Killer

36 A Arca Negra


Notas iniciais
Olá, Era para eu ter postado esse capítulo ontem, mas como DE REPENTE surgiu um monte de coisa para eu fazer no trabalho, não consegui terminá-lo ontem. Hoje, porém, aqui estou com mais um capítulo de Killer e eu espero que vocês gostem do que preparei. Esse ainda não é o capítulo do encontro de Bryan com seu novo exército, mas isso irá acontecer no próximo. Dedico esse capítulo à Lirysh, que fez uma linda recomendação da Killer essa semana *-* Lirysh, muito obrigada pelo carinho! Boa leitura ^^

[Bryan P.O.V.]

Naquele momento eu não saberia dizer se o que mais me incomodava naquela situação era o fato de estar voltando para o inferno com Lúcifer ou fato de que haveria um exército à minha espera quando chegássemos lá. Obviamente, eu havia participado de batalhas suficientes para saber que nenhuma grande guerra era travada sem um exército, mas havia algo no fato de liderar um exército escolhido a dedo por Lúcifer que me deixava nervoso, quase como um mau presságio.

Era bem verdade que Miguel, o Príncipe dos Anjos, era um tirano perverso e impiedoso, mas Lúcifer também não era a melhor criatura que o Altíssimo já colocara sobre esta terra e, conforme avançávamos cada vez mais para o norte do Oceano Atlântico, com os raios do sol lançando um brilho dourado sobre as penas chamuscadas de suas asas, eu me perguntava se havia feito uma boa escolha ao me unir a ele. Meu maior desejo era manter Jonah e Loren à salvo das crueldades de Miguel, mas eu não queria colocar em risco a segurança de toda a humanidade por causa disso. Infelizmente, com Lúcifer, era impossível saber até que ponto uma coisa afetava a outra.

– Consegue sentir isso? – Lúcifer perguntou, girando a cabeça levemente para me olhar por cima do ombro. Seus olhos vermelhos faiscavam com uma emoção que era um misto de euforia e contentamento, mas seja lá o que fosse que o estava deixando tão animado, parecia se restringir apenas a ele.

– Não estou sentindo nada. – aumentei a velocidade de minhas asas para poder alcançá-lo alguns metros à frente e mantive meus sentidos alertas – O que exatamente eu deveria estar sentindo agora?

– Você verá. – ele respondeu satisfeito – Nós já estamos bem perto.

– Bem perto de onde? – questionei olhando para os lados.

Tudo o que eu via ao nosso redor eram às águas azuis do oceano e uma pobre gaivota que parecia estar ferida e confusa, então, a menos que nós estivéssemos sobrevoando a cidade perdida de Atlântida, eu não achava que nós estávamos perto de lugar algum.

– Não seja tão impaciente, Azrael. – Lúcifer me olhou de lado e sorriu – Garanto que você não perde por esperar.

– Sobre o que você está falan... – comecei a perguntar, mas parei abruptamente quando um grande redemoinho emergiu do fundo do oceano e se ergueu ao nosso redor, agitando as águas e arrastando-nos para dentro de si.

Instintivamente, forcei minhas asas a se moverem mais rápido, lutando para escapar do centro daquela corrente de água que rodopiava ao nosso redor e que, praticamente, sugava-nos para seu interior, mas parecia que quanto mais eu me esforçava para sair dali, mais aquela força me puxava de volta. Eu nunca tinha visto nada como aquilo antes.

Ao longo de minha existência eu havia presenciado a formação de centenas de ciclones tropicais que foram responsáveis pela destruição de inúmeras cidades e vidas humanas, mas nenhum deles se parecia minimamente com aquilo que estávamos enfrentando naquele momento. Todos os ciclones que eu presenciara haviam se formado no ar, em decorrência da instabilidade da pressão atmosférica, mas este havia simplesmente emergido do fundo do oceano e nos arrastado para dentro dele com uma força que eu nunca havia visto antes. Aquilo não era normal.

