Lágrimas de Maroto - 1ª temporada
28 Capitulo 28 - A mui antiga e nobre casa dos Blacks
Notas iniciais
Tudo que ele conseguia ver era o intenso azul do céu noturno, muito parecido com o teto que costumava abriga-lo nas muitas noites de risadas e histórias que dividiu com seus amigos no tempo em que permaneceu em Hogwarts; e ao mesmo tempo, tão igual as também inúmeras madrugadas que passara em sua cela de Azkaban, tendo apenas as lamurias de seus companheiros de prisão como companhia.
Dentre todas as noites, no entanto, aquela em especial estava majestosa. De onde estava, podia vislumbrar um manto de estrelas, que pareciam piscar para ele, conspirando com sua fuga, como se, para ajudar que ela se concretizasse, as estrelas brilhassem mais e mais, escondendo seu protegido de olhares indesejados.
Aquela altura, as estrelas não eram as únicas que pareciam brilhar com mais intensidade, Sirius sentia que uma parte de seu antigo retornara, submergindo das profundezas de onde se encontrava. Era como se uma parte do imenso fardo que há anos se instalara em suas costas tivesse se esvaído. Sentia-se mais leve, mesmo que de certa forma seu destino estivesse ainda mais incerto do que quando acordara pela manhã.
Saber que tinha de volta o afilhado e o melhor amigo lhe trazia um imenso alivio, certo conforto. Mesmo que não tivesse um lugar certo para ir, mesmo que sua única companhia fosse o hipogrifo cinzento que lhe fazia as vezes de montaria, saber que contava com o apoio das pessoas que mais lhe importavam no mundo era realmente bom, fazia-o sentir que não estava mais sozinho, que havia alguém que lutava junto com ele.
Naquele momento, depois de estar pelo que pareciam horas voando sem destino, feito um barco sem vela que vaga em mar aberto, o maroto começava a se preocupar com questões um pouco mais imediatas, como por exemplo para onde iria. Precisava de um lugar para descansar, recuperar as energias e pensar no que iria fazer em seguida.
Infelizmente, o único lugar no qual conseguia pensar era o Largo Grimmauld, 12, e essa perspectiva não era nem um pouco animadora. O ultimo lugar para o qual desejava ter que retornar era o casarão dos Blacks, e constatar que esta era a única alternativa o deixava inquieto, um pouco nervoso.
Não voltava a casa da família desde que tinha fugido, aos 16 anos, e não fazia ideia de como seria pisar naquela casa novamente. Não conseguia nem ao menos imaginar que tipo de recordações aquele regresso forçado poderia lhe trazer.
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A fachada da casa estava quase igual ao que ele se lembrava. Escura, fria, sem vida. O que mudara durante todos aqueles anos era apenas o estado de cuidado. Na época em que vivera ali, a casa era um exemplo de zelo e luxo, muito bem cuidada por seus pais arrogantes, mas agora, tudo que restara era um fantasma coberto pelas heras e pela poeira; marcas do abandono.
Parecia que a mansão da mui nobre e antiga família Black estava abandonada, jogada as traças, perdida nas areias do esquecimento. O herdeiro mais velho dos Backs começou a subir a escada que dava acesso a porta de entrada, mas estacou no penúltimo degrau.
Estava cometendo um erro. A casa poderia estar enfeitiçada. Certamente haveriam feitiços de detecção para delatar sua presença. Ele tinha uma opinião bem severa com relação aos membros do Ministerio da Magia, mas duvidava que rles fossem burros a ponto de supor que ele não voltaria a seu lugar de origem. Além do mais, mesmo que os agentes da lei não tivessem pensado nesta possibilidade, outras pessoas provavelmente pensaram. Comensais da Morte. Sua mãe, Walburga Black que o amaldiçoou no dia em que ele deixara aquela casa; ou talvez sua detestável prima Bellatrix....eram muitas as possibilidades, muitos os perigos que poderiam se esconder por detrás daquele conhecido portal.
Não...ele não podia voltar ali, tinha que pensar em algum outro lugar para ficar. A recusa do maroto de voltar a casa que um dia vivera tinha também outra motivação, que não possuía nenhuma relação com o risco que corria. As lembranças que brotavam em sua mente fizeram sua cabeça girar. Definitivamente, não estava pronto para voltar ao Largo Grimmauld. Talvez nunca fosse estar.
Antes de pensar duas vezes, girou nos próprios pés e voltou pelo caminho de onde viera. Encontrou os grandes olhos de Bicuço fitando-o, como se o hipogrifo entendesse exatamente o conflito que se instalara dentro dele.
