Notas iniciais
Ta aí Galera, mais um capítulo de Kaen no Rei. Esse eu acredito ter ficado meio curto, ou talvez não, agora que eu parei pra pensar nem contei o número de páginas que deu, mas deve ser algo em torno de vinte, eu sempre fecho os capítulos quando bate esse número mais ou menos, enfim.
O capítulo não esta revisado, e esta muito provavelmente, cheio de erros. Vou dar uma passada meio por cima agora antes de postar, mas é só o que tenho tempo de fazer por enquanto. Qualquer erro bobo ignorem, e se a coisa for grotesca mesmo de deem um toque. Eu costumo trocar muito o nome do Tazuna pelo do Zabuza, como fiz no último capítulo, então talvez aconteça de novo. Assim que tiver chance vou passar o capítulo todo a limpo, por hora, fiquem confortáveis aí, peguem um lanchinho, e bora pra mais um.

Sasuke curvou a cabeça mais uma vez, ao seu lado, Sakura se atrapalhou pra fazer o mesmo.

-Gomen-nasai Hokage-sama, não vai voltar a acontecer...

Sarutobi suspirou, soprando a fumaça pra fora dos seus pulmões cansados. Ele estava de mãos atadas, tudo aquilo era mera formalidade, e nem mesmo se ele quisesse, poderia ir contra o conselho. O “tão valioso último Uchiha” não poderia sofrer as mesmas punições que os shinobis normais, claro que não. Se fosse por ele, revogaria a licença de gennin daquelas duas crianças e os mandaria de volta pra academia, com uma recomendação para os professores darem aulas extras sobre trabalho em equipe e formações de campo, além de hierarquia nas vilas ocultas e por que diabos ela deveria ser respeitada.

-Eu entendo o seu ponto, mas o que vocês fizeram é grave. Ir contra uma ordem superior, em outras aldeias, isso é punível com a morte... – o Hokage bufou – Mas já que é a sua primeira missão, vou deixar vocês passarem com um mês de serviço comunitário. Vocês vão cuidar dos canis Inuzuka, varrerem Konoha, arrancar ervas daninhas dos campos de arroz dos Akimichi, cuidar das colmeias dos Aburame, e qualquer outra coisa que eu lhes diga pra fazer, sem receber pagamentos. Vocês entenderam?

Sasuke rangeu os dentes, e Sakura estava praticamente chorando por causa das naturezas do pedido, mas ambos se curvaram rigidamente.

-Hai, Hokage-sama...

-Então vocês estão dispensados...

Ele observou os dois indo embora, preocupado sobre como ambos estavam crescendo. Alguns minutos depois ele ouviu batidas nas portas, e Kakashi entrou.

-Hokage-sama, o senhor queria me ver...?

-Hai, como foi o seu... imprevisto? – ele sufocou uma risada.

Kakashi corou vários tons de vermelho.

-Foi... quer dizer, não foi nada muito sério senhor...

Sem conseguir mais segurar o riso, o Hokage explodiu em gargalhadas. O rosto de Kakashi passou vários tons de vermelho, enquanto ele mirava o chão envergonhado.

-Rin-san fica bastante violenta nessas situações não?

-H-Hai... foi um mal entendido, no entanto...

-Claro... afinal – ele deu um olhar malicioso pro aluno do seu sucessor – Você não teria por que ir espiar outras mulheres no banho não?! Afinal, acho que ela nem se importaria de tomar banho com você...

-Ho-Hokage-sama... – ele deixou os ombros caírem.

-Bem, por mais que isso seja divertido, tem outros assuntos que quero discutir com você... – ambos ficaram sérios de uma hora pra outro – Você soube do que aconteceu na missão do seu time e Yugao?

-Hai, Anko esta contando pra todo mundo que quiser ouvir, e suas opiniões são... hã...

-Fortes, é – ele concordou, lembrando dos gritos de “Aquela puta cor de rosa estúpida” ou “O emo com um pau socado na bunda” – Ela defende o Naruto, e se tudo ocorreu como Yugao relatou, e eu tenho plena confiança nela, qualquer um veria dessa forma... Mas...

-O conselho não vê...

-Não. Sob a visão do conselho, Sasuke é uma peça valiosa demais pra ser perdida, enquanto Naruto é um mero pião – ele respirou fundo – Eu ainda me surpreendo que as coisas tenham chegado até esse ponto...

Kakashi esperou em silêncio, enquanto o velho Hokage respirava fundo algumas vezes, pra então recarregar o cachimbo com tabaco e acender, dando uma longa tragada.

-Então eles exigiram que Sasuke fosse treinado pessoalmente por você, pra que ele pudesse aprender a usar o sharingan – Kakashi não teve muitas reações além de suspirar, aquilo já era esperado – Eu consegui fazer com que você treine tanto Naruto quanto Sakura, mas foi tudo o que pude fazer. Não imagina quanto trabalho deu apenas impedir que ele se tornasse um jounnin automaticamente e pudesse praticar poligamia...

Kakashi corou, mas se bem que, conhecendo Sasuke, ele não estaria interessado.

-Como Naruto esta indo na missão?

-Não sei ao certo, o último relatório de Yugao foi antes que eles chegassem ao porto, e ela apenas realçou o que tinha dito antes, que Naruto é firme, sangue frio e parece levar a missão com muito profissionalismo, quase como se fosse experiente, e – ele riu levemente – O quanto ela esta orgulhosa do seu irmãozinho lindo e super-legal...

-Bem... Essa é a Yugao – Kakashi riu – Anko concorda com ela...

-Tirando a última parte, ela disse que ele é: “Uma menininha linda que ela quer morder até arrancar pedaços”.

Ambos riram.

-Eu vou me certificar de treinar Sakura e Sasuke, mas não vou ensinar nada pessoal pra nenhum deles. Eu tinha considerado ensinar o Chidori pra Sasuke, mas...

-Eu entendo, proceda como achar melhor, eu tenho plena confiança em você também.

-Obrigado, Sandaime-sama – Kakashi estava pra sair, quando uma coisa lhe ocorreu – E Naruto? Yugao vai treina-lo durante esse tempo?

-Eu acredito que ela gaste algum tempo lhe ensinando uma coisa ou outra, se for necessário...

-Entendo... Até logo, Hokage-sama.

