Killer

39 Crescendo


Notas iniciais
Olá, Finalmente consegui terminar o capítulo 39 e espero que vocês gostem. Nesse capítulo, vamos dar um pequeno salto no tempo e também vamos observar as coisas pelos olhos da Loren

[Loren P.O.V.]

Jonah estava crescendo rápido. Há pouco mais de cinco meses eu podia segurá-lo em meus braços com facilidade e, agora, ele já corria pela casa, brincava, estudava e até ajudava Tábita, Brigitte e Lisandra em algumas tarefas domésticas, como um ser humano completamente desenvolvido e independente.

Ele aprendia em semanas o que um adulto normal demoraria meses ou até anos para aprender e eu sempre me surpreendia com o quanto ele crescia e evoluía a cada mês. O bebê que eu havia segurando em meus braços tão pouco tempo atrás, agora, era apenas uma mera lembrança em minha mente e, quanto mais os dias se passavam, mais parecido com Bryan Jonah ficava.

Eu podia ver as semelhanças que ele tinha com o pai, não apenas em sua aparência física, mas também em seus trejeitos. Ele andava, falava e até franzia as sobrancelhas da mesma forma que Bryan fazia e, quando os dois estavam juntos, era quase como se Jonah fosse sua sombra.

Bryan não nos visitava com muita frequência, mas sempre que ele aparecia Jonah não desgrudava de seu pé e sempre tinha milhões de novidades para lhe contar. Era até engraçado ver como os dois se relacionavam tão bem ainda que quase não se vissem, mas, sempre que Bryan ia embora, Jonah acabava ficando deprimido por alguns dias e, no último mês, isso tinha se tornado ainda mais frequente.

Ele passava horas sentado na janela, observando as outras crianças da Corte Del Fontego brincarem no pátio e sempre estava nos perguntando porque ele não podia sair para brincar com elas, mas dizer que era porque ele era um garoto especial e que as outras crianças não o compreenderiam já não estava funcionando mais.

Apesar de ser um nefilim, Jonah também era apenas uma criança e, como qualquer criança, ele queria sair para explorar o mundo, brincar e fazer amigos e eu entendia essa sua necessidade de se conectar, mas também sabia que não havia como nós explicarmos aos outros moradores daquela vila o fato de que Jonah evoluía mais depressa que qualquer outra criança e de que ele crescia, em um mês, o que elas levariam um ano para crescer. Deixá-lo sair seria arriscado demais.

– Jonah, está na hora da sua lição. – Brigitte o chamou, depositando uma verdadeira montanha de livros e cadernos sobre a pequena mesa no canto da sala.

Ela vinha lhe dando aulas de italiano desde que percebera que as matérias básicas como Matemática, Ciências, Inglês e História não estavam sendo suficientes para mantê-lo ocupado e Jonah, por sua vez, parecia estar genuinamente interessado em suas aulas. Ele gostava muito de aprender coisas novas e, às vezes, eu ainda me surpreendia com o fato de ele reter tanto conhecimento mesmo aparentando ter apenas cinco anos, mas, aos poucos, estava me acostumando com isso.

– Posso aprender francês hoje? – ele perguntou, saindo do quarto com um grande atlas nas mãos.

Geografia era sua matéria favorita e, agora, as paredes de nosso pequeno quarto estavam praticamente cobertas por mapas e recortes de revista com fotos de vários pontos turísticos ao redor do mundo que Jonah dizia que adoraria conhecer.

– Você pode aprender francês quando terminar de aprender italiano. – Brigitte deu dois tapinhas na cadeira a sua frente pedindo que ele se sentasse.

– Mas eu já sei italiano. – ele respondeu mais concentrado nos mapas em suas mãos do que nela – Li o dicionário e a gramática que você me deu e estudei aquele livro de conversão inteirinho.

– Quando foi que você fez tudo isso? – baixei o pequeno livro de sonetos que eu estava lendo e olhei para ele – Quando eu te coloquei na cama ontem você estava lendo O Pequeno Príncipe¹.

– Eu li depois. – ele deu de ombros e eu fechei meu livro, depositando-o sobre uma das almofadas do sofá.

– Jonah, achei que nós já tínhamos combinado que quando eu te colocasse na cama você deveria ficar lá. Não gosto de você perambulando pelo apartamento de madrugada.

– Mas eu não estava com sono. – ele reclamou, desviando os olhos do atlas que segurava pela primeira vez – E o papai disse que eu se não acordar você posso ficar lendo na sala.

