Knightmares

1 Eu Preciso...


Notas iniciais
Olá pessoal!
Eu não tenho o que dizer, só que espero que vocês curtam a história. :)

- Muito bem, Helena! A nota mais alta é sua.
Disse o professor, orgulhoso, estendendo a folha até as mãos da Helena. Ela sempre es esforçara para ser cada vez melhor do que era antes. Ela finalmente conseguiu. Estava prestes a concluir sua faculdade. Mas estava pensando mais alto: doutorado, bacharelado... Até onde ela poderia alcançar. Helena veio de uma família humilde, mas nunca deixou de receber o amor e o carinho que lhe era devido e sempre esteve pensando em uma forma de melhorar a vida da família. Estava prestes a aguentar o que viesse.
- Está preparada para o TCC, Helena?
- Vou fazer o que eu puder, professor.
Uma voz feminina surge lá do fundo.
- Manera quando for olhar o dela, hein professor? Sabe como é. Ela não tem "recursos" suficiente para isso.
Outra voz, dessa vez masculina, surge.
- É, professor! Eu sei que ela é "diferente" de nós, mas pega leve com ela. E avisa aos outros professores também.
Helena abaixou a cabeça e foi quieta para o seu lugar. Não era por menos. Helena estudava em uma das faculdades particulares mais caras do país. Tecnologia de ponta e professores estrangeiros. Ela entrou como bolsista, depois de passar noites em claro estudando para não ter que passar pela cota racial. Seus colegas de classe eram filhos de políticos, médicos, diretores de TV e até de atores. Helena era filha de um peão de obras e tinha três irmãos mais novos. Nunca pôde ter muito, mas sempre quis retribuir o esforço que os pais fizeram por ela e por seus irmãos.
- Eu só quero saber que moral vocês tem para falar isso? Ingrid, você já foi para o AV4. Guilherme, você vai ter que repetir esse período. Podem trazer o político que for e a equipe de TV e contar as ladainhas que quiserem. Comigo vocês não passam além de estudando! Enquanto aos outros, poderiam ter tirado notas melhores. Vamos parar de ficar ostentando nas baladas, pegar um livro, sentar o traseiro na cadeira e estudar! Se não está afim, a porta é a serventia da casa. Parem de gastar o dinheiro e o tempo de vocês. Ou o melhor, o dinheiro dos seus pais. Vocês não são mais crianças, eu nem deveria estar falando isso com vocês. Pois bem, por hoje é só. Dispensados. Você não, Helena. Quero ter uma palavrinha com você.
Enquanto os outros alunos saíam de cara feia e outros nem ligando, Helena ficou sentada na cadeira. Até que uma garota loira passou por ela e "sem querer" derramou uma
garrafa de água em sua cabeça. O professor trancou a porta, tirou uma toalha da mochila e deu a menina para ela se secar. Depois, ele pegou uma cadeira e colocou ao lado da sua.
- Senta aqui, Helena.
Ainda se secando, a aluna senta perto do professor.
- Você não se cansou ainda? Cinco anos sendo humilhada, chacotada e discriminada direto? Dia após dia?
- Eu pensei até que seria pior. Os humilhados são exaltados. E na maioria das vezes, é melhor estar em silêncio em meio as atribulações. No fim, você pode ser confundido com o injusto. Eu não quero o mal deles. Não foi assim que meus pais me ensinaram. E se um dia eu conseguir uma oportunidade de melhorar minha vida, tampouco vou querer esfregar na cara de alguém. Faço isso pensando na minha família. Eles são tudo para mim.
- Eu fico impressionado com isso. Eu nem sei se irei achar alguém como você novamente por aqui. Eu quero que você faça uma atividade, que vai valer 10% do TCC. É a parte da minha matéria.
- O quê?
- Primeiramente, procure coisas antigas na sua casa. Documentos do século passado, artigos, eletrônicos, cartas... Traga até a oficina o máximo que você puder recolher. Não se preocupe que tudo será devolvido. É algo parecido com a atividade que fizemos no semestre passado: "O que tem no lixo do meu vizinho?" Essa é a sua tarefa.
- Soa engraçado. Mas farei isso. Não sei se vou conseguir muita coisa.
- Consiga o que você puder. Se for uma coisa só... Ou duas, ou dez, traga. Por enquanto, é só isso. Dispensada.
- Tchau, professor.
Ao ver Helena atravessar a porta, o professor dá um sorriso.
- Boa noite.

