Killer
27 Queda
Notas iniciais
[Bryan P.O.V.]
Eu nunca exigira tanto de minhas asas quanto naquele momento. Minha viagem do Paraíso a Terra foi tão rápida que mal acreditei quando os meus pés tocaram o solo em frente ao Saint Auguste. A vertigem que me atingiu depois, entretanto, não teve nada a ver com a velocidade surpreendente com que cheguei ali, mas, sim, com o cenário de destruição aterrorizante que encontrei.
Uma verdadeira infinidade de corpos vestidos de branco estava jogada do lado de fora do prédio e, dentro dele, outra infinidade de corpos parcialmente enegrecidos ainda queimava entre as chamas. Tudo o que um dia fora de metal, madeira, plástico ou qualquer outro material combustível estava retorcido ou completamente destruído e, embora o meu bom senso me dissesse que não havia qualquer possibilidade de alguém ter sobrevivido àquilo, eu não me permitia perder as esperanças. Por isso, ignorei as chamas remanescentes e percorri o hospital à procura de Loren.
A cada corredor coberto de corpos pelo qual eu passava e não encontrava nenhum sinal dela eu me sentia mais aliviado, mas também mais preocupado. Ela não estava entre os corpos enegrecidos que eu encontrava em meu caminho – o que significava que ela ainda devia estar viva –, mas não saber onde ou como ela estava me deixava desesperado. Loren podia estar ferida e sozinha e esse simples pensamento me fazia estremecer. Eu não podia suportar a ideia de que ela estivesse sofrendo e que eu não estivesse lá para ajudá-la.
Continuei minha busca incessante através dos corredores do Saint Auguste e, quando cheguei ao sétimo andar, corri para o quarto de Loren e escancarei sua porta, respirando aliviado quando vi que, apesar de estar quase completamente destruído, ele estava vazio. Saí dali e voltei para o corredor disposto a encontrá-la nem que eu tivesse que percorrer cada centímetro daquele lugar, mas, antes que eu pudesse dar um só passo, senti uma mão agarrar meu tornozelo. Virei-me e me deparei com Terry, cuja metade do corpo estava em carne viva, segurando-me.
Eu sabia quem ele era porque muitas vezes o tinha observado enquanto ele cuidava de Loren na enfermaria e, diferente de Madeline – a enfermeira mais rabugenta que eu já havia encontrado no Saint Auguste –, eu nutria certa empatia por Terry. Ele não era um homem religioso ou temente a Deus, mas tinha princípios e um bom coração e aquilo era muito mais do que eu encontrava na maioria dos humanos.
– Ajude-me. – Terry pediu com um fio de voz que, certamente, tinha demandado muito esforço.
Eu não estava em minha forma humana naquele momento, mas não me surpreendi com o fato de que ele podia me enxergar. Eu sabia que havia a possibilidade de isso acontecer quando a hora da morte de um humano estava próxima e, mesmo se eu não tivesse meus poderes de Ceifeiro para me alertar, não era difícil perceber que Terry já não tinha mais tanto tempo. Então, mesmo desesperado para encontrar Loren, abaixei-me ao seu lado e segurei sua mão.
– Fique tranquilo. – disse-lhe no tom mais calmo que possuía – A dor já vai passar.
– Eu não quero morrer. – ele segurou minha mão com mais força do que imaginei que pudesse ter e me puxou para mais perto – Você pode me salvar, não é? Por favor, me salve.
Terry me encarou e eu senti um nó se formar em minha garganta. Aquele era o momento mais difícil do trabalho de um Ceifeiro: ver um ser humano implorar por sua vida e saber que você não podia lhe dar o que ele pedia. Saber que tudo o que você poderia fazer era encará-lo enquanto ele morria.
Eu me lembrava que nos meus primeiros dias como Ceifeiro essa situação quase tinha me levado à loucura e, mesmo agora, séculos mais tarde, eu ainda tinha dificuldade em lidar com aquilo.
– Me salve. – Terry pediu novamente e eu baixei os olhos para o chão, desviando-me de seu olhar.
– Sinto muito. – respondi – Eu não posso salvar você.
Um soluço sôfrego escapou dos lábios de Terry e eu segurei sua mão com mais força, enquanto ele puxava o ar, com dificuldade, em busca de uma respiração que nunca mais viria para acalmar o ardor em seus pulmões. Após um segundo, sua mão afrouxou o aperto na minha e eu a depositei, com cuidado, sobre seu peito.