-Jaa ne – ele assentiu tranquilamente – O time de Kurenai deve estar ali fora, pode pedir pra eles entrarem por favor?

-Claro...

Kurenai entrou com seu time alguns momentos depois, e os quatro se curvaram educadamente.

-Houve algum problema, Hokage-sama?

-Nada muito sério – ele fitou os quatro com uma expressão indecifrável – Eu estou atribuindo vocês como um time de reforço para auxiliar Uzuki Yugao e Uzumaki Naruto, é uma missão rank A, vocês aceitam?

-Hai – os quatro disseram em uníssono. Kiba animado, Kurenai curiosa, Hinata hesitante e Shino tão neutro quanto sempre.

-Muito bem, podem ir arrumar as coisas, vocês partem para a vila das Ondas em uma hora...

Zabuza acordou lentamente, com uma sensação de dormência no corpo e um cheiro delicioso entrando pelas suas narinas.

“Estranho... Haku deve ter me salvado, mas quanto a essa cheiro... Ele não cozinha nem perto de tão bom quanto isso...”

Abrindo um olho, ele tentou olhar ao redor, mas sua cabeça parecia pregada no chão. O teto, através da sua vista embaçada, não era o do seu esconderijo. Era um lugar bem aberto e bem iluminado, com o cheiro de orvalho dividindo espaço com o da comida, e o calor do sol ameno da manhã banhando sua pele.

“Onde... esse não é o meu esconderijo...” – ele pensou.

-Ora, você acordou... – uma voz disse próximo a ele, e Zabuza conseguiu ver pelo canto dos olhos uma nuvem de cabelos roxos – Finalmente.

-Você é a ANBU...

-Muito bem observado.

-Onde eu estou?

-Na casa de Tazuna-san, você acabou ficando sem chakra na luta com o meu otouto, então trazemos você pra cá até que estivesse curado.

-Não adianta... eu não vou dizer nada a vocês...

-E por acaso eu perguntei alguma coisa? – ele sentiu uma mão delicada trazer sua cabeça pra cima, até que ele estivesse sentado, enquanto Yugao se ajoelhou ao seu lado, com uma tigela de miso nas mãos – Aqui, abra a boca...

O máximo que ele fez foi cair de costas, e soltar um palavrão quando a cabeça bateu no fuuton.

-Você é muito inútil... tente ficar sentado.

-Por que esta fazendo isso?

Ela olhou pra ele com uma expressão meio boba, como se dissesse; “Que?”.

-Bem... você precisa comer, e seria melhor se estivesse sentado, então...

-Não... por que não esta me interrogando ou qualquer coisa do tipo? Por que esta me alimentando?

Ele lançou um olhar assustado para a tigela. Estaria envenenada? Não... cheirava bem demais pra estar.

-Ah, não tem por que fazermos isso, seu filho nos disse sobre você estar planejando um novo golpe contra o Yondaime-Mizukage

-Ele...

-Ele também disse que você não daria trabalho pra gente, então trate de ficar sentado – ela o puxou mais uma vez, o puxando até estar encostado a parede, então se ajoelhou novamente e pescou um pouco de macarrão com os hachis.

-Diga “Aaahhh” – Zabuza a encarou como se fosse mata-la, mas ela apenas sorriu de volta – Você esta desmaiado desde ontem, é melhor comer algo...

-Eu não... – o estomago dele soltou um urro furioso – Droga...

Contra a vontade, ele abriu a boca e se permitiu ser servido. Yugao sorriu docemente enquanto ele sugava o macarrão.

-Delicioso... você cozinha bem – ele admitiu a contra gosto.

-Ah, eu não sei cozinhar – ela riu – Foi Tsunami-chan e Naru-chan que prepararam.

-Aquele garoto cozinha?

-Sim.

-Droga... ele é mais forte do que eu e cozinha melhor que Haku... O que ele não pode fazer?

-Eu não tenho ideia – ela puxou mais um pouco de macarrão, pensativa – Ele se formou na academia pouco tempo atrás, como o pior aluno de todos...

-Aquele monstro foi o pior aluno?!

-Bem... ele se recusava a sequer tocar em kunais e shurikens, e também nunca demonstrou saber nada sobre chakra, mas... Na ponte, conseguiu colocar um genjutsu em todos nós...

-Um genjutsu... – ele lembrou do momento que Naruto tinha lhe dado a cotovelada nas costas, quando ele ficou meio zonzo – Entendo... Por que ele não mata?

-Não tenho ideia. Desde que era muito jovem, ele sempre disse que nunca mataria ninguém, é muito curioso, de fato...

Zabuza engoliu a última porção de macarrão, e bebeu o caldo enquanto Yugao inclinava a tigela nos seus lábios. Estava pra dizer alguma coisa, mas ela pôs a louça vazia no chão, e com uma toalha secou seu rosto. Ele corou.

Um silêncio incomodo pairou na sala por um instante, Yugao parecia perdida em pensamentos, olhando para as árvores através das portas de papel de arroz abertas, enquanto Zabuza pensava em algo pra dizer. Ele nunca teve chance, quando ia abrir a boca, passos pesados ecoaram no corredor, até ele.

-Ele já acordou?

Tazuna apareceu na sala, vestido com uma armadura de madeira e uma espada de bambu, junto com um capacete típico de antigos samurais. Apesar da expressão furiosa, seus olhos estavam meio grogues, e o cheiro de sake barato encheu a sala quando ele falou:

-Você não parece mais tão... – ele conteve um soluço – valente agora não?! Senhor Ninja... Sem sobrancelhas... Venha me enfrentar agora, seu...

Zabuza olhou aquilo com uma gota enorme na cabeça, Yugao apenas riu divertida, enquanto Tsunami aparecia correndo do corredor, e arrastava seu pai de volta para o quarto, brigando com ele por ficar exibindo seus brinquedos para os outros.

-Isso foi estranho – o nukennin disse consigo mesmo, depois se voltou para a kunoiche – Apesar de tudo, o que pretendem fazer comigo quando me curar? Eu ainda posso tentar matar o velho...

-Ah, não acredito que você faça isso – ela sorriu – Naru-chan me disse que tem uma proposta pra você. Assim que ele e Haku voltarem, você pode pedir-lhe sobre ela, eu também não sei o que é, por algum motivo ele não me contou...

-Assim que ele e Haku... onde eles estão?

