Sexta-Feira 28/Julho

TIC TAC... TIC TAC...

Os ponteiros martelavam a cada batida no relógio da parede. Já faziam mais de nove horas desde o estranho ocorrido na escola. Era o típico quarto de um adolescente. O guarda-roupa ocupava uma parede inteira ao lado da porta, do lado oposto ficava o banheiro e no centro, sob a janela, estava a cama e sobre ela estava Kyle estava jogado de bruços.

Era provavelmente a centésima vez que olhava o celular esperando alguma notícia, entretanto as únicas mensagens que recebera foram um “Vai ficar tudo bem” da Selena logo após o almoço e um “Te vejo na festa” do Enzo.

Ainda não tinha certeza de se ir seria a melhor coisa a se fazer. Sentou na cama e pensou em quem iria encontra lá. Teria que contar como era nadar e coisas do tipo pra pessoas que não estariam interessadas e que esqueceriam logo após ouvirem.

Não era nem um pouco como o Enzo.

Desceu as escadas e foi até o lago que ficava atrás de sua casa, era bem afastado da cidade numa região de sítios e fazendas, herdaram as terras do avó quando ele faleceu. A noite estava agradável, a brisa o cercava balançando seu moletom azul. O lago estava calmo, sem ondulações, era visível o reflexo da lua crescente na agua.

E ali sozinho ele começou a se lembrar do que acontecera no ginásio. A cada braçada que dava sentia a agua passando por todo seu corpo, conseguia ver através dela limpidamente. Então arremessou um seixo no lago, ele quicou por duas vezes antes de afundar completamente.

Pensou em como seria se tivesse perdido mais cedo. Será que o treinador ainda o manteria na equipe? Tudo estava tão confuso em sua mente, como se estivesse em meio a ondas fortes, era difícil se concentrar e pior ainda, imaginar como seria perder. Arremessou um outro seixo no lago que quicou por cinco vezes antes de afundar.

Estava com os pés descalços totalmente submersos, nem percebera enquanto andava em direção a agua. Olhou fixamente para baixo e viu seu reflexo ainda turvo nas ondulações da agua. Pensava em como tinha sido abandonado por Charles e ainda assim não conseguia parar de se preocupar com ele.

Fechou os olhos de raiva e arremessou um terceiro seixo na agua com tanta força e logo pensou que iria se molhar por completo, mas pelo contrário. Após alguns segundos confuso com toda aquela situação abriu os olhos e ficou maravilhado com o que viu ao seu redor.

Estava cercado pelo que pareciam ser bolhas de agua, mas não eram bolhas de sabão, coloridas e finas, frágeis e facilmente perdidas ao mero toque, parecia que a própria agua havia assumido aquela forma e estava ali, dançando ao seu redor. Olhou em todos os lados para ter certeza de que aquilo estava mesmo acontecendo e então tomou coragem para tocar em uma delas. Aproximou os dedos lentamente de uma das formas que pairavam bem à sua frente. Sentia uma coisa estranha, algo que nunca havia sentido antes, como uma onda que percorria todo seu corpo e de repente...

– Kyle! – o grito veio da direção da casa e como num segundo toda a agua que estava em volta e sobre ele caiu no lago o encharcando no processo. Uma figura familiar se aproximava a passos largos, o tênis branco amassava a grama baixa que cercava o lago, as mãos estavam no bolso da jaqueta e o cabelo bagunçado como sempre estava, mesmo quando saia da agua – O chuveiro da sua casa tá quebrado?

Era Enzo.

Demorou algum tempo até que entendesse.

– Não... – parou olhando por alguns instantes pra constatar se nada de estranho estava acontecendo – só estava... pensando.

– Já pensou de mais – disse ele subindo a elevação que levava até a casa já de costas para Kyle – temos uma festa pra ir.

– Mas eu não disse que ia Enzo!

– Tira essa roupa molhada e coloca a jaqueta – devolveu ele olhando pra trás de canto de olho – a Anna vai estar lá.

