Kurohanayome - A Noiva de Negro
11 Neve Rubra
Notas iniciais
Acordei sobressalta e de cara amassada: eu havia adormecido de bruços na cama depois de chorar tanto. Virei-me para cima e senti um pouco de dor, porém estava tão enfurecida com meu pai que ignorei aquilo.
Eu me sentia cada vez mais idiota por ser uma pessoa tão sentimental: lágrimas eram coisas fúteis demais para demonstrar a alguém que eu tinha boas razões para não fazer o que os outros queriam, pois, de acordo com a interpretação de quem te vê chorando, você é apenas um fraco que está tentando de forma inútil negar aquilo que é “certo” – pelo menos, foi o que pude concluir.
Estive tão compenetrada nos últimos incidentes envolvendo o causador dos assassinatos dos nobres, que havia me esquecido que, em minha realidade, um casamento arranjado com um jovem desagradável – com certeza por motivos financeiros de ambas as famílias — estava se aproximando e eu, como sua “noiva”, já devia estar mais do que me preparando para me unir ao meu “futuro marido” – aquilo me dava náuseas.
Mamãe tentou me consolar, dizendo que ela não casou com meu pai de tão livre e espontânea vontade também, mas eu não aceitei de jeito nenhum. Então, meu pai irou-se de uma vez:
-Desde quando a senhorita é dona de seu próprio nariz? Seus únicos direitos aqui são nos obedecer e agora também tem que se preparar para o seu casamento.
-Isso não pode ser considerado como “direitos”, mas como castigo! – eu protestei.
-Elizabeth, você não vai nos fazer passar vergonha, entendeu? E se está se comportando assim por causa de Ciel, pode ter certeza que faremos esse vínculo entre vocês dois ser desfeito imediatamente. – papai me ameaçou.
Senti um impulso de cólera tomar meu corpo, mas respirei fundo e ergui a cabeça como se tentasse não permitir que aquele sentimento subisse a minha cabeça com facilidade e transbordasse por minha boca em forma de palavras afiadas. Minha visão começou a ficar embaçada e eu disse com voz quebrada:
-Aquele rapaz nunca será nem metade do que Ciel é. – virei as costas e dei aquela discussão por encerrada até gritar do alto da escada: — Eu não me casarei com ele!
-O que foi que você disse? – ele gritou estressado e foi atrás de mim, mas, por sorte, mamãe o segurou e eu pude me trancar dentro do quarto.
Eu tentava não chorar, mas aquilo era inútil. Peguei os floretes que eu guardava sob a cama e comecei a golpear as pernas da cama para descontar a raiva. Por fim, larguei as armas pelo chão e deitei de barriga pra baixo no leito. Então, adormeci involuntariamente e, quando acordei, tinha um rancor nebuloso dentro de mim.
Olhei para os lados e reparei que o fim de tarde se aproximava. Com isso, chegava também a hora de oficializar meu noivado com Richard, o filho do barão. Meu irmão viria com sua esposa e filho jantar conosco assim como a família do noivo que meus pais estavam forçando minha pessoa tê-lo como meu.
Isso não aconteceria. Eu estava cansada e seria sozinha de fato se me casasse com ele.
Abri a janela e calculei a altura dali até o chão. Então, comecei meu by Savings Sidekick\" href=\"http://animespirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-animes-kuroshitsuji-kurohanayome-400894/capitulo11\">trabalho de fazer uma corda com os lençóis e outras coisas que servissem para que eu escapasse daquele lugar sem utilizar a porta. Ainda faltou cerca de meio metro para que a extensa corda de tecidos amarrados chegasse ao chão, porém era bem melhor do que saltar do primeiro andar e quebrar algum osso.
Peguei alguns pertences que estava na gaveta, tirei o vestido com armação pesada e coloquei um de cor de vinho, cuja saia ia até os tornozelos e não precisava usar anágua ou armação. Amarrei o cabelo, peguei meu par de floretes que estavam sob a cama, coloquei minha pequena mala no ombro, respirei fundo e desci me segurando na corda improvisada – amarrei uma das pontas no pé da cama – e deslizando os pés pela parede.
