Notas iniciais
Finalmente posso dedicar meu tempo a escrever essa fic, que finalmente já passou da metade e toma o caminho (ainda um pouco distante) do desfecho.

De fato, essa atualização, tal como a anterior, tardou. Espero compensar o atraso com o tamanho e conteúdo do capítulo.

Espero que agrade e boa leitura.

Mais uma vez, os lábios de Lovino foram capturados pelo estranho.

O italiano, consumido por sua angústia e revolta com o outro, em um primeiro momento, foi pego de surpresa e não soube como reagir. Era confuso. Simplesmente ouviu Antonio dizer sonoramente que o amava e, de repente, o espanhol o estava beijando. Não era um selinho tímido, sequer um mero roçar de lábios. Era coisa séria.

Seu cérebro ordenava que reagisse, mas não dizia de que forma. Mil pensamentos se formaram em sua cabeça em uma fração de segundos. Imediatamente, pensou em empurrar Antonio para longe e menosprezar todo aquele gesto como meio de defesa. Mas isso não seria justo, já que não sentia nenhum repúdio. Muito pelo contrário. Um pequeno conflito se formou em sua cabeça e Lovino demorou a perceber que estava correspondendo ao beijo. De olhos fechados e tudo.

Antonio beijava muito bem. Não que Lovino fosse expert no assunto, mas ele gostava da forma com a qual os lábios do espanhol dançavam contra os seus. O roce entre os lábios era ao mesmo tempo delicado, sem grandes exageros em desespero e, ao mesmo tempo, era sensual. Não exatamente brigavam pela dominância: alternavam-na, como em uma dança sincronizada. Perfeita. Era cálido e ao mesmo tempo despertava as famosas borboletas no estômago de ambos. Mas Lovino não podia evitar se sentir nervoso, temendo que não fosse capaz de corresponder ao beijo tal como Antonio desejaria. Sentiu como que o espanhol estivesse em algum tipo de pedestal em relação a ele no que se referia a experiência em beijos e, por isso, a mera expectativa de decepcioná-lo o assustava a ponto de evitar com que se entregasse por completo e sem preocupações ao momento.

Antonio percebeu seu nervosismo. Muito embora Lovino estivesse correspondendo perfeitamente bem ao beijo desde o primeiro roçar de lábios, seu corpo estava tenso. Do canto do olho, o espanhol notou as sobrancelhas franzidas e viu que Lovino mal se mexera de seu lugar. Suas mãos estavam suadas e geladas. Chegava a ser adorável.

Antonio puxou o corpo de Lovino para mais próximo de si, de modo a selar a distância entre ambos. Sentiu todo o calor do outro, e o ambiente contribuía para a sensação de sufocamento. Mas se era o destino de Antonio morrer, consumido pelo calor, ali mesmo, nos braços de Lovino, então ele seria a pessoa mais feliz da face da Terra.

Suas mãos, possessivas, seguraram o italiano pela cintura, por cima da camisa encharcada. Sua boca jamais parou de trabalhar, conquistando o que acreditava ser seu de direito. Contrariando a temperatura ambiente e toda a sensação térmica, o instinto o fez pressionar mais seu corpo contra o do jovem, sem permitir que ele se afastasse. Lovino soltou um gemido baixinho, entre um suspiro e outro, que certamente saiu contra a sua vontade. E sem perceber, incendiou a alma de Antonio.

O espanhol intensificou o beijo para um ritmo que pegou o italiano desprevenido. Suas mãos abandonaram a posição ortodoxa na cintura e envolveram-no por completo, em um abraço que pretendia tornar ambos um só. Sua língua abriu passagem para a cavidade de Lovino, ávida por explorá-la. O italiano sentiu pequenos e deliciosos calafrios pelo corpo, que surtiram efeito em seu baixo-ventre. Sem raciocinar a respeito, passou a pressionar o quadril contra o de Antonio. Sua mão, que até então parecia perdida, encontrou conforto na bunda do outro, servindo como um mecanismo de pressão para forçar qualquer aproximação possível.

Soltou outro gemido, dessa vez um tantinho mais audível, quando sentiu algo rígido no baixo-ventre do outro pressionar contra o seu.

Estavam perdidos um no outro, tanto que Lovino chegou a esquecer a indignação com as palavras inconsequentes de seu hóspede.

Tão logo o italiano decidira se entregar, ele ouviu passos vindos da escada. Antonio também ouviu, mas custou alguns segundos para que ambos entendessem que talvez fosse necessário parar por ali.

O fizeram bem a tempo do flagrante, pois assim que se afastaram, ofegantes e corados, suados e desorientados, Feliciano surgiu na sala. Em um primeiro momento, parecia perfeitamente inocente aos acontecimentos daquela tarde.

Fratello!” Chegou a exclamar, antes de ter o tempo necessário para analisar o ambiente. "Uhh?”

Os olhos de Feliciano estudaram os dois indivíduos parados à sua frente e não havia nada no ar que não os incriminasse. Antonio e Lovino estavam ambos corados, com respirações descompassadas. A blusa do Vargas mais velho estava amassada e desajustada em seu corpo e seus lábios avermelhados. As mãos de Antonio, por sua vez, encontravam-se estrategicamente posicionadas, de modo a esconder algo em seu ventre. Uma pena que Lovino não teve a mesma perspicácia do espanhol.

Feliciano corou, envergonhando-se de estar ali. Não sabia ao certo o que fazer: queria abrir um enorme sorriso, por ver suas suspeitas enfim confirmadas, mas queria desaparecer, por ter interrompido o momento. Sem falar no constrangimento inerente àquela cena, que o teria atingido, mesmo que sua atitude fosse proposital.

“Lovi, uh...” Ele pretendia se desculpar, mas foi interrompido pelo irmão.

“O que você quer, idiota?” Seu tom era elevado, firme, quase um grito. “Vá embora, ninguém te chamou!”

“Não fale assim com seu irmão, Lovi.” Antonio apontou em tom baixinho, encabulado demais para encarar o Vargas mais jovem.

“CALA A BOCA!” Ele se virou para o espanhol, na defensiva, antes de disparar como um raio para fora da casa. “ME DEIXA EM PAZ!” Posto isso, o Vargas mais velho abriu a porta da sala com violência, o que muito provavelmente acordaria Rômulo, e saiu correndo.

Antonio ficou atônito ante aquela reação e Feliciano suspirou, já habituado às explosões do irmão.

“Desculpe.” Disse em um tom altamente culpado. “Eu não pretendia atrapalhá-los.”

O espanhol não sabia aonde se enterrar. Em contrapartida, sabia disfarçar o desconforto perfeitamente bem.

“Está tudo bem, Feli.” Abriu um sorriso simpático. “Só não vamos comentar isso com o Rômulo, ok?”

Feliciano retribuiu o sorriso. Antes de sair do recinto, aconselhou.

“Então acho melhor você ir pro seu quarto, irmão Toni. Antes que o nonno apareça aqui e desconfie.”

