Klon
1 A Marcha
Notas iniciais
Era um novo dia e Sofia já levantou animada com a perspectiva do que aquele dia traria, não porque era um novo dia, mas porque hoje era o dia do começo de um passeio escolar, eles iriam para uma das Antigas Cidades e aquilo a excitava.
Ao lado dela caminhando na rua estava uma figura igualzinha a ela, era uma peça idêntica, um gêmeo univitelino praticamente, além das roupas da gêmea, que eram mais desgastadas, o único jeito de diferencia-las era com um bracelete verde no pulso direito que a gêmea usava.
A rua era apenas de nome, porque não havia asfalto nem guias, era mais uma trilha frequentemente usada do que uma rua.
Mesmo sendo o dia do passeio, Sofia não carregava nada nem em suas mãos, nem em suas costas, em compensação a gêmea dela carregava uma mochila em cada ombro e algumas sacolas nas mãos.
Elas não trocavam nenhuma palavra, não parecia que elas haviam brigado, mas sim que Sofia nem percebia a existência da gêmea.
Depois de alguns minutos caminhando elas chegaram a um lugar cheio de jovens, da idade de ambas, 13 ou 14 anos, todos tinham gêmeos univitelinos com eles carregando malas e sacolas.
Sofia ficou na ponta dos pés para tentar localizar suas amigas entre aquela multidão de jovens, deviam ser 75 pares de gêmeos, totalizando 150 pessoas, por fim ela desistiu de encontra-las, provavelmente elas não vieram, “bobas” ela pensou. Nos pares de pessoas sempre havia uma com bracelete verde e era essa que carregava as malas como a gêmea ao lado dela.
De repente da aglomeração de jovens surgiram dois adultos, também gêmeos que vinham na direção de Sofia, ambos usavam um colete verde grifa texto o que os fazia plenamente visíveis.
-Você é Sofia Amundstêin?
-Sim, respondeu Sofia.
-Estávamos aguardando só você, da próxima vez saia mais cedo de casa, e não atrase os outros.
O gêmeo dele anotou no caderno um x, que parecia uma marca de presença. O homem então assobiou e disse em alto e bom tom:
-Nós partiremos em 5 minutos, se arrumem e estejam preparados.
Sofia foi abandonada pelo homem e pensou “uma viagem é bem mais divertida com mais de uma pessoa, seria melhor se ela fizesse alguns amigos”, ela reparou nas pessoas ali concentradas e um dois casais chamaram a atenção dela.
Os casais eram um garoto e um gêmeo, e ao lado uma menina e sua gêmea, ambos os gêmeos aparentemente usavam aquelas pulseiras verdes no pulso, mas algo chamou a atenção dela, logo ela soube o que, o menino e seu gêmeo assim como a menina e sua gêmea estavam usando as mesmas roupas, não exatamente as mesmas roupas, mas roupas de igual qualidade e também as malas estavam divididas entre ambos.
“Klonholics” ela pensou, mas ela não teve certeza, por isso se aproximou de onde os casais estavam e começou a ouvir a conversa deles discretamente atrás de uma árvore, sua gêmea vinha logo atrás sem perder o passo acelerado dela.
Não era somente o casal sem bracelete que conversava alegremente, ela notou também que o casal com bracelete verde também estava na conversa.
-... Então o Joseph aqui me disse que vocês gostariam de ir conosco na viagem, é verdade? Perguntou o jovem sem bracelete.
-É verdade, a Scarlet e eu combinamos de vir, mas não achamos ninguém para ir junto, todos estavam com medo das Antigas Cidades e não quiseram vir, falou a menina com bracelete verde.
-É sempre melhor ir acompanhado, já basta eu suportar ele em casa, falou o que se chamava Joseph.
Todos deram risadas e Sofia teve certeza daquilo que ela antes suspeitara, eram klonholics. Kolnholics eram pessoas que tratavam seus Klons como se fossem pessoas normais, “o pior tipo de pessoa” era como sua mãe se referia a eles.
