Kurohanayome - A Noiva de Negro
10 Perigo Eminente
Notas iniciais
As partes que indicam onde eles narram começam com "~ [nome] ~".
Acredito que fique melhor indicar dessa forma do que ficar citando toda hora nas notas quem é quem, não é verdade? :)
Boa leitura. o/
~ Elizabeth ~
Despertei lentamente quando me senti incomodada com a claridade crescente no quarto. Mesmo quase inconsciente, senti borboletas revirarem meu estômago com vigor. Tateei minha cama a fim de buscar pelos braços do causador daquela sensação, mas, ao reparar que estava sozinha em meu leito, sentei-me sonolenta e notei que havia nada humano – ou quase — no aposento espaçoso. Deitei novamente e suspirei chateada, porém tentei me animar:
-Nós nos veremos mais tarde. – sussurrei para mim mesma.
Pensei em ficar deitada até Paula me chamar, mas logo me recordei que aquele era o último dia dela conosco e, com certeza, já estava arrumando seus pertences para partir. Então, me levantei e tratei de me vestir sozinha.
Quando eu estava apertando o espartilho de modo desajeitado, ela bateu à porta e perguntou surpresa:
-O que a senhorita está fazendo?
Virei-me sorridente para ela e a cumprimentei:
-Bom dia!
Ela balbuciou risonha:
-Bom dia! Pelo visto, lady Elizabeth dormiu bem, não? Deixe-me ajudá-la a se vestir, por favor... – a mulher estendeu as mãos para apertar as fitas.
Olhei para meu reflexo no espelho de bordas douradas e reparei que, apesar de tudo, eu não tinha uma aparência extremamente cansada. Na verdade, meu rosto estava tranquilo e eu mantinha um pequeno sorriso nele. Pus as mãos na cintura e reparei:
-Achei que você estava se preparando para partir.
-Eu já terminei de arrumar minhas coisas, na verdade, mas não queria ir embora sem lhe ver antes. – minha dama de companhia explicou.
Meu sorriso aumentou. Abaixei a cabeça por um instante:
-Entendi. Obrigada. – olhei para meu reflexo novamente e passei os dedos entre as mechas desalinhadas de meus cabelos. Brinquei: — É, agora eu terei que aprender a me vestir sem ajuda de alguém. Estou crescendo! – ri.
Paula soltou uma risada fraca. Quando senti que ela largou as fitas do espartilho, me virei e a abracei:
-Eu ficarei bem. Obrigada de verdade.
Ela retribuiu o abraço e me prometeu:
-Eu voltarei em breve para ver vocês.
Segurei o rosto dela pelas têmporas e disse animada:
-Qualquer coisa, eu também irei te visitar, tudo bem?
Ela balançou a cabeça.
Alguém bateu à porta e, dessa vez, era mamãe. A empregada avançou até o guarda-roupa para pegar as outras peças que eu usaria.
-Bom dia, meninas. – minha mãe nos cumprimentou. Disse para a minha ajudante: — Paula, daqui a pouco a diligência estará em nossa porta. Precisa de ajuda para guardar mais alguma coisa?
-Não, senhora Frances. – ela respondeu.
-Ok, então. – mamãe concluiu. Olhou para mim e perguntou: — E você está bem?
-Sim. – respondi com firmeza.
-Elizabeth, não precisa fingir, eu sei que você quer chorar. – ela brincou comigo.
Eu e Paula nos olhamos. Voltei para minha mãe e virei a cabeça de lado:
-De fato, eu adoraria que Paula ficasse conosco para sempre, mas nada dura para sempre, não é? – pendi os ombros e me afastei do espelho, sentando-me na beira da cama. – Sem contar que se ela partir feliz para a França, por mim tudo bem. – sorri ternamente para ela.
-Muito obrigada. – a dama estava com os olhos mareados assim como eu.
Mamãe passou a mão na testa com impaciência:
-Por Deus, como vocês duas choram! Só não se esqueça da diligência, Paula. – ela repetiu e se retirou do quarto.
Mamãe, eu sei que a senhora estava com vontade de chorar também, mas seu temperamento não permitia isso.