Antonio assentiu, retomando a compostura no momento em que o italiano se retirou. E demorou algum tempo para que percebesse que o jovem o havia chamado de irmão.

Não muito longe dali, em meio ao glorioso campo de girassóis, Lovino desabou sobre as flores. Estava profundamente emburrado consigo, com Antonio e com Feliciano, para todos os efeitos.

Sentiu o sol penetrar sua pele, maltratando-a por intermédio dos insaciáveis raios ultravioletas. Uma grande parte de seu rosto, contudo, gozava da limitada sombra proporcionada pelos majestosos girassóis. Isto nem de longe mudava o calor que sentia, mas nada o faria levantar dali naquele minuto, porque tudo o que o Vargas mais velho desejava era ser tragado pela terra, ou então morrer tostado sob o sol da Toscana.

O que não seria uma má ideia, definitivamente.

Fechou os olhos e levou os dedos aos lábios, contornando-os delicadamente, ao mesmo tempo em que sua mente revivia o ávido beijo que compartilhara com seu hóspede, momentos atrás.

Sabia, embora recusasse a admitir, que não poderia fugir para sempre da sina que é o envolvimento com outro ser humano. Havia tentado e falhado com Gilbert, tampouco foi capaz de impedir que Antonio o enfeitiçasse desde a primeira vez que seus olhos travaram contato.

“Isso é o maldito destino ou o quê?” Questionou-se, com um ar de derrota.

Sua mente trabalhava a todo o vapor em busca de semelhanças entre o que vivera e o que vivia, mas fazia tanto tempo – tanto tempo de sua primeira experiência e primeira decepção – que as memórias eram como vultos, ideias de algo que não funcionou muito bem e que deixou um grande vazio em seu passado. Talvez fosse exagero ou talvez o mero impacto da primeira desilusão, diante da visível escassez de outras experiências.

Realmente, pensar naquele tipo de coisa era exaustivo. O italiano encarou o imenso manto azul que comumente chamavam de céu, finalmente rendendo-se e entregando suas preocupações ao vento de modo a poder mergulhar em um cochilo gostoso, apesar do clima abafado.

Quando acordou, estranhou a ausência de iluminação e o frescor do ambiente.

Levantou-se um pouco bruscamente ao perceber que quatro paredes o cercavam. Olhou de um canto para o outro do aposento e suspirou, levemente aliviado. Estava em seu quarto e, pela janela, pode perceber que o sol já começava a baixar, dando uma tonalidade meio amarelada, meio alaranjada, à paisagem lá fora.

A porta do quarto foi aberta com ligeira discrição, mas não silenciosamente o suficiente para deixar de chamar sua atenção. Antonio sorriu-lhe ternamente.

“Finalmente. Você acordou.” Constatou. “Seu avô quer que você se junte a nós para o jantar”.

Lovino bocejou, perguntando as horas.

“Quase nove da noite. Você dormiu muito, Bela Adormecida.”

O italiano o fuzilou com o olhar.

“Eu durmo o quanto eu quiser, onde eu quiser, stupido.” Rebateu. “Como eu vim parar aqui, afinal?”

“Eu trouxe você. Você ia queimar se continuasse lá fora.”

“Queimar?”

“É. Com o sol.”

“Você quer dizer bronzear? Tch.” Suspirou, lembrando que o italiano de Antonio era limitado. Era muito bom, na verdade. Qualquer dia desses perguntaria ao sujeito onde ele havia aprendido a língua. “Não é como se eu fosse um branquelo fracote, eu aguento um pouquinho de sol.”

Antonio arqueou a sobrancelha, mas não retrucou.

“Então... Seu avô quer você lá embaixo para jantar.”

Lovino se deitou novamente, estatelando-se contra a cama e fechando os olhos, para evitar encarar o outro. Não era como se houvesse esquecido daquela tarde. Estava com insistentes borboletas no estômago desde então.

“Estou com preguiça.” Grunhiu. “Vá embora, quero dormir.”

Ouviu o espanhol suspirar pesadamente e, em seu habitual pessimismo, questionou-se se finalmente sua personalidade difícil o estava enfadando. Aquela simples ideia trouxe um falso alívio e, ao mesmo tempo, um aperto para seu peito.

“Você deveria descer. Rômulo disse que a ocasião é especial.”

“E posso saber por qual razão seria essa ocasião tão especial assim?”

“Ele disse que será uma despedida. Por amanhã ser meu último dia aqui.”

Lovino abriu os olhos em um flash, processando as últimas palavras do outro.

“D-Do que você está falando?” Amaldiçoou-se por sua voz lhe falhar em um momento tão inadequado. “Amanhã é que dia?”

Antonio fez um cálculo rápido nos dedos, para provar seu ponto. Explicou que chegara numa terça e que suas aulas de italiano tiveram início um dia depois de se instalar em seus aposentos, muito provavelmente em uma quinta. E que saíram para conhecer a propriedade em um domingo, o que os trazia para a segunda-feira à noite.

“Eu teria que ir embora amanhã.” O coração de Lovino acelerou mais rápido que um carro de corrida, naquele mesmo segundo. “Mas falei com Rômulo e ele disse que vai precisar ir até a capital para resolver uns assuntos e que podemos ir juntos, para evitar gastar dinheiro com a condução. Então vou ficar aqui até a quarta pela manhã.” O espanhol levou o dedo ao queixo. “Tenho quase certeza que ele disse que sairíamos antes do sol nascer.”

O italiano não podia fazer outra coisa senão tentar controlar a tremedeira irritante em suas mãos e lábios, negando para si próprio estar abatido ou ansioso com aquela notícia que não deveria lhe ser novidade. Como havia previsto, prudentemente, seu hóspede tinha os dias de férias contados e o contrato fora assinado desde que se conheceram, havia uma semana. Ele nunca mentiu a respeito de seu tempo de hospedagem, exceto quando, em seu desespero para provar seus sentimentos ao italiano, prometera que jamais o abandonaria. Pura mentira, pura ilusão, Lovino sempre soube disso.

Ele nem conseguiu disfarçar o seu sorriso descaradamente fingido.

“Como eu disse antes.” A pausa em sua frase foi para tentar retomar a compostura. Queria demonstrar o quão certo sempre esteve, mas era ridículo o modo que sua voz tremia. “Você terá de ir. Voltar para casa.”

Antonio podia ser denso, ou parecer denso, mas nem em toda a sua distração seria incapaz de perceber o ressentimento que preenchia cada palavra do jovem à sua frente. Adiantou-se até a cama, sentando-se ao lado de Lovino, que, por mero instinto, afastou-se para o lado para evitar que o outro se aproximasse muito.

“Eu prometi que nunca iria te abandonar, não prometi?” Ele perguntou, encarando-o de forma tão intensa que Lovino precisou desviar o olhar. “Olhe para mim, Lovi.”

“Não me chame de Lovi.” Murmurou.

