Killer

24 Atos e Consequências


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Espero que ansiosos por esse capítulo XD Eu prometi postá-lo na quinta-feira, mas só consegui terminar hoje, então aqui estou. Antes de deixá-los ler gostaria de lembrá-los que essa é história fictícia e que vocês encontrarão muitas coisas nela que não condizem com as histórias bíblicas, começando pela forma como idealizei o Bryan e os demais anjos. Então, no caso de eventuais acontecimentos destoantes da história bíblica a qual estão acostumados, estejam cientes desse fato, ok? ^^ Nesse capítulo voltaremos ao P.O.V. da Loren. Espero que gostem. Boa leitura ^^

[Loren P.O.V]

Depois que Bryan me deixou naquela noite, eu ainda fiquei acordada esperando que ele voltasse. Eu sabia que uma viagem até o Paraíso e uma conversa com Miguel, para tratar de um assunto tão sério quanto o fato de Lúcifer estar planejando outra guerra, levaria mais que algumas horas, mas o meu corpo se recusava a ceder, então simplesmente fui para a janela e fiquei observando a paisagem escura que cercava o Saint Auguste, até que o sol finalmente nasceu.

Como eu já esperava, Bryan não voltou naquela noite e, tão pouco, nas noites seguintes. Eu tentei manter a calma, dizendo a mim mesma que tudo estava bem e que, em breve, ele voltaria, mas não consegui calar aquela vozinha irritante dentro de mim que dizia que alguma coisa estava tremendamente errada. Eu temia que Bryan nunca mais voltasse e a cada noite que passava sem vê-lo, esse temor aumentava um pouco mais.

Os primeiros dias após a sua partida foram os mais monótonos e tristes da minha vida. Eu simplesmente me postei diante da janela do meu quarto e fiquei implorando para ele voltar. Mal me lembrei de comer ou beber água e quando Madeline apareceu para me levar para a recreação, eu me recusei a ir.

Talvez se o meu enfermeiro supervisor fosse outra pessoa, ele teria insistido para que eu fosse aproveitar o meu breve período de “liberdade” na Ala de Convivência, mas era Madeline quem cuidava de mim, então, quando me recusei a sair do quarto, ela deu de ombros e foi embora. Isso foi bom e ruim.

Foi bom porque pude ficar em meu quarto, junto com todas as minhas memórias recém-recuperadas e com todas as lembranças da noite que eu e Bryan havíamos passado juntos. Quando eu fechava os meus olhos eu ainda conseguia sentir o gosto de seus beijos e o calor que emanava de suas mãos enquanto ele acariciava o meu corpo e, reviver aquele momento, era a única coisa que impedia que eu desmoronasse de vez.

Por outro lado, ficar trancada em meu quarto, sozinha, também me fez ver o quanto Bryan me fazia falta agora que eu me lembrava de toda a história que compartilhávamos. Eu já havia perdido minha mãe, minha avó, Pietro e minha liberdade. Não queria perdê-lo também e a mera possibilidade de tal coisa acontecer me deixava desesperada.

Não sei se foi por causa de minha recusa a me alimentar direito ou se foi simplesmente por causa da angústia que eu estava sentindo por não ter nenhuma notícia de Bryan, mas depois da primeira semana trancafiada em meu quarto eu comecei a me sentir mal. Eu costumava me sentir sempre cansada, com dores de cabeça e dores abdominais, por isso, decidi que mesmo sem ter nenhuma vontade de fazer qualquer coisa, eu iria voltar a seguir minha rotina “normal”.

Forcei-me a engolir a gororoba que era servida no Saint Auguste e voltei a frequentar a Ala de Convivência todos os dias. Até solicitei um caderno de desenho e uma caixa lápis de cor para Janete Müller e tentei interagir com alguns dos internos que eu julgava serem menos agressivos, mas, mesmo com todo o meu esforço, minha melhora não foi tão significativa quanto achei que seria.

Os dias, entretanto, pareceram passar um pouco mais rápido agora que eu tinha algumas coisas com que me distrair. Não eram grandes distrações – e, muitas vezes, eu não podia evitar que a tristeza me invadisse e, simplesmente, me encolhia num canto do quarto e chorava por várias horas seguidas –, mas pelo menos estava sendo mais fácil de suportar.

Quando dei por mim, já havia se passado quase um mês desde que Bryan tinha partido. Eu ainda sentia falta dele e ainda estava preocupada com a possibilidade de nunca mais vê-lo, mas me surpreendi ao ver o quanto eu estava aguentando bem toda aquela situação. Acho que todas as tragédias que tinham acontecido em minha vida ao longo dos anos haviam me preparado, psicologicamente, para enfrentar qualquer adversidade. O mesmo, porém, não podia ser dito de meu estado físico.

