Killer
20 Por Dentro das Memórias Pt. 3
Notas iniciais
[Loren P.O.V.]
Minha conversa com Bryan se estendeu por uma longa hora e me deu muito em que pensar. Conversar com ele era como assistir a uma palestra sobre a Segunda Guerra Mundial, cujo palestrante era um veterano de guerra: você podia até conhecer a história, mas ouvi-la de alguém que havia participado daqueles fatos era emocionante.
Por meio dele, descobri muitos detalhes sobre a Criação da Humanidade e sobre tantos outros fatos marcantes descritos na Bíblia, como: o Grande Dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra, o nascimento, morte e ressurreição de Jesus Cristo, entre outros.
Também descobri muitas coisas sobre a guerra que resultou na expulsão de Lúcifer e sua horda de anjos revoltosos do Reino dos Céus e, mesmo com Bryan me garantindo que tudo estava sob controle, não pude deixar de me apavorar com o fato de que, algum dia, Lúcifer sairia de sua prisão no inferno e viria destruir a Terra.
Saber todos aqueles detalhes a respeito de histórias que eu já conhecia me deixou impressionada, mas nada me impressionou tanto quanto a descrição do Céu.
Eu ainda tinha aquela ideia infantil de que o Céu onde Deus estava, ficava logo acima do céu que nós podíamos ver. Então, quando eu imaginava o Céu, eu o imaginava com algo azul e bem iluminado, cheio de nuvens, com Deus sentado em um trono dourado bem no centro dele e com milhares de anjos a sua volta, mas pelo que Bryan me dissera, isso não tinha nada a ver.
Segundo ele, o Céu não ficava acima de nós, assim como o Inferno não ficava sob nossos pés. Eles eram como outras dimensões que interagiam com o nosso mundo e as quais nenhum humano tinha acesso.
O Céu também não era repleto de luz e nuvens como eu imaginava e Deus não ficava sentado em um trono dourado com os anjos voando ao seu redor. Aliás, eram raros os anjos que tinham visto Deus mais de uma vez.
– Quer dizer que apenas Miguel tem acesso direto a Deus? – perguntei ainda estarrecida com aquela revelação.
– Miguel é conhecido entre nós como O Grande Príncipe. – Bryan explicou – Ele é o anjo mais próximo a Deus em nossa hierarquia e, por isso, é também o seu porta-voz. É ele quem mantém as coisas em ordem no Paraíso e quem fica na presença do Altíssimo. O restante de nós tem de recorrer a Miguel quando precisa de alguma coisa e, apenas quando ele não pode nos auxiliar, nós ganhamos permissão para ir à presença de Deus, mas esses casos são muito raros. A maioria de nós só esteve na presença do Criador durante nossa criação, depois disso, nos dirigimos apenas a Miguel.
– Caramba! E eu achava que vocês tomavam café da manhã com Deus todos os dias. – brinquei – Quantas vezes você já viu Deus?
– Duas. – Bryan respondeu prontamente.
– Imagino que uma delas tenha sido no momento da sua criação. – palpitei – E a outra?
– Quando Lúcifer foi expulso do Paraíso. – ele respondeu calmamente – Nós éramos muito próximos e, para o Altíssimo, seria perigoso me manter por perto sem saber se eu era um traidor. Por isso, pode-se dizer que precisei ter uma conversinha com Ele.
Refleti sobre aquilo por um momento. Então o anjo que estava diante de mim agora tinha sido um grande amigo do Diabo. Tão amigo que Deus precisou interrogá-lo e, provavelmente, lhe dar um grande sermão. Pensei em pedir alguns detalhes sobre essa amizade de Bryan com Lúcifer, mas pela expressão no rosto dele, eu soube que era algo que ele preferia não comentar. Então me foquei em algo que ainda martelava em minha cabeça.
– Você disse que conversou com Miguel a meu respeito. – lembrei, ajeitando-me melhor na poltrona – Sobre o que falaram?
