Capítulo 32

Pov. Bella

Mamãe!— Eu ouvia a voz chorosa de Sofia e tentava desesperadamente encontrá-la em meio à escuridão, mas era impossível. Ela estava além do alcance das minhas mãos.

− Sofia! – Eu gritava em agonia, procurando por ela, querendo abraçá-la e protegê-la de todo o mal, mas parecia que uma força muito maior a tirava de mim.

Mamãe! Mamãe!— Ela chorava alto, assim como eu, mas sua voz parecia cada vez mais distante. Ela estava indo embora. Alguém a estava tirando de mim e aquilo doía. Era desesperador. Era agoniante.

− Sofia! Sofia!

− Ei, Bella, acorde. Volte pra mim, meu amor. – Eu ouvi a voz de Edward, seguida de um toque suave em meu rosto e abri os olhos assustada, me dando conta de que acabara de sair de um pesadelo.

Foquei minha atenção no rosto de Edward e senti lágrimas escorrerem por meus olhos quando me lembrei de que meu pesadelo era uma pequena mostra da minha vida no momento. Eu estava mesmo perdendo minha filha.

− Você estava tendo um pesadelo. – Ele falou, me encarando com um olhar preocupado e eu respirei fundo, fechando meus olhos por um momento.

− Não é apenas um pesadelo, Edward. – Eu sussurrei e ele suspirou, beijando minha testa.

− Ligamos para os meus pais. Eles estão vindo para Los Angeles. – Ele falou, certamente tentando me tranquilizar, e eu sorri de leve. Carlisle era Neurologista. Talvez, após examinar Sofia, ele teria boas notícias para me dar.

− Porque eu estou nesse quarto? – Eu perguntei, olhando ao redor e Edward respirou fundo, segurando em minha mão e beijando-a.

− Você desmaiou. A Dra. Cooper te examinou e, após constatar que você estava emocionalmente esgotada, ela te sedou. Suzana disse que o melhor era que você descansasse um pouco, já que estava bem perto de um colapso. – Ele explicou e eu assenti. Talvez Suzana tivesse razão. Eu estivera bem perto de um surto.

− Tommy e Mia foram para casa?

− Alice conseguiu levar Mia com ela. Tommy se recusa a sair daqui. Está de plantão na sala de espera e falou que só vai para casa quando Sofia acordar.

− Ela pode nunca acordar, Edward. – Eu sussurrei com a voz trêmula e ele me olhou triste, acariciando meu rosto.

− Eu não vou sequer considerar essa possibilidade, amor. Sofia vai acordar. Ela vai voltar para nós. Eu tenho certeza. – Ele falou, me abraçando e eu chorei silenciosamente, torcendo para que suas palavras tivessem algum efeito sobre o universo e fizessem com que minha filha voltasse pra mim.

Edward me obrigou a tomar um banho e a comer alguma coisa antes de voltar para a sala de espera. Tommy dormia em um dos sofás e eu sorri ternamente ao me lembrar de tudo o que aquele garoto fizera pela minha filha.

− Tommy foi um verdadeiro herói, ontem. – Eu falei para Edward que sorriu e beijou meu rosto.

− Ele ama Sofia, amor. De verdade. Acho que Tommy não se perdoaria se não tivesse voltado para a escola e resgatado a namorada.

− Ela teria morrido lá mesmo se ele não a tivesse resgatado. O tiro lacerou uma artéria de alto calibre da perna dela. Se Tommy não tivesse estancado o sangramento e feito um torniquete, Sofia não teria durado nem dez minutos. – Eu falei, estremecendo diante daquele pensamento e Edward sorriu.

− Tommy não sabia como ajudá-la, Bella. Foi Sofia quem lhe deu todos os comandos. Ela que lhe explicou o que fazer para estancar o ferimento e como fazer o torniquete. Meu filho apenas seguiu os comandos da namorada. – Edward revelou e eu o encarei surpresa.

− Sério?

− Sim. Acho que já sabemos qual vai ser a profissão de Sofia no futuro. Ela é esperta e age rápido em situações de emergência. Será uma excelente médica, assim como a mãe. – Ele falou e eu não pude deixar de sorrir orgulhosa.

− Sofia sempre me ajudou a estudar para as minhas provas e exames. Acho que ela aprendeu muito durante minha residência médica e especialização. – Eu comentei e Edward sorriu.

− Ela é muito inteligente. Só não se dá muito bem com a matemática. – Ele falou divertido e eu ri ao me lembrar do horror de Sofia a qualquer coisa envolvendo matemática.

