Killer
26 À Beira do Abismo
Notas iniciais
[Bryan P.O.V.]
Àquela altura eu já estava surtando. Fazia quase um mês que eu perambulava de um continente a outro da Terra, com Sarakiel ao meu lado, e não foram poucas as vezes em que quis atirá-lo de um penhasco, tamanha a irritação que me causava.
Eu estava ciente de que atirá-lo de um penhasco não o mataria – afinal os anjos têm asas e são seres imortais –, mas nada me impedia de imaginar o quão glorioso seria ver Sarakiel despencando de uma montanha como o Everest, nem que fosse por um segundo.
– Quanto tempo mais vamos ter que caminhar?! – Sarakiel reclamou, tropeçado pelo que me pareceu ser a décima vez naquele dia. Era evidente que ele estava mais acostumado a usar as asas que as pernas para se locomover, mas apesar de vê-lo tropeçar nas rochas ser engraçado, aquilo também era irritante, pois, sempre que acontecia, eu tinha que suportar Sarakiel reclamando da situação.
Revirei os olhos e desejei, não pela primeira vez naquele dia, que Miguel tivesse permitido que Natanael me acompanhasse naquela missão. Encontrar uma relíquia que nenhum anjo via há milênios já não era uma tarefa fácil. Encontrar uma relíquia que nenhum anjo via há milênios, tendo Sarakiel como companhia constante era algo ainda pior.
– Sarakiel, você pode fazer o favor de concentrar em nossa busca, ao invés de ficar reclamando da caminhada a cada dez segundos? – exigi – Você sabe muito bem que é impossível voar no meio dessa mata fechada e ficar reclamando não vai ajudar em nada. Precisamos concluir a missão que Miguel nos deu e, quanto antes isso acontecer, mais rápido eu me livro de você e posso voltar a fazer o meu trabalho.
Sarakiel, que caminhava à minha frente, estacou de repente e virou-se para me encarar, quase fazendo com que eu me chocasse contra ele.
– Meça as suas palavras, Azrael! Miguel pode achar que nós lhe devemos algum respeito, mas eu discordo e não vou pensar duas vezes antes de colocá-lo de volta em seu lugar. – ele ameaçou.
Encarei-o por um instante, sentindo minha paciência esvair-se, mas antes que eu pudesse tomar alguma atitude, um grande carvalho que se erguia na beira do rio chamou minha atenção.
Desviei-me de Sarakiel, ignorando-o quando ele começou a reclamar de minha falta de respeito e me aproximei da árvore, observando-a com atenção. Eu tinha certeza absoluta que ela não estava ali alguns segundo antes e carvalhos com aquelas dimensões não costumavam brotar do chão de repente.
Encostei as palmas das mãos em seu troco e, imediatamente, senti o poder que emanava dele percorrer o meu corpo. Aquele, com certeza, era o local pelo qual eu e Sarakile vínhamos procurando há quase um mês e perceber que finalmente o tínhamos encontrado fez com que um leve sorriso se formasse em meus lábios.
– Ele está aqui. – anunciei para Sarakiel que continuava parado a alguns passos de distância, resmungando – O Cajado de Moisés está aqui.
– Nós o encontramos? – Sarakiel parou de resmungar no mesmo instante e encarou o grande carvalho com admiração – Finalmente o encontramos?
Toda aquela jornada havia começado quando recusei o pedido de Miguel para que me unisse novamente ao Exército e reassumisse meu posto de Primeiro Capitão. Em um primeiro instante ele não entendeu o porquê de minha recusa, já que as atividades dos Ceifeiros eram dolorosas e desgastantes e qualquer anjo iria querer livrar-se delas assim que possível, mas quando lhe expliquei que havia me acostumado a ser um Ceifeiro e que havia aprendido a gostar de meu trabalho, Miguel pareceu finalmente começar a entender e a aceitar a minha decisão.
O que ele não sabia e que eu, tão pouco, poderia lhe contar era que minha decisão de permanecer como Ceifeiro não tinha nada a ver com o fato de eu gostar de meu trabalho – o qual, aliás, eu odiava – e, sim, com o fato de que, se eu voltasse para o Exército, nunca mais poderia ver Loren de novo.
