Kindness
3 Beatles
Notas iniciais

A manhã de quarta-feira chegou rápido. Mais rápido do que eu gostaria que tivesse chegado, e quando vi já estava no chuveiro tomando banho para ir de encontro com meu novo centro de treinamento cerebral. Quando me vesti notei minha mochila nova em cima da minha cama, e ela era de certa forma adorável, tinha o formato de um ursinho de pelúcia do tamanho de um ventilador, mas era roxa e o ursinho tinha botões nos olhos, a boca costurada e seus membros reduzidos – todos eles.
Desço pronta e visando apenas tomar café da manhã e ir embora. Até que eu estava levemente ansiosa com o momento em que iria cruzar os portões daquele colégio e poder ser quem eu quisesse. Era uma oportunidade de começar do zero. Ninguém ali me conhecia. Eu seria apenas mais uma aluna transferida de outra cidade a qual é totalmente irrelevante e ninguém faria cerimônia por eu estar voltando de uma clínica psiquiátrica. Seria maravilhoso. Mas eu tomei meus remédios mesmo assim.
Depois que entrei no carro junto a meu pai e meu irmão, minha mãe veio até a minha janela e me desejou sorte e me deu um beijo na testa. Ela parecia bem preocupada. Eu não a julgava, ela temia que aquilo acontecesse comigo de novo, e esperava que eu soubesse com quem me envolver dessa vez. Mas eu esperava isso mais do que ela.
O colégio ficava a quinze minutos da minha casa de carro e logo quando chegamos meu pai me deu dinheiro e ganhei outro beijo, depois dele meu irmão também me beijou e eu saí com um sorrisinho sincero, mas ainda não era o segundo depois que voltei da clínica Ethigos.
Até que encarei a entrada do colégio. Aquela coisa bem clichê de filme adolescente. Todos sentados na frente e nos lados da entrada, em grupinhos e conversando. Já fazia tanto tempo que não entrava em uma escola e sentava em uma carteira enquanto alguém com mais de trinta e sete anos de idade falava sobre algo nada interessante que mesmo assim eu aprendia e passava com notas A e suas derivações, que chegou a ser um tanto desconfortável.
Enquanto andava pelos corredores, percebi que minha mochila não me ajudava nem um pouco no quesito discrição. Um ponto roxo gigante, peludo e “sorridente” vagando pelos corredores não era a coisa menos chamativa do mundo, mas acho que isso me ajudou de certa forma.
— Meu Deus do céu... Eu adorei tua mochila! Vem cá qual seu nome? Quero saber onde comprou essa coisa linda e...
— Marlon?! – eu gritei.
— Puta merda – ele me abraça forte e me tira do chão.
— Seu louco! Não acredito que veio parar aqui. Porra. Tantos anos que não te vejo.
— Você fala ‘porra’ agora? Desconheço...
— Você nem faz ideia...
— Acho melhor só a gente sair do meio do corredor. Sou lindo mas fico encabulado com tanta gente me olhando desse jeito. Xô, acabou a festa moçada. Vão! Voltem a chorar o fim de suas férias decadentes.
Eu estava em choque. Ele era um velho amigo meu de infância, um vizinho, que se mudou quando ainda tinha seis anos e nunca mais tive notícias dele, afinal, não estávamos ainda na era da comunicação naquela época. Pelo menos não as pessoas com menos de dez anos e classe média do subúrbio de Gueshaw. Ele me levou até a sua sala e depois me ajudou a achar a minha.
— Pena que você não ficou na minha sala. Como conseguiu repetir? Digo... você sempre foi tão inteligente e autodidata.
— É uma longa história. Mas de qualquer forma. Aqui só tem uma turma de terceiro ano, porque não ficaria na sua sala?
— Eu repeti linda. Mas não foi recente. No sétimo ano eu peguei catapora no final do ano, e não pude fazer as provas finais e nem a recuperação. Foi um replay automático.
