Laços de amor
75 Capítulo Bônus 22: A vida de Tommy e Sofia
Laços de amor
Los Angeles
Sofia
Algumas semanas depois...
Acordei com o barulho irritante do despertador e gemi baixinho, querendo apenas ignorar aquele maldito alarme e voltar a dormir. Por um mês, se possível.
Mas, aparentemente eu não tinha esse direito. Primeiro porque eu era uma cirurgiã e o meu trabalho exigia muito de mim, sendo que dormir, infelizmente, não fazia parte das minhas atribuições profissionais. Segundo porque meu namorado era maluco e, sabe-se lá porque, resolveu me chamar aos gritos, às seis e meia da manhã, quase me matando do coração.
— Sofiaaaaaa...
Eu pulei da cama ao som do meu nome e corri para o banheiro, batendo meu dedo mindinho na cômoda, enquanto imaginava Tommy sangrando até a morte no chão de ladrilho.
Mas, não havia sangue ou ferimento. O bonito estava apenas parado em frente ao espelho, com cara de pânico, enquanto segurava uma pequena mecha de cabelos nas mãos.
Meu dedinho latejava e eu soltei uma imprecação, encarando meu namorado enquanto listava em minha mente todos os motivos que eu tinha para não estrangulá-lo.
― Por que gritou desse jeito, Antony Cullen? Quer me matar do coração? Eu achei que você estava ferido ou algo do tipo.
― Isso é cabelo branco? ― Ele me perguntou em um fio de voz, ignorando minha bronca e eu pisquei algumas vezes, encarando-o confusa através do espelho.
Cabelo branco?
Eu me aproximei lentamente do seu corpo e observei com atenção a mecha de cabelo que ele segurava, mordendo os lábios para não rir, pois sabia que isso o deixaria puto.
― É sim. Cabelo branco.
Ele ficou em silêncio alguns segundos, me encarando imóvel e em pânico, enquanto eu usava todas as minhas forças para não explodir em uma gargalhada ruidosa diante do surto de vaidade do meu namorado.
― Isso é uma tragédia! ― Ele gritou de forma aguda depois de um tempo e eu tive que rir, me esquecendo momentaneamente da dor no meu dedinho.
― Deixa de frescura, Tommy. São apenas alguns fios de cabelo branco. E se você os odeia tanto, basta usar tinta.
― Eu sou jovem demais para ter cabelos brancos. O que vem a seguir? Rugas? Dentadura? Viagra?
Eu ri outra vez.
― Por falar nisso, acho que tem alguns pés de galinha aqui. ― Eu brinquei, apontando para a região dos seus olhos e ele se virou novamente para o espelho com cara de desespero, me fazendo gargalhar outra vez, enquanto ele me amaldiçoava entredentes.
― Eu não tenho rugas, Swan, pois sou um homem jovem.
Eu revirei os olhos.
― É claro que é. Então, pare de ser bobo, pois você está lindo. Não tem rugas e só dá pra ver esses cabelos brancos se chegarem bem perto de você, o que não vai acontecer, pois só eu tenho permissão para me aproximar assim. ― Eu falei, abraçando-o por trás e Tommy suspirou, me encarando através do espelho.
― Estamos ficando velhos.
Eu sorri.
― Envelhecer é uma dádiva, Tommy, pois é sinal que estamos vivos. Você não pode surtar a cada ruga ou cabelo branco que aparecerem. São as marcas do tempo e não devemos temê-las. Além do mais, levando em conta sua genética maravilhosa, eu tenho certeza de que você será um coroa lindo.
Ele fez uma careta.
― E por que você ainda não tem cabelos brancos? Por que só eu?
Eu revirei os olhos.
― Sei lá, Tommy. Eu sou jovem ainda e minha genética é melhor que a sua. Às vezes, se procurarmos, até vamos encontrar alguns fios brancos perdidos aqui. Mas, eu não vou surtar como uma patricinha histérica que quebrou a unha.
Ele me olhou bravo.
― Não foi assim que eu surtei.
Eu ri.
― Claro que não foi, Tommy. Aliás, eu pensei que você estivesse sangrando ou morrendo, tamanha a intensidade do seu grito. Mas, era apenas a porcaria de um cabelo branco. Mas, não foi um surto histérico não. Foi apenas um despertador bem eficiente.
