Kyght

2 Introduzindo Hiroshi


Hiroshi Honda (Gravidade) — Sala de entrevistas da Kyght, localizado no 5º andar.

E lá estava ele, Hiroshi Honda, nosso provável futuro herói da Kyght e irmão de um recém-falecido herói.

Naquela sala branca de entrevistas, Hiroshi se tremia e mordia os próprios lábios por conta do nervosismo. O tempo parecia simplesmente não passar, o que era muito estranho já que o jovem sempre foi muito espontâneo e extrovertido, ele nunca havia se encontrado numa situação assim antes.

— Éééé...Meu nome é Hiroshi Honda, eu tenho 23 anos e... – Dizia Hiroshi, um tanto quanto envergonhado, até ser interrompido.

— Eu te perguntei apenas o nome, senhor Honda – Falava Marilyn, interrompendo Hiroshi.

Marilyn é a mulher cujo está realizando a entrevista de Hiroshi. Ela é uma pessoa que intimida apenas com o seu olhar de hostilidade e seriedade. Não se sabe muito sobre a vida dela, mas digamos que dentro da Kyght ela é um quebra-galho, fazendo de tudo, tanto para os funcionários quanto para os super-heróis.

Naquele ambiente extremamente iluminado e gelado, Marilyn continuou sua fala, enquanto apontava uma câmera na direção do jovem Hiroshi:

— Vamos seguir com calma..sua idade é? – Indagou Marilyn.

— 23, como eu havia dito. – Respondeu Hiroshi, com uma voz um pouco trêmula e respiração ofegante. Tudo o que ele queria era fugir de lá, aquela entrevista tinha tudo para dar errado, mas, era o único jeito de honrar o irmão, e também, realizar um dos seus sonhos: se tornar um herói forte o suficiente para salvar o máximo de pessoas possíveis.

— Nome de herói? – Marilyn perguntou, cruzando suas pernas de forma lenta.

A energia que essa mulher transmitia era extremamente negativa, a presença de Marilyn parecia deixar o local ainda mais gelado. Aqueles olhos verdes da entrevistadora julgavam arduamente Hiroshi, talvez ela esteja assim devido ao atraso do jovem, ou por estar tendo um dia ruim.

— Gravidade, meu nome de herói é Gravidade. – Respondeu Hiroshi.

O coração de Hiroshi batia a uma velocidade rápida, sua voz ficava mais baixa e mais trêmula a cada palavra.

Apesar de ambos estarem no 5º Andar de um prédio, a sala estava tão quieta que dava para ouvir os pedestres conversando e andando pela rua no lado de fora. O clima ia ficando cada vez mais tenso.

"essa é a única forma de dar orgulho ao meu falecido irmão, eu preciso passar nessa entrevista, eu sei que consigo." – Pensou Hiroshi, balançando suas mãos, respirando fundo e tentando juntar todo o resto de coragem que lhe sobrava, mas, acabou falhando miseravelmente em relação a isso.

— E, quais são seus super-poderes? – Questionou a entrevistadora com uma voz sútil.

— São parecidos com os do meu irmão, eu...- pausou Hiroshi, olhando para baixo e um pouco desnorteado.

— Está se sentindo bem, senhor Honda?

— Si-sim, estou sim, só fiquei um pouco enjoado, eu acho... – Respondeu o menino – eu tenho telecinese, assim como meu irmão, e como adicional, posso comprimir pessoas ou objetos, seja fazendo eles ficarem pequenos, ou explodindo alguma coisa com a pressão que faço.

— Assim como o seu irmão? Está se referindo ao nosso recém-falecido herói?

— Sim, ele mesmo.

Marilyn descruzou suas pernas e respirou fundo após ouvir isso, então, com uma voz firme e demonstrando estar interessada na informação que acabou de ouvir, disse:

— Entendo...Pode me dar uma demonstração de seus poderes, senhor Honda?

— Claro, mas...-Hiroshi olhou ao seu redor-, acredito que não tenha nada aqui que eu possa levitar ou comprimir.

O silêncio reinou naquele local por alguns segundos, até que Hiroshi começou a olhar fixamente para a câmera que Marilyn estava lhe apontando.

Levantando suas mãos, Hiroshi disse:

— Isso! a câmera, está vendo? – Perguntou Hiroshi, levitando a câmera apenas com a sua mão direita levantada.

— Bote-a no chão, por favor. – Ordenou Marilyn, com uma voz séria e levemente brava.

— Se-sem problemas... – Hiroshi abaixou sua mão e colocou a câmera de volta ao lugar.

— Acredito que essa entrevista acaba de se encerrar, não preciso de mais nenhuma informação do senhor. Em breve lhe enviaremos um vídeo da entrevista no e-mail que o senhor me forneceu, e em alguns dias após enviarmos o vídeo, iremos lhe retornar para notificar o resultado da entrevista. – Disse Marilyn se levantando da cadeira que estava sentada e desligando a câmera.

