Killer
28 O Vale da Morte
Notas iniciais
[Bryan P.O.V.]
Eu estava deitado de costas sobre a relva macia de um bosque. Podia ver a copa das árvores balançando acima de mim e o céu azul claro, quase sem nuvens, que algumas vezes era cortado pelo voo dos pássaros. Eu não fazia a menor ideia de que lugar era aquele ou do porque eu estava ali, mas a paisagem era tão bela que não me importei em não saber, apenas cruzei os braços sob minha cabeça e fechei os olhos.
A leve brisa que soprava fazia algumas mechas de meu cabelo se agitarem e os raios fracos do sol batiam em minha pele, aquecendo-a. Tudo estava tão calmo que desejei poder permanecer ali para sempre, mas então uma sombra tapou o sol e, mesmo sem querer, tive que abrir os olhos para ver do que se tratava.
A sombra era causada pelo corpo franzino de um garoto que aparentava ter uns cinco ou seis anos de idade e me encarava fixamente. Ele se parecia um pouco com Loren, suas bochechas coradas, o nariz e o formato de sua boca eram iguais aos dela, mas seus cabelos negros e os olhos azuis profundos se pareciam com os meus. Perdi um momento encarando-o, tentando descobrir porque aquela semelhança me era tão familiar, mas me esqueci em que estava pensando quando uma gota de sangue escorreu do nariz do garoto e despencou de encontro a grama verde onde eu estava, fazendo-me levantar rapidamente.
– Você está bem? – perguntei segurando-o pelos ombros e me inclinando para observá-lo melhor.
– Você não conseguiu salvá-la. – ele disse com uma voz que parecia madura demais para alguém de sua idade – Ela confiou em você e você a deixou morrer.
– Do que está falando? – franzi a testa para ele porque eu simplesmente não entendia a que ele se referia. Quem eu havia deixado morrer afinal?
O garoto olhou para trás e eu segui seu olhar encontrando Loren parada a alguns passos de distância, me encarando enquanto mantinha as mãos sobre sua barriga que aparentava estar no sétimo ou oitavo mês de gravidez. Seus longos cabelos castanhos estavam soltos, ondulando ao vento, e ela usava um vestido longo de cetim branco, mas seus pés estavam descalços.
– Loren? – consegui balbuciar enquanto, rapidamente, me voltei para o garoto, procurando sua confirmação, mas para a minha surpresa ele já não estava lá. Minhas mãos que, anteriormente, estavam segurando seus ombros franzinos, agora estavam suspensas no ar, sem nada em que se agarrar.
Confuso, me voltei novamente para o local onde Loren estava e meus olhos se arregalaram ao ver seu vestido, antes de um branco impecável, coberto por uma mancha vermelha horripilante na altura de seu ventre. O volume em sua barriga havia sumido e agora ela segurava uma criança, coberta por uma manta também ensanguentada, nos braços.
– Ele está morto, Bryan. – Loren desviou os olhos da criança em seus braços e os ergueu para me encarar – Nosso filho está morto.
No instante em que essas palavras saíram de sua boca, ela caiu de joelhos, aninhando a criança em seus braços e, aos prantos, começou a repetir que eu o tinha deixado morrer. Em um completo desespero corri para ajudá-la, mas quando me aproximei, ela já havia desaparecido. Tudo o que restara em seu lugar era a manta ensanguentada que antes cobria o bebê e, sentindo um aperto em meu peito, me abaixei para pegá-la.
Quando me levantei, quase pulei para trás ao me deparar com Miguel diante de mim. Seus olhos dourados me fitavam com seriedade e seus três pares de asas estavam completamente abertos, dando a ele uma postura ainda mais imponente do que costumava ter. Sua mão direita repousava sobre a bainha de sua espada, como um sinal de aviso e, por algum motivo, aquilo fez com que um tremor atravessasse o meu corpo.
– Você sabe que eu não tive escolha. – Miguel disse, fazendo-me desviar os olhos da espada para ele – Sabe que tudo isso é culpa sua.
– O que é minha culpa? – questionei, encarando-o por um segundo como se procurasse a resposta em seu rosto. Eu não entendia nada do que estava acontecendo. Tudo parecia um grande pesadelo, mas eu não sabia ao certo se era disso que se tratava, pois nunca tivera sequer um pesadelo ou um sonho durante toda a minha existência para que pudesse comparar com aquela situação – O que está acontecendo, Miguel?
Antes que ele respondesse qualquer coisa, senti um ardor se espalhar por minhas costas e, milésimos de segundos depois, ouvi gritos desesperados ecoarem atrás de mim. Virei-me e senti que minha respiração ficou presa em minha garganta quando me deparei com o prédio do Saint Auguste tomado pelas chamas.
