Ketsueki no Omoide
7 Seishitsu
Notas iniciais
O que realmente demorou foi escrever, eu prefiro esperar, e escrever quando estou animado, do que fazer algo na coxa pra postar aqui, sabe?! Priorizo muito a qualidade do que escrevo, por isso, aproveitem!
Sakura tremia descontrolada, as lágrimas que vertiam dos seus olhos parecia um rio, não paravam de cair. A expressão dela estava tão travada, tão gelada, que nem mesmo se mexer ela conseguia, apenas tremer. Aquilo arrancou um sorriso dele.
O ninja de cabelos louros e olhos avermelhados se aproximou a passos lentos e silenciosos, caminhando ao redor da shinobi rosada. Num ritmo propositalmente lento, ele se aproximou dela, pelas costas, até que sua cabeça estivesse poucos centímetros acima do ombro da garota, seus lábios roçavam suavemente o lóbulo da sua orelha, e ele sussurrou, a voz saiu baixinha, sibilante, permeada a cada som com crueldade, diversão, e um toque de insanidade. Era a voz de um demônio, e por isso mesmo, enlouquecidamente tentadora.
-O que esta esperando? — ele perguntou, sorrindo enquanto um arrepio passou pela coluna dela.
Sakura não respondeu, não conseguia pensar com clareza suficiente pra isso. Olhou pra baixo, e viu a grama tingida de vermelho, metros e metros ao redor dela. Suas mãos também estavam vermelhas.
-Mate-a...
Ela tornou a olhar ao redor, com os sentidos entorpecidos por uma mistura de medo, terror, e prazer. Ela estava bêbada de tesão, ao sentir aqueles lábios roçando o seu pescoço, as mãos ágeis passeando pela sua cintura, o hálito fresco dele tão perto da sua boca. Mas também estava com medo, estava aterrorizada pelo que estava fazendo, pelo que tinha conseguido fazer. Nunca tinha pensado naquilo realmente, e agora que se via diante de tantos cadáveres, quase não conseguia segurar o fino traço de sanidade que lhe restava. Seus sentidos registravam com a clareza de um shinobi todos os detalhes ao redor, embora não com tanta clareza quanto o daquele garoto, mas mesmo assim, sua mente estava vazia. Só um branco enorme, sem escolhas, sem nada.
-Ela esta implorando... — ele disse, devagar, rindo baixinho e soprando mais do seu hálito nela, a fazendo ficar com os olhos ainda mais vagos, hipnitizada — Tenha piedade, acabe com o sofrimento dela.
A garota que estava no chão não disse nada, apenas encarava sem nenhuma expressão o rosto daquele louro, e daquela rosada, os cabelos deles tinham cores fortes e chamativas, juntos daquela forma, aquilo ficava ainda mais evidente, mas isso passou como um flash rápido pela mente dela. O hitaiate da grama estava rasgada, caído no chão. As roupas estavam imundas, sujas de sangue, terra e esperma. Seu sexo doía, seus seíos ainda pequenos estavam arrangados e inchados, cheios de hematomas. Ela estava quebrada por dentro, toda sua determinação, sua vontade de viver, estava tudo feito em pedaços. Se não estivesse naquela situação, teria tentado impedir. Teria gritado, dito que queria viver, que queria correr, que não queria ser morta. Ela não estava implorando, apenas estava calada. Queria desmentir o que aquele shinobi dizia, mas não tinha vontade de fazer isso. Só queria dormir. Se não estivesse naquela situação, poderia até ter notado o quão bonito ele era, ou como seu chakra era assustador, mas ela apenas fechou os olhos.
As mãos de Sakura estavam vermelhas, parte do sangue era dela, o resto se misturava com o seu. Não deveriam realmente, mas ela quase podia distinguir o sangue mais escuro e coagulado dela, com o mais claro, quente e ainda vivo que lhe molhava as vestes. Sentiu um calor percorrendo sua espinha, Naruto lambia lentamente o sangue que espirrara em seu rosto.
-Faça...
Ela engoliu em seco, respirando fundo inconcientemente. Fechou os olhos e, com força, abaixou a kunai, a última coisa que sentiu foi calor, mais um esguicho de sangue no seu rosto, então caiu inconciente.
Alguns dias antes...
Yugao bocejou, sentada no alto de uma das enormes vigas de madeira do enorme portão principal da vila oculta da folha. Ainda estava de manhã, mas logo seria hora do almoço, e se o lourindo demorasse muito pra chegar, iria ter que esperar ela almoção. A Anbu bufou com esse pensamento, levemente irritada simplesmente por pensar nisso. Nessas últimas semanas, tinha se irritado muito com aquele garoto. Talvez "irritar" não seja a palavra certa, ela estava mais é frustrada por ele. Achava que o conhecia melhor do que ninguém, mas nesses últimos dias, não o reconhecia mais.
Não que fosse algo ruim, pelo contrário, estava orgulhosa dele, mais orgulhosa do que podia dizer, e isso a irritava, ele a surpreendia, e ela não sabia o que fazer com isso, as vezes sorria como boba pensando em quão forte seu otouto estava se tornando, ora ficava com vontade de bater nele. Nesse momento, estava com vontade de fazer isso. Não da pra colocar em palavas mais nexas os pensamentos dela, eles mesmos não tinham nexo. Ela estava simplesmente com vontade de abraça-lo e bater nele ao mesmo tempo.
Ainda se lembrava de quando tinha se formado gennin, com apenas onze anos de idade, dois anos antes dos outros alunos da sua turma. O próprio Hokage viera até ela, com um embrulho nos braços, e disse quer por muito tempo, aquela seria sua principal responsabilidade. Quando o pegou no colo, e tirou o pano da frete, deu de cara com o rostinho redondo e risonho de um bebê. Ele estava dormindo, mas enquando ela o encarava, acordou. Ficaram se olhando por alguns instantes, ignorando o velho ao lado, até que o bebê riu e puxou seus cabelos roxos, tentando morde-los. Ele tinha cabelos ralos tremendamente amarelos, como os do seu pai, e as mesmas feições bobas da sua mãe. Yugao os conhecia, e os admirava, por isso não ficou tão irritada em ter que cuidar daquele pirralho, mesmo que ele tenha trazido a elas muitos problemas, desde os mais simples e até engraçados, como acordar no meio da noite, e abrir o berreiro, ou então engatinhar até a sua cama e ficar puxando suas cobertas, até ter sido expulsa de casa, por estar cuidando do demônio raposa.