O rosto de Kyle corou, mas Enzo não estava mais olhando.

– Te espero na moto em 5 minutos – completou Enzo com um sorriso.

– Ainda não acredito que você me fez vir pra cá – disse Kyle tirando o capacete já na frente da CB500 vermelha e branca de Enzo.

A casa de Liv era uma das mais bonitas do bairro inteiro. A fachada dos dois andares era completa de tijolinhos e vigas grossas de madeira escura, assim como as portas e janelas. Estava toda iluminada e a batida do Pop podia ser ouvida dali de fora, ela sempre dava festas assim já que a casa era isolada e praticamente sem vizinhos. Pela quantidade de carros e motos ali fora, a escola toda devia estar ali.

– Relaxa mano, – ele sorriu enquanto ia em direção a casa, – é o nosso momento hoje.

Kyle o seguiu com uma certa hesitação. Pararam em frente a porta enquanto Enzo tocava a campainha, Kyle percebeu que os olhos de Enzo estavam diferentes, parecia estar cansado ou algo parecido.

A porta se abriu e as luzes saltaram para fora juntamente com os sons de Maroon 5. Uma das Bettas estava escorada na porta, foi facilmente denunciada pela saia de pregas rodada e a blusa regata das Bettas em tons de azul e prateado. Felicia estava lá explodindo uma bolha com a goma de mascar, o cabelo preto ondulado pendia nos ombros e os grandes olhos acinzentados davam o tom de deboche que sempre ostentava.

– Olha só se não são os reis da agua... – disse sorrindo.

– Não começaram a se divertir sem mim não é? – questionou Enzo num tom suave.

– Não mesmo – disse ela o puxando pela gola da camiseta e o arrastando pra dentro da festa. Não era muito difícil já que parecia que ele estava deixando.

– Daqui a pouco eu te encontro Kyle – gritou ele já entre a multidão pouco antes de desaparecer.

Realmente todos do colégio estavam ali, inclusive um dos gêmeos da Connor, só não conseguia identificar o qual. A casa estava cheia. Kyle andou um pouco até a cozinha pra ver se encontrava alguma pessoa com quem pudesse conversar, mas por todo canto que olhava só via outras pessoas. Os três sofás da sala estavam repletos tanto nos assentos como nos braços, e atrás dele alguns também arriscavam dançar. Um casal que nunca tinha visto na escola estava se pegando no corredor e algumas garotas estavam sentadas nas escadas. A cozinha era o único lugar vazio que encontrou.

Sentou em um dos bancos dispostos no balcão da cozinha e começou a pensar. Sua mente voltou ao momento do lago onde aquela coisa estranha havia acontecido. Não sabia ao certo o que tinha acontecido, só sabia que era uma sensação boa e precisava sentir novamente. Girou o banquinho algumas vezes e parou de costas para a bancada olhando para o teto. Foi abaixando os olhos aos pouco e ficou encarando a pia à sua frente.

Estava pingando lentamente.

Começou a fitar a pia por uns instantes. Ela continuou a pingar na mesma velocidade. A testa de Kyle começou a se franzir pouco a pouco, começou a curvar o corpo para frente e se inclinar na direção da pia que continuava a pingar, segundo a segundo. Quando de repente ela parou. Aquela onda de energia voltou a possuir seu corpo como fizera da última vez.

A gota que caiu da torneira estava parada no ar.

Esfregou os olhos pra ver se não estava vendo coisas e constatou que realmente não era coisa da sua cabeça, estava fazendo a agua levitar. Foi quando uma outra gota despontou na ponta da torneira e estava prestes a cair, só teve tempo de estender a mão na direção da pia com medo de que ela batesse na outra e acabasse com tudo aquilo, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário. A segunda gota começou a rodar em volta da primeira e era como se elas orbitassem uma em volta da outra.

