Kira
4 Capítulo 4
Setembro, 13.
–Não!-gritei.
Corri em direção à maca de Rachel. Ela não estava lá. Uma mancha de sangue do tamanho da minha mão estava no lençol.
–Rachel!-gritei desesperado. E senti um alívio tão grande, que deu vontade de chorar quando escutei a voz de Rachel saindo do banheiro:
–Estou aqui no banheiro. Por que está gritando?-perguntou ela e saiu do banheiro.
Ela estava com a mesma roupa de antes, mas parecia que havia tomado banho. Seu cabelo brilhava porque estava molhado e gotas pingavam no chão escorrendo pelo seu corpo.
–Nunca mais faça isso. Você está machucada?-perguntei.
–Não. Por quê?-falou na maior inocência.
–Por que tem uma mancha de sangue no seu lençol e achei...
–Não é isso. É que eu acabei de ficar... Você sabe. –disse ela.
Logo veio uma conversa na minha cabeça. Meu pai me ensinando para ficar longe das mulheres quando estavam naqueles dias. Uma saudade apertou dentro do meu coração. Pai...
–Me desculpe, só achei que... Eles haviam aparecido. –minha voz falou. Eu não conseguia falar Sam tinha aparecido.
–Mas quem são eles, David?-perguntou ela.
–Meu irmão. Ele matou meu pai e agora quer me pegar. Eu ainda não sei o que ele pretende nem por que o fez, mas ele matou meu pai. –eu disse. Lágrimas escorreram pelo meu rosto e Rachel me beijou.
Foi um beijo na bochecha, mas tão carinhoso e afetuoso que me fez querer abraçá-la, e eu o fiz.
–Acho que está apertando forte demais, David. –ela disse sorrindo. Eu a soltei.
–Me desculpe. Por tudo. Por ter envolvido você nisso e por, provavelmente, você não poder mais ficar em casa segura. -isso era a verdade. Se ela fosse para casa, uma hora ou outra Sam se lembraria dela e usaria-a contra mim.
–Não se desculpe. E eu não pretendo voltar. Vou ficar com você. – ela disse. Eu não acreditei. Por que alguém arriscaria sua vida por mim?-Porque eu te amo.
Seu beijo veio tão repentinamente forte. Que me entreguei totalmente. Se ela fosse minha inimiga e me matasse, eu morreria feliz, pois me entreguei completamente àquele beijo.
Depois de alguns segundos de beijo de verdade, dessa vez, ela parou e ficou me olhando como se eu fosse a coisa mais interessante no mundo.
–Hum, eu, realmente, não sei o que dizer. –eu disse. Logo aquele momento se foi. Ela saiu correndo para o banheiro e se trancou. –Rachel, o que foi?Eu não beijo bem?
–Não!Seu grande idiota!Você beija, maravilhosamente, bem. Mas eu não acredito que você disse que não sabia o que dizer!-ela estava com muita raiva mesmo e percebi o porquê.
–Droga!Como eu sou burro!Me desculpe. Rachel Garcia Rivallez, eu te amo também. Não há ninguém mais nesse mundo que eu ame, então não faça isso. Saía daí de dentro. – falei desesperado, batendo a cabeça na porta.
Ouvi o destrancar da porta e Rachel me abraçou.
–Sério?!Por um momento, eu achei que você... –impedi-lhe de continuar colocando dois dedos em seus lábios.
–Eu sempre gostei de você Rachel, mas não tinha coragem de admitir ou mesmo de falar. –dessa vez eu a beijei.
–Que bonitinho. –falou Sam. Puxei Rachel para as minhas costas e o encarei.
–Droga!Por que você está fazendo isso, Sam?-perguntei. Eu já não aguentava mais, precisava terminar aquilo.
–Eu não irei matá-lo, David. Só quero que saiba a verdade. A verdade sobre nossa família. –ele falou se aproximando.
–A verdade... – Rachel me puxou e correu em direção a janela que ficava no banheiro. E nos jogou pela janela, foi quando lembrei que estávamos no térreo.
Foi tão rápido. Um segundo depois estávamos caídos em cima de umas caixas de papelão vazias. Levantamos e corremos pelas ruas.
Parecia que o bairro todo era feito de prédios e fábricas abandonados, já devia passar do meio-dia. Passamos por dez fábricas, cinco empresas, dois mercados e outro hospital, até chegarmos a uma escada que levava para o subterrâneo.
–Entramos?-perguntei, mas ela já estava na metade da escada.
O que eu achei que fosse uma escada pequena era na verdade uma escada tripla. Havia três passagens: esquerda, direita e em frente.
–O que você acha?-perguntou Rachel. Eu não sei, seria minha resposta, se eu não tivesse saído do meu corpo e o meu corpo não tivesse saído correndo pela direita.
–Se você quer ir por aí... –falou Rachel. E saiu correndo atrás do meu corpo.
–Siga-me. – falou meu corpo. Aquilo foi sinistro, não era a minha voz, mas sim a de alguém mais antigo e poderoso, como um imperador.
Rachel assentiu e segui-o. Passamos por um labirinto de túneis que não pareciam ter fim. Depois de uma hora, mais ou menos, andando, paramos para descansar. Voltei para o meu corpo.
–Vamos descansar um pouco. –falei. Sentei encostado na parede e Rachel sentou ao meu lado.
–Como iremos sair daqui?-ela perguntou.
–Acho que meu corpo sabe para onde ir. –disse e ela não pareceu confusa com a ideia (vai ver ela não sabia que era no sentido literal).
Quando me dei conta Rachel já havia dormido. Não demorou muito e adormeci também.
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