− Ela sempre odiou números. Dê 100 livros à Sofia e a faça imensamente feliz. Agora, não peça para que ela faça um cálculo ou uma equação, pois ela vai te odiar. – Eu falei, levemente divertida e Edward riu. – Ela sempre gostou dos meus livros de medicina. Adorava as imagens e passava horas folheando-os enquanto eu estudava. Em épocas de provas, mesmo quando ela ainda era criança, Sofia sempre fazia de tudo para me ajudar. Cuidava das refeições, mesmo que fosse apenas colocar a comida congelada no forno, fazia lanches para nós, brincava em silêncio para não me atrapalhar e estava sempre pronta para me fazer um carinho quando eu me sentia exausta e estressada. Ela sempre foi maravilhosa, Edward. Eu nunca tive nenhum tipo de trabalho com ela, ao não ser quando ela resolveu sair pelo campus da universidade sem me avisar e quase me matou de susto. – Eu sorri ao me recordar daquele episódio e Edward me abraçou de lado, beijando meu rosto. – Eu não vou sobreviver sem a minha filha, Edward. Sofia tem sido tudo pra mim desde sua concepção. Ela é meu coração que bate fora do meu peito e eu não vou conseguir continuar vivendo se ela morrer.

− Ela não vai. Confie. – Ele pediu e eu suspirei, beijando os seus lábios.

− Obrigada por estar ao meu lado. Acho que eu não suportaria passar por isso sozinha.

− Estarei sempre com você, meu amor. Somos uma família e nosso dever é nos apoiar sempre. – Ele falou e eu sorri tristemente, beijando seus lábios e o abraçando.

Ficamos assim até que Suzana surgiu na sala de espera e sorriu ao me ver acordada.

− Você acordou. Que bom! O que acha de ver Sofia agora? – Ela me perguntou e meu coração se acelerou com a possibilidade de ver a minha filha, ainda que eu não quisesse, de forma alguma, encontrá-la em uma cama de hospital sendo monitorada por uma série de aparelhos.

− Como ela está? – Eu perguntei, com medo de ouvir a resposta e Suzana suspirou, me lavando até uma cadeira e me fazendo sentar.

− Estável. Não há infecção no ferimento e os sinais vitais estão bons. – Suzana falou, parecendo tranquila e eu continuei encarando-a. – Bella, Sofia passou por um grande trauma. O tiro atingiu uma grande artéria e, embora tenha atravessado o membro, deixou estilhaços na lesão e nos tecidos internos. Além disso, pelo tipo do ferimento, é possível perceber que o atirador estava bem próximo a ela quando fez o disparo, o que lacerou ainda mais os tecidos da sua perna. Sofia sofreu uma hemorragia intensa, que só não a matou devido ao torniquete que foi feito no local e ao fato de ela ter sido socorrida rapidamente. Quando ela chegou, administramos cristaloide e fizemos a reposição volêmica e de sangue imediatamente. Durante a cirurgia, fizemos um enxerto na artéria e retiramos os estilhaços da bala. Já estávamos fechando a incisão quando ela teve outra parada cardíaca. Fizemos a ressuscitação e a entubamos imediatamente. Em seguida, administramos oxigênio suplementar e entramos com manitol. Nossa preocupação era reduzir possíveis danos cerebrais. – Ela explicou e eu senti meus olhos marejados ao pensar em tudo o que a minha menininha passou desde o momento que levara aquele maldito tiro.

− E o que vocês concluíram na avaliação pós-operatória? – Eu perguntei em um fio de voz e Suzana suspirou, trocando um olhar preocupado com Edward.

− Ela está acidótica. Mas, é normal devido à quantidade de sangue que ela perdeu e às paradas cardíacas que sofreu. Estamos monitorando o funcionamento dos rins de hora em hora para evitar qualquer problema posterior. Eu acabei de pedir um hemograma completo, eletrólitos, ureia, creatinina, gasometria arterial e lactato sérico. O neurologista vai avaliá-la depois que os resultados desses exames saírem para tentar encontrar uma resposta mais precisa para o seu estado de coma, embora saibamos que é, provavelmente, devido às paradas cardíacas. – Ela explicou, segurando em minhas mãos e eu suspirei, fechando os olhos por um momento.

− Qual o grau de coma na Escala de Glascow? – Eu perguntei e Edward me olhou confuso, certamente achando complicado entender os termos médicos que Suzana e eu estávamos usando naquela conversa.