– Não a noite inteira, Jonah. Você precisa dormir em algum momento.

– Eu dormi de manhã.

– Durante uma hora e meia, apenas. – reclamei – Isso não é dormir.

– É suficiente para mim. – ele respondeu e eu reprimi minha vontade de continuar discutindo, quando Brigitte tocou minha mão.

– O corpo dele é diferente do seu. – ela me lembrou – Tenha um pouco de paciência. – então se voltou para Jonah e, mais uma vez, tocou o assento da cadeira a sua frente – Venha, vamos começar a lição de hoje.

– Eu já sei italiano. – ele disse novamente – Me ensine francês agora.

– Você só leu o dicionário e a gramática, Jonah. Isso não significa que em uma noite você já tenha aprendido...

– Credo di aver imparato abbastanza e credo che il mio italiano è molto buono. Per favore mi insegnare il francese ora. Mi piacerebbe saperne di più. – Jonah disse com convicção e eu e Brigitte olhamos uma para a outra, chocadas.

Eu não entendi uma única palavra do que ele disse, mas acho que suas frases devem ter feito sentido para ela, pois, imediatamente, ela começou a recolher os livros que havia depositado sobre a mesa e se colocou de pé.

– Vou ver se acho algum material de francês. – disse calmamente – Enquanto isso, guarde o atlas e procure algumas curiosidades sobre a França naquelas enciclopédias. Vou te fazer perguntas sobre isso quando eu voltar.

Brigitte desapareceu pelo corredor e, ainda surpresa, eu voltei a abrir meu livro de sonetos, mas Jonah apenas pegou uma maçã da fruteira ali perto e continuou exatamente onde estava.

– Não vai fazer o que a Brigitte pediu? – perguntei e ele caminhou até o sofá e se sentou ao meu lado, retirando os chinelos para poder acomodar os pés sob o corpo.

– Já li as enciclopédias. – deu de ombros e continuou estudando seu atlas enquanto devorava a maçã.

***

Dizer que o francês de Jonah havia evoluído, em pouco mais de três horas, o que eu levaria pelo menos um mês para aprender em um curso intensivo, era estar agindo com bastante modéstia. O cérebro dele era como um computador para armazenar informações e eu fiz uma anotação mental de perguntar a Bryan, da próxima vez que eu o visse, se ele também aprendia as coisas com tanta rapidez assim ou se isso era uma característica exclusiva dos nefilins.

Ajudei Lisandra a fazer o jantar, enquanto Tábita se ocupava substituindo as roupas que já não serviam mais em Jonah por outras que ela havia comprado naquela tarde e, quando a aula de francês que ele estava tendo com Brigitte finalmente terminou, pedi que ele guardasse seus novos livros na pequena estante de nosso quarto e enchi a banheira cor de cobre e de aparência vitoriana que tínhamos no banheiro com água quente.

Como os apartamentos na Corte Del Fontego eram antigos e as torneiras só possuíam água fria, eu precisava esquentar alguns baldes de água no fogão e usá-los para aquecer o restante da água quando ia dar banho em Jonah. Ele poderia tomar banho no chuveiro, mas eu gostava de passar esse tempo com ele e gostava das batalhas navais que, às vezes, nós encenávamos com seus brinquedos e alguns barquinhos de papel, então o esforço valia a pena. Além disso, tomar banho sozinho era uma das poucas coisas que Jonah ainda não fazia e o meu instinto materno, que ainda não tinha superado o fato de que ele não precisava mais de mim para fazer a maior parte das coisas, praticamente gritava para que eu estendesse essa nossa relação mãe e filho o máximo que eu pudesse.

– Jonah, o banho está pronto. – gritei enquanto colocava o último balde de água quente na banheira e verificava se sua temperatura estava boa – Não se esqueça de trazer sua toalha.

– Não esqueci. – ele apareceu na porta do banheiro, segurando sua toalha azul e felpuda em uma mão e seu kit de brinquedos “da hora do banho” em outra – Posso assistir a um filme depois do jantar?

– Depende do filme. – me afastei da banheira e peguei a toalha de suas mãos, pendurando-a atrás da porta, antes de ajudá-lo a se despir.

– Vai passar O Fabuloso Destino de Amelie Poulain² hoje às dez horas. – ele explicou e sua voz soou abafada pela camiseta que eu tentava tirar por sua cabeça – Eu queria ver.