– Lúcifer! – girei o corpo para tentar localizá-lo em meio a toda aquela confusão, pois eu tinha certeza que ele estava envolvido naquele acontecimento suspeito, mas tudo o que vi foi a estranha combinação de grandes labaredas de fogo erguendo-se do solo abaixo do oceano e se entrelaçando à torrente de água que rodopiava ao meu redor – Mas o que...?!

Minha frase foi interrompida quando, mais uma vez, senti o meu corpo ser bruscamente puxado para o centro daquele ciclone e, antes mesmo que eu pudesse pensar em uma forma de tentar escapar dali, um berro ensurdecedor ecoou através do redemoinho, obrigando-me a levar as mãos aos ouvidos e fechar os olhos numa inútil tentativa de bloquear o som.

O barulho reverberou através do meu corpo, fazendo minha pele formigar e um zunido insuportável se instalar dentro da minha cabeça, causando vertigem. Senti o meu corpo girar em meio a força daquele furacão oceânico que me envolvia e não soube dizer se eu estava sendo atirado para cima ou para baixo no meio de tudo aquilo, mas quando o barulho finalmente se extinguiu e pude voltar a abrir os olhos, eu já não estava mais sobre o Oceano Atlântico. Estava de volta ao inferno, praticamente ajoelhado no chão diante de um Lúcifer cujo sorriso jocoso parecia não ter fim.

– Admita. – ele disse aproximando-se com passos lentos e uma expressão presunçosa estampada no rosto – Essa foi a coisa mais empolgante que você já fez em toda a sua existência, não foi?

– Eu vou matar você. – reclamei, colocando-me de pé rapidamente para impedi-lo de ficar me olhando de cima – Vou matar você e vou colocar a sua cabeça numa bandeja de prata ao invés da cabeça de Miguel. Espero que esteja ciente disso.

– Ah, não seja tão ranzinza, Azrael. – Lúcifer deu um tapinha em meu ombro e se afastou, caminhando calmamente – Você nem está tão bravo assim e, além do mais, você precisava ter visto a sua cara. – ele riu – Acho que este foi o momento mais divertido de toda a minha existência.

– Vamos ver se ele vai continuar a ser tão divertido depois que eu arrancar a sua cabeça com minhas próprias mãos. – retruquei – O que diabos aconteceu lá em cima, Lúcifer? O que era aquele ciclone ou sei lá o quê que nos arrastou de volta para cá?

– Aquilo era apenas um portal, Azrael. – Lúcifer parou e se virou para mim, revirando os olhos – Santo Inferno. Ás vezes você é tão rabugento... Não sei como a Loren conseguiu se apaixonar por você com toda essa sua falta de humor.

– Ora, cale-se! – resmunguei irritado – Apenas me fale mais sobre esse portal. Existem mais deles por aí ou aquele é o único?

– Existem dezenas deles espalhados pela terra. – Lúcifer respondeu – Alguns são mais sutis e praticamente não causam qualquer perturbação no tecido da realidade, como o portal que nós usamos para ir ao falso funeral da Loren quando saímos daqui, lembra? – eu assenti e ele continuou: – O portal que nós acabamos de usar é o maior portal existente e também é onde a ligação entre terra é inferno é mais tênue. Ele fica no Triângulo das Bermudas. Provavelmente você deve conhecer algumas histórias de navios e aviões que desapareceram naquela área e nunca mais foram encontrados, não é? Geralmente os portais só permitem que seres sobrenaturais, como nós, atravessem a fronteira entre os dois mundos, mas no Triângulo das Bermudas essa fronteira é tão tênue que, às vezes, os humanos também são atraídos para cá.

– Mas o inferno não pode ser acessado por seres corpóreos. – contestei – Não tem como um humano chegar até aqui vivo.

– Eu nunca disse que eles chegavam vivos. – Lúcifer retrucou – Só disse que eles chegavam. – ele deu ombros e voltou à sua caminhada, sem se importar com a expressão de desagrado que se instalou em meu rosto após ouvir suas palavras.

