Kuolema Tekee Taiteilijan
2 Die Alive
Notas iniciais
Ela olhou para seus pulsos pálidos e finos. Sentia-se fraca. Como sempre. Suspirou, não havia nada que pudesse fazer, não agora.
Seu apartamento estava escuro, e a única luz vinha de um de seus notebooks aberto a sua frente. Ela se sentava abraçando os joelhos encarando a tela friamente, o cabelo – agora castanho, mas que já fora de todas as cores imagináveis – cobrindo-lhe uma parte do rosto, as roupas nada mais que moletons velhos. Sim, ela detestava parecer tão fraca, detestava não estar no seu melhor, mas ao mesmo tempo... quem se importava?
Mudou de posição, posicionando as mãos ágeis no teclado. A única coisa que lhe dava poder, prazer, atualmente era escrever. E seu blog era sua ferramenta. Seus textos, misturas delirantes da realidade com fantasia contavam a história de sua vida sem que ninguém soubesse que aquela era de fato sua vida. Era um dos benefícios do anonimato. Se por um lado seu dom para a escrita nunca seria revelado para o mundo, nem portanto seriam seus segredos. A glória e a fama do anonimato já lhe pareciam suficientes, ainda que em muito imaginárias.
Os dedos corriam rapidamente pelo teclado, cada palavra pensada cuidadosamente encaixando-se no texto como uma peça num quebra-cabeça. E quando ela acabasse se sentaria ali, na mesma posição de antes, lendo o texto de novo e de novo. Depois, talvez ela lesse os comentários. Não importava. Essas pessoas que a criticavam ou a adoravam nada sabiam realmente sobre sua vida, não podiam se importar, não podiam conhece-la. E muito menos sabiam o quanto de seus textos viria a ser verdade ou não.
As palavras em minhas mãos como uma faca afiada uma vez mais perfuram a carne de todos. Deixe- que o sangue jorre em teus tecidos brancos, contrastante como nossa sociedade. Pertence a todos o poder de causar uma impressão, uma mancha. Mas, ao cria-la, o corpo é ferido. O corpo, e todas estas ilusões que o cercam têm de cair. Não se cria uma mancha permanente, não se deixa uma marca, não se faz uma cicatriz sem sofrimento. E o sofrimento é a única ferramenta que sempre nos mostrará o verdadeiro homem. E Homem algum deve ter confiança posta sob sua cabeça sem que o conheça, sem que haja uma impressão verdadeira.
A lamina brilha em minhas mãos, o sangue jorra e suja meu rosto. Posso lava-lo, mas nunca esquecerei que um dia ele esteva lá. Posso tentar esquece-lo, mas o poder de conhecer a verdade por segundos é inebriante ainda que mais de uma vez eu tenha chegado perto de onhece-la. E assim, eu pego a lamina uma vez mais.
Talvez por isso a solidão seja minha companheira permanente. Aqueles que passaram pela faca não mais vivem realmente – ou pelo menos eu não achei um que o tenha feito. Todos fantasmas, todos assombrados por suas cicatrizes ao invés de delas tomar proveito. Tiveram tantos a chance de se tornarem verdadeiros e ainda assim um por um sucumbiu à dor de se tornar outra pessoa, seja escondendo as manchas, seja mostrando-as.
E, mesmo assim, eu escrevo palavra por palavra, lamina por lamina, os textos dos quais sangue escorre neste blog.
E, mesmo assim, eu procuro dia após dia alguém determinado a passar por essa lamina chamada sociedade, e sobreviver por mim. Ou talvez a lamina seja eu.
— K.
Ela parou, lendo uma ultima vez o que tinha escrito. Abriu uma nova guia. Lá vamos nós de novo – pensou. Digitou lentamente o nome de um novo site de relacionamentos no qual havia se inscrito há alguns dias. Poderia parecer patético que ela procurasse pessoas neste tipo de site, mas ela havia perdido há muito a esperança de achar alguém na rua. Ela mesma se considerava bastante antissocial. Não gostava de sair, passava a maior parte do tempo á frente de seus computadores... A internet acabara por se tornar uma boa ferramenta para ela.
Entrou em sua conta, e um aviso mostrava que recebera uma nova mensagem. Abriu-a, entrou na pagina do homem que lhe mandara o convite. Thomas, 32 anos... Interessado em cães, The script, e livros de mistério. Seus interesses batiam, então provavelmente o site mesmo a recomendara. Mas ela gostou do que viu. Ele parecia se encaixar perfeitamente no perfil ao qual todos tentavam pertencer. Um bom sujeito. E as fotos eram boas. Ela pensou por alguns segundos e resolveu por fim responder. Em algumas horas eles teriam um encontro marcado para o dia seguinte.
‘’No more fate and no more mystery
Even as time falls away, I live my days
Every moment and its memory
Not only to survive, to die alive’’
Notas finais
Um beijo,
Ju
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