Notas iniciais
Quem é vivo sempre aparece (e quem não teve férias também). Finalmente postando o penúltimo capítulo e já começando a trabalhar no último para a algria/tristeza/indiferença geral.

Aqui começa o relativo mindfuck, fiquem avisados.

Boa leitura.

Capítulo 6 – Il secreto

O silêncio da noite naquela afastada região da Toscana era alentador. Não havia nada ali, exceto pela própria natureza, capaz de romper com o som da tranquilidade do campo. Por isso, era muito fácil para Feliciano pegar no sono tão logo deitasse na cama. Seu irmão, por outro lado, encarava o teto com ansiedade, enquanto ocasionalmente direcionava olhares furtivos à figura adormecida do mais jovem.

Quando o mais velho teve certeza que Feliciano havia mergulhado em seu mais profundo sono, levantou-se, um pouco afobado. Manteve, contudo, a discrição e suavidade em seus passos, a fim de evitar acordar o irmão.

Apressou-se em se trancar no quarto de hóspedes, o qual guardava como um precioso segredo o tesouro que havia sido descoberto dentro da cômoda.

Com as mãos acometidas por uma leve tremedeira, repetiu o familiar processo de destrancar o diário de Antonio. Distintamente das outras ocasiões, contudo, dessa vez tinha um dicionário como apoio.

Essa era a razão pela qual estava realmente irritado com o idiota do ex-hóspede. Isso porque o maldito diário estava todo escrito em espanhol e Lovino não entendia patavinas dessa língua, à exceção daquelas palavras que pareciam com o italiano. Mas eram tão poucas e seu cérebro tão limitado, que ele precisou adiar a leitura e correr até a cidade, chegando ao ponto de implorar para o sujeitinho de má vontade da livraria local lhe vender algo que pudesse ajudá-lo a traduzir palavras do espanhol para o italiano.

Levou uma semana inteira para que Lovino finalmente terminasse de traduzi-lo. Foi necessária toda a sua perspicácia e senso lógico para adaptar algumas palavras, enquanto outras ele sequer se deu ao trabalho de desvendar. Trabalhava dia e noite ou a qualquer momento em que o irmão estivesse ocupado ou distraído demais para perceber o seu novo entretenimento, sempre se utilizando das páginas e espaços em branco no próprio diário.

Chegou à conclusão de que o diário era relativamente negligenciado. Lovino mal havia entrado na puberdade quando Antonio ali pôs seus pensamentos pela primeira vez, no entanto, apesar do tempo de existência, não havia mais do que vinte páginas escritas naquele caderninho.

Além disso, os textos eram escritos aproveitando todo o espaço livre e, por isso, na maior parte das vezes Antonio escrevia sobre dois ou três dias em uma mesma página. A maioria delas era ornada com riscos e rabiscos que, ora facilitavam, ora dificultavam infinitamente o trabalho de Lovino. As datas também não eram constantes. Obviamente, nem sempre Antonio parecia ter tempo para colocar os próprios pensamentos no papel. O último dia que Antonio escrevera havia sido por volta de duas semanas atrás.

Muito embora tivesse decifrado boa parte do que estava escrito ali, sentia a necessidade de reler tudo o que estava escrito. Seu coração palpitava da mesma forma que na primeira vez. Dessa vez, contudo, em razão não da ansiedade, mas da dimensão dos segredos que veio a descobrir.

10 de julho.

Francis disse que eu precisava escrever um diário, então aqui estou eu. Ele disse que era uma boa forma de desafogar a pressão que vou sentir a partir de agora. Imagino o quão difícil vá ser lidar com a minha nova ocupação, mas me sinto motivado a dar o meu melhor. E rumo ao topo!

21 de julho.

Conheci o “Roma” hoje. É o codinome dele, de verdade. Ninguém da família sabe seu verdadeiro nome, exceto o subchefe, mas ele não abre a boca. O chefão, à primeira vista, não parece muito assustador, mas não pode ser julgado pela aparência com a ficha criminal que tem. Nem eu tenho certeza dos números de homicídios. Assaltos a banco devem ser brincadeira de criança para o cara. Dá um pouco de medo. Além do ritual de iniciação que me disseram que ia ser feito, ele ainda me fez passar por uma provação bastante complexa, mas dei conta e acho que até causei uma boa impressão no chefão. Nada mal para um soldado novato!