– Ah, sim. – ele passou a mão pelo cabelo e se recostou no sofá e, embora eu achasse que estava pecando por fazer aquilo, não pude deixar de notar como aquele gesto era sexy – Eu contei a ele sobre como sua hora da morte havia desaparecido de repente e perguntei se ele tinha conhecimento de algum caso como o seu.
– E o que ele disse? – perguntei com enorme curiosidade.
– Ele não disse nada, mas Gabriel me disse que você é uma Profetisa.
– Eu sou uma o quê? – senti minha voz subir uma oitava.
Como se já não bastasse sentir a presença dos anjos e descobrir que eu não tinha uma hora da morte, agora o Anjo Gabriel estava dizendo por aí que eu era uma Profetisa. Era muita informação para absorver numa noite só.
– Você é uma Profetisa. – Bryan repetiu como se aquilo fosse fazer mais sentido quando dito pela segunda vez – Ainda assim, tudo isso é muito estranho. Eu conheci todos os Profetas que já tivemos. Daniel, Isaías, Ezequiel... – ele listou alguns contando nos dedos – Eles eram um pouco sensitivos assim como você, é verdade, mas todos eles tinham uma hora da morte. Inclusive, fui eu quem matou alguns deles.
Engoli em seco. Para um Ceifeiro, falar sobre tirar a vida de alguém podia ser natural, mas para um humano, ouvir aquilo dava arrepios.
– E o que Gabriel tem a dizer sobre isso? – perguntei para sair daquele assunto incomodo.
– Ele disse que você é um tipo diferente de Profeta. – Bryan respondeu calmamente – Disse que você pode evitar que um mal se abata sobre a Terra e sobre o Paraíso, mas eu não sei o que isso significa exatamente. Gabriel é conhecido entre nós como O Espírito da Profecia. Ele é o único que tem conhecimento sobre os papéis que os Profetas desempenharão em vida, mas ele não pode nos dar detalhes.
– Ele não pode nem me dar detalhes? – me coloquei de pé, nervosa.
Eu estava acostumada a ser uma humana que tinha sensações estranhas. Agora eu era uma Profetisa, sem data de validade e que podia evitar que um grande mal se abatesse sobre a Terra e sobre o Paraíso.
Descobrir tal coisa era um choque, principalmente porque eu era um tipo diferente de profeta – seja lá o que isso significasse –, mas o pior de tudo era que eu não sabia nada sobre isso.
Que tipo de mal era esse que eu poderia evitar? Quando isso aconteceria? O que eu poderia fazer a respeito? Alguém deveria me dar respostas!
– Gabriel não pode dizer nada até chegar a hora. – Bryan respondeu colocando-se de pé também, ao ver meu nervosismo – Ele é responsável por revelar aos Profetas suas obrigações, mas ele só pode revelar isso no momento certo. Até lá, ele guarda tudo o que sabe para si.
Joguei as mãos para o alto, inconformada. Eu ia enlouquecer com tudo aquilo.
– Eu não consigo aguentar isso. – disse andando de um lado a outro da sala do apartamento – É demais para mim. Eu ainda nem tenho dezesseis anos, droga! Como é que vocês esperam que eu seja uma Profetisa?
– Ser um Profeta não tem nada a ver com idade, Loren. Vocês são escolhidos porque têm potencial.
Parei e me virei para ele.
– Que potencial?! Eu mal consigo fugir de casa sem ser pega, quanto mais impedir que algum tipo de mal acabe com a Terra e com o Paraíso ao mesmo tempo! – esbravejei sentindo a tensão se espalhar por meu corpo – Eu não posso ser uma Profetisa, Bryan!
Eu me sentia a meio minuto de ter um colapso nervoso. Todas aquelas revelações me arrancaram bruscamente de minha zona de conforto e agora era como se as paredes estivessem se fechando ao meu redor.
– Eu não estou pronta para isso! – eu disse desesperada.
Em um milésimo de segundo, Bryan estava diante de mim, segurando a minha mão, e o calor de seu toque amenizou imediatamente toda a sensação de claustrofobia que eu estava sentindo.