Quando cheguei ao chão, olhei para cima e reparei o quanto era alto. Mas, não demorei muito: corri por entre os monteiros alvos e alcancei o portão. Um dos cães de guarda me viu e começou a latir. Peguei uma pedra e joguei a fim de distraí-lo e ele perseguiu o estranho objeto. Corri para os fundos do jardim, empurrei o velho portão, que estava obstruído por galhos secos, e finalmente me vi livre.
Embora meu vestido tivesse mangas longas, senti um pouco de frio quando começou a ventar. Apressei o passo rumo à mansão Phantomhive. No meio do caminho, reparei que devia ter pensado melhor na hora do plano de fuga, pois eu estava a pé e sem iluminação alguma.
Fui andando pela beira da estrada até ficar realmente incomodada com a temperatura. Abri a bolsa e peguei um cachecol que eu havia trazido, mas no momento que eu tentei enrolá-lo em meu pescoço, ventou mais forte e ele escapou de minhas mãos, indo para o meio da floresta que ficava ao meu lado.
-Porcaria! – rolei os olhos e fui atrás dele.
Por sorte, ele não tinha parado muito longe dali, ficando enroscado nos galhos de uma árvore pequena. Quando o desenrolei, escutei algo quebrando galhos ao longe. Ergui a cabeça e não avistei nada entre as árvores. Novamente o mesmo som e dessa vez mais forte e perto. Recuei alguns passos com o coração aos pulos e então pude escutar um uivar espantoso.
Arrepiei e engoli seco. O animal continuou fazendo barulho e se aproximando. Pus as mãos sobre os floretes que estavam dispostos em meus flancos e caminhei cautelosamente na direção do desconhecido.
Será que era o que eu pensava que era?
Ao mesmo tempo em que eu desejava que não fosse, tinha algo dentro de mim gritando para que eu estivesse correta. Então, entre a floresta que se tornava enegrecida a cada minuto que passava, meus olhos verdes foram fitados por um par de olhos vermelhos sanguinolentos, pertencentes a um cão gigante de pelo branco como a neve e dono de dentes afiadíssimos.
Realmente, era um Cérbero. Mas, ele não estava sozinho: sobre sua cabeça, havia um homem sentado e, devido a sua aparência e postura, logo reconheci o anjo da morte.
Ele olhou para mim com sua expressão dócil e deu um meio sorriso:
-Boa noite, senhorita Middleford.
Eu detestava aquele sorriso. Tentei não demonstrar que estava tensa e respondi educadamente:
-Boa noite, Charlie.
Ele suspirou de modo enfadonho:
-Na verdade, sabia que meu nome não é Charlie? Sua Majestade o escolheu para eu usar em meu disfarce como seu mordomo.
Meneei a cabeça:
-Já imaginava, afinal isso não é um nome comum de anjo.
-Lamento muito pelo que eu irei fazer hoje. – ele disse.
Arregalei os olhos e perguntei:
-Você fará o quê?
Dessa vez, aquele meio sorriso tornou-se vagamente sádico e ele disse:
-Sua Majestade me passou a missão de hoje.
Senti um frio na espinha e me alterei um pouco:
-Você vai matar a minha família?
-Eu faria isso ontem se não soubesse que seu irmão e seu futuro noivo estarão lá hoje. Assim eu economizo viagem e forças, entende? – ele disse com desdém. Inclinou-se para o lado onde eu estava: — Apesar de que lhe ver sozinha aqui já demonstra que será um pouco mais cansativo do que eu imaginei.
Eu já teria o atacado se ele não estivesse usando um cão gigante como montaria. Charlie afagou o pelo do animal e comentou olhando para ele:
-Sou tão fiel à Sua Majestade quanto um Cérbero é fiel ao seu libertador. – voltou seus olhos frios para mim: — Sabia que esses pobrezinhos sofrem maus tratos dos demônios no submundo? Alguém precisa soltá-los de vez em quando para eles serem felizes, mas ninguém os entende. Humanos idiotas...
