Klon

3 Um Livro Infanto Juvenil


Notas iniciais
Gostei bastante de escrever esse capítulo, tentei melhorar o que podia e acho que foi satisfatório, estou me aproximando daquilo eu quero discutir.

Depois que o sol baixou, e já era possível andar na rua normalmente, as duas garotas, Sofia e Tamires saíram da velha igreja de onde estavam descansando. Sofia saia com a esperança de descobrir algo, Tamires saia não esperando nada.

O caminho em vermelho que Sofia encontrara indicava que a biblioteca não ficava longe, mas o trajeto fazia curvas e curvas para contornar as diversas praças e quarteirões gigantescos por isso elas só chegaram quando o sol estava quase posto.

Era um edifício de dois andares, completamente quadrado, com uma placa que indicava o nome de alguém “Monteiro Lobato” que ela nem tinha idéia de quem ou o quê era. A porta era de vidro, mas o vidro estava quebrado com cacos no chão.

Ela tomou um passo para dentro do lugar, mas o sol já não iluminava as janelas de vidro do segundo andar e consequentemente não havia nada a ver a olhos nus, porém ela já havia se preparado para aquilo, ela buscou as velas que ela trouxera do culto e acendeu duas com um fósforo no seu bolso, uma para ela e outra para Tamires.

A luz da vela não iluminava muito, mas era o suficiente para ver que os livros estavam em parte jogados no chão e alguns ainda estavam na estante, Tamires foi ver as prateleiras da ala direita do primeiro andar, lá eles marcavam “Infantis e Infanto-Juvenis”. Sofia se direcionou para o andar superior onde havia livros mais grossos.

Embora os livros fossem grossos, não havia um que datava menos de 50 anos atrás, todos com páginas amarelas, mas ainda passíveis de leitura, mas ela não se interessava nos livros dali, eram de Física, Química, Português, Direito, Medicina e por fim um ou dois de História que tratavam de um tempo de dois mil anos atrás. Ela suspirou e olhou para baixo em direção a sua Klon.

Tamires lia com brilho nos olhos um dos livros que ela pegara. “Ela nunca leu com esse brilho nos olhos, talvez nunca lera com brilho algum”, ela sempre pensara que Tamires fosse um ser, bem, neutro, mas aquilo se provava mais errado do que ela pensara, “talvez Tamires fosse mais humana que ela mesma...”.

Ela saiu desses pensamentos porque a escuridão tomava o lado de fora da biblioteca, o escuro não provocava medo nela, mas provocava a atração de mais pessoas para o lugar onde se ainda via luz, e essas pessoas traziam medo para Sofia.

A menina pegou uma faca e barbante na mochila e traçou algum tipo de arapuca que ligava o chão imediatamente dentro da biblioteca para um sino acima da porta, era pouco, mas o suficiente para elas não serem surpreendidas enquanto estivessem ocupadas, ela avisou Tamires:

–Ei Tamires, se você ouvir um sino tocando, é o alarme, ouviu?

Tamires nem se incomodou de dar uma resposta decente, um leve “ahã” que saia do fundo da biblioteca.

Sofia pegou as malas e as carregou até atrás do balcão onde ela armou o seu saco de dormir, ela já estava prestes a apagar sua vela quando ela notou uma caixa de papelão debaixo do balcão, por curiosidade ela resolveu abri-la.

A caixa estava cheia de jornais e por cima deles estava uma espécie de livro com couro em volta, ela não sabia o que era e, portanto o abriu, lá estavam datas dos dias, uma por página e alguns escritos que diziam sobre como fora o dia de alguém.

–É um diário!

Ela correu as páginas daquilo, admirando a descoberta, aquilo era a coisa mais próxima do tempo dela que ela jamais encontrara, porém também datava aproximadamente 50 anos. Sofia parou para admirar um símbolo, uma estrela vermelha no dia 8 de agosto, no dia lia-se:

“É um verdadeiro caos, o povo está nas ruas, desempregado, estão fazendo arrastões nas lojas que ainda tem estoque, mas elas não irão durar muito, não se sabe o motivo, mas já nasce todo tipo de crença em volta disso. Tolos, digo eu, a situação já é insustentável, vou para o Sul, onde é menos povoado, talvez ainda haja alguma esperança...”.

No resto do diário todas as páginas estavam rasgadas a mão, além daquilo e os eventos cotidianos das páginas mais velhas, só era possível distinguir o autor, Thomas Frey.

Não era aquilo que ela procurava, e por isso ela não estava satisfeita, “o que diabos havia no Sul?”, mas ela sabia que ficar se perguntando não ia responder nenhuma pergunta e por isso ela resolveu ir dormir.

...

O sol já estava alto no céu quando bateu na cara de Sofia para o seu despertar, ela abriu os olhos e viu que ao seu lado onde deveria estar o saco de dormir de Tamires, nada se encontrava.

Ela se levantou num pulo, ainda meio sonolenta e verificou numa figura que ainda lia lá no final da biblioteca, era Tamires. Sofia suspirou em alívio, mas aquilo não era o mais impressionante, o mais chocante era que ela lia a mesmo livro da noite anterior.

Sofia se aproximou da figura, Tamires tinha o mesmo brilho nos olhos de uma criança que recentemente descobriu uma nova brincadeira, novamente ela pensou e não se lembrou de nenhuma oportunidade onde ela estivesse com semelhante brilho nos olhos. As olheiras nos olhos dela não pareciam impedi-la de ler.

–Tamires?

Tamires foi tomada por um susto, quando reparou nos arredores e em Sofia que estava na sua frente, uma vermelhidão tomou sua face e a boca disse numa voz encabulada.

–Bom dia!

–Você percebeu que já é dia? Você sequer dormiu?

–Er... não.

Sofia estava somente brincando com ela, mas Tamires parecia entender aquilo como uma bronca.

–Vamos, já ficamos muito tempo aqui, se arrume que eu vou pegar nossas malas.

Não que houvesse muito que arrumar, por isso Tamires tomou seu tempo para ler o que podia do livro enquanto podia.

Sofia pegava as malas e via a figura, sua Klon ainda lendo, dava uma dó enorme desfazer a pessoa de algo que ela recentemente gostara assim sem mais nem menos, ela via a tristeza em Tamires que parecia ler agora com um olhar fúnebre, nem que ela fosse uma cruel vilã ela poderia separar a Klon do livro, por isso Sofia se aproximou dela novamente:

–Por quê você não leva o livro?

–Posso? Mesmo? Perguntava Tamires com olhar de cachorro pedinte, como Sofia poderia recusar?

–Claro, mas deixe para ler quando nós não estivermos andando.

Tamires parecia prestes a ir aos prantos com aquele aparente gesto de bondade, raramente destinado a ela, também por isso ela abraçou a sua gêmea fortemente como um urso.

Mal sabia Sofia o que aquilo ali causaria na sua história....

Notas finais
Obrigado por ler até o final, se você gostou comente, e se não gostou comente também. Está faltando um pouquinho de ação, então esperem e verão no próximo capítulo....