30 de agosto.

Primeira missão pra valer hoje. Chega de ficar de vigia na porta ou de servir os Capos. Confesso que fiquei muito nervoso quando ouvi a sirene dos tiras, mas no final deu tudo certo.

31 de agosto.

Por que as pessoas não acreditam em mim quando digo que meu pai era italiano?

12 de dezembro.

Esse trabalho ainda vai me matar. Mas enquanto minha hora não chega, a gente se livra de alguns tiras!

4 de janeiro.

Finalmente tive um descanso depois dos últimos meses. Francis e Gilbert passaram a semana inteira aqui em casa, foi divertido. Nunca reuni tantas mulheres, homens e bebidas juntos na vida, nem nas nossas farras mais loucas. Recebi toneladas de elogios deles. Francis sabe como consegui o feito, mas nenhum de nós arriscou contar pro Gil. Não acho que ele encararia meu novo trabalho muito bem. Ele tem um pouco de trauma com essas coisas mais radicais. Eu até entendo o lado dele, ele já teve de lidar com o chefão uma vez. Ouvi isso de um sujeito lá do bar. Deve ter sido tão traumático que ele jurou nunca contar pra ninguém e eu não vou ser o primeiro a perguntar. Ele é meu amigo, afinal.

10 de janeiro.

Acho que a Srta. Valentina não vai mais poder reclamar da minha falta de sensibilidade com os sentimentos dela. Literalmente. Ter amantes é ótimo, mas às vezes eles dão no saco e a gente precisa se livrar do que eles têm de mais irritante.

A primeira parte das curtas memórias de Antonio terminava ali e, aos olhos de Lovino, esboçava um sujeito cruel, frio e insensível. Assustou-o demais perceber como o espanhol costumava pensar e ver o mundo naquela época de sua vida. Chocou-o tanto, que precisou de uma longa pausa na leitura para colocar os pensamentos em ordem, principalemente para compreender a dimensão da ligação de Antonio com sua família.

A segunda parte do diário, que vinha após uma pausa de quase dois anos sem nada muito contundente escrito. Salvo uma ou outra reclamação a respeito de colegas de trabalho e amantes, não havia muita coisa que decifrasse a rotina do espanhol naquele período. Distintamente, contudo, a nova fase já trazia uma situação colossalmente diferente daquela vivenciada pelo aspirante a se tornar mafioso em seus primeiros meses de serviço.

3 de setembro.

Por muito pouco o dia não termina em tragédia para a família. O que me irrita é a incompetência de alguns soldados idiotas. Não é à toa que não conseguem uma promoção digna ou que morram em serviço. São muito burros. Tão burros, a ponto de ameaçar a segurança do próprio chefe com sua estupidez. Minha chateação tem uma causa: algum espertalhão achou que seria bem visto aos olhos da alta cúpula da família se resolvesse toda a missão sozinho. Obviamente, os policiais foram muito gratos à inteligência dessa peça e por muito pouco todos nós não pagamos o pato (o que inclui o chefe). Eu mesmo me responsabilizei por dar uma lição no nosso audacioso companheiro e fiz questão de impossibilitá-lo de atrapalhar a família outra vez.

10 de outubro.

Hoje fui “promovido” (em tempo, achei que isso jamais fosse acontecer). O chefe não estava muito contente com o trabalho do meu antecessor (o qual também não era digno da família).

15 de setembro.

Os D’Amico sitiaram o depósito das mercadorias. A tensão foi enorme. O saldo foi de dois mortos no nosso lado, três, no lado deles e alguns milhares de dólares em prejuízo para nós.

Em tempo: acabo de descobrir que uma das baixas é ninguém menos que o filho do chefe dos inimigos. É um ponto a nosso favor, mas precisamos ficar ainda mais atentos à retaliação. Senti-me no dever de informar o chefe pessoalmente e vi certa preocupação na reação dele.

16 de setembro.

