Notas iniciais
Olá pessoinhas, como vocês estão? Faz um tempo que não apareço por aqui, mas com a volta às aulas ficou um pouco mais difícil arranjar tempo para escrever. Terminei esse capítulo ontem a noite, mas como estava com sono decidi postar apenas hoje. Eu revisei apenas uma vez, então se encontrarem erros, avisem. Boa leitura.

[Bryan P.O.V]

Necrotérios são lugares desagradáveis.

A baixa luminosidade, o cheiro constante de álcool e o ar altamente refrigerado usado para conservar os corpos que ali estão, sempre causam uma sensação desconfortável nas pessoas e são capazes incomodar até mesmo os Ceifeiros. Ou, no meu caso, os ex-Ceifeiros.

Nós lidamos com a morte todos os dias, mas nossa relação com ela e bem diferente da relação que os médicos legistas têm. Eles estão acostumados a viver cercados de restos humanos conservados em geladeiras e, para os Ceifeiros, esse estilo de vida é realmente esquisito.

Nosso lema é bem simples: do pó ao pó. A ideia de armazenar corpos humanos em gavetas refrigeradas não nos parece correta e, tão pouco, nos deixa satisfeitos. A matéria deve retornar a matéria. Foi assim que O Criador instituiu.

Ignorando os armários repletos de corpos a minha volta, atravessei a grande porta branca que levava a sala dos arquivos e me concentrei em procurar pelo relatório de necropsia que pertencia a Loren. Eu não tinha muita certeza se o encontraria ali, mas aquele era o necrotério mais próximo do Saint Auguste em toda a Costa Oeste, então, eu suspeitava que a maior parte dos corpos retirados do hospital psiquiátrico havia sido levada para lá.

Confirmando as minhas suspeitas, encontrei a pasta que continha os arquivos de Loren na terceira gaveta de um dos armários destinados as pessoas cujo sobrenome começava com a letra S. Retirei-o de lá e comecei a ler.

O relatório do legista indicava que a causa da morte de Loren havia sido asfixia por grande exposição à fumaça tóxica do incêndio. Indicava ainda que seu corpo havia sido encontrado carbonizado, o que impossibilitou que um exame de DNA fosse realizado e tornou sua arcada dentária o único meio de identificação possível.

Virei a página e a foto de um corpo carbonizado que, supostamente, pertencia a Loren fez meu estômago revirar. Sua pele rígida e enegrecida estava repuxada em seu rosto deixando à mostra seus dentes e parte de seus olhos e um pequeno retalho chamuscado de tecido branco preso em seu tórax era a única coisa que indicava que, um dia, seu corpo estivera coberto por roupas.

Olhando aquela foto não era difícil entender porque nem mesmo um exame de DNA havia sido suficiente para identificá-la. Não havia restado nada que pudesse lembrar Loren, mesmo que remotamente. Até seus cabelos haviam desaparecido.

Continuei minha observação sendo recebido por outras dezenas de fotos tiradas pelo legista durante a necropsia e pela perícia no local onde o corpo havia sido encontrado e terminei observando os laudos de identificação e os raio x e fotos dos moldes de comparação da arcada dentária.

Tudo parecia legítimo. Havia assinaturas, carimbos e números do Conselho Regional de Medicina Legal. Qualquer um que olhasse aqueles arquivos não teria o que contestar. Para todos os efeitos, Loren havia morrido no incêndio que matara outras centenas de pessoas no Saint Auguste, mas havia um pequeno detalhe que o legista que fizera aquele relatório não tinha levado em conta.

Eu.

Eu estava naquele terraço, com Loren, na noite em que ela morreu e sabia muito bem que a causa de sua morte não tinha sido asfixia causada por exposição à fumaça. Miguel havia trespassado o coração dela com sua espada e aquele ferimento, sim, havia causado sua morte. Loren também estava grávida quando morreu, algo que deveria estar constando no relatório, mas não estava. Talvez o estado em que o corpohavia sido encontrado tivesse impedido tal diagnóstico, mas de maneira alguma uma lesão num órgão tão importante quanto o coração poderia passar despercebido por um legista experiente.

Fechei a pasta e a depositei novamente na gaveta sentindo que, a cada segundo, as palavras de Lorelei ganhavam mais força. A morte de Loren parecia não fazer sentido e minha vontade era ir até a casa do legista que fizera aquele relatório de necropsia e confrontá-lo em busca de algumas respostas, mas, antes de tomar uma atitude tão impulsiva como esta, eu precisava visitar o Saint Auguste mais uma vez e analisar o cenário daquela tragédia com meus próprios olhos.

