Lágrimas de Maroto - 1ª temporada
16 Capitulo 16 - Grifinória X Lufa-lufa
Notas iniciais
Alguns dias haviam se passado desde a tentativa frustrada de entrar na torre da Grifinória. De lá para cá, as coisas não tinham melhorado muito. Rabicho continuava confortável em seu refugio, e Sirius continuava sem conseguir captura-lo.
Apesar disso, o humor do maroto melhorara consideravelmente a alguns minutos, com a chegada de um gato laranja com rabo de escovinha. Bichento trouxera excelentes noticias, haveria um jogo de quadribol aquela tarde! Grifinória contra a Lufa-lufa. Finalmente Sirius teria a chance de ver seu afilhado jogar em uma partida oficial, e essa perspectiva o animou. Tinha certeza de que Harry seria tão bom quanto James.
— Você não está pensando em ir assistir, está? – perguntou Bichento, soando preocupado. O gato se afeiçoara ao bruxo, e considerando o que acontecera da ultima vez que Sirius se aproximara do castelo, não estava muito confiante de que assistir a partida fosse uma boa ideia.
— Mas é claro que vou assistir Harry jogar! – exclamou o enorme cão negro, ligeiramente indignado com a pergunta. Assim que soubera da partida decidira que iria, nem sequer parara para pensar na possibilidade de não comparecer. Desde que escapara do castelo, o maroto passava grande parte do dia preso a casa dos gritos, e só se permitia sair quando já havia escurecido; merecia um descanso daquela rotina enfadonha, e nada melhor que uma boa partida de seu esporte favorito.
— Não acho que seja uma boa ideia. – continuou o gato, lançando um olhar severo ao cão antes de continuar: — o campo vai estar cheio, e pode até haver aquelas criaturas encapuzadas....
Aquelas palavras, Almofadinhas revirou os olhos para o gato antes de responder: — Se vai estar cheio significa que ficará mais difícil de alguém notar minha presença. Além do mais, ninguém além de você conhece minha forma animaga. Quanto aos dementadores, duvido que o velho Dumby permita que eles se aproximem. Ele os detesta, e ninguém em sã consciência ousa desafiar Dumbledore. Bichento parecia não ter se convencido, mas já conhecia Almofadinhas o suficiente para saber que não adiantava discutir.
A manhã e o inicio da tarde transcorreram de forma vagarosa, como se quisessem fazer com que Sirius tivesse que esperar ainda mais para que finalmente chegasse a hora da partida.
Pouco antes das 15h, o maroto saiu acompanhado de Bichento, rumando para o campo de quadribol. O coração de Sirius estava leve naquele momento. Adorava quadribol, e a felicidade de ver seu afilhado jogar varria todas as preocupações e tristezas. Se daria aquele momento de presente, um momento de descanso para a sua mente e para o seu coração.
Quando saíram da proteção da casa dos gritos, cão e gato se depararam com um céu nublado e cinzento, que prometia uma grande tempestade. – Espero que o jogo termine antes dessa tempestade, é muito ruim jogar em condições assim, podem acontecer acidentes graves. – pensou o maroto, preocupando-se com como poderia se dar o jogo caso a chuva desabasse.
— Também espero que não chova, pelo menos até eu estar de volta ao castelo. Odeio água. – emendou Bichento, lançando um olhar zangado para o céu.
Não demorou para que chegassem ao campo. A partida ia começar em alguns minutos, quase toda a escola estava presente para assistir. Sirius e Bichento se postaram em baixo da arquibancada da Grifinória. De onde estava, tinham uma visão perfeita do campo sem serem vistos por ninguém, afinal, quem olharia para baixo com uma partida de quadribol acontecendo a todo vapor lá no alto?
Enquanto aguardavam o inicio da partida, o prometido temporal desabou sobre suas cabeças, encharcando-os por completo. Ainda assim, Sirius pareceu não se importar. O pensamento que lhe veio a mente tinha a ver unicamente com as condições que os jogadores enfrentariam, e não com o fato de ele e Bichento já estarem completamente encharcados.
Esperaram cerca de 15 minutos antes que um apito soasse, e o locutor anunciasse a entrada dos times da Grifinória e da Lufa-lufa. Almofadinhas correu os olhos pelos jogadores de vestes vermelhas, procurando por seu afilhado. Encontrou Harry na ponta da fila formada pelos jogadores de sua casa, parecendo concentrado e pronto para o jogo. “Boa sorte meu garoto! Vai dar tudo certo!” pensou o maroto, encarando os olhos verdes de Harry, tão iguais ao de Lily.