Quarto de hotel, localizado no 4º andar.

— Aaaah, será que eu falei algo errado? Que saco, já fazem uns bons dias desde que eles me enviaram esse vídeo, que droga... — Disse o jovem Honda olhando em seu celular e deitado sobre uma cama. Toda essa cena anterior não era nada mais e nada menos do que o vídeo em si. – Espero que logo a Kyght me envie um retorno, toda essa ansiedade "tá" me matando! – Exclamou o garoto, botando as mãos na própria cabeça e largando o celular.

No mesmo momento, do lado de fora do hotel onde o nosso querido protagonista se encontra, é possível ouvir um repentino barulho de tiroteio e gritaria, seguido de um forte estrondo no chão.

O jovem levantou-se de sua cama assustado e decidiu olhar pela janela para ver o que estava acontecendo. Sem uma sombra de dúvidas, Hiroshi percebeu quem era...e não era ninguém menos e ninguém mais do que Liberdade e Fofoca! dois super-heróis muito poderosos da Kyght.

Anaya (Fofoca) e Dylan (Liberdade) — Rua.

— Opa opa, calminha lá pessoal, o que que "tá" acontecendo? – Perguntou Capitão Liberdade em meio aquele pânico generalizado. Liberdade havia acabado de aterrissar junto de Fofoca em seus braços, ele voou com ela até o local.

— Um tiroteio, você não "tá" vendo? – Respondeu Fofoca, soltando-se dos braços de Liberdade.

— Toma cuidado com as palavras, você sabe que elas podem virar realida...

Antes de Liberdade completar sua fala, o barulho de tiro — que na chegada dos dois, havia cessado — voltou em cheio no meio daquela multidão. São bandidos pilotando uma van roubada de conteúdo desconhecido dentro. A velocidade que eles estavam era tão alta na qual era de se considerar praticamente impossível de os alcançar, mas as balas continuavam chegando sem parar em direção a Fofoca e Liberdade.

Não se sabe bem o porquê de eles estarem atirando desde antes mesmo dos heróis chegarem, provavelmente era para se despistar no meio do caos que ali estava se formando.

— O que eu te falei, Fofoca? – Resmungou Liberdade, sendo extremamente grosseiro com sua parceira de equipe.

— Larga do meu pé, tenho certeza de que não foi pelo o que eu falei. – Disse Fofoca, olhando de baixo para cima para Liberdade e botando uma mão na própria cintura.

— Dá um jeito nisso pelo menos.

— Aaah...- Ofegou Fofoca – sem problemas capitão... — Debochou – você ficou sabendo que os bandidos estouraram duas rodas da van?

Após a super-heroína terminar sua fala, a van roubada estoura duas rodas, uma traseira e uma frontal, riscando o pavimento da rua. Os motoristas acabam perdendo o controle e capotam o carro indo em direção a calçada.

— Fofoca! Os pedestres!! – Exclamou Liberdade com um falso sorriso no rosto e um olhar furioso. Ele não estava acreditando na falta de profissionalismo de Fofoca, embora não estivesse fazendo nada para impedir os bandidos ou salvar os pedestres.

— "Tá" de boa, eu fiquei sabendo que todos saíram correndo em segurança. – Disse Fofoca milésimos de segundos antes do carro quase colidir com civis que estavam fugindo.

Graças as mentiras de Fofoca que se tornaram realidade, tudo acabou bem, e pelo o que dava para ver, ninguém saiu ferido. As pessoas ao redor celebravam loucamente gritando seus nomes. Estavam alegres e gratos por mais uma vez, os heróis queridinhos da Kyght salvarem suas vidas.

— Você e eu, sala de reuniões, o mais rápido possível – Disse baixo Dylan Smith (O nosso querido Liberdade), rangendo os dentes e botando um dedo acima do peito direito de Anaya (Fofoca). E então, Liberdade se impulsionou para voar em direção aos bandidos no meio de toda aquela zorra.

Anaya suspirou preocupada, mas tentou disfarçar a preocupação por causa dos civis que ali estavam ao redor dela.

Sala de reuniões da Kyght.

Dylan andou lentamente em volta da mesa da sala de reuniões da Kyght, olhando para baixo e com a mão na boca.

A sala de reuniões da Kyght é o lugar onde os heróis passam a maior parte do tempo. Lá eles se reúnem e se organizam para discutir principalmente questões políticas e outras coisas.

Essa sala é um lugar com tons de bege, com vários televisores e iluminarias na parede e no teto, tem também uma mesa de centro circular enorme preta com um buraco circular no meio, além de contar com exatas seis cadeiras extremamente confortáveis da cor preta. No meio de tantos televisores, havia uma porta metálica cinza gigantesca, e em outro canto, era apenas uma parede completamente de vidro, dando visão de uma boa parte da cidade. Essa sala se localiza no último andar.