— Desculpe amigo. Acho que teremos que dormir ao relento. Não consigo voltar a esta casa, simplesmente não consigo. – sussurrou Almofadinhas para o imponente animal, que apenas assentiu, como se compreendesse perfeitamente o que estava acontecendo.
Sirius montou novamente no lombo do animal de penugem acinzentada, e rapidamente eles saíram do chão, ganhando cada vez mais altura. Enquanto voltavam a companhia das estrelas, a mente do maroto divagava, retornando para tempos antigos, para a voz de uma mulher que gritava impropérios em uma voz estridente, enquanto o som de uma porta batendo com força era ouvido...
Flashback on
— SIRIUS BLACK!!! DEÇA JÁ AQUI, SEU MOLEQUE INSOLENTE!! — a voz de Walburga Black fez se ouvir por todo o casarão, reverberando pelas paredes desgastadas pelos anos; chegando aos ouvidos de seu filho mais velho que, apesar dos gritos que lhe eram dirigidos não moveu um musculo sequer.
Já esperava por esse surto de sua mãe, alias, achava até que estava vindo um pouco atrasado. A carta de Hogwarts deveria ter chegado no dia anterior, contendo a lista de material para o ano letivo e a costumeira lista de recomendações e informações sobre a má conduta do garoto. Por algum motivo a ele completamente desconhecido, tivera mais um dia de descanso.
Ao que parecia, esse descanso acabara de terminar, interrompido pelos berros de sua mãe, que daquela vez parecia estar com animo redobrado para discussões.
— SIRIUS!!! ESTOU MANDANDO QUE DESÇA! ANDE LOGO, NÃO ME FAÇA ESPERAR!!! – tornou a gritar a matriarca Black, com a voz ainda mais alta e alterada, algo que seu primogênito não julgara ser possível naquele momento.
Com o único desejo de que aquele tormento terminasse de uma vez, o jovem se levantou e caminhou ao encontro de sua mãe, que estava na sala de estar do primeiro andar, caminhando o mais lentamente que pode, apenas por provocação. Não estava com nenhuma vontade de ouvir os habituais sermões de sua mãe quanto a seu comportamento, que segundo ela era “inaceitável”, e “inconsistente com a posição social ocupada pela família”. Já estava cansado de ouvir que era o “filho rebelde”, o “diferente”, a “decepção”. Sabia tudo que pensavam a seu respeito, e realmente não achava que precisasse de um lembrete.
Quando finalmente chegou a sala em que sua mãe se encontrava, desejou que tivesse permanecido em seu quarto. Teria lhe poupado à visão horrenda da cara de sua mãe, que ostentava uma mascara de raiva e desprezo, que exprimia todo o desgosto que ela sentia pelo filho mais velho. Curiosamente, não havia nenhuma carta a vista. — O que teria então motivado essa expressão tão desgostosa? — pensou o maroto, que pela primeira vez entrava em uma conversa com sua mãe sem saber o motivo da convocação.
— Como se atreve? Como tem coragem de agir assim, jogando o nome de sua família na lama? Como pode se aliar a este tipo de gente? Se mistura com sangues-ruins e simpatizantes dessa causa suja? Realmente, não sei onde foi que eu errei com você, não consigo entender o que fiz para ter um filho assim, uma ovelha negra, que só me trás problemas e desgraças....- continuou a matriarca, dessa vez em um tom de voz mais baixo, mas igualmente perigoso.
— Oque foi que eu fiz desta vez? – perguntou o garoto, realmente sem entender qual era o motivo de toda aquela cena, por mais que puxasse por sua memoria, não conseguia achar uma explicação que não a carta da escola, mas esta parecia ainda não ter chegado ao seu destino.
— O QUE VOCÊ FEZ? AINDA ME PERGUNTA?? Que história é essa de você ter feito Lucius e Narcisa tomarem uma poção que os deixou azuis e cobertos de perebas por todo o corpo?? O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA SEU MOLEQUE? PODIA TE-LOS MATADO! – Esbravejou a mulher, sem conseguir conter a raiva que sentia fluir como sangue em suas veias.
Com as palavras da mãe, a mente de Sirius se acendeu feito uma lamparina. Então aquele era o problema. A pequena peça que os Marotos haviam aplicado no nojento do Malfoy e em Narcisa, a prima metida de Sirius.
Aquela fora realmente uma peça excelente. Só de lembrar a cara que os dois fizeram quando se deram conta da coloração que suas pálidas peles estavam assumindo fazia Almofadinhas não conseguir conter o riso. Isso sem falar nas perebas. Feias e enormes, que pelo que Pontas dissera iriam coçar como pó de mico. Pelo jeito, desde que as férias haviam começado os dois ainda não tinham conseguido se livrar do problema. Mas porque demorara tanto para aquela história cair nos ouvidos de sua mãe, era uma pergunta para a qual ele não tinha uma resposta.
