Kindness
1 Ordinary replay

Cinco meses.
Ainda não acredito que passei todo esse tempo em uma clinica psiquiátrica.
Desde que tive depressão ano passado, todos os olhos se voltaram para mim e eu sequer sei lidar com isso, toda essa atenção deliberada e sufocante. Porra, eu só tentei me matar duas vezes, qual a necessidade disso tudo.
A minha médica convenceu meus pais que se eles se mudarem ajudaria na minha readaptação ao ambiente fora da clínica. E que conhecer novos lugares e pessoas de alguma forma me faria bem e eu me recuperaria completamente logo. Não que eu realmente me importasse com isso.
Meus pais eram legais comigo, principalmente depois do ocorrido fatídico, e isso nunca me confortou nem mais nem menos, estava indiferente. A compreensão deles e participação positiva e saudável me davam náuseas, por que eu simplesmente não achava aquilo natural, em vista do fato de todos os meus amigos, quase todos, me relatarem o quanto era difícil sentar e conversar som seus pais ou contar-lhes algo de errado que tinham feito. Aquilo de alguma forma me soava estranho e artificial. A minha médica tratou esse meu problema, e alguns outros também.
Sono.
Aquela era a minha primeira noite em casa depois de dormir em um quarto de clínica psiquiátrica durante os últimos cinco meses e dois dias, e eu não sentia sono. Mesmo depois de quase uma hora deitada de barriga para cima a encarar o teto do meu quarto sem as minhas estrelinhas que ficaram na minha antiga casa.
Levanto-me e vou andar pela casa ainda desconhecida, e é por volta de uma e pouco da manhã. O chão está frio. Eu vejo os porta-retratos que costumavam ficar sobre o móvel da televisão, e vejo fotos dos meus pais casando, minha e do meu irmão Bobby, e uma só minha na minha formatura da alfabetização. Até que achei engraçado me ver segurando um papel enrolado que na verdade não significa nada com tanto orgulho, era algo reconfortante.
Infelizmente quando vou recolocá-lo em seu lugar eu o derrubo, e por menos barulhenta que seja a onda mecânica produzida por uma placa de vidro com um suporte de metal chocando-se em uma queda livre de mais de um metro contra um piso de madeira às uma e meia da manhã de um domingo tedioso, foi o suficiente para acordar minha mãe. Que com seus superpoderes de mãe não demorou mais de sete segundos para brotar atrás de mim.
— O que esta criança está fazendo acordada há essa hora? – ela e meu pai gostavam de me chamar de coisas como criança, só para me provocar.
— Jogando just dance com o Bobby – ironizo – Só estou olhando umas fotos Carolina não se preocupe – eu não chamava meus pais de pai e mãe.
— Consegue fazer isso em silêncio?
— Consigo tentar, mas não lhe prometo nada.
— Experimente ir dormir um pouco, ajuda muito a evitar fazer barulho.
— Que grande observação. Não sei por que eu não tentei antes.
— Pois tente. Vou deitar, e sem mais nenhum pio. Boa noite.
— Boa.
Quando eu tinha por volta de seis anos de idade, meus pais me obrigaram a participar de várias atividades da igreja. E eu odiava o padre Jeremias, ele fumava, e sabia que eu sabia, e por isso também não gostava de mim, mas eu nunca me importei.
Corriqueiramente, em um dia dessas malditas atividades, era para todas as crianças arrumarem um parceiro para lhe ajudar em uma das missões que seria dada especialmente para cada dupla pela irmã Dolores. A parte ruim é que essa “missão” não passava de uma desculpa para trabalho infantil gratuito e disfarçado de obras cristãs. Visto que a função de cada dupla era arrumar ou limpar algo da igreja, e para a surpresa de todos, nem tão surpresa assim, eu me recusei a participar, mas eles estavam tentando me obrigar e a irmã Dolores começou a correr atrás de mim com a intenção de me por de castigo, algo que eu claramente não permitiria acontecer.
Neste mesmo dia, para a minha felicidade, o padre Jeremias iria realizar uma missa de sétimo dia e compareceu horas antes para dar um incentivo aos seus súditos e escravos mirins, exatamente no momento da perseguição, mas que momento inoportuno. Quando se deparou com a baderna ocorrendo em cima do altar, gritou meu nome e com um ato reflexo de susto, o padre Jeremias tinha a voz grossa, eu dei um pulo e bati contra um pequeno altar para uma escultura de Jesus, e não intencionalmente eu acabei derrubando-a e despedaçando o pequeno artefato em gesso coberto de água benta.
