Kyodai - The Awakening Of Chaos (Interativa)
57 Gaiden: Sherry - Soul Hot Pink
Notas iniciais
“Cada pessoa neste mundo tem o direito de trilhar seu próprio caminho. Seja fazer o bem, fazer o mal, o impossível é ficar neutro diante da realidade do mundo. Afinal, no simples momento em que você nasce, já está alterando a verdade na humanidade. Porém, no meu caso, tive de ser uma mera perua que, vez ou outra, comete uma boa ação. Sim, eu sou e sempre serei uma legítima perua, mas sou uma perua com ‘Pink’ orgulho na denominação!”
– Sherry Fontaine
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Três anos atrás, em uma nada modesta loja de roupas e acessórios femininos...
– Sherry-samaaaaaaaaaaaaaaaa... – um homem, que na verdade parece mais ser mulher, clama por sua ama.
– Não precisa gritar tanto, Cho. – afirma a garota loira, bem próxima dele. – Estou bem aqui!
– É a força do hábito. – admite ele, com um sorriso que, de tão evidente, chega a assustar. – Me perdoe...
O sujeito estava lhe procurando por esta gigantesca loja – de fato, ela é enorme. E, agora que a encontrou, se posiciona de pé, ao lado direito da mesma. Sherry, por sua vez, está assentada em um banco, na qual as clientes se aconchegam para provar sapatos e outros produtos aqui vendidos. Como as portas acabaram de abrir, não há ninguém pelo lugar além da “dupla de luxo” e de dois ou três funcionários.
– Tem certeza que levará tudo isso? – questiona ele, observando todas as fartas sacolas que fazem companhia à sua ama no banco em que a mesma está acomodada.
– Mas é claro que sim! Não vim aqui para levar pouca coisa! – afirma, encarando-o com uma feição séria.
– Me perdoe... – pede, intimidado.
– Pare de fazer tantos pedidos de perdão e comece a agir de modo diferente. – recomenda ela, voltando seu rosto para as inúmeras peças de roupa em seu colo.
Sherry se levanta. Voltando a sua atenção para o grande espelho diante de si, ela sorri. E, então, sem temer ser vista em trajes íntimos por ninguém, experimenta aqui mesmo todos os modelos que escolheu. Isso leva apenas alguns minutos.
– Gostou de algum? – pergunta o tal Cho.
– Das roupas, não. – afirma, colocando todas elas em um pequeno estofado rosa ao lado do grande espelho. – Mas do resto, sim!
Ao se virar em direção às suas sete sacolas – sim, nada além de joias, sapatos, bolsas e outros acessórios femininos – bem gordinhas, a jovem tem dificuldade para pegar todas de uma só vez. Ao se cansar de tentar, esbraveja:
– Cho, pegue essa sacholada e vamos embora!
– C-certo... – chega a se assustar com o grito de sua pequena patroa, já partindo para a ação e tomando todas as sacolas, mesmo com dificuldade.
Depois de pagarem tudo, os dois se encaminham para fora da loja. Porém, quando colocam os pés na rua, um garoto de aparência modesta e bem mais alto que a loira se coloca perante ela, interceptando-a.
– Você pode me dar licença? – pede, cruzando seus braços, séria.
– Você é uma gracinha, sabia?
– Cho, vamos embora de uma vez. – declara, virando seu rosto para seu “servente”, que concorda com um movimento positivo do rosto. – Não é bom dar atenção para gentinha...
Ambos desviam do garoto. Porém, sem desistir, ele se vira para a dupla – que agora se afasta – e articula:
– Você é uma delícia! Gostoooooosa que só!
– Céus, eu prefiro mil vezes encarar humanos avançados com distúrbios de conduta a esses imbecis que não têm onde cair mortos.
O garoto, um pouco frustrado, pensa por alguns instantes. Não quer, de forma alguma, deixar uma beldade como aquela passar despercebida. É quando tem a “grande ideia”:
– Pena que você não tem uma boa comissão de frente! Será que já ouviu falar em silicone?
Sem nem mesmo esperar, Sherry se vira para trás. Furiosa, corre contra ele. E o coitado, sem ter tempo para fugir, é pego pelo “furacão loiro”.
– Vou acabar com sua raça, se é que você tem alguma! – grita ela, ao pular em cima do garoto, jogando-o de costas ao chão.
– Ele é um vira-latas, Sherry-sama! Um vira-latas! – deixa Cho, bem claro, dando pequenos pulos de empolgação, já que está carregando tanta coisa... – Mesmo assim, regaaaaaça a cara dele!
É uma bela manhã, afinal, e não há tantas pessoas nas ruas. Portanto, não há plateia para a verdadeira surra que o garoto está sofrendo agora: tapas, arranhões, socos e chutes – e tudo ao mesmo tempo. A loira se transformou em uma metralhadora de pancada...