Nas semanas que se seguiram meu mal estar se tornou ainda pior. Além de cansaço, dores de cabeça e dores abdominais, eu havia passado, também, a me sentir tonta e nauseada com frequência. Às vezes, as tonturas e náuseas eram tão fortes que eu mal conseguia sair da cama e não foram poucas às vezes que Madeline teve de mandar alguém limpar o meu quarto por eu ter vomitado dentro dele.

Ela havia concluído que a comida do Saint Auguste e o meu estado de espírito deplorável eram os responsáveis por todo o meu estar e, por causa disso, eu havia passado a receber uma comida mais leve e nutritiva, além de uma porção extra de comprimidos vitamínicos todos os dias. Aquilo, de fato, ajudou um pouco, mas não o bastante. Mesmo assim os dias seguiram.

Eu estava, mais uma vez, deitada em minha cama, praticamente cochilando, quando Madeline abriu a porta de meu quarto.

– Você tem visitas. – ela disse apenas.

Levantei-me devagar, porque minha cabeça tinha voltado a doer e caminhei em sua direção. Apesar de me sentir fraca eu estava animada, pois sabia que se eu tinha visitas era porque Norah e Jess tinham conseguido escapar da vigilância de seus pais e haviam voltado para me ver como tinham prometido.

Então, me forcei a ignorar a dor de cabeça que parecia aumentar a cada segundo e segui Madeline até o pátio onde as visitas aconteciam. Não precisei usar algemas dessa vez, porque já fazia algum tempo que Madeline tinha desistido de usá-las em mim. Segundo ela, eu estava me comportando bem e, por isso, ela se sentia segura para me deixar circular pelo Saint Auguste apenas com sua companhia constante para me deter no caso de uma tentativa de fuga.

Encontramos Norah e Jess sentadas no mesmo banco onde haviam se sentado na primeira vez em que foram me visitar e, apenas para não perder o costume, Madeline disse que estaria me vigiando e que eu deveria me comportar, antes de me deixar sozinha com Norah e Jess.

Sem o clima estranho e incomodo pairando entre nós, como da última vez, elas se sentiram confortáveis o suficiente para se levantar e me receber com abraços e sorrisos. Retribuí a todos eles da maneira mais empolgada que consegui e depois me sentei ao lado delas no banco.

– Como você está? – Jess perguntou tomando minhas mãos entre as suas – Nós ficamos tão ansiosas para voltar, mas só agora conseguimos despistar nossos pais o suficiente para poder viajar até aqui.

Eu sorri para ela em retribuição aos seus esforços. Sabia que o Saint Auguste ficava longe de Trevolts e que ela e Norah deviam ter viajado muitas horas de carro para poder me ver, então me sentia agradecida.

– Eu estou bem. – respondi, embora a dor persistente em minha cabeça me dissesse exatamente o contrário – Estou feliz por vocês terem vindo hoje.

– Nós também estamos felizes. – Norah olhou para minhas mãos – E você não está usando algemas hoje. Isso é um bom sinal.

– Ah, é. Você notou? – ergui os pulsos, orgulhosa – Ao que parece eu tenho sido um exemplo de bom comportamento para os meus companheiros e, por isso, ganhei a regalia de poder andar livremente pelos corredores. Acho que daqui a pouco eles vão me deixar montar um daqueles grupos de apoio iguais àqueles que a gente vê nos filmes de prisão, vocês sabem qual é?

Jess e Norah riram de minha explicação, mas logo o sorriso no rosto de Norah foi se extinguindo e ela baixou os olhos para o chão, triste.

– Tem alguma chance de esse seu bom comportamento servir como forma de redução de pena? – ela questionou – Nós estamos sentindo a sua falta lá fora e é horrível saber que você está aqui dentro, cercada por todas essas grades e enfermeiros assustadores. Você não vai ficar aqui para sempre, vai? Eles vão te deixar sair depois que você... sei lá. Depois que perceberem que você está bem.

Eu não respondi imediatamente.

Odiava ver minhas amigas tristes por minha causa, mas a verdade é que eu não tinha esperanças de sair do Saint Auguste. Terry havia me dito que ninguém saía dali e, mesmo que saísse, eu não tinha certeza se Isaac Sparks – o diretor do Saint Auguste – e Janete Müller – a enfermeira chefe – algum dia me considerariam curada o suficiente para me deixar ir embora. Parecia que as paredes do Saint Auguste eram o limite do meu mundo agora, mas eu não queria dizer isso a Jess e Norah.