A noite estava fria e, o céu, parcialmente nublado quando cheguei aos limites da clareira onde ficava ao Saint Auguste. De longe, a grande construção que antes me lembrava uma catedral da era vitoriana, agora não era mais que um esqueleto de concreto enegrecido e decrépito.

Todos os vitrais das janelas estavam destruídos e parte de sua estrutura metálica estava retorcida. Havia ainda uma grande pilha de lixo do lado de fora do prédio, certamente retirada dali pra facilitar a busca pelos corpos. Era óbvio que no momento do incêndio as temperaturas dentro do Saint Auguste haviam chegado às alturas e que qualquer pessoa lá dentro não teria condições de sobreviver, mas meu destino não era o interior do hospital e, sim, seu terraço, onde eu havia visto Loren pela última vez.

– É impressão minha ou esse lugar vive sob o frio constante? – Lúcifer perguntou assim que meus pés tocaram o piso sujo do terraço.

Ele estava de pé, na ponta mais afastada do terraço, olhando para o horizonte negro a sua frente e a primeira coisa que me perguntei foi como ele conseguia ocultar sua presença tão bem. Lúcifer poderia estar de pé ali há alguns segundos ou há algumas horas e eu não saberia dizer a diferença.

– O que faz aqui? – perguntei de mau humor.

– Eu estava a sua procura. – ele se voltou para mim e me lançou um olhar inquisitivo – O que você faz aqui?

– Não é da sua conta. – respondi e Lúcifer sorriu.

– Oh, Azrael, meu querido irmão. Sempre tão doce. – zombou.

Revirei os olhos, irritado, e me dirigi ao centro do terraço, me abaixando para verificar uma grande mancha de sangue seco no chão.

– Não estou com paciência para os seus jogos, Lúcifer. Se veio até aqui me procurar, então, diga logo o que quer. – pedi.

– Eu vim lhe fazer uma proposta. – ele comunicou, rapidamente, e fui obrigado a respirar fundo.

– Não estou interessado.

– Eu ainda não disse do que se trata. – ele protestou.

– Não importa. – desviei meus olhos do chão e olhei para ele – Convivi com você por tempo suficiente para saber que não devo confiar em nenhuma das suas propostas.

Parecendo não se abalar com minha opinião a seu respeito, Lúcifer caminhou até mim com passos lentos e ritmados e se agachou ao meu lado.

– Quando foi que eu traí sua confiança, Azrael?

– Seria mais fácil perguntar quando foi que você não a traiu. – retruquei – Mas já que está aqui, Lúcifer, olhe bem para esse lugar e me diga o que vê.

Ele franziu a testa com meu pedido, mas correu os olhos pelo terraço por um breve momento antes de voltar-se novamente para mim, com sua expressão costumeira de total indiferença.

– Ele precisa de uma faxina? – supôs, entediado, e eu me coloquei de pé.

– Não, Lúcifer. – olhei em volta, para o piso sujo, porém intacto do terraço e depois me voltei para ele – Ele não pegou fogo.

– Não entendi. – Lúcifer meneou a cabeça, parecendo confuso – Do que exatamente estamos falando aqui, Azrael?

Caminhei até a borda do terraço e, assim como Lúcifer, encarei o horizonte negro que havia além do Saint Auguste. Eu poderia dizer a ele todas as suspeitas que tenho, tudo o que deduzi a partir de minha breve investigação sobre a morte de Loren, mas conheço Lúcifer muito bem para saber que um confronto direto não funciona contra ele. Como Lilith havia dito ao nos encontrar no quarto círculo: Lúcifer era o pai da mentira.

– Eu li os arquivos do legista que fez a necropsia da Loren. – comecei calmamente – No relatório constava que o corpo dela foi encontrado carbonizado sobre este terraço, mas, como você pode ver, não há qualquer evidência de que o incêndio tenha chegado até aqui. – parei e me virei para ele – Como um corpo pode queimar sem entrar em contato com o fogo, Lúcifer?

Lúcifer pensou por um momento, sua expressão sempre a mesma máscara fria e indecifrável de sempre e, depois, deu de ombros.

– Talvez ele seja como a sarça ardente. – concluiu.

Estreitei os olho para ele.

– A sarça ardente, mesmo em chamas, não se consumia.