− Ela foi avaliada como grau 5, o que não é tão ruim. – Ela falou e eu bufei, revirando os olhos. Claro que era ruim. Qualquer valor abaixo de 7 naquela escala significava estado comatoso grave. Suzana sabia disso tão bem quanto eu. − Bella, nós não sabemos se os danos cerebrais foram sérios ou mesmo se aconteceram. A tomografia está normal e o teste de pupila também. Portanto, o que nos resta agora é monitorá-la para que o quadro continue estável. Ela foi socorrida rapidamente e é uma menina jovem e saudável. Vamos nos apegar a essa realidade e fazer tudo o que está ao nosso alcance para mantê-la viva e bem. É uma promessa. – Suzana falou e eu assenti, recostando-me no ombro de Edward e sentindo como se o mundo todo estivesse sobre os meus ombros.

− Meus pais estão a caminho de Los Angeles, Dra. Cooper. Minha mãe e meu pai querem avaliar pessoalmente o quadro cerebral de Sofia. – Edward falou e Suzana sorriu.

− Eles serão muito bem vindos, Edward. Nesse momento, toda a ajuda é excelente. Agora, eu tenho que ir. Vejo vocês mais tarde. E Bella... – Ela me chamou e eu a encarei. – Sua entrada na UTI está liberada. Vá ficar um pouco com a sua filha. Tenho certeza que isso te fará bem. – Suzana falou e eu assenti, sentindo novas lágrimas escorrerem pelo meu rosto enquanto minha chefe se afastava pelo corredor.

− Eu vou até a UTI. Preciso ver com os meus próprios que Sofia está mesmo viva. – Eu falei, levantando-me e Edward me acompanhou.

− Tommy e eu estaremos aqui te esperando. Seja forte, meu amor. Sofia precisa da sua firmeza agora. – Ele falou, beijando minha testa e eu respirei fundo, seguindo em direção à UTI.

A cena que eu encontrei lá partiu meu coração em mil pedaços. Sofia estava pálida, entubada e ligada a uma série de aparelhos, que monitoravam todos os seus sinais vitais. Em nada ela me lembrava à menina alegre e sorridente que era minha companheira e o maior amor da minha vida há mais de quinze anos.

Eu me aproximei da sua cama e beijei sua testa e quando eu percebi que ela estava quente e respirando, eu comecei a chorar outra vez. Apesar de tudo, ela ainda estava viva e isso me trazia um alívio imenso, mesmo eu sabendo que seu quadro clínico era bastante complicado.

− Oi, meu amor. – Eu sussurrei, acariciando seu rosto e querendo mais do que nunca poder abraçá-la. – Volta pra mamãe, Sofia, por favor! Eu não sei viver sem você, meu amor. Eu não consigo existir em um mundo onde você não existe. É impossível. Não está na hora de você me deixar aqui, filha. Eu vou me casar em breve e quero que você esteja no altar ao meu lado. Eu quero assistir a sua formatura na escola e vibrar com você quando suas cartas de admissões nas universidades começarem a chegar. Eu quero que você tenha a sua primeira vez com o Tommy e me faça enlouquecer ao me preocupar com a possibilidade de você estar se cuidando ou não. Eu quero estar com você no primeiro dia de aula em Harvard, porque eu sei que é para lá que você vai, e quero estar lá também quando você pegar o seu diploma. Ah, meu amor... Eu quero ser a avó dos seus filhos. E lembra-se daquela viagem para a Europa que estamos sempre planejando? Precisamos realizá-la. Londres, Paris, Amsterdã, Madrid. Você disse que queria fazer um tour comigo por todos os lugares que já foram cenários dos seus livros favoritos e nós podemos ir. Eu ganhei um aumento agora que sou uma médica titular. Teremos dinheiro suficiente até para nos hospedarmos em bons hotéis. Albergues nunca mais. Não queremos outro incidente como àquele no México, não é? – Eu sorri entre lágrimas ao me lembrar do dia em que encontramos um casal bastante animado fazendo sexo selvagem em nosso quarto em um hostel em Cancun e desejei poder ver Sofia corar e rir como sempre acontecia quando essa história era mencionada. – Acorda, princesa. Edward me disse que foi você que orientou Tommy quanto ao estancamento da hemorragia e o torniquete. Eu estou tão orgulhosa, Sofia. Você vai querer ser médica como a mamãe?

− E ela será uma ótima médica. – Eu ouvi a voz de Esme e me virei para a entrada da UTI, onde ela observava emocionada o meu monólogo com Sofia. – Vem aqui, querida. Deixa eu te dar um abraço de mãe. – Ela falou e eu me aninhei em seus braços, voltando a chorar.