Ele não conseguia acreditar no que estava vendo. Elas estavam ali dançando bem na sua frente. Então se levantou lentamente e caminhou em direção a pia. Cada passo era dado vagarosamente na esperança de que não desmoronasse tudo como na última vez. Com cuidado girou o registro da torneira e deixou que a agua escorresse, foi questão de segundos até ter uma esfera do tamanho de uma bola de futebol nas mãos.

– Isso é incrível – pensou alto enquanto fechava o registro.

– O que é incrível? – disse uma voz grave vindo da porta da cozinha.

Sem pensar duas vezes Kyle se virou para ver quem estava ali e se esqueceu de que estava segurando algo um tanto anormal.

– Que merda é essa Major? – gritou assustado. Era Sirius Sinna, o garoto mais alto e mais forte do time de Lacrosse do colégio, assim como o capitão. Os ombros largos e os músculos definidos eram visíveis mesmo sob a camiseta.

Kyle não sabia o que fazer.

– Responde Major! – disse ele batendo o copo de ponche no balcão. – Que merda é essa?

Sua expressão estava seria.

Mas antes que pudesse se virar – ESPERA! – Kyle estendeu o braço em sua direção e lançou toda aquela agua em Sirius. – Me desculpa Sirius.

– Olha só o que você fez? – gritou Sirius pegando o copo de ponche – É por isso que gente como você não tem amigos.

– ESPERA! – Quando Sirius retomou seu percurso de sair da cozinha ouviu um outro grito de Kyle e dessa vez escorregou e caiu de rosto no chão.

Ele se levantou rapidamente e furioso foi em direção a sala, encharcado. Kyle por sua vez não sabia o que fazer e correu pela porta dos fundos para fora da casa, seu coração estava acelerado uma parte dele com medo de Sirius e a outra com medo do que havia se tornado.

A noite continuava serena do lado de fora. Assim que conseguiu passar pela porta desceu as escadas correndo, nem reparou em quem estava sentado nela, até que disse seu nome.

— Major?

A voz mansa e suave era inconfundível.

— Anna? – disse Kyle virando-se lentamente. Se sua pele fosse mais clara, seria visível o vermelho em seu rosto nesse momento.

— Não sabia que viria. – Anna era uma das garotas bonitas que não fazia parte das líderes de torcida. Para Kyle, era a mais bonita de toda a Overfall High. Os cabelos ruivos e ondulados escorriam pelas bochechas redondas e sardentas. Estava usando um suéter azul marinho tão grande que cobria o shorts.

— Também não sabia se ia vir – ele voltou caminhando até a escada, mas ainda olhando para as janelas da cozinha. Não havia ninguém lá.

— Mas porque você tá sozinho? – perguntou ela enquanto encostava o corpo na pilastra que sustentava o telhado da varanda, como se estivesse abrindo espaço – está sempre com o Charles ou a Selena.

— Eu vim com o Enzo hoje – não sabia que essa frase era tão estranha antes de dizer – por incrível que pareça.

– E como...

Ela riu

Kyle continuava olhando para a janela vez após outra. Os olhos arregalados quase não piscavam e o suor escorria pela testa.

– Você parece tenso.

– Pareço? – respondeu ele surpreso voltando os olhos pra ela – deve ser só... Impressão sua – disse após uma pequena pausa.

– Você é um péssimo mentiroso sabia?

Mais um a vez seu rosto ardeu.

– Vem comigo – continuou ela – quero te mostrar uma coisa.

Ela o levou pelo labirinto verde atrás da casa de Liv com uma maestria de alguém que o conhecia como a própria casa, passou o caminho inteiro segurando sua mão com as pontas dos dedos. Cada minuto dentro do labirinto parecia uma eternidade, mas não achava ruim, conversaram sobre muitas coisas lá dentro, ou apenas sobre um mesmo assunto. Não sabia dizer. Até que saíram em uma grande fonte de mármore.

– Não é incrível? – perguntou ela já de costas pra ele com as mãos entrelaçadas atrás das costas.