– Bem, e como eu poderia saber disso? – ele perguntou, cruzando os braços – Enquanto Moisés ouvia as sábias palavras do Senhor eu estava trancafiado no nono círculo do inferno, longe de tudo e de todos.

– Se você soube sobre a existência da árvore, mesmo estando trancafiado no nono círculo do inferno, talvez você não estivesse tão longe de tudo e de todos quanto deveria. – retruquei – A meu ver, parece apenas que você só gosta de mencionar as partes da história que o convém.

– Aonde quer chegar com isso, Azrael?

– Você mentiu para mim. – eu o acusei, aproximando-me dele com três passos rápidos – Me disse que Loren estava morta e me fez acreditar que o corpo dela estava sendo velado na igreja, mas tudo não passou de mais uma de suas mentiras, não é?

– Não sei do que está falando. – ele desconversou e eu o segurei pela gola do sobretudo, puxando-o mais para perto.

– Não brinque comigo, Lúcifer.

– E o que você quer que eu te diga?

– A verdade. – exigi – Eu sei que você sabe tudo o que aconteceu aqui, depois que fui banido, então, me diga a verdade, Lúcifer. Loren não morreu naquela noite, morreu?

Lúcifer fixou seus olhos vermelhos e brilhantes nos meus e permaneceu tanto tempo me encarando, em silêncio, que pensei que ele não responderia a minha pergunta. Já estava pronto para começar a sacudi-lo exigindo respostas, mas antes que eu pudesse fazer isso ele abriu um sorriso macabro que deixou à mostra todos os seus dentes pontiagudos.

– Miguel não a matou naquela noite, não é? – perguntei, tentando interpretar seu sorriso.

A agitação se apoderou de mim no mesmo instante e desejei que Lúcifer confirmasse logo minhas suspeitas, porque eu estava muito perto de me quebrar em um milhão de pedaços por causa da expectativa.

– Ah! – os olhos vermelhos faiscaram em minha direção e seu sorriso se alargou – Miguel a matou, sim.

– Então onde está o corpo dela? – questionei segurando-o com mais força – Sei que a pessoa que está enterrada naquele cemitério não é a Loren e, se ela realmente está morta, como você diz, então onde está o corpo dela, Lúcifer?

– Você nunca vai encontrá-lo. – ele respondeu calmamente e o choque de suas palavras fez com que eu o soltasse e me afastasse um passo para trás.

– Então você sabe onde está. – disse baixinho, sentindo o peso de sua revelação cair sobre mim – Durante todo esse tempo você sempre soube que o corpo que seria enterrado naquele cemitério não era dela e mesmo assim você me deixou chorar sobre seu túmulo.

– Não interprete meus atos como uma traição, Azrael.

– Não há outra forma de interpretá-los. – retruquei cerrando os punhos.

Eu estava com raiva por, mais uma vez, ter me deixado enganar pelas mentiras de Lúcifer, mas também estava triste por ele ter despedaçados todas as minhas esperanças com tão poucas palavras.

Quando cheguei ao terraço eu tinha certeza que as suposições de Lorelei se confirmariam e que, muito em breve, eu teria Loren, sã e salva, em meus braços novamente, mas as palavras de Lúcifer destruíram todas as minhas fantasias.

Miguel realmente havia matado Loren naquela noite e, embora o corpo enterrado naquele cemitério não fosse dela, seu corpo estava em algum lugar por aí, apodrecendo e levando consigo todas as esperanças que eu nutria até aquele momento.

– Onde está? – perguntei mantendo meus olhos no chão, focados na grande mancha de sangue seco que havia lá, porque eu não tinha certeza se poderia encarar Lúcifer sem cair de joelhos ou sem me jogar sobre ele numa tentativa inútil de matá-lo.

– Se está perguntando sobre o corpo da Loren, ele não está em lugar algum. – Lúcifer se aproximou de mim e buscou os meus olhos com os seus – Mas se está perguntando sobre a Loren, ela está em algum lugar que apenas eu conheço.

Simplesmente não entendi o que ele tinha dito. Ergui os olhos e abri a boca para questionar suas palavras, mas tudo o que consegui fazer foi encará-lo completamente confuso.

– Você disse que Miguel a matou. – verbalizei assim que saí de meu estupor.

– Sim. Eu disse. – ele confirmou.

– Então... o que está tentando me dizer agora?