– Não se subestime. – ele disse de uma maneira reconfortante – Eu tenho te observado, Loren, e sei o quanto você é forte. Você pode não acreditar nisso, mas se pudesse ver o que eu vejo, você se daria conta de que está pronta para enfrentar qualquer coisa. Deus só entrega suas maiores batalhas nas mãos de seus melhores soldados.
As palavras dele me pegaram de surpresa e me atingiram em cheio. Ninguém, além de minha mãe e minha avó, via qualquer potencial em mim e, agora, Bryan estava ali, me dizendo que eu era boa o suficiente para lidar com qualquer coisa.
Ergui os olhos para ele, incapaz de pronunciar qualquer palavra, mas encantada e agradecida por cada uma das suas.
– Desculpe. – ele disse, interpretando meu silêncio da maneira errada – Passei tanto tempo observando você que sinto como se nos conhecêssemos desde sempre. Até esqueço que é a primeira vez que conversamos e que não somos íntimos o suficiente para que eu fale com você dessa forma.
Ele me fitou com aqueles belos olhos azuis e meu coração palpitou mais forte em meu peito. Automaticamente, meu olhar recaiu de seus olhos para sua boca e qualquer coisa que eu pudesse dizer a ele ficou perdida dentro de minha cabeça. Eu iria para o inferno – eu tinha certeza disso! –, mas naquele momento eu não consegui me segurar. Simplesmente, puxei Bryan para mais perto e o beijei.
Ele não retribuiu ao beijo, mas também não se afastou como eu esperava que fizesse. Apenas manteve os lábios nos meus, imóvel, e esperou até que eu me afastasse. Eu devia parecer uma garota boba e carente de afeto aos seus olhos. Tão carente que era digna de pena.
– Desculpe. – eu disse, sentindo o rubor tomar conta de meu rosto assim que me afastei – Eu não devia ter feito isso.
Antes que a situação pudesse ficar mais embaraçosa, corri para fora do apartamento e desci, rapidamente, a escada de metal. Eu sabia que Bryan poderia me alcançar em um segundo se ele quisesse – e, no recanto mais profundo de minha alma, era isso que eu esperava que ele fizesse –, mas minha mente insistia que eu deveria fugir. Entretanto, assim que cheguei à esquina da rua, me arrependi de ter saído do apartamento.
Dois homens mal encarados estavam sentados no meio fio, conversando animados e, assim que me viram, eles se colocaram de pé. Suas posturas me indicavam que eles estavam procurando encrenca e que achavam que eu era a vítima perfeita.
– Oi, docinho. – um deles me cumprimentou arrancando risadas do outro que estava ao seu lado.
Por causa da iluminação precária da rua e pelo fato de todos eles estarem usando bonés com o capuz de suas blusas de frio por cima, eu mal conseguia distinguir seus rostos. As únicas coisas que eu conseguia diferenciar neles eram a altura e o tom de voz.
Assenti, brevemente, temendo que, se os ignorasse, eles interpretariam aquilo como um desafio, e continuei andando, mas nem havia dado três passos quando o mesmo homem que me cumprimentou se intrometeu em meu caminho.
– Porque a pressa? – ele perguntou em um tom divertido que não era suficiente para esconder a ameaça velada – Pare e converse um pouco com a gente.
Recuei dois passos e olhei, disfarçadamente, para o fim da rua, cogitando a ideia de voltar correndo para o apartamento, mas ele estava muito longe e eu tinha certeza que não conseguiria correr mais rápido que dois homens. Sem falar que eu nem sabia se Bryan ainda estava lá para me defender.
– Acho que a sua cara feia deixou a Docinho assustada, Chuck. – disse o homem que estava ao lado daquele que havia falado comigo.
– Ela não está assustada, Kane. – o homem que, agora, eu sabia se chamar Chuck retrucou e se aproximou de mim – Você não está assustada, não é?
Se aquela era uma ideia idiota ou não, não importava. Meu instinto de sobrevivência falou mais alto naquele momento, gritando com todas as forças para que eu corresse e foi o que fiz.