− Sofia precisa acordar, Esme. Eu preciso que minha filha fique bem.

− E ela vai ficar. Carlisle e eu vamos nos reunir com os médicos que cuidaram dela e pensar na melhor forma de trazer nossa menina de volta. Confie em nós. – Ela falou, beijando meu rosto e eu suspirei, encarando-a com carinho.

− Obrigada por terem vindo. – Eu murmurei e ela sorriu, enxugando minhas lágrimas.

− Eu soube do atentado pelo noticiário. Rosalie e Edward não entraram em contato até ter a certeza de que Ethan e Antony estavam mesmo bem. Mas, aí, Mia nos ligou aos prantos e disse que Sofia havia sido baleada e que seu estado era grave. Nós nem pensamos e pegamos o primeiro voo para cá. Sofia também e nossa neta e se ela precisa de assistência, aqui estamos para ajudá-la.

− Mia ligou para vocês? – Eu perguntei, surpresa com aquela informação e Esme sorriu assentindo.

− Sim. Ela nos ligou e pediu para que viéssemos ajudar a irmã dela, já que o avô e eu, segundo ela, somos os melhores médicos do universo depois da mamãe. – Esme contou, piscando para mim e eu sorri, sentindo meu amor por àquela criaturinha crescer um pouco mais, se é que era possível.

− Mia é incrível. Ela se apaixonou por Sofia desde a primeira vez que colocou os olhos sobre minha filha.

− Sofia é totalmente apaixonante, Bella. Meu neto também é louco por ela. Tão louco a ponto de furar um isolamento policial e invadir uma escola para resgatar a namorada.

− Tommy foi um herói ontem. E mesmo sabendo que ele não devia ter se arriscado tanto, eu sempre serei grata pela sua coragem. Se não fosse isso, Sofia estaria morta agora. – Eu falei com a voz embargada e Esme sorriu, me abraçando outra vez.

− Você está proibida de pensar em morte, Bella. Sofia vai sair dessa. Agora, volte para a sala de espera. Tem alguém lá que quer muito te ver. – Ela falou e eu franzi o cenho.

− Quem? – Eu perguntei curiosa e ela sorriu.

− Vá até lá e descubra. Enquanto isso, fique tranquila. Sofia está em boas mãos. – Ela falou e eu assenti, voltando para a sala de espera após dar mais um beijo em minha filha.

E, para minha surpresa e descontentamento, Renée me esperava lá. Edward e Tommy não estavam à vista e eu desconfiei que minha mãe fora deixada sozinha ali propositalmente.

− O que você está fazendo aqui? – Eu perguntei seca e ela me encarou com um olhar culpado e triste.

− Charlie e eu ficamos sabendo do atentado pela televisão. Mas, Lara nos ligou e disse que Sofia estava muito mal, pois tinha sido atingida. Seu pai e eu precisávamos ver a nossa neta para ter certeza de que ela estava viva e que ficaria bem. – Renée falou chorosa e eu não consegui acreditar que aquela preocupação era dedicada à Sofia. Minha mãe certamente estava falando de Lara, sua única neta.

− Lara está ótima, Renée. Ela saiu ilesa do atentado de ontem. – Eu falei ríspida e ela enrubesceu, me olhando ressentida.

− Eu estou me referindo à Sofia, Bella. – Ela murmurou e eu bufei, revirando os olhos.

− Não subestime minha inteligência, Renée. Você nunca se importou com Sofia. Odiou minha filha no momento em que soube que eu estava grávida. No dia em que Sofia nasceu você disse aos médicos que ela seria dada para a adoção. Você chegou a cuidar dos documentos e a selecionar famílias, mesmo sabendo que minha intenção era mantê-la ao meu lado. Você nunca gostou de tomar conta dela para que eu pudesse trabalhar aos finais de semana. Sempre a tratou com frieza e desprezo. Portanto, não venha agora posar de avó preocupada, pois você não vai me convencer. Nem hoje e nem nunca. – Eu falei ríspida e Renée começou a chorar, sentando-se em uma cadeira e colocando o rosto entre as mãos.

− Eu sei que fui uma avó horrível. Mas, eu tinha medo de me apegar à menina e você a levar embora. Além disso, eu tinha vergonha por você ter engravidado aos quinze anos, Bella. Todo mundo em Forks falava de você.

