Kindness

2 Katrina & The Waves


Notas iniciais
I'm walking on sunshine

Em função da minha longa estadia fora de casa, no dia seguinte àquele domingo tedioso minha mãe havia marcado um almoço em família, em plena segunda-feira, e eu não estava preparada para toda aquela bajulação e nem ter que abraçar todos os meus familiares e aturar os beijos ensopados de saliva das minhas tias. Mas fazer o que, a culpa não era delas que eu tentei me matar duas vezes e precisei passar tanto tempo afastada. Acho que deveria ter pensado melhor sobre isso.

Minha mãe fez questão de passar a manhã inteira me cobrando um bom comportamento e me pedindo para ser simpática. Nada que algumas pílulas de Desyrel não pudessem fazer por mim. Acho que minha médica também não iria ficar sabendo disso.

Arrumei-me e fiquei pronta por volta de meio dia, e não demorou muito para os irmãos sanguíneos de meus pais começarem a chegar. Os primeiros foram o meu tio Phillip e minha tia Gertrudes com seus filhos gêmeos de um metro e trinta de altura, George e Jimmy. Eu fui simpática e paciente com eles. O Desyrel foi simpático e paciente com eles.

Aos poucos foram chegando mais parentes. Esses de ambas as famílias de meu pai e minha mãe. E eram sempre as mesmas perguntas, eu já estava ficando cansada, até que decidi não responder mais nenhuma e fazer uma entrevista coletiva e tirar todas as dúvidas de uma vez. Meus pais não gostaram muito da ideia, mas não eram eles que estavam no meu lugar.

Depois que todos chegaram, almoçamos e eu os convoquei para a sala, onde todos sentaram e acomodaram-se virados para mim – a minha nova sala era bem grande – e eu disse que podiam me fazer todas as perguntas.

— Você foi maltratada?

— Os médicos eram pacientes com você?

— Está tomando muitos medicamentos? Todos no horário certinho e receitados?

Eu apenas precisava sorrir e respondê-los, mas por algum motivo isso me deixava triste.

— Não tia Helena. Não tio Carlos. Sim vovó. – eu menti.

Quando eu já não aguentava mais tantas perguntas e atenção em cima de mim, naquele momento em que pensei em sair correndo parar meu quarto e ficar lá trancada até todos irem embora, foi quando eu finalmente dei meu primeiro sorriso sincero desde que deixara a clínica Ethigos — esse era o nome da clínica psiquiátrica a qual passei tanto tempo, acho que Ethigos soa melhor do que clínica psiquiátrica – pois o meu tio Andrew apareceu como um anjo em sua aura celestial.

Eu não esperei sequer um segundo antes de correr para abraça-lo. Ele me recebeu com um sorriso de orelha a orelha e me apertou e tirou-me do chão como costumava fazer. Ele era definitivamente meu tio favorito. Logo atrás dele estava um homem barbudo e musculoso, ele era estranho, mas era bonito.

Minha vó o repreendeu e o chamou para falar com ela na cozinha, provavelmente por que ele estava chegando atrasado a uma reunião familiar daquele gênero. Mas eu sabia que era porque ele tinha trocado de namorado de novo. Ele me disse que ela sempre o cobrava para tentar parar em alguém por mais de um mês, mas meu tio não é um homem de um homem só. Ele mesmo me disse isso. Acho que foi só uma indireta para eu entender que ele fazia ménages por aí, mas eu nunca liguei.

Já estava ficando tarde, e o pessoal começou a ir embora. Quase ninguém que estava lá na minha sala morava na cidade, só o tio Phillip e a tia Gertrudes com os gêmeos e o tio Andrew com sabe-se lá que namorado, e a viagem seria longa para o resto, inclusive alguns desses parentes moravam em minha antiga cidade. Meu pai tinha apenas dois irmãos. O tio Andrew e a tia Gertrudes, e a principal razão para termos nos mudado para Jarmon — minha cidade atual – era para nos aproximarmos deles. Apenas a mãe de meu pai ainda estava viva, perdi todos os meus outros avós. Lembrar disso me fez ficar triste.

Depois que todos foram o tio Andrew disse que me levaria parar conhecer a cidade junto com o Louis, acho que era o nome do namorado dele. Eu adorava sair com meu tio Andrew, ele sempre me deixava comer pizza e me levava pra conversar com suas amigas. Meus pais relutaram, acabaram ficando super protetores, mas eu disse que seria melhor pra mim para me adaptar a nova cidade e conhecer uns locais legais. Eles cederam.

Despedi-me de Bobby com um beijo na testa, e peguei algumas roupas e minha escova de dente e coloquei em uma bolsinha de costas, ia esquecendo meus remédios. Eu já sabia que voltaríamos tarde o suficiente para eu dormir na casa do meu tio, e ele sabia de minhas intenções. Meus pais nos desejaram um bom passeio e deram quarenta pratas pro meu tio para despesas futuras, ele apenas sorriu e saímos. Eu amava muito meus pais.