O apito ecoou novamente pelo campo, e os jogadores levantaram voo, ocupando suas respectivas posições. A chuva e o vento fazia-os oscilar perigosamente, jogando-os de um lado a outro a seu bel prazer.
A partida começou com uma clara vantagem do time grifinório, que abriu 20 pontos em cima de seu oponente. Apesar da chuva, os leões pareciam prontos para a briga, e o locutor (claramente da grifinória), não conseguia conter sua alegria ao narrar os lances bem sucedidos do time de sua casa.
A cada minuto que passava o tempo piorava mais, abafando aplausos e vaias que vinham das arquibancadas. Por algum tempo, Sirius perdeu Harry de vista, mas logo o encontrou, rodando o campo atrás do pomo de ouro, seguido de perto pelo apanhador vestido de amarelo.
— Tira ele da sua cola Harry! Concentre-se em se livrar da marcação dele! Você ainda tem tempo para capturar aquela bolinha maldita, tente se livrar da marcação, assim você terá mais chance de capturar o pomo! – sem que se desse conta do que estava fazendo, Sirius começou a mandar instruções para seu afilhado, agindo como se o garoto pudesse ouvi-lo ou mesmo entende-lo.
Para sua alegria, naquele exato momento, Harry fez um movimento inesperado, mergulhando se aviso e quando estava quase chegando ao chão subiu novamente, impossibilitando que seu oponente conseguisse segui-lo. – Excelente Harry! – pensou o maroto, todo orgulho com seu afilhado, que mostrava ser um exímio jogador. – Ele é tão bom quanto você Pontas! – continuou, mal podendo conter a alegria diante da façanha do afilhado.
Harry começou a ganhar cada vez mais altura, acabando por ser engolido pelas nuvens. Sem conseguir mais vislumbrar a figura do afilhado, Sirius voltou a se concentrar no que acontecia com o restante do jogo.
Grifinória marcara mais 50 pontos, enquanto a Lufa-lufa marcara 20. Mesmo com a vantagem, se o pomo não fosse capturado logo o jogo podia se estender pelo restante da tarde, e talvez até mesmo noite adentro.
Ouviram-se trovões cada vez mais fortes, que ribombavam furiosos. O clarão de um raio iluminou o céu e Sirius conseguiu ter um vislumbre de Harry. O afilhado estava mais alto do que todos os jogadores, rodando o campo em busca de um vislumbre da bolinha dourada que garantiria a vitória de seu time. De repente, Harry estacou em um giro, parecendo ter paralisado em pleno voo.
Um frio inexplicável tomou conta do ar a volta do maroto, que após tantos anos convivendo com aquela sensação sabia exatamente o que ela significava. Dementadores.
Assim que esse pensamento tomou forma em sua mente, ele pode vê-los. Inúmeros vultos negros que se aproximavam velozes, parecendo, mesmo de longe, famintos e ferozes. Toda a cena pareceu se congelar por um segundo, ao mesmo tempo em que o coração de Sirius acelerava, temendo o que estava por vir.
As figuras encapuzadas pareciam aparecer de todos os lugares, cercando todos os presentes. O que estava acontecendo? Por que os dementadores estavam ali? Com certeza vieram sem autorização, talvez a aglomeração de tantas pessoas reunidas tenha dificultado seu controle...
A mente de Sirius estava um turbilhão, perdida em meio à cena que presenciava sem poder fazer nada para afastar aquelas criaturas horrendas. Ao voltar seus olhos para o local onde vira Harry pela ultima vez, no entanto, todos os pensamentos foram varridos de sua mente, substituídos pelo pânico.
Seu afilhado estava cercado de dementadores que lhe sugavam a felicidade e a vitalidade. De longe, Almofadinhas viu quando o garoto oscilar na vassoura, lutando para manter-se nela.
Tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Em um momento, Harry lutava para manter-se em sua vassoura, buscando a todo custo se livrar dos dementadores que o cercavam. No seguinte, o garoto estava em queda livre, direto para o gramado do campo. Sirius acompanhou seu afilhado cair e cair, vendo-o perder cada vez mais altura. Sentia-se paralisado. Não podia acreditar que aquilo estivesse realmente acontecendo.