– Descanse em paz, Terry. – eu disse solenemente, inclinando-me para fechar seus olhos.
Eu sentia muito por Terry e por todas as outras centenas de pessoas ali, cujos corpos acabariam sendo consumidos pelas chamas. Apesar de seus erros e falhas, eu sabia que todos eles mereciam mais que um funeral com caixão fechado e meu desejo era poder fazer algo para remediar aquilo, mas eu não podia fazer nada e, tão pouco, tinha tempo. Eu precisava encontrar Loren e, cada segundo que eu perdia ali, amaldiçoando-me por não poder ajudar, era um segundo a menos para ela.
Dei uma última olhada para o corpo de Terry e coloquei-me de pé, mas antes mesmo que eu tivesse dado três passos para longe dele, fui invadido por aquela presença que era característica dos anjos e estaquei. Um milésimo de segundo depois, dois Ceifeiros surgiram à minha frente, bloqueando o corredor.
Ambos usavam sobretudos negros com capuz, o que deixava seus rostos parcialmente encobertos, mas nem mesmo isso e a penumbra pós-incêndio que envolvia o corredor me impediram de reconhecer os sorrisos perversos que pairavam em seus lábios.
– Procura por alguma coisa, Azrael? – perguntou Absdarhon, o Ceifeiro que estava mais próximo a mim.
Abri minha boca para responder, mas nem tinha proferido uma única palavra quando o outro Ceifeiro, que eu sabia se chamar Jahoel, lançou-se sobre mim. Com o impacto, nossos corpos atravessaram a parede já frágil do Saint Auguste e despencamos para fora do prédio, livrando-nos, por apenas um segundo, de cair sobre os corpos amontoados lá fora.
Agitei minhas asas e debati-me para me soltar das mãos de Jahoel, que haviam se enroscado ao redor de meu tronco durante a queda, mas mal tinha conseguido me livrar dele quando senti outros dois pares de mãos me segurarem e, logo em seguida, alçarem voo sem me dar nenhuma chance de defesa.
A subida não durou mais que um segundo e, assim que estávamos pairando sobre o prédio do Saint Auguste, os dois pares de mãos que me seguravam, empurraram-me de volta para baixo, em direção ao terraço, onde caí de joelhos sobre o piso de concreto. Levantei-me rapidamente, alerta e pronto para me defender de qualquer outro ataque que pudesse receber, quando os meus olhos encontraram os de Loren.
Parei, permitindo que um sorriso de alívio por vê-la viva se instalasse em meu rosto, pouco antes de compreender tudo o que se passava ao meu redor.
Miguel estava parado num canto do terraço, de costas para mim e ladeado por dois Capitães do Exército, enquanto os outros dois se mantinham ao meu lado, concentrados em todos os meus movimentos. Os dois Ceifeiros que haviam me interceptado dentro do prédio haviam se espelhado pelo terraço, cercando o perímetro, e um terceiro Ceifeiro estava postado atrás de Loren, vigiando-a.
– Que bom que está aqui, Azrael. – Miguel disse em seu costumeiro tom altivo – Sinto que nós temos algumas questões para resolver.
Ele se virou para me encarar e a acusação silenciosa que havia em seus penetrantes olhos dourados pesou sobre os meus ombros, fazendo-me engolir em seco.
– Miguel, eu... – comecei a dizer, mas ele ergueu a palma da mão exigindo que eu me calasse.
– Poupe-me de suas desculpas, Azrael. Já estou farto de ouvi-las.
– Eu sei. – assenti – Mas, por favor, deixe-me explicar, Miguel. Garanto que se você...
– Silêncio! – ele exigiu, fulminando-me com seus olhos dourados.
No mesmo instante senti meus músculos se retesarem e uma dor cortante atravessar o meu corpo. Caí de joelhos, envolvendo o meu peito com os braços numa tentativa de amenizar aquela dor, mas foi inútil. Aquele era um dos poderes de incapacitação de Miguel e quanto mais eu tentava lutar contra ele, mais dor parecia sentir.
– Bryan! – ouvi Loren gritar o meu nome, em desespero, e tentei erguer a cabeça para encará-la, mas o mundo pareceu girar ao meu redor e desabei de encontro ao chão, sentindo o meu rosto se chocar contra o piso de concreto – Pare com isso! – Loren esbravejou, correndo até Miguel e esmurrando-lhe o peito diversas vezes – Você está machucando ele. Pare!
