Kira

3 Capítulo 3


Setembro, 12.

Acordei com uma terrível dor de cabeça. Eu estava em uma cadeira amarrado nos pulsos, pés e tronco. Estava em uma sala pequena e havia uma mesa vazia a minha frente, pareciam àquelas salas de interrogatório na prisão.

Esperei um bom tempo até ouvir a porta se abrindo. Quando entrou não acreditei, era meu irmão.

–Olá, Hunt, David Hunt. Seu nome pode até parecer amedrontador quando pronunciado, mas você não causa medo a ninguém. -ele disse. Um ódio grande apareceu em meu coração e de repente não era eu que me movia.

Eu via meu corpo, mas não o controlava. Era como se minha alma tivesse saído do corpo e agora o estava observando.

Meu corpo quebrou as cordas somente com força bruta. Uma aura negra cercava meu corpo como se algo se apoderasse dele. Meu corpo pulou por cima da mesa e deu um soco em meu irmão. Foi quando voltei a ele.

–Tem certeza?Porque eu estou causando medo agora. -eu disse como se aquilo o que aconteceu tivesse sido completamente normal. -Onde está Rachel?-perguntei colocando meu pé em cima de sua cabeça para que ele não levantasse.

–Você acha mesmo que tem alguma chance contra mim?-ele disse. Puxou meu pé e caí de cabeça no chão. A minha nuca começou a sangrar. -Meu irmãozinho, não sei de onde veio tanta força, mas eu tive treinamento e você não pode me enfrentar em uma luta.Você não pode fazer nada.É somente mais uma criança que quer ser o que não consegue.

–E é essa a diferença entre você e eu. -respondi me levantando. Fiquei de pé.

–Que diferença?-ele falou rindo de mim.

–É que eu acredito!-eu disse e deixei o ódio tomar conta de mim novamente.

Quando minha alma saiu do corpo, vi meu irmão lutando comigo. Eu lhe dei um soco, mas ele bloqueou. Samuel segurou meu braço e o puxou para me dar uma cabeçada, mas meu corpo previu o movimento e aproveitou o impulso para dar uma cabeçada mais forte do que a dele. Meu irmão gritou de dor.

Sangue escorria pelo seu rosto. Meu corpo se moveu novamente e dei um chute tão forte no rosto dele que, rapidamente, ele estava no chão, desmaiado. Voltei ao meu corpo.

–Eu tenho que sair daqui. -disse para mim mesmo. Mas lembrei. -Rachel!

–Saí correndo pelos corredores do que parecia uma fábrica. Entrei em uma sala cheia de caixas enormes empilhadas, formando um labirinto.

Ouvi passos vindo da direção que eu havia vindo. Devia ser meu irmão. Corri.

Logo me perdi no meio das caixas. Poderia ser no meio de um galpão ou algo assim, mas parecia que o espaço onde as caixas ficavam não tinha fim.

Meu irmão apareceu na minha frente.

–Achei você, David. Está pretendendo deixar sua coleguinha morrer?-ele havia me pegado pela gola e me encostado em uma das pilhas de caixa, me enforcando.

–Não. Por que você mudou tanto?Nosso pai não era quem eu imaginava?Você, é que não é quem eu realmente achava que fosse!-eu disse. Novamente aquilo aconteceu.

Vi meus braços enforcando meu irmão com uma força sobrenatural. A aura negra tomou meu corpo e logo meu irmão estava sem ar.

Eu queria parar, não podia matá-lo, não ainda.Passou mais alguns segundos e precisei de toda a minha força para retornar ao meu corpo.

–Eu tenho que achar a Rachel, se não você seria um homem morto, Sammy. -falei com uma voz que não parecia a minha, era muito grossa e velha,e o deixei desmaiado no chão.

Corri pelo labirinto novamente e achei uma saída. Um alarme soou. Passei por muitas salas, todas vazias.Logo,vi que dois homens armados saíam de uma sala com Rachel desmaiada em seus braços.

Escondi-me atrás de uma coluna e esperei. Escutei seus passos se aproximarem e me lancei contra eles.

Rachel caiu sentada e inconsciente no chão. Caí em cima de um e deixei a raiva tomar conta. Meu corpo estava lá socando o rosto do homem quando o outro se preparou para atirar, eu levantei muito rápido e dei um chute no meio de suas pernas.

Antes de cair de dor, o homem atirou. Me atingiu de raspão no braço ,mas não senti nada.Retornei ao meu corpo.Quando dei conta de mim, uma dor insuportável se alastrava por todo o meu braço esquerdo.O impulso de gritar era imenso,mas lembrei de Rachel.

Levantei-a com o meu braço bom e carreguei-a até uma porta de saída de emergência. Escutei passos vindo do lado de dentro. Corri o mais rápido que podia e entrei no prédio ao lado que parecia ser um hospital abandonado.

Andei mais um pouco e parei em uma sala onde ficavam algumas macas e poltronas. O sol já estava se pondo do lado de fora, observei pela janela. Lembrei que estavam atrás de mim.

Tranquei a porta colocando algumas poltronas para segurá-la e fechei a janela e as cortinas também.

Rachel estava soando frio e sua testa estava fritando. Peguei alguns panos que encontrei na sala mesmo, enxaguei-os e pus na testa de Rachel.

Já deveriam ser umas dez horas quando troquei o pano pela quarta vez e fui sentar em uma poltrona. Adormeci.

”O trovão rugia do lado de fora e eu estava de pé ao lado da maca de Rachel. De repente, minha alma saiu do corpo. Meu corpo correu pelo quarto e pegou uma tesoura que achou no banheiro. Quando percebi o que tentava fazer me desesperei. Eu não conseguia voltar ao meu corpo. Ele levantou a tesoura com as duas mãos e abaixou-a na direção da barriga de Rachel.”