Ele apenas bufou e saiu do banheiro, enquanto eu ria e entrava no banho. Já que voltar a dormir estava fora de questão, o jeito era me arrumar para encarar mais um dia de adulto.
Pelo menos o início da minha manhã havia sido divertido, apesar da dor que eu estava sentindo no meu mindinho.
Quando fui para a cozinha, já pronta para o trabalho, Tommy me esperava com o café da manhã pronto e eu sorri satisfeita, me sentando e me servindo de quatro panquecas.
Ele me encarou divertido.
― Seria muita gentileza sua deixar comida para mim, amor. ― Tommy ironizou e eu dei de ombros, continuando a comer minhas panquecas. ― É sério, Sofia. Você está comendo muito ultimamente. Ontem pedimos pizza e eu comi apenas dois pedaços. Você devorou todo o resto.
Eu parei de mastigar e o encarei.
― Vai virar fiscal de prato?
Ele riu.
― Não. Só fico me perguntando para onde vai tanta comida. Aliás, se eu não estou alucinando, a pizza de ontem foi parar no vaso sanitário, não é?
Fiz uma careta.
― Eu estou comendo, Tommy. Respeito. ― Ele sorriu de lado, de um jeito que era ao mesmo tempo sexy e irritante, e voltou a se concentrar em seu celular, enquanto bebericava o que provavelmente era sua terceira xícara de café.
Mas, Tommy tinha razão quanto ao destino da pizza de ontem à noite, pois ela havia mesmo ido parar no vaso sanitário, o que significava que eu tinha de fato exagerado ao comer oito pedaços sozinha. Mas, eu gostava tanto de pizza que não pude resistir e quando vi, já havia comido tudo. Tudo para algumas horas depois, eu acordar sentindo uma terrível azia e despejar tudo o que havia comido da forma mais nojenta que existia.
A verdade era que eu estava precisando fazer um check-up, o que era irônico de se pensar, já que eu era uma residente cirúrgica do melhor hospital em Los Angeles. Mas, eu simplesmente não tinha tempo para passar por consultas e exames e ia lidando com esse pequeno problema estomacal da pior forma possível: com antiácidos.
― Vai querer carona para o hospital? Por que eu tenho uma audiência às oito da manhã e não posso me atrasar.
― Eu vou querer sim. Precisamos pensar no planeta. E não se preocupe com o atraso, pois já estou pronta. Só preciso escovar os dentes e pegar minha bolsa. Você viu meu celular?
― Está na sala. Fiz a gentileza de colocá-lo para carregar ontem a noite, pois tenho a impressão de que ele já estava morto há alguns dias.
Eu ri.
Tommy odiava quando eu não atendia o telefone porque simplesmente esquecia de carregá-lo.
― Você é o melhor namorado, mesmo que já tenha rugas e cabelo branco. Merece um beijo. ― Eu debochei, beijando-o na bochecha e ele revirou os olhos.
― Eu sou foda, com cabelo branco e tudo. Mas, agora vá terminar de se arrumar, pois temos que sair logo.
Meia hora depois, Tommy me deixou no hospital e eu corri para a emergência, que já estava a todo vapor.
Na parte da tarde, depois de um rápido almoço e mais uma sessão de vômito exorcista no banheiro, atendi um caso de fratura no nariz e a semelhança do acidente da minha paciente com o episódio da bolada que eu dei em Mary Jane Volturi, quebrando seu nariz horroroso, fez com que eu tivesse que aguentar piadinhas a tarde toda. Sim, porque minha mãe fez questão de contar para todo mundo o que eu havia feito na quadra da escola há mais de dez anos atrás.
― Você não me parece ser do tipo passional, Sofia. Uma bolada no rosto da arquirrival não faz seu estilo. ― Anny comentou, enquanto verificávamos a radiografia do nariz e eu sorri.
― Eu tenho meus momentos de explosão, Anny. Lara costuma dizer que eu guardo tudo e quando resolvo extravasar, causo alguns estragos. Não posso fazer nada se meu saque era absolutamente perfeito e o nariz da Mary Jane estava bem na minha frente no momento da minha erupção de ódio.
Ela riu.
― Quero morrer sua amiga, Sofia Swan.
Eu apenas sorri para o comentário e continuei o meu trabalho, enquanto cenas da minha adolescência invadia minha mente.