– Dez horas? – ele assentiu e eu o coloquei na banheira, despejando seus brinquedos lá dentro – Se você comer todos os legumes eu posso pensar em te deixar assistir.

– Mas hoje o jantar é macarrão. – ele franziu as sobrancelhas da mesma maneira que eu já tinha visto Bryan fazer tantas vezes – Não tem legumes.

– Ótimo. Então, isso significa que você poderá assistir.

O sorriso que inundou os lábios de Jonah foi tão genuíno que eu quase o tirei da banheira só para poder envolvê-lo em meus braços, mas ao invés disso apenas apertei uma de suas bochechas coradas e comecei a ensaboá-lo.

Ele passou a maior parte do banho encenando uma guerra com navios afundando para todos os lados ou sendo engolidos por incríveis monstros marinhos e quando eu finalmente terminei de enxaguá-lo e o enrolei em sua toalha, nós recolhemos todos os seus brinquedos e deixamos que a água da banheira escoasse.

– Quando é que papai vai voltar? – Jonah perguntou de repente e eu senti o meu coração se apertar porque, na verdade, eu nunca sabia quando Bryan apareceria e doía ver Jonah esperando por ele com tanto afinco.

– Ele vai voltar quando puder. – desconversei e o guiei de volta para o quarto – O que quer vestir hoje?

– Qualquer coisa. – ele deu de ombros, desanimado e se sentou na cama – Queria que ele ficasse por mais tempo.

Terminei de pegar um conjunto de roupas para ele no armário e me sentei ao seu lado.

– Seu pai também queria ficar mais tempo com você, mas infelizmente ele não pode fazer isso agora. Ele tem muitas coias para fazer, Jonah. Muito trabalho. Mas quando isso terminar tenho certeza que vocês poderão ficar muito tempo juntos.

– E eu vou poder sair daqui? – ele vestiu a roupa e se aproximou da janela, enquanto eu pegava uma escova para pentear seus cabelos negros e lisos que estariam bagunçados de novo em questão de minutos – Queria saber que jogo é aquele.

– Que jogo? – olhei pela janela, para o grupo de crianças que se escondia pelos cantos do pátio, enquanto uma menina de vestido amarelo estava encostada à parede, contando até dez com os olhos fechados, e sorri – Aquilo se chama pique-esconde. – expliquei – Uma pessoa conta enquanto as outras se escondem e, depois, ela tem que procurá-los.

– E isso é divertido?

– Sim. Principalmente quando se tem muitos lugares onde se esconder.

– Você já brincou disso? – Jonah se virou para me olhar – Quando você era criança?

– Brinquei. – terminei de pentear seu cabelo e passei as mãos por sua camiseta, para alisar uma pequena dobra no tecido – Eu era muito bom no pique-esconde. Ninguém conseguia me encontrar.

– E você tinha muitos amigos?

Curiosamente, apesar de estarmos falando de minha infância, minha mente se voltou para Jess, Norah e Pietro e senti a saudade comprimir o meu peito. Eu m perguntava como as garotas deviam estar agora. Se ainda faziam a noite do pijama uma vez por mês, se estavam se saindo bem nas aulas, se já haviam mandado suas cartas de inscrição para as universidades... Eu gostaria muito de poder encontrá-las e perguntar como andava suas vidas, talvez apresentar Jonah a elas, já que tanto Norah quanto Jess gostavam tanto de crianças, mas eu sabia que isso não era mais possível. Nossas vidas tinham tomado rumos absolutamente diferentes e, para elas, eu estava morta.

– Eu tinha alguns bons amigos. – finalmente respondi – Eles eram pessoas muito legais. Teriam adorado te conhecer.

– Eu queria ter amigos também. – a expressão de Jonah me partiu o coração e eu enlacei seus ombros, trazendo-o para mim.

– Você vai ter muitos amigos, meu amor. – tentei reconfortá-lo, mas ele não se deixou convencer.

– Não posso ter amigos se vocês nunca me deixam sair. – retrucou, afastando-se de meus braços – Todo mundo pode brincar lá fora, menos eu. Eu nunca posso fazer nada.

–Jonah, eu já te expliquei porque você não pode sair. – tentei tocar seu rosto, mas ele recuou para longe mais uma vez.

– Eu não gosto de ser um garoto especial. – resmungou – Eu queria ir brincar lá fora. Queria ser igual a todo mundo.

– Jonah...

– Eu só queria sair daqui. – ele gritou e, em um milésimo de segundo, desapareceu diante de meus olhos, da mesma forma que Bryan havia feito tantos meses atrás quando eu o encontrei na Ala de Convivência do Saint Auguste.