Enquanto assistia a queda de seu afilhado, ainda como se estivesse petrificado, o maroto ouviu a voz de Dumbledore, parecendo estar muito, muito longe: — Arestum Momentum!— foi o feitiço proferido pelo diretor, que apontava para o corpo em queda de Harry. O garoto desacelerou, terminando a descida suavemente, como carregado pelo vento. Em seguida, uma reluzente fênix prateada irrompeu da varinha do bruxo, voando direto para os dementadores e afugentando-os todos de uma vez.
Sirius permaneceu onde estava. Não tinha forças para mover nem mesmo uma pata. Aquilo tudo era culpa dele. Se afilhado quase morrera por sua culpa, mais uma vez. Se ele não tivesse fugido, se tivesse permanecido onde estava, em sua cela de Azkaban, os dementadores nunca teriam sido chamados para guardar Hogwarts e nada daquilo teria acontecido. Até aquele momento, o maroto pensar que o maior perigo para Harry era Pettigrew, mas talvez estivesse enganado. Talvez o maior perigo para o garoto fosse a presença de seu padrinho.
Mesmo quando todos já tinham ido embora, o enorme cão negro permaneceu no campo de quadribol, encharcado até os ossos e perdido em seus pensamentos. Como será que Harry estava? Não iria se perdoar se algo de grave acontecesse a seu afilhado...tinha que ver como ele estava, com seus próprios olhos. Precisava garantir que o garoto iria ficar bom.
— Você não está pensando em ir ao castelo, está? – a voz de Bichento em sua cabeça despertou Sirius de seus devaneios. – Olha, sei que está preocupado, mas é muito arriscado. Deixa que eu descubro como ele está, prometo que venho contar para você assim que tiver um informativo completo. – continuou o gato, mesmo sabendo que provavelmente não teria sucesso em sua tentativa de fazer com que Almofadinhas retornasse em segurança para a casa dos gritos.
— Não. Tenho que ver eu mesmo o estado de saúde de meu afilhado. Devo ao menos isso a ele. – respondeu o maroto, em um tom que não deixava margem para discussões.
Assim, cão e gato retornaram a estrada para o castelo, ainda debaixo de uma chuva forte. Desta vez no entanto, Sirius preferiu entrar por uma passagem lateral que dava um acesso mais rápido a ala hospitalar. Estava com pressa demais para se preocupar em encontrar alguém se entrasse pelo saguão principal.
— Espere pelo menos até a noitecer antes de entrar, assim tem menos chance de alguém te encontrar, e ai talvez você possa até mesmo passar um tempo com o garoto, garantir que ele está bem. – suplicou Bichento, preocupado que alguém notasse a presença do cão negro, que pingava água pelo piso de pedra.
O maroto não respondeu, mas seguiu o gato de volta para fora da passagem, escondendo-se embaixo de um parapeito. Esperaria ali até que a noite caísse, e ai sim, entraria na ala hospitalar e veria como Harry estava. Talvez até passasse a noite ali. Nunca gostara de ala hospitalar e não queria que o afilhado ficasse sozinho naquele lugar a noite toda.
As horas custaram a passar, e a cada minuto que passava ali, parecia a Sirius que era um momento crucial que estava perdendo. Um momento em que deveria estar ao lado de Harry, cuidando do garoto, garantindo que tudo ficaria bem. Era o que um bom padrinho faria. Ao invés disso estava ali, encolhido em baixo de um parapeito, engolido pela preocupação. A vida não podia tirar-lhe Harry também! Ele era tudo que lhe restava....
Depois de algumas horas que mais pareceram pequenos infinitos, a noite finalmente chegou, a lua tomando seu lugar em um céu agora limpo pela água da tormenta que finalmente tivera fim.
Sirius sabia que a enfermeira, Madame Pomfrey, fazia sua ultima ronda aos pacientes geralmente as 22h da noite, não ser em casos extremos, nos quais ela levantava regularmente para ver o estado de seus pacientes, geralmente de três em três horas. Intimamente, o maroto rogou para que Harry não fosse um caso gravíssimo, assim ele teria mais tempo para velar o sono do afilhado e garantir que o garoto iria ficar bem.
Pela terceira vez aquela noite, Bichento saiu do esconderijo para verificar as horas. Haviam decidido que só se arriscariam a ir para a ala hospitalar depois das 23h da noite. O gato não demorou a retornar, dessa vez com um sinal positivo. Estava na hora de ir.
