Killer

33 Um ou Dois Truques


Notas iniciais
Olá meus anjinhos e anjinhas! Como vocês têm passado? Eu espero que bem. Demorei um pouco para escrever um novo capítulo porque minhas aulas não tem me permitido ter muito tempo livre, mas até que estou melhor que antes, quando eu demorava meses para atualizar, né? Mas chega de conversinha e vamos ao capítulo. Boa leitura!

[Bryan P.O.V.]

Demorei alguns segundos para absorver as palavras de Lúcifer completamente. O que ele estava me propondo era tão absurdo que, por um momento, eu não soube se deveria acusá-lo de insanidade ou simplesmente começar a rir, mas a expressão séria e concentrada com a qual ele me olhava deixou claro que aquilo não era nenhuma brincadeira.

– Então você quer assassinar Miguel? – perguntei apenas porque eu precisava de uma confirmação.

– Eu não quero. – Lúcifer me encarou com firmeza – Eu vou. Entretanto será bem mais fácil fazer isso se você estiver ao meu lado.

– E você percebe que o que está me propondo é uma grande loucura, não percebe?

– É uma loucura? – Lúcifer franziu a testa, mas não pareceu realmente preocupado – Porque acha isso?

– Por quê? – ergui as sobrancelhas como se a resposta fosse óbvia, mas quando ele continuou a me encarar, impassível, percebi que te teria que explicar – Primeiro – disse erguendo um dedo para ele –, nós somos imortais. Não há qualquer maneira no mundo de se matar um anjo, até porque se existisse, você certamente já estaria morto. E, segundo, Miguel é um Arcanjo. Mesmo que você encontrasse uma maneira de matá-lo, você não conseguiria chegar a menos de três metros dele sem que ele o fizesse cair de joelhos. Você sabe.

– Hum. – Lúcifer meneou a cabeça por um momento, como se considerasse minhas afirmações, mas logo voltou a assumir sua habitual expressão de indiferença e deu de ombros – Talvez você esteja certo, mas há muitas coisas nesse jogo que você desconhece?

– Quais? – perguntei, mas Lúcifer apenas depositou uma mão sobre o meu rosto e sorriu.

– Aceite a minha oferta. – ele propôs – Diga que se unirá a mim e, eu prometo, Azrael, todos os meus segredos serão seus.

– Então você assume que está escondendo alguma coisa?

– Ora. – o sorriso em seu rosto se alargou – Que tipo de jogador eu seria se não escondesse um ou dois truques nas mangas?

Lúcifer piscou um de seus olhos vermelhos e eu o encarei, tentando desvendar todas as más intenções que haviam por trás de sua expressão. Ele parecia confiante e eu o conhecia o suficiente para saber que nada de bom poderia resultar daquilo. Seus “um ou dois truques” logo se transformariam em trezentos e, antes mesmo que eu pudesse perceber, eu estaria tão preso a ele quanto um inseto em uma teia de aranha.

Eu não sabia se queria me arriscar assim, entretanto, eu sabia que ele estava certo a respeito de Miguel ser uma ameaça para Loren.

Assim como Lúcifer, Miguel jamais deixava pontas soltas nas coisas que fazia, então, se ele descobrisse que Loren não estava morta como deveria estar, ele certamente iria atrás dela e eu podia até não ser tolo o bastante para me deixar cair nas garras de Lúcifer novamente, mas eu também não era não corajoso o bastante para recusar sua oferta e arriscar a segurança de Loren.

Infelizmente, Lúcifer sabia disso melhor que ninguém.

– Eu quero vê-la. – eu disse antes que pudesse tomar qualquer decisão da qual pudesse me arrepender depois – Me leve até a Loren e eu aceitarei a sua proposta.

– Eu não posso levá-lo até ela.

– Então a minha resposta é não. – respondi com firmeza – Não vou me unir a você se eu não tiver certeza absoluta de que a Loren está viva e bem.

– Eu estou te dando a minha palavra...

– Sua palavra não significa nada para mim. – eu o interrompi – Até onde sei, Loren pode estar morta ou pode, simplesmente, ter enlouquecido por causa do ritual de necromancia que você realizou. Eu sei que isso pode destruir a alma de uma pessoa se não for realizado corretamente e eu não vou me unir a você, em um plano maluco para assassinar Miguel, se não for para garantir a segurança da Loren.

– Se eu te levar até ela, é você quem estará comprometendo a sua segurança. – Lúcifer retrucou irritado, mas não lhe dei atenção.