Seus olhos de cor mel pareciam quase dourados e, realçados pela intensa luz que prenunciava a despedida do Sol, encontraram, por fim, os de Antonio. E era isso o que mais temia, porque sabia que o espanhol poderia ler todos os seus sentimentos. A angústia, a teimosia, a negação e, finalmente, a resignação com o seu pretenso destino. Sentiu-se vulnerável, como se estivesse completamente nu em meio a uma multidão.

“Droga, bastardo. Qual é o seu problema?” Perguntou, quase choramingando. O silêncio de Antonio o incomodava. Mas o incomodava mais saber exatamente o que se passava em sua cabeça. Por isso, inclinou-se para frente e lhe deu um beijo terno.

Em um primeiro momento, Antonio foi surpreendido. Mas não perderia a oportunidade. Fechou os olhos e entregou-se ao cálido contato com os lábios daquele que dizia amar.

Quando se separaram, foi porque ouviram Feliciano gritar seus nomes da escada.

“Você sabe... Acho que você podia descer.” Antonio foi o primeiro a se levantar.

Lovino respondeu com um bico teimoso e um franzir de testa. Por fim, suspirou, dando-se por vencido.

No entanto, antes que o espanhol pudesse por os pés para fora do aposento, sentiu seu braço ser puxado. Havia uma determinação acalorada nos olhos de Lovino, com a mesma intensidade que o envolvera e cativara desde o primeiro dia.

“Amanhã. Passe o dia comigo.”

O estrangeiro não pode evitar a surpresa, tampouco escondê-la.

“Tire essa expressão idiota do rosto. Você promete?”

“Que vou tirar a expressão idiota do rosto...?” Perguntou, meio indeciso.

Lovino rolou os olhos.

“Não, stupido. Que vai passar o dia comigo amanhã. Só eu e você. Sem Feli ou Vovô para encher o saco.”

O sorriso de Antonio foi discreto e atípico, mas seus olhos cintilaram com um brilho divertido. Fez uma mesura e tomou as mãos de Lovino, depositando-lhes um beijo cortês.

“Serei todo seu.”

E talvez fosse sua intenção, desde o princípio, deixar o italiano consternado e enrubescido. E por esta razão, desceu as escadas em perseguição ao espanhol, falsamente jurando-lhe a morte.

Diante de Rômulo, Antonio e Lovino pareciam dois travessos conspiradores, ocasionalmente trocando olhares e sorrisos furtivos, em qualquer momento em que o avô parecia distrair-se com a própria comida. Aqueles minutos a sós no quarto, em pleno entardecer, pareceu finalmente dar-lhes um crime em comum para serem cúmplices. Do mais, o momento foi agradável o suficiente para trazer à cozinha daquela casa solitária, distante da agitação das cidades, um ar animado e descontraído, com pequenas conversas triviais trocadas entre os interlocutores. Mas foi com Feliciano que Lovino trocou olhares quando seu avô informou que teria uma conversa a sós com o espanhol, dispensando os netos de permanecer no recinto quando findo o jantar.

Quando os minutos, após serem mandados para o quarto, se transformaram em horas, Feliciano começou a demonstrar inquietude.

“Você não está curioso?” Inclinou-se para frente, para poder ver o rosto do irmão. “O que o vovô tem a falar com irmão Toni?”

O mais velho bufou.

“Provavelmente não é nada. Alguma baboseira sobre a viagem deles, ou o pagamento de alguma tarifa. Sei lá.”

“Eles vão viajar juntos?” Perguntou, genuinamente surpreso. “Que atípico.”

“O quê? Por quê?”

“O vovô nunca gostou de intimidades com estranhos. Ele só é gentil com mulheres e com aqueles sócios com quem ele acertava os negócios da família.”

Lovino arregalou os olhos, alerta, e cobriu a boca do irmão com as mãos, olhando para os lados de forma nervosa e paranoica.

“Você é retardado? Nunca falamos sobre os... Negócios do vovô. Principalmente quando tem estranhos na casa.” Sibilou, com medo que as paredes os ouvissem.

Feliciano se livrou das mãos do irmão e retrucou, com um sorriso travesso nos lábios, que Lovino era a última pessoa que poderia considerar Antonio um estranho. O mais velho fingiu não ter ouvido a provocação.

“Estou falando sério, fratello. Desde o primeiro dia que o irmão Toni pisou aqui, o vovô tem tido conferências privadas com ele... Aliás, eu ouvi umas coisas que você precisa saber.”

Lovino estreitou os olhos.

“Você está insinuando que Antonio está envolvido nos negócios sujos do vovô?”

Com o tom que utilizou, insinuou que a resposta de Feliciano deveria ser negativa, sob pena de reacender toda a desconfiança que lutara tanto para obliterar.

O mais jovem negou com a cabeça.

“Não é isso.” Pretendia acrescentar um ‘exatamente’, para indicar que suas suspeitas advinham de fundamentos distintos, mas o alívio e a consequente interrupção de seu irmão o impediram de continuar.

“Então morreu o assunto. Não fale mais a respeito disso. Você sabe como o vovô odeia que comentemos sobre os negócios. Você, principalmente, é quem ele quer ver longe disto tudo. Não venha com ideias mirabolantes em sua cabeça.”

Feliciano bufou, zangado por não ter a oportunidade de se expressar adequadamente. No fundo, sabia que, ao menos naquele momento, suas tentativas de compartilhar o que sabia com o irmão seriam em vão.

Escusou-se, a fim de sair do quarto.

“Aonde você vai?” Inquiriu o mais velho, fazendo menção de segui-lo.

“Se você não está curioso para saber o que eles estão conversando, eu estou.”

“Você está louco?”

“Estou curioso.”

“Eles vão te ouvir.” Sibilou, enquanto descia a escada atrás do irmão.

“Não se você ficar quieto.” Rebateu em mesmo tom, camuflando-se atrás de um vaso de plantas e sendo seguido pelo irmão. Lovino nem sabia por qual razão havia seguido Feliciano, quando ele próprio acabara de mandar o mais jovem parar com a babaquice conspiratória. “Agora faça silêncio, para podermos ouvir.”

“Ouvir o quê, Feli?” A voz grave e autoritária de Rômulo sobressaltou os irmãos. O mais jovem deles pareceu congelar ali mesmo e o susto do mais velho foi tanto que ele perdeu o equilíbrio e tombou para trás. Constrangido, ele viu que Antonio os observava, tentando esconder o divertimento no olhar.

“Antonio, agradeço muito sua companhia. Foi muito agradável. Agora peço licença para ter uma conversa em particular com meus queridos netos.

O espanhol se despediu dos três anfitriões com um desejo de boa noite e um sorriso suprimido. Seu olhar cruzou, propositalmente, com o de Lovino, que corou levemente.

Desnecessário enfatizar o tamanho da bronca que os irmãos Vargas levaram naquela noite. Seu avô não se ateve muito a fatos e detalhes, tampouco às razões pelas quais reprimia com tanta veemência o comportamento furtivo dos netos. Mas sua lição de moral sobre como era uma tremenda falta de educação ouvir a conversa alheia sem ser convidado fez com que Lovino começasse a sentir um incômodo na retaguarda, de tanto tempo em que ficou sentado na desconfortável cadeira de madeira da bancada da cozinha. Culpou Feliciano por sua maldita curiosidade inconsequente, pensando inúmeras vezes em como era mais prudente em prevenir aquele comportamento – e omitindo, propositalmente, em sua cabeça, o fato de haver corroborado para tal.

