Killer

38 Entre Pais e Filhos


Notas iniciais
Helloooo, Sei que está tarde, mas sim, eu vim postar um novo capítulo. Agradeço a todos que ainda estão acompanhando e espero que gostem desse capítulo. Boa leitura.

[Bryan P.O.V.]

Nas semanas que se seguiram, Andras e eu trabalhamos incessantemente. Ele me mostrou alguns de seus planos de batalha e eu os aperfeiçoei de acordo com o que julguei adequado, baseando-me em todos os detalhes ou estratégias das quais eu me lembrava dos meus dias como Primeiro Capitão d’O Exército. Também criei algumas estratégias eu mesmo e, algumas delas eu compartilhei com Andras e, outras, não, pois decidi guarda-las como um plano B para o caso de Lúcifer decidir me trair.

Tive algumas aulas com Belfegor, principalmente sobre as Armas Negras que teríamos que utilizar contra Miguel e seus soldados e ensinei algumas técnicas de combate para as legiões de Lilith, Astaroth, Belzebu e Leviatã, mas Mammon se negou a participar delas e Astaroth teve que repassar tudo a ele depois. Ao que parecia, ele ainda se recusava a acatar qualquer tipo de ordem que partisse de mim.

Nesse meio tempo, Lúcifer e eu nos encontramos apenas algumas vezes e, em geral, apenas para discutir a evolução de meu trabalho com Andras. Ele continuava insistindo que eu deveria encontrar um ponto fraco em Miguel, mas eu não via com isso seria possível e, provavelmente, Lúcifer também não.

Os dias seguiram repletos de treinamentos de combate, criação e aperfeiçoamento de planos de batalha e debates sem fim sobre a capacidade bélica de Miguel e seus aliados, mas quanto mais os planos tomavam forma diante de nós, mais perguntas não respondidas eu tinha.

Como colocaríamos esses planos em ação? Miguel viria até nós ou nós iríamos até ele? Como faríamos para chegar até a Árvore da Vida no Sétimo Céu? Que tipo de truques usaríamos para burlar o poder desorientador do oceano que havia entre a Armada Celestial e o Éden? E, acima de tudo isso, onde estava o Altíssimo enquanto seus filhos se preparavam para uma guerra que poderia terminar com a aniquilação de todos nós?

Andras dizia que Lúcifer tinha todas essas respostas, mas ele não compartilhava nenhuma delas comigo e, depois de servir como uma peça de seu exército durante tantas semanas, eu me senti no direito de fazer algumas exigências.

Deixei Andras sozinho no Sétimo Círculo e me dirigi até a prisão rochosa de Lúcifer, disposto a arrancar dele algumas respostas, mas fui surpreendido quando cheguei ao Nono Círculo e ele me recebeu, de braços abertos e com um enorme sorriso no rosto.

– Azrael, que bom que veio. – ele me cumprimentou – Eu estava, justamente, indo procurar por você.

– Estava? – perguntei confuso e Lúcifer assentiu.

– Você trabalhou duro nas últimas semanas. Creio que avançamos bastante em nossos planos de guerra, então, acho que está na hora de tirarmos uma folga. – ele explicou – Preciso ir até Veneza para discutir algumas coisas com Lisandra e adoraria que viesse comigo. Loren e Jonah devem estar sentindo sua falta e acho que vê-los faria muito bem a você.

A felicidade brotou dentro de mim como um rio de águas frescas e cristalinas, tão intensa que eu até me esqueci de todas as perguntas que eu tinha para fazer. Fazia tanto tempo que eu não via Loren e Jonah que a mínima menção ao nome deles já me deixava eufórico. Entusiasmado, assenti para Lúcifer, concordando com a proposta e ele se aproximou de mim, pousando uma mão em meu ombro, satisfeito.

– Ótimo. Se não tiver mais nenhuma atividade programada para hoje, podemos ir agora mesmo. – propôs.

– Podemos? – Lúcifer assentiu e não consegui reprimir o sorriso radiante que surgiu em meus lábios – Seria perfeito.