Pude ouvir os passos pesados dos homens disparando atrás de mim e, embora sentisse que meu pulmão estava prestes a explodir, não parei. Nem mesmo olhei para trás. Toda a minha atenção estava focada na pequena escada de metal que levava ao último apartamento daquela rua e quando eu, finalmente, consegui alcança-la, senti as mãos pesadas de Chuck agarrarem meu ombro, puxando-me para trás.
– Onde é que você vai, Docinho? – ele perguntou roçando os lábios em minha orelha – Faz um tempão que eu e o Kane estamos procurando uma nova amiga.
Tentei me desvencilhar de suas mãos e chegar até a escada, mas Kane se postou a minha frente, impedindo-me de avançar.
Fiquei acuada entre eles e a parede, sentindo-me como um antílope diante de leões famintos e perigosos. Eu não tinha como chegar à escada e, mesmo que tivesse, eu já não sentia mais a presença de Bryan no apartamento. Ele tinha ido embora e me deixado ali sozinha. Meu beijo devia ser algo decepcionante.
Tirei meu celular do bolso e o estendi para Chuck.
– Isso é tudo o que eu tenho. – disse com a voz trêmula por causa do medo – Pode levar.
Kane olhou para Chuck, que parecia ser o líder, e aguardou uma decisão dele.
– Celular bonito. – Chuck abriu um sorriso e tirou seu próprio celular do bolso para me mostrar – Pena que eu já tenho um.
O pânico me inundou no mesmo instante em que Kane se aproximou e segurou meus braços para trás, imobilizando-me.
– Por favor, não me machuquem. – implorei desesperada.
Chuck sorriu e se aproximou de mim, metendo a mão por baixo de minha camiseta e depositando-a sobre o meu seio.
– Se você ficar quietinha, eu juro que não vai doer.
A eletricidade tomou conta de Kane e, naquele momento eu soube que não havia mais salvação para mim. Minha avó mal suportara a morte de minha mãe e, agora, teria que suportar a atrocidade que aconteceria com a neta. Tinha sido uma péssima ideia ir até aquele lugar.
Senti a boca de Chuck se chocar contra a minha de uma forma grosseira e, logo depois, senti sua língua forçar passagem para dentro de minha boca, enquanto sua mão se esgueirava por baixo de meu sutiã, acariciando meu seio. Eu podia sentir o cheiro de suor que emanava dele e sua barba por fazer arranhava minha pele. Então, em uma última tentativa de me livrar de Chuck, cerrei minha mandíbula, mordendo seu lábio com força.
Ele soltou um grito de dor e se afastou, levando a mão ao lábio machucado. Quando percebeu que sangrava, lançou-me um olhar furioso e acertou um tapa tão forte em meu rosto, que fiquei zonza.
– Essa vadia me mordeu. – ele relatou ao comparsa, limpando o sangue que escorria de seu lábio.
– Essa gata é selvagem, mano. – Kane disse lambendo o lóbulo de minha orelha por trás – Precisa ensinar essa mina a te respeitar.
Ergui a cabeça a tempo de ver Chuck abrir o botão e o zíper de sua calça jeans, com um sorriso pervertido nos lábios e depois fechei os olhos, temendo o que viria a seguir.
–Vamos brincar, Docinho. – ele disse em um tom baixo e grave, brincando com o cós de minha calça.
Meu coração se acelerou de pavor quando ele abriu meu zíper e, antes que eu pudesse começar a gritar e espernear, senti a presença de Bryan tomar conta do lugar. Um segundo depois, uma rajada cortante de ar varreu meu corpo e ouvi Chuck urrar de dor, pouco antes de um barulho ensurdecedor de algo se chocando contra o metal ecoar pela rua deserta.
Kane soltou meus braços no mesmo instante e quando abri os olhos, encontrei Bryan diante de mim.
Seus olhos, antes azuis, agora estavam tão negros, que era impossível diferenciar a íris, a pupila e a esclerótica e ele exibia a postura ameaçadora da qual eu me lembrava tão bem. Todos os traços de humanidade que eu tinha visto nele enquanto estávamos no apartamento tinham desaparecido. Ele era o Ceifeiro de almas novamente. Era um predador.