− Eu quero que a população de Forks e o seu modo de vida medieval vão para o inferno. Nunca me importei com o que eles pensavam ao meu respeito e você tão pouco devia ter se importado. Eu era sua filha e independente dos meus erros, você devia me apoiar. É isso que as mães devem fazer. Eu sabia que engravidar tão jovem não era algo bom, mas já estava feito. Sofia já existia e já era sua neta. O mínimo que você devia ter feito era tê-la amado como ela merecia. – Eu falei e Renée chorou ainda mais, o que quase me fez sentir pena. Quase, pois depois de tudo o que eu vivera desde o momento em que minha filha fora atingida com um tiro, eu não conseguia sentir pena de ninguém além de mim mesma.

− Eu odeio Forks. – Minha mãe falou de repente e eu a olhei surpresa. Que história era essa agora? – Eu sempre odiei Forks e o que eu mais desejava na vida era poder sair de lá um dia e viver em um lugar que não chovesse trezentos dias por ano. Mas, quando eu estava com dezesseis anos conheci o seu pai, me apaixonei e fiquei grávida do seu irmão. Charlie é a pessoa mais provinciana que eu conheço e jamais aceitou arredar o pé daquela cidade. E nem poderíamos, já que ele ganhava muito pouco na polícia e eu não podia contribuir, pois não havia nem mesmo terminado a escola. Quando nossa situação financeira melhorou um pouco, eu engravidei de você. Eu tinha voltado a estudar e quando me descobri grávida, quis fazer um aborto. Mas, seu pai descobriu e, claro, não permitiu. Ele é religioso demais para isso. – Ela falou e eu sorri amargamente ao ouvi-la expressar o desejo de não me deixar nascer. Porque àquilo não me surpreendia? – Você nasceu e só quando já estava com cinco anos eu pude concluir os estudos. Fiz faculdade por correspondência e comecei a dar aulas de artes na escola local, sempre sonhando que meus filhos tivessem todo o que eu não pude ter. Eu queria que o céu fosse o limite pra vocês, Bella. Mas, aí, você e Jasper se tornaram pais quase ao mesmo tempo. Eu quis morrer. Não por odiar a ideia de vocês terem filhos, mas porque eu sabia que, assim como eu, meus filhos acabariam presos em Forks e seriam infelizes e frustrados como eu era. Mas, aí, Jasper conseguiu um bom emprego em Seattle, casou-se com Alice e, juntos, eles estavam construindo uma vida confortável e estável. Fora de Forks. Não era exatamente como eu tinha sonhado, mas pelo menos Jasper não estava preso naquele fim de mundo. Já você... – Ela falou, fechando os olhos e eu chorei ao me lembrar daquela época. – Eu sempre detestei Jacob. Eu o achava desprezível. Seu pai o tinha em alta conta por ele ser filho de Billy e Sarah, mas eu não o suportava. Quando vocês começaram a namorar, eu fui terminantemente contra. – Ela falou e eu assenti. Realmente ela sempre odiara Jacob Black e chegara a me ameaçar com castigos várias vezes para que eu não me encontrasse com ele. – Você era tão linda e inteligente, Bella. Eu sabia que com o seu esforço e com a ajuda da sua memória fotográfica você se tornaria, de fato, uma grande cirurgiã. Mas, aí você engravidou. Eu sabia que aqueles enjoos, cansaço extremo e sono exagerado não tinham nada a ver com o surto de mononucleose que estava tendo na cidade. Você estava grávida e, naquela época, eu te odiei por você ser tão burra a ponto de se deixar engravidar por um cara tão escroto como o seu namoradinho de merda. – Ela falou com raiva e eu engoli em seco, me sentando ao seu lado em silêncio para terminar de ouvir sua história. – Eu quis que você abortasse. Cheguei a te implorar para que fizesse isso. Mas, quando Jacob pagou aquelas meninas para te agredirem, eu surtei e exigi que seu pai o prendesse. Charlie resistiu, mas depois de eu ameaçar jogar sua preciosa tela plana no chão, ele finalmente deu voz de prisão ao escroto do Black.

− Jacob foi preso? Como eu nunca fiquei sabendo disso? – Eu perguntei surpresa e Renée sorriu amargamente, rodando sua aliança de casamento no dedo.