– Então, não vamos perder mais tempo. Lidere o caminho. Já sabe onde fica a saída. – disse ele, enquanto me guiava para fora de seu castelo de pedras.

Refizemos praticamente o mesmo caminho que havíamos feito da última vez. Passamos pelo Círculo da Luxúria e atravessamos o portal que continuava sendo guardado por Cerberus, a enorme fera de três cabeças de Lilith, mas ao invés de sairmos perto do cemitério onde o corpo de Loren supostamente havia sido enterrado, acabamos sendo enviados para o mesmo beco onde havíamos nos encontrado em Veneza.

– O que aconteceu? – perguntei olhando ao redor, sem entender – Não deveríamos estar perto daquela igreja?

– Você queria ir à igreja? – Lúcifer perguntou calmamente – Se queria, não deveria ter desejado vir até aqui.

– Mas eu não desejei.

Lúcifer se voltou para mim.

– Uma curiosidade sobre os portais do inferno, Azrael. – ele disse com a convicção de um professor bem instruído – Eles sempre te levam aonde o seu coração desejar ir.

– Não me lembro de ter desejado ir até aquela igreja da última vez que saímos.

– Não. – ele ergueu um dedo para mim e sorriu – Mas você provavelmente desejou encontrar a Loren e foi para lá que o portal nos levou.

– Mas isso não faz sentido. – franzi as sobrancelhas – Se o portal nos leva aonde desejamos ir e eu havia desejado encontrar a Loren, ele não deveria ter nos trazido até aqui ao invés de nos levar até aquele cemitério, já que a Loren não estava realmente enterrada lá?

– Como eu disse antes, o portal te leva aonde o seu coração deseja ir. Naquela ocasião, você acreditava que a Loren estava morta, logo, quando você desejou encontra-la, foi para lá que o portal o levou porque, supostamente, era lá que o corpo da Loren seria enterrado. Agora, porém, você sabe que a Loren está viva e sabe que é aqui que ela está, então, quando desejou encontra-la, foi para cá que o portal nos trouxe. Entendeu?

– Entendi. – assenti vagamente, ainda devaneando sobre os poderes incríveis daqueles portais, enquanto Lúcifer nos guiava até o rio, onde havíamos pegado a canoa para chegar à Corte Del Fontego da última vez.

As ruas de Veneza estavam escuras e silenciosas, bem diferente do ambiente festivo e animado que encontramos na visita anterior, o que devia significar que aquele era um dia útil, mas eu não sabia exatamente qual, já que a passagem do tempo no Inferno, assim como no Paraíso, não era como a passagem do tempo na Terra.

O canoeiro que nos levou através do canal ainda era o mesmo canoeiro-demônio da última vez e, quando chegamos à entrada da Corte Del Fontego, Tábita estava lá, mais uma vez, para nos receber e nos levar até o apartamento.

O lugar não parecia ter mudado nada. As paredes em tons pastéis continuavam exatamente iguais ao que eu me lembrava, assim como as venezianas de madeira e os móveis antigos. A única mudança que consegui identificar foi uma pilha de brinquedos num canto da sala e, automaticamente, senti um sorriso se formar em meus lábios. Aqueles brinquedos com certeza pertenciam a Jonah.

– Ele cresceu bastante. – Tábita disse ao notar meu sorriso – Lisandra e Loren estão com ele no quarto, tentando convencê-lo a dormir, mas essa tarefa tem se tornado cada vez mais difícil. – ela suspirou e fechou a porta – Vou avisá-las que estão aqui. Fiquem a vontade. – fez uma reverência e saiu.

Caminhei até o centro da sala e me abaixei, rapidamente, para pegar o pequeno vagão colorido de um trenzinho feito de plástico que havia sido largado aos pés do sofá. Eu nunca tinha segurado um brinquedo antes, mas fiquei imaginando como ele devia ficar nas mãozinhas de Jonah, sempre que ele brincava com aquilo.