Eu sabia que seus pequeninos punhos humanos não eram capazes de causar qualquer dano a Miguel, mas ainda assim o Ceifeiro que a vigiava a puxou para longe dele, segurando-a para que ela não voltasse a agredi-lo.
Miguel alisou seu sobretudo no local em que Loren o havia esmurrado e, depois de lançar um olhar de completo desprezo para ela, se aproximou de mim com passos largos.
– Bryan?! – ele questionou enojado – Que tipo de ser é você, Azrael? Um cãozinho de estimação cujo nome os humanos podem escolher ao seu bel prazer?
Senti a dor em meu corpo diminuir, mas a ira na voz de Miguel parecia aumentar um pouco mais a cada segundo. Eu sabia exatamente o que ele estava pensando: eu não apenas desobedecera às suas ordens, como renegara o meu nome – o nome que Nosso Pai havia me dado no dia de nossa criação – por causa de Loren. E isso era algo imperdoável para ele.
– Coloque-se de pé. – Miguel exigiu, voltando a me dar as costas.
Assenti, ainda que ele não pudesse me ver, e com certa dificuldade me coloquei de pé, arriscando-me a lançar um olhar na direção de Loren que me encarava, apreensiva. Era evidente que ela estava com medo e a culpa era minha. Eu a tinha colocado em perigo. Agora, precisava encontrar uma forma de tirá-la disso tudo.
– Não posso dizer que estou surpreso, pois não é a primeira vez que você me decepciona, mas admito que realmente não imaginei que você pudesse ir tão longe em sua desobediência, Azrael. – Miguel começou, forçando-me a desviar meu olhar de Loren e me concentrar nele.
Eu sabia que ele odiava falar e não ser ouvido e se eu queria manter Loren a salvo era melhor jogar conforme as suas regras. Eu podia ser o segundo anjo mais poderoso da Criação, mas com certeza não conseguiria lutar com oito anjos ao mesmo tempo, principalmente porque um desses anjos era Miguel e eu já sabia do que ele era capaz.
– Eu lhe dei tantas chances. – Miguel continuou – Poderia tê-lo banido desde o princípio, mas permiti que você se redimisse. Acreditei em você, Azrael, e o que recebi em troca? Apenas sua traição!
– Eu reconheço o meu erro. – afirmei, porque essa era a verdade – Sei que o desobedeci e, portanto, aceito qualquer que seja a minha punição, mas, por favor, Miguel – apontei para Loren –, deixe que ela vá. Não a puna pelos meus erros.
– Não acha que já é tarde para me fazer tal pedido?! – Miguel se virou novamente para mim – Depois de tudo o que você fez, Azrael?!
– Sim, eu sei. Eu deveria ter me afastado dela quando você ordenou, deveria ter obedecido às suas regras, mas fui imprudente e não o fiz. Sinto muito. – confessei – Eu reconheço que errei, Miguel. Reconheço que não tenho o direito de te pedir qualquer coisa agora, mas preciso fazer isso. Por favor, deixe-a ir.
– Deixá-la ir? – ele repetiu minhas palavras como se fossem a coisa mais absurda que já ouvira – Como eu posso deixá-la ir, Azrael?!
– A Loren é uma profetisa. – comuniquei o que todos ali já sabiam, enquanto a própria Loren assistia a tudo em silêncio – Os profetas podem saber da nossa existência, Miguel. Não há nenhuma proibição quanto a isso. Não precisamos apagar a memória dela de novo. Garanto que ela não contará a ninguém sobre nós e eu me manterei afastado dela a partir de agora. – prometi – Não desobedecerei às suas ordens novamente.
Miguel me encarou. Seus olhos dourados brilhando sob a luz do luar, exprimindo uma seriedade que já lhe era tão característica, mas que parecia estar ainda pior naquela noite.
– É por isso que acha que estou aqui? – perguntou – Para apagar a memória dela porque você foi um tolo e revelou a nossa existência? Você ao menos sabe o que fez, Azrael?!
Dessa vez fui eu quem parei e o encarei, mas ao contrário da seriedade de Miguel minha expressão exibia apenas a mais completa confusão.
– Se você não está aqui porque eu revelei a nossa existência para Loren e lhe devolvi suas lembranças. Então, pelo que você veio? – perguntei sem entender nada do que se passava ali.
Miguel cerrou os punhos, visivelmente irritado, e por um instante pensei que eu receberia outra dose da dor alucinante que ele havia me infligido anteriormente, mas, ao invés disso, ele cruzou o terraço e puxou Loren para perto de si com tanta violência que nem pensei duas vezes antes de avançar em sua direção. Não importava se eu podia ou não lutar contra ele. Eu não permitiria que ele a machucasse!