– Jonah? – olhei ao redor, como se esperasse que ele fosse reaparecer de repente em algum lugar do quarto, mas quando encontrei apenas os móveis e as paredes cobertas de mapas a minha volta, comecei a entrar em desespero – Lisandra. – gritei, saindo de meu quarto e atravessando o corredor enquanto inspecionava todos os cômodos que encontrava pela frente – Lisandra!

– O que foi? – ela me alcançou na metade do caminho até a cozinha, ainda vestida com o avental branco que tinha usado para fazer o jantar daquela noite e os rostos confusos de Tábita e Brigitte, que estavam organizando a mesa para ela, também surgiram no corredor e encarando-me com curiosidade.

– O Jonah sumiu. – respondi desesperada – Ele desapareceu e eu não consigo encontrá-lo.

– Como assim ele “desapareceu”? – Tábita largou os pratos que estava segurando sobre a mesa e se juntou a Lisandra no corredor, sendo seguida de perto por Brigitte.

– Nós estávamos no quarto e ele disse que queria sair para brincar com as outras crianças, então, ele simplesmente desapareceu. – estalei os dedos – Assim, de repente, como se tivesse virado fumaça. Eu não sei onde ele está.

– Eu não sabia que ele conseguia fazer isso. – Brigitte se voltou para Lisandra com uma expressão de surpresa e, esta, por sua vez, começou a desamarrar o avental de suas costas apressadamente.

– Ele não ainda não sabe controlar seus dons, então, não deve ter ido muito longe. – disse seguindo para a porta – Brigitte procure nos arredores da Calle del Caffettier e Tábita faça uma busca pelo Campo Santa Margherita. Ele nunca saiu do apartamento antes, então, deve estar assustado. Eu vou procurar perto da Calle de l’Aseo.

– E eu? – perguntei, seguindo atrás delas.

– Você fica aqui. – Lisandra apontou para o sofá – Voltaremos quando o encontrarmos.

– O que?! Não. Eu vou com vocês. – disse decidida – É o meu filho quem está lá fora. Eu não vou ficar sentada aqui sem fazer nada. Só me deem um local para procurar.

– Você não conhece Veneza, Loren. – Tábita parou na porta e olhou para mim – Acabaria se perdendo e aí nós teríamos que procurar por vocês dois. É melhor ficar aqui onde está segura.

– Então, me deixem acompanhar uma de vocês. – pedi – Posso ir para a Calle de l’Aseo com Lisandra ou para o Campo Santa Margherita com você , não importa. Eu só não quero ficar parada aqui enquanto o meu filho está pedido lá fora, Tábita. Eu vou junto.

Tábita e Brigitte olharam para Lisandra, aguardando uma decisão dela e, vendo que eu não ia ceder, Lisandra suspirou e fez sinal para que eu a acompanhasse.

– Vamos começar procurando na Calle de l’Aseo e depois vamos seguir para a Seconda Dei Saoneri. – ela disse fechando a porta do apartamento assim que eu saí – Se não o encontrarmos lá vamos para a Calle Della Madonna, mas eu realmente espero que não precisemos ir tão longe. Veneza tem muitos becos e vielas, então, preste atenção no caminho e, por tudo o que é mais sagrado, não se afaste muito de mim, Loren. Não vai ajudar em nada se acabar se perdendo também.

– Entendi. – assenti e, assim, nós começamos a nossa busca.

Eu só tinha andado pelas ruas de Veneza uma vez, que foi no dia em que cheguei ali, quando Jonah ainda era um recém-nascido, mas estava disposta a revirar cada canto daquela cidade até encontrá-lo e trazê-lo em segurança de volta para casa. Jonah era a minha vida e era assustador saber que ele estava sozinho lá fora quando havia um alto escalão de anjos em nosso encalço, que poderiam descobrir seu paradeiro e tentar matá-lo da mesma forma que haviam feito comigo alguns meses antes, e eu só conseguia rezar para que ele não tivesse ido muito e para que estivesse bem.

Seguindo as orientações de Lisandra, me mantive atenta ao caminho que seguimos quando nos separamos de Tábita e Brigitte para ir à Calle de l’Aseo e fiquei sempre perto o bastante para ainda conseguir ouvir o som de sua voz caso ela me chamasse, mas , para o meu grande desespero, não encontramos Jonah na Calle de l’Aseo e nem na Calle Seconda Dei Saoneri e parecia que Tábita e Brigitte estavam igualmente sem sorte em sua busca.