-Haku foi colher ervas pra cuidar de você, Naru-chan foi com ele...

-Entendo...

-É essa aqui Haku?

-Hai – ele estendeu o cesto, e eu deixou a erva cair dentro dele – Arigato...

-De nada – sorri de volta.

Durante a maior parte da manhã, isso foi tudo o que conversamos, a cada vez que eu achava uma nova planta que ele queria, com quase as mesmas palavras. Apesar do silêncio tenso e educado dele, eu podia sentir que estava olhando pra mim, sempre que eu fingia estar distraído com alguma flor em especial. Os olhos curiosos, enquanto ele vasculhava na memória lembranças que explicassem aquela estranha sensação...

Ele não acharia. As memórias dele estavam seladas, firmemente presas atrás de um contrato. Outro contrato. Me surpreendi que aquele imbecil conseguisse, pela segunda vez, perder o próprio nome.

Haku estava quase idêntico da última vez que o tinha encontrado, alguns séculos atrás. Foi num tempo onde eu vivia na casa de uma velha senhora, como sua única filha. Um dia eu senti uma presença desconhecida num rio perto da fazenda, e pra descobrir o que era, fingi cair nele. Haku me salvou, e então eu passei a visita-lo, quase todos os dias. Nos tornamos amigos desde então.

Quase rindo da expressão boba que com certeza ele faria, eu perguntei:

-Então... seu nome é Haku não?

-Hai...

-Tem certeza?

Ele pareceu confuso, apesar da face ser diferente, e dos cabelos estarem mais compridos, os olhos eram exatamente os mesmos. Muito brilhantes, muito mais brilhantes que olhos humanos podiam ser.

-Hai...

-Você é um idiota...

Ele pareceu educadamente surpreendido, mas pude notar que estava se preparando pra se defender caso eu o atacasse, as senbons escondidas pela manga do seu quimono.

-Naruto-san?

-Do que você me chamou?

Ele pareceu mais confuso ainda.

-Diga meu nome.

-Naru...

-Diga meu nome Haku.

-Seu nome é...

-Diga meu nome Haku – foquei em seus olhos, enquanto os meus passavam do azul-céu para um vermelho profundo como rubi – Você sabe, me diga...

Ele não respondeu, parecia hipnotizado.

-Diga meu nome... Kohaku.

Seus olhos se arregalaram, e então, como se fosse feito de cristal, sua pele se desmanchou em pétalas espelhadas, que subiram aos céus e se reagruparam num outro corpo. Um corpo branco e peludo, comprido, com uma cauda enorme e bigodes compridos. A juba verde-grama acompanhando todo o contorno serpentino do seu corpo, até chegar na sua cabeça, onde olhos verde água brilharam em reconhecimento.

O rugido do Deus Dragão dos rios, Nigihayami Kohaku Nishi, ecoou como uma trovoada pela floresta.

-Chihiro...

Fiquei observando enquanto ele pousou na clareira, o corpo meio desajeitado pela falta de uso. Haku observou as próprias patas, e balançou a cabeça, agitando os bigodes compridos conforme as memórias vinham. Memórias dele nadando através dos rios, de socorrer uma garotinha que acabou por ser uma raposa, e de fazer amizade com ela. Como ela o salvou quando perdeu o próprio nome depois de ser enganado por uma bruxa de fora do continente, e agora novamente...

-Chihiro... – ele murmurou, a bocarra cheia de presas se arreganhando num sorriso – Chihiro, é você...

Acertei um soco na cabeça peluda dele.

-Yata... – ele rugiu – O que foi que eu fiz?

-Idiota! – ele se encolheu, mesmo sendo umas dez vezes maior que eu – Como conseguiu perder seu nome outra vez?!

Dei de ombros, e cai sentado na grama. Ele ficou em silêncio por um tempo, depois se aproximou lentamente de mim, até que eu senti o focinho dele roçando meu rosto. Sorri e o afaguei, enquanto ele se deitava e apoiava a cabeça no meu colo.

-Obrigado... de novo, Chihiro...

-Baka... me chame de Naruto – ri – Eu sou um garoto agora.

-Eu vejo... – ele fechou os olhos, quase ronronando enquanto eu acariciava a pelugem verde comprida do seu dorso – Você parece uma menina...

-Orusai...

Ele riu devagarinho, então se levantou e voltou a forma humana, com a mesma aparência e mesma roupas de antes, exceto que seu rosto agora tinha um ar mais... maduro.

-Nós deveríamos voltar.

-É, Zabuza já deve ter acordado...

Ele pareceu pensativo, os olhos subindo até o céu de se focando nas nuvens. Começando pela cauda, seu corpo se desfez novamente em pétalas de cristal que refletiam a luz e cintilavam, criando mil arco irís em volta do seu corpo, embora seus olhos permanecessem idênticos e parados. Seu corpo primeiro voltou a forma no qual eu o conheci, um pouco mais baixo, com os cabelos curtos e as feições mais masculinas, o robe branco e azul que ele usava. Ele olhou pras próprias mãos por um momento, até que elas novamente se desfizeram e tomassem a forma do seu “Eu” atual, os cabelos compridos e as feições mais suaves e gentis.

-O que vamos fazer agora...?

-O que quer fazer agora?

-O que eu... – ele pareceu perdido – Eu não sei...

Ri com gosto, e ele corou enquanto olhava pra mim.

-Pra um Deus, você é muito bobo – ele corou mais ainda, e desviou o olhar – Você só tem que fazer o que quiser. Se me ouvisse, não teria perdido seu nome de novo, idiota...

-Eu quero... ficar com Zabuza-sama, mas... – ele pareceu perdido – Eu também queria continuar com você...

-Então faça isso.

-Como?

Dei de ombro e me levantei, tirando o pó das calças e ajeitando o quimono no corpo.

-Por que não damos um passeio? Faz um bom tempo desde que voamos pela última vez...

Ele sorriu, então seu corpo mudou e ele rugiu. No céu, as nuvens se afastaram, como se ouvissem seu comando e se curvasse, abrindo passagem, enquanto o Dragão dos Rios serpenteava pelo ar, comigo nas costas. Fechei os olhos, aquela sensação ainda era tão boa quanto eu me lembrava.

