“Lovino Vargas, eu te amo.” Sussurrou e selou a distância entre seu rosto e o do italiano.
Fale com o autor