Apesar de aceitar a minha decisão de permanecer como Ceifeiro, Miguel pediu que eu lhe fizesse um favor antes de voltar às minhas atividades. Ele me disse que há alguns anos vinha procurando pelo Cajado de Moisés – uma das maiores relíquias sagradas conhecidas – e que gostaria que eu o ajudasse em sua busca.
Eu não sabia para que Miguel precisava do Cajado de Moisés, mas sabia que não seria nada fácil encontrá-lo. O Cajado se perdera na Terra após a morte de Moisés e ninguém mais o tinha visto em milênios. Seria uma busca demorada e tudo o que eu queria era voltar para os braços de Loren, mas não pude me recusar a ajudá-lo. Quando Miguel pedia um favor era o mesmo que dar uma ordem e ninguém seria louco de não atendê-lo. Muito menos eu a quem ele já havia punido uma vez.
Concordei em ajudá-lo e ele delegou a Sarakiel a tarefa de me acompanhar e me auxiliar no que fosse preciso. Partimos quase imediatamente e desejei que Miguel não tivesse mandado Sarakiel comigo.
Se estivesse sozinho eu poderia ter passado no Saint Auguste e explicado à Loren que ficaria alguns dias ausente para encontrar a relíquia que Miguel me pedira, mas com Sarakiel ao meu lado, seguindo-me como uma sombra, eu não poderia sequer pensar em aproximar dela. Seria perigoso demais.
Durante o quase um mês em que vaguei pela Terra a procura do Cajado de Moisés, me perguntei como Loren estaria. Ela havia se mostrado apreensiva com a ideia de eu deixá-la sozinha novamente e eu tinha certeza que ficar sem notícias minhas por tanto tempo devia tê-la deixado ainda mais preocupada, mas finalmente aquele calvário estava terminando.
– Como vamos retirá-lo daí? – Sarakiel perguntou, aproximando-se do carvalho e depositando as palmas das mãos em seu tronco como eu havia feito – É evidente que essa não é uma árvore comum e se o Cajado esteve aqui todo esse tempo e ninguém o levou embora é porque não deve ser fácil pegá-lo.
Sarakiel provavelmente tinha razão, mas aquela árvore era tudo o que me separava de Loren naquele momento e eu não iria deixá-la ficar no meu caminho. Assim que pegasse o Cajado, o entregasse a Miguel e me livrasse de Sarakiel eu poderia voltar para o Saint Auguste e para os braços de Loren. Aquilo era mais que um incentivo.
– Vamos pensar em alguma coisa. – eu disse, decidido.
Retirar o Cajado dali, entretanto, revelou-se uma tarefa bem mais difícil do que eu previra. Ele estava enterrado naquele lugar e, como o poder que emanava dele havia feito crescer aquela árvore, ele estava enroscado em suas raízes de uma maneira que quase nem podia ser tocado. O fato de o carvalho ter sido germinado a partir do poder do Cajado também foi um ponto contra nós. Aquela árvore era mais resistente que muitas coisas que eu já tinha visto e eu e Sarakiel fomos obrigados a escavar suas raízes e ainda levamos quase três dias para conseguir arrancar o Cajado do meio delas.
Quando finalmente conseguimos, parecíamos mais dois garimpeiros que haviam passado o dia inteiro trabalhando na mineração que dois anjos. Usamos a água do rio para nos lavar, embalamos o Cajado em uma manta e seguimos nosso caminho de volta ao Paraíso. Apesar das reclamações de Sarakiel eu fiquei com a posse do Cajado, pois ele era o meu passaporte para a liberdade e eu não queria correr o risco de perdê-lo.
A viagem até o Paraíso pareceu demorar menos que de costume, mas percebi que era apenas porque eu havia perdido a noção do tempo por ter passado a viagem toda pensando em Loren.
Ao chegar, atravessamos os Portões Celestiais rapidamente, sem nem mesmo parar para cumprimentar Galgaliel, e rumamos para o quinto céu, onde encontramos Natanael em seu posto de guarda. Ele já não estava acompanhado dos outros dois anjos que Miguel ordenara que escalasse para aumentar a segurança, então imaginei que o período de reuniões com o Exército tivesse, enfim, terminado.
– Azrael. Sarakiel. – ele nos cumprimento levando a mão ao peito e abaixando levemente a cabeça – Que bom que voltaram. Conseguiram encontrar o Cajado de Moisés?