Yugao e Tsunami estavam ocupadas lavando a louça, conversando uma com a outra quando um estrondo soou do jardim. Em um segundo, a ANBU de cabelos roxos já tinha tomado uma kunai nas mãos, e passou pelos cômodos correndo, pronta pra qualquer ataque que pudesse estar acontecendo, mas tudo o que ela viu foi Haku e Naruto, caídos no jardim e rindo como idiotas.

-O que... – ela olhou de um pra outro – O que houve?

Haku se voltou pra ela com um sorriso, e os olhos pareceram ainda mais brilhantes do que ela se lembrava de ter visto na ponte. Todo seu rosto parecia diferente também, apesar de ser o mesmo em muitos aspectos. Ainda mantinha as feições gentis, mas tinha um ar... estranho nele. Enquanto ele se levantava, rindo com Naruto ao seu lado.

-Gomen-nasai, Yugao-dono – ele se curvou respeituosamente – Nós... bem...

-Caímos – Naruto completou, com um sorriso tranquilo.

-Vocês... caíram?

-Hai – ambos responderam juntos, então olharam um pro outro e riram.

Yugao suspirou, sem entender nada. Primeiro eles saem de casa como completos desconhecidos, e quando voltam, parecem os melhores amigos do mundo. O que diabos tinha sido aquela pancada também?! Parecia que uma vaca tinha caído direto dos céus... ou talvez alguma outra coisa?

Dando de ombros, ela se virou e voltou pra cozinha, reclamando sobre crianças e suas travessuras. Naruto deu um soco no braço de Haku.

-Pouse direito da próxima vez, idiota!

-Orusai, faz trezentos anos que eu não faço isso...

-Hai Hai... – ele pegou a cesta e arrumou as ervas que tinham se espalhado pela grama – Vamos, você tem que cuidar de Zabuza...

Zabuza, que até então estava inutilmente largado no chão, sem conseguir se mexer, se assustou com o barulho e tentou se levantar pra ver o que era. Isso apenas fez com que seus músculos rangessem de dor, e ele mordesse a língua pra não gritar. Já era ruim o bastante estar naquela situação, sendo tratado pelos shinobis que o derrotaram, ele não precisava dar mais razões pra ser ainda mais humilhado.

Haku e Naruto entraram logo em seguida na sala, e enquanto seu aprendiz se curvava ao lado dele, e começava a desfazer as ataduras no seu rosto, ele olhou fixamente para o ruivo.

-A ANBU disse que você tinha uma proposta pra mim, diga logo o que...

Ele não terminou o que ia dizer, Haku levantou sua cabeça e enfiou um punhado de ervas dentro da boca dele, segurando firmemente seu queixo pra que ele não engasgasse.

-Mastigue isso, Zabuza-sama, vai diminuir a dormência...

Ele tentou cuspir tudo, mas era impossível com o garoto lhe travando o maxilar, então ele teve que se conformar e mastigar lentamente o punhado de ervas com gosto horrível. Pelo lado bom, quando mais suco descia pela sua garganta, mais seus músculos pareciam ficar rígidos. Ele tentou mover os dedos, e conseguiu, o resto do braço doía, no entanto.

-Eu vou preparar o resto delas pro Senhor ficar bom rápido – Haku disse com um sorriso gentil – Até lá por que não escuta a proposta de Chi... Naruto-kun?! Não sei o que é, mas deve ser algo vantajoso pra nós...

O espadachim da névoa o fuzilou com os olhos, mas ganhou apenas um sorriso tranquilo em troca. Assim que ele saiu da sala, com a cesta de ervas, Zabuza se voltou pra Naruto.

-O que você fez com ele?

-O que quer dizer...?

-Ele esta... diferente...

-A vida muda as pessoas...

-Mas isso leva mais que um dia! – Zabuza gritou, em seguida se contorceu de dor de garganta, o rosto ficando azul e roxo enquanto ele respirava com dificuldade cômica – Que diabos de proposta você tem pra mim pirralha?

Naruto suspirou:

-Você é um nukennin por tentar assassinar o Yondaime-Mizukage não?

-Exatamente...

-Por que tentou fazer isso?

A expressão de Zabuza passou de irritada a silenciosa em um momento, enquanto ele mirava o teto. Com os olhos pensativos daquela forma, ele parecia quase como Kakashi, um jounnin de uma vila ninja, em vez de um nukennin assassino terrível...

-É complicado...

-Diga logo – Naruto bufou – Eu não sou idiota...

-Com certeza é...

-Orusai...

-Bem, respondendo sua pergunta – ele tentou se sentar, mas os músculos do pescoço pareciam ser a única coisa que se moviam. Naruto se levantou e caminhou até ele, o arrasntando com o fuuton até a parede, e o apoiando com cuidado nela, pra se sentar ao seu lado – o Yondaime atual do país da névoa é chamado de Yagura, ele é um jinchuuriki. Caso não saiba o que é isso, jinchuurikis são...

-Pessoas que tem bijuus selados dentre deles. Numa tradução literal, seria “Pilar humano”, ou “Sacrifício humano”.

-Exatamente.

-Qual é o bijuu dele?

-A tartaruga das três caudas, Sanbi no kappa.

“Sanbi ne...” – Naruto pensou – “Isso não faz muito sentido, Sanbi não odeia especificamente humanos, ele apenas não gosta de se misturar com eles...”

-Então você o odeia por ser um demônio...

-Não diga bobagens garoto! – Zabuza gritou, só pra engasgar de novo, se agitando de um lado pro outro. Naruto riu – Jinchuurikis não são demônios, são apenas pessoas que tem demônios selados dentro deles!

“Interessante” – Naruto sorriu.

-Então por que quer mata-lo?

-Yagura... já foi o meu melhor amigo – Zabuza disse, a expressão ficando triste de uma hora pra outra – Quando me tornei jounnin, ele era um simples chunnin novato, mas era muito talentoso. Estavamos no fim da terceira guerra mundial, e por isso, várias promoções de emergência foram feitas. Em tempos de guerra, não precisamos de exames ou coisas do tipo pra subir de posto. Os mais fortes e preparados recebem postos de liderança sobre os demais, e foi isso que aconteceu com Yagura. Ele era muito forte, como todo jinchuuriki que controla seu bijuu, era um monstro, quase como você...

“Exatamente como eu...”.