Antes que eu pudesse alcançá-lo, entretanto, Miguel retirou sua espada da bainha e a segurou diante do pescoço de Loren, o que me distraiu por tempo suficiente para que Uriel e Briathos – os dois Capitães do Exército que estavam atrás de mim – pudessem me segurar, impedindo-me de me aproximar mais dele.
– O que você pensa que está fazendo? – gritei para Miguel enquanto tentava me soltar das mãos de Uriel e Briathos com tamanha determinação que foi necessário que Absdarhon e Jahoel se juntassem aos dois na tentativa de me manter sob controle.
Imaginei que Miguel fosse responder a minha pergunta – pois, em geral, ele sempre respondia as perguntas que lhe eram feitas –, mas ele apenas se virou para Loren, cujo rosto já estava coberto por lágrimas silenciosas, e disse:
– Conte para ele.
Mas Loren não me disse nada imediatamente. Seu olhar encontrou o meu e pude ver o quanto ela estava relutante em me contar seja lá o que fosse que Miguel queria que ela me contasse. Mas eu não entendia o porquê. Não fazia a menor ideia do que ela teria de tão importante para me contar naquele momento e, tão pouco, entendia como o que ela tinha para dizer podia ser tão relevante a ponto deixá-la tão apreensiva e a ponto de deixar Miguel tão irritado, mas então eu descobri.
– Eu estou grávida. – Loren respondeu, por fim, e eu senti como se o mundo estivesse girando ao meu redor de novo.
Ela estava grávida? Ela ia ter um filho meu?
– Entendeu porque eu não posso simplesmente deixá-la ir? – Miguel perguntou – Entendeu porque eu estou aqui? Você percebe o que fez, Azrael?
Sim. Eu percebia. Mas eu estava tão atordoado com aquela notícia que nem conseguia respondê-lo. Senti os quatro pares de mãos que me prendiam me soltarem, mas isso já não importava. Eu mal não conseguia me mexer. Tudo parecia estar de cabeça para baixo.
– Como isso é possível? – perguntei ainda em choque – Eu não sou humano. Não sou capaz de ter filhos, Miguel. Como isso é possível?
– Sua forma humana. – ele respondeu sem rodeios – Quando os anjos assumem a forma humana, seu corpo ganha propriedades humanas também. É claro que seu corpo é muito mais forte e resistente que o corpo de um humano normal e que você ainda tem acesso aos seus dons, mas você pode se ferir, pode sentir fome e sentir dor... Tudo isso acaba no momento em que você volta a assumir a sua forma angélica, mas enquanto está em sua forma humana, Azrael, você é capaz de gerar filhos assim como qualquer mortal.
Levei as mãos à cabeça e corri os dedos por meu cabelo, nervoso. Eu já sabia que minha forma humana me permitia ter as características mortais necessárias para me camuflar entre os humanos, mas jamais tinha imaginado que essas características envolviam até mesmo a capacidade de reprodução.
– Meu Deus! – exclamei sem me importar com o fato de que eu estava usando o nome do Altíssimo em vão.
Até aquela altura eu não sabia exatamente o que pensar sobre o fato de Loren estar esperando um filho meu. Havia a parte de mim – a parte anjo, doutrinada para abominar qualquer coisa que fosse contra as regras celestiais – que estava com medo das consequências que aquela gravidez desencadearia, não apenas em minha vida e na de Loren, mas, também, no universo como um todo. E havia a parte de mim – a parte homem, que amava Loren com todas as forças e havia aprendido a quebrar as regras por ela – que estava feliz. Tão feliz que os meus olhos desviaram-se de Miguel e concentraram-se apenas em Loren e em seu ventre que ainda não possuia nenhum volume aparente. E, então, eu percebi que aquela era a parte dominante.
Meu Deus, eu ia ser pai!
Então eu me lembrei do que o próprio Altíssimo havia nos ensinado sobre os filhos serem o maior presente que um pai poderia ganhar. Me lembrei da felicidade que todos os anjos sentiram quando Miguel anunciou que O Filho de Deus nasceria entre os homens. Me lembrei das expressões sorridentes que se instalaram nos rostos de Maria e José após o nascimento de Jesus, mesmo com todas as adversidades que enfrentaram. Me lembrei de tantos belos momentos entre pais filhos ao redor do mundo... E eu só quis correr até Loren, abraçá-la e agradecê-la por tamanha dádiva. Por que ela seria a mãe do meu filho. Porque eu a amava...