Apesar de ser um momento desolador ver alguém que eu gostava tanto ir embora, eu ainda não conseguia deixar de sorrir. Acho que a sensação de que ainda havia chances de ser feliz com Ciel me dava forças para continuar com a cabeça erguida.
~ Ciel ~
Cheguei à porta da mansão e, ao tocar nas aldravas, respirei fundo já pensando na desculpa que eu daria. Tentei por um ar de indiferença à minha postura quando passei pela sala de estar. Ao fixar os olhos em mim, Finny veio correndo ao meu encontro com aparência assustada:
-Mestre!
-Bom dia. – parei e o cumprimentei. – Desculpe ter desaparecido. Você está bem?
-Sim, estou. Que bom que está de volta, já estávamos ficando preocupados! – ele parecia uma criança assustada.
Logo, Bard chegou à sala reclamando:
-Mestre, apenas Sebastian não tem possibilidades de morrer de enfarte, mas nós temos!
Tanaka estava sentado ao lado do sofá com seu copo de chá e apenas sacudiu a cabeça concordando com o explosivo cozinheiro.
Passei a mão pela nuca e suspirei: realmente, eu deveria ter dado uma simples explicação antes de sair, nem que fosse com omissão de fatos, assim não resultaria em empregados desesperados atrás de mim, outra vez.
-Ah, o senhor está aí! – Meirin suspirou do alto da escada e desceu cuidadosamente.
-Me perdoem, foi repentino tomar essa decisão até para mim mesmo. – tentei contornar a situação.
-Tudo bem... – Bard cruzou os braços e respondeu de modo nada convencido.
Finny me encarou curioso e perguntou:
-Aonde o senhor foi?
Ainda bem que não posso ficar vermelho nessas horas – pensei. Dei um meio sorriso e respondi calmamente:
-Fui procurar por evidências de Charlie estar por perto. – isso não era uma mentira, pelo menos não completamente.
O empregado loiro estava implacável e me encarou com os olhos semi cerrados:
-Devia ter contado conosco!
-Não tinha necessidade. – eu dei os ombros. Pus as mãos na cintura e perguntei: — Onde está Sebastian?
Antes que alguém me respondesse, escutei uma voz estridente e afeminada, muito familiar, gritando pelo nome de meu mordomo:
-SEBAAAAAAAAASTIAAAAAAAAAAAAAAAAAN!
-Eu já disse que não... – o próprio respondeu mal-humorado e, de repente, vimos um shinigami ruivo sendo arremessado pela escada.
Fiquei perplexo e perguntei de olhos arregalados:
-O que significa isso?
-Grell veio nos visitar hoje de manhã. – Meirin respondeu de forma óbvia.
Eu a encarei e depois olhei para ele, que estava caído de cara no chão. Aquilo não me cheirava bem e não era por causa dos assédios voltados a Sebastian. Logo, o shinigami sentou-se no chão choramingando:
-Por que você é tão cruel comigo?
Sebastian desceu as escadas arrumando o terno e o cabelo:
-Já lhe disse por várias vezes que tenho nenhum interesse em você.
-Mas, por quê? O que eu preciso fazer para conquistar seu amor? — Grell estava mais barulhento do que o normal.
Sebastian parou ao seu lado e, o fuzilando com o olhar, disse seco:
-Morra.
-Ai, como você é sádico... – um sorriso malicioso brotou nos lábios da criatura vermelha.
Novamente, levou outro safanão.
Bufei impaciente: aquela confusão logo pela manhã era de matar até mesmo quem já estava “morto”.
-O que você está fazendo aqui? – perguntei para o visitante indesejado sem rodeios.
Ele me olhou com os óculos tortos e fazendo bico. Arrumou o cabelo e ficou sem graça:
-Ér... Desculpe, Ciel... Bom... Dia? – Grell hesitou em me cumprimentar provavelmente por causa da minha expressão severa.
-Mestre! – Sebastian sorriu e se aproximou de mim.
O ruivo olhou para Sebastian mantendo o bico. Antes que viesse mais uma tentativa frustrada de conquistar o amor do demônio de terno, me aproximei e disse irritado:
-Você aparece aqui nessa hora do dia apenas para tentar agarrar Sebastian pela milésima vez? Espero que não, senão eu mesmo irei te expulsar daqui.