-Com o Mizukage morto, ele foi eleito imediatamente, apesar de ser muito jovem, foi o Kage mais jovem de toda a história, desde a criação das vilas ninjas. Ele reuniu todos os shinobis que dispunham de kekkei gekai, e os comandou na linha de frente da batalha. Yagura era um grande estrategista, e graças a isso, muitas vidas foram salvas nas batalhas. A terceira guerra chegou ao fim, e várias alianças foram feitas. Todas as vilas estavam debilitadas, por isso todos queríamos evitar conflitos. A esse ponto, eu era parte do esquadrão de assassinato, e trabalhava sob ordens diretas dele. Por isso, vi mais de perto do que qualquer um como ele enlouqueceu...

-Entendo, ele começou o expurgo de shinobis com Kekkei gekai.

-Sim, ninguém entendeu exatamente por ele fez isso – Zabuza parecia arrasado – De uma hora pra outra, ele passou de um garoto gentil pra um tirano que comandava com mãos de ferro. Ele ordenou que todos os shinobis com kekkei gekai se apresentassem a ele, e pessoalmente matou vários. Muitos fugiram, mas foram imediatamente caçados. O conselho aprovou essa reforma, e os civis aplaudiram suas ações, eram tempos de paz, e aqueles ninjas assustadores com habilidades especiais eram um lembrete constante da guerra pra eles.

-Você o ajudou?

-Eu... sim – ele disse, abaixando a cabeça com vergonha – Apesar de não entender o que estava acontecendo, a um primeiro momento, cumpri suas ordens, mas... Eu era muito próximo a ele, meu posto exigia isso, e por sermos amigos, eu notei exatamente como ele mudou. Eu podia ver nos olhos dele, aquele garoto não era o Yagura que eu conheci. Yagura era um pacifista, ele comandava seus shinobis pessoalmente em campo de batalha, tentava poupar tantas vidas quanto fosse necessário, depois, de uma hora pra outra, se tornou um monstro que chacinou pessoalmente vários dos seus mais fiéis shinobis...

-Então você tentou mata-lo?

-Sim, mas era impossível. Yagura era muito acima do meu nível de habilidades. A Névoa sofreu com a guerra civil, e os moradores exigiram o sangue de shinobis com linhagens sanguíneas avançadas, como se eles fossem os únicos culpados. Hoje, a líder dos rebeldes é uma mulher chamada Mei, ela é tão jovem quanto Yagura, e era apenas uma chunnin quando a guerra terminou, mas é muito habilidosa... Mas por que diabos esta me perguntando isso? Vai me ajudar a matar Yagura por acaso?

-Sim.

-Claro que não, você... vai... – Zabuza arregalou os olhos numa expressão tão idiota que não consegui segurar o riso – Você o que?

-Vou te ajudar – disse – Você provou um gosto das minhas habilidades lá na floresta, acha que eu poderia ser útil?

Zabuza parecer lutar com seus pensamentos por um longo tempo. Ele olhou pra mim, depois pro chão, depois pras paredes, e de volta pra mim.

-O que você ganharia me ajudando?

-Só peço uma coisa – Ele assentiu pra mim continuar – Vou te ajudar da melhor maneira que puder a lutar contra Yagura, mas não vou mata-lo, isso é com você. Se conseguirmos cumprir seus objetivos... Quero que Haku volte pra Konoha comigo.

-Haku... – ele murmurou sem entender, então seus olhos brilharam de malícia – Entendo... Você se apaixonou por ele.

-Orusai... – senti as bochechas ficando vermelhas enquanto ele ria, pra depois ter outro acesso de tosse – Veja isso como uma prova de uma aliança Ok? Konoha e Névoa.

Estendi a mão aberta, e ele durante um longo tempo olhou pra ela.

-Você é um garoto extremamente arrogante – ele riu – Fazendo uma aliança dessa classe com um nukennin, sem o consentimento de seus superiores, pra participar de uma guerra em uma aldeia que não é sua aliada, e isso sendo apenas um gennin. Garoto, eu gostei de você.

Ele apertou e sacudiu a minha mão. Como se fosse uma senha, Haku entrou logo em seguida, acompanhada de Yugao, com as ervas compreensadas numa pasta verde fedorenta.

-Ora, o que aconteceu aqui?

-O garoto aqui propôs um trato pra mim – Zabuza disse, contendo uma risada – Ele vai me ajudar a matar o Mizukage, formar uma aliança entre a aldeia da névoa e folha, e Haku vai ser um shinobi de Konoha se sairmos vivo dessa.

Yugao deixou as bandagens que carregava cair no chão, olhando de Zabuza pra mim com a o queixo caído e os olhos do tamanho de píres de tão arregalados. Sem conseguir se conter, Zabuza teve outro ataque de riso, enquanto eu apenas sorri o mais gentilmente que pude.

Haku apenas sorriu, rindo baixinho. Me conhecendo tão bem como ele me conhecia, aquilo era uma excelente amostra de o quão cara de pau eu podia ser.

-Naruto... você – Yugao lutou contra as palavras, então se deixou cair numa cadeira – Você é completamente louco... Isso vai custar minha patente com certeza...

-Yu-chan, você não precisa...

-Orusai! – ela apontou o dedo direto no meu nariz, me fuzilando com os olhos, enquanto me agarrava pelo quimono com a outra mão, tão zangada que pensei que fosse me bater – Você espera se meter numa coisa desse tipo sozinho?! Acha que eu não vou com você... Droga, você é tão problemático...

Ri comigo mesmo, enquanto a abraçava. Ela amoleceu imediatamente.

-Obrigado por vir comigo Yu-chan, não se preocupe, eu vou te proteger de qualquer coisa...

-Você ouviu Haku? – Zabuza disse, com um sorriso louco na cara – Estamos voltando pra Névoa assim que eu me curar, dessa vez não vou falhar de nenhuma forma!

-Hai Hai, agora tome seu remédio, Zabuza-sama...

-O que? Não... – ele engasgou enquanto ele enfiava a pasta horrível pela sua garganta, e puxava sua cabeça pra cima com violência pra ele engolir – Odeio seus remédios...

-Eles vão te fazer sarar logo...

-Não fale comigo como se fosse uma criança!

-Hai, Hai, gomen-ne...

Acabei rindo da situação, Zabuza fuzilando um Haku sorridente com os olhos, enquanto Yugao parecia perdida em pensamentos, reclamando sobre o quão problemático era ter um irmãozinho inconsequente como eu. Isso até que algo me veio a cabeça.