Ela não o culpava por isso, seus pais não sabiam que ele era o filho do Yondaime, e também não eram shinobis, não entendiam o que era ser um jinchuuriki, não compreendiam a dor, a responsabilidade e a solidão que te traz ter um demônio selado no corpo, ainda mais por ser o demônio que tinha matado seu aniki, o primogênito dos seus pais. Pra eles, a Kyuubi estava dentro daquele garoto, e isso fazia dele um demônio. Simples assim. O que o Hokage lhe disse naquele dia era mesmo verdade, a ignorância levava ao ódio, muito mais que a raiva ou qualquer outra coisa.
No começo, apesar de admirar seus pais, ela também não gostou dele. Ter que cuidar daquele garoto causou muitos problemas a ela, perdeu todo o contato com os seus pais, e era tratada como uma traidora pelos moradores idiotas daquela vila. JNão que ligasse muito pra eles, mas amava seus pais, e vê-los a renegando daquela maneira por isso era doloroso. Pensou várias vezes em maneiras de se livrar dele, mesmo que tivesse que mata-lo, mas nunca conseguiu fazer mais do que planejar maneiras que com certeza falhariam. Apesar dela não gostar dele, ele parecia adora-la. E com o tempo, ela passou a ama-lo, como um filho, ou no mínimo, como um irmãozinho mais novo. Por isso se ressentia que ele não se lembrasse dela, se ressentia do Hokage por tê-lo tirado dela.
Ainda assim, continuava a cumprir aquele papel, vigiar e observar aquele garoto, cuidando pra que não se machucasse muito, pra que não morresse. O viu crescer sozinho, sem ela pra cuidar dele, e chorou com isso várias vezes, depois o viu entrar na academia, e era um desastre. Ria de cada palhaçada que ele fazia, até aquele dia, quando Iruka fez aquela prova de lançamento de shurikens. Lembrar daquele dia a irritava, a partir daquele dia, não sabia mais quem era aquele garoto.
Ele sempre tinha sido um desastre, não mostrava ter talento pra ser shinobi, mas de uma hora pra outra, era como se fosse outra pessoa. Os gestos, o olhar, a voz, até o cheiro dele mudaram, de uma hora pra outra. Apesar de acolhedora, a presença e o chakra dele tinham um traço sinistro, assustador, parecido com o chakra do próprio Hokage. Era o chakra de um shinobi experiente, só que era mais que isso, tinha algo ali que ela não reconhecia.
E então, ele encontrou aquela espada. Aquele lamina lendária que o Yondaime tinha trazido de uma guerra, e nunca tinha usado. De uma hora pra outra, apenas algumas horas que ela se ausentou, ela tinha aparecido com ele, escorada ao lado da sua cama, linda como ela se lembrava. Imaginou se deveria levar ao Hokage, mas por fim resolveu deixa-la com ele. Se Naruto conseguiu pega-la, se podia porta-la, ela deveria ficar com ele. Ela também sempre tinha sido contra o maldito conselho dos moradores. Deixou a espada sobre sua cama, e ficou o observando dormir. Dormindo ele era o mesmo de sempre, o mesmo Naruto que tinha dormido no seu colo quando era um bebê, o mesmo garotinho risonho que ela conhecia, não aquele cara extraordinário e surpreendente que ele tinha se tornado. Riu com isso, se não soubesse, diria que estava apaixonada por ele.
Por isso mesmo seria um saco ter que fazer aquela missão. Depois de tanto tempo que tinha se mantido oculta, até que ele se esquecesse dela, falar com ele de novo seria assustador, ela não sabia como faria isso, e só faltavam... Bem, não faltava nada, na verdade, ele já estava bem atrasado...
-AAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!! — um grito, muito abaixo dela, quase a fez perder o equilíbrio, tão perdida estava nos seus próprios pensamentos — Onde esta o Naruto-kun, por que ele sempre demora tanto?!
O jeito que ela gritou, quase pulando de impaciência, e depois falou chorosa a fez rir, aquela garota era muito estranha, muito mais escandalosa que o Naruto que ela conhecia.
-Sasuke-kun! — ela apontou o dedo pra ele, que ergueu uma sobrancelha sem entender — Não esta preocupado com ele?!
-...Não.. — ele disse, depois voltou a encarar o céu, enquanto a rosada andava em círculos resmungando inconformada, parecia a beira de um ataque de nervos.
-Fique quieta — o Uchiha disse, depois de uns cinco minutos que ela estava andando em círculos feito uma mula — Nada aconteceu com ele...
-Como você sabe?! — ela disse, estava um pouco mais que nervosa — Ele pode ter sido atacado, ou pode estar doente, ou pode ter sido sequestrado, ou...
-Sakura, cale a boca... — ele tornou a dizer, com o tom de voz cansado — É do Naruto que estamos falando, ele vai chegar daqui a pouco, dizendo que teve que ajudar uma velhinha com as compras...
-Isso é o que o Kakashi-sensei diz...
-Provavelmente ele vai dizer que estava ajudando o Kakashi-sensei com as compras...
Yugao riu.
-Mas...
-Apenas cale a boca e espere sentada, logo ele vai estar aqui...
-Você confia bastante nele... — ela respondeu, se sentando perto dele, segurando os joelhos. O tom de voz mudara de uma hora pra outra, e isso, mas a pergunta, fizeram o Uchiha gaguejar um pouco confuso.
-Ele é um chunnin — ele disse, olhando pro outro lado — É bem mais forte que você, não precisa se preocupar...