Para Lúcifer, a vida ou a morte de um ser humano era algo irrelevante. Ele não se importava com isso e, sinceramente, houve um momento de minha vida como Ceifeiro em que eu também não me importava. Fazer o meu trabalho e observar os humanos sofrerem e morrerem era como assistir a um filme de terror repetidas vezes: aquilo me incomodou por um tempo, mas, por fim, perdeu a graça e já não me comovia mais. Imagino que se eu não tivesse conhecido Loren durante aquele acidente com seu ônibus escolar e se eu não tivesse me apaixonado por ela, alguns anos depois, provavelmente agora eu seria tão frio e insensível quanto Lúcifer. Felizmente, para mim, Loren havia entrado em minha vida e mudado a minha maneira pensar, livrando-me daquele destino terrível. Eu teria de me lembrar de agradecer a ela depois.

– Sei que você está no seu momento “vamos odiar o Lúcifer” aí atrás e eu realmente detesto ter de atrapalhar isso, mas será que você poderia parar de me julgar por um instante e me acompanhar? – Lúcifer se virou e olhou para mim – Tem umas coisas que eu preciso mostrar a você.

– Que coisas?

– Você verá quando chegarmos lá. – ele respondeu calmamente – Agora, venha. Quanto antes eu te mostrar isso, mais cedo poderei te apresentar aos Lordes.

– Aos Lordes? – franzi as sobrancelhas e Lúcifer riu.

– Miguel tem seus Capitães... Eu tenho os meus. – ele piscou para mim e voltou à sua caminhada rítmica, fazendo sinal para que eu o acompanhasse.

Percebi, logo após os primeiros passos, que aquela não era uma parte do inferno aonde eu já estivera. Ali não havia fogueiras cheias de corpos queimando, nem pessoas sendo abusadas e açoitadas por demônios grotescos e fedorentos. Era apenas um lugar silencioso e sombrio, repleto de abismos escuros e rochas pontiagudas que faziam barulho sob nossos pés enquanto caminhávamos.

– Onde estamos? – perguntei enquanto seguia Lúcifer por um caminho serpenteante e desolado que parecia não levar a lugar algum. Era como se o caminho que seguíamos estivesse coberto por uma neblina escura que nos impedia de ver muito adiante e que só relevava a continuação da estrada conforme nos aproximávamos dela. Além disso, não havia nenhum ruído ali além de nossos próprios passos e eu me perguntava porque aquele lugar parecia tão deserto.

– Você ainda se lembra do que eu lhe falei sobre os Nove Círculos do Inferno? – Lúcifer perguntou sem olhar para trás – Especialmente sobre o último deles?

– Eu me lembro que você mencionou que o último Círculo foi o lugar onde Miguel te aprisionou quando te baniu para o Inferno. – respondi – Nós estamos no último Círculo agora?

– Exatamente. – Lúcifer parou diante de uma grande estrutura rochosa e estendeu a mão para ela, abrindo um largo sorriso – Bem-vindo à suíte presidencial, Azrael.

***

Eu ainda estava tentando absorver o fato de que estava andando livremente pela prisão que Miguel havia criado para ser impenetrável, quando Lúcifer e eu adentramos em algo que se parecia com uma espécie de gaiola, feita exclusivamente de rochas acinzentadas, que ficava suspensa sobre um abismo que parecia não ter fim. Ao nosso redor, a escuridão reinava absoluta e, se não fosse pela presença de Lúcifer ao meu lado, eu poderia facilmente imaginar que estava sozinho no universo.

– Porque esse lugar é tão deserto? – questionei forçando minha visão para encontrar qualquer sinal de luz além das muralhas rochosas que nos cercavam, mas sem encontrar nada – Os outros Círculos que visitamos estavam cheios de demônios e de almas humanas sendo torturas ou queimadas, mas aqui... – fiz um gesto indicando a escuridão a nossa volta – É como se estivéssemos dentro de um buraco negro.

– Achei que você soubesse a resposta para essa pergunta. – Lúcifer respondeu sem humor – Quando Miguel me baniu para o inferno, ele não quis apenas evitar que eu saísse daqui antes do Apocalipse, mas, principalmente, que eu planejasse outra rebelião. Ele sabia que, se me aprisionasse junto aos meus companheiros, nós passaríamos todo esse tempo planejando a nossa vingança e, por isso, decidiu que seria melhor me manter isolado de tudo e de todos. Essas paredes – ele fez um gesto para as rochas ao redor – foram as únicas companhias que tive nos últimos milênios e, fora isso, havia apenas o silêncio e a escuridão.