Quando seguimos para a Calle Della Madonna, eu já estava a ponto de ter uma crise de nervos e a ponto de irromper em lágrimas, mas como se o meu instinto materno estivesse falando mais alto, ao invés de procurar por Jonah nas vielas a minha esquerda, como Lisandra havia mandado, eu me afastei um pouco mais dela e segui até uma rua que parecia bem mais deserta e escura que as outras pelas quais tínhamos passado.

De início, não vi qualquer sinal de que alguém pudesse estar ali e já estava quase dando meia volta e voltando para as vielas onde Lisandra havia me mandado procurar, quando o som de passos apresados, vindos de um beco adjacente à rua onde eu estava, chamou minha atenção e decidi investigar.

A iluminação ali era precária, exatamente como costumava ser nos bairros mais pobres de Veneza e precisei forçar minha vista para enxergar por entre os paredões de tijolos vermelhos e gastos, ocasionalmente iluminados pelas luzes amareladas e bruxuleantes que escapavam das janelas dos prédios velhos e altos que havia ao longo da Calle Della Madonna.

– Jonah? – chamei em voz baixa, porque sabia como aqueles bairros eram perigosos e não queria correr o risco de ser surpreendida por um assaltante – Jonah, é você?

Quase gritei quando, de repente, alguém saiu de um dos cantos mais escuros do beco e me agarrou, mas todo o susto se transformou em alívio quando reconheci as pequenas mãozinhas de Jonah enlaçadas ao redor de minha cintura como se ele não tivesse intenção de me soltar nunca mais.

– Mamãe. – ele choramingou enterrando o rosto no tecido grosso de meu vestido – Mamãe, eu estou com medo. Me leva de volta para casa? Eu não gosto desse lugar.

– Ah, Jonah! – ergui-o em meus braços e envolvi seu corpo quente em meus braços, sentindo o cheiro do sabonete em seus cabelos recém lavados – Como foi que você veio parar aqui? Eu fiquei tão preocupada.

Ele acomodou o rosto na curva de meu pescoço e, sem perder mais tempo, tratei de refazer o caminho de volta até a parte da Calle Della Madonna onde eu tinha me separado de Lisandra, apertando Jonah em meus braços como se ele fosse o responsável por manter Veneza erguida acima o mar.

– Nunca mais suma desse jeito, viu? Você quase me matou de susto. Achei que eu tinha perdido você.

Encontramos Lisandra há algumas ruas do ponto onde eu a havia deixado e, assim que ela viu Jonah em meus braços, respirou aliviada.

– Ah, finalmente! Onde você o encontrou? Eu me virei para procurar por você, mas você tinha sumido e eu já estava pensando que teria que chamar Tábita e Brigitte para me ajudar a procurar por vocês dois.

– Ele estava em um beco no final da Calle Della Madonna. Está assustado.

Lisandra se aproximou e tocou gentilmente as costas de Jonah, fazendo-o erguer a cabeça para olhá-la e foi só nesse momento, sob as luzes mais fortes da entrada da Calle Della Madonna, que percebi que sua camiseta branca, que eu havia escolhido com tanto cuidado, estava suja e borrifada com gotículas de sangue.

– Oh, meu Deus! – afastei-o de mim para poder olhá-lo melhor e Lisandra fez o mesmo.

– Ele está machucado?

Coloquei Jonah no chão e me abaixei para verificar seus braços, rosto e tórax, mas fora a sujeira e as gotas de sangue em sua camiseta, ele parecia exatamente igual ao que estava antes, sem nem mesmo um arranhão.

– Você caiu? Se machucou? – perguntei lembrando-me que Brigitte ou Tábita já haviam me dito que o fator de cura dos nefilins era muito alto e que, portanto, mesmo que Jonah tivesse se machucado, a essa altura seus ferimentos já teriam se curado.

Ele olhou para baixo, para a blusa suja onde minha mão repousava e seus olhos, sempre tão azuis e brilhantes, se tornaram tristes.

– Eu não me machuquei. – ele respondeu em voz baixa – Mas machuquei o homem mau no beco, mamãe.

– Que homem mau? – olhei para Lisandra e ela olhou, rapidamente, para a parte da Calle Della Madonna onde eu havia encontrado Jonah e, então, se abaixou e o pegou no colo.