Já são cerca de nove e meia da noite e Helena resolve pegar um atalho. Estava tudo bem até que ela começa a ouvir murmuros em sua volta, mas não vê ninguém. De repente, um garoto, jovem, aparentemente da mesma idade de Helena, aparece em frente a ela, com uma arma nas mãos.
- Perdeu, gatinha. Perdeu, perdeu!
Helena evita olhar nos olhos dele e sem mostrar nenhuma reação de defesa, entrega sua bolsa para o garoto, como seus pais haviam lhe ensinado a reagir um assalto. Mas após o garoto pegar a bolsa, ele não fugiu e nem mandou Helena ir embora. Ele ficou parado, olhando o rosto de Helena, que aos poucos, foi começando a olhar para o rosto do menino. Era um menino bonito. Ela não conseguia imaginar que um menino como aquele estivesse vivendo daquela maneira.
- Desculpa aí, foi mal. — Disse o menino, devolvendo a bolsa para Helena. — Continua seguindo seu caminho aí.
Helena não entendeu muito bem o que havia acontecido, mas tinha a certeza de que não ia se esquecer do rosto daquele menino. Enquanto isso, ele havia voltado ao beco de onde saiu e foi humilhado por seus colegas.
- Qual foi? Deixou a menina vazar?
- Gostou dela, né? Ficou com peninha!
O menino trava a arma e joga em direção aos meninos.
- Eu não tenho que dar explicações. Não disso. Eu tenho ordens de não fazer nada com aquela menina.
- Como é que é? De quem??
Sem dar nenhuma explicação, o menino simplesmente vai embora.
- Valeu rapaziada.

Ao chegar em casa, Helena vê seu pai dormindo no sofá e seus irmãos fazendo a janta. A TV está ligada, mas ninguém está assistindo.
- Helena, que bom que você chegou. A janta tá pronta. Acorda o papai.
Helena vai até o quarto, onde ela, seus irmãos e seu pai dormem juntos, deixa suas coisas e vai acordar seu pai, que está dormindo em um sofá velho e surrado.
- Papai? Papai? Sou eu, Helena.
Com os olhos semiabertos, Jerônimo, o pai de Helena, consegue ver a filha.
- Helena? Chegou, minha filha?
- A janta tá pronta. Vem comer.
- Ah, sim. O que temos hoje?
Helena olha para sua irmã de dezesseis anos, Lorena, que responde.
- Arroz, feijão, ervilha e nuggets. Dá dois nuggets para cada um e quatro colheres grandes de ervilha para cada um.
- É o que temos para hoje, pai.
Seu Jerônimo sorri, com satisfação.
- Então, vamos agradecer, porque temos isso para hoje, enquanto muitos não tem nem a metade do que temos hoje.
Seus outros dois irmãos mais novos, João e Mateus, de quatorze e doze anos, arrumam todos os pratos e colocam na pequena mesinha que há na cozinha. Lorena pega os copos e faz uma quantidade de suco para cada copo, para que ainda haja na próxima vez. Todos se sentam, dão as mãos e seu Jerônimo diz.
- Obrigado por esse alimento. Obrigado porque nossas necessidades são supridas. Obrigado porque nunca nos falta nada e nunca passamos fome. Nós não temos muito, mas temos o suficiente. Podem comer, crianças.
E assim, todos comeram. Depois de terminarem, e todos irem dormir, Helena ficou acordada para lavar a louça e arrumar tudo antes de deitar. Ao se deitar, ela lembrou do menino que havia visto na sua volta para casa. Se sentiu curiosa. Queria saber seu nome, onde morava, por que fazia aquilo e se não havia outra maneira para conseguir o que ele precisava sem violência e sem tirar o que é das pessoas por direito. Era bonito, forte e tinha um olhar diferente. Como se estivesse dizendo: "Eu preciso parar. Mas não posso."

Notas finais
Não se esqueçam de comentar e deixar suas críticas e sugestões. Obrigada :)