Ketsueki No Omoide - Kaen No Rei

27 Especial - O Coração da Nove caudas


Notas iniciais
Primeiro, minhas desculpas por ficar tanto tempo fora do ar. Meu pc pifou - na verdade, eu inventei de formatar ele sem saber como se faz, e acabei queimando três quartos de todos os componentes vitais, tudo o que sobrou foi o teclado com uma mancha verde esquisita e um rasgo de machado no cpu.
E segundo, o capítulo que deveria vir agora... não é esse. Eu realmente não consegui, por mais que tentasse, escrever a primeira missão do Naruto, então, enquanto estava sem PC, fiz dois especiais, posto o segundo amanhã ou depois.
Aproveitem.


O coração da nove caudas

Kyuubi no Youko, a raposa de nove caudas ergueu o focinho no ar, tentando afastar a névoa que ela não tinha certeza se existia fora de sua mente. Ela tivera um sonho tão estranho, onde mais uma vez ela vivia como ser humano, embora dessa vez estando selada em um, ao invéz de apenas tomar sua forma.

Seu corpo era atraente, do ponto de vista de um humano, com leves traços demôniacos que o tornavam fascinantes entre aqueles de sua espécie. Nada como os cabelos de ondas de mar de Kusaribi, ou o branco brilhante da Lua, mas ainda chamava a atenção. No sonho, ela tinha prometido proteger as pessoas com aquele corpo, tantas quanto ela conseguisse envolver com suas caldas, todas que ficassem atrás de si e de sua espada.

Espadas eram fascinantes pra ela, como um tesouro secreto que ela tivesse resgatado do oceano que era sua imaginação, e entregado ao mundo. Era o seu presente, sua herança, mesmo que ninguém jamais soubesse disso.Mas não era só isso. As espadas eram tudo pra ela. Se seu ser, sua alma, ela mesma, fosse um milhão de redemoinhos de cores bagunçadas e conflitantes, a imagem afiada de uma katana seria o ponto de convergência para todas as ondas de tinta. O ponto de equilíbrio entre a desordem e o caos.

Tinha começado com um propósito simples. Cortar, mutilar, apenas uma ideia de um demônio cansado de usar as garras, uma forma grosseira que lhe ficou na mente por décadas, sendo lentamente purificada e redesenhada. Kyuubi ouviu os pássaros que cantavam nas montanhas, e quiz que o som fosse como o deles.

Primeiro, ela tentou com bambu, madeira, pedra e osso. Não era o suficiente. Tinha que ser algo indestrutível, eterno, perfeito, como ela se achava na época. Então, Conflito tentou com metal, e foram mais décadas e décadas descobrindo sozinho todas as formas, hoje amplamente utilizadas, de se trabalhar com ferro e aço.

Kyuubi foi recompençada com a mais elegante forma de matar que qualquer um poderia imaginar, e por muito tempo, usou as espadas que fizera pra retalhar os seres humanos. Por onde fosse, acompanhavam-na histórias de de um demônio que carregava consigo garras prateadas, de poder inigualável. Harmonia já não conseguia mais amenizar sua fúria incontrolável de sangue.

O garoto do sonho também tinha espadas, e cabelos vermelhos, e caldas — embora ninguém pudesse vê-las, escondidas dentro do seu ser. Querendo encontrar as caldas, a raposa correu atravéz da névoa, pelo vermelho e rosa do espírito dele, até acha-las, firmemente enroscadas e presas em volta de algo, que batia e ressoava. Um coração.

Pra lutar contra o demônio das garras prateadas, os seres humanos tramaram uma forma de lhe roubar as armas. Kyuubi ficou sabendo da ideia no instante em que eles a tiveram, e por diversão, deixou que uma de suas katanas fosse roubada. Foi assim que as espadas chegaram até os homens, e eles conheceram a beleza de uma lamina afiada.

Foi como dar o poder de um Deus a formigas, e como poder corrompe, o propósito original foi logo perdido no meio da ganância e da mesquinhes. Os homens passaram a usar as espadas em suas guerras, e o sangue no mundo triplicou.

Algo naquele coração chamou a atenção da raposa, e de todo jeito, ela tentou soltar o aperto das nove caudas. Por mais força que fizesse, elas mal se mexiam, então ela decidiu soltar uma a uma.

Harmonia assistiu desesperada o mundo se tornar vermelho e negro, repleto de fogo, carvão e sangue, e quando tudo estava tão idêntico ao inferno que era insuportável, ela encontrou uma garotinha, chorando de fome na floresta. Se aproximando, ela sentiu o cheiro do tabaco, do sakê e do sexo no seu corpo, sua inocência perdida por trás dos hematomas e cortes e infecção que não regredia mais.

Forçando as garras, a raposa conseguiu com esforço soltar o aperto de uma calda.

Por dias, Harmonia olhou pela criança, tentando apazigua-la, conforta-la. Ela soou seus guizos ra que ela dormisse, e cantou pra ela, e a envolveu em seu corpo pra aquece-la, sem se importar com o sangue e pús e lágrimas, mas a garota não abria os olhos. Estava tão perdida dentro do desespero, que acabara se afogando dentro de si mesma, e nada que a raposa branca fizesse conseguia tira-la de lá, por mais lágrimas que derramassem, e por mais fundo que estivesse disposta a ir, ela sempre fugia ainda mais, pra escuridão.

Os homens continuaram se ferindo. A segunda calda se desfez.

O desespero de Harmonia se tornou raiva, e a raiva se tornou ódio. Ela odiou Discórdia e suas espadas, e Rancor e Luxúria, e Peste e Fome, que caminhavam junto dele. Odiou, e odiou tanto, e com tanta força, que resolveu que não importava o que acontecesse, ou o quanto lhe custasse, aquilo terminaria.