Era muito estranho vê-lo tratar um animal daquele com tanto carinho, mas acho que eu não entenderia de fato aquele vínculo estranho, ainda mais quando eu não fazia parte do time “amigo” ou “inimigo” dos Cérberos, mas do “almoço”.
De repente, vi um vulto vermelho passar por nós e tive um dejá vu. Acabei olhando para a direção que ele se moveu e vi uma pessoa de longos cabelos vermelhos, usando roupas extravagantes, empunhando uma serra elétrica e de expressão que era um misto de psicopatia com deboche.
-Olá, Grell. – Charlie demonstrou que o conhecia.
Grell deu os ombros e respondeu com má vontade:
-Eu não vim aqui para conversar com você. – cruzou os braços. – Vai logo aí, eu estou morrendo de frio!
-Eu sei. – o anjo suspirou. Encarou-me friamente e disse: — Prometo a Elizabeth que sua morte será indolor...
Empunhei os floretes, ainda sem compreender a presença daquele ruivo andrógino e respondi:
-Engraçado, eu tenho intenções contrárias reservadas para você.
-O que você pensa que está fazendo, “esposa do Cão de Guarda da rainha”? – o anjo de cabelos cinzentos debochou. – Você não passa de uma humana que será esmagada se resistir a mim.
-Prefiro morrer esmagada do que ter meu corpo intacto e partir como uma covarde. – gritei de volta.
Grell ficou surpreso:
-Você é a noiva de Ciel?
Antes que eu respondesse àquela pergunta, o cão demoníaco saltou em minha direção com a boca aberta. Me esquivei e desferi um golpe na orelha direita dele.
Ele ganiu e se sacudiu. Charlie desceu de suas costas e sentou-se no alto de uma árvore. Cruzou os braços e disse convencido:
-Duvido que você irá durar muito nessa batalha, senhorita.
Ignorei suas palavras e continuei enfrentando o animal, embora soubesse que não o mataria de uma forma fácil. Ele tentou me acertar com uma patada, porém fui para o lado oposto de seu golpe e cravei uma das armas em seu olho.
O grito de dor dele foi assustador, porém me mantive em pé e vendo seu olho vazar. O sangue rubro caiu sobre a neve e respingou um pouco em minhas roupas. Achei que aquilo o deixaria debilitado, mas ele avançou com mais ímpeto e me arremessou há alguns metros distantes daquele local com um empurrão. Meu corpo bateu com força numa árvore e o florete que permaneceu em minhas mãos foi arremessado para longe.
Estava mais escuro do que antes e, diferente daquela besta que podia enxergar muito bem à noite pelo visto, eu estava ficando em desvantagem. Escutei Charlie dizer:
-Acho que está ficando frio demais. Que tal nos aquecer, criatura?
Grell concordou distraído:
-Eu gostei dessa ideia.
De repente, o animal abriu a boca e labaredas de fogo saíram de sua garganta em minha direção. Arrastei-me para fora do alcance dele e me escondi atrás de uma árvore.
Ouvi Grell assustado:
-Pensando bem, eu não gostei da ideia! – se escondeu atrás de outra árvore.
Olhei ao redor procurando por algo que eu pudesse usar e avistei o brilho da lâmina de minha arma logo à frente graças à luz das chamas que o cão soltou. Corri na direção dela e, quando a agarrei, escutei o rosnado enfurecido atrás de mim. Virei para trás e acertei a garganta dele de raspão. Ele jogou sua cabeça contra meu lado esquerdo e eu rolei novamente, mas fiquei inerte na neve.
Senti uma dor pulsante percorrer o lado esquerdo de meu corpo e tentei me levantar, mas estava me sentindo tão tonta que caí outra vez e arfando.
