Kindness

4 Spiritualized


Notas iniciais
se o q n mata engorda... o q mata emagreçe? REFLITÃO

Cody e Marlon finalmente se largaram. Catherine havia largado o seu computador em cima da poltrona e foi para o minibar preparar algo para o recém-chegado. Eu decidi que iria beber também, já estava de ressaca e não faria diferença no final das contas, afinal, era só mais um pouco de álcool e açúcar para o meu fígado e meu pâncreas processarem. Fui até lá como alguém de casa, e bati com o quadril no de Cath para afastá-la – ela gostou do que fiz – e peguei uma garrafa de vodka para mim, mas assim que vi que eles tinham o melhor uísque do mundo atrás daquela garrafa de bebida alcoólica elitista, desesperadamente o peguei e não medi a indiscrição quando me pus a gritar no meio daquele quarto subterrâneo.

Todos me olharam com a maior cara de surpresa que conseguiram fazer, a sadomasoquista ao meu lado precisou me segurar pelo braço para que eu controlasse meus pulinhos de emoção.

O que eu podia fazer? Aquele uísque representava a melhor lembrança que eu tinha de antes da clínica, e isso era mais do que qualquer coisa poderia significar para mim naquele momento, já que aquela bebida me fazia recordar e sentir-me novamente uma pessoa normal, uma Alice normal. Não a Alice depressiva e melancólica que foi internada por cinco meses na Ethigos.

Peguei a maior taça que havia no armário que ficava embaixo da bancada do bar e pus metade do uísque – que se chamava Stabe — e metade de refrigerante de laranja. Strotshot 2.0. Bebi tudo em segundos, e não deveria ter feito aquilo, pois o meu corpo não soube lidar com a explosão alcoólica dentro do meu estômago causou um rebuliço que não foi confortável, e deixei todos apreensivos e me encarando durante todo o processo.

— Como vocês chamam este lugar? – estava agitada.

— Casa da Catherine – respondeu Marlon ironicamente.

— Falei sério. Aqui deveria ter um nome. Sei que sou nova e é minha primeira vez nessa área, mas fico incomodada com o fato de um lugar tão especial como este sofra de tal negligência.

— Calma ai moça. Só não entendemos qual a necessidade de um nome especial para um quartinho debaixo da terra – retruca Catherine.

— Chamem de... Pure phase.

— Mas que porra é Pure Phase?

— Meu disco favorito do Spiritualized.

— Mas que porra é Spiritualized?

— Até que é um bom nome Marlon. Para de implicância com a garota. Acho que podemos abreviá-lo. PP place – Catherine pareceu animada com a ideia.

— Não acredito que você conhece Spiritualized. Nunca ouvi falar de ninguém com menos de trinta anos que os conhecesse. Acho que gostei de você Alice – Cody veio e me cumprimentou.

— Tudo bem, parece uma boa ideia nós chamarmos aqui de alguma coisa. Mas algo que faça sentido – Marlon se pôs a pensar por alguns instantes e todos ficamos apreensivos esperando o grande e revolucionário nome que estaria bolando – Por enquanto fica esse mesmo. Me pegaram em um dia ruim, não estou inspirado no momento.

Não bebi mais nada.

Continuamos lá, e pude aproveitar para conhecer melhor meus novos colegas do PP place. Marlon falou sobre como tinha se assumido para seus pais aos quatorze anos, e como foi difícil para ele permanecer forte no meio escolar sobrevivendo a todos os olhares tortos e as cabeças balançando em repreensão o tempo todo. Não conseguia nem imaginar como seria isso, até mesmo por que eu não tive chance de voltar ao colégio depois que todos souberam da minha internação. Ele disse que a primeira pessoa a se mostrar contente e indiferente ao mesmo tempo por ele ter se assumido foi Cody, que era seu melhor amigo há anos. Marlon e Catherine viraram amigos depois que Cody e ela terminaram, depois de um longo relacionamento de dois meses e uma semana, pois foi quando ela contou para Marlon que preferia ficar com meninas, pois eles se aproximaram bastante durante o namoro dela com o melhor amigo dele.

Cody disse que ficava feliz por mais uma pessoa que gostava inteiramente do sexo oposto ter se juntado a equipe, e ainda brincou que agora o jogo estava mais equilibrado. Eu fiquei feliz também. Com essas informações pude concluir que Marlon e Cody nunca tiveram nada, e por ter terminado com Catherine, Cody estava solteiro, e eu também, e Cody era hétero, e eu também. Obviamente era o destino.

