Laços Quebrados
2 Manuela.
Manuela
"Quando eles entraram era tarde demais. Manu podia ouvir o barulho dos objetos sendo quebrados.
–Vamos querida. Faça. – disse a mulher de cabelos ruivos.
–Não mãe. Eu não posso...
–Você vai fazer, porque eu estou ordenando. — disse a mulher brava.
A garota puxou a adaga e posicionou a arma diante do peito da mãe.
–Certo. – disse a filha enxugando as lagrimas.
A espada penetrou no coração da mulher e Manu viu o sangue da mãe escorrer pela boca e os olhos começarem a ficar opacos.
–Obrigada. Eu te amo. — a mãe disse sorrindo para a filha.
Os cães e os pumas negros entraram no quarto. Como se fosse algo normal, eles se transformaram em humanos.
–Venha criança. Se torne uma de nós. Seja invencível.
–Nunca. – apontou a espada para eles, mas a arma não era o suficiente para derrotar todos.
–Então, você irá morrer. – disse o homem de cabelos negros desfazendo o sorriso que a pouco estava em seus lábios.
A maga se ajoelhou. O único modo seria invocar magia, o que fez o homem rir.
–Sua magia pode ser poderosa, mas não para derrotar todos.
Ela fechou os olhos, mas não teve tempo de fazer nada por que algo muito poderoso adentrou a casa."
Manuela acordou assustada, desceu as escadas e viu a mãe cozinhando. Abraçou-a forte, como se isso pudesse impedir o sonho de acontecer.
–O que foi querida?
–Nada. Só estou feliz em te ver.
A mulher sorriu. Manuela olhou para a mãe: ela tinha longos cabelos ruivos que caiam pelos ombros, seus olhos castanhos refletiam bondade e seu vestido azul simples a fazia parecer uma mulher comum. Mas, quem a conhecia sabia que ela possuía status. O motivo de se vestir daquele modo e não possuir nenhum servo era que Sara fora criada em uma vida de luxo e facilidades e havia se cansado daquilo. Por isso as duas viviam sozinhas em casa, só com o auxilio da magia.
–Hoje não é aniversario de seu irmãozinho?
–Sim. Mas do que adianta se meu pai não permite que eu o veja?
–Talvez você deva pedir permissão agora. — disse Sara.
A menina olhou para trás e viu um homem de pele morena, cabelos negros e olhos cinza.
–Pai.
–Venha. Quero falar com você.
Ela fez uma reverencia e eles se dirigiram para o jardim.
–O que deseja senhor?
Rodrigo a olhava seriamente. Mas a garota já estava acostumada com o olhar frio do pai. Queria lhe contar o sonho, mas sabia que o pai não a escutaria, ou nem se importaria.
–Vim lhe avisar que talvez você seja uma das escolhidas para a busca.
–A busca pela pedra? Por quê?
–Não questiono o desejo dos deuses. Acho que eles querem ter um grupo mais forte dessa vez.
–Não compreendo...
–Miguel foi escolhido.
–Entendo. Falando nisso... — hesitou- Pai, como Miguel está? Hoje é aniversario dele, não?
Rodrigo a olhou de maneira mais seria do que antes (se é que é possível).
–Você não tem nada a ver com isso. O esqueça.
–Tenho sim. — disse firme. -Miguel é meu irmão mais novo. Ele precisa de mim, de alguém que lhe mostre amor. Algo que nem o senhor, nem a rainha o dão.
A filha sentiu a mão pesada do pai esbofetear-lhe o rosto, deixando uma marca avermelhada no local.
–Nunca mais tente opinar no modo que crio um filho meu. Você não sabe de nada. – disse ele bravo. – Elliot virá falar com você.
Antes que Manu pudesse dizer algo, o pai já havia ido embora.
–O que seu pai queria? O que aconteceu com seu rosto? – pergunto Sara preocupada.
–Isso não foi nada. Ele veio me falar sobre a busca da pedra.
–Isso é ótimo. Mas porque ele te bateu?
Sua mãe a olhou com uma expressão descontente. Ela e seu pai não se amavam mais. Já fazia 18 anos que seus pais não possuíam mais nenhuma ligação afetiva. Na ultima vez que Manu viu-os trocar um beijo foi quando tinha 7 anos.
–Perguntei a ele sobre Miguel e disse-lhe que deveria dar-lhe mais amor. Vossa Majestade não gostou nem um pouco.
–É perigoso mexer com esse tipo de coisa, filha.
–Eu sei. Mesmo assim, tenho algo a fazer.
Subiu as escadas e entrou em seu quarto de paredes claras. O espelho mostrava seu reflexo, a pele morena, os cabelos ruivos como o da mãe e os olhos cinza do pai e um rosto que aparentava ser de 16 anos, mas na verdade possuía 25. Retirou a camisola que ainda vestia e colocou um top azul escuro, calça até as canelas preta e as botas marrons. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e desceu as escadas.
–Mãe, vou sair.
–Aonde vai?
–Ver meu irmão.
Quando saiu da casa, um cavalo branco de crina prateada se aproximou dela. A menina acariciou seu focinho e montou no animal.
