Notas iniciais
Pessoas, trago mais uma atualização para vocês. A partir de agora, o ritmo da vidinha do nosso protagonista vai se transformar. Espero que agrade a quem lê. Daqui em diante temos previstos mais dois capítulos antes do fim.

Para todos os efeitos, quaisquer erros são de minha responsabilidade.

Boa leitura.

Lovino acordou sozinho e de mau humor. A razão de seu despertar não era porque já se sentia completamente descansado, mas por causa do calor insuportável, que o havia puxado de volta para a realidade sem nenhuma piedade e a ponto de o suor marcar o colchão e o travesseiro com a forma de seu corpo. Além disso, seus olhos ardiam, graças à noite mal dormida.

O quarto estava completamente iluminado e a luz do Sol aquecia as finas cortinas que falhavam em contê-la.

Ao se levantar, a dor em seu baixo ventre o impediu de fazer quaisquer movimentos bruscos. Sentiu um imediato desconforto, acompanhado de nojo de si próprio, quando tomou consciência da sensação do esperma envelhecido em suas nádegas, coxas e ventre. A cama mesmo não estava um primor de organização, o que o fez refletir sobre a própria capacidade de dormir naquela imundice pós-sexo.

Enrolou o lençol na cintura quando se levantou e caminhou até o guarda-roupa, desesperadamente à procura de um conjunto de roupas limpas para vestir. No percurso, chutou para o canto um bolo de roupas incômodo que o fez tropeçar e quase cair. Foi ágil e rápido na escolha de um traje leve para marcar mais um dia quente de verão por causa de sua necessidade urgente de limpeza.

O alívio quando a água gelada percorreu seu corpo foi imediato e uma parcela do seu mau humor foi lavada para fora de seu corpo, permitindo-lhe que pudesse recordar com precisão de detalhes os acontecimentos da noite anterior.

As mãos de Antonio percorrendo seu corpo e acariciando sua pele pareciam fantasmas de um passado muito distante, mas, paralelamente, vivamente recente, marcado em sua memória a ferro e brasa. Ainda parecia mentira que tudo aquilo tinha finalmente acontecido. Ele próprio, que vivera tudo com as mais intensas sensações e emoções, ainda não conseguia acreditar.

Corou vivamente quando percebeu que as lembranças daquela madrugada de prazeres começavam a lhe afetar mais uma vez. Suas mãos conscientemente viajaram até seu baixo-ventre e ele não se preocupou nem um pouco em apressar o banho.

Quando finalmente desceu, com a toalha nos ombros e bastante confortável em suas roupas limpas, sentia-se ligeiramente renovado e com fome. Seus olhos percorreram a sala, à procura de alguém. Havia Feliciano, que estava cochilando confortavelmente no sofá, mas não era quem queria ver. Caminhou até a cozinha, mas ela estava tão quieta quanto os demais cômodos da casa. Apenas o barulho do relógio rompia o silêncio sepulcral na pequena pousada da família Vargas.

A vida, enfim, havia voltado ao normal.

“Então ele realmente foi embora.” Constatou, sentindo a voz rouca arranhar sua garganta.

Quando seu estômago roncou, decidiu engolir a própria frustração e fazer uma refeição.

Ao retornar a cozinha, reparou que havia uma panela sobre o fogão. Ao vasculhá-la, viu que se tratava de comida feita recentemente, embora já não mais fresca. Provavelmente Feliciano havia cozinhado para o almoço de ambos e, uma vez cansado de esperar o irmão acordar, comera a sua parte sozinho.

Lovino esquentou o macarrão frio e buscou um pouco de molho de tomate na geladeira. Fez tudo sem pressa e sem nenhum pensamento relevante na cabeça.

“Já acordado, fratello?” Feliciano, coçando os olhos, havia acabado de entrar na cozinha. “Quer ajuda?”

“Tch. Eu estou bem. Você pode voltar e dormir.”

O mais jovem se espreguiçou lentamente, feliz ao sentir seus músculos se alongarem.

“Tudo bem. Acho que estava cochilando desde as onze da manhã, me sinto revigorado!”

O irmão mais velho olhou de esgueira para o relógio, que acusava ser o horário de duas e trinta da tarde. Imediatamente pensou que poderia ter dormido um pouco mais e amaldiçoou o clima por tê-lo acordado.