Eu não confiava nele e só acreditaria que Loren estava bem quando eu a visse com meus próprios olhos. Se ele estava disposto a me dar isso, ótimo. Se não, o problema era todo dele.

– É minha ultima palavra. – concluí e cruzei os braços diante do peito, esperando por sua decisão.

Pareceu passar uma eternidade enquanto Lúcifer me encarava com visível desagrado e ponderava sobre minhas exigências e quando ele, finalmente, respirou fundo e assentiu, eu quase soltei um suspiro de alívio.

– Quero que fique bem claro que eu vou te levar até ela, mas que se alguma coisa ruim acontecer a culpa será inteiramente sua. – Lúcifer me advertiu e eu apenas balancei a cabeça concordando – Ótimo. Fico feliz que tenhamos chegado a um acordo.

Ele me lançou mais um rápido olhar avaliativo e, então, se encaminhou até a borda do terraço e fixou sua atenção no horizonte escuro que estendia a nossa frente.

– O que acha de darmos um pequeno passeio pela Europa, Azrael?

– Europa? – questionei, mas antes mesmo que eu tivesse terminado de pronunciar a palavra, Lúcifer já havia saltado do terraço e aterrissado no chão seco que cercava o Saint Auguste.

– Você vem? – ele perguntou erguendo a cabeça para me encarar com um sorriso provocativo – Não vou esperar a noite toda.

***

Fique feliz em saber que ser banido para o inferno não acabava com alguns dos poderes que eu tinha antes de cair, como voar ou me transportar, rapidamente, de um lugar a outro do planeta.

Quando Lúcifer e eu pousamos num beco escuro e estreito da cidade de Veneza, já passava um pouco da meia noite, mas sendo final de semana e com as temperaturas amenas da primavera européia, ainda havia muita gente nas ruas ou nos Pub’s iluminados e barulhentos, confraternizando com os amigos.

– Se quer minha opinião, essa é uma boa hora para assumir a sua forma humana. – Lúcifer apontou para minhas asas – A maior parte dessas pessoas já está bêbada, mas até eles notariam isso aí.

Fiz como ele sugeriu e assumi minha forma humana, parando para observar enquanto Lúcifer também assumia a sua. Suas asas, que já não eram tão bonitas quanto eu me lembrava, sumiram sob sua pele, mas seus olhos continuaram vermelhos e seus dentes continuaram afiados, o que eu não achei nada normal.

– Porque mesmo depois de assumir a forma humana você continua com essa aparência de demônio? – questionei apontando para seu rosto.

Lúcifer deu de ombros.

– Pergunte a Miguel quando o encontrar. – ele respondeu erguendo uma das mangas de seu sobretudo – Tenho uma teoria de que ele morria de inveja da minha beleza, mas na verdade, eu adoraria saber porque ele me amaldiçoou assim.

– E você não vai chamar atenção, andando pelas ruas desse jeito?

– O que? – Lúcifer parou a comprida unha de seu dedo indicador a milímetros da palma de sua mão esquerda e me encarou – Por acaso você já viu como os jovens dessa geração estão? Eles desfilam por aí com os cabelos tingidos com cores extravagantes, cheios de piercings, tatuagens e lentes de contato negras nos olhos e você está preocupado que eu vá chamar atenção? Azrael, perto desses garotos eu sou uma criatura bem normal e, sinceramente, um dia desses me encontrei com um grupo de adolescentes tão bizarros que cheguei a questionar se eu havia realmente saído do inferno.

Lúcifer sorriu, preenchendo minha visão com uma fileira de dentes pontiagudos e, como eu já tinha visto alguns adolescentes desfilando pelas ruas exatamente da maneira como ele havia descrito, decidi não retrucar.

Sem minha objeção, ele voltou a se concentrar na tarefa que interrompera e, com uma expressão de desconforto, eu o assisti enfiar a unha na carne da palma de sua mão e cortá-la, de cima à baixo, permitindo que um jorro de sangue fluísse por ela. Eu sabia que Lúcifer não sentia dor, mas ainda assim a cena foi desagradável e, ainda por cima, não consegui entender seu objetivo com aquilo.

– O que está fazendo? – perguntei, observando enquanto ele deixava o sangue de sua mão respigar em gotas grossas pelo chão do beco, recitando algumas palavras num idioma que era desconhecido até para mim.

– Estou consultando o mapa. – Lúcifer respondeu e, no instante seguinte, as gotas de seu sangue que estavam espalhadas pelo chão começaram a se juntar e formar um emaranhado de linhas finas que logo reconheci como um pequeno mapa da cidade de Veneza.

