Klon

10 Duas promessas


Notas iniciais
Bem apreciem a leitura, achei que melhoraram bastante os diálogos pelo menos comparando com os capítulos anteriores.

A menina estava desconsolada e prestes a chorar com seu único olho, ela estava ao pé de uma elevação de uma casa qualquer, a mais afastada que ela encontrou. O mundo já não fazia sentido para ela, era inacreditável o que acontecia em Alta Tempestade, pessoas, humanos tratados como objetos.

Sofia sabia que o choro não era costumeiro dela, mas a situação realmente a forçara a tudo aquilo, depois daquilo ela soube que quase todos os membros mais velhos de Alta Tempestade sabiam daquilo “e ninguém faz nada, são todos cúmplices, que morram da forma mais trágica possível!” ela amaldiçoou.

Mas maldições não funcionavam e ela sabia bem disso, fato era que Tamires estava para ser executada daqui a dois dias na manhã do sábado, era quinta-feira, Sofia tinha umas 40 horas para fazer alguma coisa, “mas fazer o que? O que eu posso fazer?” ela ponderou.

“Não, não, não o que eu posso fazer é o que eu devo fazer” a obrigação de salvar Tamires pesou sobre os ombros da menina que tinha 15 anos de idade. Uma voz que parecia distante passou pelos seus ouvidos, mas ela não deu muita bola, de repente alguma coisa tocou seu braço.

Parecia uma mão, mas ela não saberia dizer, pois estava no seu ponto cego, ela focou para poder escutar quem falava com ela.

–Você está bem? Era uma voz doce e meiga de mulher.

–Desculpe-me, já vou sair daqui, desculpe pelo incômodo, disse Sofia abanando a calça moletom e indo embora.

–Que isso, eu não sei nada sobre você, mas porque você não entra e toma um leite quente, minha mãe sempre dizia que melhorava o astral.

A proposta era convidativa para alguém que não queria retornar para casa ainda mais com aquela escuridão que só a deprimia, por isso a menina aceitou.

A voz de mulher que ela ouvia provinha de uma Klon que olhava para ela, a Klon tinha cabelos longos e ruivos e estava com uma feição dócil. Ela estendeu a mão para ajudar Sofia a subir na elevação e a conduziu para dentro da casa.

A casa era muito simples por dentro, a iluminação existia em algumas partes e em outras simplesmente não havia lâmpadas, os móveis também pareciam extremamente velhos, com cerca de 20 anos.

–A casa é antiga, era da nossa mãe, eu sou Amanda a propósito, a Scarlet está na cozinha, depois eu introduzo vocês, porque você não senta Tamires? Disse Amanda apontando para uma cadeira acolchoada ali na sala.

Sofia não se importou de ser confundida com Tamires, aquilo já começava a acontecer com frequência.

–Scarlet você pode trazer um copo de leite quente para mim? Temos visita.

Sofia ouviu uma voz lá no fundo dizendo “OK”.

–Eu não quero incomodar...

–Não é nada, nós até gostamos de visitas, até estávamos pensando em convidar você e Sofia para vir aqui comemorar a recuperação.

–Eu acho que isso vai ser meio difícil agora...

–Por quê? Aconteceu alguma coisa com ela? Vocês brigaram ou algo do tipo?

Sofia ficou quieta, ela não queria envolver outras pessoas naquela situação penosa, Amanda ainda era dócil, como ela poderia arrasta-la para aquilo?

–Por favor, me fale também! Ela é minha amiga! Disse à voz que ecoara da cozinha antes, ela estava com uma bandeja com três copos com leite que soltavam fumaças de calor. Era uma menina igual à Amanda, mas com feições menos femininas.

–Isso são modos, Scarlet? Sirva nossa convidada e se sente aqui, ou você pretende ficar em pé.

Scarlet resmungou algo como quem não gostava da situação, mas deu um copo para Sofia e Amanda e se ajeitou ao lado da última. O copo esquentou a mão de Sofia e a fez reconsiderar a decisão. “Eu tenho que salvar Tamires de qualquer jeito”. Ela começaria com a verdade.

–Na verdade, eu sou Sofia. Quem você chama de Sofia é na verdade a minha Klon, Tamires, eu a mandei trocar a sua pulseira comigo para que ela não fosse culpada pelo que aconteceu comigo. Sofia apontou para o olho.

Amanda não se surpreendeu e Scarlet só ficou pensativa.

–Mas eles descobriram sobre a nossa troca de pulseiras e sentenciaram-na a morte.

Nesse ponto Amanda continuou calma e com expressão serena, já Scarlet se revoltou e enraivou-se com tudo.