O chefe fez reunião conosco hoje. Falou aquilo que todos já sabíamos. Parecia inquieto. Fui falar privadamente com ele quando a reunião terminou e tive a honra de ser confidente de suas preocupações, as quais envolvem a segurança de sua família, que se compunha de seu filho e netos. Roma não me disse nada, mas pude ver em seus olhos o pedido silencioso que me fazia. Melhor dizendo: a missão ultrassecreta que me destinava. Entendi naquele mesmo momento o peso daquele desabafo no meu futuro profissional e acho que, pela primeira vez, estou sentindo medo de falhar.

22 de setembro.

Roma me telefonou e pediu para que nos encontrássemos em um local secreto. Quando ele me disse que havia providenciado o meu transporte, não se passou pela minha cabeça que ele me faria sair da Espanha e ir diretamente para a Itália.

23 de setembro.

O local é bastante agradável e é usado como pousada (mas nunca tem ninguém pelas redondezas). Roma me explicou que frequentemente se esconde aqui, na companhia dos netos, que atualmente foram passar uma semana em Nápoles, com o pai, ao que parece. Surpreende-me o fato de nunca haverem descoberto o passado da família dona dessa pousada no meio do nada, principalmente considerando que o meio do nada é frequentemente o melhor lugar para a difusão de boatos e fofocas.

O chefe e eu tivemos uma conversa muito franca. Ele demonstrou estar preocupado com as constantes ameaças dos D’Amico à sua família (como eu já devo ter explicado antes, ele não se refere à “família” a qual pertenço, mas a seu filho e netos). Ele disse que precisa da minha ajuda para protegê-los e me designou para ser guarda-costas de seu filho em sua viagem à Espanha. Na verdade, minha tarefa é acompanhá-lo desde sua saída de Nápoles até o reembarque de volta para casa, o que deve durar um total de três meses, talvez um pouco mais. Na quarta-feira vamos à Nápoles e serei formalmente apresentado ao meu protegido. Partiremos para Sevilha no mesmo dia. Quando perguntei sobre a necessidade de proteger os netos dele, ele demonstrou uma ligeira irritação e me alertou para que eu não extrapolasse os meus limites.

29 de setembro.

Hoje eu vi o mais belo anjo que Deus teve a bondade de por no mundo. Raramente eu escrevo neste diário a respeito das minhas impressões sobre as pessoas que não estejam ligadas ao meu trabalho. Em regra, deixo isto para pequenos papeis avulsos, guardanapos de bares sem identificação e outros meios menos comprometedores. Mas eu acho que se amor à primeira vista existe, ele me atingiu certeiro como um raio. Queira Deus que Roma nunca ponha as mãos nesse diário, porque o anjo mais perfeito do mundo, o meu anjo e nova fonte de inspiração, é o seu neto mais velho.

Eu provavelmente parecerei ridículo escrevendo isso, mas meu coração palpita um pouco a cada recordação do rosto daquela bela criatura. Meu anjo tem cabelos castanhos escuros, às vezes a luz do Sol bate neles e os fazem parecer meio avermelhados. Tem uma pele clara com um aspecto imaculado e senti uma vontade enorme de tocá-la para confirmar se o aspecto macio faz jus à realidade. Seus olhos pareceram me enfeitiçar, como se ele fosse algum tipo de mago esperando para capturar os corações mais desatentos. Há uma paixão, um fogo, hipnotizantes naqueles orbes quase douradas e eu só consigo me pegar imaginando o quão apaixonado deve ser esse meu anjo na cama.

Ele parece estar sempre sério, tem um aspecto um tanto ranzinza. Só o vi desfranzir a testa uma vez enquanto durou nosso momento juntos, mas desconfio que seja essa a sua mágica. Seu sorriso, que pude apreciar brevemente, é como uma flor rara que desabrocha em ocasiões especiais. Não são todos que tem o privilégio de merecê-lo.

Havia outro jovem com eles, que penso ser o seu irmão mais novo. O mais novo lembra de longe o mais velho. Ao que pude observar, ele esbanja simpatia e é uma gracinha. Mas não se compara com o meu anjo em beleza.

Passamos o dia inteiro com o filho e os netos de Roma, até a hora do embarque para a Espanha. Fui apresentado como segurança particular do primeiro e não tivemos grandes dificuldades na reação dos garotos. O meu anjo, cujo nome é Lovino, pareceu não ligar nem para o fato de eu estar ali. Seu irmão, que se chama Feliciano, esbanjou bom humor e sorrisos, e confesso que meu coração se aqueceu um pouco com a bondade e inocência do garoto. Eu o protegeria sem problemas, se fosse necessário.