Entraram sorrateiramente na ala hospitalar, sem terem encontrado nenhum empecilho durante o curto percurso que percorreram até ali. Ao fecharem a porta atrás de si no entanto, a porta produziu um pequeno barulho, que ecoou por todo o aposento, que tirando Harry e Madame Pomfrey, estava deserto.
— Vou deixar você sozinho com ele. Volto daqui algumas horas está bem? Se algo der errado, vá direto a casa dos gritos e quando puder te encontro lá. – disse Bichento, despedindo-se de Almofadinhas e voltando pelo caminho de onde viera.
Sirius apenas assentiu. Tinha os olhos voltados para a maca onde Harry estava, aparentemente adormecido. Devagar, temendo acorda-lo, o maroto se aproximou do garoto.
Harry dormia a sono solto, conservava uma expressão tranquila, provavelmente desfrutava de um sonho bom. Enquanto fitava o afilhado, os olhos do cão se encheram de lágrimas. Se não fosse por ele, nada disso teria acontecido e o menino estaria bem.
— Me desculpe Harry! Por favor, me perdoe. Eu juro que não queria que isso tivesse acontecido. – pensou Sirius, desejando de que de alguma forma seu afilhado pudesse ouvir suas palavras, sentir a presença do padrinho, ver que ele não estava sozinho, que havia alguém que se importava com o que lhe acontecia.
— Eu prometo que vai ficar tudo bem. Você vai ficar bom, eu tenho certeza! Só espero que um dia você possa me perdoar por todo o mal que lhe causei....prometo que vai ficar tudo bem ok? Vou fazer tudo que puder para concertar as coisas. Eu prometo!
Com estes pensamentos, Sirius deitou-se ao lado da cama de Harry. Decidira que passaria o restante da noite ali, iria embora de madrugada. Se o afilhado acordasse, com tudo que passara, provavelmente acreditaria que a presença do cão era apenas um sonho e pelo menos não ficaria sozinho.
Passaram-se algumas horas, durante as quais o maroto permaneceu em uma vigília incessante, velando o sono do garoto, e torcendo para que ficasse tudo bem, rezando para que desta vez conseguisse concertar as coisas e cuidar de seu afilhado como ele merecia.
Eram quase duas da manhã quando Harry acordou, tossindo e esfregando os olhos. Sentou-se na maca, ainda confuso. Procurou por seus óculos, e quando finalmente os encontrou, viu-se encarando a ala hospitalar, completamente vazia, a não ser por um enorme cão, deitado aos pés de sua cama.
Ao perceber que o afilhado havia despertado, Sirius se levantou de um pulo, aproximando-se do garoto. – Como se sente? – era o que gostaria de perguntar, mas como fazer-se entender em sua forma animaga?
Harry, por outro lado, parecia estranhamente calmo, como se estar na ala hospitalar fosse algo comum para ele, até mesmo rotineiro. Notando que o cão se aproximava, o garoto notou que se tratava de um cão gigantesco, e de pelagem muito negra, quase ao ponto de sua forma se confundir com as sombras da enfermaria. Como um cão teria entrado ali? E porque haviam deixado que ele ficasse? Talvez ele só tivesse entrado para se esconder da chuva, que voltara a cair durante a noite, agora com menor intensidade.
— Olá amigo, está se escondendo da chuva? – perguntou o garoto, fixando seus olhos intensamente verdes nos olhos castanho-escuros do cão. Era estranho dizer isso, mas parecia que conhecia o animal...havia algo de muito familiar naqueles olhos, que o encaravam com carinho.
Como resposta a pergunta do garoto, Sirius aproximou-se mais, pousando sua enorme cabeça no colo de Harry, que imediatamente estendeu a mão, fazendo carinho na cabeça do cão. Feliz com o contado do afilhado, Almofadinhas fechou os olhos e deixou que a paz daquele momento o inundasse. Fazia muito tempo desde que estivera tão próximo de Harry, e sentira muita falta dele.
Permaneceram assim por um longo tempo, até que por fim o cansaço e os efeitos das poções curativas que tomara mais cedo fizessem com que Harry voltasse a adormecer, com a mão ainda pousada sobre a cabeça de Almofadinhas. Quando finalmente despertasse, tudo que teria daquele momento seria a lembrança de um sonho bom, de sensação reconfortante de segurança e proteção.
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