Lúcifer parou e observou o desenho por um instante e, enquanto ele o observava, as linhas finas voltaram a se emaranhar para depois se transformarem em duas palavras: “Tolentini e Fontego”.

– Vamos. – ele disse apagando as palavras do chão com a sola do sapato e saindo do beco apressadamente.

Eu o segui de perto, passando por grupos de pessoas que cantavam musicas populares italianas, de braços dados, alguns moradores de rua e dois ou três casais com máquinas fotográficas, fazendo poses perto de cada monumento ou casarão de arquitetura antiga.

Descemos algumas escadas, andamos por ruas estreitas que mais pareciam labirintos e atravessamos pequenas pontes até chegarmos as margens de um canal, onde vários barquinhos de madeira estavam ancorados.

– Rio Dei Tolentini. – murmurei quando li uma placa de madeira gasta acima da entrada do canal e finalmente me dei conta do significado das palavras formadas pelo sangue de Lúcifer – É um ponto de encontro.

No instante em que as palavras saíram de minha boca, uma pequena canoa ancorou na borda do canal e o canoeiro retirou seu chapéu e se inclinou em nossa direção, fazendo uma referência.

Ele não disse uma só palavra, mas Lúcifer e eu retribuímos ao seu gesto com um leve aceno e rapidamente nos acomodamos nos pequenos bancos de madeira que havia em sua canoa. Foi só quando nos afastamos do cais e rumamos para o centro das águas profundas do rio, que percebi que havia algo estranho na postura do canoeiro.

– Ele é humano? – questionei, aproximando-me de Lúcifer para poder manter a voz baixa.

– Teoricamente ele é.

– Como assim teoricamente?

– Ele está possuído. – Lúcifer respondeu simplesmente – Seu corpo é humano, mas quem o está comandando agora é um demônio.

Aquelas palavras me causaram repulsa. Eu já tinha presenciado a possessão outras vezes. A mais recente delas, tinha sido quando o próprio Lúcifer possuiu o corpo do advogado de Loren para, em suas palavras, livrá-la da cadeia, mas ainda assim eu não me sentia a vontade com aquela situação. Eu não conseguia me sentir confortável sabendo que havia uma alma humana gritando dentro de um corpo que, agora, era controlado por um demônio.

– Porque vocês fazem isso? – indaguei – O corpo de um humano é mais frágil e, estando dentro dele, você não pode fazer várias coisas que poderia fazer sendo um anjo ou um demônio, então porque possuí-los? Apenas por crueldade?

– Sei que você pensa que tudo que fazemos é por pura crueldade, Azrael, mas, às vezes, possessão é algo necessário. – Lúcifer explicou voltando-se para mim – Eu já te falei que o inferno é o nosso lar e que ele sempre arranja um jeito de nos arrastar de volta para ele e é verdade. Permanecer dentro do corpo de um humano é a única forma que alguns de nós encontraram de impedir que isso aconteça, pois uma vez lá dentro, o poder que emana do inferno não consegue nos alcançar. Além do mais, Miguel e o Exército quase não conseguem nos perceber quando estamos dentro de um corpo humano, então é bem mais seguro permanecer na superfície desse jeito.

– E quanto aos humanos que morreram ou enlouqueceram ao ter o corpo invadido por um de vocês? – volto a perguntar – Ao longo dos anos eu ouvi várias histórias sobre seres humanos que permaneceram amarrados em suas camas, desnutridos e loucos, passando por sessões de exorcismo praticamente todos os meses apenas por que um dos seus se recusava a deixar o corpo deles. Que utilidade esses humanos tinham?

– Nesse caso, nenhuma. – Lúcifer respondeu sem remorso – Esse tipo de humano geralmente são pessoas tementes a Deus e que só servem mesmo para espalhar o medo pela sociedade, para que as pessoas ouçam sua história de terror e saibam que o inferno existe e que ninguém está a salvo dele. Elas são bem diferentes de humanos como este que está diante de nós agora. Estes aqui não são tementes a Deus e, portanto, são bem mais úteis.

– Do que está falando?