-Haku, quanto tempo vai levar pra Zabuza se curar?

Ele pareceu pensar:

-Alguns dias, uma semana no máximo, por que?

Apontei pra minha cintura, ambas as espadas descansando nela;

-Não posso lutar com essa espada de madeira, então tenho que arrumar uma verdadeira. Você me ajudaria? Yugao pode ficar tomando conta de Zabuza...

-Oe, onde você pensa que vai? – ela disse – Não tem como encontrar uma espada por aqui...

-Tenho certeza que vou encontrar uma se procurar bastante – dei o sorriso meia inocente que consegui, e ela estreitou os olhos – Não se preocupe, só vai levar um dia ou dois, Haku vai estar comigo então não tem que se preocupar...

Haku, que parecia confuso até então, arregalou os olhos em compreensão súbita. Então assentiu e se voltou pra Yugao:

-Não se preocupe, tem remédio o bastante pra durar dois dias, e Zabuza-sama vai se curar rápido. Vamos ter retornado até amanhã a noite, no máximo...

-Mas como diabos vocês vão encontrar uma espada...

-Só temos que procurar bastante. Deve ter uma em algum lugar por aqui...

Ele jogou os braços pra trás, caindo deitada no soalho.

-Eu desisto, vocês são loucos, podem ir, mas voltem até amanhã, no máximo, ou vou atrás de vocês.

-Hai.

Haku e eu sorrimos um para o outro, ia ser divertido. Antes que eles pudessem dizer qualquer coisa, pulei da cadeira e sai arrastando ele comigo pelo jardim.

-Espere, Naru-chan! – Yugao gritou – O que vão comer?

-Eu tenho bentos! – gritei de volta, em seguida pulei para as árvores, com Haku logo atrás de mim.

Yugao deixou os ombros caírem, enquanto olhava pra Zabuza amargurada.

-Esses garotos problemáticos...

-Nem me fale...

-Você espera entende-los...

-Mas eles sempre deixam você no escuro – ele concorou.

-Imagine quando entrarem na adolescência...

Ambos tremeram ao mesmo tempo, e então suspiraram juntos.

-Crianças... – eles disseram ao mesmo tempo, cada um perdido em seus próprios pensamentos.

Assim que estávamos razoavelmente longe da casa de Tazuna, Haku pulou direto para o meu lado.

-Você esta indo buscar... Aquela katana?

-Sim... – sorri – Eu te contei sobre ela, não?

-Contou, a espada que você fez para o seu filho... Nunca entendi por que ela tinha uma lamina ao contrário.

-Sakabatou, é uma espada que não tira vidas. A lamina é ao contrário por causa disso. É a tentação de sempre usa-la, só virar a espada, e você tinha uma lamina mais afiada que qualquer outra. Fiz dessa forma pra testar o espírito de Kenshin...

-Você tem filhos estranhos...

Ri, concordando. Em um passe de mágica, Haku era novamente um dragão, contornando os galhos como uma serpente, voando ao meu lado.

-Suba – ele disse, a voz muito mais grave do que em sua forma humana – Posso chegar lá cinquenta vezes mais rápido do que se formos a pé.

Sem responder, pulei direto pra cabeça dele, agarrando os chifres e abraçando seu pescoço. Ele serpenteou pelo ar, e disparou pra cima, varrendo as nuvens do caminho, enquanto deslizava pelas correntes de ar como se fosse água.

Kurenai acenou ao que o barqueiro dizia, enquanto olhava a ponte inacabada do país. Kiba estava prestes a gritar qualquer coisa, mas Shino segurou sua boca e fez sinal pra ele fazer silêncio, enquanto Hinata ria baixinho das palhaçadas dos seus companheiros de time.

-É estranho, estamos tendo muitos shinobis nos visitando atualmente...

-Você se lembra dos outros dois que vieram pra cá alguns dias atrás?

-Sim, é raro ver shinobis nesse pequeno país, então me lembro bem deles. Eram duas garotas, se eu me lembro, uma com cabelos roxos e outra ruiva com um rabo de cavalo, as duas eram muito bonitas...

Kiba riu:

-O com rabo de cavalo era um garoto...

O barqueiro pareceu perplexo.

-Não se preocupe, eu também demorei um bom tempo pra acreditar nisso...

-Bem, não importa relmente – ele deu de ombros, parando de remar assim que avistou a praia – Se não se importam, e só vou ir até aqui. Dizem que a estrada esta guardada por vários guardas de Gathou, e não quero arrumar problemas pra mim e pra minha família...

-Tudo bem, podemos continuar daqui por nós mesmos, muito obrigado.

-É o mínimo que eu posso fazer pra ajudar – ele deu um sorriso, abaixando levemente o chapéu cônico de palha frente aos olhos – Eu não sei dizer onde seus amigos estão, mas Tazuna deve saber, a casa dele fica na costa, uns dois quilômetros seguindo a trilha.

-Obrigado.

Kurenai pulou imediatamente para a água, correndo pela sua sua superfície com Kiba nas costas. Shino e Hinata, que já tinham um controle melhor de chakra vieram logo atrás, e apesar de um pouco contrariado, o garoto não reclamou. A sensei tinha um cheiro muito bom...

“Tarado” – Akamaru latiu, deitado na touca do seu casado. Kiba apenas sorriu, sendo o único que o entendia.

-Eu estou ansioso pra ver os outros também, Akamaru.

O cachorro pequeno rosnou contrariado, mas acabou se arrumando ali.

A séculos atrás, o mundo era diferente de hoje em dia. A Era Shinobi ainda não tinha se disseminado, e os poucos ninjas que existiam serviam como assassinos particulares para os muitos Lordes Feudais, que brigavam entre si constantemente por pedaços de terra. Cem anos depois do Bakumatsu, o grande banho de sangue que mudou o rumo do mundo mais uma vez, eu estava morto...

Isso é, Seijiro Hiko, o oleiro humilde que também era um Sábio das Espadas, guardião do Estilo Hiten Mitsurugi estava morto. Eu tinha passado quase cento e cinquenta anos andando por aí com aquele nome, só pra ver o mundo pelos olhos de um homem que pode mudar o rumo dos ventos. Foi muito divertido enquanto treinei Kenshin, mas agora que ele estava morto, já não tinha mais graça. Eu precisava achar o que fazer...