– Moleque atrevido! – continua Sherry, após puxá-lo pela gola de sua camisa, esganando-o.
– V-você v-vai me m-atar... – articula o pobre coitado, sem ar, usando suas mãos para tentar tirar as dela do seu pescoço.
– Fala o seu nome e eu te solto! – ordena, quase roxa de tanta ira.
– G-Gingamaru...
– Gingamaru? – pensa ela, sem ter esperado se encontrar logo com... – Será que ele é o...
A loira o solta. Por um breve momento, sua expressão foi de espanto. Porém, se esforça para disfarçar a sua surpresa, se levantando e se virando para o outro lado. Cruzando seus braços, diz, sem olhá-lo novamente:
– Se eu te encontrar de novo, vou te deixar estéril! Então é melhor não se meter mais comigo!
Desse maneira, ele também se levanta. Sem olhar de novo para ela, se vira e, tomando passos, se afasta sem rumo.
– Vamos... – Sherry pede a Cho, caminhando também, mas na direção oposta, se aproximando da limusine estacionada a espera da “dupla de luxo”.
– Sherry-sama, quando o ouviu falando o próprio nome, você ficou diferente... Ou foi impressão minha?
– Deixa pra lá. É melhor não se envolver com esse tipo de assunto. – aconselha, fitando-o por alguns segundos, referindo-se aos temas relacionados com os humanos avançados e com a Carmesim.
Ao se aproximarem o suficiente, esperam o motorista – que os aguardava aqui mesmo – abrir uma das portas do veículo e para, então, entrarem no carro.
– Sugaku-san... – pensa Sherry, ao se acomodar no seu devido lugar, ainda sem conseguir se esquecer do seu encontro com o tal Gingamaru. – Aquele garoto... Não tem mais passado, não é?
– Não se meta nos assuntos internos da organização. – recomenda uma voz feminina, ecoando no interior de sua mente. – Você é ainda uma Soldada em experiência que, querendo ou não, teve favorecimento devido o papel do seu pai entre nós. Não vá querer dar uma de heroína logo agora...
– Hum... Quando eu pensar em me tornar uma heroína, o mundo com certeza vai estar acabando... – a loira fala alto, chamando a atenção de Cho, assentado ao seu lado direito.
– Como é, Sherry-sama? – seu assistente, imaginando que ela está falando com ele.
A adolescente suspira profundamente, fechando suas pálpebras por alguns segundos. E, logo depois, responde:
– Nada... Não é nada.
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Horas mais tarde, na mansão Fontaine...
– Sexo, drogas and rock n’ rooooooll!! – Pietro, um garoto de sete anos, com a aparência extremamente parecida com o de sua irmã mais velha, mas claro, mais masculina.
– Cala a boca. – exige a garota, assentada, ao contrário dele que está de pé pulando para todo canto.
O local é a gigantesca sala da mansão, tão luxuosa e confortável quanto os demais cômodos da casa. No momento, a humana avançada tenta assistir a um programa de moda em paz. Porém, não está tendo seu desejo realizado...
– Sexo, drogas and rock n’ rooooooll!!
– Pietro, deixa de ser idiota. – pede, com uma expressão entediada. – Comporte-se como uma criança que preste...
– Eu não sou criança! – reclama ele, ao se colocar perante ela e esbravejar, irritado.
De imediato, a mais velha o puxa, bruscamente, jogando-o para o seu lado esquerdo no sofá. E, encarando-o com um olhar assustador, declara:
– Não me enche a paciência ou eu vou te dar uma surra como eu dei para o moleque de rua que encontrei hoje!
– C-certo... – diz, bem pianinho...
O herdeiro mais jovem dos Fontaine sossega para que as palavras da mais velha não se tornem verdade. E, voltando sua atenção para o seu programa de televisão, Sherry apenas pede:
– A mamãe não está mais entre nós e o papai não tem tempo para perder com suas idiotices. É melhor para você não achar que serei eu a sua babá.
– Eu já tenho uma babá, apesar de estar crescidinho demais para isso. – opina ele, cruzando os braços e fazendo bico, mas olhando para a televisão como a mais velha.
– Crescido apenas no físico, por que no mental você ainda é uma criancinha idiota.
De repente, o menino desfaz o laço dos seus braços e abaixa seu rosto. Sherry percebe a tristeza que acabara de se instalar nele, mas ainda assim não dá importância. Ela com certeza não faz o tipo sentimental, mas também não faz o tipo insensível. É apenas uma pessoa que prefere se manter o mais distante possível de tudo para não ter que se meter em problemas mais do que o necessário.