– Então você passou todo esse tempo sozinho? – indaguei – Ninguém nunca veio até aqui para falar com você ou para fazer o que quer que fosse?

Lúcifer negou com a cabeça.

– Quando criou essa prisão, Miguel garantiu que eu ficasse completamente isolado. Ele criou uma espécie de selo ao redor do Nono Círculo que não apenas me impedia de sair, mas também impedia os outros de entrarem. O primeiro milênio foi uma tortura, mas depois eu me acostumei e, agora, já até considero esse lugar minha verdadeira casa. Quando preciso de silêncio e tranquilidade esse aqui é o meu próprio Paraíso.

– Interessante. – comentei com certo sarcasmo – Mas se gosta tanto daqui porque decidiu sair?

– Ora, Azrael. – Lúcifer pousou as mãos em meus ombros e fixou seus olhos vermelhos nos meus – Um rei pode até gostar de seu palácio, mas ele ainda almeja possuir o reino inteiro, não é? – ele sorriu – Venha. Está na hora de eu responder às suas perguntas.

Lúcifer se afastou e eu o segui através de alguns lances de escada que haviam sido esculpidos nas rochas até o ponto mais alto daquela prisão, onde encontramos uma espécie de urna negra com alguns símbolos dourados grafados ao longo de sua superfície. Após abrir a urna, Lúcifer fez sinal para que eu me aproximasse e desse uma espiada em seu interior e, não sei dizer exatamente o que eu esperava encontrar ali dentro, mas certamente não era um monte de tábulas de pedra velhas e enegrecidas, escritas em uma língua que eu desconhecia.

– O que é isso? – perguntei voltando-me para ele que apenas se recostou, calmamente, em uma das pilastras rochosas que haviam por perto.

– Isso são as suas respostas, Azrael. Você não disse que queria saber como eu trouxe a Loren de volta dos mortos e como eu fiz o Jonah se desenvolver dentro do ventre dela tão rapidamente? Pois bem. Aí está.

– Isso é apenas um monte de tábulas, Lúcifer. Eu nem sei o que está escrito ali. Como isso pode responder às minhas perguntas?

– Ah! Não, não, não, Azrael. Isso não é apenas um monte de tábulas. Isso é o conhecimento. – Lúcifer respondeu como se aquela simples explicação fosse fazer tudo aquilo ter sentido – Você não tem ideia do poder que está diante de você agora.

Olhei para as tábulas enegrecidas e gastas que havia dentro da urna e, depois, me voltei para Lúcifer tentando decidir qual seria o primeiro membro que eu arrancaria de seu corpo, caso ele não começasse a me dar explicações mais claras. Todo aquele mistério estava me deixando irritado e eu não estava a fim de perder o meu tempo tentando desvendar as charadas dele ao invés de estar tentado encontrar uma forma de destruir Miguel.

– Você tem dez segundos para começar a se explicar. – alertei – Depois disso, eu vou trancar metade do seu corpo dentro dessa urna e vou atirar a outra metade no fundo desse abismo. Entendeu?

– Hey! – Lúcifer ergueu as palmas das mãos para mim – Vai com calma aí, Azrael. Eu vou te explicar tudo, está bem? Apenas... Pare de me ameaçar a cada cinco minutos. Está se tornando chato.

– Dez.

– Ok! Está bem. Está bem. Olha só. – Lúcifer respirou fundo e uniu as mãos diante do rosto – Você se lembra da árvore que o Altíssimo tem guardada no Éden, não se lembra? A árvore do conhecimento do bem e do mal?

– Sim. Eu me lembro da Árvore da Vida, Lúcifer. O que tem ela?

– Lembra-se do dia em tentei os humanos a comerem de seu fruto e aí, de repente, eles foram tomados pelo conhecimento e perceberam que estavam nus, etc?

– Você poderia ir direto ao ponto? – pedi – Todo mundo conhece essa história e todo mundo sabe como ela termina.