Minha mente estava se esforçando para compreendê-lo, mas estava falhando de uma maneira miserável. Tudo o que eu conseguia processar era que Loren deveria estar morta, mas as palavras de Lúcifer me tiraram essa certeza que eu havia adquirido apenas alguns segundos antes. Senti aquela centelha de esperança brotar em meu coração novamente, mas fiz o possível para reprimi-la. Não queria voltar a acreditar que Loren está viva, para depois ouvir Lúcifer dizer que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Não queria que ele dilacerasse o meu coração, mas do que já está dilacerado.

– Ouça-me com atenção, Azrael. – Lúcifer depositou as mãos sobre os meus ombros e me olhou nos olhos, profundamente – Há muitas coisas que não poderei te explicar agora, mas o que você precisa saber é que a Loren ainda está viva. Eu a salvei.

– Como?

– Eu disse que não poderia explicar...

– Como, Lúcifer?! – Avancei sobre ele, sentindo a fúria que estava armazenada em meu interior finalmente se libertar e, antes que eu pudesse perceber, meu braço estava enterrado na carne de seu abdômen. Meus dedos enfiados em suas entranhas, a centímetros de seu coração.

Acho que não levei em consideração que Lúcifer estava em sua forma humana enquanto eu permanecia em minha forma angelical e mais forte, mas não me preocupei com os ferimentos que eu poderia estar infligindo a ele. Sabia que seu corpo estaria totalmente curado em questão de segundos e, naquele momento, eu queria respostas.

– O que... você está fazendo? – Lúcifer perguntou, com dificuldade, e fiquei verdadeiramente surpreso ao ver um pouco de sangue fluir por seus lábios, quase como se ele estivesse morrendo de verdade.

Nossa forma humana era mais realista do que eu imaginava e me perguntei quantos anjos tinham consciência desse fato. Será que algum deles sabia que era possível não apenas sentir dor, mas também gerar uma nova vida através dela? Eu suspeitava que não. A maior parte dos anjos nem mesmo assumia uma forma humana e, aqueles que assumiam, passavam tão pouco tempo nela que eu duvidada que eles a vissem como algo além de uma casca que lhes permitia se camuflar na terra, mas não era isso que me importava naquele momento.

– Me diga como você a salvou! – exigi aprofundando minha mão um pouco mais dentro do corpo de Lúcifer, fazendo-o soltar um leve arquejo – Me diga como, Lúcifer!

– Necromancia. – ele despejou rapidamente e, mais uma vez, fui tomado pelo choque.

– Você a trouxe de volta dos mortos?! – perguntei, afastando-me subitamente dele.

Eu não sabia muita coisa sobre necromancia, exceto que era uma arte negra e muito perigosa que alguns humanos adeptos do ocultismo gostavam de praticar. No caso dos humanos, a necromancia não era mais que um ritual desagradável, envolvendo restos mortais e livros de satanismo, que nunca chegavam a surtir qualquer efeito no mundo dos mortos realmente. Entretanto, entre os anjos circulava a lenda de que, se fosse executada por criaturas realmente poderosas, a necromancia poderia erguer os mortos de seus túmulos e trazê-los de volta a vida.

Ninguém nunca havia confirmado esse fato, pois tais rituais eram expressamente proibidos e condenados pelo Altíssimo e, por mais que eu soubesse que Lúcifer vivia envolto em trevas desde que havia sido banido para o inferno, jamais imaginei que ele tivesse conhecimento e poder para realizar algo assim.

Finalmente longe de minhas mãos, Lúcifer caiu de joelhos e tossiu, expelindo o sangue se acumulava em sua boca, fazendo uma poça negra se formar aos seus pés. Quando finalmente se recuperou, ele limpou os lábios com as costas das mãos e se colocou novamente de pé, apertando o local que eu havia perfurado em seu abdômen.

– Nunca, nunca mais faça isso de novo, Azrael. – ele ordenou me encarando irritado.

Eu poderia retrucar, mas estava muito ocupado tentando compreender a gravidade das ações de Lúcifer e as consequências que elas poderiam gerar para todos nós. Ao ressuscitar Loren ele havia ultrapassado todos os limites estabelecidos pelo Criador e entrado no mundo perigoso e desconhecido das artes proibidas que nem mesmo Miguel ousava pronunciar em voz alta.

– O que você fez? – levei as mãos ao rosto, preocupado.

– Eu a salvei. – ele se justificou – Não era isso que você queria?

– Você não pode trazer as pessoas de volta dos mortos! – esbravejei – Isso pode afetar todo o equilíbrio cósmico, Lúcifer! Você violou a maior dentre todas as regras do Criador.