-Ahh... é mesmo! — Sakura rspondeu, sorrindo de orelha a orelha, fazendo o garoto gaguejar confuso de novo. Ela era tão desconcertante e surpreendente quando o Naruto, só que de um jeito mais bobo, e não assustador...
Sasuke ia dizer alguma coisa, mas seja o que for morreu na sua garganta quando ele olhou pra frente de repente. Yugao acompanhou seu olhar, e viu um vulto se aproximando rapidamente por cima dos telhados, era Naruto com certeza. Se surpreendeu por aquele pivete tê-lo notado antes que ela, ainda mais por que conhecia o cheiro e o cakra dele melhor do que o seu próprio, se bem que ultimamente, parecia que ficava cada vez mais diferente. Ele corria elegantemente, por cima dos telhados, pulando como um felino de um para o outro, uma mão atirada pra trás, pela força do vento, e a outra segurando a bainha branca da Harusame, os cabelos chicoteavam na sua nuca, mais compridos do que o normal, e os olhos azuis que ela conhecia tão bem estavam fixos... Nela.
Yugao engoliu em seco, mesmo se movendo daquela forma, ela conseguia ver com clareza cada detalhe daqueles olhos, a forma como a pupila se afunilava levemente conforme ele fixava o olhar em algo, ou o azul passando pra vermelho, e voltando pra azul em certos momentos. As suiças dele se curvaram ferozmente, quando ele parou a frente do gruto e sorriu, dizendo:
-Yo, desculpe pela demora, é que eu...
Ele não terminou de falar, Sakura se jogou encima dele, falando tantas coisas e tão rápido que nem mesmo ele devia conseguir entender. Ela o abraçou, e depois começou a chacoalha-lo pela camiseta, a beira das lágrimas, até que outra presença apareceu de frente ao portão, e ergueu a rosada do chão. Ela encarou a garota de cabelos negros com uma seriedade meio engraçada, encolhendo as pernas e parecendo um filhotinho de gato preso pelo cangote.
-Não chacoalhe o Naruto-sama desse jeito... — ela disse, olhando fixamente pra ela. Naruto sorriu largamente, e cruzou as mãos na nuca, relaxado como se estivesse no banho.
-Solte-a Haku, ela só estava brincando.
Ela a soltou imediatamente, depois de alguns passos pra trás, se colocando ao lado direito, um pouco atrás do louro. Ele costumava ser baixinho até alguns meses atrás, mas ultimamente, estava maior que todos eles, alguns centímetros mais alto que o Sasuke. Haku e Sakura tinham a mesma altura, e Yugao desconfiava que logo até mesmo ela teria que olhar pra cima pra encontrar aqueles olhos.
-Yo, Onee-san! — ele acenou com um braço, sorrindo marotamente. O Uchiha se levantou, e Yugao se soltou da viga, caindo silenciosamente atrás dele, estava um pouco nervosa, curiosa, irritada e contente por ele tê-la chamado de irmã. Na verdade, ainda estava confusa e distraida demais pra facilitar uma descrição.
-Naruto-kun, Sasuke-kun, Sakura-kun... — ela comprimentou os três, depois olhou pra Haku por um longo momento, a examinando... Não gostava que outra garota que não dela ficasse tão perto do seu otouto, ainda mais uma que estivesse tão atenta e disposta a protege-lo como ela estava. Se alguém fosse proteger aquele garoto, tinha que ser ela — Quem é você ?
O louro riu baixinho, caminhando pra frente, enquanto Haku e Yugao ainda se encaravam por um longo momento. Antes que ela pudesse dar uma resposta, diga-se de passagem, mal educada, ele interveio:
-Seja gentil, Haku — ele sorriu ternamente pra ela, depois pra Yugao — Ela é uma pessoa muito importante pra mim...
A ANBU engoliu em seco, gaguejando alguma coisa, mas nada coerente que valesse ser relatado. Já Haku suspirou, depois fez uma profunda mesura pra kunoishe:
-Desculpe pelos meus mals modos, Kunoiche-san...
-O m-meu nome é Yugao — ela gaguejou, meio incerta do que deveria dizer, e logo depois quiz se chutar por ter dito algo tão estúpido.
-Hai, desculpe. Yugao-san...
-Que bom! — Naruto disse, depois riu — Vocês logo vão se tornar amigas!
O moreno limpou alguma coisa, chamando a atenção do louro, que olhou pra ele, e sorriu, dessa vez um sorriso de canto:
-Yo, você também esta aqui, Sasuke?
-Baka! — ele disse, meio envergonhado — Eu estava aqui desde o começo.
-Hai hai... Onee-san, acho que está com a missão, não?
Yugao acordou do transe em que estava, e caminhou a passos lentos até ele, tirando um pergaminho do colete e entregando a ele. Agradecia pela máscara esconder suas expressões, por que não confiava no seu profissionalismo perto dele.
-O sandaime-sama me disse pra acompanha-lo em todo o transcorrer da missão — ela disse, tentando deixar a voz neutra, não estava dando muito resultado — Mesmo que estejam em perigo, não vou ajuda-los, fica tudo por sua conta.
-Hai — ele disse, agora seriamente, pegando o pergaminho dela, e o abrindo. Seus olhos correram de cima abaixo tão rapidamente que ela duvidou seriamente que ele tivesse lido sequer uma linha, antes de guardar dentro do próprio colete, que usava por cima da camiseta cavada.
-Não parece nada muito complicado — ele disse, e a kunoiche levantou uma sobrancelha — Mas vamos ter que viajar até o país da grama, vai levar alguns dias.
-Qual a formação, Taicho? — Sasuke perguntou, um pouco debochado, mas nada ofensivo, tanto que o louro riu com ele. Sakura estava quietinha no seu canto, apenas prestando atenção em tudo, assim como Haku.
-Você vai na frente, assim pode prever ataques inimigos, e contra-atacar em primeiro caso. Sakura vai logo atrás, pra te dar qualquer assistência necessária, e eu vou atrás, pra cuidar das emboscadas. Alguma dúvida?