–Mas por quê? Só por causa de uma simples troca de pulseiras? Mas que merda, precisamos salva-la.

Amanda controlou a irmã e saiu do silêncio para se pronunciar, no mesmo tom calmo e sereno com o qual ela havia escutado.

–Com certeza tem mais nessa história do que isso. Aparentemente você não é o tipo de pessoa chora, não sem ao menos tentar de tudo, gostaria que você continuasse.

–Você tem razão, “ela é perspicaz” pensou Sofia, na verdade o verdadeiro motivo que ela foi sentenciada a morte é porque ela não fez o seu papel de apólice, simplesmente porque ela não estava aqui para “doar” seu próprio olho para mim, disse Sofia rangendo os dentes.

Scarlet ficou mais impassível do que antes, tanto que teve de levantar e começou a andar em volta da sala. Amanda procurou algo no bolso e estendeu-o para Sofia, era um lenço.

–Seque essas lágrimas, sugeriu Amanda.

Sofia nem percebera que seu rosto estava encharcado de lágrimas, que saíam como um rio dos seus olhos, ela os secou com o lenço.

–Temos que fazer alguma coisa Amanda, Tamires é nossa amiga, e vai morrer!

–Calma Scarlet, não há nada que nós possamos fazer nesse momento a não ser esperar.

–Mas...

Amanda olhou para ela com um olhar de quem não admitia discussão e calou Scarlet.

–Vá levar esses copos na cozinha, eu quero mostrar uma coisa para Sofia. Quando Scarlet foi até a cozinha, Amanda pegou na mão de Sofia e seguiu com ela escada acima.

–Você sabia que nossa mãe trabalhava no ambulatório antes dela morrer?

–Não.

–Pois bem na verdade a história dela é bem triste, o marido morreu cedo logo depois de engravida-la e a deixou cuidando de nós, sozinha, até é claro ela morrer.

–Meus pêsames.

Elas estavam agora no corredor do andar superior, era muito parecido com o resto da casa a não ser pelo seu fim que mostrava paredes brancas como a neve igual a do ambulatório.

–Falaram que ela morreu de doença qualquer que encontraram, mas quando eu cresci eu descobri umas coisas no quarto/ laboratório dela, estavam escondidos debaixo do azulejo no banheiro.

Elas entraram num quarto com uma cama de casal, com um banheiro à direita, e um enorme guarda roupa. Amanda foi até o banheiro e trouxe de volta uns papéis com ela, eram pelo menos 20 páginas.

–Leia.

Sofia pegou os papéis e começou a lê-los, eram de uma pesquisa com o nome de Roberta Stein, ela começava introduzindo Alta Tempestade e os benefícios do uso de Klons. Depois dessa pequena introdução ela começava a transcorrer sobre a ética de fazer aquilo e concluía que compensava o uso dos Klon. Essas eram as primeiras 5 páginas.

Nas outras 15 que ela tinha nas mãos estavam algumas anotações que ela passou de página em página, até uma que chamou sua atenção, tinha no cabeçalho “sobre os Klons”.

O texto explicava algumas coisas que ela já entendera sobre os Klon, eles era realmente clones, produzidos e criados junto com os originais para se fazer uma reposição das partes do corpo do original, então ela começou a ler algumas coisas inéditas como a máquina que produzia esses Klons, era uma coisa das Antigas Civilizações, nem se sabia como ela fora construída por isso reparos eram impossíveis, tornando-a insubstituível, por fim na conclusão do texto ela colocava algumas perguntas. “Estamos brincando de Deus? Ou será que estamos simplesmente sendo cientistas? A ética nos perdoará quando morrermos? Os Klons nos perdoarão quando descobrirem a verdade? Será que só porque podemos fazer eles do zero, com os dados guardados na máquina, devemos trata-los como objetos?”.

–Nossa, sua mãe era uma pesquisadora lá então.

–Pode-se dizer que sim, disse Amanda, mas isso não vem ao caso, você sabe por que eu estou te mostrando isso, não sabe?

–Sim, mas você me assegura que Tamires ficará bem?

–Eu asseguro que no sábado a tarde ela já estará longe daqui, é uma promessa.

–Então eu prometo que quando eles acordarem no sábado, os Klons nunca mais vão ser tratados como apólices e objetos.

Notas finais
O final se aproxima, e eu vai ter bastante ação por isso fiquem atentos, acho que vou deixar a quem lê um tempo para ler esses três capítulos que eu fiz ontem e hoje, ninguém é uma máquina de leitura. E novamente, se você gostou comente e se não gostou comente também, comentários são extremamente úteis e valorizados