Desatei das costas a manta que havia amarrado ali para poder fazer meu caminho até o Paraíso e, então, a abri revelando o Cajado a Natanael. Seus olhos se arregalaram no mesmo instante e ele estendeu a mão para tocá-lo, interrompendo o movimento poucos milímetros antes de a ponta de seus dedos encostarem-se a ele.
– É lindo. – disse com evidente emoção – Com esse instrumento o Altíssimo conseguiu libertar o Seu povo do Egito... Nunca achei que o veria novamente depois da morte de Moisés.
– É. Eu também não. – assenti – Mas agora nós precisamos entregá-lo a Miguel. Poderia avisá-lo que estamos aqui?
– Não. – Natanael desviou os olhos do Cajado e os voltou para mim – Desculpe, Azrael, mas Miguel não está. Ele saiu com os quatro capitães e não sei quando volta. Acho que você terá que esperá-lo.
Senti como se tivesse levado um soco no estômago. Eu achei que estava prestes a me reencontrar com Loren, mas se Miguel tinha saído e levado seus quatro capitães consigo, certamente estaria resolvendo um assunto sério e demoraria a voltar. Esperá-lo, significava passar ainda mais tempo longe de Loren, algo que eu já não aguentava mais.
Eu queria tê-la em meus braços novamente. A noite que tínhamos passado juntos tinha ardido em minha mente durante todo aquele tempo que passei sem vê-la e eu não queria ter de suportar mais um único dia longe de seu beijo. Eu precisava dar um jeito nisso.
– Miguel não disse aonde iria? – perguntei enquanto cogitava a ideia de ir até ele, seja lá onde estivesse, e lhe entregar o Cajado.
– Não. Mas, mesmo que tivesse dito, não acho que ele iria querer que você levasse o Cajado até lá. – Natanael respondeu, decifrando minhas intenções – Vocês acabaram de encontrá-lo. Miguel não iria querer correr o risco de perdê-lo em uma possível batalha.
– É. Eu imagino que não. – praticamente grunhi.
Enrolei o Cajado na manta novamente e fiquei observando-o com uma expressão de derrota. Eu estava tão perto de voltar para Loren... Mas enquanto não entregasse o Cajado a Miguel teria que ficar ali, apenas me perguntando como ela estaria. Era como se o destino estivesse fazendo questão de dificultar as coisas para nós e, bem, eu sabia que ele tinha um motivo para fazer isso – afinal o meu amor por Loren era algo completamente proibido –, mas isso não significava que eu conseguia aceitar aquela situação de bom grado.
– Você parece preocupado, Azrael. – Natanael tirou-me de meus devaneios – Algo o incomoda?
Ergui os olhos para ele lentamente e soltei um suspiro profundo.
– Um pouco. Encontrar essa relíquia foi complicado e eu já estou afastado de meu trabalho a algum tempo. – expliquei, tentando soar o mais sincero possível – Esperar por Miguel só vai me atrasar ainda mais e não posso deixar tudo nas mãos de Lorelei. Às vezes ela é meio cabeça de vento. Você sabe.
Natanael assentiu e, ao meu lado Sarakiel soltou uma risada sarcástica.
– Ora, Azrael. – ele encostou-se a uma das colunas da Armada e cruzou os braços em frente ao peito – Não me diga que Lorelei é ainda mais inútil que você? Achei que isso nem era possível.
Desviei minha atenção para ele e o encarei. Minha paciência para os insultos de Sarakiel já tinha acabado há muito tempo e era hora de colocar as coisas em seus devidos lugares.
– Sabe, o que é engraçado? Ouvir você falando sobre inutilidade quando, se bem me lembro, Sarakiel, você só se tornou o Primeiro Capitão do Exército porque eu me tornei um Ceifeiro e você era um grande puxa saco de Miguel. Você não acha ruim estar sempre em segundo lugar quando se trata de mim? – questionei com uma ponta de humor na voz – Em seu lugar eu me sentiria verdadeiramente envergonhado.
Sarakiel cerrou os punhos e estreitou os olhos para mim.
– Já disse para medir suas palavras, Azrael! – ele exclamou furioso – Você não tem ideia de com quem está falando.