A lembrança de Mary Jane me transportava para uma época feliz, onde eu era a capitã do time de vôlei e namorava o cara mais gato da escola.
Eu nunca havia sido uma garota popular, preferindo ficar escondida atrás dos meus livros e dos meus fones de ouvido. Minha única exceção para aparições em público era o vôlei, pois eu realmente amava estar em quadra. Mas, por algum motivo Antony Cullen, o capitão gato do time de futebol e ex-namorado da Mary Jane Volturi, — o que depois descobri ser uma mentira deslavada— havia me notado e se apaixonado por mim. E o fato de nossos pais terem começado a namorar apenas nos aproximou mais depressa, dando play nos melhores anos da nossa vida.
Tommy e eu raramente nos desentendíamos, tirando a vez que ele cismou com o meu primo Teddy e quase terminamos o namoro por causa disso. Eu sorri de leve ao me lembrar disso.
Anos depois desse episódio, Teddy havia se assumido gay e eu fui abrigada a tirar sarro do meu namorado por conta do seu ciúme, que havia se provado descabido.
― Acho que, na verdade, Teddy estava interessado em você. ― Eu falei rindo, enquanto rolava o Instagran do John Hobbit, o namorado gato do meu primo e Tommy fez apenas uma careta, tendo a decência de se manter em silêncio.
Meu namorado era inseguro e ciumento e essa combinação de defeitos fez com que brigássemos algumas vezes, principalmente depois do meu envolvimento com Adam Jones, mas agora, depois de um doloroso processo de amadurecimento provocado por inúmeras idas e vindas, estávamos bem como na época da adolescência.
Era como se todos anos após nosso término em Harvard não tivessem existido, já que a lembrança deles não doía mais em nós. Tommy e eu estávamos em paz e, tirando seus surtos por causa de rugas e cabelos brancos, nossa vida estava pra lá de perfeita.
― Antiácido de novo, Sofia? Será que eu serei obrigada a marcar uma consulta pra você, como fazia na sua infância? ― Minha mãe me perguntou, entrando na sala dos residentes do nada e eu fiz uma careta, engolindo o remédio antes que ela tomasse o vidro das minhas mãos.
Fazia apenas alguns minutos que eu havia escapado da emergência justamente porque meu estômago estava praticamente gritando por ajuda e tudo o que eu queria era um remédio e uma água bem gelada.
Broncas da minha mãe não estavam na lista de desejos atuais e, por isso, tentei despistá-la, mas nem sempre era fácil enrolar a Isabella Swan Cullen. Na verdade, era quase impossível.
― Eu vou marcar. Outro dia. Mas, no momento preciso trabalhar e esse estômago está me matando.
― O que você comeu hoje?
Tive que me conter para não revirar os olhos. Era como se eu tivesse cinco anos de novo.
― Quatro panquecas no café da manhã, acompanhadas de frutas e mel e suco de laranja. No almoço comi salada e frango e bebi uma água tônica com limão. Mas, vomitei tudo depois.
― Vomitou?
― Vomitei.
― O que mais você anda sentindo, Sofia? ― Minha mãe me perguntou desconfiada e eu apenas sorri, sabendo muito bem qual era a sua desconfiança.
― Eu não estou grávida, Dra. Isabella Swan Cullen. Pode ficar tranquila. Eu estou apenas estressada e ansiosa. Mas, vou ao médico assim que possível.
― Acho bom, ou eu mesma irei amarrá-la a uma maca e descer um endoscópio pela sua garganta.
Eu fiz uma careta.
― Também te amo, mãe. ― Resmunguei vendo-a sair da sala do mesmo jeito intempestivo em que entrou.
Mães!
Mas, o fato era que eu realmente precisava de um exame, pois aquele enjoo acabaria me matando.
Naquele dia, depois do meu plantão, eu saí para beber com a Lara, mas me mantive apenas no suco, pois meu estômago ainda não estava muito confiável e eu não queria meu vômito sendo espetáculo em um dos bares mais badalados de Santa Mônica.
― Você não é muito nova para estar desenvolvendo problemas estomacais, Sofia? ― Lara me perguntou, olhando divertida para meu suco de melancia e eu dei de ombros.
― Eu sou residente cirúrgica, Lara. Estresse é o meu segundo nome. Além disso, a loucura da emergência me impede de me alimentar direto. Acho que se não fosse o Tommy me alimentar em casa, meu estômago já teria de autodestruído.