– Está preparado para vê-lo? – Lúcifer perguntou observando cada um dos meus movimentos – Ele deve ter crescido bastante desde a última vez que você o viu.

– Imagino que sim. – dei uma última olhada no vagão colorido e o depositei sobre uma das prateleiras da estante – Você disse que ele cresceria rápido.

– Sim, eu disse. – ele confirmou e, nesse momento, ouvimos passos apressados ecoarem pelo corredor e nos viramos em sua direção.

Lisandra foi a primeira a entrar na sala e fez uma rápida reverência para Lúcifer e para mim, mas eu mal reparei nisso quando Loren entrou na sala, vestindo um longo robe de seda branco.

Ela estava linda. O robe de seda acentuava as curvas de seu corpo bem esculpido e seus longos cabelos castanhos caíam sobre os ombros como um véu, mas pela primeira vez o meu olhar não estava dirigido a ela. Toda a minha atenção estava voltada para o garoto que ela segurava em seus braços.

Da última vez que o vi, Jonah era apenas um bebê. Seu corpo rechonchudo e pequeno cabia nos braços de Loren sem qualquer esforço e seus olhos passavam mais tempo fechados que abertos, mas o garoto diante de mim agora tinha grandes olhos azuis profundos e aparentava ter cerca 18 meses de idade. Seu cabelo negro, que antes cobria sua cabeça quase como uma penugem, estava maior e lhe caía um pouco sobre a testa e, em sua mão direita, ele segurava um pequeno cachorrinho de pelúcia marrom, enquanto mantinha o braço esquerdo enroscado ao redor do pescoço de Loren.

Assim que seus olhos azuis encontraram os meus e os de Lúcifer na sala, suas sobrancelhas finas se franziram e ele desenroscou o braço do pescoço de Loren e apontou para nós.

– Qué?

O olhar de Loren encontrou o meu e acho que a minha expressão devia ser de total surpresa, porque ela sorriu e, depois, olhou novamente para o rosto pensativo de Jonah e disse:

– Esse é o papai.

– Papa? – Jonah perguntou e ela assentiu calmamente.

Os olhos dele se voltaram novamente para mim, analisando-me como se estivesse se perguntando o que exatamente era um pai e eu senti o ar me faltar no mesmo instante. Ele era tão lindo, tão... perfeito. Era como se Deus tivesse juntado as melhores partes de Loren e de mim, em um novo ser, e precisei me esforçar para controlar minhas emoções e não cair de joelhos aos pés dele naquele momento.

– Vamos deixá-los sozinhos. – ouvi Lúcifer sussurrar às minhas costas, mas não consegui desviar os meus olhos de Jonah para olhar para ele, nem mesmo quando ele tocou o meu ombro, em um gesto de incentivo, antes de seguir Lisandra para fora da sala.

Eu devia parecer a criatura mais patética do universo, enquanto encarava os olhos azuis de Jonah daquele jeito, mas eu simplesmente não conseguia evitar. Eu estava completamente encantado. Ele havia crescido tanto em tão pouco tempo, quase não lembrava o bebê frágil e pequeno que eu tinha visto antes e eu não conseguia para de olhar para ele.

Loren se aproximou de mim e Jonah soltou o urso de pelúcia que segurava para estender as duas mãos para mim e tocar o meu rosto, segurando-o entres as palmas.

– Papa. – repetiu e o toque de suas mãozinhas macias em meu rosto foi o suficiente para levar um sorriso emocionado aos meus lábios.

– Oi, Jonah. – sussurrei.

Ele sorriu e inclinou a cabeça para o lado com se estivesse tentando me observar melhor e depois começou a se retorcer nos braços de Loren, estendendo seus pequenos bracinhos em minha direção.

– Acho que ele quer que você o segure. – ela disse sorrindo e, rapidamente, como se eu tivesse acabado de ser libertado de um feitiço de imobilidade, estendi os braços para ele e o peguei do colo de Loren.