Bryan passou por mim, aproximando-se de Kane que, agora, estava acuado contra a parede, tão assustado que eu podia senti-lo tremer atrás de mim conforme Bryan o encarava.
– Vá embora. – Bryan ordenou.
Ele não alterou seu tom de voz nem mesmo um pouco, mas sua voz estava carregada com tamanha autoridade que Kane correu para longe dali sem nem olhar para trás ou para o corpo de Chuck, que estava caído sobre algumas latas de lixo não muito distante de onde estávamos.
Quando ele, finalmente, dobrou a esquina, senti toda a adrenalina se esvair do meu corpo e desmoronei, sendo prontamente amparada pelos braços fortes de Bryan e, conforme ele me encarava, com visível preocupação, eu pude ver seus olhos negros voltarem ao sem tom azul vibrante natural.
– Eu vou te levar para casa. – ele disse de maneira calma.
Sentindo-me fraca, apenas assenti e fechei os olhos. Logo depois, eu estava flutuando.
***
Acordei em minha cama, sem sapatos e devidamente agasalhada por meu edredom. Eu não saberia dizer quanto tempo, exatamente, tinha se passado desde o episódio no beco, mas a julgar pela luminosidade que invadia meu quarto, supus que já tivesse amanhecido.
Senti a presença de Bryan preencher o ambiente e me virei em direção ao local de onde aquela sensação partia, encontrando-o de pé, próximo a minha porta.
– Nunca falha. – ele repetiu calmamente.
– O meu dom é impressionante. – completei, lembrando-me das palavras dele.
Ele assentiu e se aproximou, sentando-se ao meu lado na cama.
– Você é impulsiva. – ele disse encarando um ponto qualquer da estante a nossa frente – Não devia ter me beijado e não devia ter saído do apartamento daquela forma.
– Eu sei. – concordei envergonhada – Me desculpe.
Bryan olhou para mim e seu rosto se retraiu em uma pequena careta. Então, ele tocou levemente minha bochecha esquerda, que ainda estava sensível por causa do tapa que Chuck havia me dado.
– Eu fui criado apenas para tirar vidas. – ele disse em voz baixa – Jamais devo interferir na vida de um humano e, muito menos, devo salvá-lo como fiz com você essa noite.
Ele segurou meu queixo de maneira suave, fazendo-me erguer a cabeça até que meus olhos encontrassem os seus e eu senti minhas mãos começarem a suar.
– Mas eu não pude evitar. – ele continuou, encarando-me de forma penetrante – Quando vi você se machucar doeu em mim também e eu não pude deixar aqueles homens te fazerem mal.
Permaneci em silêncio, respirando de maneira pesada e sem conseguir desviar os olhos dos dele e, então Bryan aproximou o rosto do meu.
– Eu nunca fiz isso antes. – ele disse de maneira tímida – Então, me avise se eu estiver fazendo alguma coisa errada.
Bryan uniu seus lábios aos meus e fechei os olhos, sentindo meu coração disparar mais uma vez. O calor de seu beijo logo se espalhou por todo o meu corpo e, mesmo nervosa, eu passei os braços ao redor de seu pescoço intensificando o contato entre nós.
Aquele era o meu primeiro beijo – isso, desconsiderando o que eu tinha roubado dele no apartamento – e, mesmo com todas as tragédias recentes que tinham acontecido em minha vida, naquele momento, eu me senti completamente em paz. Como se, finalmente, tivesse encontrado meu lugar no mundo. E ele era exatamente ali, nos braços de Bryan.
Enquanto nos beijávamos, uma sucessão de cenas desfocadas preencheu minha mente.
Vi o rosto de Bryan e de uma criança com olhos azuis vibrantes iguais aos dele e, logo em seguida, vi pessoas gritando em meio às chamas e vi minhas próprias mãos cobertas de sangue. E, então, eu vi a guerra. Anjos e Demônios lutando contra outros Anjos e uma grande espada dourada cortando os céus, enquanto a Terra era tomada pelo fogo incessante.