− Billy, depois de discutir com o seu pai, conseguiu libertá-lo sobre fiança e Jacob desapareceu sem deixar vestígios. A família Black virou as costas para nós, mesmo sabendo que o bebê que você esperava também era parte deles e, depois disso, Charlie e eu fizemos votos para não tocar mais no nome de Jacob. Seria melhor assim. Quando soubemos que você e o bebê ficariam bem, eu comecei a traçar planos para convencê-la a entregar àquela criança para adoção. Bella, entenda que você tinha apenas quinze anos e nenhuma condição psicológica ou financeira para tornar-se mãe. Mas, você era tão teimosa. Ainda é e se recusou terminantemente a se separar da sua filha. E eu vi com tristeza você começar a trabalhar em um café, dividindo seu tempo entre a escola, o trabalho e Sofia. Eu já te imaginava enterrada naquela cidade para sempre e senti muita raiva por você ter sido tão burra a ponto de jogar o seu futuro brilhante no lixo por causa de um namorado estúpido. E... Bem, eu sentia raiva de Sofia também. Você a amava tanto e ela estava atrapalhando sua vida. – Renée falou, sussurrando a última parte e eu suspirei, olhando-a ressentida.

− Sofia nunca me atrapalhou, Renée. Pelo contrário. Ela veio apenas para completar minha vida e me fazer feliz. – Eu falei e minha mãe sorriu tristemente, me olhando de soslaio.

− Eu sei disso. Hoje. Mas, naquela época tudo o que eu conseguia enxergar era uma criança que estava atrapalhando o futuro que eu tinha imaginado pra você. – Ela declarou e eu revirei os olhos.

− Mãe, foi por Sofia que eu cheguei onde estou. Foi pela minha filha que eu estudei igual a uma louca para conseguir boas notas e entrar em uma faculdade de renome. Foi por ela que eu passei acordada madrugadas inteiras para estudar para os exames da faculdade, mesmo que no outro dia eu tivesse que estar de pé para ajudá-la com os deveres, levá-la à escola ou simplesmente sorrir para ela. Foi por Sofia que eu enfrentei plantões de oitenta horas durante a residência, trabalhando na emergência dias seguidos para ter dinheiro suficiente para lhe dar um bom presente no natal. Foi por minha filha que eu quis entrar em uma especialização cirúrgica, pois eu sabia que o salário era bom e eu garantiria a faculdade dela. Los Angeles só foi possível porque eu prometi à Sofia, na primeira vez que a tive nos braços, que nós duas moraríamos em um lugar ensolarado e próximo à praia. Tudo o que deu certo na minha vida aconteceu por ela e por causa dela. Sofia nunca foi um empecilho para mim e não devia ter sido para você também. Tudo o que ela queria era ser amada pelos avós como Lara era. – Eu falei com ressentimento e Renée chorou, me encarando com uma expressão arrependida no rosto.

− Eu amo Sofia. Pode não parecer, mas eu gosto dela. Charlie também.

− Mãe, você nunca nem sequer abraçou minha filha. – Eu falei com raiva e Renée fungou, me encarando envergonhada.

− Não. Mas, agora você conhece meus motivos. – Ela falou com tristeza e eu suspirei, me afastando de Renée.

− Você tinha raiva dela por achar que ela estava atrapalhando o meu futuro. – Eu concluí e Renée assentiu, me encarando com os olhos vermelhos.

− Isso. E quando você foi alcançando um a um dos seus objetivos e realizando os seus sonhos, eu senti inveja de você. – Ela falou envergonhada e eu a olhei incrédula.

Inveja? De mim?

Como diabos isso era possível?

− O que? – Eu perguntei em um fio de voz e ela sorriu amargamente.

− Isso mesmo que ouviu. Eu senti inveja. Até dos seus muitos namorados. Eu só conheci um homem em toda minha vida, Bella. E... Bem, Charlie e eu nem transamos mais. E isso já faz anos. E você era tão liberal nesse departamento. Teve muitos namorados e correu atrás da sua felicidade até encontrar o homem certo. Edward é o homem certo. – Ela falou e eu sorri ao pensar em meu noivo. Renée tinha razão quanto a isso. Edward era o homem certo para mim.

− Renée, minha vida amorosa até Edward foi um completo desastre. Não tem como sentir inveja disso. – Eu falei, ainda surpresa com aquela informação, e minha mãe sorriu amargamente.