Assim que estava em meus braços, Jonah cutucou minha bochecha com o dedo indicador e depois riu, escondendo o rosto na curva de meu pescoço. Sua pele era macia e quente e tinha um cheiro doce e suave assim como sua respiração, que eu podia sentir contra a pele de meu ombro.

– Ele gosta de você. – Loren disse com os olhos brilhando de emoção, enquanto observava Jonah em meus braços – Normalmente ele não se joga assim nas pessoas. Acho que ele nunca deixou Tábita segurá-lo.

– Ele é lindo. – foi tudo o que eu consegui dizer, enquanto Jonah cutucava minha bochecha mais uma vez e, novamente, caía na risada.

A sensação de tê-lo em meus braços era a coisa mais incrível que eu já tinha sentido em toda a minha existência. Achei que nada poderia superar a noite que passei com Loren no Saint Auguste, mas a forma como Jonah se encaixava perfeitamente em meus braços e a forma como sua risada suave ecoava em meu ouvido era a coisa mais perfeita que já tinha acontecido comigo até o momento.

– Oi, garotão. – eu disse segurando-o com mais firmeza e trazendo-o para diante de meus olhos – Você é lindo, sabia? Eu e a sua mãe não poderíamos ter feito nada mais perfeito que você.

– Mãe. – ele repetiu apontando para Loren, como se para mostrar que entendia o que eu estava dizendo – De pé cinco.

Olhei para Loren, erguendo uma sobrancelha de maneira interrogativa e ela riu.

– Ele está dizendo que estou de pé desde às cinco. – explicou – Eu estava reclamando sobre isso com ele há alguns minutos. Ele acorda muito cedo e, depois, não deixa ninguém mais dormir. Está me deixando exausta.

– Não dormir. – Jonah sacudiu a cabeça com veemência e, dessa vez, tanto eu quanto Loren rimos.

– Isso mesmo. – ela afirmou – Você não me deixa dormir.

Contagiado por nossas risadas, Jonah também abriu um largo sorriso revelando uma fileira de dentes de leite recém adquiridos e as covinhas que surgiram em suas bochechas o tornaram ainda mais apaixonante.

Em meio as risada, seus olhos azuis intensos encontraram o vagão colorido que eu havia colocado sobre a estante e, imediatamente, ele se agitou em meus braços.

– Trenzinho. – gritou, estendendo os braços para tentar alcançá-lo – Trenzinho.

– Você quer brincar com aquilo? – perguntei e ele assentiu empolgado, então o levei até a estante e deixei que ele pegasse o brinquedo.

– Choo-Choo! – Jonah exclamou fingindo puxar uma corda invisível e o sorriso em meu rosto se alargou.

– Você é muito esperto. – apertei uma de suas bochechas e ele se concentrou em brincar com o pequeno vagão, fingindo que o conduzia através de trilhos inexistentes.

Com a atenção de Jonah concentrada no brinquedo, voltei-me para Loren e, mais uma vez, a encontrei olhando para nós com a emoção transbordando de seus olhos.

– Eu senti sua falta. – proclamei, aproximando-me para abraçá-la um pouco sem jeito, já que ainda estava com Jonah em meus braços.

– Senti sua falta também. – ela beijou meus lábios brevemente e depois sorriu, mas o sorriso logo se apagou de seu rosto e foi substituído por uma expressão preocupada – Está tudo bem com você? Não está correndo nenhum perigo lá no...?

Ela não terminou a frase, mas eu entendi exatamente o que queria dizer e toquei seu rosto, tentando reconfortá-la.

– Está tudo bem. – respondi – Não é o lugar mais agradável onde já estive e nem tem as melhores para se conviver, mas estou bem. Estou... Trabalhando com Lúcifer em uma coisa.

– Que coisa? – seus olhos estavam alarmados e eu podia sentir o medo fluindo de seu corpo em ondas palpáveis.

Assim como eu, Loren também não confiava em Lúcifer e eu lhe dava total apoio para continuar assim. Mesmo que ele tivesse salvado a vida dela e a de Jonah, Lúcifer era uma criatura traiçoeira e quanto mais preparada ela estivesse para uma possível traição por parte dele, menos risco corria de ser pega de surpresa.