Súbita e previsivelmente, Feliciano começou a contar sobre o que tinha feito durante a manhã. Não que seu irmão quisesse de fato saber a respeito, mas uma vez que tivesse aberto a boca, dificilmente o mais jovem calaria. Por isso, Lovino decidiu que o melhor seria deixá-lo falar, e começou a arrumar a mesa para o seu próprio almoço.

Feliciano não se incomodou com a pouca atenção que recebia do irmão, tampouco deve ter percebido seu desinteresse. Estava mais preocupado em explicar pra ele que havia descoberto uma praga nos tomates, mas que o fizeram bem a tempo de causar maiores danos. Seu irmão, por outro lado, parecia mais concentrado em seu próprio macarrão.

“Ah, e eu tenho um recado do irmão Toni.” Sorriu, ao perceber que ganhara a completa atenção do irmão com a menção do nome de seu ex-hóspede. “Ele disse que era pra você se cuidar e pediu para eu dizer que ele deixou a chave no lugar que vocês se falaram pela primeira vez.”

O mais velho encarou o irmão com um olhar confuso.

“Que chave? A do quarto dele?”

“Não sei. Achei estranho porque quem fez o check out dele fui eu. Você não deu a chave do nosso quarto pra ele?”

Lovino queria lembrar, mas não tinha certeza.

“Por que eu daria a chave do nosso quarto para aquele idiota?” Respondeu, na defensiva. Comeu uma garfada do almoço e ainda acrescentou, com a boca cheia: “Honestamente, Feli, você tem umas ideias tão absurdas.”

“Você já deu o seu corpo pra ele, que diferença faria dar a chave do quarto?” Perguntou maliciosamente, aproveitando-se da indignação do irmão para roubar uma garfada de seu almoço. “Hm. Delicioso.”

Lovino estava mortificado, por assim dizer. Corado do pescoço às orelhas, balbuciou incoerências até recuperar a compostura e chamar o irmão de idiota, enquanto desviava o olhar.

Feliciano, no entanto, sustentou o sorriso sugestivo, apoiando a cabeça nas mãos e implorando silenciosamente por informações. Embora mais jovem, sempre tivera maior inclinação a falar sobre as intimidades suas ou do irmão com uma naturalidade incompreensível para Lovino. Irritado, o mais velho se levantou bruscamente e ameaçou atirar a própria refeição contra o irmão que, risonho, levantou-se também e correu para fora do aposento. Obviamente, não sem antes levar um golpe de um bolo de macarrão que Lovino pegou de seu prato e atirou contra o irmão.

“Isso, seu covarde! Corre pra longe!” Gritou, recebendo gargalhadas em resposta.

E com toda a preguiça que tinha de ir correr atrás do irmão, decidiu comer o resto de sua refeição emburrado em seu canto.

A verdade era que, sem o avô e, principalmente, sem Antonio por perto, a vida na pousada da família Vargas voltara ao ritmo lento e monótono que sempre tivera. Uma semana inteira se passou sem que os irmãos encontrassem absolutamente nada de útil para fazer e Lovino era quem mais sofria com o ostracismo forçado de sua vidinha diária. Enquanto o irmão buscava distrações saindo para nadar ou para dar uma volta na cidade, o mais velho da casa mal sentia vontade de levantar da cama.

Na primeira noite, Lovino chorou, sentindo uma mescla de abandono e aborrecimento. Tentou abafar os próprios soluços com o travesseiro, para não acordar o irmão.

Nos dias subsequentes, costumava gastar horas deitado, sem qualquer vontade de fazer nada e remoendo o próprio tédio. Às vezes, deitava-se sobre a oliveira que compartilhara com Antonio, em seus primeiros dias de hospedagem. Outras, no sofá da sala, porque tinha de cumprir o eterno revezamento de turno na recepção do hotel – embora ninguém aparecesse. E, finalmente, na maior parte das vezes, sequer se levantava da cama ao acordar. Só o fazia para comer e, mesmo assim, a muito contragosto.

Paulatinamente, os sete dias de realidade transformaram o tédio de Lovino em tristeza.

Sentia falta de Antonio, tanta falta que seu peito doía a cada memória que tinha de ambos. Em sua cabeça, tentava desesperadamente guardar cada resquício dos momentos felizes daquela última semana, como se eles fossem ser úteis à sua própria salvação e capazes de salvá-lo do mar de trevas no qual mergulhava.