Lara fez uma careta, mas teve o bom sendo de não criticar minha escolha profissional.
― Por falar no seu namorado, como anda a relação de vocês? Tommy se recusa a me dar qualquer informação e ainda teve a audácia de me chamar de intrometida.
Eu ri.
― Minha relação com Tommy vai muito bem, Lara. Desde que reatamos, nosso namoro retornou para a melhor fase. É como se fôssemos adolescentes apaixonados outra vez. A boa notícia é que agora podemos transar sempre que temos vontade, sem que nossos pais surtem com isso. A má notícia é que nossa vida profissional atrapalha, e muito, nossa vida sexual.
Lara bufou e virou seu copo de tequila de uma vez.
― Nem me fale. Ethan e eu ficamos quase o dia todo juntos e quase nunca transamos. Acho que nem me lembro mais a última vez que tive um orgasmo. Nossa agenda está uma loucura e quando temos tempo, não temos disposição. Quando temos disposição, não temos tempo. Sinceramente? Odeio ser adulta! Quando Ethan e eu éramos adolescentes transgressores, transávamos sempre que dava. Agora dormimos na mesma cama e quase não nos vemos.
― Acho que minha vida sexual está um pouquinho melhor que a sua, Lara. Tommy e eu quase não nos vemos, mas sempre que estamos juntos temos muita disposição.
― Sério? E esse problema de estômago não pode ser um bebê, não? Porque uma vida sexual intensa sempre acaba em bebês lindos.
Eu ri.
― Não quando a gente se cuida, Lara. Você acha mesmo que cabe um bebê nessa minha rotina maluca?
― É. Seria realmente complicado. Mas, eu ia amar ter um afilhado.
― Mia vai ser a madrinha do meu primeiro bebê, Lara.
Ela me olhou brava.
― Nos sonhos dela. ― Lara resmungou, já fazendo sinal para que o garçom lhe trouxesse outra tequila e eu me contentei em bebericar meu suco, quanto fazia uma careta mental ao imaginar Lara e Mia travando uma batalha para decidir quem seria a madrinha do meu primeiro bebê.
Ainda bem que criança não estava nos meus planos tão cedo, porque eu tinha certeza que Mia e Lara ainda me dariam muita dor de cabeça por causa disso.
**********
Algumas semanas depois...
Mas, talvez, a disputa para ser a madrinha do meu bebê estivesse na eminência de acontecer, já que apenas uma gravidez explicaria tantos enjoos, mudanças bruscas de humor, fome excessiva, seios sensíveis, canseira extrema e uma vontade incontrolável de sexo.
Mas, eu não podia estar grávida.
Ou podia?
Não! De jeito nenhum, pois eu tomava pílula e me recusava a acreditar que aquele maldito método contraceptivo havia me deixado na mão mais uma vez.
Além disso, um bebê não caberia em minha vida agora, pois eu estava prestes a me tornar a residente chefe de um renomado programa de cirurgia, o que prejudicaria ainda mais minha agenda já lotada.
Como eu cuidaria de um bebê, meu Deus? Um bebê que precisaria de mim 24 horas por dia, pois eu teria que alimentá-lo, limpá-lo, acalentá-lo, niná-lo e seja lá o que mais as mães tinham que fazer por seus bebês.
Tommy também não poderia se tornar pai agora, pois tinha muito trabalho em seu novo cargo na firma da família.
A gente quase não se via, pelo amor de Deus!
Além do mais, Tommy e eu nem éramos casados ainda, sendo que este assunto era um imenso elefante branco em nossa vida, pois nunca falamos sobre isso desde que reatamos pela última vez.
Portanto, eu não podia estar grávida.
Respirei fundo depois de vomitar mais uma vez e encarei minha imagem pálida refletida no espelho.
Eu não podia estar grávida, mas só uma gravidez explicaria esse enjoo sem fim. Sim, porque eu não tinha nada no estômago, fato comprovado por uma endoscopia que eu havia sido obrigada a realizar. Era isso ou minha mãe provavelmente enfiaria mesmo um endoscópio em minha garganta à força.
Mas, mesmo eu estando completamente saudável, os enjoos não davam trégua e, hoje de manhã, para me deixar ainda mais tranquila, Tommy jogou no meu colo o fato de eu não estar menstruando e eu paralisei em choque ao me dar conta de que ele tinha razão.