– Podemos conversar no seu quarto? – pedi – Eu tenho muitas coisas para te contar e vai ser melhor fazer isso em um lugar mais confortável.

– Tudo bem. – ela assentiu vagamente – Quem sabe você não consegue convencer o Jonah a ir para cama. Eu passei quase uma hora contando histórias para ele e dizendo que ele precisava dormir, mas a energia dele parece que não acaba nunca. Acho que ele deve ter puxado isso de você. Deve ser alguma coisa de anjo.

Loren abriu um breve sorriso e se virou para voltar para o quarto e eu olhei para Jonah rapidamente, avaliando-o. Lúcifer disse que alguns nefilins possuíam dons assim como nós e eu me perguntava se Loren estava certa quanto a sua energia inesgotável ser um deles. Até o momento ele me parecia igual a qualquer criança humana da sua idade – exceto, é claro, pelo fato de que, teoricamente, ele tinha apenas um mês de idade e pelo fato de que seu parto havia sido induzido por um ritual desconhecido realizado por Lúcifer. Fora isso ele parecia perfeitamente normal.

– Vem, – disse para ele – Vamos brincar no quarto da mamãe.

Durante as duas horas que se seguiram, contei a Loren tudo sobre minha aliança com Lúcifer, sobre seu plano para matar Miguel e sobre tudo o que tínhamos feito nas últimas semanas. Também tentei explicar a ela como as coisas funcionavam no inferno, falando sobre os Sete Lordes e explicando as características de cada um deles e as características dos círculos que eles comandavam.

Loren ficou realmente preocupada quando mencionei meu pequeno desentendimento com Mammon e insistiu para que eu tomasse muito cuidado por lá e, claro, eu prometi que faria isso e aproveitei para pedir que ela ficasse atenta a qualquer coisa em Veneza. Lúcifer parecia estar do nosso lado agora, mas nunca era bom confiar plenamente nele e eu queria que Loren ficasse alerta e que não abaixasse a guarda com Lisandra, Brigitte e Tábita, pois apesar de elas estarem cuidando bem dela, as três ainda trabalhavam para Lúcifer e qualquer um que fosse aliado dele se tornava suspeito

Ela me prometeu que tomaria cuidado, tanto por ela quanto por Jonah e, depois de toda essa conversa tensa sobre anjos, demônios e guerras, pedi que ela me contasse sobre como tinha sido seu último mês com Jonah. Ao que parecia ela não tinha se assustado com seu surto de desenvolvimento, pois Lisandra já a havia alertado sobre essa característica incomum dos nefilins e era possível sentir, em cada uma das palavras de Loren, o quanto ela estava contente por ter Jonah em sua vida, ainda que ele não a deixasse dormir direito.

Durante toda a nossa conversa, Jonah se manteve ocupado com seus brinquedos no chão. Algumas vezes pegava algum deles e ia até mim para mostrar o brinquedo e falar sobre suas características. Ele estava numa fase em que conseguia formular apenas frases curtas, com algumas palavras, mas depois de algum tempo ouvindo-o, acho que adquiri a habilidade compreender seu idioma de bebê e já não precisei mais das intervenções de Loren como intérprete.

Um pouco antes de Lúcifer me chamar para irmos embora, Loren se deitou em meus braços na cama e não demorou muito até que ela adormecesse. O ressoar baixo de sua respiração preencheu o quarto, enquanto Jonah continuava brincando a todo a vapor no chão e percebi que Loren tinha razão quanto a energia dele não acabar.

Ele tinha acordado às cinco da manhã naquele dia e já estávamos próximos das três da manhã agora, mas ele ainda estava tão desperto quanto qualquer criança estaria depois de uma ótima noite de sono, só que ele já estava acordado há vinte e duas horas.

Desvencilhei do abraço de Loren, que apenas se remexeu durante um segundo na cama, antes de voltar a dormir profundamente e fui até Jonah no centro do quarto. Ele estava montando um castelo com algumas peças de lego e a construção me pareceu bastante elaborada para uma criança de 18 meses.