– Sim, Azrael. Esse é o ponto! – Lúcifer exclamou empolgado – Todos sabem o que aconteceu aos seres humanos depois que eles comeram do fruto da Árvore da Vida e foram expulsos do Éden, mas o que praticamente ninguém sabe é que ao comerem da árvore do bem e do mal, Adão e Eva não adquiram apenas o conhecimento de coisas simples e mundanas, mas também de coisas muito ruins das quais apenas o Altíssimo tinha conhecimento antes.

– E que coisas eram essas? – questionei – Aliás, como você sabe que eles adquiram tal conhecimento?

– Eu ouvi algumas conversas que Miguel teve com Jael e Zarall.

– Os Guardiões da Arca da Aliança?

– Sim. Exatamente. – Lúcifer assentiu – Miguel disse a eles que, ao comerem do fruto da Árvore da Vida, Adão e Eva adquiriram conhecimentos que apenas o Altíssimo deveria ter. Ele também disse que Adão e Eva haviam transcrito esses conhecimentos sombrios em tábulas de argila e que, para o bem da humanidade e do próprio Paraíso, essas tábulas deveriam ser guardadas em um local seguro, assim como a Arca da Aliança.

– Então... – olhei rapidamente para as tábulas dentro da urna e depois me voltei para Lúcifer outra vez – Você está me dizendo que essa tábulas que estão diante de mim agora são as mesmas tábulas onde Adão e Eva transcreveram os conhecimentos sombrios que adquiriram ao comerem da Árvore da Vida? – questionei e Lúcifer assentiu – Mas isso não faz sentido nenhum. – retruquei – No último século Miguel levou para o Paraíso todas as Relíquias Sagradas que ainda haviam na terra e a Arca da Aliança foi uma delas. Os próprios Jael e Zarall a levaram, então, se eles realmente estavam guardando essas tábulas, como você disse, porque não levaram essa urna junto com a Arca já que o conhecimento que há aqui é tão perigoso? Não seria mais correto guardá-la junto com as outras relíquias no Paraíso.

– Seria. – Lúcifer concordou – Mas é aí que está a outra parte interessante da história.

Ele se afastou das pilastras onde estava recostado e se aproximou da urna, abaixando-se para pegar uma espécie de bainha de couro negro que estava junto às tábulas e entregá-la a mim.

– Abra. – pediu.

Mesmo desconfiado, fiz como Lúcifer disse e abri a bainha encontrando, dentro dela, um punhal de cerca de trinta centímetros, que possuía uma lâmina negra de aparência afiada e cujo cabo e a guarda eram prateados e ornamentados com símbolos em alto relevo. Era uma arma muito bonita, principalmente porque sua guarda possuía o formato de asas invertidas, mas eu nunca havia visto nada parecido com aquilo. Nunca havia visto uma lâmina negra como aquela.

– Que arma é esta? – perguntei aproximando o punhal do rosto para poder analisá-lo melhor – Nunca vi nada como isto antes.

– É uma arma negra. – Lúcifer explicou – A única arma do universo capaz de matar um Anjo.

Desviei meus olhos do punhal rapidamente e olhei para Lúcifer, sem me preocupar com o fato de que minha expressão apreensiva pudesse deixar transparecer mais emoções do que eu gostaria que ele visse.

– Está falando sério?

– Totalmente. – ele assentiu – Eu já vi o que essa arma pode fazer. Aliás, você também já viu.

– Vi? – franzi a testa, confuso – Onde?

– Em Gabriel. – Lúcifer respondeu calmamente – Eu ouvi você contar a Loren sobre como você o encontrou ferido na sala de Miguel e sobre como ele parecia ter tido suas asas retalhadas. Acho que todos nós sabemos que nenhuma arma usada pelos Anjos, nem mesmo a temida espada flamejante de Miguel, é capaz de ferir nossos corpos daquela maneira, então, que instrumento você acha que poderia ter sido usado para fazer tais atrocidades contra Gabriel?

