Killer
4 Enquanto a Chuva Não Cai
Notas iniciais
[Loren P.O.V]
– Porque eu sou suspeita de algo assim? Porque eu mataria Daniel? – perguntei desesperada.
A suspeita de que eu pudesse ter assassinado um de meus colegas de classe, quando eu praticamente nem falava com e quando eu, com certeza, não tinha absolutamente nada contra ele me deixava indignada, mas os oficiais Lanes e Stan pareciam não estar para brincadeiras.
– Talvez você não tivesse motivos, mas sob o efeito de alguma droga tenha acabo por cometer o crime. – disse o oficial Lanes e que quase bufei de raiva.
– Eu não uso drogas! – retruquei em alto e bom tom.
– É isso que nós vamos confirmar. – ele comentou calmamente.
– Pai! – exclamei, praticamente implorando para que ele fizesse algo contra aquilo. Ele me conhecia desde sempre, sabia que eu jamais faria algo como usar drogas e, muito menos, matar alguém. Ele tinha que me defender.
– Os policiais só precisam confirmar tudo, Loren. – meu pai respondeu em um tom entediado, que não disfarçava totalmente a sua impaciência – Se você não tem nada a esconder, então, não precisa se preocupar.
– E nós temos um mandado. – acrescentou o oficial Lanes exibindo uma folha para mim.
Diante daquilo, não havia nada mais que eu pudesse fazer a não ser o exame toxicológico. Eu tinha plena certeza de que nunca havia usado qualquer tipo de droga em toda minha vida, mas... eu também tinha plena certeza de que ainda era quinta-feira, quando, na verdade, já era segunda-feira, então, havia algo errado com a minha cabeça.
Deixei que um enfermeiro colhesse uma amostra do meu sangue para o exame e aguardei, com todos ai, enquanto os técnicos do hospital faziam o exame toxicológico. O resultado chegou pouco mais de uma hora depois e, assim que o enfermeiro entregou o envelope ao oficial Lanes, ele o colocou no bolso do paletó sem nem mesmo olhá-lo.
– Ei, não vai me dizer o resultado? – perguntei, com medo do que poderia estar escrito lá dentro.
Lanes mal olhou para mim.
– O resultado será anexado ao processo. – disse ele sem ânimo – Você poderá consultá-lo depois.
– Processo? – meus olhos se arregalaram. Ninguém havia me dito nada sobre um processo.
– Você é suspeita de assassinato. – Lanes explicou como se a resposta fosse óbvia – Um processo foi aberto para averiguar todas as provas e, em breve, você receberá uma carta com todas as informações sobre as providências que deverá tomar. De antemão, aviso-lhe que precisará de um advogado. – ele disse olhando para meu pai e ao invés de mim e, logo em seguida, os policiais se retiraram levando consigo o resultado do meu exame de sangue e o que restava de minha dignidade.
Não bastava ficar desaparecida por quatro dias e não me lembrar de nada que havia acontecido, eu ainda estava sendo acusada de um assassinato e sendo taxada de drogada pela polícia. Não havia como ficar pior.
Infelizmente eu estava errada.
Tive alta do hospital no dia seguinte e, alguns dias depois, a carta da qual o oficial Lanes havia falado com meu pai chegou, mas ela não continha apenas simples instruções, também dizia respeito aos mais diversos exames que eu teria que fazer para “anexar ao processo” e informava as datas de audiência nas quais eu deveria comparecer. Tudo isso acompanhado da bela frase já tão citada em tantas séries de TV: “Você tem direito a um advogado. Se não puder pagar o Estado o indicará um.”.
Passei as três semanas seguintes de consultório em consultório médico, realizando os diversos exames que me pediram até cansar. Fora os depoimentos que eu tinha de dar para os policiais praticamente todo dia e que em nada mudavam. Eu simplesmente não me lembrava dos quatro dias em que passei desaparecida.
Na cidade, eu já tinha me tornado uma espécie de aberração. Todos me olhavam estranho, mas ninguém ousava me abordar para perguntar qualquer coisa que fosse.