Rômulo apontou o dedo para cada um dos netos.

“E lembrem-se, vocês dois: os negócios da família são assuntos meus. Mantenham-se longe deles.”

Quando foram dispensados, Lovino saiu da cozinha com uma tremenda dor de cabeça. Odiava levar bronca, ainda mais quando não havia dado causa a nada. Era injusto que fosse responsabilizado pela inconsequência do irmão, mas esse era um paradigma que o acompanhava desde o nascimento de Feliciano. A sina do irmão mais velho era como a denominava.

Esperou o avô se trancar no quarto e Feliciano cair no sono para poder encontrar Antonio. A verdade era que ele próprio estava sem um pingo de sono, por haver dormido quase a tarde inteira.

“Você é tão previsível, bastardo.” Comentou ao se juntar ao espanhol na varanda.

“Por quê?” Perguntou com um sorriso, mais ou menos já sabendo a resposta.

“Porque sim.” Sentou-se, apoiando as costas nas de Antonio. “Por que você está aqui no chão, em vez de no balanço?”

“Porque está mais fresco aqui.” Ele indicou, tocando a lajota.

O italiano concordou, em silêncio, com a sensatez do raciocínio. Seguiu-se um silêncio tranquilo após a última manifestação de Antonio, quebrado apenas pelo barulho dos insetos, e o farfalhar das folhas das oliveiras, causado pela morna brisa noturna, que preenchiam a noite com uma melodia natural e pacata.

Em um dado momento, Antonio fez um comentário a respeito de como costumava participar de serenatas, quando era menino. Isso, claro, antes de seu pai desaparecer. Lembrava-se bem, porque era uma noite de 25 de julho e eles haviam acabado de participar de uma espécie de sarau, onde seus pais, tios e primos mais velhos compunham belos versos sobre as mulheres amadas. Sem se aperceber, Antonio começou a falar dos momentos bons de sua infância, com certa nostalgia na voz.

Sentindo-se estranhamente impelido pela abertura proporcionada pelo espanhol, que jamais havia mencionado uma palavra sobre seu passado, Lovino também desatinou a falar sobre sua infância, quando perguntado pelo outro.

Contou que crescera em Nápoles, a centenas de quilômetros dali, em uma casa que ficava próxima a uma encosta. E que se lembrava perfeitamente da vista que tinha do Vesúvio, que ficava praticamente “em seu quintal”, como costumava comentar, animado com o avô. Na casa, que na verdade parecia mais um pequeno sítio, a família criava uma cabra e tinha uma pequena horta caseira, que contava com ampla variedade de legumes e hortaliças. Contou, com uma amargura que não passou despercebida pelo espanhol, que viveu com os pais até os sete anos de idade, mais ou menos quando Feliciano completou seus quatro.

“E como vocês vieram viver com seu avô?”

Antonio perguntou genuinamente interessado.

Lovino explicou, sem muitos rodeios, que após permanecerem quase três anos em uma escola interna, seu avô misteriosamente apareceu um dia e levou-os embora. Antonio, cauteloso, perguntou se os pais de Lovino haviam falecido, e o italiano negou com a cabeça.

“Divorciaram-se.” Comentou, sem se afetar. “Não liguei muito, eles não eram um casal muito perfeito um para o outro mesmo.”

Acrescentou que o pai trabalhava com os negócios da família – e fez rodeios quando Antonio perguntou quais – e que a mãe vivia em Nápoles e tinha, com outro sujeito, outro filho que Lovino se lembrava de ter visto uma vez, quando tinha treze anos.

“Mas ele se parece um pouco comigo e com Feli.” Ponderou.

Ao contrário do que se podia esperar, não falaram em Gilbert. Antonio já não estava mais tão curioso em saber coisas a seu respeito, porque acreditava que o sujeito ficara no passado e o que importava para Lovino era o presente. Mas falaram de muitas outras coisas: gostos em comum, desacordos, a vida na Itália, na Espanha, um pouco de música, filosofia, cinema, senso comum e qualquer outro assunto que encontraram. Antonio não falou muito de si: deixou Lovino se soltar, dar sua opinião, compartilhar o que quisesse. Bastou contar um caso de sua infância, uma memória simplória, mas feliz; inofensiva, mas animadora, para que o italiano se sentisse à vontade para conversar de um modo tão aberto e tão apaixonado, que deixou Antonio encantado e ávido por mais daquela personalidade oculta aos olhos de estranhos.

Mal perceberam as horas se passarem e, com elas, a madrugada.

Fazia dez minutos que estavam em silêncio quando o céu começou a ganhar tonalidades azuis-escuras. Já haviam se sentado no balanço, na escada e no chão de novo, até finalmente Lovino encontrar sossego nas pernas de Antonio. Seus olhos finalmente começaram a pesar e a letargia o chamava para os braços de Morfeu. Se pudesse, apostaria que provavelmente era por volta das quatro e meia da madrugada.

Hoy en mi ventana brilla el sol

Y el corazón se pone triste

Contemplando la ciudad

Por que te vas

Antonio começou a cantar, baixinho. Seus dedos viajaram até as madeixas castanhas de Lovino, acariciando-as na medida em que prosseguia com sua canção.

Como cada noche desperté pensando en ti

Y en mi reloj todas las horas vi pasar

Por que te vas

Lovino não entendia nada daquela canção, porque provavelmente Antonio a estava cantando em alguma maldita língua estrangeira. Não lembrava se era a mesma música que ele cantara da outra vez, mas seu tom calmo e harmonioso lhe trazia uma paz gostosa para dentro do peito.

Todas las promesas de mi amor se irán contigo

Me olvidaras, me olvidarás

Junto a la estacion hoy lloraré igual que un niño

Por que te vas

Por que te vas

Não sabia ao certo se a letra era algo feliz ou triste, mas o tom em que a canção era cantada era saudosista, quase nostálgico. Isto conduziu suas reflexões à sua situação com Antonio, porque era tudo em que Lovino conseguia pensar nas últimas vinte e quatro horas. E era tudo o que Lovino teria para pensar nas próximas vinte e quatro horas.

Bajo la penumbra de un farol

Se dormirán todas las cosas que quedaron por decir

Se dormirán

Lovino permitiu se entregar ao sono e se render a seus olhos ardidos e cansados, no conforto do colo de Antonio. Dormiu com um fantasma de um sorriso nos lábios, o que foi retribuído pelo espanhol que, desde que começara a cantar, não tirara os olhos de Lovino, como se pretendesse repassar alguma mensagem. Quando percebeu que o italiano caíra no sono, não pode evitar pensar que teria de carregá-lo até seu quarto, isto sem acordar Feliciano.

