Laços da Magia
4 Capítulo III
Notas iniciais
Capítulo III
— Conte-me como é lá fora — pediu Alina ao seu irmão.
Henry narrou como foi passar dois anos perto da fronteira do reino para treinar como um soldado. Ele contou como seu treinamento era rigoroso, mas que logo havia se adaptado aquela rotina. Havia aperfeiçoado sua forma de lutar com as espadas e também o combate corporal. O garoto falou sobre as belas paisagens compostas por florestas, rios e montanhas existentes no reino e sobre como era a aldeia onde os plebeus viviam. A princesa ouvia tudo maravilhada e imaginava como queria olhar aquilo pessoalmente.
— Então, fiquei sabendo do casamento e retornei imediatamente. Afinal, não poderia perder esse momento tão importante da minha única irmã. Mas não parece muito animada com o fato de estar casada — observou o garoto.
Alina soltou um longo suspiro antes de responder.
— Conhece o rei Richard? — Henry balançou a cabeça negativamente.
— Pois bem — continuou a princesa — Aquele homem tem idade para ser meu avô e aprecia demais as bebidas. Também tenho a impressão de que ele compartilha das ideias de nosso pai de que a melhor opção será manter-me trancada no castelo. Tenho certeza que ele contou ao rei Richard minha tendência para desobedecer ordens.
— Se este rei a desagrada tanto assim — disse o garoto — Então, como pôde aceitar tal proposta?
A garota riu amargamente com a ingenuidade do irmão mais novo.
— E que escolha eu teria, Henry? Conhece o nosso pai e a forma como ele pensa. Eu não tenho o direito de recusar. Se ele aceitou a proposta tenho que me casar sem questionar. Eu até tentei argumentar, mas obviamente não fui ouvida.
— Isso não é justo, Alina — disse o garoto revoltado com o relato da irmã — Sinto muito que tenha passado por tudo isso aqui sozinha.
— Eu sei, meu irmão. Mas sabe que apenas o fato de eu ter nascido mulher faz com que eu perca qualquer direito de escolher com quem me casar.
— Eu queria poder estar aqui para ajudá-la — lamenta Henry.
— Não tem culpa que nosso pai o mandou para longe.
— Mas eu deveria ao menos ter tentado ficar e não apenas ter aceitado partir.
— Era uma criança, Henry — Alina segura a mão do irmão com a intenção de confortá-lo — Nenhum de nós possui culpa do que aconteceu, mas agora o importante é que está aqui e olha só para você — fala orgulhosa — Está um rapaz agora.
— E ainda mais bonito — brinca o garoto.
— Vejo que ainda continua um convencido, meu irmão — Alina ri.
— Certas coisas não mudam — concorda Henry — Mas agora que já sabe de todas as minhas aventuras fora dos muros do castelo gostaria de saber porque nosso pai a trancou no quarto e que plano é esse que está tramando.
— Certo, irei lhe contar tudo — a princesa endireita os ombros e começa a narrar os acontecimentos daquela manhã.
Alina conta sobre o julgamento que fugiu para assistir da jovem culpada de ser uma bruxa e sobre a acusação que fez contra o rei diante de toda a corte. Sobre como seu pai a repreendeu por aquele ato e de que a proibiu de deixar o quarto até a data do casamento. Também que Miriam não poderia ser mais sua criada e que quando a princesa o confrontou o rei a agrediu.
— Como ele ousa bater em você? — grita o garoto.
— Fale mais baixo, Henry — a princesa pede temerosa — Os guardas podem ouvir.
— Peço desculpa, Alina — fala arrependido por se exaltar.
— Tudo bem, meu irmão — assegura a garota — Ainda tenho que contar algo. Após esse episódio com o rei pensei em um plano para impedir o casamento e preciso de sua ajuda.
— No que precisar, minha irmã — garante Henry e começa a prestar a atenção nas palavras da princesa.
O plano que Alina falou para o irmão mais novo consistia em ir até a masmorra e convencer Tessa a contar tudo o que sabia sobre o rei. Inclusive a garota queria saber detalhadamente sobre a tal acusação de assassinato e se isso fosse realmente concreto a princesa pretendia chantagear o pai e propor uma troca justa: o cancelamento do casamento em troca de seu silêncio. Era algo realmente muito perigoso, mas se aquela fosse a sua única chance de impedir que se casasse com aquele rei bêbado ela faria. Alina estava cansada de tomarem as decisões por ela e estava na hora de tomar as rédeas de sua vida.
(....)
Estarei morta antes do nascer do sol.
Esse foi o primeiro pensamento de Tessa ao abrir os olhos. Em algum momento da noite começou a nevar e ela estava usando apenas um simples vestido verde. A masmorra do castelo era extremamente fria e úmida e a única tocha acesa estava a metros de distância. Um guarda estava no final do corredor fazendo sua vigia. Como se ela pudesse realmente sair dali com as mãos acorrentadas e passar pelas grossas grades de ferro. Eles não lhe deram nem água ou comida naquelas horas que estava presa. Mas a fome já era sua velha amiga e a garota já nem prestava a atenção na dor em seu estômago.
Tessa naquela manhã havia apenas planejado uma curta viagem à aldeia para buscar alguns mantimentos e voltar para casa em segurança. Ela sempre evitava ir até lá, mas pensou que nada poderia acontecer naquele dia. Se a garota soubesse que encontraria o homem que destruiu sua vida e que estaria presa jamais teria colocado o pé para fora de casa.
A garota estava no mercado prestes a ir embora quando viu a mulher desesperada chorando. Tessa observou quando ela correu até a banca do marido dizendo que sua filha estava morrendo. O terror invadiu os olhos do homem e seguiu a mulher para casa deixando o estabelecimento aos cuidados do empregado.
Tessa sabia que deveria ignorar e seguir o seu caminho. Quando era pequena sua mãe sempre dizia para ela evitar chamar a atenção. A garota acatou esse conselho durante todos aqueles anos, mas naquela manhã decidiu ignorar isso. Sentiu o desespero daquela mãe ao ver sua filha morrer e simplesmente não conseguiria ir embora sem tentar ajudar. Foi na direção da casa que o casal entrou e suspirou antes de bater na porta.
Aquilo era uma péssima ideia.
A mulher a recebeu com o rosto banhado em lágrimas e Tessa percebeu a desconfiança quando terminou de oferecer a sua ajuda. Mas foi autorizada a entrar e olhar a menina. Foi conduzida até o quarto onde estava a criança, mas antes mesmo de aproximar-se Tessa já sabia que ela já estava morta.
Os momentos a seguir aconteceram rapidamente. Tessa pronunciou a notícia aos pais e tudo que recebeu foi um olhar de ódio do casal e acusações de ser assassina. O homem a arrastou para fora da casa e logo a multidão foi se aproximando para ver o espetáculo. Não demorou muito para os guardas chegarem e levar Tessa para o castelo acorrentada.
A garota sentia que estava perto do amanhecer e que logo sua sentença seria aplicada.
Desculpe-me, mãe. Foi seu último pensamento antes de fechar os olhos.
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