(Uma pena para o meu anjo que eu não sinto o desejo de mantê-lo imaculado como sinto com seu irmão. Quero fazer todas as coisas mais pervertidas e impróprias com Lovino, e Deus me perdoe por pensar assim por causa de um garoto que não parece ter pouco mais de dezesseis anos).

Eu espero poder ver essa beldade novamente um dia.

Em uma página sem data, havia uma frase escrita em letras garrafais e com uma tinta de caneta muito mais nova do que a utilizada para escrever no resto do caderno e com uma cor muito mais viva.

Agosto.

Eu voltei à Toscana e tive o prazer de reencontrá-lo. E o sentimento que eu tinha no peito só aumentou ainda mais. Não mais me reconheço como aquele sujeito que queria fazer carreira na máfia, chegar ao topo. Tudo o que eu quero agora é passar o resto da vida ao lado dele.

Só Deus para ser tão bondoso com a minha alma pecadora e condenada, me concedendo essa oportunidade. Eu desejava poder ficar mais tempo, mas não esqueci minha promessa. Por favor, não perca a fé em mim.

Lovino Vargas, nunca se esqueça de que eu te amo.

O diário acabava aí. O coração de Lovino martelava violentamente contra seu peito e seu rosto estava fortemente corado. Obviamente, aquele estúpido diário lhe legava muito mais dúvidas do que esclarecimentos, mas era algo típico da burrice de Antonio fazer isso com as pessoas, não era?

O maldito tinha ascendência italiana. Somente isto justificava a sua inserção na máfia napolitana, cujo comandante não é ninguém menos que seu avô, Rômulo Vargas. Antonio não pertencia a nada mais, nada menos, do que a uma organização criminosa, uma das mais famosas do mundo inteiro. E não era ninguém mais, ninguém menos, que a pessoa mais cotada para suceder Rômulo, na eventualidade de sua morte ou prisão.

Isso partia o coração de Lovino. Era cruel, muito cruel. Ele, que detestava o envolvimento da família com o crime organizado, era obrigado a perceber a inclinação do avô em ter como sucessor o seu amante.

E tudo porque Rômulo morria de medo de perder o único filho para a máfia – e, talvez, por consequência, os próprios netos. Sabia disso, porque se estivesse em seu lugar, provavelmente faria a mesmíssima coisa.

Lovino atirou violentamente o diário contra a parede, extremamente frustrado com a covardia do avô, ignorando ser esta um traço praticamente hereditário. Então, desabou de joelhos no chão e começou a chorar feito uma criancinha, socando o piso como forma de liberar a raiva.

Feliciano entrou alarmado no recinto, alguns minutos depois de ouvir a barulheira. Parecia desorientado com o comportamento de seu irmão – que já fora incomum por si só na última semana – e seus olhos imediatamente pararam no caderno no chão. Engoliu seco, tentando afastar a comoção com o pesar do irmão, e pegando o objeto para que ele mesmo pudesse entender o que estava acontecendo à sua volta.

Analisou as páginas traduzidas para o italiano com pressa e fora de ordem, ignorando os erros de grafia, conjugação, concordância e outras incoerências ao longo do texto. Na medida em que avançava na leitura, olhava de relance para o irmão aos prantos no chão e sentia seus próprios olhos marejarem. Da mesma forma que Lovino, o mais jovem também sentia medo do envolvimento da família nos negócios da máfia. Era a nefasta herança que tinham de suportar desde que eram jovens e desde que começaram a possuir discernimento. Era algo que afastava as pessoas, por mais que elas desejassem ficar.

Feliciano leu cada anotação com o coração apertado pela dor, confirmando as suspeitas que desenvolveu na semana em que Antonio se hospedou na pousada.

“Você traduziu isso tudo sozinho?” Não houve resposta. O mais jovem suspirou. “Então era por causa disso que o vovô frequentemente ficava a sós para conversar com ele.”

Tomado por soluços, Lovino assentiu.