Na medida em que a sensação de abandono tomava conta de sua cabeça, tornava-se cada vez mais e mais amargo. Simplesmente evitava falar com o irmão ou, quando falava, fazia questão de dar respostas monossílabas, para evitar se desgastar com uma conversa despropositada.

Obviamente, a transformação no comportamento do irmão não passou despercebida por Feliciano. E ele sabia a razão, e sabia desde o princípio.

Fratello?” Perguntou ao entrar no quarto sem nem tentar bater a porta.

O ambiente estava realmente abafado. Logicamente, porque eram quatro horas da tarde e todas as possibilidades de circulação de ar estavam fechadas.

Dio, Lovi, por que você está fazendo isso consigo mesmo?” Reclamou, caminhando até a janela para abri-la e permitir que um pouco de vento circulasse pelo quarto. “Desse jeito você me preocupa!”

O aludido, deitado sobre a cama vestindo apenas a cueca, grunhiu em resposta. Seus braços cobriam seus olhos, mas o irmão mais jovem não pode deixar de reparar a vermelhidão em seu nariz, que escapava daquela proteção.

Feliciano não sabia muito bem o que fazer. Ajoelhou-se ao lado da cama do irmão e acariciou suas madeixas desgrenhadas.

“Eu também tenho me sentido sozinho, sabe.” Desabafou em um tom bastante tranquilo, quase maternal. “Nonno não volta da viagem e você nem mais desce pra almoçar... Também não fala comigo e nem mais finge que me ouve, como costumava fazer.” Suspirou. “Se as coisas continuarem assim, eu acho que vou enlouquecer. E mal se passou uma semana.”

Em resposta, recebeu um soluço abafado que partiu o coração de seu irmão.

“Você realmente se apaixonou por ele, não foi?”

A pergunta foi a gota d’água e o autocontrole de Lovino finalmente desabou.

A dura verdade era que estava com medo, com muito medo. Seus próprios sentimentos lhe assombravam como fantasmas de um passado que talvez jamais viria a ser esquecido. A intensidade dos momentos que vivera naquela última semana parecia reverberar na intensidade dos sentimentos que se construíram em seu peito e mente.

No fundo, já havia aceitado que seu coração não mais lhe pertencia e, por isso, sentia-se fraco e perdido, completamente desorientado. Não queria que a experiência com Gilbert se repetisse. Não queria ter de sentir novamente a dor e a angústia da espera, a expectativa da esperança persistente que tornava sua própria tranquilidade mental impossível. Só de se imaginar outra vez sentado na varanda, aguardando ansiosamente por qualquer sinal de vida no horizonte e sem se importar em ver seu comportamento criticado pelos parentes, sentia um buraco se abrir em seu peito. Por que a história precisava se repetir sempre da maneira mais dolorosa?

Queria Antonio de volta, o maldito bastardo. Queria seu sotaque esquisito, seus hipnotizantes olhos de cor esmeralda, seu bom humor contagiante e sua personalidade protetora para salvá-lo de sua própria miséria. Queria seu corpo, sua alma, seu calor e alento para romper com a monotonia dos seus dias. Queria ouvi-lo cantar mais uma vez aquela música da qual sequer lembrava a letra, mas cujo ritmo estava gravado em seu íntimo.

Feliciano dificilmente o ajudaria a superar a sensação de desamparo em seu peito, por melhor que fossem suas intenções como irmão. Não tinha jeito.

Os soluços do irmão mais velho se tornaram mais constantes até se transformarem no som esganiçado de um choro desesperado. As lágrimas desciam aos montes por suas bochechas, deixando vários caminhos na pele alva, às vezes chegando à sua boca aberta. Parecia uma criança carente de alento.

Se Feliciano estava desorientado antes, agora se sentia verdadeiramente perdido. Fazia muito tempo que havia visto o irmão perder a compostura e a atitude rude daquela forma, tanto tempo que nem se lembrava de como era a sensação de seu coração afundar dentro de seu peito ao vê-lo sofrer assim.