-Hai — Sasuke tornou a dizer, dessa vez estava completamente sério, pensativo — Você usa battou, além de ser um sensor mais sensível que eu. Não seria mais efetivo que fosse na frente.
Naruto abriu um sorriso rasgado de orelha a orelha.
-Tem toda razão — Yugao imaginou que ele fosse trocar a ordem da formação, imaginou várias coisas, desde ele ter se confundido, até aquilo ser um teste pro Uchiha, mas nenhuma das suas suposições passou nem perto do que ele disse a seguir — Essa seria a melhor formação, se não fosse um outro fator...
-Que fator seria esse?
o louro andou até onde a rosada estava, e passou um braço pelo seu ombro, sorrindo e apontando com a outra mão pra ela, que estava levemente corada e sem fala.
-A Sakura. A proteção dela é uma das prioridades dessa missão, por ser a nossa única kunoiche médica.
Ele ergueu uma sobrancelha, e Sakura passou de levemente à terrivelmente corada.
-Ela é uma médica?
-Claro! Não é mesmo, Sakura-chan?
-H-Hai... — ela disse, olhando pra baixo. Depois ergueu os braços, e gritou com força — EU VOU DAR O MEU MELHOR!
Naruto ignorou aquilo, apenas rindo tranquilamente enquanto Sasuke resmungava algo sobre ela ser mais escandalosa que o chunnin.
-Enquanto estavamos no país das ondas, disse a Sakura que seria legal se ela aprendesse um pouco de medicina ninja, ela tem um chakra muito refinado, e um controle muito bom sobre ele. Acabou que consegui aprender todos os jutsus básicos que eu conhecia numa tarde só.
-Numa só?! — O Uchiha arqueou uma sobrancelha, depois bufou irritado — Preciso de mais treinamento...
-Hai...
Não diga "hai" assim tão tranquilamente!
-Hai.....
Ele cerrou os punhos, parecia pronto pra acertar um soco nele, que só sorria, de olhos fechados. Haku e Yugao olhavam a discussão inofensiva dos três com mais ou menos a mesma expressão, só que eu não tenho um nome exato pra ela.
-Além do mais... — o louro disse, sorrindo de canto, de um jeito quase diabólico enquanto encarava o Uchiha — Você vai ter que ficar ao lado da Haku, ela também é boa pra interceptar ataques...
-Concordo! — ele disse seriamente, mas tão rápido que acabou ficando engraçado.
-Já que estamos acertados, vamos logo! — ele disse.
-Hai, taicho! — Sakura e Sasuke soaram uníssono, enquanto Yugao usou o shunshin, pra se deslocar até o galho mais próximo, e acompanha-los enquanto corriam, se distanciando cada vez mais de Konoha.
"Essa vai ser uma longa missão... — ela pensou"
Sasuke se sentou sozinho, enquanto Naruto e Sakura se distanciavam do acampamento, ele não entendia por que dele querer leva-la sozinha, encarar aquilo talvez fosse pesado demais pra ela, mas não iria questionar uma ordem direta, ainda mais ele tendo dito de uma forma tão irredutível. Não gostava de assumir, mas só focar nos olhos dele por algum tempo já o fazia se arrepiar de medo e expectativa, a presença dele era muito grande, quase como se uma aura invisível o rodeasse, e o esmagasse, dificultando sua respiração. Se fosse fazer uma comparação, a melhor que o moreno teria seria com seu irmão mais velho. Olhar pra ele, naquele dia em que tinha matado seus pais também tinha sido difícil.
Ele pegou um graveto, quase completamente carbonizado e o usou pra atiçar mais ainda as chamas. Poderia ter assendido ela com katon, mas Naruto insistiu pra que aprendessem a fazer isso usando pedras comuns. Ele nunca tinha visto nada tão entediante na vida, mas o louro batia as pedras uma na outra, acendendo lentamente os galhos secos com parcas faíscas como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Sakura olhava aquilo na dúvida, mas só pelo olhar dele acabou achando interessante, de forma que ele ficou recostado numa rocha, olhando sem nenhuma expressão a expressão esquisita que a rosada ostentava. Ela parecia ter facilidade pra combinar sentimentos completamente distintos em expressões esquisitas, como confusão e interesse, vergonha e graça, as vezes até mais de duas, e o pior é que ele se pegou pensando que ela ficava muito fofa quando fazia aquilo.
Logo depois, o taichou se levantou, dizendo pra Sasuke montar guarda ali, e monitorar os arredores com o sharingan de minuto em minuto, aquela parte da missão ele queria fazer a sós com a Sakura. Ele não entendeu de início, mas um olhar sério dele o fez compreender, e ele se calou. Não por medo, ou talvez por isso mesmo, mas não por ele. Estava mais era assustado, e ansioso, preocupado e temeroso do que fosse acontecer dali em diante, e um pouco pensativo, passar por aquilo não seria fácil pra uma garota tão infantil como ela ainda era, e ela nem parecia se dar conta do que estaria acontecendo.
Os pensamentos difusos de Sasuke foram ficando cada vez mais longe, voltando ao passado, e pensando no futuro, até que ele sacudiu a cabeça pra espanta-los. Estava prestes a monitorar o acampamento de novo, quando uma coisa o deteve, uma sombra que se aproximava. Ele cerrou a mandíbula, mas não se moveu, até que os olhos amendoados de Haku estivessem a vista, ainda assim ele não relaxou, ativou o sharingan apenas por um segundo, e só depois de confirmar que era realmente a assinatura de chakra dela, se permitiu ficar calmo. Ela não disse nada, e só se moveu novamente quando ele tinha acabado a análise, mesmo assim continuou calada, e ele a observou se aproximar até muito perto dele, parando a sua frente, atrás das chamas baixas da fogueira, e levar as mãos ao ombro.
Pasmo, o Uchiha observou ela desprender os fechos do quimono, os deixando cair no chão, revelando seu corpo nú, a pele que brilhava como porcelana polida à luz do luar.