Eu realmente não estava sangrando mais no intervalo de uma cartela e outra.
Puta que pariu!
Mas, isso não significava que eu estava grávida, embora pudesse significar.
E agora eu estava ali, trancada no lavabo da casa da minha mãe, com um teste de farmácia em minhas mãos, sem ter a coragem necessária para fazer xixi naquele palito e confirmar minhas suspeitas.
― Sofia, você está bem? A mamãe pediu para vir verificar se você não havia se afogado na privada. ― Ouvi a voz da Elena e dei um pulo assustada, enquanto uma ideia maluca tomava conta da minha mente.
Por que não?
Destranquei a porta e puxei minha irmã para dentro, entregando um dos testes a ela.
― Elena, eu preciso que você faça xixi nesse palito.
Ela me encarou confusa, certamente se perguntando se eu havia enlouquecido.
― Sofia, eu tenho apenas treze anos e definitivamente não transo ainda. Por que diabos eu faria um teste de gravidez?
Eu suspirei impaciente e levantei o outro teste na altura dos seus olhos.
― Para comparar com o meu.
Ela arregalou os olhos.
― Você está grávida?
― Não sei, Elena. Talvez. Vamos saber quando nós duas urinarmos nesses palitos e compararmos os resultados.
Elena revirou os olhos e eu sorri ao me dar conta do quanto éramos fisicamente parecidas. Será que meu bebê também seria parecido comigo?
Foco, Sofia! Você não está grávida.
― Você deve estar grávida sim, Soso, pois não está dizendo coisa com coisa. Mas, tudo bem. Eu farei o que você me pediu, mas não aqui. O cúmulo do ridículo dessa situação vai ser você me ver urinar.
Fiz uma careta.
Ela tinha toda a razão.
― Certo, mas não deixe ninguém te ver.
Fiz o meu teste e o coloquei na gaveta, enquanto esperava Elena retornar com o dela. Fiz alguns cálculos e constatei com desespero que era mais do que provável que eu estivesse mesmo grávida.
― Sofia? Tudo bem? Eu preciso chamar uma ambulância? ― Tommy me perguntou do outro lado da porta e eu praguejei baixinho, me perguntando o porquê de ele não estar jogando videogame com o Benjamin.
― Eu estou bem. É apenas uma dor de barriga.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
― Dor de barriga? Sofia, abre essa porta. Eu quero ter certeza de que você está mesmo bem.
Revirei os olhos.
Eu geralmente adorava quando ele era atencioso e se preocupava comigo, mas hoje todo esse cuidado estava me irritando, pois eu queria ficar naquele banheiro sozinha e em paz. A única que tinha a permissão para entrar ali era Elena.
― Tommy, eu te amo, mas não acho que nosso relacionamento suportaria uma dor de barriga e o mau cheiro que vem com ela. Portanto, como você não quer mesmo me ver defecando e fazendo caretas, volte para o videogame. Assim que eu estiver pronta, vou ao seu encontro.
― Você está a cada dia que passa mais estranha, Sofia. Mas, como te ver defecar realmente não é algo que eu deseje, vou esperá-la na sala. Lave a mão quando terminar, por favor.
Olhei indignada para a porta do banheiro e mostrei o dedo médio para o meu namorado engraçadinho, embora ele não pudesse me ver.
Lave a mão? É claro que eu lavaria a mão.
― Ridículo, Tommy Cullen. Ridículo! ― Eu resmunguei com raiva e quase caí do vaso sanitário quando, minutos depois, ouvi outra batida na porta.
― Sofia? ― Ouvi a voz da Elena e respirei aliviada, destrancando a porta.
― Cadê o exame?
― Está aqui e deu negativo, como já era esperado. Onde está o seu?
Eu prendi a respiração e apontei para a gaveta da pia, esperando que minha irmã entendesse o meu pedido mudo para que ela verificasse meu exame por mim, pois eu havia perdido a coragem.
Elena revirou os olhos e andou até a gaveta, retirando de lá o meu bastão e colocando-o lado a lado com o dela.
Eu estava curiosa, mas ao mesmo tempo temerosa, pois o resultado daquele exame poderia virar minha vida de cabeça para baixo.
― Quer que eu fale o resultado em voz alta ou você vai desmaiar?