– Ah, é? – abri um sorriso desdenhoso apenas para irritá-lo mais – Então porque você não me mostra, Sarakiel? Estou louco para descobrir com quem eu estou falando porque, no momento, o que vejo na minha frente não é nada além de um monte de lixo.
Sarakiel avançou em minha direção e me preparei para o confronto. Ceifeiro ou não, eu sabia Sarakiel não era mais forte que eu. Ele podia ter o título de Primeiro Capitão do Exército agora, mas sua força ainda era a mesma de quando era Segundo Capitão, assim como a minha ainda condizia com o meu antigo título. Eu era o primeiro anjo abaixo de Miguel e sempre seria. Se Sarakiel queria briga, ele teria.
– Já chega! – Natanael se postou entre nós rapidamente, sacando sua espada – Vocês já provaram que são durões, agora parem com isso! – ele se voltou para mim – Geralmente Miguel não gosta que entrem na sala dele sem permissão, mas tenho certeza de que ele não se importará se você entrar e guardar o Cajado lá, Azrael. Eu posso acompanhá-lo, se necessário.
Desfiz-me de minha postura agressiva instantaneamente. Se havia algo que eu queria mais que ensinar uma lição a Sarakiel, era me livrar daquele cajado e voltar para Loren.
– Eu agradeceria muito se me acompanhasse, Natanael. – respondi, tentando impedir que um sorriso ansioso se formasse em meus lábios.
Natanael assentiu e então se virou para Sarakiel.
– Sendo um membro do Exército você também está dispensado hoje. – disse – Azrael vai entrar comigo e deixaremos o Cajado de Moisés em segurança na sala de Miguel. Sua missão está completa. Pode ir.
Sarakiel ainda me encarou por um momento, seus olhos faiscando de raiva, mas por fim pousou o punho sobre o peito e depois se afastou. Eu tinha certeza que ele não deixaria aquela história acabar ali, mas não estava preocupado. Naquele momento só o que me importava era ver Loren de novo.
– Siga-me. – Natanael virou-se em direção a porta de entrada da Armada, guardando sua espada novamente na bainha – Vamos acabar logo com isso e, assim, você estará dispensado também.
– Esplêndido! – exclamei permitindo-me sorrir agora que Natanael estava de costas para mim.
Nós seguimos apressados pela sala de reuniões da Armada Celestial, que parecia ainda maior sem todos os milhares de anjos do Exército para ocupá-la. Natanael escancarou as portas da sala de Miguel e gesticulou para que eu entrasse.
– Pode deixá-lo na mesa. – instruiu-me – Eu trancarei a porta assim que sairmos e ficarei de guarda, lá fora, até Miguel voltar. Garanto que o Cajado estará seguro aqui, Azrael.
Assenti e entrei na sala, dirigindo-me à grande mesa de vidro que Miguel mantinha próxima à parede de vidro que separava sua sala do imenso oceano do sexto céu. Aquela vista sempre me impressionava e me permiti perder alguns segundos contemplando-a, antes de depositar o Cajado com cuidado sobre a mesa.
Já estava de costas, voltando para junto de Natanael na porta, quando ouvi um ruído metálico ecoar pela sala e me virei novamente a tempo de ver um borrão passar pela janela, despencando rumo ao oceano lá embaixo.
– Mas o que...?! – ouvi Natanael exclamar atrás de mim.
O barulho de um corpo se chocando contra água preencheu o ambiente um segundo depois e, tanto eu quanto Natanael, corremos em direção à parede de vidro da sala de Miguel.
Como eu estava mais próximo fui o primeiro a chegar e espalmei as mãos sobre a parede de vidro tentando ver o que acontecia no oceano lá em baixo. De início não vi nada além das ondulações da água, mas então uma asa branca surgiu ali, agitando-se de maneira desesperada, antes de voltar a afundar.
– Aquilo era um anjo?! – Natanael perguntou assustado.
A asa voltou a emergir das águas escuras do oceano do sexto céu e, dessa vez, não pensei muito. Corri até a mesa de Miguel, agarrei uma das cadeiras que havia ali e a lancei contra o vidro, fazendo-o se estilhaçar.