– Loren! – exclamei largando a manta que segurava e, rapidamente, me pus a correr como um louco em direção ao prédio.
Eu não sabia explicar como, mas sabia que Loren estava lá dentro, em algum lugar, esperando por mim. Eu tinha que encontrá-la, pois havia prometido a ela... bem, eu não me lembrava o que havia prometido, mas sabia que eu precisava ir até lá e salvá-la. Sabia que ela precisava de mim.
Corri até que senti como se meus pulmões fossem explodir por causa do esforço, mas parecia que quanto mais eu corria em direção ao Saint Auguste, mais longe ele ficava.
– Desista. – Miguel disse, surpreendendo-me ao aparecer subitamente diante de mim.
Quase me choquei contra ele, mas consegui parar no último segundo, derrapando na grama do bosque antes que isso acontecesse.
– Eu não posso desistir. – me coloquei de pé e limpei, apressadamente, um pouco da grama que havia grudado em minhas roupas – Eu prometi a ela, Miguel. Preciso salvá-la.
Tentei me desviar dele, mas Miguel segurou meu braço impedindo-me de avançar.
– Você não pode salvá-la.
– Porque não? – questionei, desafiando-o.
– Porque ela já está morta. – Miguel me encarou com seriedade – Você chegou tarde demais.
Então ele soltou o meu braço e abriu espaço para que eu pudesse ver Loren caída, ainda vestida com o uniforme branco do Saint Auguste, onde uma grande mancha de sangue se espalhava.
– Não! – exclamei e, sem forças, caí de joelhos.
Todo o cenário anterior havia mudado. O Sol havia se posto dando lugar a uma noite fria e sem estrelas e a grama verde do bosque havia sido substituída pelo piso de concreto enegrecido do terraço do Saint Auguste. E foi apenas nesse momento, quando vi o corpo sem vida de Loren caído diante de mim, que me lembrei de tudo o que havia acontecido.
Loren tinha sido assassinada por Miguel porque estava esperando um filho meu. Eu havia prometido a ela que não a abandonaria novamente, mas havia deixado-a desamparada quando ela mais precisou de mim e, agora, ela e o meu filho – uma criança por cuja existência eu mal tivera tempo de me alegrar – estavam mortos e não havia nada que eu pudesse fazer. Eu não tinha conseguido protegê-los.
Praticamente rastejei até o local onde o corpo de Loren estava e a aninhei em meus braços, deixando que sua cabeça repousasse em meu peito enquanto eu depositava um beijo cálido em sua testa. Sua pele estava pálida e fria e seus lábios estavam quase sem cor, exceto pelo local de onde um filete de sangue já seco parecia ter escorrido.
– Me desculpe. – eu disse em voz baixa – Eu não consegui te salvar. Eu falhei com você.
– Não se preocupe. – Loren abriu os olhos e, com um sobressalto, eu me afastei dela, assustado pelo fato de que um segundo antes ela estava morta em meus braços – O que foi? – ela abriu um sorriso macabro ao ver minha reação e segurou meu braço puxando-me novamente para perto – Achei que estivesse louco para me ver de novo.
No instante em que seus dedos se fecharam ao redor de meu braço senti minha pele arder como se estivesse em chamas e, então, tão de repente quanto antes, o cenário a minha volta desapareceu e me vi parado diante de Lúcifer.
Ele estava praticamente igual ao que era da última vez que o vi, antes de ele ser banido para o Inferno. Seus cabelos ainda batiam na altura de seus ombros e eram tão negros e brilhantes quanto eu me lembrava e seu rosto ainda mantinha os mesmo traços inocentes. Achei que apenas seus olhos vermelhos com pupilas transversais denunciavam sua atual condição, mas quando ele sorriu pude ver que havia uma língua bifurcada por trás de seus dentes que agora eram pontiagudos.
– Lúcifer? – balbuciei, sem conseguir formular nada melhor que isso.
Minha respiração estava pesada e eu sentia que meus joelhos estavam fraquejando, embora eu não me lembrasse de ter me colocado de pé em momento algum. Aturdido, estendi o braço a procura de algo em que me apoiar, mas tudo o que encontrei foi o ar e, provavelmente, teria despencado de cara no chão se dois pares de mãos, com unhas enormes e enegrecidas não tivessem me segurado.