“Esse velho maldito.” Grunhiu, com a voz enfraquecida pelo sofrimento. “Ele e seus malditos planos e ambições idiotas. Ele é um covarde, um maldito covarde! Deveria ter deixado Antonio fora disso, droga! Agora ele morre ou se torna o chefe e depois morre! Ele vai morrer, de qualquer jeito.”

O mais novo suspirou, repousando o diário sobre a cama e ajoelhando-se ao lado do irmão.

“Não é assim, Lovi. Não quer dizer que o irmão Toni vá morrer. Nosso avô está nesse ramo a décadas, ele não escolheria alguém que não soubesse como sobreviver.”

“Mas Antonio é um idiota!”

“Para que ele tenha chegado onde está, tenho quase certeza que ele não é tão idiota quanto você presume.”

Lovino mordeu os lábios, tentando conter uma nova onda de tristeza.

“Por que isso tem que acontecer?”

Feliciano desejava poder responder a pergunta do irmão. Ele próprio havia sofrido com um coração partido no passado, mas ele dera um jeito de resolver sua dor. Isso porque, no fundo de seu coração, sabia que iria reencontrar o irmão mais jovem do primeiro amante de Lovino e sentia-se calmo e decidido em relação a essa certeza. Seu irmão, por outro lado, ainda precisava descobrir essa tranquilidade, que Feliciano sabia, desde o princípio, não pertencer a Gilbert.

Pôs a mão no ombro do irmão, tentando encorajá-lo um pouco.

“Vamos resolver isso. Você vai resolver isso. Dê tempo ao tempo.” Disse, escolhendo cuidadosamente as palavras. “Vem, vamos tomar um suco lá embaixo. Você precisa se hidratar um pouco.”

Lovino respirou fundo, sabendo que argumentar com Feliciano não levaria a lugar algum. Por um lado, estava realmente sendo pessimista. Desconfiava da capacidade de Antonio de sobreviver e, mesmo que o fizesse, duvidava que o espanhol ainda o fosse desejar, tão logo chegasse ao topo. Além disto, seu avô poderia ser um obstáculo, enquanto isto não acontecesse.

Feliciano estendeu-lhe a mão para ajudá-lo a levantar. Tão logo o mais velho aceitou o gesto, um tiro atravessou o vidro da janela e passou de raspão por Feliciano, fazendo um pequeno estrago na parede. O mais jovem mal teve tempo de processar o que tinha acontecido antes que o irmão, por reflexo, o puxasse para o chão. O que se seguiu foi uma chuva de tiros, que passaram longe dos garotos aterrorizados. Lovino rolou para debaixo da cama e puxou Feliciano consigo.

“Mas que merda é essa?” Ele perguntou, mal podendo se ouvir em razão do som dos disparos. O vidro da janela se estilhaçou e os caquinhos se espalharam pelo chão e pela cama, ricocheteando, inclusive, para perto dos jovens.

“Eu não sei!” Choramingou Feliciano, com lágrimas de medo nos olhos. “Estamos sendo atacados!?” Lovino não soube dizer se aquilo era uma pergunta ou uma constatação.

“Impossível! Como nos descobririam aqui?”

Antes que Feliciano pudesse responder, os tiros pararam. Os irmãos chegaram a trocar olhares esperançosos, mas não tiveram muito tempo para acreditar que o súbito ataque havia terminado. Um carro freou bruscamente e o som agudo da pastilha de freio agrediu seus ouvidos. Ouviram perfeitamente quando as portas foram abertas e fechadas e a isto se seguiu o som de mais dois tiros.

“Abra essa maldita porta!” Alguém ordenou, no piso inferior, arrombando a porta principal logo em seguida.

Tanto Feliciano quanto Lovino começaram a tremer de medo. Enquanto as lágrimas de coração partido do mais velho já haviam ficado no passado a ponto de se tornarem uma série de caminhos escuros em seu rosto, as de Feliciano, de terror, caíam sem parar. O mais velho dos irmãos abraçou o mais novo, escondendo sua cabeça em seu peito. Murmurou para si mesmo “mas que merda é essa?” incontáveis vezes.

Podiam ouvir as vozes abafadas vindas do piso inferior. As desconheciam em absoluto. Em seguida, mais tiros e o som de vidros se estilhaçando. A força dos passos dos invasores denunciava seu percurso, mas os dois rapazes estavam tão tomados pelo pânico que sequer conseguiram pensar em como escapar de seu péssimo esconderijo.