― Desmaiar? Por que eu desmaiaria? ― Eu perguntei em um fio de voz, temendo sua resposta e Elena sorriu largamente, levantando os bastões para que eu os visse.
O meu estava rosa. Tão rosa que chagava a brilhar.
Jesus!
― Porque você vai ser mãe. Parabéns, Soso. Você está grávida!
Grávida?
Foi a última coisa que eu pensei antes de realmente desmaiar.
*********
― Por que ela não acorda? Mãe, ela tem alguma coisa grave, não tem? Mãe, fala comigo?
― Tommy, se acalma. Eu não consigo examiná-la direito com você gritando nos meus ouvidos. Portanto, calado.
Tommy bufou e acho que escutei seu pé batendo no chão de madeira. Ele costumava fazer birra quando estava irritado.
― Bella, ela vomitou, defecou e desmaiou... Tudo na mesma manhã. Além disso está estranha há semanas. Ontem ela chorou porque eu esqueci de fechar o tudo de pastas de dentes. Eu estou preocupado e não posso me acalmar. Nem me afastar.
Minha mãe bufou.
― Tira seu filho dos meus calcanhares, Edward, ou quem vai chorar sou eu.
Ouvir uma discussão entre Tommy surtado e minha mãe irritada quase me fez sorrir. Quase, porque eu simplesmente não podia sorrir no momento.
Afinal, eu estava grávida.
― Bella! ― Tommy falou com a voz esganiçada depois de um tempo e minha mãe bufou outra vez, trocando meu rosto de leve.
― Ela está bem, Tommy. Foi só um mal-estar. Abra os olhos, amor. Por favor, antes que eu atire o seu namorado pela janela.
Abri os olhos lentamente e encontrei toda minha família ao meu redor. Minha mãe estava sentada na cama ao meu lado e Tommy parecia prestes a ter uma síncope, me encarando por cima dos ombros da minha mãe de maneira frenética, como se eu estivesse prestes a entrar em combustão. Meu pai apenas observava a cena preocupado, enquanto Elena continha o riso, já que ela sabia muito bem qual era o meu problema. Mia e Noah estavam um pouco mais afastados, mas pareciam mais divertidos com a discussão da mamãe com o Tommy do que preocupados com o meu estado de saúde. E Benjamin... Bem, o pequeno simplesmente estava ali, sem entender muita coisa, mas dando um apoio moral. Todavia, quando me viram acordada, todos no quarto respiraram aliviados, quase em sincronia.
― Como você se sente, filha? ― Meu pai me perguntou e eu sorri de leve, tentando tranquilizá-lo.
― Eu estou bem, papai. Foi só um mal-estar.
― Foi o que eu disse. Sofia está bem. Portanto, vocês devem descer e me esperar lá na sala. Preciso conversar com ela. A sós. ― Minha mãe determinou e Tommy a olhou indignado.
― Se ela está bem, por que você quer conversar com ela a sós? ― Ele perguntou desconfiado e minha mãe revirou os olhos, encarando-o irritada.
― Tommy, vá com os outros para a sala ou eu vou mesmo jogá-lo pela janela.
Meu namorado bufou, mas se limitou a beijar minha testa e seguir os outros até o andar debaixo. Irritar Isabella Swan Cullen podia realmente ser bem arriscado.
Quando todos saíram, minha mãe me encarou e tirou do bolso frontal de sua camisa xadrez dois testes de gravidez, colocando-os sobre meu colo e eu engoli em seco, sem coragem de voltar a encará-la.
― Eu fiz isso com você uma vez e me lembro como se fosse hoje da sua cara de pânico quando pensou que eu estivesse desconfiando de que você e Tommy já estivessem transando, o que não era o caso na época. Mas, a verdade é que eu estava muito assustada com a possibilidade de estar grávida e quis comparar nossos testes de gravidez, pois assim eu teria a certeza de que o resultado do meu teste estava correto. E eu estava grávida de fato, sendo que Elena nasceu alguns meses depois.
Eu sorri com a lembrança, pois eu realmente havia ficado bem assustada com a possibilidade da minha mãe pensar que eu havia traído sua confiança e transado com Tommy sem contar a ela. Mas, a verdade era que ela estava apenas pirando com a ideia de ter um bebê com Edward, do mesmo jeito que eu havia pirado de ter um bebê com Tommy e envolvido minha irmã adolescente nas minhas ideias malucas.