Ele disse que só iria passar em casa e íamos direto para a casa de uma amiga. E eu sabia que ir para a “casa de uma amiga”, era para ele o mesmo que PARTY ON BABY. Fomos para casa dele e ele pegou algumas bebidas e outras coisas que se usam em festas, colocou tudo no porta malas com a ajuda de seu namorado, já esqueci o nome dele, e fomos correndo à 60km/h para a casa da Alice, esqueci de citar que ela tinha o mesmo nome que eu, e eu também a conhecia.

Alice era uma amiga de infância de meu tio. Ele era como seu melhor amigo gay da época do colegial, e são amigos até hoje. Acho uma bela história.

Depois que chegamos, percebi que a musica não estava tão alta quanto de costume, mas dava pra ouvir muito bem do lado de fora da sala, e se não me engano era Katrina & The Waves. Tocamos a campainha e esperamos alguns segundos até uma mulher magra, alta e morena aparecer sorridente e quase derrubando a bebida que tinha no copo em cima da gente na surpresa que teve de nos ver, na verdade acho que na surpresa de me ver.

— Alice! Meu senhor amado do papel reciclado! Entrem por favor. Vem cá querida sente-se aqui vou te trazer algo pra beber e quero que me conte tudo.

— Poxa. Eu também estou aqui sabia Ali. – meu tio a chamava assim.

— Grande merda. Leva isso tudo lá para o freezer, ok? E não aumenta a música, reclamaram semana passada e posso ser indiciada pela minha vizinha de noventa de nove anos que nunca teve trinta e dois.

Ela me trouxe um copo com uísque e refrigerante de laranja. Ela me conhecia tão bem. E por alguma razão eu não me sentia incomodada de repetir todo aquele discurso de como foi passar 155 dias em na clínica Ethigos para ela.

Ficamos por volta de duas horas e seis copos e meio conversando. No fim, deram o nome do meu drinque de Strotshot, eu ri. Mas ainda não estava tão tarde para pedir pizza, não eram nem onze e meia ainda. Achei estranho, todos irem assim tão cedo, mas já estava bêbada e não dava a mínima, só queria algo para forrar o estômago antes que saísse vomitando refrigerante de laranja com uísque para todo lado.

Fome.

A pizza chegou em meia hora, e eram exatamente meia-noite. Eu já estava quase passando mal de fome, afinal, tinha almoçado antes de meio-dia. Eu devorei minhas duas fatias de direito como uma fera, aquilo fez todos rirem. Mas não demorou muito para eu vomitar no carpete novo da tia Alice – a considerava uma tia legal que nunca tive – mas ela não reclamou ou gritou comigo.

— Me desculpe.

— A culpa não é sua. Por mais errado que seja termos te dado bebida, acho que depois de tudo que passou nos últimos meses, merecia encher a cara um pouco. – me levantou colocando as mãos nos meus ombros.

— Ali acho melhor irmos andando. Já está tarde e ela vai para o colégio amanhã.

— Nada melhor do que começar numa escola nova de ressaca não é querida?

— Acho que sim – ela conseguia me fazer rir.

O namorado do tio Andrew me levou no colo até o carro e me deitou no banco de trás. Ele era legal. Senti-me culpada por não lembrar seu nome naquele momento. Fomos direto para casa, que não era muito longe dali e subi para o quarto de hóspedes e me deitei. Meu tio e seu namorado Louis – perguntei seu nome no caminho para casa, ele riu quando eu lhe disse que não me lembrava – continuaram a festinha na sala de estar.

Estava me sentindo mal por ter bebido. Estava com saudades dos meus pais e de meu irmão e me sentia culpada por sequer ter ficado por perto depois de tanto tempo, e queria voltar para casa, mas sabia que não podia e isso me deixou triste e me deu sono. Eu chorei. Escitalopram e Doxepin me ajudaram a dormir e me acalmar, acho que só estava sendo neurótica de novo. Sobre essas dosagens acho que minha médica vai ficar sabendo.

Acordei com meu tio me chamando para tomar café da manhã com ele e Louis. Mais que puta dor de cabeça que eu estava, tomei um analgésico que meu tio me deu, e comi ovos mexidos com cereal e café com leite. E meu tio me mandou tomar um banho e me arrumar para ele me deixar em casa. Embora ainda visivelmente de ressaca, fiz isso o mais rápido que pude, queria voltar o quanto antes para casa.

Enquanto estávamos voltando para casa, passamos por um grupo de jovens na frente de uma loja de doces, acho que eu conhecia o menino de camisa rosa, mas foi muito rápido para eu tirar conclusões.

Assim que cheguei meu pai foi ao encontro do meu tio e eles conversaram em particular, eu entrei logo e Louis esperou no carro enquanto Andrew voltava.