“Vamos morrer.” Sussurrou Feliciano, com a voz chorosa.

“Eu sei. Droga! O que você quer que eu faça? Os malditos tem uma maldita arma... E a nossa está no quarto do vovô. Maldição.” Foi a resposta sussurrada do mais velho.

A cada porta que ouviam ser arrombada, imediatamente ouviam tiros serem disparados.

Lovino silenciosamente murmurava seu mantra: “Merda. Merda. Merda. Merda. Merda.” Feliciano choramingava feito um bebê. Pelo inato reflexo de sobrevivência que tinham, ambos se calaram quando a porta do quarto de hóspedes em que estavam foi atirada para longe, espatifando-se contra a parede. Novamente, os malditos tiros.

“Ele não está aqui! Tem certeza que é esse o lugar?” Perguntou um dos caras. Pelo número de pares de pés que Lovino pode ver, eram apenas dois sujeitos.

Levou um tempo para que outra pessoa respondesse.

“Em absoluto. Era Roma naquelas fotos da sala.”

“É, mas eu não vejo aquele espanhol desgraçado por aqui.”

“Você está pensando no maldito do espanhol? Temos um peixe muito maior em nossas mãos, idiota!”

“Se não matarmos o espanhol, provavelmente ele sucederá Roma.”

“O que é isso?”

Ambos os irmãos prenderam a respiração.

“Um caderno?”

A palavra “merda” se desenhou silenciosamente na boca de Lovino e Feliciano mordeu os lábios para não gemer de frustração.

“Olha que conveniente. Está traduzido para o italiano.”

“Mas os erros são absurdos, parece escrito por uma criança que aprendeu a escrever.”

Lovino sentiu vontade de dar um murro no idiota que fez o comentário, mas se conteve.

Os minutos em que ouviam o som das folhas de papel sendo viradas, seguidos de alternados silêncios, foram os mais longos da vida dos irmãos Vargas. E os mais angustiantes também. Sabiam o que estava escrito ali, sabia quantos nomes e segredos eram revelados e o quão burros haviam sido quando não se preocuparam em esconder o maldito objeto (ou, ao menos, tirá-lo de vista).

“Isso... É um tesouro.” Um dos sujeitos atestou. “O chefe vai nos dar a maior promoção de nossas vidas quando levarmos isto a ele.”

“O maldito já é subchefe?” Resmungou o outro, estupefato. “Um bem idiota, para deixar algo tão comprometedor quanto este diário tão exposto.”

Seguiu-se um riso de escárnio.

“Veja, Pietro, o idiota está apaixonado! Tão apaixonado a ponto de querer largar tudo!”

“Quem é Lovino Vargas?” O tal Pietro perguntou.

O outro sujeito, que tinha o diário em mãos, o fechou contundentemente.

“Quem quer que seja, Lovino Vargas é o nosso prêmio, Pietro. E a chave para a ruína de Carriedo.”

O silêncio no recinto se tornou aterrorizante. Tanto Lovino quanto Feliciano sentiam que se suas respirações ficassem um pouquinho mais forte, seriam fatalmente descobertos.

O mais novo não mais conseguiu conter um ganido de medo, que, mesmo abafado contra a roupa do irmão, veio em um péssimo momento.

“Não estamos sozinhos.” Um dos sujeitos disse. Lovino podia jurar que ele tinha um sorriso no rosto quando disse isso.

Feliciano se tremia descontroladamente. Queria pedir desculpas pela sua burrice umas mil vezes, mas sequer tinha forças para reagir. Ouviram um tiro, depois outro, até que um finalmente atingiu o alvo.

Foi tudo rápido demais, imediato demais, tal como havia sido a chegada dos dois sujeitos. Lovino berrou, desesperado, ao sentir a forte dor em seu tornozelo, entregando por completo sua localização. Feliciano imediatamente entrou em um estado de choque, sem sequer esboçar uma reação. Ambos foram arrastados para fora de seu esconderijo. Feliciano pela blusa e Lovino pela perna ferida, o que o fez gritar ainda mais de dor.

“Ora, ora, o que temos aqui? Dois gatinhos assustados.”

