Kyle Major - Justiça
2 Eclipse
Sexta-feira 28/Julho
Passando pelo corredor principal da escola praticamente todas as pessoas estavam com o rosto pintado das mais variadas formas com as cores da Overfall. O azul e Prata apareciam naquele dia nas pinturas, roupas, acessórios, bandeiras e todas as outras coisas que se pudessem ser customizadas.
– Te vejo na piscina? – perguntou Kyle.
– Talvez não, mas eu vou te ver vencer! – “claro que eu vou estar lá” pensou Charles, mas não o disse.
Charles não era o tipo de pessoa que confirmava coisas ou que dava certeza. Parou perto dos armários onde avistou sua namorada Lana e as outras líderes de torcida, as Betta, todas de azul e prata, cabelos amarrados em rabo de cavalo, pompons a mostra e esbanjando felicidade.
– Oi amor – foi tudo que conseguiu ouvir ao ser surpreendido por Lana pulando em seu colo. Lana tinha a mesma altura de Charles, tinha a pele parda típica de pessoas do Arizona, cabelos negros cacheados até a altura do busto e como todas as outras líderes de torcida tinha o corpo desejado por todos da escola. As meninas queriam tê-lo e os meninos queriam possui-lo.
– Oi bebê – respondeu ele a segurando em um forte abraço – quanto tempo.
– Cadê o Kyle? Ele não tava com você?
– Foi se trocar, ele vai nadar daqui a pouco.
– Meninas, – disse uma voz atrás de Lana – estejam prontas em 3 minutos, nós vamos fazer a abertura da competição! – Era Olivia, a Alpha, eleita três vezes como rainha do baile de inverno e garota propaganda da escola, “não era tudo isso” pensava Charles, nunca namorou com ninguém, mas também nunca estava sozinha. Tinha a companhia que quisesse e quando quisesse.
– Charles – disse ela com a voz aveludada.
– Liv – respondeu ele enquanto passava o braço ao redor de Lana.
– Bom te ver, – respondeu ironicamente – você vai à festa na minha casa hoje certo? Meus pais voltam na terça, depois do dia do trabalho e essa provavelmente vai ser a última festa das ferias. Pelo menos a última que vai ser lembrada.
O senso de superioridade de Olivia era extraordinário, assim como sua autoestima, estava sempre se gabando de coisas.
– Você vai Lana? – perguntou Charles, mas não obteve resposta da namorada antes de ser interrompido.
– Claro que ela vai – continuou Olivia – não é Lana?
– Mas é claro que nós vamos – respondeu Lana imediatamente.
Olivia sorriu por um segundo e seguiu corredor adentro rodeada por outras Bettas. Lana e Charles estavam ‘sozinhos’ na multidão de alunos agora, mas mesmo assim, Lana continuava olhando pra Olivia enquanto ela desfilava pelo corredor.
– Não tem que fazer tudo que ela manda – disse Charles voltando a atenção de sua namorada para si – sabe disso não é?
Lana se empoleirou, ajeitou a roupa e continuou a se maquiar olhando no espelho do armário. – Ela não manda em mim Charles, sabe disso! – revidou ela imediatamente.
– Como não? – disse ele indignado – Ela claramente te fez dizer que ia a festa hoje e você não parece querer estar lá.
– Charles – disse ela subindo o tom – olha pra mim. Olha pra mim e me diz o que você vê?
Charles a olhou de cima a baixo por alguns segundos – Não entendi, desculpa, fala de novo.
– Eu sou uma Betta Charles, – respondeu ela com as mãos na cintura – talvez a segunda melhor delas. Em um ano a Liv vai se formar e pra ser a próxima Alpha, eu... – ela parou como se tivesse se arrependido do que acabara de dizer – to precisando daquilo, compra pra mim?
Com um soco no armário ele saiu pelo corredor, mas não em direção da piscina, ele estava saindo. Saindo da escola. Não estava completamente contente. Seu rosto parecia inflado com os olhos apertados, os punhos estavam cerrados. As portas se abriram como se em câmera lenta para Charles, a luz da manhã invadiu o grande corredor e sua silhueta desapareceu lentamente.
“Shot through the heart, And you're to blame, Darlin', you give love a bad name...”. O volume estava praticamente no máximo e as arvores passavam rapidamente através das janelas no Porsche prateado. Não tinha nenhum outro carro na estrada e sozinho ali Charles pode se acalmar.
Não era muitas as vezes em que conseguia passar mais de 24 horas sem uma discussão com Lana. E algumas vezes já chegaram a ficar dias sem conversar. Mesmo assim não conseguia parar de pensar nela.
A cidade estava normalmente movimentada.
A Barden Books estava aberta e a senhora Celerity estava sentada na porta em sua cadeira de balanço como costumava fazer. As crianças Cyrus regavam as petúnias na frente da floricultura da senhorita Andalasia, a diretora da Overfall High. O velho McDonald estava abrindo o Point 15 3, um barzinho vintage que teoricamente deveria ser ponto de encontro dos jovens, mas só a velha guarda frequentava, ele estava com a mesma cara fechada de sempre.