A resposta acabou aparecendo bem rápido. Fazia tempo que eu era um macho, e já estava sentindo falta de ter um corpo feminino, eu me sentia mais confortável neles. Raposas demônio não tem sexo realmente, mas acabamos nos acostumando, ou nos identificando com um ou outro, no meu caso acabou por ser o lado feminino. Nada que fosse realmente importante. Estava no momento dentro do celeiro de uma fazenda, esperando as pessoas ali irem dormir, era fácil me esconder se ficasse na forma de uma raposa comum, então me enfiei debaixo da palha e esperei.

A noite caiu, e as estrelas apareceram enquanto eu observava. O silêncio dentro da casa era completo, estavam todos dormindo. Me sacudindo pra livrar meu pelo dos pedaços de palha, eu sai do seleiro, empurrando a porta com uma cauda e caminhando levemente pra dentro. O cheiro de sangue, apesar de ter sido limpo, ainda estava no ar, fraco demais pra mesmo os cachorros dali sentirem, mas claro pra mim.

Falando nos cachorros, agora tinha um monte avançando pra mim, três ou quatro cachorros de pelos escuros e meio desgrenhados. Não prestei atenção neles, nem mesmo enquanto os matava e incinerava seus corpos com fogo de raposa, que queimava tão rápido que não deixava nem o cheiro de carne tostada, nem dava tempo pra eles ganirem. Talvez no próximo dia tentassem encontra-los, mas nunca o achariam, eram pó e agora faziam parte da terra...

Avancei pela porta, a fechando silenciosamente e sentindo o soalho abaixo das minhas patas macias. Nem chegou a ranger, era fácil demais, tão fácil que não chegava a ser justo...

Mas demônios não tinham que serem justos, nem bons, por falar nisso...

Caminhei pela casa lentamente, não tinha por que correr. Conferi os quartos. Uma mulher dormindo na cama, com a cabeça recostada no peito de um homem. Ele não era muito bonito, parecia forte, mas tinha traços pesados e cansados. Sai daquele quarto. Havia mais duas senhoras na casa, uma provavelmente era a parteira, e suas mãos cheiravam a sangue, mesmo após serem lavadas. As farejei, tinha um cheiro estranho. Sangue de parto sempre é mais estranho que os outros...

Sai novamente daquele quarto, apenas uma sombra avermelhada que não fazia barulho nenhum. Como uma presença que trouxesse a morte em si... Era o que eu traria aquelas pessoas. Não conhecia nenhum deles, e não me importava, não mataria nenhum deles... Não... Meu alvo era a alma mais jovem e mais inocente ali naquele lugar. Um ponto de luz branca pura que não teria mesmo o tempo pra ser manchada pelas corrupções do mundo.

Talvez eu estivesse lhe fazendo um favor... Quem sabe. Não importava. Até pouco tempo atrás eu era um homem cuja espada mantinha a ordem das coisas. Uma espada pra proteger os fracos e eliminar os fortes, pra trazer o equilíbrio e salvar vidas e tirar vidas. Mas... Eu não era mais aquele homem. Como uma raposa, eu era apenas um monstro, essa era minha natureza.

Entrei no quarto, o berço simples feito de madeira estava bem no meio dele, iluminado diretamente pela luz da lua que entrava pela janela. Era quase mágico, como se o ser ali fosse um pequeno anjo num pedestal iluminado, cujo apenas sua presença parecia fazer as coisas ao redor ficarem mais escuras se comparadas a ele. Caminhei até lá, Nenhum barulho, nenhum cheiro. Me inclinei e saltei para o berço, a garotinha se mexeu. Ela tinha um cheiro característico de um bebe humano, como talco e baba, e suas bochechas eram coradinhas. A observei por um longo tempo, me abaixei e toquei sua testa com meu focinho. Ela bocejou, exibindo uma fileira de gengivas lisas, sem nenhuma presa. Mole, fraca e inocente.

Matei aquela criança apenas alguns minutos depois, e o fiz de forma tão perfeita que ela nem teve tempo de acordar. Não teve choro, não teve dor, não teve sangue, nem mesmo uma gota dele. Fui o mais rápida que podia, enquanto devorava o corpo daquele bebe de uma vez, sentindo os ossos fracos se quebrarem e a carne jovem com gosto pastoso descendo pela minha garganta. Não levou nem mesmo um minuto, e agora eu estava deitada no lugar dela, enrolada naquele mesmo manto que ela usava, com um novo nome e uma nova vida.

O nome daquele bebê... Chihiro... Era um nome adequado pra uma criança, um milhão de perguntas, como um milhão de estrelas no céu, como um milhão de grãos de areia na praia. Era simples e bonito, e passava bem a essência do que era ser humano.

Chihiro...

-Chihiro?

Chihiro...

-Oe, acorde, Chihiro!

Acordei com um tremor que cruzou a minha espinha, minha garganta seca e o gosto de sangue na boca. Tentei olhar em volta para o que estava acontecendo, e vi as árvores passando depressa enquanto Kohaku despencava pelo céu, passando por rios e montanhas, estranhas montanhas perfeitamente lineadas pela chuva, que formavam uma barreira natural em volta daquele lugar...

-Kohaku...

-Você esta bem? – ele perguntou, a voz grave e profunda como um Dragão, tão diferente da sua voz humana – Você dormiu e não acordava de jeito nenhum, Chihiro...

-Naruto... Me chame de Naruto...

-Eee...

-Você se lembra de quando nos conhecemos, Haku?

-Sim, no momento pensei que você tinha caído e estava se afogando – ele disse com uma risada – Mas depois você me contou que estava apenas fingindo, que tinha me sentido ali embaixo e estava curiosa...

-Foi isso mesmo... – deitei o rosto na pelugem suave das suas costas, enquanto ele serpenteava pelo ar suavemente. Soltei os braços, sentindo o vento no meu rosto, atirando os cabelos vermelhos pra trás, como um chicote – Depois você vendeu seu próprio nome pra aquela bruxa das terras do Leste...

Ele resmungou algo, meio envergonhado.

-Então tive que ir pra lá te salvar... Depois... O que aconteceu?

Ele corou num tom bem profundo de vermelho, enquanto eu apenas ri.