— Não esquenta. Logo eles voltam ao normal. Além do mais, eu pessoalmente acho que eles ficaram bem melhores desse jeito. Eram muito pálidos, quase transparentes. Aposto que se tivessem um filho ninguém ia conseguir ver a criança, seria invisível! – respondeu o garoto, as gargalhadas.
— Você não tem vergonha? De jogar o nome de sua família no lixo? Como se já não bastasse você ser diferente, andar com pessoas de índole duvidosa, sangues-ruins, mestiços....ainda tem que aprontar para pessoas de bem como os Malfoy...tem que causar vergonha para a pobre da sua prima Cissa, uma criança tão frágil, tão gentil...
— A ultima coisa que você pode esperar de Narcisa é a gentiliza, não se iluda. Sei que você não aprova meu comportamento, e nós dois sabemos que isso é porque a senhora não suporta ninguém que não seja um de seus fantoches, alguém que consiga manipular. Sinto muito minha mãe, mas este papel esta relegado ao meu querido irmão. E quanto a meus amigos, a senhora não os conhece, então não os envolva nessa sua imundice. Você não tem esse direito. – disse Sirius, ainda em um tom de voz controlado, apesar de sentir o sangue ferver de raiva e decepção com as palavras duras que a mãe lhe dirigia.
Sempre soube que ela era assim. Elitista, alguém que acreditava que a magia era apenas para pessoas de “sangue-puro”. Preconceituosa, frívola e mesquinha. Essa era a sua mãe, e de certa forma, ele sempre soubera disso. Mas a medida que os anos passavam e ele crescia, ficava cada vez mais difícil lidar com as diferenças de opinião, tornava-se cada vez mais complicado lidar com os pensamentos arcaicos de sua genitora, e o maroto não sabia precisar quanto tempo mais iria aguentar.
— Eu envolvo quem eu quiser, e você nada pode fazer quanto a isto! Aposto que aquela ideia estupida veio daquele mestiço do Lupin, não foi? Foi depois que você e James fizeram amizade com ele que as coisas pioraram....tenho certeza de que foi ele quem os incitou contra Lucius e Narcisa. Aquele mestiço imundo! Se eu colocar meus olhos nele...
— Não se atreva a terminar essa frase! Você não conhece Aluado, então não abra a boca para falar dele ou de James. Está me ouvindo? A senhora não tem absolutamente nada a ver com meus amigos, então não os envolva em suas tramoias sujas. A senhora quer saber? Não tem nada que eu agradeça mais do que ter conseguido me desvencilhar de toda essa sujeira que você chama de tradição. Tenho orgulho de pensar com a minha própria cabeça, de ter escolhido meus amigos. ELES sim são pessoas com as quais me importo, pessoas por quem eu faria qualquer coisa, não essa família de fachada que você insiste em manter.
— Mas que beleza! Defendendo os amiguinhos! Quer saber de uma coisa Sirius? Se odeia tanto essa “família de fachada” como você mesmo disse, porque não vai embora? Porque não some daqui e vai viver com seus ideiais e seus amiguinhos imundos? Duvido que você aguente viver sozinho por muito tempo. E quer saber do que mais? Duvido que estes seus amigos, que você infla a voz para defender, vão te dar guarita, nem mesmo um lugar para dormir. Você vai ficar sozinho Sirius, ouça minhas palavras, você vai acabar sozinho! – esbravejou Walburga, destilando todo seu veneno. Não tinha nenhum remorso em dizer que desejava do fundo do coração que suas palavras se concretizassem. Quando olhava para seu filho mais velho, tudo que via era a decepção e o desgosto que o garoto lhe causava.
Sirius não respondeu, simplesmente virou as costas e voltou por onde viera, subindo a escada de dois em dois degraus. Menos de cinco minutos depois, tempo no qual a Sra. Black permaneceu na sala de estar, escrevendo uma carta de desculpas a família Malfoy pelo incidente, ouviu-se um barulho de algo muito pesado sendo arrastado escada a baixo.
— Estou fazendo sua vontade, espero que esteja feliz agora, porque eu com certeza vou estar. Qualquer lugar é melhor do que aqui! – falou o maroto quando passou pelo cômodo no qual a mãe se encontrava. Sem dar tempo para uma reação, o mais velho herdeiro dos Blacks completou a decida até a porta da frente, batendo-a com força ao sair. Naquele momento, jurou que não voltaria mais a pisar naquele inferno que nunca fora seu lar.
Flashback off
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