– E o que ele vai fazer? – Lúcifer abriu os braços, alterado – Mandar Miguel usar sua espada flamejante e me banir para o inferno? Surpresa, Azrael! Eu já fui banido. As regras do Altíssimo não me influenciam mais.

– Você não pode fazer isso, Lúcifer! Não percebe que vai destruir tudo?!

– Você prefere que eu mate de novo então?!

– Eu preferia que a tivesse deixado morta! – exclamei, mas logo depois me arrependi de minhas palavras.

Eu havia sofrido pela morte de Loren e havia desejado intensamente que ela estivesse viva e, agora que sabia que ela realmente estava, sentia-me um ingrato por desejar que por que ela tivesse morrido de fato.

– Não temos mais que seguir as regras de Nosso Pai, Azrael! – Lúcifer exclamou aproximando-se de mim – Nós podemos criar nosso próprio mundo. Um mundo onde as pessoas que amamos não são assassinadas por tiranos alados por um motivo tão torpe quanto uma gravidez. Um mundo onde podemos ressuscitá-las assim como o Salvador fez com Lázaro e como o próprio Deus fez com Seu Filho. Podemos criar nossas próprias regras.

– Isso é loucura.

– Não é. – ele segurou meus ombros – Podemos fazer isso, irmão. Podemos ter tudo o que quisermos, basta você aceitar. Você não quer que a Loren e o seu filho tenham uma chance de viver e serem felizes ao seu lado?

Fechei os olhos e tentei pensar em tudo aquilo. Era óbvio que eu queria ver Loren viva e feliz, assim como ela era durante sua infância e era óbvio que eu queria que o meu filho tivesse a chance de conhecer o mundo e de fazer parte dele, mas as circunstâncias eram tão completamente erradas!

Lúcifer jamais deveria tê-la ressuscitado, principalmente usando-se de artimanhas tão macabras quanto à necromancia e eu jamais deveria cogitar a possibilidade de ficar feliz com aquilo, mas Loren estava viva! Ela continuava aqui e eu poderia tocá-la mais uma vez e abraçá-la. Quem poderia me culpar por querer isso?

– Ela está segura? – perguntei, sentindo o nervosismo apoderar-se de mim.

Se Miguel decidiu matá-la apenas por ela estar esperando um filho meu, nem sei o que ele faria se descobrisse que Lúcifer a tinha ressuscitado. Provavelmente colocaria este mundo de cabeça para baixo até encontrá-la e, depois, a esquartejaria e enterraria seus membros em países diferentes apenas para ter certeza de que não tentaríamos trazê-la de volta de novo. Era uma visão assustadora demais para suportar.

– Ela está segura. – Lúcifer confirmou – Mas não sei por quanto tempo mais essa segurança irá durar. Miguel provavelmente já suspeita que ela não esteja morta como deveria e não acho que vá demorar muito até ele descobrir a verdade. Ele irá atrás dela novamente, Azrael e, dessa vez, não haverá nada que eu possa fazer para salvá-la.

– Mas você tem um plano, não é? – questionei.

Eu conhecia Lúcifer muito bem para saber, pela simples forma como ele me olhava, que ele já tinha algo planejado. Lúcifer nunca deixava pontas soltas nas coisas que fazia e eu tinha certeza que ele não ressuscitaria Loren apenas para dar a Miguel uma chance de encontrá-la e matá-la novamente.

– Foi por isso que eu vim até aqui hoje. – ele explicou – Não para te contar sobre a Loren, já que seria mais seguro para todos nós se você continuasse acreditando que ela estava morta, pois assim Miguel também se convenceria disso, mas eu vim para pedir que você se juntasse a mim.

– Em que?

– Em meu plano para acabar de vez com a tirania de Miguel. – ele respondeu com um sorriso perverso – Eu planejo matá-lo e quero que você me ajude, Azrael. Se concordar, te entregarei a cabeça dele em uma bandeja de prata antes que as últimas folhas dessas árvores toquem o chão.

Notas finais
Eeeentão... Acredito que muitas perguntas tenham sido respondidas nesses capítulo. Loren está viva ~comemorem~ , mas foi trazida de volta a vida por uma arte proibida muito perigosa realizada por Lúcifer. Com intuito o pai das mentiras fez isso? Que plano é esse que ele tem para acabar com a vida de Miguel? Porque ele precisa da ajuda do Bryan? E mais, Bryan aceitará sua oferta? Essas perguntas que vão ficar para os próximos capítulos. Espero que tenham gostado e espero que tenham muito a dizer nos reviews ^^ Beijos e até a próxima.