– Por que você entrou para a Carmesim?
Faz alguns meses que Sherry se tornara uma integrante da tal organização. Fora uma recomendação de seu pai para os membros de mais alta posição, já que além de habilidosa com seus dons, ela também nunca se deixou levar por seus sentimentos, sem contar a sua capacidade para ser esperta e manipuladora quando necessário. Todas essas características essenciais para quem pretende se tornar um Soldado da Carmesim.
– E por que está me perguntando isso? – ela rebate. – Você nem ao menos deveria saber disso. Por acaso quer que apaguem sua mente como fizeram com...
– Como fizeram com... ? – ele tenta saber, ao levantar seu rosto e direcioná-lo para ela, após os segundos de hesitação da loira.
Sherry mantem seu olhar fixo para a televisão, sem o desejo de sanar nenhuma das dúvidas de seu irmão. Mesmo assim, percebendo a postura negligente dela, Pietro insiste:
– Quando os meus poderes se manifestarem, eu também me tornarei um membro da Carmesim. É natural que o papai confie em mim o suficiente para não me esconder a existência da organização e dos humanos avançados.
– Não estou querendo ouvir papo furado. – afirma a “loira nada falsa” – Pode, de uma vez por todas, me deixar em paz?
– A mamãe se preocupava muito com o nosso futuro. E, querendo ou não, eu a entendo bem hoje em dia. Afinal...
– Nós não nascemos para ter sentimentos. – o interrompe, com um timbre muito mais tranquilo e equilibrado do que o esperado para uma situação como esta. – Não nascemos para pensar, para idealizar ou para ter qualquer outro tipo de postura que nos dê destaque dentre os demais.
– Como assim?
A garota pega, com sua mão direita, o controle da TV que está bem próximo de si. Ao manuseá-lo, desliga o aparelho, coloca o objeto no mesmo lugar de antes e se levanta. Em sequência, se coloca perante o irmão e, com suas duas mãos desabotoa três dos sete pares de botões de sua camisa rosa-choque.
– O que você está fazendo!? – questiona ele, indignado. – Virou uma tarada e está tentando abusar do seu irmão?
– Se me chamar de tarada outra vez, te jogo da escada. – avisa, entrefechando seus olhos por alguns segundos, em tom de ameaça.
E, com seu indicador esquerdo, a loira mostra para Pietro uma marca negra de meia lua no início do seu seio esquerdo. É quando fala:
– Esta marca limita as minhas habilidades e me mantem sob vigilância constante. Amanhã, é bem provável que você sequer se lembre do que está vivendo nesta noite. Tudo o que terá é um vácuo inexplicável em sua memória.
– Anh?
– Eu tenho mais poder do que os Soldados da Carmesim precisam. Na verdade, creio que o seu caso é o mesmo que o meu. Por isso, restringiram 50% do meu potencial com isto. E, também, com esta marca, Sugaku Megumi, a telepata responsável por apagar os “arquivos corrompidos”, tem uma conexão contínua com a minha mente. Se eu sair da linha por um breve segundo, serei punida.
– Mas como o papai pode concordar com algo assim!? – se revolta. – Não dá para acreditar!
– Ele não teve escolhas. O auge das minhas habilidades, quando no seu potencial máximo, poderia arruinar os planos da Carmesim. – explica. – Para eles, meus dons são convenientes, mas na medida “certa”.
– E por que está me contando tudo isso se nós iremos apenas ter perdas? Somente porque perguntei?
Ela abotoa sua camisa novamente. Se assenta no lugar onde estava anteriormente e, mantendo seu olhar para o irmão, decide responder seu novo questionamento:
– Por mais que eu e você tenhamos o destino de sermos manipulados e usados como ferramentas por “ideais superiores”, temos sentimentos. Por mais que tentemos fugir deles, fracassaremos sempre. – ela pausa seus dizeres por alguns momentos, mas logo continua: – Pode ser que eu apenas sofra com o que estou fazendo agora, mas é ainda mais insuportável fingir sempre ser quem não sou.
– Você finge ser alguém que não é?
– Mais ou menos. – alega. – Sabe... Eu costumo acreditar que todas as pessoas tem o direito de trilharem o próprio caminho, tomando escolhas particulares. Cada ser humano tem sua cor específica por isso, pois nossos corações são, naturalmente, como telas negras à espera da primeira pincelada da vida.
– O que você está querendo dizer com tudo isso?
– Que nós dois somos diferentes da grande maioria das pessoas. Nossos corações também anseiam por uma cor, mas não somos nós quem descobrimos ela. Pelo contrário, somos induzidos a adotar uma coloração determinada, para agirmos da forma como querem que ajamos. – define, com um olhar diferente do habitual: um olhar menos evasivo e mais humano.