Quando deixou as brincadeiras de lado, ele me contou que era amigo de Marlon desde que ele tinha vindo para a cidade há seis anos, e que os dois não tinham se dado muito bem no início da amizade, e que brigavam muito por qualquer besteira. Como quando discutiram sobre com quantas carnes um hambúrguer deve ficar para que fosse considerado perfeito, e por não chegarem a um acordo acabaram brigando depois de uma discursão agressiva. Ele disse que sempre fez o estilo mais calmo e gostava de coisas mais simples e com significados amplos e que o fizessem pensar. Marlon por outro lado sempre foi mais enérgico e agitado. Eu pude perceber o quanto ambos divergiam com o tanto de vezes que Marlon o interrompia apenas para contradizê-lo, eles começavam a discutir e eu e minha companheira telespectadora de intrigas alheias apenas ríamos da situação.

Catherine também me contou um pouco sobre ela. Descobri que ela não havia se assumido para os pais como Marlon fizera, e disse que não era necessário. Disse também que um hétero não precisava se assumir para os pais e dizer que gosta de garotas, coisa que ela particularmente abominava. Mas ela disse que não gostava muito de falar sobre essas coisas pois a estressava, e eu me sentia da mesma forma, embora não me estressasse, apenas achava desnecessário e um tanto desconfortável, preferia tratar tudo com naturalidade e classe.

Não imagino que eles sejam do tipo que elaboram um plano para incriminar você de alguma coisa e depois te destroem psiquicamente falando. Mas não posso me animar muito, afinal, meus antigos amigos também não eram desse tipo quando os conheci.

Subitamente um alarme que vinha do centro do cômodo subterrâneo começou a tocar ensurdecedoramente, como o som de uma sirene de carro de polícia. Instantaneamente, todos pularam de suas respectivas poltronas e começaram a tirar suas roupas. Me convidaram a fazer o mesmo mas eu recusei, sabia lá eu que loucura eles planejavam.

— São sete e três da noite e está na hora do tibuuuuum— ele gritou e todos uivaram junto a ele vestindo apenas suas roupas de baixo.

— Socorro. Não percebi que já tinha anoitecido preciso voltar para casa correndo – peguei minhas coisas e fui até a porta da casinha que ficava atrás da mansão e eles me seguiram.

— Vamos vir amanhã de novo. Pede pra sua mãe te deixar ficar um pouquinho mais nos próximos dias – pediu Catherine.

— Tudo bem. Mas estamos em público e vocês estão seminus, se minha mãe ficar sabendo disso não vai me deixar sequer voltar aqui, então tchau.

— Quer que eu te deixe em casa? – oferece Cody.

— Não tudo bem, eu pego um ônibus. É até melhor para eu me virar sozinha na cidade nova.

— Você mora na Harold Teznaskis certo? Pega o 73 que você para do lado da sua casa – acho que havia dito meu endereço no meio da conversa.

— Obrigada Marlon! Mas que prestativo. Tchau pessoal, se divirtam.

Foi uma tarde bem interessante, pensei sobre isso enquanto olhava pela janela do veículo de transporte público. Não tinham muitas pessoas junto a mim. Somente uma velhinha, um casal de namorados que beiravam os trinta anos e um rapaz encapuzado que estava entrando naquele momento. O mais estranho foi que de todos os bancos livre que tinham dentro do ônibus ele decidiu sentar-se ao meu lado. Aquilo era bem assustador. Ele não falava nada, e eu conseguia ouvir sua respiração. Devido ao capuz eu apenas visualizava seu nariz, que sobressaía do tecido. Ele se vira para mim e eu rapidamente disfarço minha curiosidade pelo seu rosto virando-me novamente para a janela. Ele saiu logo em seguida. Depois disso não entraram muitas pessoas, e quando estravam não eram misteriosas ou assustadoras. Normalmente eram só funcionários voltando de um dia exaustivo de trabalho, ou mães solteiras com seus filhos ou homens afeminados com mulheres masculinas.

Cheguei em casa depois de um bom tempo. Foi um percurso bem relaxante desconsiderando o inexplicável ocorrido com o homem encapuzado misterioso e o fato de as paradas constantes tornarem a distância entre a casa de Catherine e a minha muito maior. Minha mãe me esperava na porta de casa, havia telefonado para ela quando ainda estava na mansão de Catherine para avisar que estava a caminho e que não deveria se preocupar. Mas acho que ela não entendeu essa parte da mensagem, pois fui abordada com inúmeras perguntas e questionamentos agressivos vindos dela e do meu pai. Eu entendia que eles estavam preocupados, mas nunca tolerava quando me sufocavam e simplesmente não os respondi, quando entendessem que eu já havia chegado em segurança e estava tudo bem, ai então falaria com eles civilizadamente. Bati a porta e tranquei-a. Depois de tomar um banho e tirar todo aquele cheiro de álcool que ainda não tinha me deixado, desci e fui jantar como uma adolescente normal em sua rotina normal com seus pais normais.

Dessa vez eles não me abordaram. Estavam sentados à mesa, meu pai com seu tablet e minha mãe ajudando o Bobby a comer sua macarronada. Eu pus minha comida e me sentei. Meu pai bloqueou o tablet e cruzou os dedos das mãos como costumava fazer quando queria parecer serio em uma conversa.