Finalmente, o anjo maldito desceu da árvore e se aproximou de mim. Disse de modo penoso:
-Lamento, mas não era pra terminar desse modo, porém você insistiu tanto. Adoraria ficar também, porém tenho outras coisas para fazer. Se divirtam. – riu sarcástico e desapareceu.
Fiquei de bruços e vi o Cérbero se aproximar lentamente de mim. Respirei fundo e me esforcei para me levantar, sentindo mais estabilidade. Eu não ia desistir. Peguei minha espada que estava afundada na neve ao meu lado e murmurei para o animal:
-Eu não irei deixar você brincar com os ossos do meu cadáver. Se eu for para o inferno esta noite, você irá comigo.
Acho que ele entendeu, pois mostrou seus dentes para mim. Logo, ele soltou chamas em minha direção com potência total, mas, desta vez, antes que eu me movesse, vi alguma coisa ficar entre mim e ele, me protegendo das chamas.
Quando o fogo se dissipou, logo reparei na pessoa que estava perto de mim. Ciel olhou sobre o ombro e estreitou os olhos:
-O que você está fazendo aqui, Elizabeth?
Sorri de lado e disse:
-Não há de quê, Ciel. – me senti um pouco constrangida em não ter meu trabalho reconhecido, mas já era de se esperar que ele ficaria zangado comigo naquela ocasião. Murmurei séria: — Acho que você já sabe o motivo...
Ele virou-se para frente e respondeu:
-Conversamos sobre isso depois.
Grell apareceu novamente com um sorriso simpático e perguntou:
-Então, realmente é você a noiva do Conde? Prazer em conhecê-la, sou Grell Sutcliff, shinigami renomado. Precisar de meus serviços, aqui está meu cartão. Pode ir me visitar também, eu faço chá! – me entregou um cartãozinho.
-É... Obrigada. – fiquei confusa. Sorri forçado: – Não há de quê.
Ele me puxou pelo braço e sussurrou em meu ouvido:
-Já que você é noiva de Ciel, bem que podíamos nos ajudar separando ele do Sebastian, nada pessoal, mas sabe como é né...
-Acho que agora não é uma boa hora para conversar. – Ciel cortou o assunto quando vimos o animal se aproximar de novo.
O shinigami ligou a serra elétrica e saltou. Fui para o lado oposto que Ciel se direcionou na hora de esquivar do fogo. Ele fez isso para ganhar tempo e também ir contra o animal. Quando o acertou no focinho, gritou para mim:
-Lizzy, volte para a mansão e tente fazer com que todos a evacuem. Charlie está indo para lá a fim de matá-los.
-Eu soube disso agora a pouco. – respondi e olhei ao redor procurando pelos meus pertences. Agarrei minha mala e o outro florete que usei no olho do Cérbero.
-Já que somos todos amiguinhos, eu irei ajudá-los a resolver isso agora! – Grell disse com voz estridente e golpeou o animal.
A neve ao redor tornou-se rubra e me sujei um pouco mais. Fiquei de olhos arregalados com a cena do cão gigante capotando sobre o solo frio. Então, os olhos antes sanguinolentos tornaram-se melancólicos e estatelados.
Após o grito de dor dele, um silêncio mortal tomou a floresta. Olhei para Ciel e o shinigami esperando que alguém dissesse alguma coisa. Meu noivo virou-se para o ruivo e pediu:
-Grell, precisamos de ajuda para impedir que Charlie faça mais algum estrago.
-O que eu ganho com isso? Sou apenas um shinigami! – ele se mostrou inflexível.
Ciel rolou os olhos e o chantageou:
-Se você não nos ajudar, não lhe darei “aquela coisa” que fará Sebastian gostar de você.
-“Aquela coisa”? – os olhos dele brilharam de modo pervertido.
Meu rosto queimou com o modo de que “aquela coisa” desconhecida estava sendo tratada na conversa. O tal shinigami me puxou pela mão e disse:
-Vamos logo salvar a Inglaterra! – riu baixo: — Ai, ai, Sebastian...
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