— Ela se comportou?

— Como uma mocinha recatada.

— Estou falando sério Andrew, foram comer pizza? Ver a Alice?

— Fomos para a casa da Alice, lá pedimos uma pizza. Aqui suas 15 pratas.

— 15? Cadê o resto?

— Nem a pizza nem as latinhas de refri de laranja dela foram de graça.

— Nem as cervejas né.

— Elas também não foram de graça, infelizmente.

— Você não tem jeito mesmo.

— Te amo seu lindo – o beija na bochecha e entra no carro.

— Venha visita-la mais. Ela gosta de você.

— Eu virei sempre que possível – e saiu de ré.

Dentro de casa, minha mãe me escoltava para o meu quarto e pegava minhas roupas sujas de dentro da bolsa, mas quando puxou meu casaco acabou derrubando os dois potinhos laranja da felicidade que levei comigo escondida. Ela não gostou nem um pouco de acha-los comigo, até porque, ela tinha me dito para não andar com eles por aí com medo de eu perdê-los ou alguém pegá-los.

Ela me deitou em minha cama e me mandou dormir e descansar bastante, pois haveria escola no dia seguinte. Eu a encarei por alguns segundo fazendo a melhor expressão de dor que conseguia e a questionei se caso eu faltasse iria ser um problema. Ela só se levantou e apagou a luz. Disse que caso eu quisesse comer alguma coisa mais tarde pedisse a ela e saiu.

Acho que apaguei, pois só fui acordar de madrugada, acho que eram umas duas horas quando fui à cozinha pegar algo pra comer e então vejo meu pai na varanda, sentado em sua poltrona olhando para o nada. Decidi apenas pegar uma maçã e ir juntar-me a ele. Eu bati na porta do lado de dentro da casa, ele se assustou de início, mas logo me chamou para ficar com ele, e eu calmamente fui e sentei-me em seu colo.

— Eu não consigo dormir Alice. Eu acho que só dormi ontem por que estava muito cansado da viajem de trazê-la.

— Tudo bem Bennet.

— Eu esperei tanto tê-la de volta em casa. Os últimos meses foram horríveis. Quando soube que você tentou se matar, eu entrei em choque. Não conseguia fazer mais nada além de me culpar – ele cobre os olhos.

— Ei. Não foi sua culpa. Eu só estava desequilibrada.

— Eu senti que não era o pai que você precisava. Que você não conseguia contar comigo. Me senti um inútil. E andava estressado demais com o trabalho, preocupado com a crise em que estávamos. Eu e sua mãe brigando sempre. Não era um ambiente favorável para uma adolescente que já estava deprimida.

— Aqui em casa não era mesmo o melhor lugar para mim. Meus amigos também não ajudavam, e eu estava longe do tio Andrew para desabafar. Eu estava totalmente perdida.

— Me perdoe não ter lhe ajudado. Me perdoe por não ter percebido. Só de pensar que poderia ter te perdido meu amor – ele começa a chorar.

— Eu te amo. E você é o melhor Bennet que alguém poderia querer como pai – ele riu e enxugou as lágrimas.

— Acho melhor voltarmos para nossas camas. Se sua mãe acordar e não me encontrar lá ela vai ter um ataque.

— Carol sempre tem ataques. Mas acho que está certo.

— Você vem?

— Vou já, vou terminar minha maçã aqui e aí subo. Boa noite – ele entra em casa.

Eu continuei comendo minha maçã. Mas então comecei a chorar. Comecei a pensar em toda a dor e sofrimento que causei aos meus pais, a toda a minha família e em como eu era horrível por ter feito aquilo. Me senti um monstro por ter cogitado deixar meu irmãozinho sozinho sem sentir qualquer empatia pelo estrago que faria entre meus parentes. Acho que essa só era a minha resposta egoísta ao me sentir amada.

Eu olhei para a faca que portava – não comia maçãs mordendo, meus dentes doíam – e não pensei duas vezes antes de ir para o banheiro com ela. Mas não podia fazer isso com uma faca. Fui ate o quarto do meu irmão e peguei seu estojo do colégio, peguei o apontador. Usei a faca para desparafusar a lâmina e joguei o pequeno apontador no lixo do banheiro enrolado em papel higiênico. Para evitar futuras marcas apenas cortei por cima das cicatrizes que adquiri na clínica, e obviamente, em minhas pernas próximas da virilha, para não serem visíveis. Senti-me uma merda depois disso. Queria um cigarro.

Arrumei tudo, tomei dois Doxepin, me limpei e fui dormir, afinal, o dia não poderia ter começado pior do que aquilo.

Notas finais
Vamos lá. Obrigado por ler, nao esqueça de deixar o seu review aqui embaixo para dar uma forcinha para quem está escrevendo. Próx capítulo amanha no mesmo horário... eu acho. Bjão