— Coincidência demais. Ainda estou perplexa com tudo isso.
— Mas enfim, você vai ser da sala do Cody. Um... amigo meu – ele disse relutante.
— Amigo? – falei com um tom ambíguo.
— Sim. Um amigo meu. Fale com ele e diga que é uma amiga minha e que eu te mandei. Mas afinal, a pergunta que não quer calar. Por que diabos você está de moletom? Aqui é Jarmon minha querida, 36 graus Celsius vinte quatro horas por dia.
— Eu me sinto mais à vontade assim. Não me questione quanto a isso – ele assentiu.
Escutamos o toque das aulas. Tivemos então que nos despedir e ele me sussurrou boa sorte. Essa história de boa sorte já estava me dando nos nervos, as pessoas não podiam simplesmente parar? Mas que saco.
Fui até a minha sala e me lembrei de perguntar sobre Cody, e me deparei com uma menina gorda, mais muito gorda, ‘Senhor’ ela era gorda demais. Eu a chamei e ela virou-se para mim sorridente e saltitante, quase que hiperglicemicamente.
— Olá novata. Sou a Candance, mas todos me chamam de Candy – eu imaginei o porquê e ri internamente – e qual o seu nome?
— Sou a Alice. É... me desculpe mas você sabe quem é Cody? Me mandaram falar com ele mas eu não faço a menor ideia de qual seja a cara do indivíduo.
Ela então apontou para a criatura mais bonita que já tinha visto desde que cheguei naquela cidade. Alto, moreno e moreno e um pouco moreno. Acho que talvez ele pudesse me ajudar com a recuperação psicológica também, ou talvez me fazer regredir. Sentei-me do seu lado, e percebi que estava bem mais no atrás do que costumava sentar ou até mesmo gostaria. Mas estava presa a essa realidade devido a ele ser o mais próximo de um amigo que eu teria naquela sala de aula. Ele e a Fatty Candy. Eu sou horrível, acho que mereço essas atribulações na minha vida. Eu rebaixo a menina como se eu fosse muito linda.
Eu rapidamente me acomodei, coloquei minha mochila ao lado da carteira e tirei meus cadernos, e assim que fiz isso tirei o fone dos ouvidos de Cody e enfim ele me notou e me perguntou o que eu queria, ele foi bem ríspido. Dito isso eu lhe expliquei que havia sido transferida e que Marlon tinha me mandado falar com ele, depois que disse disso a postura dele mudou completamente e ele me interrompeu.
— Marlon? Ele... ele que te pediu? Nossa... – ele se jogou para trás e ficou com um sorriso bobo encostado na cadeira olhando para cima – Não esperava essa.
— Ok... colega, eu só estou aqui na ‘broderagem’ e queria que você... não sei... tentasse me fazer companhia por enquanto e...
— Claro, claro. Sou Cody e você é?
— Alice. Muito prazer.
As aulas passaram se arrastando. Cada professor diferente fazia uma introdução diferente e aquilo me entediava, embora eu tivesse passado todas as cinco aulas fitando Cody enquanto ele olhava fixamente para a janela com um olhar distante e levemente poético. Quando terminou a aula de Biologia, que por sinal foi a última, ele arrumou suas coisas estranhamente rápido e me disse que me esperaria na porta, eu apenas assenti.
Em um minuto eu arrumei as minhas coisas e quando cheguei à porta vi Cody e Marlon conversando, junto com uma menina que também era muito bonita. Quando me viram Marlon me apresentou à sua amiga que me deu um sorriso e me abraçou invasivamente. Em seguida eles disseram que iam para o refeitório e me convidaram para ir junto, eu tive que aceitar, não tinha outra opção mesmo.
Compramos nosso lanche, depois de sete minutos em uma fila de espera, e enfim fomos para um cantinho no pátio, o interessante é que no caminho percebi o quão Marlon era popular. Todos falavam com ele, o cumprimentavam e ele ia apenas coletando mordidas e pedaços do lanche dessas pessoas, que o davam de bom grado.