Forcei um sorriso.

– Acho que se eu me comportar bem e seguir o meu tratamento direitinho, eles vão me deixar sair, sim. – menti – Não sei quando, mas talvez seja logo.

– Eu vou rezar para que seja. – Jess me abraçou – Lembra quando a gente fazia planos de ir para a universidade e alugar um apartamento para morarmos todos juntos? – ela sorriu e seus olhos brilharam – A gente ficava atormentando o Pietro, dizendo que íamos comprar um apartamento com apenas três quartos e que ele teria que dormir na sala. Você lembra?

Eu apenas assenti, emocionada demais para falar alguma coisa.

Pietro, Jess, Norah e eu costumávamos fazer muitos planos para o futuro. Todos nós desejávamos sair de Trevolts e explorar o mundo, pois sentíamos como se aquela cidade nos sufocasse. Acho que os interesses e opiniões em comum foram o que nos aproximou no início, mas eu havia aprendido a amar cada um daquele bando de revoltados e houve um tempo em que, sempre que eu imaginava o meu futuro, via Jess Norah e Pietro nele. Agora tudo isso havia mudado.

Todo o futuro que gastamos noites imaginando havia acabado e eu era a responsável por isso. Eu havia destruído todos os nossos sonhos e havia feito algo ainda pior com Pietro. Eu havia destruído toda a sua vida.

– Talvez você saia daqui antes da formatura. – Jess continuou – Ainda temos mais alguns meses de aula, então, talvez você possa sair antes disso e recuperar as matérias que perdeu. Talvez você ainda possa se formar e ir para a universidade junto com a gente.

– É. – respondi com a voz fraca – Talvez.

Eu estava prestes a irromper em lágrimas e minha cabeça estava praticamente explodindo. Achei que, depois de tudo, eu já tinha aceitado que o meu destino era ficar trancada para sempre no Saint Auguste, mas quando Jess me apresentou novamente a todas as possibilidades, qualquer aceitação que eu podia ter havia sumido.

Eu já tinha passado por muitas coisas, mas eu ainda era apenas uma adolescente cheia de sonhos. E os meus sonhos haviam sido arrancados de mim no momento em que passei pela porta do Saint Auguste. Talvez antes disso.

– Vai ficar tudo bem. – senti Jess me abraçar com força.

Só naquele momento percebi que eu estava chorando desesperadamente. Eu sentia o meu peito doer a cada soluço que escapava de minha boca e quase não conseguia enxergar os rostos de Norah e Jess por entre as lágrimas que fluíam de maneira incessante dos meus olhos.

Eu queria dizer a elas para não se preocuparem, que aquilo era algo passageiro e que, atualmente, eu estava chorando por qualquer besteira, mas eu não conseguia pronunciar uma única palavra. Era como se todas elas ficassem presas no nó que havia se formado em minha garganta. Eu só conseguia chorar e chorar e, então, aconteceu.

A dor em minha cabeça aumentou ainda mais e comecei a me sentir zonza e nauseada. Tentei respirar fundo e até tapei meu nariz e minha boca com uma das mãos, mas não teve jeito. Tudo o que consegui antes de começar a vomitar, foi me afastar um pouco de Jess e Norah para não sujá-las com aquela imundície.

Alguns enfermeiros que estavam espalhados pelo pátio vieram em meu socorro e um deles me segurou no exato momento em que minhas pernas cederam.

Ouvi Norah soltar um gritinho de desespero, enquanto o enfermeiro me colocava no colo e me carregava de volta para dentro do prédio, mas não consegui mais processar muito coisa depois disso. O mundo estava girando a minha volta, fazendo o meu estômago girar também, e eu sentia o meu corpo ficar mais fraco a cada segundo. Então, sem forças, fechei os olhos e me deixei envolver pela escuridão.

Quando acordei eu estava em uma maca na enfermaria que eu já conhecia tão bem. Desde que entrara no Saint Auguste eu havia ido tantas vezes àquele lugar que já sentia como se ele fosse um segundo quarto para mim.

A tontura e a náusea haviam passado, mas ainda havia pequenos resquícios da dor de cabeça e um tubo intravenoso conectava meu braço ao soro fisiológico, então me sentei na maca com cuidado.

Terry estava a alguns passos de distância e, quando percebeu que eu tinha acordado, veio ao meu encontro.

– Como você está? – ele perguntou ajudando-me a me sentar direito.

– Agora estou bem melhor. – respondi abrindo um sorriso fraco para ele.