Acompanhar aqueles três era de tudo, menos cansativo. Yugao observava curiosa, e até um pouco impressionava o nível em que eles se relacionavam, mesmo ostentando aquela face neutra, o Uchiha parecia muito atento aos movimentos dos dois, e sempre que eles diziam algo ele prestava atenção, mesmo que não se dignasse a responder. Sakura corria cantarolando um lulaby meio triste, de uma caixa de música que ela curiosamente também tinha, na cabeceira da sua cama, e Naruto ia em silêncio, com um sorriso de satisfação torcido no rosto, e os olhos fechados, parecia completamente alheio a tudo a sua volta, mas corria como um gato, pulando de galho em galho, fazendo malabarismos no ar. Sua respiração estava controlada, calma, como se ele estivesse meditando, mas ora ou outra ele olhava para seus companheiros, como se conferindo se estivessem bem, também olhava longamente pra ela. Haku era a que estava mais neutra, ela corria em silêncio, prestando bastante atenção a sua volta, e voltando os olhos periodicamente sobre o louro, que ela chamava de mestre. A preocupação em seu olhar era muito intensa, beirava a devoção, e Yugao não gostava disso.
Um dia inteiro se passou, até que eles pararam. Naruto tirou harusame da cintura, e a entregou ao Sasuke, que deu alguns passos pra trás, juntamente com Sakura. Os movimentos deles eram tão sincronizados, que a ANBU podia jurar que tinham ensaiado aquilo, Haku observou o movimento, e pulou pra trás, ficando as costas do líder da missão.
-Eu me seguraria nesse galho, se não quizer cair, Onee-san...
Foi tudo que ele disse antes de fazer uma sequência curta e rápida de selos, Yugao não teve tempo de fazer nada a não ser agarrar forte o tronco em que estava, a ponto de ouvir estalos na madeira, quando uma onda de vento quas a arrastou dali. As árvores rangerar, a medida que era arrancadas, abrindo uma clareira espaçosa oval, grande o suficiente pra abrigar completamente a invocação do Yondaime. Quando o vento cessou, ela pulou para o chão, e sem se segurar, acertou um soco na cabeça dele.
-Baka! — ela quase gritou, ignorando o movimento de Haku, que parecia pronta pra imobiliza-la — O que pensa que esta fazendo, seu idiota! Quer chamar a atenção de tudo ao nosso redor?
O louro esfregou a cabeça, resmungando alguma coisa, depois olhou pra cima, sorridente.
-Não se preocupe com isso — ele disse, fazendo um aceno pra que Haku relaxasse — Estamos bem longe de Konoha, e a aldeia da fumaça esta muito a oeste pra eles sequer terem visto esse abalo, as colinas que cercam a aldeia impedem que eles tenham uma visão muito boa dos arredores.
Se ela ficou impressionada por ele calcular tão bem a geografia do local, a ponto de reconhecer em meio a uma floresta o ponto cego da vigilância de uma aldeia ninja a quilomêtros de distância, não demonstrou, era quase como se ele já conhecesse aqueles lugares. Bufando, ainda de mal humor, ela deu alguns passos pra trás, enquanto seu otouto pegava a espada e a colocava de volta na faixa vermelha que levava na cintura.
-Vai anoitecer daqui a pouco — ele tornou a dizer — Sakura, monte acampamento, e encha os cantis com água, tem um rio a alguns quilomêtros a sul daqui...
-Como sabe disso? — Yugao perguntou, sem se conter. Quando ia se desculpar por tê-lo interrompido, ele acenou pra que ela deixasse pra lá.
-A úmidade do ar é mais baixa aqui, e esta muito tarde pra ser orvalho — ele disse, a fazendo levantar uma sobrancelha, mais confusa ainda — Como eu dizia, monte acampamento, e busque água. Haku irá lhe acompanhar, eu e Sasuke vamos pegar a comida, voltamos em uma ou duas horas.
-Não é muito tempo apenas pra caçar alguma coisa? — o moreno perguntou, Yugao acenou discretamente, perdida em seus pensamentos, concordando com o Uchiha.
-Normalmente seria — ele tornou a dizer, sorrindo daquela maneira como se gostasse de ser questionado — Mas não vamos usar nada de ninjutsu.
-Por que não? — a surpresa foi tanta que a expressão neutra de Sasuke caiu, e ele encarou o louro como se dissesse que deveriam atravessar um rio a nado, em vez de usar kinobori.
-Acho legal fazer do jeito antigo, é bom que aprendam a fazer isso também — ele disse, Sasuke ia questionar, mas acabou não dizendo nada — Vamos de uma vez, antes que fique escuro demais.
-Hai.
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"Caçar sem usar ninjutsu... Só você mesmo pra propor algo assim hoje em dia"
"Do que esta falando?! — respondi, encarando aquele sorriso bobo que a tanto tempo era o "meu" sorriso bobo — Você sabe por que eu faço isso..."
"Sim, sim... Quer fazer o garoto se sentir mais ligado a natureza... Bobagem, ele não é um eremita"
"E por acaso eu sou?! — resmunguei — Esses garotos de hoje em dia... Se esqueceram totalmente de como as coisas tem que ser feitas, usam ninjutsu pra tudo, não iria me surpreender se logo logo usassem isso pra limpar o rabo também..."
"Falou como um velhinho resmungão"
"Cale a boca..."
Não entendia mesmo como alguém podia achar aquilo estranho, caçar era a coisa mais divertida e prazeirosa do mundo, era tão tranquilizador como tomar um banho bem quente de ofurô, ou fazer sexo... Não, esse último não era tranquilizador, mas era muito bom também.
-Ainda não entendo por que temos que fazer isso... Se usasse ninjutsu seria mil vezes mais rápido.
-Cale a boca e faça o que eu mando — disse sorrindo, e ele sorriu azedo — Apenas preste atenção, e aprenda como se faz.