Um barulho de pessoas se locomovendo e pisando em pedras às 7 da manhã tirou-a dos seus pensamentos, era a marcha que começava, ela aproveitou isso e se afastou daqueles casais kolnholics.
“Nada vai atrapalhar a visão das Antigas Cidades, nem mesmo klonholics” pensou ela.
A marcha seguia o ritmo cansado e sonolento de uma manhã de inverno, mas conforme a névoa matutina se dissipava também se dissipava este estupor e a marcha ia num ritmo mais rápido, não havia paradas para almoço, apenas paradas ao anoitecer que se resumiam antes do nascer do sol. Ao redor da marcha ficavam homens com coletes iguais ao do cara que assobiara de manhã, eles garantiam que ninguém saísse do caminho.
De vez um quando ela parava sua Klon e pegava de sua bolsa um cantil d´agua para se hidratar na mala ela via que a mãe colocara várias frutas, e na outra mala no ombro oposto da Klon havia mudas de roupas.
O ritmo podia parecer pesado, mas os jovens já pareciam acostumados a aquilo ali, um ou outro Klon suava ligeiramente, mas esses nem se importavam de reclamar, as pessoas conversavam ao longo do caminho, mas seus Klons permaneciam em completo silêncio, menos é claro os Klons daquele casal.
No que circundava aquela massa de jovens, estava a natureza em seu mais belo esplendor, árvores de quase 36 metros podiam ser vistas a distância, arbustos cheios de frutos pequeninos também se encontravam no caminho, o ar ficava abafado naquela floresta, mas o mais impressionante eram ar árvores de flores amarelas, verdes, vermelhas, rosas e azuis, que pintavam um belo quadro ao longo do caminho.
Na parada noturna, ela ficara encarregada de trazer galhos secos para as fogueiras, ele nem se importou com a ordem e apontou para a floresta, a Klon dela entendeu a mensagem e foi buscar os galhos secos.
Fizeram 4 fogueiras, com as pessoas dormindo ao redor delas, mesmo com elas foram ordenadas horas de vigias, só por precaução, aquele povo já se adaptara as florestas. A Klon dela cumpriu seu lugar na vigia e ela aproveitou para descansar no seu saco de dormir.
No nascer do sol do dia seguinte, a marcha já estava andando, a Klon de Sofia parecia com olheiras e bem cansada, mas mesmo assim não falou nada, ela nunca falava nada.
Foi mais um dia solitário para ela, porque ela não conseguira arranjar ninguém para conversar, no dia anterior ela tentara esboçar conversas, mas todas as pessoas eram desinteressantes e ela desistia da conversa. Naquele dia ela estava mais preocupada com as coisas ao seu redor.
Conforme eles marchavam a floresta ficava menos espessa, e já era possível ter relances do céu. Outra coisa que mudava era a aparição, aqui e ali, de casas antigas, construídas com tijolos e cimento, e o teto de telhas, mostrando o atraso da civilização que vivia ali.
Havia histórias de que aquela civilização tentara manipular e até moldar a natureza a seu bel-prazer, foram gananciosos como os criadores da torre de Babel, mas seu fim fora muito mais destrutivo do que apenas a confusão das línguas. [1]
No final do dia quando o sol já mostrava um céu rosáceo, foi possível ver o lugar que eles caminharam tanto para ver, uma das Antigas Cidades, do mundo mediano, ela possuía torres de metal mais altas do que qualquer árvore que ela já vira, as construções ao redor eram igualmente altas e igualmente belas, embora utilizassem a tecnologia atrasada do tijolo com cimento.
A visão daquele esplendor não durou muito, por que o sol já se punha, naquela noite ela não tivera que fazer nada, nem mandar a Klon atrás de galhos nem manda-la fazer vigilância, mesmo assim ela demorou a pegar no sono, “é amanhã!” ela pensava.
Notas
1- Referência a torre de babel, descrita na bíblia, uma torre que tentava alcançar os céus, Deus ao ver aquilo confundiu as línguas de quem construía e eles não conseguiram finalizar a torre.
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