Olhei mais uma vez para o pequeno punhal negro em minhas mãos, com seus símbolos em alto relevo e lâmina afiada e, internamente, me perguntei se seria mesmo possível que um objeto tão insignificante como aquele pudesse ter causado tantos ferimentos em um ser tão poderoso quanto Gabriel ou se aquela seria apenas mais uma das mentiras contadas por Lúcifer.

– Como você sabe que Gabriel foi ferido por este punhal? – perguntei – Eu o encontrei no Paraíso e você não pode entrar lá, então, você não tem como saber o que o feriu.

– Você tem razão. – Lúcifer admitiu – Eu não estava com ele no momento em que ele foi ferido, mas eu estava com ele no momento em que retirei este punhal de seu peito e o vi morrer. – Lúcifer disse com seriedade – Eu estava com ele no momento em que sua energia retornou ao seu lugar no universo.

– Do que está falando? – guardei o punhal novamente em sua bainha e olhei para ele exigindo uma explicação – Como assim você retirou esse punhal do peito de Gabriel? E como assim Gabriel está morto?

Lúcifer fixou seus olhos vermelhos em mim e senti meu peito se apertar. Eu mesmo havia cogitado essa hipótese ao conversar com Lorelei apenas algumas horas antes, mas pensar que Gabriel, o Anjo da Profecia, realmente poderia estar morto agora, me abalava mais do que eu gostaria de admitir.

– Há três dias – Lúcifer começou a explicar –, quando o incêndio no Saint Auguste ocorreu e Miguel te baniu para inferno, eu estava bastante entediado e, por isso, decidi gastar o meu tempo caminhando pelo Monte Sinai. Quando pensei a respeito me pareceu que seria uma ironia bastante divertida que eu — justo eu, Lúcifer — estivesse caminhando pelo local onde, segundo dizem, o Altíssimo havia entregue as Tábuas da Lei para Moisés, mas isso não vem ao caso. O que importa é que, durante a minha caminhada, um grande bola de luz cruzou os céus em direção ao topo do monte e, obviamente, eu decidi ir até lá e ver do que se tratava. Quando cheguei ao topo me deparei com Gabriel, bastante ferido e com este punhal cravado em seu peito.

“Eu perguntei a ele o que havia acontecido, mas ele estava tão ferido que quase não conseguia falar. Tudo o que entendi foi que Natanael estava morto e que Miguel havia tentado matá-lo também. – Lúcifer comentou – Cheguei a pensar que ele estava delirando por causa dos ferimentos, porque Miguel podia ser um tirano sem coração, mas eu não acreditava que ele seria capaz de assassinar um dos nossos irmãos.”

– Eu também não teria acreditado. – respondi.

– Eu sei. – Lúcifer concordou – Porém Gabriel me disse que Miguel estava atrás de uma profecia sobre o Apocalipse e que essa profecia envolvia a Loren e você.

– A Loren e eu? – indaguei – Sobre o que falava essa profecia?

– Eu não sei. Gabriel não conseguiu me contar. Ele disse apenas que eu deveria ir até o Mosteiro Grego Ortodoxo, em Jericó, para resgatar a Arca Negra e salvar a Loren. Disse que o fruto que havia dentro dela deveria ser preservado e que eu deveria ajudar você a impedir que Miguel o destruísse. Depois disso, o corpo de Gabriel se transformou em energia e essa energia se dissipou no universo, retornando ao que era antes de sua criação. Ele queria que eu salvasse você.

– Então, foi Gabriel quem pediu que você salvasse a Loren? – perguntei desconfiado – Porque ele faria isso sabendo quem você é e tudo o que já fez contra o Paraíso?