– Então você não é uma perua?
– Haha... – ela ri, exibindo um radiante sorriso. – É claro que sou! Mas também sou muito mais além disso. Porém, não tenho o direito de ir a esse “além”.
– Então... Qual a sua cor favorita? – indaga o menino. – É mesmo o rosa? Por que, pelo que parece, não te conheço tão bem quanto eu pensava...
Mais uma vez, Sherry se levanta. Tomando passos suaves, caminha em direção a um porta-retratos sobre a estante – a mesma em que está a televisão de última geração, na época. Enquanto se aproxima do objeto em que está a foto de sua mãe, ao lado dos filhos, a loira vai falando:
– Como uma Soldada Carmesim, como uma herdeira da família Fontaine, como uma humana avançada... É mesmo o rosa.
Ela se vira para o garoto, após tomar para si o porta-retratos e abraçá-lo, exibindo um sorriso comovente como nunca antes em sua vida, um dia, exibiu. Depois de um breve suspiro, declara qual é a sua verdadeira cor, equivalente ao do objeto que agora carrega:
– Mas, acima de tudo, como uma pessoa falha e errônea, admiro o branco: a junção de todas as cores, simbolizando o meu verdadeiro eu que clama por liberdade, desejando ser tudo aquilo que posso ser.
– Ainda bem que não falou vermelho... Seria muito clichê. – brinca ele, entre leves risos.
– Nem em um momento assim você deixa de ser idiota, moleque!? – questiona, tentando, em vão, demonstrar uma expressão brava como a que mostrou minutos atrás.
Ele se levanta. Sem esperar mais nada, corre e abraça a sua amada irmã. E ao fazê-lo, apoia a porção direita do seu rosto na barriga de Sherry. Em sequência, articula tais palavras:
– Você sabe que isso nunca aconteceria! Seu irmão, que tanto te ama, será um eterno idiota...
– Sim, com certeza será... – brinca ela, permitindo-se viver alguns momentos de liberdade. – Agora vamos assistir a um filme legal?
– Vamos! – exclama, ao se desfazer de sua irmã, mas se posicionando perante a mesma com os olhos cintilantes de empolgação.
A dupla, então, sobe para o quarto de filmes – sim, há um cômodo dá casa que serve apenas para manter seguras as centenas de filmes, de diversos gêneros, dos Fontaine. Levam alguns minutos para a escolha e, em seguida, descem, vão à cozinha pedir a uma das empregadas que prepare duas vastas porções de pipoca e retornam para a sala. Nela, colocam o filme para rodar no DVD e se acomodam no sofá nada modesto. E, desse modo, decidiram aproveitar os últimos minutos de tarde e os primeiros da noite.
– Que cara é essa? – pergunta o garoto, quando, após algum tempo de início do filme, percebe a expressão perdida da irmã.
– Não é nada. – alega ela.
Está mentindo. A razão da sua preocupação é o fato do pequeno ter reagido de maneira ligeiramente natural com as coisas que ouviu. Outra criança, em seu lugar, mesmo com o conhecimento prévio que o mesmo tinha, levaria tempo para ingerir tanta informação impactante. Ainda assim, não foi esse o caso. E, mesmo que, a primeiro momento, tal coisa seja uma vantagem, pode também ser – considerando tudo o que os Soldados da Carmesim representam – a perdição.
– Será que eles, de alguma forma, já manipularam você, meu irmão? – pensa a loira, mesmo sabendo que está sendo monitorada por Sugaku. – Posso até parecer egoísta na maior parte do tempo. Posso até mesmo ser egoísta, quem sabe... Mas eu gostaria que, diferente de mim, você pudesse ter uma vida de verdade lhe esperando no futuro...
No dia seguinte, as lembranças do jovem menino sobre esta noite foram apagadas. Sherry, por outro lado, passou horas sofrendo aterradoras dores de cabeça – que mais pareciam prenúncios do extermínio do seu cérebro. Então, voltara a ser, por fora, quem era antes: a garota artificial que adora ser o tipo “peruinha”, tão comum na “sociedade” que nos cerca e tenta nos moldar como bem entende. Em contrapartida, seis meses depois, Pietro Fontaine morreu nas mãos de um Soldado da Gênese: Rick Mendez. Mesmo assim, a garota nunca mais “saiu da linha”. Não por temer a punição dos seus superiores nem por ter como objetivo o abandono de sua própria liberdade, mas por já ter se acostumado com seu “eu induzido”. E, talvez, até por ter esquecido, no fim das contas, qual é a verdadeira cor que deseja o seu coração. Contudo, a esperança de reaver tal certeza ainda vive como uma chama que jamais se apagará.
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