— Anaya, Anaya...- Suspirou o líder da Kyght, Liberdade, aproximando-se de Fofoca e botando uma mão em seu ombro esquerdo. – O que nós já conversamos sobre seus poderes?

— Eu já disse que não controlo isso! – Exclamou Anaya – meu poder se manifesta sem que eu...

— Como caralhos você entrou para a Kyght? – Indagou Dylan, interrompendo Anaya com um tom alto de voz – Eu ainda vou descobrir o que é que você fez, senhorita Fofoca.

— Eu não fiz nada, Dylan! – Disse Anaya, empurrando Liberdade pelo peitoral. – Eu estou nessa equipe a anos, eu entrei por merecer!

— Você é totalmente imprudente em relação ao uso de seus poderes, todos nós aqui temos o uso profissional de nossas habilidades, exceto você! – Exclamou furiosamente – Você não deveria ser uma de nós se não consegue se controlar, e se algo de ruim tivesse acontecido?

— Mas não aconteceu! Dylan, NINGUÉM saiu ferido, ninguém! E se tivesse, eu poderia mentir falando que eles... – Dizia Anaya, até que foi interrompida pelo barulho da porta se abrindo.

Inesperadamente, um executivo da Kyght entra no local, claramente desesperado e segurando algumas papeladas na mão.

— Fofoca! Liberdade! Preciso falar com os dois, quatro pessoas saíram machucadas devido a última operação de vocês! – Falou o executivo, em pânico. – Olha, veja o que está passando no jornal agora mesmo! – O executivo pegou um controle remoto que estava no próprio bolso e ligou um dos televisores da sala.

"Heróis da Kyght deixam quatro pessoas feridas em operação" é o que o programa dizia.

Anaya olhou assustada para Dylan e se afastou um pouco dele, levantando suas mãos na altura dos cotovelos.

— Olha, Dylan...- Anaya dizia apavorada e com os olhos arregalados.

— É, olha mesmo, Anaya, olha o que você fez!! – Gritou Liberdade – E agora? Como vamos resolver isso?

— Marilyn está tentando ligar para a imprensa para encobrir o que aconteceu, a senhorita Anne disse que vai pagar para os feridos ficarem calados. Não podemos manchar a imagem de vocês de novo – Disse o executivo.

Anne é o nome da presidente da Kygh. Ela é uma senhora velha, mas bem conservada. Tem um tom de personalidade que exala alegria e otimismo, todos a adoram! Os cabelos curtos, loiros e enrolados de Anne são o que mais atraem as pessoas, ninguém resiste a não olhar para ela quando ela passa.

— Ótimo! Vamos mentir – Reclamou Liberdade.

— Não é como se nunca tivéssemos feito algo assim – disse Anaya.

— Eu vou ter uma conversa sobre você com a Senhorita Anne agora mesmo, tenho certeza de que ela não vai ficar nada feliz com o que aconteceu. – Disse Liberdade saindo da sala e pisando forte no chão.

— Não! Dylan! Espera! – Implorava Anaya enquanto corria atrás dele – Dylan, eu...eu...é verdade que...- Anaya estava prestes a mentir, até que foi interrompida.

Dylan virou-se para Anaya, alisou o rosto dela com a mão, e então, fez um sinal de silêncio, botando seu dedo nos lábios de Fofoca.

— Não ouse mentir para mim, mocinha! – Falou Dylan, tampando a boca dela. – Não quero ouvir nem mais um "a"! – Dylan saiu da sala, fazendo a porta ser fechada.

— Droga! – Desabafou Anaya.

— Be-bem, estamos eu e você agora sozinhos...- Disse o executivo, que estava um pouco assustado e tenso com a situação, mas não podia perder a oportunidade.

— Você me deixou em paz por enquanto! – Anaya mentiu, fazendo o executivo sair da sala em silêncio.

Ah, nossa queridinha Fofoca, Anaya estava abalada com o que acabou de acontecer. Ela sentou-se em uma cadeira, botou seus cotovelos na mesa e suas mãos em sua cabeça, chorando baixinho com o medo de ser mandada embora da Kyght – assim como já aconteceu antes com alguns heróis-, Anaya pensou sobre o uso de seus poderes: ela precisa encontrar uma outra maneira de utilizá-los. Ela era uma das membras mais velhas da Kyght, mas nunca aprendeu a controlar o gatilho que ativa seu poder de mentir.

Toda mentira que Anaya conta vira realidade, as únicas que não viram realidades são aquelas que mexem com algo que aconteceu a muito tempo no passado ou mentiras que vão acontecer a muito tempo no futuro. Ela as vezes pode alterar a realidade mentindo, mas, para fazer funcionar de verdade, alguém precisa estar ouvindo além dela.