Mas foi na frente da Ride Aid que ele parou, uma franquia de farmácias que tinha acabado de abrir uma filial na cidade. Os tijolinhos bem posicionados davam uma sensação agradável de se presenciar. Fechou o carro e entrou no estabelecimento.
La dentro o clima era aconchegante, a música ambiente não era nem um pouco parecida com as que tocavam no carro. Sentiu o celular tocar no bolso do jeans enquanto pegava absorventes na prateleira. Parou com o produto levantado na mão enquanto atendia a ligação.
— Fala viado – disse ele sorrindo, costumava tratar seus amigos assim – diga.
— Onde você ta?— perguntou a voz rouca.
— Na farmácia – disse ele.
— Pensei que você estava aqui.
— Onde?
— O Kyle vai nadar agora, e ele parece estar te procurando.
— Vim comprar uma parada pra Lana, mas já to colando ai.
— Esse não é dos melhores – disse uma voz suave vindo do chão ao seu lado.
Assim que se virou, viu uma garota com longos cabelos negros sentada em um banquinho arrumando alguns sabonetes na prateleira de baixo. A pele clarinha deixava os lábios avermelhados mais do que visíveis, roubando toda a atenção do corpo esguio.
— Nem te vi ai... – Charles não fazia ideia de qual o nome dela, embora estudassem na mesma turma a maior parte das matérias e ele a visse quase todos os dias – menina.
— Acredito que seja pra Lana, – perguntou ela ainda concentrada no trabalho – pega o roxo com abas.
— Eu não vejo diferença nenhuma – respondeu ele, mas ainda assim pegou o outro – você não devia estar na escola hoje?
— Tinha, – respondeu ela – mas meus pais precisavam de ajuda com a mercadoria nova e eu fiquei pra ajudar, como hoje não é tecnicamente um dia letivo.
— Tá eu tenho que... – tudo começou a girar de repente, sua cabeça estava um caos, conseguia sentir a dor na nuca de tão forte que precisou segurar numa prateleira pra não cair. Quando conseguiu focar sua visão novamente viu a garota no chão com as mãos na cabeça também. Ela estava chorando.
Foi quando tudo escureceu.
A iluminação que entrava pelas grandes janelas de vidro na frente da farmácia foi ficando cada vez mais fraca, a ponto de que em pouco tempo a penumbra se tornaria uma completa escuridão.
— Tá tudo bem? – perguntou ele abaixando para ajudá-la a levantar.
— Minha cabeça... – disse ela – alguém desliga esse barulho, tá muito alto.
Sua voz estava tremula e fraca, era perceptível a dor que ela sentia. Os olhos cerrados e a testa franzida mostravam claramente que ela não estava bem.
Ele se levantou e pesadamente caminhou até a saída. Tudo lá fora estava escudo como se estivesse numa noite sem lua ou estrelas, a única coisa visível no céu era um grande anel dourado que aos poucos começou a tomar uma forma crescente se depois revelou o sol que estava logo atrás.
Tinha presenciado um eclipse.
A luz irradiou por toda a cidade na mesma velocidade em que sumiu.
Uma multidão de pessoas começou a se formar saindo de todos os estabelecimentos ali por perto, todas elas olhando para o céu e comentando o que estava acontecendo. Foi então que se lembrou da garota no chão. Correu de volta para dentro da farmácia e a viu sendo abraçada por sua mãe.
— Alguém chame uma ambulância – gritava ela.
— Traz ela pro meu carro, – disse Charles da porta mesmo – eu levo ela no hospital.
Foi um longo caminho até o hospital. Talvez a vez em que um lugar tão perto se tornara longe. Ela estava desacordada nos braços da mãe no banco traseiro do carro e permaneceu assim até chegarem no hospital.
— Garnet, – disse a mãe assim que a garota abriu os olhos – Garnet minha filha, fala com a mamãe, você está bem?
A senhora Montez era uma versão mais velha da filha. Tinha o mesmo cabelo negro e abundante e pela primeira vez em algum tempo estava sorrindo ao olhar para a filha.
Após estrar no hospital ela sentou do lado de Charles num banco da recepção enquanto sua mãe tentava marcar uma consulta.
– Isso acontece com frequência? – perguntou Charles penteando com os dedos as longas madeixas de Garnet que estava com a cabeça no seu colo.
– Essa foi uma péssima versão do “você vem sempre aqui”.
– Só to tentando te animar – disse ele sorrindo – calma, até parece que você ia morrer.
– Era como se milhares de pessoas estivessem conversando e eu usasse um headset pra ouvir tudo, – disse ela enrolando uma mecha do cabelo no dedo indicador – algumas vozes estavam gritando, outras sussurrando, algumas falavam normalmente só que todas ao mesmo tempo.
– E o que elas diziam?