— Agora sei por que não comprou nada.
— Meus súditos tem o dever de me alimentar.
— Marlon... posso falar com você... em particular... – Cody estava hesitante.
— Claro... por que não? – eles saem e ficamos apenas eu e a menina a qual eu ainda não sabia o nome.
— Sou Catherine. Prazer.
— Prazer. Alice.
— Mas então Alice. Que mistérios lhe trouxeram para o Colégio Otário sem fim? – eu ri, era engraçado por que o nome do colégio era Otávio Bonfim.
Eu fiquei um tempo sem respondê-la, eu não queria tocar nesse assunto de novo, e estava lá para esquecê-lo. Acho que ela entendeu, pois assim que viu minha reação à pergunta mudou logo de assunto e falamos como a coxinha da cantina era oleosa. Até que esse assunto rendeu-nos uma boa conversa, pois falamos sobre cabelos oleosos, pele oleosa e em como mulheres sofriam mais que homens em quase todos os sentidos. Eu estava ansiosa para chama-la de amiga.
— Aconteceu alguma coisa entre o Cody e o Marlon? Não sei... eles ficam estranhos juntos... o clima fica tenso.
— É. Pode-se dizer que aconteceu sim. Mas talvez com o tempo você descubra. Não quero ser a responsável por te contar isso.
— Tudo bem então – eles chegaram.
Não demorou muito depois disso e tocou novamente. Todos nós voltamos para a sala e Cody estava diferente de antes. Estava mais sério, se é que era possível. E não trocou sequer uma palavra com ninguém da sala, nem mesmo prestou atenção nas aulas. Estava completamente aéreo e disperso, mais ainda do que antes, e com uma expressão dura e distante. Fiquei mal por ele, mas o que podia fazer.
Duas horas e trinta minutos.
Depois das ultimas três aulas do dia, havia acabado meu primeiro dia de aula e eu não tinha feito progresso algum quanto à adaptação. Talvez tivesse feito três amigos, mas era só isso. E eu nem sabia se eles falariam comigo no dia seguinte, ou se tinham gostado de mim ou só conversaram comigo porque o Marlon pediu para fazerem isso, odeio que sintam pena de mim. NUNCA, sinta pena de mim.
Para variar, quando fui cumprimentar Cody no final da aula ele já estava no meio da sala indo para a porta – e eu sequer havia arrumado as minhas coisas – onde Catherine e Marlon o esperavam. Espere, ele passou direto por eles e eles continuaram lá. Acho que. Acho que estavam esperando por mim.
Discretamente dei meu segundo sorriso mais sincero desde meu regresso da clinica. Aparentemente, se compreendi tudo direito. Eles gostaram de mim.
— Vamos para a casa da Catherine.
— O Cody não vem? – perguntei olhando para os lados, tentando avistá-lo.
— Por que diabos ele viria conosco? – ele me puxa pelo braço e ambos me escoltam até um carro amarelo num estacionamento que ficava atrás da escola.
— Você dirige Marlon?
— Eu? Olha minha cara de caminhoneiro queridinha, é obvio que não.
— Eu é que vou levar vocês Alice. Está tudo bem, eu tenho carteira. – entramos no carro e saímos.
Supreendentemente eu no primeiro dia de aula havia reencontrado um velho amigo de infância, criado um puta crush por um carinha que briga com um velho amigo de infância meu, e estava com vontade de beijar a Catherine só por acha-la sexy dirigindo aquele carro sedan amarelo, o qual nem imaginava o nome. Aquele era definitivamente um bom dia para um coquetel de Norval, Desyrel e Remeron. Cinco meses e dois dias em uma clínica psiquiátrica me ajudaram a decorar o nome de todos os antidepressivos existentes e suas devidas reações no sistema nervoso humano.