O padre Jeremias chamou meus pais para conversar depois disso, e avisou que seria melhor se eu não voltasse mais para as atividades da igreja, e talvez fosse melhor eles encontrarem outra igreja. Eu ouvi quando ele disse a irmã Dolores que eu seria a única criança no bairro que iria para o inferno, eu apenas deu de ombros.
O lado bom disso tudo, foi que nunca mais voltamos naquela igreja. Mas admito que senti falta de Dolores, ela era uma senhorinha muito amável e eu disse isso aos meus pais quando cheguei em casa. Mas acho que meus pais não ficaram muito preocupados com essa minha simpatia pela senhora, acho que ainda estavam bravos.
Eu fiquei pensando nisso por algum tempo depois que me deitei novamente, e não demorou muito para eu cair no sono.
Amanhece.
A família estava toda reunida novamente, como por volta de nove ou dez meses atrás, quando eu ainda saía do quarto para comer um café da manhã de domingo com todo mundo. Meu irmão estava maior do que eu me lembrava, não o tinha visto, pois cheguei tarde com meu pai na noite anterior, e a clínica era em outra cidade, Gueshaw, que ficava a quatro horas da minha casa. Meu irmão me recebeu com um abraço apertado como apenas os garotos de cinco anos e magricelos sabem dar. Nossa como amo aquele projetinho de feto malfeito e com os olhos mais verdes que já vi.
Percebi marcas em suas pernas quando o abracei, eu sabia o que tinha acontecido.
— O que aconteceu com ele Bennet? – me viro para meu pai com um tom grosseiro.
— Por que bebê? Algum problema?
— Você anda batendo no Bob de novo? Ele tem cinco anos.
— Ele quebrou meu computador jogando os brinquedos para cima. Mesmo depois de tê-lo mandado parar.
— Isso te faz dormir melhor de noite? – ele não responde — Claro que não, você sequer se sente culpado.
Sempre desconfiei que meu pai não simpatizasse muito com Bobby. Não sei por quê. Sempre achei que ele pensasse que Bobby não fosse seu filho legítimo, ele e muito ciumento, e muita gente diz que o caçula não se parece nada com Bennet, palavras essas que alimentam sua insegurança doentia.
Minha mãe e ele já brigaram muito por isso, e ela já chegou a mandá-lo fazer um teste de DNA para que ele parasse com as desconfianças, mas ele diz que confia nela e que não vai submeter o filho a nada disso. Amo meu pai, mas isso é injusto com nossa família.
— Ei criança, está com a barriga fervendo em ansiedade? – minha mãe tenta cortar o clima.
— Não sei do que está falando. E não sei se parar alguém se recuperando de uma depressão “ferver em ansiedade” é algo animador – faço aspas com os dedos.
— As aulas meu amor. Elas começam nessa quarta-feira no seu novo colégio.
— Porr... Eu não creio que nem conheço minha casa nova e já terei que lidar com outros adolescentes problemáticos.
— Olhe essa boca. Vá tomar seus remédios e venha, suas panquecas estão prontas. Ponho mel ou... uma colmeia inteira?
— Ainda me pergunta Carol.
Eu comi as melhores panquecas da minha vida. Depois de 155 dias de cativeiro em uma clínica, foi muito bom ouvir aquele barulho de joguinhos que vinham do tablete sujo de biscoito do meu irmão, minha mãe cozinhando enquanto fofocava com suas amigas nos finais de semana e meu pai vendo seus jogos gravados acumulados da semana.
Mas nada. Nada. Foi melhor do que escutar The Neighbourhood, The Strokes, The Killers, Artic Monkeys, Radiohead, Cage The Elephant e Jaymes Young novamente depois de tanto tempo. Foi como um orgasmo. Não me julgue. Apenas experimente não poder escutar suas músicas favoritas durante 155 dias, e depois relate como o reencontro é algo surreal.
Ordinary replay.
Esse era o nome da minha playlist. Que era compartilhada no Tumblr e era seguida no Spotfy por mais de duzentas pessoas. Aquilo para mim era como quinhentos likes em uma foto do Instagram, e foi tão maravilhoso voltar e ver mais de cinquenta novos seguidores nela. Minha obra de arte, a qual eu senti enorme prazer de digitar by Alice Strot no final.
Por mais relaxada que eu estivesse graças às músicas, o fato de encarar uma nova escola em dois dias e todos os dilemas que essa realidade traria consigo me assombrava. Eu precisei tomar mais duas pílulas de Escitalopram, não que minha médica fosse ficar sabendo disso quando eu fosse visita-la às sextas-feiras para a checagem semanal de progresso. Oito horas em uma droga carro para ficar duas horas examinando minha mente fudida.
Acho que estou ficando triste de novo.
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