– Hey, que tal ir com calma? – Lúcifer se aproximou alguns passos e segurou meu queixo, fazendo-me erguer o rosto enquanto ele me analisava – Miguel sabe ser um verdadeiro filho da mãe na hora de aplicar suas punições, hein? Quando ele me aprisionou aqui não consegui me colocar de pé por dias. – a expressão no rosto de Lúcifer se tornou mais dura, mas um segundo depois ele se desfez dela e voltou a assumir uma postura despreocupada – Acredito que vai demorar um pouco até que você consiga se livrar de todos os efeitos causados por aquela droga de espada que Miguel usa, então é melhor não fazer movimentos bruscos até lá, irmão.
Fechei os olhos e respirei fundo porque, de fato, parecia que o mundo estava girando sob os meus, mas quando senti que aquela sensação tinha começado a diminuir, abri os olhos novamente e olhei ao redor.
Eu estava sendo amparado por dois demônios que fediam a enxofre e que eram tão altos quanto Miguel. Seus corpos bronzeados eram cobertos de cicatrizes e seus olhos eram esbranquiçados como os de um cego, mas o que mais me chamou atenção foi o fato de que suas bocas estavam costuradas e o fato de que seus antebraços possuíam ventosas pontiagudas como as de um lagarto.
Como se a presença de tais criaturas já não fosse ruim o suficiente, nós estávamos no meio de uma paisagem desértica que fazia-me lembrar um pouco do Grand Canyon, nos Estados Unidos, com seus grandes vales e depressões, mas a atmosfera ali era obscura e enfumaçada. Havia grandes fogueiras repletas de corpos em cada canto por onde eu olhava e era possível, não apenas sentir o cheiro de pele queimada, mas também ouvir os gritos das pessoas que estavam ali.
– Então isso é o Inferno? – perguntei sentindo a repulsa revirar meu estômago.
– O que? Esse lugar? – Lúcifer abriu os braços num gesto abrangente e o sorriso em seus lábios se alargou – Bem, na verdade, essa é apenas uma parte do inferno, mas já que Miguel o transformou no meu mais novo inquilino tenho certeza de que você terá tempo suficiente para conhecer o restante dele.
Lúcifer fez um leve gesto com as mãos e os dois demônios que me seguravam me soltaram, mas dessa vez não precisei buscar nenhum apoio. O efeito desnorteante da Queda havia diminuído permitindo que eu me mantivesse de pé sem ajuda e olhos vermelhos de Lúcifer faiscaram em aprovação.
– Seja bem vindo ao meu paraíso, irmão. – ele ergueu o queixo orgulhoso – Não sabe há quanto tempo tenho esperado por você.
– Aposto que há tempo demais. – respondi finalmente encontrando forças para falar direito com ele.
Eu ainda estava me sentindo um pouco aéreo e a atmosfera sombria daquele lugar, com todas aquelas pessoas gritando enquanto eram queimadas aos montes em fogueiras, ainda me dava náuseas, mas eu já me sentia bem melhor do que estava há alguns minutos atrás.
– Sabe o que atiça a minha curiosidade, Lúcifer?
Ele sacudiu a cabeça de um lado para o outro e eu me arrisquei a dar dois passos em sua direção, alegrando-me ao saber que eu podia fazer aquilo sem desabar de cara no chão como antes.
– Não entendo porque você precisava tanto de mim aqui.
– Ora, Azrael. – Lúcifer sorriu como se minha pergunta fosse a mais tola que ele já havia escutado em sua existência – Um irmão não pode apenas sentir saudades do outro?
– Não. – descartei a possibilidade – Não é assim que você joga.
– Isso não é um jogo. – Lúcifer depositou a mão em meu ombro – Somos irmãos, você se lembra? Você e eu temos uma história. Nós prezamos pelo bem estar um do outro. Nos protegemos. Não somos como Miguel e os demais. Não fazemos mal a nossos irmãos e, tão pouco, as pessoas que eles amam.
A menção do nome de Miguel e a toda a situação pela qual eu passara reacendeu em mim a lembrança cruel da morte de Loren e desviei meus olhos de Lúcifer para o chão, tentando não deixar transparecer toda a tristeza que eu sentia naquele momento, mas meu esforço foi em vão.
– Eu tentei protegê-la, Azrael. – Lúcifer procurou meus olhar novamente – Você sabe que eu tentei deixá-la em segurança. Eu fiz com que ela fosse mandada para o Saint Auguste, um dos pontos cegos do Exército, ao invés de para uma prisão onde Miguel poderia encontrá-la facilmente. Não entendo porque você ainda não confia em mim? É como se estivesse determinado a não acreditar em nada do que digo, mesmo quando sabe que é verdade.
– Eu não sei se é verdade. – respondi e desvencilhei-me dele, virando-lhe as costas.