Ele cruzou os braços e protestou:
-Não tenho culpa de que com um mordomo como esse por perto eu me esqueço de minhas obrigações. Se você estivesse em meu lugar, ia me entender.
Ou não — pensei com a imagem de Lizzy em minha mente. Virei a cabeça de lado e perguntei mais calmo:
-O que aconteceu, então?
-Aconteceu não. Irá acontecer. – ele se levantou do chão limpando a roupa. Deu um pequeno sorriso e disse enigmático: — O tempo da rosa se esgotou. Melhor tomar cuidado, caso exista algo valioso ainda.
Estreitei os olhos:
-Como assim?
-Bem... – ele virou-se de lado, pondo um dedo no lábio inferior e olhando para cima. – Foi o que a chefia me passou e disse que era pra repetir da mesma forma para vocês. – se inclinou para Finny e Bard e perguntou num sussurro: — Vocês acham que eu passei alguma emoção na hora da informação?
-Sim, um pouco. – Finny respondeu sincero.
-Awn, antes um pouco do que nada! – ele sorriu feliz.
Eu sacudi as mãos pedindo tempo e tentei entender melhor:
-Espere, espere. Quem te disse isso? Que rosa... ? – de repente, o sentido apareceu em minha mente, mas ainda não era completo.
Acho que o shinigami leu meus pensamentos e confirmou:
-Exatamente isso o que você pensou e, sinceramente, com aqueles pulguentos de dois metros soltos por aí, eu duvido nada que uma nova catástrofe ocorra. Por isso que, se tem alguma coisa especial, é melhor tomar cuidado antes que aconteça o pior... Death. – ele piscou um olho. Olhou para o relógio e anunciou: — Bem, recado dado e ta na hora de eu fazer outro serviço. Um ótimo dia para vocês e nos vemos depois. – voltou seu olhar para Sebastian.
Senti meu mordomo tremer ao meu lado e perguntou entre dentes:
-O que foi dessa vez?
Grell aproximou-se acanhado e, de repente, saltou sobre ele – com certeza para não deixar o velho costume morrer – e disse:
-Me dê um beijinho de despedida!
Não preciso nem dizer que ele foi expulso a chutes da mansão.
-Oferecido. – Meirin rolou os olhos quando ele caiu de cabeça na fonte congelada.
Meu mordomo limpou o terno e murmurou:
-Se ele continuar amarrotando meu uniforme, próxima vez do chão ele passa.
Virei-me para ele e mudei bruscamente de assunto:
-Sebastian, precisamos ver Undertaker.
-Sim senhor. – ele me respondeu prontamente.
A funerária tinha uma fachada nova, porém continuava com o mesmo ar mórbido. Fitei o demônio e perguntei com um sorriso de deboche:
-Irá agradá-lo primeiro como antigamente para ele falar alguma coisa?
-Creio que desta vez não será necessário. – ele deu um meio sorriso.
Descemos da diligência e caminhamos até o local. Empurrei a porta, que rangeu baixo e demorou um pouco para que meus olhos acostumassem com a falta de luz do local. De repente, a tampa de um caixão, que estava ao centro da loja, se moveu e quem eu procurava saiu de lá de dentro.
-Quem vem perturbar meu sono?
-Por favor, shinigamis não dormem. – eu disse mal-humorado.
-Ah, Conde! – Undertaker empurrou a tampa de uma vez e sentou-se na beirada do caixão. – Que honra tê-lo tão mal-humorado na minha humilde funerária de novo! E Sebastian também. Querem encomendar seus caixões? – de fato, ele adorava aquele serviço e não era para menos.
-Na verdade, vim para impedir que comprem mais caixões. – eu suspirei.
-Quer fechar meu negócio, por quê? – ele ficou amuado.
-Nada pessoal. – sorri. – Aliás, você deve imaginar o que me traz aqui.
-Ah, com certeza. – ele meneou a cabeça. – Grell foi visitá-los hoje, não é?
-Sim. – Sebastian respondeu num tom estressado.
-Bem que sua expressão de raiva e tédio está tão boa hoje, Sebastian. – ele riu alto.