– Está na hora de dormir, garotão. – sussurrei abaixando-me ao lado dele, para ficar a altura de seus olhos.

– Não quer. – ele respondeu, concentrando-se nas peças de lego multicoloridas a sua frente – Gosta vermelho?

– Gosto, mas está na hora de parar de brincar. – peguei a peça de suas mãos e apontei para Loren na cama – Sua mãe já está dormindo e você precisa deixá-la descansar. Ela não é como você e eu. Ela se cansa rápido.

Ele olhou para Loren, seus grandes olhos azuis repletos de ternura e, depois de um breve momento encarando-a, soltou as peças de lego e se levantou.

– Dormir. – disse e caminhou apressadamente até a cama, onde eu o ajudei a subir e se ajeitar embaixo das cobertas ao lado de Loren – Você vem?

– Não. – sacudi a cabeça levemente e depositei um beijo em sua testa – Eu preciso ir embora agora, mas você vai cuidar da sua mãe quando eu não estiver aqui, não é? Vai deixá-la descansar e vai se comportar?

Ele assentiu levemente e ergueu a mão para tocar o meu rosto.

– Volta? – perguntou e eu senti um nó se formar em minha garganta, porque aquilo era exatamente o que Loren me perguntava sempre que eu precisava deixá-la e eu sempre prometia a ela que voltaria, mas eu cheguei tarde uma vez e a simples recordação daquela noite tocava fundo na minha alma.

Pensar em deixá-los agora, sem saber o que aconteceria no futuro, sem saber se Miguel os encontraria antes que eu e Lúcifer pudéssemos detê-lo, me causava uma dor tanto emocional quanto física. Jonah e Loren eram as coisas mais importantes no universo para mim e eu não podia suportar a ideia de que algo ruim pudesse acontecer com eles em algum momento.

Forçando-me a esquecer tudo aquilo e pensar apenas em coisas boas, depositei minha mão sobre a Jonah e olhei no fundo de seus olhos azuis.

– Eu volto. – garanti – Até lá cuide da sua mãe por mim, tudo bem?

Mais uma vez ele assentiu e quase perdi o fôlego quando suas pupilas se dilataram e o azul em seus olhos ficou completamente tomado pelo negro. Durou apenas um segundo, mas eu reconheci aquela característica peculiar, porque era exatamente igual ao que sempre acontecia comigo quando eu usava os meus dons ou quando estava concentrado em alguma missão.

Eu não sabia o que o futuro reservava para Jonah ou que tipo de dons ele teria, mas se essas coisas já estavam se manifestando tão cedo, acho que poderíamos esperar grandes feitos dele.

Soltei sua mão e me coloquei de pé, afastando-me da cama e seguindo para a porta.

– Você é um bom garoto, Jonah. – sussurrei para ele – Nunca se esqueça disso.

Saí do quarto, fechei a porta e fui ao encontro de Lúcifer na sala. A volta para o Inferno através do portal do Triângulo das Bermudas foi tão ruim quanto da primeira vez, mas pelo menos dessa vez eu estava mais preparado para enfrentar o poder daquele portal.

Lúcifer não falou muito durante nossa viagem e eu também não tentei puxar assunto. Toda a minha mente estava concentrada em Loren e Jonah e em tudo o que eles significavam para mim. Só o que eu queria era acabar logo com essa guerra para poder voltar para junto dos dois e, finalmente, podermos viver tranquilamente. Eles mereciam uma vida maravilhosa e feliz e eu não descansaria até dar isso a eles. Não importa o que custasse.

Notas finais
Bem, galera, espero que tenham gostado do capítulo, principalmente desse encontro do Bryan com o Jonah e espero que estejam gostando do Jonah também. Ele vai ter uma participação muito legal nessa história e eu espero que curtam o que preparei tanto para ele quanto para a Killer no geral. Obrigada por lerem e comentarem e vejo vocês em breve. Beijos e até o próximo capítulo.