Lovino jamais fora um exemplo em termos de carinho e gentileza, mas sempre estivera ao lado de Feliciano nos momentos mais difíceis de sua vida. Fora seu pilar de amparo quando o passarinho que havia resgatado aos oito anos de idade não resistiu aos seus bons cuidados, em sua primeira decepção amorosa e em seus momentos de birra. E, naquele momento, enquanto presenciava a ruína de seu autocontrole, sentia-se verdadeiramente inútil. Nada do que pudesse fazer ou dizer traria ânimo ao irmão e o fato de estar consciente disto parecia matá-lo por dentro.

Subitamente sentiu a garganta fechar e lágrimas quentes desceram por suas bochechas.

“E-Eu sinto muito, fratello! Desculpe-me! Eu não deveria ter dito nada” Choramingou, abraçando o irmão com toda a força que conseguia reunir. “Não fique assim, Lovi, não fique assim.” Disse, entre lágrimas.

Lovino retribuiu o abraço, porque precisava de um suporte.

“Diga ao bastardo para voltar, agora!” Gritou, com a voz abafada contra a roupa do irmão. “Diga a ele! Ele não pode fazer isso comigo, porque ele me prometeu que não me abandonaria. Aquele mentiroso estúpido, eu espero que ele se engasgue com um maldito tomate!”

Tudo o que Feliciano podia fazer era apertar ainda mais o abraço. Tentava conter as próprias lágrimas. Queria parecer forte para o irmão, ser um verdadeiro apoio em um momento tão difícil. Mas era impossível que não se sensibilizasse com a sua tragédia, porque sabia o que era a dor de um coração partido. Ele próprio havia vivenciado isto, de um modo um pouco diferente. Mas Lovino havia experimentado a mesma dor não uma, mas duas vezes e de uma forma tão intensa que as consequências eram sempre igualmente desastrosas.

Esse era o seu problema. Enquanto o mais novo dos irmãos encarava uma decepção amorosa de um modo relativamente mais maduro, tal como um aprendizado, o mais velho deles a vivenciava de uma forma extrema. E depois, tentava desesperadamente mascarar a própria amargura por trás de uma atitude rude, palavras grosseiras e distanciamento das pessoas. Era a sua forma pessoal de se proteger contra as chateações e aborrecimentos dos relacionamentos interpessoais, embora Feliciano já houvesse concluído que era um método bastante ineficaz.

Lovino era hábil em fingir seus sentimentos e fazer de conta que era forte. Mas nem sempre essa sua habilidade vencia a sensibilidade de seu irmãozinho. Diante de Feliciano, não era raro que perdesse a razão.

O mais jovem deixou que o irmão chorasse até que finalmente todas as suas lágrimas secassem.

Naquela noite, eles jantaram juntos em seu quarto. Feliciano cozinhou uma sopa e preparou uma sobremesa deliciosa para animar o irmão. Evitaram conversar e apenas aproveitaram a presença um do outro em absoluto silêncio. Feliciano não dormiu enquanto não teve certeza de que o irmão o havia feito. Apenas depois de perceber que sua respiração estava regular e tranquila, permitiu a si mesmo relaxar.

Na sexta-feira, receberam uma ligação do avô. Feliciano foi quem atendeu, expressando uma alegria incontrolável ao ouvir que estava tudo bem. Seu irmão ficou ao seu lado, mudo e quieto, enquanto fingia desinteresse.

“Está tudo bem por aqui.” Mentiu. “Sim, estamos nos alimentando bem. Como estão as coisas por aí?”

Rômulo respondeu que provavelmente levaria mais uns dias para voltar. Negócios de família.

Falaram-se por quase uma hora, mas nenhuma palavra foi dita a respeito de Antonio.

Um tipo diferente de angústia se abateu sobre Lovino, após a ligação do avô. O incomodava tanto, que o forçou a romper com o voto de silêncio auto imposto e a recorrer ao irmão para expressar suas preocupações.

“Feli.” Perguntou, durante o almoço. “Você não acha que o vovô... Tenha envolvido Antonio nos assuntos da família, acha?”

Pego de surpresa, o irmão hesitou no primeiro momento.

“Por que ele faria isso?”

Lovino deu de ombros.

“Eu não sei. Me passou pela cabeça essa possibilidade. Ele sequer mencionou Antonio na última ligação.”

O mais jovem pareceu pensativo.

“Hmm. Eu duvido, sinceramente. Você não deveria se preocupar com isso, Lovi. Não vejo razão para o vovô envolver um hóspede inocente nos negócios dele.”