— Você pode nos dizer onde passou a tarde inteira? Não nos deixou um recado, nem ligou avisando. Sequer mandou uma mensagem.

— Eu não estava planejando. Marlon estuda comigo lá no colégio, e me chamou pra passar a tarde com ele e uns amigos. Achei que fosse uma boa ideia e fui, nem tive tempo de lembrar de notificar vocês – disse isso sem olhar para eles.

— Marlon? Não é aquele seu amigo de muito tempo atrás? Lembro-me dele, sujeitinho bem engraçadinho – interrompeu minha mãe.

— Não se trata de lembrar Alice. É uma obrigação sua. Você sabe pelo que passamos quando aquele incidente ocorreu.

— Pelo que VOCÊS passaram? – gritei e empurrei a mesa – Eu estava com depressão. Eu fui traída pelos meus amigos. Eu tive que ficar cinco meses afastada de tudo. Eu tenho que tomar aquelas pílulas idiotas por causa do que fizeram comigo. Não vocês. Não existe “vocês” nesta história.

— Você acha que foi fácil te levar para o hospital? Você acha que foi fácil te internar? Que não sentimos a sua falta? Ou que eu ou sua mãe gostamos de te ver coberta de sangue por que você tentou se matar cortando os pulsos? Ou tendo uma convulsão depois de tomar os remédios controlados que roubou da sua avó? Somos seus pais mocinha, e se tem uma coisa nisso tudo somos “nós”. Por que fomos nós que fomos chamados de irresponsáveis, julgados e considerados pais ruins por ter uma filha suicida, e fomos nós que tivemos que superar isso e seguir em frente. Deixamos tudo para trás por você, ou acha que não tínhamos amigos, histórias e até mesmo trabalho em Gueshaw? – ele se levantou e bateu forte na mesa – Você trate de ser menos egoísta e passe e pensar mais nos outros antes de sair se chamando de injustiçada! Tudo que fizemos até agora foi por você. E não ouse dizer que não temos nada a ver com isso.

Eu corri aos prantos para o meu quarto. Minha mãe não teve coragem de sequer abrir a boca depois daquele discurso de ira de meu pai. Eu não queria admitir, mas sabia que ele estava certo, e concordava com tudo o que ele tinha dito. Eu tinha causado muita dor a minha família e não sabia se iria conseguir viver com isso, mas sabia que para por um fim naquilo teria que fazê-los passar por uma dor ainda maior, e não queria ser egoísta ao ponto de fazer isso apenas para me livrar de meu remorso. Não sabia o que fazer.

Comecei a encarar-me no espelho e imaginar minha vida se nada daquilo tivesse acontecido. Se eu ainda tivesse minha sanidade plenamente normal e nenhum daqueles potinhos laranja em meu armário. Peguei dois Escitalopram, tomei. Peguei mais um, tomei. Peguei o potinho de Dexyrel, tomei um. Deitei e comecei a chorar. Chorei muito e pensava cada vez mais em como odiava minha vida e como odiava fazer meus pais sofrerem e em como eu odiava Michael Phillips Smith.

Depois de poucos minutos expelindo água e sais a partir dos meus canais lacrimais, sou surpreendida com uma vibração vinda do meu telefone. Eram duas mensagens. Eram duas mensagens do Cody, a primeira dizia que ele tinha pegue meu número com Marlon e a segunda que ele tinha gostado de mim e queria que eu escutasse Songs in A&E, este que era seu disco favorito da banda que havia citado mais cedo, Spiritualized. Neste momento eu percebi que aquele e Sweet Heart Sweet Light eram os únicos álbuns deles que ainda não tinha escutado, devido a serem os mais recentes – o segundo era de 2012, e o primeiro de 2008 – e eu sempre gostar de me prender as obras iniciais dos artistas que mais gostava.

Decidi colocar para ouvir, abri o Spotfy e ativei o aleatório. Depois de escutar três faixas chega outra mensagem dele, ele disse para eu me concentrar bastante em uma música em especial, Soul on Fire, e assim o fiz. Eu definitivamente amava aquela banda do fundo do meu coração. Infelizmente não consegui chegar até a tal canção, e na música seguinte a que escutava quando recebi a mensagem dele, os remédios pesaram e eu apaguei. Tive bons sonhos naquela noite. Sonhei comigo em volta do Cody. Sonhei com Cody dentro de mim.

Notas finais
Escrito às pressas devido a falta de tempo, desculpem qualquer erro que passar batido da revisão pessoal, nao faço por mal, juro! Obg por ler até aqui, deixe aqui embaixo o seu COMENTÁRIO, afinal nao vou escrever para "ghost readers" e quero seu apoio!! JW ♥