Kira

5 Capítulo 5


Setembro, 14.

Parecia que poucos segundos haviam se passado quando Rachel me acordou gritando.

–David! A caverna está desmoronando!-pareceu que algo acordou dentro de mim e quando vi, já estava fora do meu corpo.

Ele pegou a mão de Rachel e levou-a consigo. Os segui, mas por todas as partes pelas quais passávamos caiam paredes e pedras quase nas nossas cabeças.

A cada passo dado era um centímetro mais perto da morte e quando achei que iríamos mesmo morrer, entramos em uma sala e o tremor parou. Voltei ao meu corpo.

–Achei que não conseguiríamos. –falou Rachel e me abraçou muito forte.

–Que lugar é esse?-perguntei para ninguém em particular. O salão era enorme. O teto era oval e havia desenhos de alguns deuses gregos ou romanos, eu acho. Vários retratos com a imagem individual de cada um daqueles deuses.

O piso era da cor da areia e se esfarelava em alguns pontos, as paredes estavam rachando também. O que quer que aquilo tenha representado algum dia já não existe mais.

Andamos um pouco para frente e pisei em uma pedra que afundou. As paredes estremeceram e o teto ficou a ponto de cair.

Dois pedestais apareceram e cápsulas subiram em cima deles. Fumaça e poeira apareceram e não consegui enxergar nada por um tempo.

As duas cápsulas se abriram e mais poeira ascendeu no ar. Duas pessoas saíram de dentro delas. Uma mulher e um homem.

O homem era alto e velho, com barba e cabelos grisalhos. Seus olhos eram azuis da cor do céu e sua pele branca. Usava terno branco e gravata vermelha com sapatos sociais de bico fino.

A mulher era um pouco mais baixa do que o senhor. Seus cabelos eram longos, ondulados e castanhos claros. Seus olhos eram cinza como nuvens de tempestade e usava uma toga branca até os pés descalços.

Eles pareciam abatidos e muito mais velhos do que deveriam ser.

–David Hunt?- perguntou o homem.

–Não. Ele é Perseu!É claro que é o David seu grandíssimo idiota. –falou a mulher irritada.

–Quem são vocês?-perguntou Rachel.

–Viu?Não somos mais reconhecidos nos dias de hoje. Após três mil anos debaixo da terra e o mundo só piorou. –falou a mulher irritada. –Eu sou Atena, deusa da sabedoria e estratégia. Esse velhinho aqui é Zeus, rei do Olimpo e deus dos céus.

–Como assim?Deuses?- eu falei finalmente.

–Sim, deuses, gregos para ser mais específico. E você, David, é nossa salvação. –respondeu Zeus.

–Salvação?Não entendo. Vocês devem estar de brincadeira conosco. Vamos embora. – falei me virando. Eles já estavam na saída. – O quê?

–Olhe garoto. Não passamos mais de três mil anos planejando nosso retorno para não dar em nada. Você irá nos ouvir agora. –falou “Atena”.

–Ok. Mas se tiver um detalhe que mostre uma mentira se quer, eu irei embora. –falei.

–Hades, meu irmão. Nós iremos ajudá-lo a sair um pouco desse corpo apertado. –disse “Zeus”. Então levantou a mão e uma aura negra saiu pela minha boca, parecia que eu estava vomitando névoa e quando vi, um homem se formou.

–Vejo que com esse curto espaço de tempo dentro de um humano Hunt legítimo. –falou Atena.

Ele tinha a aparência de trinta anos. Sua pele era branca, até mais que a neve, seus olhos eram negros. Usava um terno, gravata, calça social e sapatos pretos. Seus cabelos eram (adivinha) pretos e desarrumados.

–E quem é esse?-perguntei já que não sabia nada sobre mitologia grega.

–Deus dos mortos, das riquezas da terra e do Mundo Inferior, David. –respondeu Hades.

–E por que você saiu em forma de névoa da minha boca?-perguntei, porque ainda estava saindo um pouco de líquido preto da minha boca.

–Ah, isso é porque ficaria mais sinistro se eu saísse dessa forma. Gostou?-ele falou sorrindo. Me segurei para não dar um tapa na cara do “deus”.

–Então da próxima vez me pergunta para mim escolher iogurte, Sr.Caveira. –falei.

–Mas o que vocês estão fazendo aqui?E o que David tem haver com isso?-perguntou Rachel estressada.

–Então começaremos do início. –falou Zeus. Os três seres deram as mãos e sala toda brilhou.

Quando vi estava no meio de uma guerra. Havia gigantes, ciclopes, centauros e muitas outras criaturas batalhando.