– Talvez porque ele soubesse que não há qualquer criatura no universo que queira a destruição de Miguel mais que eu. – Lúcifer respondeu convicto – Gabriel podia até não confiar em mim para cuidar do Paraíso ou para qualquer coisa desse tipo, mas ele sabia muito bem que, em se tratando de minha sede vingança, não havia nada que ele me pedisse para fazer contra Miguel que eu não faria. E eu realmente fiz. – Lúcifer afirmou – Eu fui até o mosteiro e encontrei esta urna. Algumas das tábulas aqui estão escritas em hebraico por isso pude lê-las. Minha intenção era trazer esta urna para cá e ir até o Saint Auguste para te ajudar com o que quer que fosse, mas quando cheguei lá a Loren já estava morta e você havia sido banido para Inferno. Eu não soube o que fazer, mas aí eu me lembrei do que Gabriel havia me pedido e decidi usar os rituais descritos nessas tábulas para ressuscitá-la e para salvar a vida do Jonah. Eu só fiz o que Gabriel me pediu, Azrael e, agora, eu estou te pedindo que faça o mesmo e que me ajude a acabar com Miguel, pois eu não sei exatamente o que ele está tramando, mas de acordo com o que eu encontrei nessas tábulas, posso afirmar que a minha rebelião não vai ser nada além de uma pequena revolta comparada com o que Miguel está planejando.

– Espere um pouco. – levei a mão até o rosto e apertei a ponte do nariz – Você está me dizendo que Miguel, o Anjo mais próximo ao Altíssimo, não apenas assassinou dois de nossos irmãos, como também está planejando fazer uma rebelião para tomar o Trono de Deus? É isso?

– Sim. É exatamente isso o que eu estou tentando dizer. Miguel planeja tomar o Trono do Altíssimo e também planeja assassinar todos os anjos que não concordarem com ele. – Lúcifer retirou a bainha do punhal de minhas mãos e a ergueu diante dos meus olhos – Essa arma não foi criada por acaso, Azrael e eu sei que há muitas outras armas iguais a esta do lugar de onde esta veio.

– E como você sabe?

– Porque está tudo escrito aqui. – Lúcifer apontou para as tábulas de argila, alterado – Eu li cada uma dessas escrituras nos últimos três dias, Azrael. Há coisas aqui que nenhum de nós poderia ter imaginado que existissem, coisas que o Altíssimo nunca nos revelou, como o ritual de necromancia e a manipulação da vida e do espaço-tempo que eu usei para trazer o Jonah a este mundo. Todas essas tábulas são apenas uma pequena fração do conhecimento de Deus, algo a que Adão e Eva tiveram acesso ao comerem do fruto da Árvore da Vida. Agora imagine, Azrael, se apenas o fruto daquela árvore já possui todo este conhecimento – os olhos de Lúcifer brilharam –, imagine o que Miguel não poderia fazer caso conseguisse roubar todo o conhecimento presente na Árvore da Vida. Ele poderia destruir todo o universo e recriá-lo. Ele poderia se tornar Deus.

– Você também poderia. – retruquei – Tenho certeza que é isso que você almeja ao me pedir que o ajude a destruir Miguel. Você não quer proteger o universo de um tirano. Você só quer roubar o conhecimento da Árvore da Vida para si mesmo.

– Eu juro que esta não é a minha intenção, Azrael. Acredite em mim.

– Eu não acredito em você, Lúcifer. Eu te conheço. – rebati – Eu só não sei se o universo estará em piores condições sob o seu governo ou sob o governo de Miguel.

Sinceramente, parecia que qualquer um dos lados que eu escolhesse levaria o mundo direto para a destruição. Se eu decidisse ajudar Lúcifer a destruir Miguel, ele daria um jeito de roubar o conhecimento da Árvore da Vida e transformar a terra em um inferno. Se eu decidisse não ajudá-lo, Miguel provavelmente concluiria seu plano e transformaria a terra em um império de terror.

Todas as alternativas pareciam levar a destinos terríveis e eu não tinha certeza se poderia evitar que qualquer um deles se tornasse realidade. O tempo, porém, estava correndo tão rápido quanto as areias de uma ampulheta e eu sabia que, se quisesse ter a chance de manter Jonah e Loren em segurança, eu teria que escolher um lado. Eu só não sabia se estava pronto para lidar com as consequências que isso traria.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado do capítulo e que estejam ansiosos pelo próximo ^^ Como podem ver Bryan está no meio de uma "sinuca de bico" entre Miguel e Lúcifer e as coisas só tendem a piorar. Obrigada a todos que estão acompanhando e nos vemos de novo em breve. Beijos e até o próximo.