Kyle nunca tinha visto nada parecido com aquilo. O céu noturno ornada de estrelas estava majestoso e coroado com a lua crescente, o jardim que o cercara possuía diversos tons de amarelo e purpura em suas flores e várias estatuas de grama com formatos de animais eram cuidadosamente aparadas ali, mas tudo não passava de acompanhamento para uma grande fonte de mármore que estava no centro do jardim.

– Linda!

Anna começou a caminhar na direção da fonte lentamente – você não vem? – perguntou ela olhando de canto de olho já no meio do caminho.

Os passos de Kyle ecoavam em sua própria cabeça, mas quanto mais perto chegava, esse som era substituído pelo sim da cascata que corria do topo das estatuas de anjo de mármore no topo da fonte.

– Eu venho aqui sempre que estou triste – disse Anna com os olhos fixos olhando sua imagem refletida na agua. – quando alguém me magoa ou quando tiro notas ruins...

“Ela tira notas ruins?” pensou Kyle, mas não interrompeu.

– ... eu venho aqui e conto meus segredos mais profundos pra eles, ou meus medos e até desejos. – ela parou de falar e começou a sorrir – Você provavelmente deve achar que eu sou doida agora, mas eles guardam tudo em segredo.

– Perfeitamente aceitável.

– Pega isso – ela estendeu a mão com uma moeda prateada – é só fechar os olhos e pensar nos seus problemas, depois você joga e eles mantém em segredo.

– Parece bem simples – respondeu ele de frente pra ela e lentamente foi esticando a mão cerrada com a moeda na direção da fonte, “Isso não faz sentido nenhum, mas não vou deixar ela achar que eu penso que é doida, é só eu ficar um tempo com os olhos fechados e ...

Ainda com os olhos fechados todo o seu corpo começou a arder e seus pelos se arrepiaram todos de uma vez. Seus lábios estavam úmidos e a sentia um toque agradável no queixo. Anna o estava beijando.

– Se quiser acrescentar isso a sua lista de segredos – sussurrou ela enquanto o soltava.

Kyle só conseguiu abrir os olhos rápido o suficiente para vê-la entrar novamente no labirinto enquanto seus olhos se cruzavam por alguns segundos. Ele soltou a moeda na fonte e sem perceber fez com que a agua subisse tão alto que podia ser visto do outro lado do labirinto.

Acidentalmente estava todo molhado e sentado na fonte, sorrindo.

Não ficou muito tempo ali sozinho.

— Pensando na vida?

A voz de Charles era inconfundível. Estava com a mesma roupa daquela manhã, embora parecesse cansado estava sorrindo e com dois copos de ponche.

— Posso sentar aqui? – a pergunta deve ter sido retorica porque ele a fez enquanto se sentava.

Kyle permaneceu em silêncio sentado na fonte olhando para baixo.

— Fiquei sabendo que você venceu hoje – continuou ele – parabéns! Eu não pude ver de perto, e nem de longe diga-se de passagem, mas é que aconteceu um imprevisto e eu tive que ir até a cidade, ai teve um eclipse e a ...

— Charles – interrompeu Kyle suavemente. Olhou fixamente nos olhos do seu amigo, mas não estava mais triste – não to chateado contigo, fiquei preocupado na verdade.

Os dois sorriram por algum tempo.

— Uma coisa muito estranha aconteceu comigo hoje mano – disse Charles oferecendo um copo de ponche a ele enquanto contava sobre o que aconteceu na farmácia naquela manhã. Sobre o eclipse e a Garnet. – Serião, não sei o que ta acontecendo, mas foi muito estranho.

Ainda com o rosto franzido ele olhou para Kyle que estava sorrindo.

– Ta rindo do que mano?

– Serio? – respondeu Kyle ainda sorrindo, mirou o dedo indicador na direção de Charles e uma rajada de agua saiu da fonte espirrando bem no rosto de Charles – Seu dia foi estranho?