Parei de correr, e ele ficou as minhas costas. Yugao não tinha nos acompanhado, estava ajudando Sakura com a água, então fiquei mais a vontade. Me agachei, aproximando meu náris do chão e farejei longamente, o cheiro da relva, das folhas secas, do orvalho e da terra encheram minhas narinas. Sorri com aquilo. Meus caninos se alongaram, as pupilas se afunilaram, e meus sentidos vibraram a mil, a floresta ganhando tons de vermelho, cada detalhe ampliado mil vezes, quase como se eu pudesse focar em qualquer ponto que quizesse, e tudo, ao mesmo tempo e separado. Na verdade, acabou que essa foi uma ótima descrição, eu enchergava cada detalhe e tudo ao mesmo tempo, por isso não consegui deixar de rir da expressão confusa e meio surpresa de Sasuke.
-Não acho que consiga me acostumar com isso... — ele disse, e eu apenas arreganhei mais um sorriso — Quem realmente é você?
-O que quer dizer — sorri cinicamente.
-Daquela vez, na minha casa, disse que não era humano...
-Não me lembro disso.
-Lhe convem não lembrar — ele sorriu azedo, eu apenas ri.
-Deixe de ficar pensando coisas inúteis, sou o Naruto, seu amigo e companheiro, e no momento, seu taichou. Cale a boca e faça o que eu mandar...
-Hai hai — ele deu de ombros, sem ligar pras ofensas — O que eu devo fazer.
-Por enquanto nada, apenas me diga se trouxe fios de aço.
Ele apenas jogou os braços pra trás, contraindo e relaxando os dedos, e diversos fios de metal apareceram, entrelaçados num padrão muito complexo a cada dedo seu, pulso, subindo até o antebraço. Era interessante que ele tivesse desenvolvido aquilo, algo que eu não esperaria nem de um gênio como ele.
-Nunca saia de casa sem eles — ele disse, abrindo um sorriso rasgado — Quer que eu fatie algo?
-Não, apenas fique olhando.
"Isso vale pra mim também, adoraria fatiar alguma coisa..."
"Não, você pode ficar de boca fechada e não me perturbar..."
"Seu chato......."
"Que falta eu sinto de estar selado em uma garota..."
"Tem o seu lado ruim"
"Concordo — um arrepio me passou na coluna, enquanto revia as muitas cena em que o Minato e a Kushina... deixa pra lá"
Aspirei de novo o ar, sentindo milhões de fragâncias distintas em meio ao cheio rico e terroso da mata em si. Podia sentir os milhões de insetos que viviam debaixo daquele chão, se reprodizundo e morrendo a cada segundo que passava, e isso me lembrou do momento em que estive inconciente, quando o selo que restringia minhas memórias se rompeu, e eu vi o universo se formando enquanto viajava e contornava a linha espaço temporal. Era estranho pensar que um planeta inteiro ruíria daquele modo, os seres humanos desse mundo não tinham muito interesse em descobrir os segredos que estavam além das suas terras, mas se tivessem, se deparariam com um universo tão grande que beiava o infinito. Dentro dele, incontáveis planetas e sistemas funcionando em um equilíbrio tão perfeito e delicado que contrariavam qualquer ideia científica a inexistência de Deus, mas isso não era o mais impressionante. O mais impressionante era que todo esse universo não passava de uma única partíula carregada de ions dentro de um átomo entre milhões numa célula, que estava entre milhões de outras células numa gota de orvalho, que escorria por uma folha num mundo diferente daquele. Universos dentro de universos, infinitas planos e dimensões contorcidas e retorcidas dentro do próprio infinito, era como abrir uma caixa e encontrar uma caixa menor dentro, tudo isso elevado a infinito.
Era uma ideia muito simples pra mim, tão simples e lógica que fez sentido desde o primeiro momento que eu a imaginei, mas parecia por demais complexa pra mentes humanas conceberem. A ideia de infinito era ilógica, era como youki, como vácuo, a natureza aboninava o infinito. Mas era como as coisas eram, o universo era como um chão fervilhantes de insetos, cada vida só durava um instante, o mínimo necessário pra gerar outra vida, e assim sucessivamente, cada universo só existia pelo mínimo tempo necessário pra uma ideia ser concebida, depois era destruído e um outro tomava seu lugar. O orvalho escorria, as folhas murchavam, as células morriam e eram repostas, no interminável ciclo da vida. Era lindo não?! Também era triste me ver alheio a tudo isso, ser eterno em meio a seres de vida tão curta, era como viver entre insetos, presenciando uma morte após a outra, nascimento após nascimento, enquanto você continuava existindo.
Fechei os olhos, e os abri novamente, percebi que devo ter ficado muito tempo assim, por que Sasuke já estava tamborilando os dedos de impaciência.
-O que esta esperando? — eu disse, sorrindo, e ele cerrou os olhos — Vamos logo!
Pulei para um galho, e ele veio logo atrás de mim.
-Caçar é fácil, mas exige alguma paciência — eu disse — Você não tem que saber apenas matar um animal, tem que saber como mata-lo, como cortar sua carne, quais órgaos são comestíveis e quais não, e qual o melhor jeito de prepara-los. Existe uma infinidade de maneiras de se fazer uma infinidade de coisas diferentes.
-Como sabe disso?
-À eras antes de você sonhar em nascer que tenho caçado nessas terras, filhote — eu disse alargando meu sorrido, e ele esbugalhou os olhos. Seja lá o que fosse dizer, não dei chances pra que fizesse — Mas isso não importa, você já parou pra pensar no que esta fazendo?
-Como assim?
-Matando um animal. Já parou pra pensar que pode ser uma fêmea que acabou de criar, e esta procurando comida para os filhotes?
Ele não disse nada, enquanto corriamos, por fim, suspirou, e disse, parecia perdido em pensamentos.
-Mesmo que pareça algo ruim a se fazer, é necessário, nós precisamos comer.
-Sim, mas eles também precisam, não seria maldade usar sua força superior pra tirar vantagem nisso?
-Se pensar desse modo, vou acabar morrendo de fome. A natureza é assim — ele disse, parecia se apoiar muito nesse argumento — Desde sempre os mais fortes sobrepujam os mais fracos, é o curso natural da vida.