O mais velho assentiu de leve, parecendo um pouco mais aliviado e voltou a comer.

A verdade era que as palavras de Feliciano eram puro blefe. Ele mesmo já havia se questionado a respeito do esquisito interesse do avô naquele espanhol com um sotaque forte e que mal parecia atento ao perigo. Mas o jovem italiano também tinha motivos para estranhar o comportamento de Antonio e aquilo vinha incomodando os seus pensamentos havia algum tempo. Obviamente, ele jamais comentaria isso com Lovino.

Naquele mesmo dia, o mais velho dos irmãos decidiu agraciar o mais jovem com a sua presença, o que denotava uma significativa melhora em seu estado.

Feliciano estava ouvindo o rádio velho que tinham na sala, enquanto Lovino estava estirado no sofá, parecendo aborrecido e desinteressado escutando o irmão cantarolar a maior parte das músicas que tocava. Sentia-se um tantinho irritado com a animação do mais novo, mas estava quente demais para se movimentar dali ou mesmo para tirar um cochilo.

Estava se sentindo um pouco letárgico quando a música que estava tocando terminou e outra tomou o seu lugar.

Hoy en mi ventana brilla el sol

Y el corazón se pone triste

Contemplando la ciudad

Por que te vas

“Ahh, eu não entendo essa letra.” Ele ouviu Feliciano reclamar. “Eles estão tocando músicas estrangeiras nessa rádio agora?”

O mais velho sequer ligou, mas uma sensação de familiaridade o incomodou consideravelmente, principalmente na medida em que a música avançou.

Como cada noche desperté pensando en ti

Y en mi reloj todas las horas vi pasar

Por que te vas

Feliciano saiu de trás do balcão, decidido a mudar de estação, mas seu irmão o interrompeu.

“Deixa aí.” Disse, em um tom um pouco mais alto que o normal. “Essa música não me é estranha.”

Todas las promesas de mi amor se irán contigo

Me olvidaras, me olvidarás

Junto a la estacion hoy lloraré igual que un niño

Por que te vas

Por que te vas

“Está em espanhol.” Disse, com azedume. É claro que conhecia aquela música. Não entendia porque demorou tanto para perceber. Era a canção que Antonio costumava murmurar e a mesma canção que ele cantou para alentá-lo na véspera de sua partida.

Só podia ser uma maldita coincidência.

Não era nem a mesma voz, mas ele já voltava a imaginar a figura de Antonio, acariciando seus cabelos enquanto cantarolava a canção para fazê-lo relaxar. Ele ainda não fazia ideia do que queria dizer a letra, mas tinha a sensação de que era melhor não saber.

Bajo la penumbra de un farol

Se dormirán todas las cosas que quedaron por decir

Se dormirán

Sentiu um aperto conhecido na garganta e mordeu os lábios a fim de evitar que cedesse à frustração. Olhou de esgueira para o irmão e se sentiu um pouco aliviado ao perceber que ele já havia se entregado ao próprio sono.

Junto a las manillas de un reloj, esperarán

Todas las horas que quedaron por vivir

Esperarán

Antes mesmo que a música pudesse chegar ao seu fim, ele se levantou do sofá, sentindo-se consternado. Caminhou um tanto desorientado para fora da casa, movido pela imperiosa necessidade de se afastar daquele ambiente carregado de recordações de Antonio.

Não se incomodou com o sol escaldante, como costumava fazer. Vagou errante pela modesta propriedade da família e até um pouco além, sem nada muito específico na cabeça além da sensação de pena de si mesmo por seu coração partido que insistia em lhe afligir dor.

As imagens daquela última semana continuavam a passar em sua cabeça como o flashback de um daqueles filmes que passava à noite na TV, como o momento em que ensinava italiano ao recém-chegado estrangeiro. Ou então sua tarde compartilhada, desleixada e, por mais que lhe custasse assumir, extremamente divertida no lago. Até o seu primeiro beijo, um maldito selinho, que desencadeou todo o desejo adormecido no interior do italiano e que permitiu que suas defesas habilmente construídas ao longo dos anos pudessem ceder com tamanha facilidade e em tão pouco tempo.