Ela nunca se viu como uma pessoa aproveitadora, e de acordo com ela: nunca usou seus próprios poderes para se beneficiar com algo, por mais importante que esse algo possa ser.

Hiroshi Honda (Gravidade) — Rua.

Hiroshi estava impressionado com o que viu pela janela, Fofoca e Liberdade salvaram o dia, prenderam os vilões e deixaram os civis seguros! (ou tentaram...) Hiroshi sonhava em ser como eles, e se empolgou mais ainda quando lembrou que seu irmão lutava contra o crime ao lado deles.

Caminhando pelas ruas após todo o acontecimento, avistou repórteres fazendo notícia sobre o que aconteceu no local, até o momento em que seu celular começou a tocar. Hiroshi estava recebendo um telefonema.

— Alô? – Falou Hiroshi no telefone após atender a ligação.

— Hiroshi! Como vai? – Exclamou a pessoa do outro lado do telefone, que era ninguém menos do que um de seus grandes amigos, Hayato.

— Alô? – Repetiu Hiroshi

— Hiroshi? Alô?

— Alô!? – Repetiu Hiroshi mais uma vez, levemente irritado.

— Hiroshi? Não está me ouvindo? – Perguntou Hayato, curioso.

— Haha! Estou só brincando, tudo bem, Hayato? – Disse Hiroshi, rindo da situação.

— Ai ai...Estou ótimo, e você? Já tem uma resposta sobre a entrevista?

— Ainda não, a Kyght não me mandou mais nada depois do e-mail do vídeo.

— Poxa vida..., mas falando nisso, você pode me mandar esse vídeo? Eu e o pessoal aqui adoraríamos ver!

— Claro claro, assim que eu chegar em casa eu te mando...Digo, no hotel.

— Hotel? Você não ia dormir na casa de um amigo?

— Fiquei com vergonha de incomodar ele, então decidi alugar um hotel.

— Ah, tudo bem! Sua mãe disse que se precisar de mais dinheiro, ela vai te depositar.

— Diga para ela não se preocupar, eu estou bem! Em breve voltarei ao Japão caso não consiga passar... – Hiroshi se desconcentrou por alguns segundos por ter visto algo que o deixou levemente abalado de repente — Inclusive, tenho que desligar, Hayato, até depois! – Disse Hiroshi segundos antes de desligar o celular.

Ele havia avistado homens removendo um cartaz de divulgação do seu falecido irmão, aquilo mexeu negativamente com Hiroshi, trazendo-o memórias ruins. Ao parar para observar os homens, viu que após a remoção, eles jogaram o cartaz no lixo, e então, com sua telecinese, Hiroshi trouxe o cartaz até ele, enrolando-o e trazendo-o consigo mesmo.

Hiroshi chateou-se ao ver o que estava acontecendo. Ao ter assistido à remoção do cartaz, se deu conta que as publicidades de seu falecido irmão estavam desaparecendo de pouquinho a pouquinho. O jovem angustiou-se ao pensar que todo mundo esqueceria dos grandes feitos que seu irmão realizou quando vivo...Parecia que apenas o tratavam como uma publicidade e nada mais, desconsiderando as milhares de vida que ele salvou, os malfeitores que combateu, e até mesmo, a morte dele.

Hiroshi deseja se tornar um super-herói não só para orgulhar seu irmão, mas também, para ser como ele. Pensar que poderia ser mundialmente famoso e ajudar a vida de milhares de pessoas graças ao poder que tem é algo que enchia o coração do menino de amor.

Nesse mundo, não é todo mundo que nasce com super poderes. Estima-se que apenas 200 pessoas ao redor do mundo nasceram assim, abençoados por Deus com um dom que permite a pessoa a salvar os outros.

Tudo isso começou a 48 anos atrás, onde o primeiro menino nasceu com o dom de ler o pensamento das outras pessoas no sul da Califórnia, e depois desse, outros foram nascendo ao redor do mundo, até que de repente, a 19 anos atrás, ninguém mais nasceu assim.

Ninguém sabe exatamente o que aconteceu, mas adoram divulgar que Deus abençoou e deu os poderes a essas pessoas. "Super-heróis foram feitos por Deus para salvar a América e o mundo", é o que a maioria dos norte-americanos dizem.

Após a reflexão, do nada, o celular de Hiroshi fez um "pup", esse era o som de notificação chegando em seu celular. Ele olhou para o dispositivo, o desbloqueou, e então, viu que havia chegado um novo e-mail em sua caixa de entrada. Aquele era o e-mail que ele tanto esperava!

"Voe alto, Hiroshi, sua história está prestes a começar..."