O mais velho dos irmãos se tremia descontroladamente por causa de tudo. Da dor, do medo, do choque por ver o sangue escorrendo por sua perna e formando uma poça no chão. Feliciano e ele haviam sido criados com todos os mimos e proteção do mundo, por mais negligenciado que Lovino se sentisse, e não estavam nem um pouco familiarizados com a dor de uma agressão física ou ameaça, qualquer que fosse.

“Qual de vocês é Lovino Vargas?”

Nenhum deles ousou responder. Feliciano estava dominado pelo medo, mas tinha uma certeza: jamais entregaria o irmão. Faria se passar por ele, se fosse necessário. Lovino, a despeito da dor de seu ferimento, de sua tremedeira e terror, olhou para os invasores de forma desafiadora, com as íris âmbar ardendo em ódio. Não sabia o que sentir, mas também possuía uma certeza ingênua: não deixaria que os idiotas fizessem mal às pessoas que amava.

“Se vocês não cooperarem, será pior para os dois, garotos.”

“Vejamos.” Riu o segundo comparsa. “De acordo com Antonio, o seu pequeno anjo tem cabelos castanhos avermelhados, pele clara e.” Ele pausou para rir e apontou a arma na cara de Lovino. “Uma paixão. Um fogo em seus orbes dourados.”

Lovino sentiu repulsa ao ouvir o sujeito repetindo as palavras que Antonio havia usado para lhe descrever.

“Não use essa sua boca imunda para repetir essas palavras, bastardo.” Grunhiu, tentando não encarar o cano da arma. Sua aposta era perigosa: se ele era uma peça essencial na ruína de Antonio, isto significava que não seria interessante para os dois idiotas tê-lo morto naquele momento. Então usaria desta vantagem para ser ele próprio.

“Temos um tipo orgulhoso aqui, né?” Gargalhou o capanga.

“Tch. Temos um tipo estúpido. Não. Dois. Débi e Lóide, aparentemente. Dois bastardos otários. O seu chefe deve odiar mesmo vocês, hein, pra mandá-los pra esse fim de mundo.”

Lovino estava sendo inconsequente e, lá no fundo, sabia disso. Mas estava com muita raiva acumulada no peito para se importar. Quando quer que se sentisse pressionado, uma penca de palavras ofensivas insistia em jorrar de seus lábios, como se isso acalmasse seus ânimos ou, no mínimo, aliviasse a pressão.

Em um gesto de maior impertinência, reuniu saliva e cuspiu no seu agressor.

Em resposta à atitude arrogantemente ousada, levou um chute no estômago. Gemeu e se encolheu, com o ar lhe faltando dolorosamente. Levou outro chute, muito mais forte do que o primeiro e desabou semiconsciente sobre a poça do próprio sangue.

“Você acha que você morto também não faz estrago, pirralho? Eu posso meter uma bala através dessa sua cabecinha e pendurar o seu corpo na frente do idiota do Antonio, enquanto eu o estiver torturando. Eu posso rir do desespero dele enquanto vê o idiota que ama exposto, feito carniça, com a pele rasgada por um gancho que o sustenta.”

Feliciano, que por seu comportamento passivo havia sido deixado de lado pelo segundo capanga, tremeu com a imagem. Ele olhou para o homem distraído e uma ideia perigosa se formou em sua cabeça. E talvez ele não tivesse o tempo a seu favor para amadurecê-la.

Em um movimento rápido, avançou sobre o braço direito do sujeito, imobilizando-o com relativo sucesso e fazendo com que o aperto da mão do agressor sobre a arma afrouxasse e esta caísse no chão. Teve tempo apenas para chutá-la para o canto oposto do quarto, para impedi-lo de alcançá-la novamente.

Claramente, Feliciano não foi rápido o suficiente para planejar uma investida contra o capanga que havia agredido seu irmão. Foi por isso que, em uma questão de segundos, percebeu o susto e raiva do sujeito, o pânico no quase inexpressivo olhar de um Lovino quase inconsciente no chão e viu o cano da arma apontar na sua direção e pouco depois, o som de um disparo.

Era tarde demais para fugir.

Notas finais
Continua...

(Alguns leitores talvez precisem. Basta tirar os espaços: http:// www .youtube.com /watch?v=2Z4m4lnjxkY)