Junto a las manillas de un reloj, esperarán

Todas las horas que quedaron por vivir

Esperarán

Lovino acordou por volta das dez da manhã, por causa do imenso calor e se sentindo derrotado pelo cansaço. Percebeu que estava em sua cama e demorou algum tempo para deduzir que Antonio o havia levado até lá.

Desceu já para o almoço, sendo cumprimentado pelo irmão e seu hóspede idiota, que conversavam tranquilamente na cozinha. O italiano prontamente ignorou a pontada de ciúmes que sentiu ao ver o irmão falar de modo tão íntimo com o seu hóspede. Mas esse era Lovino, sendo o idiota habitual.

Percebeu que Antonio tinha sobre a mesa uma xícara de café pela metade, o que indicava que não fazia muito tempo que tinha acordado.

Buongiornno.” Cumprimentou, bocejando.

“Boa tarde, você quer dizer?” Brincou Feliciano. “Achei que você tivesse morrido naquela cama. Nem se mexeu quando fui acordá-lo.”

Lovino grunhiu em resposta.

“E cadê o nonno?”

“Foi trocar de roupa. Ele e o irmão Toni vão sair.”

Antonio e Lovino se entreolharam, primeiramente para auferirem se, de fato, ambos escutaram Feliciano se dirigir a Antonio como “irmão” e, em segundo lugar, pelo anúncio dado.

“Você vai sair com o vovô?” Havia algo por trás do tom de Lovino que seu irmão mais novo não conseguiu captar exatamente. “Vocês vão fazer o quê?”

Antonio deu de ombros.

“Ele disse que tinha uns assuntos a resolver na cidade e que gostaria da minha companhia. Não tive como negar." A última frase soou quase como um pedido de desculpas e Feliciano percebeu, apreensivo quanto à reação de Lovino, que era sempre bastante imprevisível. Aparentemente, parecia que haviam combinado alguma coisa entre si e que Antonio não poderia cumprir em razão do compromisso relativamente forçado com seu anfitrião.

O italiano fingiu desinteresse, aconselhando Antonio a se divertir, muito embora seu tom fosse seco e ressentido.

Feliciano, com a pouca prudência de irmão mais jovem que havia adquirido com o passar dos anos, esperou que Antonio e Rômulo saíssem para qualquer que fosse seu compromisso, antes de abordar o irmão mais velho para uma conversa fraternal.

Lovino estava no balcão da frente, assistindo de forma entediada a um programa qualquer na pequena televisão que tinham por trás da bancada. Feliciano foi até o irmão e se apoiou na superfície, com um sorriso terno no rosto, recebendo um olhar desconfiado por parte do outro.

“O quê?” Perguntou na defensiva.

“Você não vai sentir falta dele quando ele se for?”

“Não.” Mas é claro que não, ao menos não enquanto durasse seu dissabor.

“Mentiroso.”

“Prove.”

Feliciano se virou de costas para o irmão, apoiando os cotovelos no balcão e suprimindo um sorrisinho divertido. Sabia, no fundo do coração, que por mais que fosse por apenas sete dias, meros e efêmeros sete dias, Lovino estava genuinamente feliz ao lado de seu inusitado hóspede. Lá no fundo e talvez até mais do que seu irmão, Feliciano tinha a esperança que talvez, e só talvez, Antonio pudesse mudar de ideia e ficar de uma vez por todas. Mas era um sonho estúpido e um tanto surreal, até Feliciano sabia disso.

“O que vocês tinham combinado de fazer hoje?”

“Nada que te interesse.”

“Vocês sempre podem fazer quando ele voltar.” Insinuou, recebendo um olhar inquisitivo do irmão em resposta. “Você sabe...”. Acrescentou, virando-se para o mais velho e lhe direcionando um sorriso enviesado. “Já faz anos que você perdeu a prática, Lovi.”

O mais velho demorou alguns segundos para entender sobre o que se referia seu irmão, e corou violentamente ao finalmente desvendar o mistério por trás daquelas insinuações.

“B-Besta!” Levantou-se bruscamente. “Pare de fazer insinuações idiotas!”

Feliciano deu um risinho bastante irritante, na opinião de seu irmão. E depois respirou fundo, com a expressão mais relaxada do mundo.

“Sinto falta de alguém pra me abraçar. Você sabe, do jeito que você deseja abraçar Antonio.” Lovino até abriu a boca para replicar, mas seu irmão prosseguiu antes mesmo que pudesse verbalizar algo. “É uma bênção gostar de alguém e ser retribuído na mesma proporção. Eu não sei o quanto você gosta dele, mas tenho certeza que ele gosta muito de você. E se sentir amado, isso não tem preço.”

O mais velho fez bico e arqueou uma sobrancelha.

“Você bateu a cabeça por acaso?” Perguntou apenas para disfarçar o rubor e coçou a nuca. “Não me diga que você vem com essas porras filosóficas logo agora.”

Feliciano sorriu-lhe ternamente.

“Estou genuinamente feliz por você, irmão.”

Lovino sabia muito bem a que o mais novo se referia. Estava feliz por vê-lo superar sua dificuldade de se relacionar com as pessoas, encontrando alguém que pudesse aturar-lhe tão como ele era, com a sua personalidade complicada e tudo mais. Estava feliz por seu irmão mais velho haver superado o trauma de um romance pré-adolescente profundo e mal sucedido, um romance que, a despeito de sua sinceridade e reciprocidade, simplesmente não era para dar certo, independente de um dos lados se achar vítima ou não. Em resposta, e apesar de toda a raiva que sentia por Antonio havê-lo trocado por qualquer que fosse sua atividade com o avô, o italiano desviou o olhar e não conseguiu conter um pequeno sorriso de agradecimento.

Naquela tarde, começou a garoar.

Era uma chuva fina e atípica do verão italiano, tão rara que até os nativos se esqueciam de sua possibilidade.

Por causa dela, o calor acumulado no solo simplesmente subiu e, em razão disso, a sensação térmica local ficou ainda mais insuportável, ao menos na primeira hora.

Ainda chovia quando Antonio e o avô dos rapazes retornaram. O sol, que aparecia entre as nuvens de precipitação, já dava sinais de despedida. Feliciano estava na cozinha, preparando o jantar, enquanto seu irmão tirava um cochilo pacato na varanda, ao som das gotinhas contra o chão.

O mais velho foi imediatamente acordado pelo barulho de seu nada discreto avô e, sonolento, cumprimentou os recém-chegados, com visível desprezo à figura de Antonio.

O jantar seguiu este mesmo padrão. Enquanto seu avô e irmão conversavam animadamente com o hóspede, Lovino passou a maior parte do tempo calado em seu canto, com uma expressão emburrada e grunhidos, alternados com respostas monossílabas, dados de má vontade. E quando Antonio se dirigia para ele, recebia uma resposta torta em retorno. O problema era que, desde pequeno, Lovino sempre careceu do talento de esconder seus sentimentos.