De um lado estavam os deuses (sabia porque reconheci Zeus e Atena) e do outro alguns gigantes que eu não reconhecia.

–Esse somos nós e os titãs. – falou Atena no meu lado. Mas ela ainda estava na guerra. Duas Atenas? –Isso é somente uma projeção do passado você nada irá nos atingir, então ande normalmente.

–Por que Hades não está com vocês?-perguntei.

–Porque eu não sou um deus olimpiano, meu lar é o Mundo Inferior logo abaixo, no que vocês chamam de subterrâneo.

–Nessa guerra, nós vencemos. Mas logo após de derrotarmos e matarmos os titãs, fizemos uma descoberta terrível. Havia um deus traidor. –contou Zeus.

–Ares, deus da guerra, ele era o grande traidor. Ele fez com que a guerra durasse muito mais tempo do que deveria, enfraquecendo aos deuses, dando-os bebidas envenenadas. –falou Hades.

–Mas mesmo assim vencemos e depois Ares sumiu. E um de seus subordinados contou-nos a verdade. Passaram-se muitos anos, os humanos apareceram e “esse mundo” se formou. Continuamos governando o mundo, mas precisamos esconder-nos de vocês, achamos melhor assim. –continuou Atena e aparecemos em um templo enorme.

Várias colunas rodeavam o local e doze assentos enormes estavam em forma de círculo no salão.

–Usamos magia para criar um véu entre o nosso mundo e o dos humanos. Reunimos nosso poder e colocamos essa magia nos olhos humanos vivos e em todos os que nascessem após. –falou Zeus.

–Depois de mais algum tempo descobriram que Ares estava retornando para enfrentar aos deuses. Houve outra guerra e a quase extinção dos humanos foi iminente. –explicou Hades.

–Nós vencemos facilmente, mas Ares fugiu novamente. Essa guerra foi grande, mas não tanto quanto a guerra dos titãs, então não sabíamos o que Ares queria com isso até a separação dos humanos. Como a guerra teve grandes proporções, a centena de humanos que sobreviveram e se juntaram, descobriram nossa existência. –falou Atena.

–Para podermos manter nossa existência preservada fizemos um acordo com os humanos. Eles não contariam nada a seus descendentes sobre nós se ajudássemos a construir um lar para eles. Eles concordaram e assim aconteceu. –prosseguiu Atena. E agora estávamos no ar andando no céu e pude ver uma grande, muito grande, cidade (mais ou menos com o tamanho dos Estados Unidos) reunida somente em uma parte do mundo, no resto somente natureza. –Os humanos todos, agora centenas, se reuniram no que hoje seria a África. Mas tudo isso fazia parte do plano de Ares.

–Quando achávamos que ele havia desistido ele nos ataca com toda sua força com um grande exército de monstros e muitos deuses menores. Como fomos pegos de surpresa perdemos e para não morrermos nos escondemos com Hades que nos aceitou no Mundo Inferior. –falou Zeus.

Estávamos agora no Inferno, acho que literalmente. Lava escorria por alguns locais queimando pessoas, todo um local era tomado pelas mais terríveis torturas e mortes que você poderia imaginar. Apesar disso, havia uma ilha calma e isolada de tudo aquilo, parecia o paraíso.

–Ares tomou o mundo e começou a influenciar nos humanos. Nós não podíamos deixar que os humanos fossem para o seu lado, então, com o pouco de poder que nos restava, começamos a tomar humanos para o nosso lado. –falou Hades.

–Assim se formaram duas famílias: a família Hunt e a família King. A família era a parte dos humanos influenciada pelos deuses, já a família King por Ares. –falou Atena. Depois disso voltamos para a sala no subterrâneo.

–Então minha família, meu pai, minha mãe, meu irmão são da família Hunt... –falei. Por isso aqueles livros no escritório de meu pai.

–Não. Seu irmão não é um Hunt legítimo, a mãe dele não é a sua. –falou Atena.

–O quê?Como assim?Sam é meu meio-irmão?Mas por que meu pai nunca contou isso?-muitas dúvidas se formaram na minha cabeça ao mesmo tempo e comecei a sacudir Hades com força.

–Calma, garoto. Iremos lhe explicar, mas o que é importante agora é a informação de que você é um dos últimos Hunt na Terra. Agora só existem vinte, contando com você, e os King são mais de uma centena... –falou ele, mas logo ele se transformou em névoa e retornou ao meu corpo à força.

Foi muito poder para mim, não consegui aguentar e só deu para ouvir Rachel gritando:

–David!