-Eu sei — disse, sorrindo — Mas acha que com os seres humanos deveria ser assim também?
-Apesar de tudo, somos animais...
-Você tem razão, no final das contas. Quando eu era jovem, um homem me disse que as raposas caçam coelhos, coelhos que tem filhotes que vão morrer de fome sem os pais pra alimenta-los, mas se a raposa não fizer isso, são seus filhotes que vão morrer...
-Por que exatamente estamos tendo essa conversa?
-Pelo mesmo motivo que quero que caçemos com as mãos nuas, viver nesse mundo e não procurar entende-lo é um desperdício de tempo. Apesar de não sermos melhores que nenhum outro animal, não somos exatamente como eles. Seres humanos vivem, não sobrevivem, temos que viver e morrer por um propósito, senão o fato de você pensar, de ser o que é, perde o sentido, compreende?
Ele não respondeu, mas parecia pensar no que eu disse, de forma que não o perturbei mais, nem mesmo eu entendia exatamente por que estava tentando explicar aquilo pra um humano, ainda mais um filhote, apenas tinha me dado vontade de contar aquelas coisas pra ele.
Perdi o rumo dos pensamentos por um segundo, e só parei quando peguei novamente o traço de aroma que estava sentindo. Estava tão forte e fedido ali que duvidava que mesmo Sasuke não estava sentindo, mas quando olhei pra ele, não vi nenhum sinal que ela tinha percebido qualquer coisa. Não era de se surpreender afinal, com os sentidos a mil daquela maneira, podia escutar o bater de asas de um beija-flor a quilomêtros de distância, se me concentrasse nele.
-Espere, estou sentindo o cheiro de algum animal.
-Ótimo, vamos pega-lo!
Ele estava pronto pra pular pro chão quando acertei um soco na sua cabeça, o fazendo resmungar e ficar parado.
-Quieto, senão ele vai nos perceber!
-E daí que nos perceba, nós só...
Acertei outro cascudo nele, dessa vez ri um pouco da careta mal humorada dele.
-Obedeça seu taicho, vou te ensinar a pegar alguém de surpresa, do jeito que as raposas caçam, apenas observe daqui.
Pulei para o galho da frente, e cravei as garras nele, abrindo sulcos na madeira de antecipação. Podia sentir o cheiro de um animal se aproximando, e pelo fedor, devia ser um porco ou javali, eles costumavam ser enormes nas florestas do fogo. O cheiro foi ficando mais forte, conforme eu ia ficando mais excitado, a quantas décadas não caçava daquela maneira?
Se fosse um animal inteligente, teria fugido no exato instante que sentisse meu cheiro, que devia estar bem forte e nítido pelo suor que brotava na minha testa, por pura antecipação, mas javalis era idiotas mesmo. Esse, em particular, era muito grande e muito idiota, era maior do que um cavalo, tão grande que a largura do seu focinho triangular daria duas vezes a largura do meu tronco. Suas presas recurvadas eram da largura do meu baço, e a esquerda estava quebrada. Olhando bem pra ele, a parte esquerda do seu rosto estava com algumas cicatrizes bem feias, um olho esbranquiçado cego que ficava parado na órbita, enquanto o outro girava furiosamente por ali, procurando pela origem do meu cheiro. Era um desgarrado, exilado do seu bando, provavelmente por que deve ter perdido uma luta, e isso tornava as coisas ainda melhores, ninguém ia sentir falta dele.
Sasuke olhou o imenso javali, e me encarou como se eu fosse louco. Apenas fiz sinal pra que fizesse silêncio. Ele vinha se aproximando lentamente, cheirando o chão e urrando em desafio. Tirei a katana da cintura silenciosamente, e a deixei recostada no tronco largo da árvore, pra logo depois tirar o colete chunnin e a camisa, ficando apenas com a calça e a faixa da cintura, além das sandálias ninjas. Contrai os músculos e os relaxei, sentindo minhas garras ficarem alguns milímetros maiores, minhas feições ainda mais ferais. Sasuke percebeu o que eu ia fazer, e me olhou como se eu fosse completamente louco. O javali era tão grande que devia ter, no mínimo, umas cinquenta vezes o meu modesto peso...
Sem esperar mais nada, pulei do galho, caindo diretamente no dorso da criatura, que urrou zangada e assustada, escoicendo e se jogando para os lados, tentando me tirar dali. Agarrei sua presa boa antes que caísse de cima, e com a outra mão cravei as garras no seu pescoço, sentindo minhas garras trespassarem o couro grosso, e chegar até a camada de gordura que revistia a carne. Ele urrou, os olhinhos pequenos e suínos injetados de sangue, mirando ao redor com puro ódio. Puxei sua presa pra trás com força, enquanto bastante sangue vertia pelo ferimento aberto no pescoço, onde eu segurava, e molhava seus pelos grossos e sujos. Devia estar com um sorriso muito grande no rosto, e Sasuke devia achar aquilo muito estranho, por que sua expressão era tão pasma e perplexa que quase me fez rir.
Vários minutos depois daquilo, o javali tombou exausto, encharcado de suór e sangue, o que fazia seu cheiro piorar ainda mais, mas não o suficiente pra acabar com o meu bom humor, aquele estava sendo um dia muito interessante. Sasuke pulou do galho, e caminhou até o meu lado.
-Isso foi incrível, mas tem certeza que podemos comer isso? — ele perguntou, fazendo uma careta de asco.
-Fique tranquilo.
Caminhei até a parte da frente do corpo do enorme animal, e ele me mirou nos olhos, eles não estavam com tanta raiva quanto antes, pareciam mais conformados, como se dissesse: "Ok, você ganhou de mim, me mate de uma vez". Agarrei sua presa saudável, e a outra quebrada, precisava abrir completamente os braços pra segurar as duas, e mesmo assim, quase não conseguia. Deixei que ele respirasse fundo mais algumas vezes, antes de jogar o corpo com tudo pra direita, impulsionando os músculos com youki. O corpo do javali levantou até a metade do chão, mesmo aquele sendo um salto que, sem nenhum peso, me levantaria com facilidade uns dez metros no ar. Ouvi um "crack" da coluna se partindo, e a parca luz deixar imediatamente os olhos do animal, ele estava morto. O pescoço começou a inchar cada vez mais, e um filete fino de sangue começou a escorrer da boca, nariz, ouvidos e olhos do javali.