– Loren? – minha avó bateu na porta de meu quarto e, com um sobressalto, eu me afastei de Bryan, quebrando nosso beijo e, com isso, fazendo todas aquelas imagens desaparecerem.
– Eu já vou, vovó. – respondi e ouvi os passos de minha avó se afastarem de minha porta.
Bryan se colocou de pé, pronto para ir embora e eu segurei sua mão com força.
– O que foi? – ele perguntou sem entender minha reação.
Eu tinha a impressão de que nunca mais o veria se ele fosse embora e estava disposta a impedir que isso acontecesse.
– Eu vou te ver de novo? – perguntei sentindo um nó se formar em minha garganta.
Ele abriu um pequeno sorriso e acariciou minha mão.
– Depois de tudo isso, acha que eu vou conseguir ficar longe de você por muito tempo?
Retribuí ao sorriso dele, sentindo que um peso havia sido retirado de minhas costas e me coloquei de pé, depositando um selinho em seus lábios.
– Então, te vejo em breve. – eu disse esperançosa, um segundo antes de ele desaparecer bem diante dos meus olhos.
Eu havia me afastado da normalidade de uma maneira irreversível. De mera humana eu havia chegado ao patamar de Profetisa apaixonada por um Anjo da Morte e, por mais estranho que aquilo pudesse parecer, era algo incrível.
Nas semanas que se seguiram, eu me encontrei com Bryan apenas algumas vezes e nos locais mais estranhos que eu poderia imaginar. Todos eles eram tão ruins quanto o apartamento de nosso primeiro encontro e quando questionei Bryan a respeito de suas escolhas para locais de encontro, ele me revelou que aqueles locais eram todos cenários de tragédias onde sangue inocente havia sido derramado.
Foi assustador, em minha opinião, descobrir que nos encontrávamos em locais onde pessoas inocentes tinham sido assassinadas, mas Bryan me garantiu que aquilo funcionava com uma espécie de abrigo.
Segundo ele, esses lugares eram os únicos pontos cegos nos “radares” do Exército – o alto escalão de anjos que, certamente, não aprovaria a nossa relação – e que, ao mesmo tempo, funcionavam como barreira para os demônios. Ou seja, eram os únicos lugares onde nós podíamos conversar sem nos preocupar com nada.
Conforme o tempo passava, cada vez mais eu me apaixonava por Bryan e, cada vez mais, aquelas estranhas imagens que eu tinha visto quando nos beijamos se tornavam mais nítidas em minha cabeça. Eu me perguntava se tudo aquilo tinha a ver com que o Bryan havia me dito sobre Gabriel e suas revelações e, se fosse isso mesmo, estava na hora de eu contar para ele tudo o que tinha visto.
Imaginei que, em breve, Bryan marcaria mais um de nossos encontros secretos em locais estranhos e que eu poderia usar esse encontro para lhe contar sobre minhas visões. Entretanto, mais de três semanas se passaram e eu não recebi nenhuma notícia dele.
Comecei a fica apreensiva, imaginando que algo ruim poderia ter acontecido a ele – afinal, Bryan não costumava sumir daquela forma – e, quando comecei a me desesperar com a possibilidade de nunca mais vê-lo, uma grande tragédia me atingiu: minha avó faleceu.
Como meu avô tinha falecido há cinco anos e minha mãe era a única filha que ele e minha avó tinham, a única parente dela que ainda estava viva – além de Erin, sua irmã mais nova – era eu e, por isso, nós duas ficamos responsáveis por cuidar do funeral e de todas as questões referentes à herança. Porém, como eu era menor de idade e, legalmente, não podia assinar nenhum documento, meu pai – que já havia se mudado para uma pequena cidade chamada Trevolts com sua nova mulher, Anne – teve de vir para cuidar de todos os trâmites legais.
Acabei descobrindo que, agora que eu já não tinha mais minha avó para cuidar de mim, eu precisaria me mudar para Trevolts e morar com o meu pai e sua nova esposa.