Rômulo reuniu os netos e Antonio na sala, para formalizar uma despedida conjunta. A despeito de ser ele quem acompanharia o espanhol na viagem, aconselhou-o quanto as últimas providências, tal como faria um parente zeloso. Uma de suas sugestões foi justamente ir para a cama cedo, para estar descansado para a viagem longa do dia seguinte. Feliciano chorou um pouco quando deu um caloroso abraço em Antonio, desejando-lhe tudo de bom e que fizesse uma viagem segura e tranquila.

“Lovi vai estar esperando a sua volta. Não me desaponte.” Cochichou em seu ouvido.

“Tenha uma boa viagem.” Foi o que Lovino desejou, de modo seco e rude, tendo sido sua atitude muito criticada por Rômulo.

Os irmãos Vargas se despediram mais uma vez e subiram a escada, enquanto Antonio e Rômulo ficaram mais algum tempo na sala, fazendo os últimos ajustes da viagem. Mas não demorou muito para que também subissem para seus aposentos. Rômulo se despediu com um desejo de boa noite, mas Antonio tinha intenções que não incluíam necessariamente dormir. Prudentemente, contudo, ele aguardou uns quinze minutos até o silêncio e quietude imperarem na casa.

Ainda era cedo, não passava das nove da noite. A chuva lá fora já não era mais mero chuvisco. Estava mais forte.

O espanhol não tinha qualquer intenção de engolir uma despedida seca de Lovino, principalmente tendo a consciência de que o italiano tinha razões para estar chateado. O próprio Antonio estava chateado consigo mesmo, por não haver cumprido com a promessa que fizera. Além disso, havia uma urgência crescendo em seu peito, uma urgência que, até então, havia sido bem sucedido em controlar.

No corredor, o feixe de luz advindo da fresta entre a porta do banheiro e o chão indicava que ou Lovino, ou Feliciano poderiam estar sozinhos no quarto. Antonio, particularmente, preferia que fosse Lovino. Munido com essa esperança, e se valendo do pouco que conhecia da rotina da casa, como, por exemplo, o conhecimento de que Lovino tomava banho de manhã e Feliciano à noite, caminhou até a porta do quarto dos irmãos e deu duas leves batidas.

“O quê?” Ele ouviu uma voz abafada vir de dentro e decidiu que era seguro entrar.

“O que você quer, bastardo?” Perguntou Lovino, que estava deitado em sua cama com um livro em mãos.

O italiano observou, com desconfiança, o espanhol se aproximar e se ajoelhar ao lado de sua cama.

“Que incomum. Essa chuva.” Comentou. Recebeu um grunhido em retorno.

“Vai embora.”

“Me perdoe.” Disse, ignorando a atitude grosseira de seu anfitrião. “Eu não pretendia deixar você na mão.”

O italiano rolou os olhos e deixou o livro sobre o criado-mudo.

“Vai dormir.”

“Não posso.” Negou com a cabeça. Aproveitou o fato de que as mãos do outro repousavam sobre sua barriga e tomou-as em suas próprias mãos, prenunciando uma súplica que há algum tempo havia deixado obscura em seus mais perversos pensamentos.

“Você se lembra do que você me pediu ontem?”

Lovino rolou os olhos.

“Algo que, obviamente, você não cumpriu.”

“E do que eu respondi?”

“Como assim?”

“Você se lembra do que eu respondi?”

O italiano corou levemente e virou o rosto.

“Não.”

“Você lembra sim.”

Fez-se, então, um silêncio esquisito, quase que desconfortável.

“Durma comigo, Lovi.”

Havia indecência em todas as palavras de Antonio e nenhum sentido que não fosse duplo. Lovino sabia muito bem que “dormir” não significava exatamente “dormir”. Não era idiota e as intenções do espanhol ficaram óbvias em seus olhos suplicantes.

“Você é louco? Nem sonhe com uma coisa dessas!”

Foi quando Antonio pôs a mão de Lovino em seu peito. Em um primeiro momento, o italiano se assustou e tentou se afastar, mas a insistência do espanhol o fez perceber algo extraordinário: o coração de Antonio martelava contra seu peito, talvez mais forte do que o de Lovino. Podia sentir o nervosismo, a ansiedade e o desejo de Antonio, tudo apenas em um contato, um simples contato.

Foi completamente desarmado. E também, era alguém que mudava de opinião bem rapidamente. Ademais, em sua defesa, não raciocinava bem o suficiente para oferecer sua tradicional resistência. E dessa falha, Antonio se aproveitou, inclinando-se sobre a cama até que seus lábios tocassem os de seu precioso italiano. Beijaram-se tal como já haviam se acostumado: com uma pitada de excitação e um mínimo quase inexistente de pudor. Havia um toque de lascívia em cada gesto e cada contato, a ponto de ficarem ofegantes e excitados em uma velocidade recorde para ambos.

O italiano já podia sentir contra a sua coxa uma protuberância que indicada o nível de excitação de Antonio, que desesperadamente, buscava roçá-la contra o tecido da calça do mais jovem.

Arquejante, Lovino empurrou o homem sobre si para tomar um pouco de ar e permitir que seu lado racional opinasse.

“Não... Podemos...” Disse de maneira entrecortada, encontrando dificuldades para se recompor do amasso. Mal conseguia expressar o que pretendia dizer. “Feli.”

Os lábios de Antonio, a centímetros dos seus, tremiam levemente. Seu hálito quente e cheirando a hortelã roçou contra a pele do italiano.

“E-Eu não acho que eu consigo voltar atrás agora. Eu sinto um calor por todo o meu corpo e a culpa disso é toda sua.” Acusou, enquanto suas hábeis mãos massageavam os quadris de seu jovem amante, com alguma força que os impedia de se movimentar e aumentava a urgência de sua crescente excitação.

“Você está... Ahh... De sacanagem comigo?” Seu corpo reagiu ao contato instintivamente e seus braços buscaram suporte nas costas de Antonio, contrariando toda a precaução que sua consciência tentara lhe imputar. “Maldição... Feli pode entrar a qualquer momento”.

Antonio, que havia se apossado do colo de seu amante, tomou um tempo para dizer, de um modo quase jocoso:

“Não se preocupe. Tenho certeza que ele não vai ficar chateado conosco”.

Lovino bufou, tentando se desvencilhar dos braços de seu amante.

“Me solta, eu só vou trancar a maldita porta. Vai ser muito escroto se ele entrar e nós... Hum...” Respondeu. Suas bochechas previamente coradas lhe davam um ar gracioso.

Antonio sorriu enviesado e se levantou, puxando o amante consigo. Envolvendo-o em seus braços, depositou em seus lábios uma sucessão de beijos lascivos. Ao mesmo tempo, guiou-o cegamente até a porta, prensando-o contra a madeira com o seu próprio corpo.

“Aqui estamos. Pode trancar.” Disse contra os lábios de Lovino, que grunhiu em resposta, mas, mesmo assim, fez o sugerido.

Antonio então engrenou em mais um de seus numerosos e despudorados beijos, adicionando sua incrível e aparentemente recém-descoberta habilidade de excitar Lovino com apenas o toque de suas mãos. Com essas mesmas mãos, tratou de desabotoar a camisa do jovem italiano, de um modo um tanto desajeitado e apressado.