Ir a escola se tornou inviável quando, em um belo dia, encontrei meu armário pichado com as palavras “Louca Assassina” em spray vermelho. Depois disso, eu passava a maior parte do tempo trancada em meu quarto, vasculhando minha mente em busca de alguma lembrança dos últimos quatro dias, sem encontrar nada. As únicas companhias que ainda eu tinha eram as de meus melhores amigos: Norah, Jess e Pietro, que costumavam passar em minha casa para me ver.
– Então quer dizer que sua cabeça ainda está vazia? – perguntou Jess – Não sei qual a surpresa, eu sempre soube que você era cabeça de vento.
– O assunto é sério, Jess. – Pietro intercedeu.
– Eu sei. Só queria amenizar um pouco esse clima tenso. – ela se defendeu.
– E o que vai acontecer depois de todos esses exames e depoimentos? – Norah indagou. Sua voz soou calma, mas seus olhos azuis denunciavam sua preocupação.
Simplesmente dei de ombros. Eu não fazia a mínima ideia de onde isso terminaria.
– Queria entender porque você não se lembra daqueles quatros dias. – Pietro comentou pensativo – Será que é alguma espécie de amnésia pós-trauma. Já ouvi falar sobre coisas assim.
– Não sei porque não me lembro e não se tenho esse negócio aí, mas acredite, Pete, Ninguém quer entender isso mais que eu.
Permanecemos em silêncio por um longo tempo e Jess foi a primeira a quebrá-lo:
– E a festa na Angels House. Quem vai? – perguntou ela, animada.
Angels House era uma fazenda nos arredores de Trevolts que, geralmente, era alugada para a realização de eventos e a festa a qual Jess se referia era o aniversário de quinze anos da filha do prefeito. Seria uma grande comemoração e toda a cidade havia sido convidada.
– Bem... – Norah pareceu receosa.
– Ah não, não e não. – Jess pulou da coluna de concreto da cerca branca, onde estava sentada e correu os olhos por nós três – Estamos nos preparando para essa festa desde... a pré-escola! Nada de dar pra trás agora, galera.
– Mas Jess... – tentei argumentar, mas ela ergueu um dedo para mim.
– Não venha com essa de “mas Jess”, Loren. Você precisa de diversão mais do que qualquer um de nós. Então nós vamos. – ela sentenciou e nenhum de nós ousou discutir. Nós três sabíamos que era impossível fazer Jess mudar de ideia quando ela tomava uma decisão – A gente se encontra aqui às oito. Esteja pronta. – Jess gritou enquanto arrastava Pietro e Norah de volta para suas respectivas casas.
Assenti com um aceno e voltei para dentro de casa. Se eu teria mesmo que ir àquela festa, então, havia muito que fazer. Eu não entendia por que Jess tinha de insistir em ir a Angel's House hoje a noite, afinal, todo mundo estaria lá e eu – a pária da cidade – com certeza não seria bem vinda num lugar assim.
Após tomar um banho, procurei em meu guarda-roupa por algo que fosse apropriado para a ocasião. Acabei encontrando um vestido preto que há muito tempo eu não usava e decidi vesti-lo. Completei o look com minha conhecida bota preta de salto alto e um colar que minha mãe havia me dado de aniversário dois anos antes e, então, desci para esperar pelos outros três.
– Aonde vai? – meu pai perguntou desviando atenção de seu telejornal para mim.
– A uma festa com Jess, Norah e Pietro. – respondi enquanto digitava uma mensagem para Norah em meu celular.
– Uma festa? – ele perguntou de mau humor – Está no meio de uma investigação por assassinato e ainda vai a uma festa?
– Se eu for me trancar em casa por causa disso, eu nunca mais vou sair, pai.
Para minha sorte, logo ouvi a buzina do Jeep de Norah, o que me impediu de continuar a ouvir os sermões de meu pai e saí para encontrar meus amigos..
– Ainda bem que está usando preto. – Jess gritou, colocando a cabeça para fora da janela do Jeep.