Era um desastre!
Eu não queria ir morar com ele e sabia que ele também não me queria por perto. Entretanto, nenhum de nós tinha opção.
Então, após o enterro de minha avó, arrumei minhas malas e fui me deitar. Na manhã seguinte eu viajaria para Trevolts com meu pai e tinha certeza que minha vida jamais seria a mesma depois daquilo. Estava justamente pensando em como toda aquela mudança seria ruim, quando Bryan apareceu em meu quarto.
Apesar de nós nunca nos encontrarmos em minha casa, de início, eu não estranhei sua presença ali. Estava tão feliz por vê-lo de novo que, simplesmente, me lancei em seus braços e o abracei forte, mas, diferente do que costumava acontecer, Bryan não retribuiu ao meu abraço. Seu corpo estava rígido de encontro ao meu e foi nesse momento que eu soube que alguma coisa estava errada.
– O que aconteceu? – perguntei me afastando dele apenas o suficiente para olhar em seus olhos – Você sumiu e não me deu nenhuma notícia. Tem alguma coisa errada?
– Eu não posso mais te ver. – ele respondeu em voz baixa.
Seus olhos encaravam um ponto qualquer na paisagem escura além de minha janela e seu rosto era como uma máscara. Frio e inexpressivo.
– Como assim não pode mais me ver? – engoli em seco.
– Miguel sabe sobre nós. – Bryan explicou superficialmente.
– Como ele soube? – perguntei aflita – Achei que os locais onde nos encontrávamos eram um ponto cego na vigilância dele.
– Não importa como ele soube. – Bryan se afastou e pela primeira vez naquela noite seus olhos expressaram algum sentimento, mas não era nenhum sentimento louvável, era apenas angústia – Miguel quer que eu me afaste de você e não posso desobedecê-lo, senão... – ele parou e olhou para o teto e, por instante, eu achei que ele ia chorar, mas então ele se recompôs e se voltou para mim novamente – Eu sinto muito, Loren.
Aquilo me atingiu como uma bomba. Senti meu coração pesar dentro de meu peito e precisei me esforçar muito para me colocar de pé e andar até Bryan.
– Então, você vai me deixar? – perguntei sentindo lágrimas quentes transbordarem em meus olhos – Você é a única coisa boa que eu ainda tenho, Bryan. Se me deixar eu não vou ter mais nada.
Ele olhou para mim, mas não respondeu e, por sinal, nem precisava. Seus olhos já me diziam tudo o que eu precisava saber. Então, desesperada, eu o abracei forte novamente.
– Bryan... – praticamente implorei.
Dessa vez ele retribuiu ao meu abraço e ergueu meu rosto para que pudesse me beijar, mas percebi logo que ele não estava se rendendo ao pedido e, sim, se despedindo.
– Eu te amo. – ele disse quando encerrou nosso beijo – Não achei que, algum dia isso aconteceria comigo, mas me apaixonei por você, Loren, e passar esse tempo contigo foi uma das coisas mais incríveis que eu já fiz.
– Então, não vá embora agora. – pedi aos prantos.
– Eu não queria ir. – ele respondeu com sinceridade – Queria ficar com você. Para sempre. Mas eu não posso e, é por isso, que você precisa me esquecer.
– Eu não posso esquecer você! – eu disse desesperada – Eu não posso e nem quero fazer isso.
Bryan beijou o topo de minha cabeça e depois segurou meu rosto entre as mãos, depositando um beijo rápido em meus lábios.
– Eu sei que não quer – ele olhou intensamente em meus olhos –, mas você não tem escolha.
Eu estava pronta para retrucar aquilo, mas seus olhos azuis se tornaram negros novamente e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, todas as lembranças que eu tinha dele foram desaparecendo em minha mente.
Um por um, cada momento que eu tinha passado com Bryan, foi substituído por falsas memórias onde ele nunca existiu e a última coisa que ouvi, antes de perder a consciência, foi Bryan sussurrando um “eu te amo” em meu ouvido.
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