Aproximei-me do caixão:
-O que está acontecendo, exatamente?
Undertaker fez um sinal com a mão para nos aproximarmos. Afastou-se de nós, espiando as janelas e puxou as cortinas. Por fim, disse:
-Me acompanhem, por favor.
Antes que disséssemos mais alguma coisa, nos vimos na dimensão dos shinigamis. A fachada daquele prédio descomunal não tinha mudado nada desde a última vez que eu havia ido lá.
Caminhamos em silêncio com o funerário nos guiando. Subimos escadas, passamos por vários corredores e portas até chegarmos de frente a uma porta vermelha no final de um estreito corredor. Ele riu e virou-se para nós:
-Enfim chegamos. Antes de entrarmos, gostaria de pedir que prestem muita atenção no que será mostrado.
Eu e o demônio de cabelos negros e olhos vermelhos apenas acenamos com as cabeças. Então, a porta foi aberta e me vi mergulhado nos pensamentos de ninguém mais e ninguém menos que o rei.
-Essas são as memórias dele da madrugada passada. – Undertaker sussurrou antes das falas começarem.
Albert estava sentando perto da lareira e parecia muito irritado. Charlie entrou no local carregando uma bandeja com chá. O jovem olhou para aquilo e deu os ombros.
-Deixe em qualquer lugar, Charlie. – ele disse.
-O que lhe incomoda, meu mestre? – Charlie perguntou cordial.
-Muitas coisas. – o rei respondeu. Levantou-se da poltrona. – Por mais que eu tente proteger a Inglaterra, parece que as pessoas não reconhecem meu trabalho. Ganhamos a guerra, porém não quero deixar tudo fácil.
-Entendo. – o anjo respondeu olhando para o fogo. – As importações de nosso país caíram significativamente com o intuito de impedir que outros países fiquem maiores do que o nosso. Porém, ainda há nobres que se revoltam com sua forma perfeita de governar, não é?
-Exatamente! – ele desabafou. – Não suporto isso, Charlie. – caiu na poltrona novamente. – Ainda mais aquele Victor patético...
Victor era o pai de Elizabeth. Fiquei mais atento ao diálogo a partir daquele momento.
-O que ele está tentando fazer, vossa majestade? – Charlie o tratava como uma criança mimada.
-Tentando por todos contra mim com aquelas ideias esquisitas dele! Não o suporto mais... – de repente, Albert lançou um olhar perverso para seu mordomo e sugeriu: — Você não gostaria de ceifar mais algumas almas nesta noite?
O anjo sorriu com uma falsa gentileza e respondeu:
-Seria formidável, mas presumo que hoje não é um bom dia.
-Por que não? – o rei sentiu-se contrariado.
Charlie olhou para as chamas da lareira e murmurou obscuro:
-Apenas ainda não é. – voltou seus olhos para o filho da falecida rainha e disse: — Porém, se o senhor deseja tanto, posso ir amanhã mesmo e fazer uma “limpeza geral”.
-Apenas a faça de um jeito ou de outro. De resto, eu não me importo. – Albert pendeu os ombros.
-Como quiser, vossa majestade. – o anjo meneou a cabeça e se retirou do cômodo.
Logo a sala tornou-se escura. Undertaker abriu a porta e saímos na frente dele.
Aquele rei maldito vai matar toda a família de Lizzy nesta noite! Não posso deixar que isso ocorra. De fato, agora chegou o momento certo para alcançarmos Charlie.
Não precisei dizer nada. Bastou olhar para Sebastian que ele compreendeu perfeitamente. O shinigami de cabelos acinzentados pôs as mãos para trás e disse:
-Boa sorte. Não se esqueçam de prender os cachorrinhos. Voltem sempre.
Quando saímos da funerária, começou a nevar. Eu parei no meio do caminho e estendi a mão para a neve cair sobre a minha luva. De fato, o que imaginei devia ter ocorrido: a rosa que dei à Elizabeth havia murchado e ela estava indefesa. Não somente ela, mas toda a sua família. Se o anjo da morte adiou a matança, era porque naquela noite haveria coisas na mansão Middleford que seriam mais “compensadoras”.
Eu não poderia permitir aquela compensação naquela noite e nunca mais.
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