– Por quê? – perguntei sem entender nada daquilo.
Ela puxou alguma coisa de dentro do carro e depois a exibiu para mim, sorriu.
– Sabia que você não ia se lembrar que é uma festa a fantasia. – disse ela e, de fato, eu havia esquecido isso.
Entrei no carro e peguei a máscara carnavalesca preta e dourada que ela trouxera para mim.
– Isso aqui é fantasia de que? – questionei colocando-a no rosto e me inclinando para frente para dar um conferida no visual através do espelho retrovisor.
– Não importa de que é. – Jess respondeu dando de ombros, animada – É uma máscara e isso é uma fantasia ainda que não tenha significado algum.
Assenti, concordando e olhei ao redor, abrindo um sorriso ao ver meus amigos todos fantasiados. Jess usava uma roupa havaiana de Ula-Ula, enquanto Pietro estava vestido de Elvis Presley e Norah de Branca de Neve.
Apertamos os cintos e seguimos para Angels House esperando que a noite fosse divertida. Depois de todas as semanas infernais que eu havia passado, eu só queria essa noite não fosse tão ruim.
***
[Bryan P.O.V.]
Observei a distância Loren entrar no carro de seus amigos e seguir para uma festa. Eu me sentia tentado a segui-la, mas sabia que não poderia fazer isso, assim como não pude me aproximar dela nos quatro dias em que ela ficou desacordada naquela floresta.
– Você não é um guardião, Bryan. Faça o seu trabalho e deixe os anjos da guarda fazerem os deles. – disse Jeremyah, encostado em uma arvore a alguns metros de distância.
Eu não me assustei. Era quase impossível para um anjo pegar outro desprevenido, pois sempre sentíamos a presença de nossos irmãos por mais silenciosos que eles pudessem ser.
– Os guardiões não são eficientes o bastante. – disse eu olhando o carro onde Loren estava sumir de vista e me voltando depois para Jeremyah – Faço um trabalho cem vezes melhor que o deles.
– Precisa esquecê-la, Bryan. – ele me advertiu – Sabe que está violando as regras. Os humanos não podem saber de nossa existência. É assim que funciona.
– Loren não faz ideia de nossa existência. – retruquei.
– Sim, você apagou a memória dela. Duas vezes. Eu sei. – ele me olhou sério – Mas você sabe que isso é o máximo que um humano aguenta. Vai matá-la se fizer isso de novo.
– Não precisarei fazer isso novamente.
– Se continuar cercando-a assim, talvez volte a precisar. – Jeremyah insistiu.
– Eu não fico cercando-a.
– É mesmo, tigrão? – disse Lorelei chegando para se juntar a nós – Então o que faz aqui espionando a moça?
Fechei a cara. Eu sabia o que estava fazendo. Aqueles dois eram pessimistas demais.
– Só queria ter certeza de que ela estava bem. – respondi.
– Bryan, não entende que coloca sua vida e a dela em jogo quando faz isso? Você já teve a experiência uma vez. Aprenda com ela.
– Eu não cometerei aquele erro de novo, Lorelei. – retruquei, ciente de minhas ações – Não vou me expor de novo.
Jeremyah revirou os olhos e bufou. Ele não acreditava em meu autocontrole. Nenhum dos dois acreditava nisso, aliás, mas Lorelei era melhor em não demonstrar sua falta de fé em mim.
Dei as costas para eles e abri minhas asas negras.
– Aonde vai, Bryan? – Jeremyah perguntou com sua implicância de sempre.
– Vou fazer meu trabalho. – respondi irritado – As pessoas sempre morrem, você sabe.
– E os anjos caem, Bryan. Você também sabe. – Jeremyah comentou, mas eu não quis discutir.
Apenas assenti e alcei voo, perdendo-os de vista no solo escuro abaixo de mim. Havia coisas para fazer e eu não iria ficar perdendo tempo com Jeremyah, Lorelei e seus sermões sem fundamento. Loren estava a salvo e eu tinha feito minha parte. Os erros do passado não voltariam a acontecer.
Nunca mais.
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