– Precisamos voltar para o apartamento. – disse caminhando, apressada, enquanto eu seguia em seu encalço, tentando não tropeçar pelas ruas irregulares e mal iluminadas daquele bairro – Vou pedir que Tábita e Brigitte deem uma olhada no beco, mas nós precisamos sair daqui.

– Você acha que é um deles? – indaguei referindo-me a Miguel e seus anjos – Acha que eles estão aqui? Acha que nos encontraram?

– Não. Eles não estão aqui. – ela respondeu convicta – Eu saberia se estivessem.

– Então, de quem o Jonah estava falando? Quem foi que ele viu no beco?

– Um assaltante, um pedófilo, um assassino... – ela deu de ombros – Isso não importa. O que importa é que o Jonah acabou de matá-lo e nós precisamos sair daqui.

– O que? – estaquei – Não... O Jonah não... Ele não faria isso. Ele é só uma criança, Lisandra.

– Ele é um nefilim. – ela parou e se voltou para mim – Ele tem dons que nós desconhecemos. Dons que ficarão cada vez mais fortes e que ele ainda precisa aprender a controlar. Sei que você o vê apenas como uma criança indefesa, mas ele é muito mais que isso, Loren. Jonah carrega uma fonte desconhecida de poder e nós precisamos mantê-lo seguro. Vou pedir a Brigitte e Tábita que venham até aqui e limpem essa bagunça, mas você e eu precisamos voltar para o apartamento agora.

Ela me deu as costas e continuou andando e eu fiquei alguns segundos encarando-a, completamente chocada com o fato de que meu filho era basicamente uma arma aos seus olhos. Lisandra falava dele como se ele estivesse predestinado a alguma coisa grande e, com ela sendo aliada de quem era, eu não tinha dúvidas de que isso não era um bom sinal.

Eu nunca me perguntei por que Lúcifer havia me salvado ou porque ele tinha se empenhado tanto para manter Jonah e eu em segurança, mas agora eu percebia que deveria ter feito essas perguntas antes. Bryan sempre me dizia que Lúcifer era um estrategista e que tudo o que ele fazia tinha um propósito, então, seja lá o que ele estivesse tramando agora, eu tinha quase certeza de que Jonah estaria envolvido.

Meu filho tinha se tornado uma variável importante para seus planos nefastos e, agora, eu precisava fazer alguma coisa a respeito. Precisava conversar com Bryan e alertá-lo e, mais que tudo, eu precisava encontrar uma forma de tirar Jonah dali.

Notas finais
TRADUÇÃO: "Credo di aver imparato abbastanza e credo che il mio italiano è molto buono. Per favore mi insegnare il francese ora. Mi piacerebbe saperne di più.", sigfica: " Acho que aprendi o bastante e acho que o meu italiano está muito bom. Por favor, me ensine o francês agora. Eu adoraria aprender mais." NOTAS EXPLICATIVAS: 1) O Pequeno Príncipe é uma obra do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, publicada em 1943 nos Estados Unidos, que conta de um homem que renunciou a carreira de pintor aos seis anos de idade e decidiu se tornar piloto. Em uma de suas viagens, o avião desse homem sofre uma pane e cai no deserto do Saara, onde ele adormece e, quando acorda, se depara com um pequeno garoto de cabelos cor de ouro que vive no Asteroide B 612, onde há apenas uma rosa que fala com ele e três vulcões, sendo que um deles está extinto. Numa primeira leitura, O Pequeno Príncipe aparenta ser um livro para crianças, mas possui um grande teor poético e filosófico e também se trata da terceira obra literária mais traduzida no mundo, tendo sido publicado em 220 idiomas e dialetos. 2) O Fabuloso Destino de Amelie Poulain é um filme francês dirigido por Jean-Pierre Jeunet em 2001, que conta a história de Amelie, uma garota que vive isolada das outras crianças porque seus pais acham que ela tem uma rara doença do coração e que, durante sua maioridade, encontra uma caixa de brinquedos no banheiro de seu apartamento e decide devolvê-la ao seu antigo dono, anonimamente. Quando vê que o menino quase chora de felicidade ao reaver seus pertences, Amelie fica impressionada e remodela a sua visão do mundo e, apartir de então, ela se engaja na realização de pequenos gestos a fim de ajudar e tornar mais felizes as pessoas ao seu redor. **** Bem, hoje as notas ficaram gigantescas, né? Espero que tenham gostado do capítulo e dessa volta dos P.O.V.'s da Loren e espero que estejam ansiosos pela continuação.. Beijos e até o próximo capítulo.