–Vamos amigo. Você sabe aonde devemos ir.
Como se entendesse o recado, o cavalo galopou pele floresta. Mas de repente, algo o fez cair e derrubar sua amazona.
–Você não deve ir até lá neste momento, princesa.
Manuela olhou com raiva para a dona da voz. Era uma garota de aproximadamente 12 anos, com cabelos e olhos verdes. Usava um simples manto verde, para cobrir o corpo.
–Quem é você? – perguntou com raiva.
–Me chamo Nimue. Venha comigo. Preciso lhe mostrar algo.
–Não. Vou embora. — se levantou furiosa.
–A pata de seu cavalo está machucada e sua magia não funciona aqui. Somente eu posso curá-lo.
A filha do rei de Rever olhou a pata de Haron. Uma flecha esverdeada atravessava o local. Realmente era difícil curar.
–Está mentindo sobre minha magia. É claro que funciona.
Assim se aproximou do animal e retirou a flecha. Mas quando foi curar o ferimento, nada aconteceu.
–Como?
–Eu lhe avisei. – retrucou Nimue.
A ruiva não confiava na menina. A garotinha havia quebrado a pata de seu cavalo, alem de ser muito estranho, o fato dela parar a mais velha no meio da floresta. Mas não possuia outra opção.
–Certo. Vou com você. Mas tem que jurar pelos deuses que irá curar Haron.
–Eu juro. — disse levantando a mão direita e cruzando o dedo indicador com o anelar.
Seguiu Nimue pela floresta. Até chegarem a um rio.
–Venha princesa, por aqui.
A mais velha riu.
–Não sou princesa nenhuma. Quem te disse tal coisa?
A mais nova sorriu, mas não disse nada.
Atravessaram o rio e Manuela pode ver um dos lugares mais belos que já estivera. Ela podia sentir a vida no lugar, como se tudo ali nunca pudesse morrer. Os animais pareciam felizes (não que eles mostrassem com um sorriso no rosto, mas a menina podia sentir), e ficavam em volta de uma espécie de trono feito com folhas.
–Você a trouxe, Nimue?
–Sim. Minha senhora. – disse a criança fazendo uma reverencia.
Os animais se afastaram mostrando uma mulher de aproximadamente 30 anos, sentada no trono. Seus cabelos castanhos caiam pelos ombros sobre o vestido verde. A pele morena parecia brilhar a luz do sol e os olhos verdes mostravam algo entre autoridade e felicidade.
–Curve-se diante de sua rainha, criança.- disse à Manu.
Como o ordenado, Manu se ajoelhou diante da rainha, sentindo o poder da mulher, um dos mais fortes que já havia reconhecido.
–Não deve saber quem sou, correto? Obvio que ninguém lhe contou.
E sem nem esperar que a menina respondesse, ela disse.
–Me chamo Cindder, sou a rainha da floresta e provavelmente você não imagina o motivo de eu tê-la trazido aqui.
–Não senhora.
Cindder fez um gesto para que a garota se levantasse e fez o mesmo.
–Vou lhe contar algo que você deveria saber há muito tempo.
A rainha da floresta caminhava em torno de Manuela e sorria. O que deixava a menina desconfortável.
–Você. Manuela. Possui sangue real. Não me refiro somente ao sangue de seu avô. Mas também ao meu sangue, que lhe foi passado através de minha filha, sua avó.
A jovem não sabia o que dizer. Não conseguia raciocinar direito. Sua mente estava tentando relacionar “ floresta” com “avó”, "avó" e “sangue real”.
–Com certeza você não havia ouvido falar de tal parentesco. Seus avós se conheceram aqui mesmo, nesta floresta, quando ele estava caçando nossos irmãos.
A garota notou que Cindder falava do avô com desprezo.
–Como aquele homem, era um mortal, os poderes de Elianny foram bloqueados. Mas, mesmo assim ela pode os passar para seu pai, que os passaram para você. Claro, que o máximo que seu pai pode ter recebido é uma apreensão pela morte dos animais, já que ele é homem.
Cindder sorria, ela olhou para Manuela e o tom de sua voz mudou de sem interesse a emocionado.
–Mas você, não. Você, minha querida, é mulher. E por isso seus poderes como minha bisneta são inimagináveis.
A garota olhava para a rainha sem saber o que dizer.
–Agora. Oque lhe resta é aceitar minha ajuda para desbloquear seus poderes. – a rainha estendeu a mão. – Assim, você pode mudar seu destino.
A garota pensou sobre o sonho e estendeu a mão. Ela não podia aceitar algo assim do nada, mas talvez fosse uma chance de salvar sua mãe.
–Eu aceito.
Manu fechou os olhos sentiu a energia adentrar seu corpo. Imagens felizes de sua infância vieram a sua mente e ela sentiu uma sensação de conforto e paz. Mas, logo essa sensação foi interrompida por uma dor aguda e algo quente escorrendo por seu corpo. Abriu os olhos, mas não podia ver nada. Uma fumaça negra cobria todo o local.
–Cind... – iria chamar a bisavó, mas alguém tapou sua boca.
“O que está acontecendo” – pensou.
E desse modo, ela não ouviu mais nada.
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