− Mas, pelo menos você teve uma vida amorosa, Bella. Eu nem isso. – Ela se lamentou e eu suspirei, não sabendo o que dizer a ela depois de tudo o que eu ouvira. Minha cabeça estava dando voltas. − Houve um homem uma vez. Phil Dwyer. Ele era treinador do time de baseball na escola em que eu lecionava e eu o achava incrível. Ele era tão lindo, divertido e viril. Uma alma livre tão diferente do seu pai. Nós nos apaixonamos e chegamos até a trocar alguns beijos e carícias, mas eu não tive coragem de ir para cama com ele. Não ainda estando casada com o seu pai. Phil era do Arizona e, depois de um ano em Forks, quis voltar para sua cidade e me convidou para ir com ele. Eu juro que fiquei tentada. Mas, eu tinha vocês. Você e seu irmão dependiam de mim para ter um futuro e saírem de Forks e eu não podia abandoná-los. Então, eu fiquei. E aí, você estragou sua vida ao engravidar de Jacob. Você pode imaginar como eu me senti? – Ela me perguntou e eu chorei. Sim, eu conseguia imaginar como ela se sentiu. E eu me odiei por isso. − Eu desisti de um amor por meus filhos e você estragou tudo ao se apaixonar e se entregar para o idiota do Black, que te engravidou e te abandonou sozinha naquele fim de mundo. Entenda que eu não podia adivinhar que você conseguiria realizar os seus sonhos e ter sucesso profissional e financeiro fora de Forks. E quando você conseguiu tudo isso, já era tarde demais para eu tentar recuperar minha relação com você e Sofia. Já havia muito ódio, raiva e ressentimento. Mas, agora, Sofia está à beira da morte. Minha neta está indo embora e eu não posso deixar que isso aconteça sem que ela saiba que eu a amo. – Minha mãe falou com lágrimas escorrendo por seu rosto e eu chorei com ela. − Sofia me faz lembrar tanto de você. Fisicamente e no jeitinho meigo e decidido de ser. E é claro que eu a amo. Ela é um pedacinho de você. Um pedacinho lindo da minha filha, a quem eu amei e por quem eu abdiquei do meu verdadeiro amor. Eu sei que nada pode apagar tudo o que vivemos, toda a mágoa e todas as palavras cruéis que eu disse a vocês duas. Mas, eu estou arrependida e quero que você me perdoe. Eu quero ter a oportunidade de me desculpar com Sofia e se a avó que ela merece. Eu prometo jamais fazê-las sofrer outra vez. Serei a mãe e a avó mais perfeita do mundo. Tudo o que eu quero é apenas mais uma chance. – Renée falou soluçando e eu não me contive e a abracei. Que se dane tudo o que tinha acontecido. Que se dane o ódio e toda a mágoa. Minha filha estava morrendo e eu precisava do apoio da minha mãe. Eu precisava me sentir amada e protegida por ela. – Ah, meu amor, como é bom abraçá-la. – Ela murmurou, me apertando em seus braços e eu chorei ainda mais.

− Eu não posso perder minha filha, mãe. Eu não posso. – Eu falei soluçando e Renée segurou meu rosto, fazendo com que eu a encarasse.

− Ela não vai morrer, Bella. Sofia vai sair dessa e você terá a chance de abraçá-la outra vez, assim como eu. Ela vai voltar para nós, Bella. Ela vai voltar. – Minha mãe falou com confiança e eu assenti, abraçando-a mais uma vez.

Quando Charlie chegou à sala de espera, Renée e eu ainda estávamos abraçadas e, pela primeira vez na vida, eu vi meu pai dar um sorriso largo e verdadeiro.

− Que bom que se entenderam. – Ele falou e eu me levantei e me aconcheguei em seus braços, pois, naquele momento triste, eu precisava também do seu apoio. – Sofia vai ficar bem, Isabella. Minha neta é uma lutadora e vai sair dessa sem nenhuma sequela. Eu tenho fé. – Ele falou confiante e eu sorri entre lágrimas, torcendo para que a fé do meu pai realmente alcançasse um milagre e devolvesse minha filha saudável para mim.

Eu contava com isso para continuar vivendo.

**********

Edward ficou radiante em saber que minha mãe e eu tínhamos finalmente conversado e que estávamos a caminho de um entendimento. Desde o jantar na casa de Alice, ele insistia para que meus pais e eu voltássemos a nos falar. Edward tinha uma família maravilhosa e simplesmente não conseguia entender como eu podia me manter tão longe da minha. Mas, minha relação com Renée sempre fora complicada e apenas hoje, depois de tudo o que ela me contara, é que eu pudera entender melhor a forma como eu sempre fora tratada por ela durante todos esses anos.