Catherine morava bem longe do colégio. Acho que foi por isso que ganhou um carro de aniversário no ano anterior de seu padrasto. Ele era bem rico e sua mãe era uma sortuda. Ela me contou essas historias e a de como seus atuais pais se conheceram no caminho para sua casa, Marlon sequer prestava atenção, ele ficou olhando pela janela o tempo inteiro, assim como Cody fez durante toda a aula. Aquilo me intrigava internamente.
No banco de trás do carro de Catherine havia coisas interessantes para se ver. Coisas como revistas de fofoca do começo do ano – estávamos em setembro -, discos de vinil, garrafas vazias de vodca, uísque e latinhas de cerveja. Mas a coisa mais indubitavelmente interessante estava em uma bolsa. Quase como a que usei para ir para a casa de meu tio, uma bolsinha esportiva de costas. Dentro dela havia uma fantasia, mas não era uma fantasia qualquer, ela era de couro e negra, e brilhava quase como se estivesse plastificada. Achei que Catherine fosse sadomasoquista. Mas quem era eu para julgá-la, nem a conhecia direito.
Chegamos pouco depois que descobri a tal fantasia, e posso afirmar que fiquei fascinada com a casa da sadomasoquista. Era enorme, e o portão branco-metálico era totalmente proporcional à estrutura da mansão. Ela não era só rica, era definitivamente muito rica. Depois que descemos do carro Marlon saiu correndo em direção ao desconhecido. Eu estava totalmente perdida, e fui guiada pela dona da mansão que me levou até uma casinha que ficava atrás da residência, e quando entramos, ela puxou uma portinha do chão e revelou-me uma escada que dava a um andar subterrâneo. Desci cautelosamente degrau por degrau e quando pus a vista no que estava a minha volta, vi um quarto – um pouco maior do que um quarto comum – onde havia uma televisão, poltronas, uma geladeira, uma mesa de jantar e uma de centro e um barzinho anexado à parede lateral. Era um ambiente aconchegante e deveras confortável.
Esqueci-me de citar o banheiro que ficava de um lado, e um computador em uma escrivaninha que ficava ao lado do minibar. De dentro do banheiro saiu Marlon fechando o zíper e sorrindo para nós duas, quando terminou pegou um copo e se serviu com alguma coisa no barzinho, que naquele momento reparei que se chamava Buzannus. Soube por que tinha uma placa em cima com o nome. Ele sentou-se em uma das poltronas e disse que o Cody iria chegar em alguns minutos, eu o questionei sobre o motivo de estar me falando isso, ele apenas deu um risinho irônico e voltou a beber seu drinque laranja escuro.
Catherine pegou um aparelho de tocar discos de vinil e colocou um disco, tenho certeza de que era Beatles, e então se sentou na poltrona ao lado de Marlon depois de pegar o computador. Eu ainda estava em pé, apenas pedi a senha da rede de internet – a qual era marlonbroxa2469 e me apoiei ao corrimão da escada.
Ninguém proferiu uma palavra sequer durante quinze minutos, e estava ficando nervosa e então decidi ir ao banheiro, mas não para fazer qualquer necessidade fisiológica. Acho que só deu tempo de tomar uma pílula antes de ouvir passadas rápidas e pesadas na escada. Sai rapidamente e escondi o saquinho em que trazia remédios escondidos de volta no bolso, quando vi era o Cody.
Ele ficou confuso quando me viu, mas ignorou este fato e correu para abraçar Marlon que ainda estava com o mesmo copo na mão, porém vazio. Catherine riu e se juntou a mim à porta do banheiro. Cody estava quase chorando, e eu estava completamente confusa. Queria muito gritar ‘que porra está acontecendo?’, mas sabia que não devia. Demorei a perceber que tudo aquilo era só uma reconciliação entre dois amigos, embora Marlon ainda parecesse irritado e eu só quisesse fazer a menor ideia do que se tratava ‘tudo aquilo’.
Acho que com o tempo eu descobrirei, e tenho certeza que Catherine não será a responsável quando isso acontecer.
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