Com um entrépido, a terceira calda se soltou.

Harmonia correu até o paraízo, e quebrou todos os cadeados, e arrancou das barras os portões de ouro que selavam o lugar da influência externa, deixando a passagem livre, enquanto todos os Senhores do Inferno aqueceram suas fogueiras, sentindo o cheiro da carne que estava por vir.

Voltando ao mundo ela tomou seu cajado, e sendo incapaz de usar espadas como o desgraçado do seu irmão e esposo, trasformo-o numa foice, como a que os lavradores usavam pra ceifar o trigo.

Ela a usaria pra ceifar vidas.

A quarta calda se soltou, e a raposa arfou, exausta, mas sem desistir. Por alguma razão, ela precisava alcançar aquele coração. Tudo dependia disso. Ela previsava ser forte.

Tudo foi tão rápido que ela nem percebeu. Não doeu, se tornar Morte, ela de repente, apenas era. O descanço, o fim. Sua foice correu o mundo, sobreposta a todas as espadas, às costas de todas as doenças, e acima de todos os demônios. Os anjos cuspiram aos sus pés, mas os portões jaziam abertos, e mais ninguém poderia fecha-los. Mais e mais pessoas chegavam a todo instante, de todos os cantos daquele mundo, de outros ainda, e mesmo no inferno, várias demônios carregavam cadáveres que choravam e esperneavam pelas lanças. Alguns pediam misericórdia, outro chamavam pelos seus Deuses, outros ofereciam dinheiro, mas não é tão fácil comprar quem só queria carne e sangue.

Medo cobriu os homens, como nuvens, jogando o mundo em sombras das quais parecia que ele nunca iria sair. Discória riu, por pouco tempo.

A quinta calda se soltou.

Pouco a pouco, os homens se levantaram e passaram a lutar contra a Morte. Não poderiam vence-la, mas pensavam que podiam evita-la. Guerras ainda aconteciam, e dessa vez, haviam cadáveres. Mortos. E a dor dessas pessoas chegou até Discórdia, que recluso numa floresta, longe dos olhos dos homens, chorou sem saber por que.

Morte cuspiu-lhe no rosto, a sexta calda se abriu.

Evitar que as pessoas morressem. Proteger. Primeiro por medo, depois por amor, pra querer estar com elas, de repente, tornou tudo diferente de antes. Segurar uma espada já não era o mesmo, não se tratava apenas de poder. As pessoas queriam proteger seus lares, seus ideais, suas pessoas preciosas.

Cortar e retalhar já não era o bastante. Agora, o propósito era eviar o sangue, não semea-lo. Evitar a morte.

E isso, pra alguém como Discórdia, era como arrancar-lhe o coração e coloca-lo de volta, de ponta cabeça. Diferente de Harmonia, se tornar Guerra foi doloroso, lento e agoniante.

Ele ganiu e rastejou pela floresta, e incansavelmente se mutilou, tentando acabar com a dor, e o medo e o remorso que ele nunca antes tinha sentido.Guerra acabara de nascer.

E com ele, veio a necessidade de se expressar, por que uma lamina sozinha já não era suficiente, apenas uma espada não o traduzia mais. Então, ele criou os estilos.

A raposa conseguiu soltar a sétima calda.

Tentando se encontrar novamente, Guerra alçou as montanhas, e chegou aos oceanos, afogado em dor e propósito, ele procurou a paz em todos os lugares. Nunca a encontrou.Em vez disso, ele encontrou o equilíbrio, e a partir dele, inventou o hiten Mitsurugi ryu, a espada voadora que voa pelos céus, que espelha os dois lados de tudo o que há no mundo, do coração das matas até as profundezas do coração dos homens.

Morte observou todo o seu percurso, sempre calada, as faces escondidas pela sua máscara de ferro. O olhar do presente dividindo espaço com o passado e o futuro, observando como o jovem Guerra, que já fora Discórdia, poderia se tornar... ele.

O Shodaime Kaen no Rei, o Deus de mil gerações, cujo nome poderia tanto fazer tremer um exército quando consolar uma garotinha com medo do escuro.

"Ele vai te proteger"

"Não se preocupe, agora que o Kaen esta aqui, tudo vai ficar bem..."

"Você ouviu?! Ele é o lendário Kaen no Rei, com ele, não podemos perder!"

"Por favor, Kaen-sama, proteja a mamãe, e o vovô, e cuide do papai aí no céu... ele sempre acreditou no senhor..."

Era um enigma indecifrável pra ela, e por mais que observasse tudo, de ponta a ponta, não conseguia assmilar direito. Ele, aquele garoto ruivo de sorriso fácil e olhos gentis, com o sanguinário Discórdia, que estuprou Perdão até a beira da loucura. Eles não podiam ser a mesma pessoa... podiam?!

"Você tem olhos magnifícos... Guerra".

Com um rugio, a oitava e a nona calda se soltaram, enquanto o coração falhou uma batida, antes de acelerar.

E as imagens de todas as pessoas que ela já amou passaram pela mente da raposa, em sequência, num único segundo que pareceu durar uma eternidade.

Centenas de milhares de rostos e nomes. De Kenshin e Morai, a Tetsuna e Madara, até Kohaku, Chihiro, Ayame, Teuchi, Anko, Yugao, Kakashi e Hiruzen, e Mei e Kurenai, e Kiba e Tsume e mikoto, e mais milhares e milhares de pais e mães, de filhos e irmãos.

As nove caldas se curvaram, graciosamente se fechando em torno da raposa, que agora descansava embalada por mil amores do passado.

E com um suspiro agoniado, Naruto acordou. O rosto banhado em lágrimas que ele não conseguia evitar que corressem.