– Essa é a parte estranha. – ela se encolheu no banco e passou um tempo calada – Todas as vozes falavam em uma língua que eu nunca ouvi. Sons que eu nunca ouvi antes. E no fundo tinha um zumbido, um zumbido agudo que ia aumentando de volume a cada segundo e depois...
Ela se aquietou e sentou olhando pra ele.
– Eu acordei no seu carro olhando pra minha mãe.
– Bem estranho, – respondeu ele com um dedo nos lábios – não faz sentido nenhum isso, mas é estranho.
– Filha, – disse a senhora Montez voltando com uma enfermeira – o Doutor Summers vai te ver, vem!
– Tchau Charles – disse ela se levantando.
Charles observou enquanto Garnet seguia pelo corredor ao lado da mãe. Os longos cabelos negros balançavam a cada passo. Passaram-se dez minutos e elas ainda não haviam voltado. Ele andava de um lado pro outro através das poltronas do saguão do hospital em um ritmo quase hipnótico. Vinte minutos e nada delas aparecerem. As maquinas de refrigerante não seriam suficientes para matar a sede de um jovem de 16 anos.
Quando passaram-se trinta minutos, não conseguiu mais esperar. Na tela do iPhone já marcavam quarenta e duas ligações de Lana além de mais de cem mensagens no WhatsApp. Sabia que era hora de ir embora.
Passou pelas portas do hospital e foi lentamente até o Porsche. Os dedos ágeis digitavam uma mensagem para Kyle, “Como foi?”. Estava online, mas sabia que a competição já deveria ter acabado e que ele não responderia.
Apagou tudo.
Entrou no carro e foi em direção a escola. Era a melhor forma de resolver seus problemas naquele momento.
Os corredores já estavam praticamente vazios, com exceção do Senhor Peterson, o zelador, que balançava vagarosamente o esfregão de um lado para o outro.
– Senhor Peterson – disse ele enquanto corria pelo corredor – já foi todo mundo?
– Ah, não – respondeu ele com a voz cansada vagarosamente – ninguém!
– Valeu Senhor Peterson!
As sobrancelhas e bigode do zelador da escola escondiam quase por completo seus olhos e boca. Era um senhor já de idade e meio surdo, mas ninguém da escola teria coragem de não gostar dele.
Charles continuou correndo através do corredor principal. As portas da área da piscina estavam escancaradas, não havia ninguém lá. Assim como no vestiário das meninas. Lana provavelmente tinha ido embora sozinha.
– Kyle – pensou ele em voz alta e seguiu até o vestiário masculino. Chegando lá foi surpreendido na porta por Enzo. O impacto derrubou os dois no chão.
– Olha por onde anda Estagin – reclamou Enzo enquanto se levantava antes de sair extremamente rápido dali a passos pesados. Seu rosto estava mais escuro ao redor dos olhos como se não dormisse a dias.
– Sabe do Kyle? – perguntou Charles numa tentativa frustrada de resposta.
Levantou-se e entrou no vestiário.
O cheiro não era muito agradável ali dentro, mas ficava pior nos dias de jogo de Lacrosse. Ouviu o som de um chuveiro ligado e foi até lá com cuidado para não molhar os pés no chão encharcado. Ao se aproximar o som parou e de dentro de um dos box saiu um jovem moreno se enrolando numa toalha, mas não era Kyle.
– Sinna – disse Charles levantando uma das sobrancelhas.
Rapidamente ele escondeu uma das mãos atrás do braço, cruzando-os, mas não antes de Charles perceber que estava machucada e sangrando.
– Charles – respondeu ele.
Sirius Sinna era um dos veteranos do colégio, assim como capitão do time de Lacrosse. Não era muito amigável com quem ele não queria ser e ainda assim estava quase sempre rodeado de pessoas.
Sirius era negro e não costumava deixar o cabelo crescer, sempre acompanhava a altura da barba. Tinha olhos profundos e um olhar penetrante, olhar em seus olhos era como se perder no vazio. Seus músculos estavam comprimidos atrás do braços cruzados e o queixo chegava a apontar para cima, ele fazia isso quando queria intimidar os outros, e o estava fazendo agora.
– Você não é do time de Lacrosse, – continuou ele – e nem do de natação... Espero que tenha um bom motivo pra estar aqui.
– Você não é o dono do lugar Sinna – revidou Charles – tô procurando o Kyle.
– Seu namorado já foi embora – disse enquanto passava por Charles no corredor apertado, seus olhos agora fitavam o outro lado do vestiário, quase como se estivesse falando sozinho – e se eu fosse você iria também.
Tinha acabado de notar uma mancha roxa nas costas de Sirius, devia estar puxado no time pensou ele.
Ficou ali por um tempo parado no tempo pensando em como não tinha conseguido fazer nada certo nas últimas horas. Decepcionou seu melhor amigo em uma dos dias mais importantes pra ele, deixou sua namorada na mão e ela provavelmente deixaria de ser sua namorada e ainda não tinha recebido nenhuma notícia da Garnet. Um bom tempo se passou, e ele continuava ali no corredor dos chuveiros de pé, sozinho sobre a água.
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