― Eu já sabia que você estava grávida, Sofia. Colhi uma amostra de sangue no dia da sua endoscopia e fiz um exame de Beta HCG. Eu teria te contado sobre o exame, mas como você negava todas as evidências de uma gravidez, esperei até que você percebesse os sinais do seu próprio corpo e considerasse um bebê como uma possibilidade real.
Minha mãe havia feito um exame de gravidez em mim? Sem que eu soubesse?
― Eu poderia processá-la, Dra. Swan.
Ela sorriu.
― Eu fui invasiva e sei perfeitamente disso. Mas, eu sou uma mãe preocupada com a saúde da sua filha primogênita, que é teimosa feito uma mula na chuva. Mas, ela não está doente e sim grávida. Grávida do meu neto. Você, Sofia Swan Cullen, me transformou em uma avó e eu estou mais do que feliz com isso. Portanto, me processe se quiser. Eu nem ligo. A única coisa que me importa é que você está grávida e vai me dar um netinho.
Eu estava grávida e esse fato havia me transformado em um poço de hormônios incontroláveis e sem fim. Portanto, é óbvio que as palavras da minha mãe me fizeram chorar e, agarrá-la em um abraço apertado, foi minha próxima reação involuntária, provocada pelo no inquilino intrometido do meu corpo.
― Eu estou grávida, mãe e não sei o que sentir sobre essa notícia. Mas, que bom que você está feliz. ― Eu falei entre soluços e minha mãe me apertou ainda mais em seus braços.
― Sofia, leve o tempo que precisar para digerir a ideia de se tornar uma mãe durante sua residência cirúrgica. Afinal, um bebê é uma mudança imensa na vida de qualquer um.
― E se eu abortar de novo? ― Expus o meu maior medo e minha mãe estalou os lábios, se afastando de mim e me fazendo encará-la.
― Toda mulher grávida corre esse risco, meu anjo. Mas, nós vamos cuidar de você e, se Deus quiser, esse bebê veio para ficar e vai ser muito amado por todos nós.
Eu assenti e respirei fundo.
― O papai sabe?
― Ele desconfia. Sendo pai de cinco filhos, Edward aprendeu a identificar os sinais de uma gravidez. Além disso, ele te conhece muito bem, Sofia. Às vezes eu acho que Edward Cullen te conhece e te entende até melhor do que eu, pois a conexão de vocês é única. Mas, eu não confirmei nada, mesmo ele insistindo nas indiretas. Assim, a única Cullen que tem certeza de que você vai ser mãe é a Elena, já que foi envolvida na situação mais inusitada de toda sua vida.
Eu fiz uma careta.
― Pelo menos ela vai ter uma história para envergonhar o meu bebê quando ele for um adolescente chato e não gostar mais de ficar com a família.
Minha mãe sorriu.
― Parabéns pelo bebê, amor. Mas, agora você precisa dar a notícia ao seu namorado, pois ele acha que você tem alguma doença grave e já está me tirando do sério com tantas suposições e perguntas irritantes.
Eu gemi baixinho.
― Você não quer falar com ele?
― Não, amor. Você é a mãe do bebê dele. Portanto, é você quem deve dar a notícia. Tommy vai surtar, porque ele não seria filho de Edward Cullen se não surtasse, mas vai ficar tudo bem. É um bebê... Um acréscimo perfeito à pequena família de vocês. E eu sei disso porque, nesse momento, estou diante do primeiro amor da minha vida, que me tornou uma mãe e agora fez de mim uma avó, e posso dizer com toda a certeza que, para mulheres que desejam ser mães, não existe dádiva maior do que um bebê.
E, mais uma vez, eu chorei.
― Eu amo você, mãe. E obrigada por estar sempre ao meu lado. ― Disse chorando e ela sorriu entre lágrimas, me abraçando outra vez.
― Eu jamais vou deixá-la, meu amor. Eu te amo infinitamente. Mas, agora, enxugue essas lágrimas, pois eu vou mandar o Tommy subir.
Eu me separei dela e enxuguei minhas lágrimas, respirando fundo e me preparando para dar a notícia do bebê ao pai do bebê.
E o pai do bebê iria surtar, porque ele surtava até com cabelo branco.
Mas, tudo bem. Tommy teria alguns meses para se acostumar. E eu também.
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