Sua curta e restrita jornada não se encerrou quando retornou para casa. Ao entrar, ignorou o irmão, que estava na cozinha, e rumou ao segundo andar. Não tardou para que se visse parado à porta do quarto em que Antonio se hospedou durante a sua estadia na pousada.

Andou até a cama e ali mesmo desabou, dedicando-se a contemplar o teto.

Sentiu-se ridículo e dramático. Não entendia o porquê de estar sendo tão afetado pela ausência de alguém com quem convivera apenas por sete míseros dias, a ponto de ter seu comportamento fatalmente alterado daquela forma. Talvez fosse um fraco, talvez fosse fraco desde sempre e sua fraqueza estivesse vinculada intrinsecamente à sua incapacidade de lidar com desilusões amorosas e perdas. Talvez algum psicólogo de merda dissesse que isso tinha relações com divórcio de seus pais. Lovino francamente duvidava, mas abertamente não se importava com as causas de seu comportamento.

Ele simplesmente detestava ser o que era.

Cansado de seus próprios pensamentos, virou-se de barriga para o colchão e escondeu a cabeça no travesseiro. Cheirava a limpo, muito provavelmente porque Feliciano havia se encarregado de mudar as roupas de cama. Sua fértil imaginação, contudo, permitiu que pudesse recordar da sutil essência de Antonio, substituindo o odor industrializado por um mais humano. Se a pudesse descrever em palavras aproximadas, diria que o espanhol tinha o cheiro do verão e uma pitada de perfume cítrico, que emanava o frescor emancipador para os dias mais quentes. O que isso significava, nem o próprio Lovino sabia ao certo.

Gastou longos minutos deitado naquela cama até finalmente decidir se levantar. Andou pelo quarto como uma sombra, analisando cada parte da mobília, detalhe por detalhe, como se nunca tivesse entrado naquele lugar e como se a modesta arrumação lhe fascinasse tal como o ouro reluzente que ornamentava os grandes palácios imperiais do passado europeu. Na realidade, seu comportamento traduzia-se em uma vã tentativa de recuperar as próprias memórias de Antonio – no caso, aquelas tão íntimas, que sequer haviam compartilhado.

Sentou-se novamente sobre a cama, suspirando profundamente. Seus dedos percorreram os cantos ornados da mesinha-de-cabeceira, genuinamente apreciando a arte que havia sido feita ali. Sua própria curiosidade o levou a abrir a gaveta que, por ser o móvel relativamente antigo e feito de madeira, ofereceu alguma resistência antes de finalmente ceder.

Arqueou a sobrancelha em surpresa ao ver que dentro da gaveta havia itens esquecidos pelo ex-hóspede. Eram dois, na realidade: um colar com um pequeno e singelo pingente de crucifixo de cor dourada e um livro com um aspecto velho e surrado e uma capa cor de vinho.

Sequer chegou a tentar abrir, pois de imediato percebeu a singela fechadura dourada que separava as páginas do caderninho do resto do mundo. Ante a essa constatação, suspirou irritado e amaldiçoou Antonio por ser tão estúpido e trancar a porcaria do caderninho, impedindo a sua própria curiosidade de ser saciada. Logo, seu suspiro se tornaria de resignação, ao perceber que provavelmente a chave para abrir aquele objeto teria se ido para sempre, junto com Antonio.

Ou talvez não.

Levantou-se rápido como um raio e disparou na direção da recepção, no piso inferior. Seu irmão ainda estava na cozinha e nem percebeu o desespero do mais velho para encontrar o pequeno e singelo objeto que Antonio disse que havia deixado. Revirou o armário de chaves, mas só encontrou o que buscava na gaveta da escrivaninha principal.

E lá estava ela, sobre uma pilha de papéis muito velhos, pequena e única, de um dourado quase apagado.

“Filho da mãe” Murmurou.

Rapidamente retornou ao quarto, trancou a porta e sentou-se na cama. A chave se encaixou perfeitamente no caderno e bastou girar uma vez para destravar a fechadura. Com as mãos frias e tremendo de nervosismo, abriu o caderno na primeira página, onde Antonio havia escrito com a sua própria letra:

Diário de Antonio Fernandez Carriedo.

Uma linha abaixo, havia uma continuação, escrita em uma tinta que parecia infinitamente mais recente do que a das primeiras inscrições:

Sub-chefe honrado da família Vargas.

Notas finais
Continua...