Mas eu nem sequer pude fazer isso, pois assim que percebi que eu amava mais aquela mulher e aquela criança do que qualquer coisa ou regra do Paraíso, Miguel retirou a espada de perto do pescoço de Loren e, num movimento rápido, a cravou em seu coração.
– Não! – gritei, correndo em direção a Miguel no mesmo instante em que ele retirou a lâmina do peito de Loren e a soltou, deixando que seu corpo despencasse de encontro ao piso o terraço.
Por sorte, consegui envolvê-la em meus braços segundos antes que seu corpo atingisse o chão, mas não pude fazer mais que isso. A hora da morte de Loren – uma hora que eu havia perdido muitos anos antes, quando o ônibus escolar dela despencou de uma ribanceira – preencheu minha mente por completo e eu senti como se o meu próprio coração tivesse sido trespassado por uma lâmina. Ela estava morrendo.
Em desespero, pressionei a palma da mão sobre o ferimento em seu peito, numa tentativa fraca de mantê-la viva, mas a medida que seus segundos de vida iam diminuindo em minha mente, como o tempo de um cronômetro, seu sangue parecia manchar ainda mais sua camiseta branca.
– Por favor. – pedi, beijando-lhe a face – Por favor, Loren, não morra. Não morra. Por favor, meu amor. Por favor.
Mas quanto mais eu pedia pela vida dela, mais fraca sua respiração parecia ficar. Eu a estava perdendo. Eu não queria perdê-la! Fechei os olhos com força e senti as lágrimas começarem a rolar por meu rosto, no mesmo momento em que a mão fria de Loren tocou minha bochecha.
– Você voltou para mim. – ela sussurrou quase sem forças – Você prometeu e voltou.
– Eu voltei. – afirmei, abrindo meus olhos e fitando os olhos castanhos dela, enquanto depositava minha mão sobre a sua – Eu sempre vou voltar para você. Por favor, Loren, fica comigo.
Ela inspirou pesadamente e os segundos em minha mente continuaram a correr.
– Eu te amo. – ela disse com um pequeno sorriso – Nós dois amamos. Para sempre.
Então, ela fechou os olhos e sua mão pendeu de minha bochecha, forçando-me a segurá-la para mantê-la ali.
– Loren? – chamei-a, enquanto sentia a dor se intensificar em meu interior. Aquele cronômetro havia zerado, arrancando tudo o que eu mais amava de mim – Loren, por favor. Meu Deus, não. Não, não, não. Meu amor?
Cobri sua mão de beijos, acariciei seu braço, encostei minha testa na sua. Eu só queria senti-la uma última vez. Beijá-la uma última vez. Ouvir sua voz uma última vez. Eu só... a queria.
– Eu te amo. Eu te amo. – repeti aos prantos – Eu te amo, Loren. Por favor, não me deixa. Não me deixa. Eu te amo!
– Acabou, Azrael. Ela está morta. Não há nada mais que você possa fazer.
A voz de Miguel soou distante em meio a toda a dor que eu sentia, mas ainda assim foi suficiente para avivar o meu ódio. Eu jamais esqueceria que ele a havia matado. Jamais esqueceria que ele havia tirado a vida, não apenas da garota que eu amava, mas, também, do meu filho. Eu jamais esqueceria e jamais o perdoaria.
Dei um último beijo na testa de Loren e depositei seu corpo com cuidado sobre o piso do terraço, antes de enxugar as lágrimas dos meus olhos e me levantar.
Miguel estava a alguns metros de mim, ladeado por seus quatro Capitães e pelos três Ceifeiros e, embora eu soubesse que era impossível lutar contra todos eles ao mesmo tempo, eu já não me importava.
– Não faça nenhuma besteira. – Miguel me advertiu – Eu não vou perdoar dessa vez.
– Eu não quero o seu perdão. – respondi cravando meu olhar nele – Eu quero a sua cabeça.
Então, sem dizer mais uma só palavra, me lancei contra ele e, rapidamente, seus protetores investiram contra mim também.
Como antigo Primeiro Capitão do Exército, eu tinha mais habilidade com luta que os Ceifeiros, por isso foi fácil passar por eles. Com apenas alguns golpes eu havia derrubado Absdarhon, Jahoel e Elyon – o Ceifeiro que vigiara Loren – e já estava investindo contra os quatro Capitães do Exército.