– Santo Deus, Azrael! – Natanael gritou levando as mãos à cabeça. Estava tão nervoso que nem percebeu que havia acabado de pronunciar o nome do Deus em vão – Miguel vai surtar quando vir o que fez!
Era provável que Miguel surtasse mesmo. Eu sabia que sempre que alguém precisava se dirigir ao sétimo céus ele usava seus dons para remover aquela parede de vidro e passar, mas eu não tinha os dons de Miguel e nem tempo para esperá-lo voltar e fazer sua mágica. Havia um anjo lá embaixo e eu precisava passar, então criei minha própria porta.
– Fique aqui. – ordenei para Natanael e então me lancei em direção às águas escuras lá embaixo.
Assim que meu corpo estava fora da sala de Miguel, senti o poder desorientador que envolvia o sexto céu me atingir. Abri as asas e sacudi a cabeça para limpar os pensamentos, mas foi inútil. Eu sabia que quanto mais tempo permanecesse ali, mais desorientado ficaria, então precisava agir rápido.
Sobrevoei a área onde as ondas causadas pela última aparição do anjo se agitavam e esperei que até que ele emergisse de novo. Não demorou muito e assim que o avistei, voei em sua direção e, com esforço, consegui agarrar seu braço e puxá-lo para cima.
Assim que o corpo do anjo estava fora da água e pude vê-lo direito, estremeci.
– Gabriel? – perguntei quase com um sussurro e a única resposta que obtive foi um suspiro sôfrego.
Gabriel estava sem blusa e uma corrente negra envolvia o seu tronco, prendendo uma de suas asas e impedindo-o de conseguir voar. Percebi que as penas de suas asas estavam ralas e machucadas em alguns pontos e, por baixo da corrente que prendia seu corpo, pude ver vários ferimentos negros, como necroses.
Eu nunca tinha visto um anjo ferido em toda a minha existência. Quando estávamos em nossa forma angélica era impossível nos ferir e, mesmo quando assumíamos a forma humana, nossos ferimentos cicatrizavam quase instantaneamente. Ver Gabriel naquele estado era assustador.
Tomado por pavor súbito, tratei de voar ainda mais rápido de volta a sala de Miguel e, com a ajuda de Natanael, consegui colocar Gabriel lá dentro e deitá-lo no chão.
– O que aconteceu com ele? – Natanael perguntou tão assustado com o estado de Gabriel quanto eu.
– Não sei. – respondi apenas e me concentrei em desenrolar as correntes que prendiam seu corpo – Calma. Vai ficar tudo bem, Gabriel. – tentei tranquilizá-lo.
As correntes estavam apertadas em seu corpo e tive certa dificuldade para retirá-las. Na última volta percebi que a corrente estava enrolada na base de uma de suas asas e para tirá-la dali precisei puxá-la com um pouco mais de força. Gabriel urrou de dor e a corrente pressionou a palma de minha mão esquerda, abrindo um pequeno corte nela que ardeu como o inferno.
– Mas que diabos é isso? – gritei pressionando o ferimento, sem me preocupar com o fato de que estava amaldiçoando na casa de Deus.
Natanael pegou a corrente do chão e a ergueu, observando-a com atenção. Seu cenho estava franzido enquanto ele analisava o objeto com cautela e eu já estava prestes a gritar com ele para se apressar em seu veredito, quando a mão de Gabriel agarrou o meu braço.
– Miguel sabe. – ele disse com dificuldade – Você precisa ir, Azrael.
Minha atenção se voltou novamente para ele, que me encarava com uma expressão de dor e de súplica ao mesmo tempo.
– Do que está falando, Gabriel? – perguntei segurando sua mão, confuso.
– Loren. – ele sussurrou – Miguel sabe sobre vocês, Azrael. Ele foi atrás dela. Você precisa ir salvá-la.
Eu devo ter congelado ao ouvir as palavras de Gabriel, pois ele segurou o meu braço com mais força e lhe deu um puxão para me trazer de volta de volta de meu transe.
– Vá agora, Azrael. Você não tem tempo.
Aterrorizado, apenas assenti para Gabriel e me coloquei de pé.
– Cuide dele. – gritei para Natanael, antes de correr porta a fora.
Se Miguel sabia sobre o meu relacionamento com Loren e tinha ido atrás de dela, então Gabriel tinha toda razão. Eu não tinha tempo.
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