-Me ajude a pendurar esse garotão numa árvore, depois, cave um buraco, com no mínimo, sessenta centímetros de profundidade, por um metro de diametro.
Sasuke olhou para o imenso javali, depois pra mim, então para o javali e pra mim de novo. Acenei com um sorriso no rosto, e dei de ombros. Levou algum tempo pra achar um galho alto o suficiente pra aguentar um bixo daquele tamanho, e quando o achamos, peguei uma das patas do javali e o arrastei até lá. Subir na árvore carregando aquele peso todo também foi fácil, mas o Uchiha parecia impressionado com isso.
-Acha que os fios de aço conseguem segurar ele?
-Provavelmente vão acabar fatiando todo ele, é muito peso, e elas são afiadas.
-Alguma outra sugestão?
-Podemos encontrar um cipó...
-Nem de longe seria forte o suficiente pra aguentar o peso dele... Bem, vamos do jeito difícil.
Soltei uma mão, sustentado as parcas toneladas daquele bixo com um braço só, enquanto fiz um selo com a outra mão, e um clone meu segurou o javali pelas penas traseiras, que já estavam deslocadas por tanto peso.
-Temos que ser rápidos, vamos cavar logo uma pequena trincheira pro sangue escoar.
-Por que não deixamos escoar de uma vez?
-Se deixarmos escorrer tanto sangue e suco gástrico por aí — eu disse pacientemente, e ele prestava muita atenção a cada palavra minha — vai matar todas as plantas por perto, temos que fazer um buraco fundo o suficiente pra nenhuma raíz conseguir absorver o sangue, e nenhum animal enfiar o fucinho nele, pensando que é comida. Se acabar queimando o focinho numa selva como essa, vai morrer em pouco tempo.
-Você parece se preocupar muito com esse tipo de coisa.
-Tento minimizar os danos do que faço, não vou causar a morte de vários seres só por que quero me alimentar. Esse javali é um exilado do seu bando, então estou com a conciência limpa quanto a ele ter filhotes ou uma parceira, entende?
-Acho que sim.
-Bem, vamos logo.
Nos agachamos, embaixo do javali, e começamos a cavar com as mãos nuas. Sasuke já suava, mas tinha um sorriso discreto e tranquilo nos lábios, quase como o meu. Aquele tipo de esforço fisíco era gratificante, apesar de ser trabalhoso, era muito divertido caçar. Assim que a trincheira ficou pronta, funda o suficiente pra não intoxicar nenhuma árvore ao redor, meu clone posicionou o javali de forma que ficasse com a cabeça um pouco dentro do buraco, bastante sangue já escorria da sua boca, e quando eu passei a garra do indicador pela sua garganta, cortando o couro e a carne como se fossem manteiga, um mar de sangue e ácido digestivo começou a jorrar pela Terra, fazendo o porco murchar consideravelmente, era muito sangue, e Sasuke parecia impressionado com isso.
Ficamos sentados, escorados numa árvore por vários minutos, enquanto o jorro de sangue passava a um filete fico, pra então começar a gotejar esporadicamente. Meu clone balançou o javali, e o jogou aos nossos pés, o baque do seu corpo ainda enorme com a terra fez um tremor percorrer a região, e vários passáros levantarem voo da copa das árvores.
-Agora vou te mostrar como fazer pra corta-lo, desossar, e separar o útil do inútil.
Sob o olhar atento dele, usei as minhas garras pra abrir a barriga do porco, retirar suas costelas, revelando a carne avermelhada e ensaguentada e os órgãos todosno lugar. Fui explicando um pouco da anatomia e do funcionamento de cada um, ora ou outra fazendo gestos e apontando pra regiões do meu próprio corpo, explicando a diferença de órgãos humanos pra os de um javali. Retirei o coração, e o mandei que segurasse, era tão grande que ele tinha que segurar com as duas mãos, sangue ainda gotejava dos tocos que eram as artérias. Fiz um monte com todos os órgãos que serviam pra comer em um lado, e todo o resto da carne, que não era pouca em nenhum sentido. Deixei os ossos que davam forma a ela, e tirei os pequenos, o pulmão, o cérebro, o baço e o focinho num outro. Já podia ver vários olhos atentos em meio as árvores, prestando muita atenção em nossos movimentos, mas sem ousar se aproximar.
-Que animais são aqueles?
-Ienas — eu disse, levantando os olhos brevemente e logo voltando ao trabalho — São animais covardes, se você for mais alto que elas, dificilmente vão te atacar, mas quando fazem isso, veem em bando. Não olhe diretamente pra elas por tanto tempo, e nem mostre os dentes, elas consideram isso uma ameaça.
-Por que elas estão aqui?
-Elas estão com fome, e o cheiro do sangue desse bixo já se espalhou por um bom tempo, com o vento. Animais carniceiros a abutres vieram correndo.
-E po que não se aproximam?
-Medo.
-De você?
-Sim.
Falar daquela meneira me faria parecer arrogante, mas não tinha como eu expressar de outro modo uma ideia tão simples como aquela. Ele pareceu entender isso, e não fez mais perguntas. Com a carne toda ensacada, e os restos largados ali, fomos embora. Alguns minutos depois, as Ienas se aproximaram, e começaram a devorar a carne que sobrara.
Notas finais
Eu poderia oferecer algo ao leitor que fizer a melhor indicação, mas não tenho nada que vocês queiram... Façamos o seguinte, façam uma sugestão de algo que eu poderia dar em troca também.
É isso aí, não esqueçam os comentários com sugestão do título desse capítulo.
P.s Perdoem os erros idiotas, tipo "lourindo" e "almoção". Quando eu reli, achei eles tão hilários que deu dó de corrigir.
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