O italiano não ficou atrás. Sentindo a mútua necessidade de um contato pele a pele, despiu seu amante de sua camisa e atirou-a para qualquer canto do quarto.

Suas mãos percorreram os músculos do espanhol, contemplando suas formas bem esculpidas como se buscasse memorizar cada linha daquele corpo. O corpo de Antonio parecia ter sido esculpido pelo próprio Michelangelo, pois, na humilde opinião do italiano, possuía uma perfeição de detalhes e simetria de dar inveja a qualquer escultor renascentista.

“Está gostando do que vê?” Zombou, diante do olhar admirado de seu parceiro.

“Tch. Cala a boca, bastardo convencido.” Retorquiu, fazendo bico.

“Obrigado. Eu também estou admirando bastante a vista daqui.”

O espanhol tomou o queixo de Lovino com uma das mãos, forçando-o a encará-lo.

“E se você me permite, agora farei bom uso do que é meu por direito.” Ronronou, selando os lábios mais uma vez naquela noite. Só que dessa vez, uniu seus corpos sem que deixasse nenhum espaço entre eles. Sua pele contra a pele de Lovino era um contato eletrizante, excitante e provocante. Era tudo o que precisava.

O corpo do italiano era relativamente mais magro e menos moldado que o de Antonio, mas nem por isto menos belo. Sua pele alva, de um branco sóbrio e não pálido, atribuía um ar de pureza à figura do italiano. Um ar de pureza que Antonio sentia-se impelido a macular da maneira menos ortodoxa possível.

Enquanto se beijavam, deram um jeito de se livrar de suas incômodas calças e roçaram seus corpos um contra o outro de uma maneira desesperada, irracional e inundada por um desejo carnal extremado.

Lovino mal tinha condições de se sustentar de pé e tampouco a porta estava fazendo o favor de ampará-lo. Era tentação demais e surreal demais ter o perfeito corpo de Antonio, seus lábios experientes e habilidosos, todo o seu carinho e atenção somente para si.

“Lovi...” Murmurou Antonio, quase sem voz. “Você tem... lubrificante?”

“Tch. Por que eu teria, bastardo?” Grunhiu, desvencilhando-se, a muito contragosto, de seu parceiro. Caminhou de uma maneira um tanto desorientada até o guarda-roupa e abriu a última gaveta antes do chão, parecendo estar à procura de algo. Quando encontrou, atirou na direção de Antonio sem muita cerimônia. “Espero que ainda preste.”

O aludido arqueou a sobrancelha, não conseguindo conter o ímpeto de fazer um comentário acerca do costume de seu parceiro de guardar esse tipo de objeto em sua gaveta.

“Parece novo. Não quero presumir que você já tenha experiência nisso, eu ficaria muito chateado em saber que alguém mais tocou no seu maravilhoso corpo, Lovi.”

“Você é idiota ou o quê? Eu já não te falei sobre Gilbert? Você realmente acha que eu passei todos esses anos da minha vida sem fazer sex-“.

Antes que Lovino pudesse completar a sentença, ele se viu atirado violentamente contra a cama. Sua imediata reação seria ofender e direcionar a Antonio todos os palavrões mais efetivos que conhecia, mas nem para isso teve tempo. Seus lábios foram imediatamente capturados pelos de Antonio, que os consumiram com luxúria, paixão e um quê de possessividade. Em um primeiro momento, o italiano tentou acompanhá-lo, mas simplesmente isto lhe foi impossível. Seus pulsos estavam firmemente presos contra o colchão e sentia que estava sendo inteiramente consumido pela loucura de seu parceiro.

“Mmmmph. Qual é o seu problema?” Perguntou, quando finalmente conseguiu se livrar do ataque do outro. Quando olhou nos olhos de Antonio, viu que os mesmos pareciam duas vezes mais obscurecidos e neles havia um sentimento que o italiano teve dificuldades em identificar, a princípio. Logo percebeu: Antonio estava com ciúmes.

“Você não precisava ter mencionado ele aqui e agora.”

“Você é idiota? Isso foi há quase seis anos! Eu nem te conhecia, bastardo.”

Antonio ainda parecia visivelmente magoado.

“Olha, seu grande imbecil, eu só fiz uma vez, ok. Você está sendo idiota! Não acho que você queira começar uma discussão sobre isso, mesmo porque eu imagino que essa também não seja a sua primeira vez.” Explicou, percebendo que a expressão de Antonio se suavizou após sua constatação. “E-E esse maldito vidro é do meu irmão.” Respondeu, desconcertado. “Não que ele use, claro. Ao menos eu acho. É que ele gosta de ter ‘pra prevenir’, sabe? Esse aqui é novo, eu acho.” Ele avaliou o rótulo do produto. “Todo ano o maldito compra um novo.”

O espanhol deu um risinho.

“Isso é um pouco esquisito e difícil de acreditar.”

“Mas é a verdade!” Retorquiu o italiano, indignado. “Você acha o quê? Que eu e meu irmão transamos com qualquer cliente que aparece?”

Antonio negou com a cabeça.

“Então pare de fazer assunções idiotas e de acabar com o clima de uma vez por todas. Droga, eu já estou até mudando de ideia quanto a dormir com você.”

Novamente, o italiano se viu derrubado contra o colchão em que habitualmente dormia e seus pulsos foram dominados pelas mãos de seu parceiro. Lovino pode sentir o vidro frio do frasco que tinha acabado de lhe entregar contra a sua pele.

“Nem brinque com uma coisa dessas.” Ronronou o espanhol, mordiscando o lóbulo de sua orelha. “Não depois de você ter me provocado assim.”

“O-o quê? O que eu fiz, seu bastardo maluco?”

Antonio lhe dirigiu um sorriso enviesado.

“Pensando bem, dormir com um virgem seria legal, mas seria problemático. Isso restringe muito a minha liberdade na cama, sabe. E demanda cuidados demais. No entanto, dormir com alguém com um mínimo de experiência é provocante. Nunca se sabe o que você tem para ensinar.”

Lovino corou violentamente e tentou esconder o rosto. Como seus braços e mãos estavam praticamente imobilizados, o máximo que conseguiu foi virar o rosto.

“ARGH! Seu estúpido! Pare de dizer coisas constrangedoras!”

O espanhol riu e beijou o amante mais uma vez, com muito gosto. Lovino correspondeu melhor do que ele esperava e, quando sentiu sua excitação voltar aos níveis de antes, tentou, sem muito sucesso, roçar seu corpo contra o do sujeito sobre si.

“Ávido, não?” Provocou Antonio. Ele sentou-se no colchão e trouxe Lovino consigo, sentando-o em seu colo e podendo admirar seu rosto excitado e, ao mesmo tempo, constrangido, de um ângulo que muito mais lhe agradava.

Ademais, naquela posição, suas excitações praticamente encostavam uma na outra.

Ahh.” Lovino suspirou ao sentir as mãos geladas de seu parceiro fazerem algum milagre na pele quente de seu membro.