-Você é muito bobo pra ser um Deus, e é muito fofo pra ser um Dragão... Você devia sentir vergonha...

-Hai, hai – ele resmungou, ainda vermelho, e inclinou o corpo pra baixo. Segurei nos seus chifres enquanto ele disparava pro chão quase em linha reta, fazendo meu corpo se soltar do dele, seguro apenas pelo aperto nas suas galhadas – Chegamos...

Pulei para o chão enquanto ajeitava o quimono nos ombros e as espadas na faixa da cintura. Tudo estava... diferente.

A vila do turbilhão, construída num vale entre uma cadeia de montanhas estava em ruínas. A maioria das casas estava meio queimada e com paredes caídas, as ruas sujas e cobertas de entulho. Haku deslizou pelo ar, ainda como um dragão, observando as coisas de cima.

Eu quase podia ver, se fechasse os olhos. As crianças ruivas correndo de lá pra cá pela rua, brincando e empinando papagaios, as mães varrendo as calçadas na frente das casas, conversando com as vizinhas, enquanto os shinobis pulavam sobre os telhados pintados de vermelho. Sempre tinha achado aquilo engraçado, tudo era ruivo naquele lugar, a cabeça das pessoas, as cabeças das casas...

Me ajoelhei ao lado de uma, levantando um pedaço da parede e pegando algo que estava sujo de terra. Uma boneca de pano, com um vestidinho amarelo rasgado, e botões no lugar dos olhos...

“Corram, todos! Protejam as crianças, levem-nas para o abrigo nas montanhas!”

Alisei o os fios negros da cabeça dela, os bracinhos costurados e um sorriso no rosto dela. Mesmo estando morta, como tudo ali, ele ainda parecia muito gentil...

“Coordene os Shinobis rápido, Uzukage-sama foi assassino, nós estamos sendo atacados! Tragam os jounnin para a linha de frente, e os especialistas em selos trabalhem nas proteções de todos! Agora! Rápido!”

Abracei aquela pequena boneca de pano, ajoelhado no chão e com os cabelos caindo como uma cascata em volta do meu rosto. Lembranças de Kenhin, Kaoru e as crianças que viviam com eles. Dele cozinhando e brincando com as duas. Dos seus filhos, seus netos e seus bisnetos. Dos filhos e netos e bisnetos dos seus bisnetos. Do povo que se juntou ali, e assistiu os dias passarem, enquanto as montanhas que se desgastavam observavam a mudança das eras, a mudança das gerações.

“Não percam tempo, nós fomos traídos! Retirem todos daqui! Nós fomos derrotados!”

Haku tocou no meu ombro, e eu levantei os olhos pra olhar pra ele. Por algum motivo, meus olhos estavam cheios de lágrimas, e elas escorriam pelo meu rosto e pingavam naquela pequena boneca, que se manteve sorridente aquele tempo todo, escondida debaixo das ruínas de lembranças antigas. Ele sorriu tristemente, e apontou. O segui com o olhar.

Na entrada da vila, tinha uma árvore. Uma árvore seca e retorcida, onde a mais de oitocentos anos atrás, Kenshin tinha discutido comigo. Onde ele tinha deixado de ser o meu aprendiz, onde tínhamos cravados nossas espadas.

Elas ainda estavam lá, protegidas do tempo pela Kekkai que eu tinha criado antes de queimar minha cabana e sair dali pra nunca mais voltar. Aquela kekkai que começou tudo. A barreira de energia espiritual que foi admirada pelos descendentes de Kenshin e pelos refugiados do bakumatsu que tinham feita daquele vale entre as montanhas, o seu lar. Estudando aquela barreira, tão simples, o clã Uzumaki criou todos os selamentos que os tornaram famosos pelo continente, e temidos mesmo além das terras elementares. Aquela barreira ergueu o seu clã, e foi a causa da sua ruína também...

“Selem todas as técnicas, destruam a biblioteca! Não deixem o inimigo pegar nada, não os deixem lucrar com a nossa derrota! Vocês ouviram meninas?! Nós vamos todos morrer essa noite, mas vamos morrer como homens! Matem todos os traidores que conseguirem, levem-nos conosco para o inferno, onde mesmo os demônios irão se curvar a nossa passagem! Façam o mundo entender por que o nome Uzumaki deve ser temido, façam-nos lembrar quem somos, e faça-os amaldiçoarem o dia que resolveram nos trair! Matem todos os Uchihas e Senjus que conseguirem!”

Caminhei lentamente até o abeto onde as espadas estavam cravadas, e me ajoelhei diante deles. Com um toque, a kekkai ondulou e um pequeno círculo se formou nela. Coloquei a boneca ali dentro, descansando de encontro com a árvore, imortalizada. Conforme retirei a mão, ela se fechou novamente, e com uma última ondulação, desapareceu no ar.

-Olhe, Chihiro... Tem uma inscrição...

Segui Haku com os olhos, ela estava apontando para uma parte em elevado da árvore, onde letras estavam rabiscadas na madeira.

“O tempo é apenas uma ilusão. Nós, seres humanos, somos fadados as suas mudanças, como folhas que correm ao vento, sem saber pra onde vão. Nenhuma glória é eterna, e mesmo que venhamos a desaparecer da Terra algum dia, ficarão guardados todos os momentos em que vivemos, todas as alegrias e tristezas. Enquanto um único Uzumaki viver, todos estaremos com ele... – Uzumaki Hiroko, Nidaime Uzukage”

-Abençoados sejam os seres humanos – eu murmurei comigo mesmo – Em sua ingenuidade, eles são mais puros e sábios que todos os Deuses...

Haku sorriu, segurando meu ombro sem dizer nada, apenas dando a entender que estava lá comigo, Apertei sua mão, grato pela companhia dele.

-Vamos, temos mais um túmulo pra visitar...

Notas finais
É isso aí, não esqueçam de comentar e favoritar a história, assim vocês já sabem automaticamente quando um novo capítulo for lançado. Pras almas caridosas, por favor, recomendem a história em recomendações, e indiquem pros amigos. Isso da uma força legal na hora de botar o projeto pra andar.
Ps. Eu não me lembro quando postei o capítulo quatro, espero realmente que não tenha sido a muito tempo, ou a pouco tempo, é meio estranho não lembrar dessas coias, enfim...