Eu havia convivido com Lúcifer e ele havia traído a minha confiança o suficiente para que eu soubesse que ele era capaz de tirar vantagem de qualquer fraqueza que eu pudesse ter. Era bem verdade que fora por causa dele que Loren tinha sido mandada para o Saint Auguste e que isso havia me proporcionado alguns momentos com ela que jamais poderiam ter acontecido se ela tivesse sido mandada para uma prisão, mas eu sabia que tudo o que Lúcifer fazia tinha um propósito egoísta e não me deixaria convencer tão facilmente por suas palavras.
– Tão tolo, Azrael. Quando irá aprender que eu não sou seu inimigo? Nunca fiz nada para te prejudicar.
– Você tentou tomar o trono de Deus pelas minhas costas, Lúcifer. – voltei-me para ele – Eu me tornei um Ceifeiro por causa de suas artimanhas.
– Não. – Lúcifer levantou um dedo para mim – Você se tornou um Ceifeiro por causa de suas próprias ações, Azrael. Eu pedi para que você se juntasse a mim e você recusou minha oferta. Você sempre soube o que eu planejava fazer e se não me delatou para Miguel foi porque não quis. Não me acuse de ter agido pelas suas costas.
– Você me prometeu que não daria continuidade ao seu plano ridículo.
– E o que você faria se eu não tivesse prometido? – Lúcifer questionou, encarando-me com seriedade – Você iria até Miguel me delatar? Vamos lá, Azrael. Porque apenas não admiti que, bem lá no fundo, você sempre soube que não iria parar? Admita que, mesmo que eu não tivesse lhe feito nenhuma promessa, ainda assim você não me entregaria para Miguel.
– Eu era um tolo. – admiti – Confiava em você, mas não confio mais. Agora eu sei quem você é e do que é capaz, Lúcifer. Olhe a sua volta. Estamos cercados de pessoas sofrendo e você sequer se comove com a dor delas. Nunca estive diante de uma criatura tão vil e egoísta quanto você.
– Uma criatura vil e egoísta? – Lúcifer soltou uma gargalhada, mas o sorriso sumiu de seu rosto tão rápido quanto havia se instalado – Você não tem direito de me julgar, Azrael. Ainda não. Esse é apenas o seu primeiro dia aqui. Em breve você irá descobrir que depois de algum tempo você já não consegue mais se comover com o sofrimento dessas pessoas. – ele apontou para uma das fogueiras não muito distante de nós – Você vai encontrar sofrimento em cada canto desse lugar. Não importa aonde for, sempre haverá pessoas sofrendo de maneiras terríveis e esse sofrimento irá consumir você. Irá consumir tudo o que você é agora até que não sobre mais nada. É assim que o inferno funciona. Ele não tira cada coisa boa que você tem até te destruir. Ele tira cada coisa boa que você tem e todos os dias, pela eternidade, ele te faz conviver com isso. Então ou você se acostuma ou enlouquece. Eu me acostumei.
Engoli em seco e, mais uma vez, desviei meu olhar de Lúcifer. Era como se ele tivesse cravado suas garras em meu peito com suas palavras e ouvir os gritos daquelas pessoas enquanto podia sentir o cheiro de seus corpos queimando estava fazendo com que aquela sensação de náusea e repulsa só aumentasse.
– Preciso sair daqui. – falei cambaleando alguns passos para trás.
– E para onde você vai, Azrael? – Lúcifer ergueu uma sobrancelha para mim, questionando – Eu já te disse, você vai encontrar dor, morte e sofrimento em cada canto desse lugar. Não há como escapar disso.
– Não. – balancei a cabeça, negando sua afirmação com veemência, enquanto me afastava dele.
– Vai fugir de mim, irmão? Depois de tudo o que fiz por você.
– Você nunca fez nada por mim.
– Eu posso te levar até a Loren. – disse Lúcifer, atraindo toda a minha atenção com isso – Você não gostaria de vê-la de novo?
– Ela está aqui? – perguntei sem saber se ficava feliz ou triste por isso.
– Não. – Lúcifer respondeu prontamente – Ela era uma profetiza. A alma dela não pertence a esse lugar, mas achei que você gostaria de se despedir de maneira adequada.
– Do que está falando?
– Quando caímos, nossa Queda não ocorre imediatamente. – Lúcifer começou a explicar – Talvez pareça que Miguel te baniu há apenas algumas horas, mas já se passaram três dias, Azrael. O corpo da Loren será enterrado hoje. – ele parou e me encarou – Você não gostaria de lhe dizer adeus?
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