– Você deve saber que todos os demônios que existem no inferno já foram anjos um dia. – ele explica, desviando o olhar para as poucas estrelas que há no céu – Os anjos não podem usar o corpo de um humano a não ser que tenham o consentimento dele e com os demônios não é diferente. É por isso que os humanos tementes a Deus enlouquecem quando tomamos seus corpos. Eles não nos deram permissão de entrar, nós estamos forçando-os a isso e a alma deles resiste, lutando contra nós e isso reflete em seu corpo e em sua mente. Com os humanos cuja alma já está condenada ao inferno as coisas são diferentes. Nós conseguimos usar seus corpos sem sua permissão por que, teoricamente, sua alma já nos pertence. Entendeu?

Eu penso sobre aquilo por um momento, observando os movimentos rítmicos do canoeiro que nos conduz pelo rio estreito e mal iluminado pelas luzes das ruas de Veneza e me pergunto que pecados um simples canoeiro pode ter cometido para que sua alma estivesse condenada ao inferno dessa maneira.

– Qual a história dele? – aponto para o canoeiro, mesmo sabendo que já não é mais ele quem comanda aquele corpo e Lúcifer desvia seu olhar de mim para encarar suas costas.

– Ele se chama Agostino. Era casado com uma mulher mais velha chamada Aurora e tinha uma amante mais nova chamada Giulia.

– Ah. – eu balanço a cabeça compreendendo a história, mas Lúcifer não para por aí.

– Um dia, a mulher dele, Aurora, contratou um detetive para segui-lo, pois suspeitava que ele estava tendo um caso – Lúcifer continua – Ela era herdeira de uma grande companhia de tecidos italiana e os dois tinham um acordo pré-nupcial. Quando descobriu a traição, Aurora ameaçou pedir o divórcio e, com medo de perder todo dinheiro que herdaria dela, Agostino a matou a facadas. Ele e sua amante, armaram toda uma cena para fingir que o assassinato tinha sido fruto de um assalto a residência e se safou da cadeia, mas o que ele não sabia era que sua falecida esposa já tinha entregado as fotos tiradas pelo detetive particular a seu advogado e que ela já o havia retirado de seu testamento. Ele nunca foi condenado pelo crime que cometeu, mas também não ficou com o dinheiro. Então, aqui está ele, trabalhando como canoeiro pelas ruas de Veneza, sem esposa, sem amante e dormindo na sala de estar de sua irmã mais nova. Seus pecados? Luxúria, soberba e violência. Ainda não decidi para que círculo vou mandá-lo depois que ele morrer.

Lúcifer terminou sua explicação e meus olhos continuaram cravados nas costas do canoeiro. Segundos antes eu estava sentindo pena dele por estar sendo possuído por um demônio, mas agora eu já o achava pior que o demônio que o habitava.

A canoa continuou seguindo o curso do rio até atracar em um cais num dos subúrbios da cidade. Eu e Lúcifer desembarcamos e com mais uma reverência o canoeiro-barra-demônio voltou ao rio para fazer seu trabalho.

As placas indicavam que estávamos na entrada de uma rua chamada Calle Rennier e depois de passar por algumas paredes velhas e pichadas, nós adentramos em uma praça movimentada onde havia alguns quiosques e camelôs.

Parecia estar havendo algum tipo de comemoração, porque havia um grupo de homens tocando violão e cantando animados no centro da praça enquanto as pessoas a sua volta dançavam e conversavam alegremente.

Olhei em volta, para os enfeites de bandeiras e fitas amarrados com barbantes nas arvores e nos quiosque e para as toalhas e lençóis estendidos em algumas janelas e foi então que notei uma pequena placa branca com letras pretas, pendurada ao lado de um beco que dizia: “Corte Del Fontego”.

– Aqui estamos nós. – Lúcifer anunciou seguindo em direção ao beco e fazendo sinal para que o acompanhasse.

Uma menina que não devia ter mais que quinze anos, trajando um vestido negro e curto, nos aguardava do outro lado e, da mesma forma que o canoeiro, ela fez uma reverência assim que nos aproximamos.

– Estamos contentes com a sua vinda, Milord. – ela olhou rapidamente para Lúcifer e depois se voltou para mim – A garota e o menino também ficarão felizes em vê-lo, General.

– Menino? – olhei para Lúcifer pedindo uma explicação, mas ele apenas retribuiu ao meu olhar e sorriu.

– Um ou dois truques. – lembrou-me – Eu disse que era um bom jogador.

Notas finais
Bem, galerinha, é isso. Espero que tenham gostado do capítulo e que estejam curiosos para saber que tramoia é essa que Lúcifer estar armando. Vejo vocês no próximo capítulo que ainda não sei quando irei postar, pois como já disse antes, estou um pouco sem tempo, mas assim que possível voltarei a atualizar a fic. Beijos e mais beijos!