− É em momentos assim que entendemos que não vale a pena guardar ressentimentos das pessoas próximas a nós. Se Sofia tivesse... Bem, se Tommy não tivesse tirado ela a tempo da escola, Renée jamais se perdoaria por não ter tido uma boa relação com a neta enquanto tivera oportunidade. – Edward falou, enquanto rodava a aliança de noivado em meu anelar direito e eu sorri tristemente.

− Eu só espero que minha mãe tenha a oportunidade de dizer, olhando nos olhos da neta, que a ama e que quer ter uma boa relação com ela.

− Ela vai ter, meu amor. Ela vai ter. – Ele falou, beijando meu rosto e eu suspirei, me recostando em seu ombro e fechando os olhos por um momento, na vã esperança de que minha dor de cabeça melhorasse.

Mas, eu sabia que ela só melhoraria quando eu tivesse minha filha em meus braços outra vez.

Já era noite quando Carlisle e Esme vieram até a sala de espera para conversar comigo. Durante o dia, eu tinha ido até a UTI para ficar com minha filha outra vez. Consegui uma liberação para que Tommy, Lara e meus pais a visitassem e o sofrimento deles ao ver a minha filha naquele estado apenas intensificava a minha angústia.

Eu já não aguentava mais esperar por uma boa notícia.

− Bella. – Esme me chamou e eu me levantei imediatamente.

− Como ela está? – Eu perguntei aflita e Esme suspirou, me fazendo sentar novamente.

− Bella, Sofia passou por um grande trauma na tarde de ontem. Mas, isso você sabe. A Dra. Cooper nos disse que te colocou a par de cada detalhe do tratamento da sua filha. Além disso, tenho certeza de que você deu uma espiada no prontuário dela. – Esme falou e eu corei, pois sim, eu tinha me aproveitado do fato de ser médica ali para estudar o prontuário de Sofia enquanto estivera com ela na UTI. – Bem, para nossa sorte, meu marido, seu sogro, é um neurologista fantástico e já tratou de muitos casos parecidos com o de Sofia. Fizemos outra TC de crânio esta tarde e constatamos que a atividade cerebral da nossa menina estava normal. Fizemos alguns testes e bem...

− O que? – Eu perguntei ansiosa, enquanto mais lágrimas desciam por meu rosto e Esme sorriu, as enxugando.

− Venha conosco, querida. Você também Tommy. – Carlisle pediu, nos conduzindo até a UTI e eu agarrei a mão de Edward, trazendo-o comigo. Se algo grave tivesse acontecido com Sofia, eu precisaria do seu apoio incondicional para não desmoronar.

Quando chegamos à UTI, a primeira coisa que notei era que o tubo endotraqueal havia sido removido. Fiquei com medo de que isso indicasse o óbito da minha menina. Os aparelhos estavam ligados, mas, para ter certeza de que ela estava viva, eu a toquei. E foi nesse momento que ela abriu os olhos pra mim, me fazendo arfar de surpresa e imensa alegria.

− Mamãe... – Ela sussurrou e eu chorei alto, me agarrando a ela e desejando nunca mais precisar soltá-la.

− Meu amor, você voltou pra mim. – Eu murmurei, beijando seu rosto em vários lugares e ela sorriu fracamente.

Tommy chorava de alívio agarrado ao pai e Esme e Carlisle nos observavam com imensos sorrisos estampados em seus rostos.

Sofia acordara. Ela saíra do coma e voltara pra mim, fazendo com que àquele pesadelo finalmente acabasse.

− Não vai ser fácil se livrar de mim, Isabella Swan. – Ela sussurrou levemente divertida e eu sorri aliviada, beijando seu rosto mais uma vez e torcendo para não acordar e descobrir que o som da sua voz era apenas fruto da minha imaginação.

− Eu jamais vou querer me livrar de você, meu amor. Jamais. – Eu falei sorrindo e sentindo meu coração bater inteiro no peito outra vez.

Notas finais
Oi, pessoas! É claro que eu não ia matar Sofia. Ela é importante para a história e eu jamais faria Bella e Tommy sofrerem assim. Mas, eu precisava desse acontecimento na história para que Bella e Renée se entendessem. Além disso, como eu disse ontem, a vida não é sempre cor de rosa. Tragédias acontecem a todo momento. O importante é que nossa menina vai se recuperar. Espero que tenham gostado, apesar de toda angústia e sofrimento. E como postei um capítulo por dia essa semana, o mínimo que eu mereço é uma enxurrada de comentários, pois a opinião de vocês é essencial para a continuação da fic. Aliás, eu estou adorando escrevê-la. Até o capítulo 33, então! Beijos!