Em geral, eu teria certa dificuldade de lidar com eles, mas meu ódio e minha sede de vingança eram tamanhos que tudo o que eu conseguia enxergar era a figura altiva de Miguel a minha frente. Todo o resto era apenas pedras que eu precisava retirar de meu caminho.
Briathos se lançou contra mim, brandindo uma adaga prateada, e enquanto eu me desviava de seus golpes, segurei seu braço e o torci para trás, cravando adaga em suas próprias costas. Pude ouvir o barulho de algo se partindo em seu braço enquanto ele urrava e, então, atirei seu corpo para cima de Uriel, Cassiel e Laoth – os outros dois Capitães que estavam com Miguel – que foram atingidos em cheio e despencaram para fora do prédio do Saint Auguste.
Ouvi o farfalhar se suas asas, enquanto eles pareciam se desvencilhar uns dos outros durante a queda e, um segundo depois, Laoth e Cassiel aterrissaram em frente a mim, novamente prontos para a batalha.
– Chega, Azrael! – Miguel gritou e a dor alucinante que me atingira da última vez, voltou a percorrer o meu corpo, mas dessa vez de forma mais intensa.
Tentei lutar contra ela, tentei me manter de pé, mas foi inútil. A cada milésimo de segundo que se passava a dor aumentava mais e mais e, quando Laoth e Cassiel abriram passagem para que Miguel pudesse se aproximar de mim, comecei a acreditar que o meu corpo celestial se desfaria em milhões de fragmentos diante dele.
– Você é tão tolo. – Miguel disse segurando meu queixo para que eu o olhasse nos olhos, o que fazia a dor aumentar a níveis insuportáveis – Eu lhe dei dezenas de chances, Azrael, e você jogou todas elas fora por causa daquela garota.
– O nome dela era Loren. – consegui dizer com dificuldade – E você vai pagar pelo que fez com ela.
– Está me ameaçando? – Miguel apertou meu queixo com um pouco mais de força – A mim, O Primeiro de Deus? O Arcanjo Miguel?
Não consegui responder.
A dor em meu corpo aumentou a tal ponto que tudo o que pude fazer foi me dobrar e desabar no chão. Minha visão tão embaçada que mal conseguia divisar a face de Miguel acima de mim.
– Segurem-no. – ouvi-o dizer e, rapidamente, senti dois pares de mãos segurarem meus braços e me colocarem de joelhos.
Um clarão surgiu a minha frente e a dor em meu corpo diminuiu apenas o suficiente para que eu pudesse divisar Miguel a minha frente, empunhando sua espada flamejante.
– Você me acusa de tê-la matado. – ele disse aproximando-se de mim – Acusa-me de ser perverso, mas se esquece de que foi você quem causou sua própria ruína, Azrael. Eu o adverti sobre as consequências de se relacionar com a aquela garota. Eu lhe dei as ordens e você passou por cima delas como se não fossem nada! Essa criança que vocês geraram era uma abominação. Ela não era nem humana e nem um ser celestial. Era um híbrido das duas espécies. Um nefilim. Ela não podia existir. – Miguel me encarou e um brilho assassino surgiu em seus olhos dourados – Lembre-se disso quando estiver no inferno. E dê um oi a Lúcifer por mim.
Então, sem aviso, ele ergueu a espada e a fincou em meu peito, exatamente no local onde estava desenhada a minha marca. Senti como se o meu corpo estivesse em chamas, ardendo de uma forma mais dolorosa que a dor que Miguel era capaz de infligir às pessoas, destruindo minha aliança com Deus.
Pensei em Loren e em nosso filho, que nem chegara a nascer. Pensei em quanto eu os amava e em quanto havia falhado em protegê-los. Pensei em tudo o que tinha e que havia perdido. Pensei no que Miguel me dissera, sobre eu mesmo ter causado a minha ruína e, então, já não havia mais nada em que pensar.
Eu estava flutuando, no escuro, apenas com a dor alucinante das chamas inexistentes que corroíam meu corpo e destruíam tudo o que eu era, assim como o fogo destrói a relva seca. Eu não conseguia me concentrar em nada que fosse bom. Não conseguia ver o rosto de Loren e seu sorriso através da escuridão que me cercava. Cada sentimento e boa lembrança que eu tinha, era substituído pela dor.
E, então, eu gritei. Gritei até a minha voz também se perder no meio da escuridão e da dor e depois apenas me calei e deixei que aquelas sensações ruins me preenchessem, pois aceitá-las doía menos que lutar contra elas.
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