Eu gostava de Terry. Ele era um homem fechado, mas sempre me tratava bem quando eu ia à enfermaria e era um dos poucos funcionários do Saint Auguste com quem eu podia conversar normalmente.

– O que aconteceu comigo? – perguntei fazendo careta ao sentir o gosto horrível que havia em minha boca – Eu achei que ia morrer.

Terry se empertigou um pouco em sua cadeira e seu olhar sério pousou sobre mim de uma maneira que me deixou desconfortável. Em geral, Terry estava sempre sério, mas naquele dia, ele parecia estar mais sério que de costume.

– Loren – ele respirou fundo e aproximou sua cadeira de minha maca –, quando foi a sua última menstruação?

– Como? – eu o encarei, confusa e envergonhada ao mesmo tempo.

– Quando foi a sua última menstruação? – ele repetiu.

Terry era enfermeiro e eu sabia que, para os enfermeiros, fazer perguntas como essa era algo normal, mas ainda assim senti meu rosto corar. Nenhuma garota se sente a vontade para falar sobre aquele assunto com um homem – seja ele enfermeiro ou não –, mas essa informação parecia ser importante para Terry, então me forcei a lembrar.

– Acho que foi há pouco mais de um mês. – respondi envergonhada – Por que?

– Você já está aqui há mais de dois meses. – ele constatou. Sua expressão era tão séria que suas sobrancelhas quase se juntavam – Isso só pode ter acontecido aqui dentro, então.

– Do que você está falando? – perguntei confusa.

Terry se colocou de pé e, irritado, arremessou a cadeira em que estava sentado para longe. Ela bateu na parede atrás de mim e caiu no chão da enfermaria, causando um estrondo tão alto que tive que tapar os ouvidos.

– Terry, o que está acontecendo? – perguntei, sendo tomada pelo pânico.

Ele não respondeu. Apenas se aproximou de mim e segurou meu rosto entre as mãos, encarando-me com seriedade.

– Loren, responda a minha pergunta com sinceridade, está bem? – ele pediu – Algum dos guardas ou enfermeiros desse lugar já tocou em você?

– Como assim? – eu o fitei sem entender – Está perguntando se eles...

– Se algum deles estuprou você. – Terry completou o meu pensamento.

Arregalei os olhos e senti minha respiração falhar. Terry achava que eu havia sido estuprada por algum dos guardas ou enfermeiros do Saint Auguste e essa sua suposição havia me deixado em choque. Então, sem condições de responder com palavras, apenas sacudi a cabeça em negação.

– Me diga a verdade, Loren. – ele insistiu – Você não precisa ter medo de me contar. Eu prometo que vou proteger você e vou fazer com que o desgraçado que fez tal atrocidade seja demitido e preso, mas você precisa me contar.

– Terry, eu não... – comecei nervosa.

Eu sentia que o mundo ao meu redor estava começando girar de novo, mas dessa vez não era por causa da tontura. Havia um motivo para Terry estar supondo que alguém no Saint Auguste havia me molestado e a percepção desse fato me deixou apreensiva.

Eu queria dizer a ele que nenhum guarda ou enfermeiro do Saint Auguste havia encostado um dedo sequer em mim, mas minha mente girava enquanto eu analisava toda a situação. O cansaço, as tonturas, as náuseas... tudo aquilo eram sintomas de algo muito maior e um pavor súbito começou a se apoderar de mim.

Agarrei a gola do jaleco de Terry e o puxei para mais perto, com uma força que eu nem sabia que tinha.

– Me diz o que está acontecendo comigo? – gritei – Me diz agora, Terry!

Ele me encarou por um momento, sendo pego de surpresa por minha atitude agressiva e, ainda meio contrariado, suspirou.

– Você está grávida, Loren. – ele me fitou com seriedade e eu soltei a gola de seu jaleco.

Eu queria gritar, correr, chorar, mas tudo o que consegui fazer foi permanecer imóvel. As palavras de Terry haviam me atingido como uma bomba.

Notas finais
É isso aí. Revelação bombástica nesse capítulo, né? Tenho certeza que vocês terão muito o comentar agora, então, estou ansiosa pelos seus reviews XD Gostaria de dedicar esse capítulo a Bia Redbird e suas amigas que tem tanto carinho por essa fanfic, a Michelle Marques que sempre marca presença nos reviews e a Jessica que se tornou uma leitora fiel de Killer. A todas vocês o meu muito obrigada! Espero que tenham gostado desse capítulo e, já que minhas aulas começam amanhã, não sei quando será a próxima atualização. Espero que logo, mas vocês sabem como é, né?... Beijos e até o próximo capítulo.