“Você gosta?”

O italiano assentiu, apoiando a própria testa no ombro de seu amante.

“M-me dê esse maldito frasco, idiota.” Ordenou, entre suspiros descompassados.

Antonio obedeceu e com sua mão livre pegou o negligenciado objeto de cima da cama, entregando-o para o italiano. Em momento algum, contudo, ele se esqueceu de dar a atenção que as partes baixas de seu amante mereciam.

Lovino, por sua vez, abriu o potinho. Com alguma dificuldade entre controlar as suas reações enquanto Antonio lhe dava a melhor masturbação de sua vida e gerenciar seus movimentos, despejou uma quantia modesta do líquido em suas mãos, lambuzando-as sem rodeios. Imediatamente, as levou ao membro de seu parceiro e ali espalhou o líquido, no mesmo tipo movimento uniforme e frenético que recebia.

Antonio inclinou-se um pouco para frente e capturou os lábios de seu amante em um beijo completamente lascivo, excitante e despido de quaisquer romantismos. Lovino gemeu em retorno, entregando-se por completo às demandas do parceiro.

As mãos de Antonio, hábil e sutilmente buscaram o quadril do italiano e lentamente acariciaram suas nádegas alvas e macias, deixando um rastro de lubrificante por onde passavam.

O espanhol, com o zelo de um amante atento e cuidadoso, massageou o orifício de Lovino, como se pedisse permissão para invadir aquele espaço tão privado. Seu primeiro dedo invadiu, tal como um intruso, o corpo de Lovino pela primeira vez e uma barreira entre eles pareceu ter sido derrubada.

O italiano sibilou mais de incômodo do que de dor. Outra pessoa fazendo aquilo era algo bastante diferente de fazer ele próprio, como estava acostumado.

Antonio percebeu que o amante não fez objeções e imediatamente entrou com o segundo dedo. O italiano buscou se distrair e voltou à atividade que havia cessado sem nem perceber. Usou um pouco mais de lubrificante no membro de Antonio, massageando-o lentamente e arrancando suspiros do amante.

Perderam algum tempo nos preparativos, postergando o grande ato como dois masoquistas. Quando o espanhol se convenceu de que o corpo de Lovino já estava pronto para lhe receber, cessou com as preliminares.

Guiou o italiano até seu colo e posicionou-o na direção de seu membro. Em uma sucessão natural dos fatos, o corpo de Lovino foi ao encontro de sua excitação, deixando-se penetrar lentamente e de maneira torturante pela carne quente e pulsante, enquanto escondia o rosto no ombro de Antonio.

Sua descompassada respiração demonstrava o desconforto imediato e inevitável de seu corpo com um intruso ao qual não estava habituado. Com muito zelo e paciência, enquanto ronronava em seu ouvido palavras bonitas e alentadoras em um italiano carregado de um agradável sotaque estrangeiro, Antonio aguardou até que os músculos de Lovino relaxassem e cedessem à tensão.

Foi o italiano que tomou a iniciativa de se movimentar. A princípio, o ritmo dos amantes era esquisito e desajeitado, como os passos de um casal de desconhecidos que arriscava a primeira dança.

Mas não tardou para que encontrassem o passo perfeito que, de tão adequado, se tornou frenético.

Em um determinado momento eles estavam tão concentrados em sua dança, que apenas os gemidos e ofegos descompassados e o som das peles se chocando preenchiam o recinto. Mas sequer esses sons eram ouvidos pelos atores principais do ato, cujo envolvimento com seus papeis era tão profundo e dedicado que somente possuíam tempo e disposição para se perderem em si mesmos.

E por essa razão, sobressaltaram-se ao ouvirem um estalo estranho àquela movimentação.

Alguém tentou abrir a porta uma, duas vezes, sem sucesso.

Fratello?” Ouviram a voz baixa de Feliciano vir do lado de fora.

Lovino e Antonio se entreolharam. O italiano não sabia se deixava o medo do flagrante congelar seu corpo ou se seguia seus instintos, os quais imploravam para que ele continuasse a se movimentar sobre seu glorioso e perfeito amante que talvez nunca mais fosse ver na vida.

Ele escolheu a última opção.

“Agora não, Feli.” Respondeu meio ofegante, enquanto se empalava no membro de Antonio, para a surpresa de seu parceiro. “Estou ocupado.”

“Mas fratello, eu estou com sono...” A voz do irmão era chorosa.

“Ah, merda, então vai dormir em algum dos quartos de hóspedes. Não dá pra abrir agora.”

Antonio pode jurar que ouviu um suspiro de derrota vir do outro lado da porta. Lovino não esperou que os passos de seu irmão desaparecessem do corredor, que no silêncio da madrugada reverberava todo e qualquer som.

O único hóspede do estabelecimento precisou conter uma risada diante da facilidade com a qual o amante os entregou.

“O que você está fazendo?” Sussurrou muito baixinho. “Acabou de nos entregar para o seu irmão.”

“Ele vai superar essa.” Lovino deu de ombros, não demonstrando nenhum incômodo com isso.

Antonio lhe dedicou um sorriso caloroso e apaixonado, envolvendo-o em um abraço profundo que transmitia toda a segurança que parecia sentir em seu peito. Afastou a franja do amante de sua testa para poder ter uma visão mais adequada daquela esplêndida peça esculpida por Deus que era o rosto de seu precioso italiano.

Era uma pena que tivesse de partir, uma lástima de verdade.

Com esse pensamento negativo em mente, fez amor com Lovino até que ambos atingissem o ápice. E depois disso, fizeram mais uma vez, despreocupados e descuidados, mergulhando madrugada adentro em seu íntimo desejo de se tornarem um só. Lovino se entregou a Antonio de corpo e alma naquela noite.

O sono só foi abater o jovem italiano quando a luz do Sol começou a afastar o breu da noite e a invadir o aposento. Estava confortavelmente acomodado no peito de seu amante, letárgico e resignado, com os olhos já cerrados. Uma pequena pontada de satisfação e felicidade acalmava seu ser.

Antonio, ainda enérgico mesmo após as atividades da noite, contemplava o semblante relaxado de seu amante com uma afeição sem tamanho, que passou completamente despercebida pelo mesmo.

“Como isso pode acontecer?” Questionou-se, com um sorriso teimoso no rosto, enquanto admirava a beleza natural de Lovino. Seu tom de voz indicava que queria rir, mas não podia. “Eu nunca imaginei que alguém como eu pudesse se apaixonar de verdade.”

“Tch. Pare de se achar essa coca-cola toda, seu bastardo pretensioso.” Murmurou o italiano, sequer tendo entendido as palavras de Antonio. O aludido sorriu e deu um beijo cálido na testa de seu amante.

“Bons sonhos, mi amor.”

Seu tom era de despedida. Lamentavelmente, o amante já havia mergulhado no mundo dos sonhos.

Notas finais
Continua...

(Obs: a música usada no capítulo se chama "Por que te vas" do grupo Globus).